Abelardo da Hora

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Abelardo da Hora
Abelardo da Hora recebendo a Ordem do Mérito Cultural em 2012.
Nome completo Abelardo Germano da Hora
Nascimento 31 de julho de 1924
São Lourenço da Mata, Pernambuco
Morte 23 de setembro de 2014 (90 anos)
Recife, Pernambuco
Nacionalidade  brasileiro
Área Escultura
Gravura
Cerâmica
Desenho

Abelardo Germano da Hora (São Lourenço da Mata, 31 de julho de 1924Recife, 23 de setembro de 2014) foi um artista plástico, professor e poeta brasileiro.[1] Escultor, desenhista, gravurista e ceramista, era irmão do intérprete de Frevo Claudionor Germano.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Sua formação consistiu nos seguintes cursos: Artes Decorativas no Colégio Industrial Prof. Agamenon Magalhães, Curso Livre de Escultura na Escola de Belas Artes de Pernambuco e Curso de Bacharelado em Direito na Faculdade de Direito de Olinda.

Em 1943, à frente do Diretório Acadêmico de Belas Artes, foi contratado pela Cerâmica Artista Brennand, construindo vários trabalhos em cerâmica, jarros florais e pratos onde fica até 1945, quando foi ao Rio de Janeiro para inscrever-se no Salão Nacional de Belas Artes.

Em 1946, voltou para Recife e passou todo o ano de 1947 preparando sua primeira exposição de esculturas, que foi realizada em abril de 1948 na Associação dos Empregados do Comércio de Pernambuco. Criou a Sociedade de Arte Moderna da Recife, juntamente com o arquiteto Hélio Feijó, na abertura de sua primeira exposição, sendo presidente da SAMR por dez anos. Ganhou o Primeiro Prêmio de Escultura nos III e IV Salões de Arte Moderna, em 1940 e 1950, respectivamente. Nesse período, casou-se com Margarida Lucena em 1948, com quem teve sete filhos: Lenora (1949), Sandra (1950), Lêda (1952), Ana (1954), Sara (1955), Abelardo Filho (1959) e Iuri (1961).

Elaborou, entre 1955 e 1956, a pedido da Prefeitura do Recife, esculturas de tipos populares inspirados na cerâmica popular que estão em praças da cidade: Os Violeiros e o Vendedor de Caldo-de-Cana, no Parque 13 de Maio; O Sertanejo, na Praça Euclides da Cunha, em frente ao Clube Internacional; e o Vendedor de Pirulitos, no horto florestal de Dois Irmãos.

Foi eleito delegado de Pernambuco na Seção Brasileira da Associação Internacional de Artes Plásticas, da Unesco, em 1956. Durante os anos de 1957 e 1958 expôs em vários países da Europa, na Mongólia, na Argentina, em Israel, na antiga União Soviética, na China e nos Estados Unidos. Lançou, em 1962, o álbum de desenhos Meninos do Recife e em 1967, a coleção de desenhos Danças brasileiras de carnaval, na Galeria Mirante das Artes, em São Paulo. Foi também um dos idealizadores do Movimento de Cultura Popular (MCP), na gestão do então prefeito do Recife, Miguel Arraes. Como um dos diretores do MCP construiu e dirigiu a Galeria de Arte, às margens do Capibaribe, o Centro de Artes Plásticas e Artesanato e as Praças de Cultura, no Recife.

Morte[editar | editar código-fonte]

Abelardo da Hora faleceu na manhã do dia 23 de setembro de 2014 no Hospital Memorial São José, no Recife, aos 90 anos de idade, vítima de insuficiência cardiorrespiratória.[1]

Obra[editar | editar código-fonte]

Memorial aos retirantes, no Parque Dona Lindu, Recife, concebido por Abelardo da Hora.

Abelardo da Hora, a partir da década de 1940, realiza gravuras com temática social, onde se nota a influência da obra de Cândido Portinari.[2] Já nos anos 1950 afasta-se de qualquer referência ou influência anterior e começa a construir um estilo próprio e inconfundível, que será sua marca para sempre. Nos anos 1960, no álbum de desenhos Meninos do Recife, denuncia a miséria por meio da representação de crianças esquálidas, reafirmando sua afinidade com o Realismo e o Expressionismo, presentes na sua primeira exposição. A mesma temática social é revelada em suas esculturas, realizadas em bronze, mármore e principalmente em concreto, material eleito por seu caráter duro e áspero, que acrescenta um grau de sofrimento às figuras.

Ainda na década de 1960 sugere à Câmara Municipal do Recife projeto de Lei que obriga a existência de obras de arte em edificações com mais de 1500 m2 na cidade, tornando a capital pernambucana um grande centro de exposição ao ar livre, e se dedica paralelamente à política, através do Partido Comunista, no qual foi dirigente e pelo qual não chega a secretário de cultura das prefeituras de Pelópidas da Silveira e Miguel Arraes de Alencar. Nas artes, continua produzindo peças onde a temática social permanece, fato que estaria evidente em trabalhos bem posteriores, como em Desamparados e Água para o Morro (ambos de 1974).

A partir da década de 1970, época que teve seus direitos políticos cassados com o Golpe Militar, o artista começa a explorar com maior vigor aspectos da Natureza, com forte presença de elementos da fauna e da flora locais. Explora também aspectos de culturas populares distintas, como o sincretismo religioso do Candomblé, bem como a sensualidade, criando uma série de mulheres em concreto armado, encerado e polido intitulada de "mulher objeto de repouso". Voluptuosas, as mulheres esculpidas pelo artista nesta fase se caracterizam pelo seu traçado sinuoso e extrema originalidade nas soluções de volumetria e forma. O vigor expressionista do início da carreira ainda permanece no leve exagero das proporções de seios, mãos e coxas destas esculturas, trabalho que se estende fortemente até a década de 1990.

Em 1975, a pedido do então Prefeito da cidade de Sousa, no estado da Paraíba, Gilberto Sarmento construiu a primeira estatua em homenagem ao beato Frei Damião de Bozano, tendo o homenageado colocado a pedra fundamental e oficiado missa de inauguração em novembro de 1976. A estatua esta construída no serrote denominado Alto da Benção de Deus, e se constitui hoje num facho abençoado de luz, deixando todos que a contemplam mais próximos de Deus e de Nossa Senhora. E hoje é visitada por milhares de fieis.

Na década de 1990 dedica-se também, de volta, ao desenho e à pintura, especialmente com trabalhos em aguada de nanquim e acrílica

Abelardo da Hora possui importante papel na renovação do panorama artístico brasileiro, criando, em 1948, a Sociedade de Arte Moderna do Recife, com o propósito de criar um amplo movimento cultural, abrangendo as áreas de educação, cultura, artes plásticas, teatro e música. A partir desta associação, é criado em 1952 o Ateliê Coletivo, uma oficina que ministrava cursos de desenho, da qual participaram nomes representativos em Pernambuco, como Gilvan Samico (1928), José Cláudio (1932) e Aloísio Magalhães (1927-1982), entre outros. Estas atividades dão fruto para a criação do Movimento de Cultura Popular, em 1960, do qual Abelardo é um dos mentores, no governo Miguel Arraes. No cais da aurora, uma emblemática rua recifense de mesmo nome(rua da aurora), sobrepõem-se aos olhos de quem por lá passa o imponente monumento em homenagem ao frevo, esculturas em bronze em tamanho humano com passistas que parecem falar.

Em 2004 funda-se o Instituto Abelardo da Hora (http://www.iah.org.br), OSCIP registrada no Ministério da Justiça e no Ministério da Cultura, com o objetivo de preservar sua obra e manter o acervo do artista disponível ao público, além de promover a cultura a todas as camadas sociais, bandeira levada à frente pelo próprio Abelardo da Hora. Há muito Pernambuco em particular e o Brasil precisavam dar relevo a uma personalidade das mais destacadas no campo das artes plásticas. Mestre mestríssimo, como dizia Gilberto Freyre, de várias gerações de artistas ainda hoje, vivas e atuantes como ele, Abelardo faz sua arte, como ele próprio diz, “plena de amor e solidariedade”. O Instituto Abelardo da Hora - iAH, foi criado no ano das comemorações pelos 80 anos do escultor, com o intuito de catalogar, armazenar e preservar o acervo do artista, colocando-o à disposição da comunidade, de pesquisadores e críticos. Posteriormente, verificou-se a necessidade de se criar em Recife um espaço que abrigasse o acervo particular do escultor, evitando a dispersão de peças valiosas, especialmente do ponto de vista da expressão de uma evolução de estilo ou uma inovação estética.

A partir de 2007 inaugura uma série de monumentos no Recife, onde se destaca o Monumento aos Retirantes, no parque Dona Lindu em Boa Viagem; o Monumento ao Maracatu, nas proximidades do Forte das Cinco Pontas; e o Monumento ao Frevo, na Rua da Aurora.

Abelardo da Hora é contemporâneo de Vitor Brecheret (SP), Bruno Giorgi (RJ), viu Bernardelli (RJ), Leopoldo e Silva (SP), Auguste Rodin (FR), Henry Moore (EEUU), mas a obra dele na escultura nada tem a ver com a dos outros mestres. Consegue ampliar o desespero e a miséria com as angulosidades e os planos evidenciados. Iguala a natureza com os exageros das formas das mulheres que se apresentam bem à vontade.

A maneira de Abelardo da Hora se expressar através da escultura é única e forte. Não é superficial nem interessada de ser fácil para o mercado absorver. Na escultura, como nos desenhos, há nitidamente três vertentes que podem ser facilmente identificadas: a. A preocupação de sempre alertar para o descaso com relação aos menos favorecidos. São desenhos e esculturas denunciadoras de um estado de coisas insuportável, tal a miséria em que vive grande parte da população. b. O elogio da força e riqueza dos que se reúnem em Maracatus, Bumba-meu-boi, Frevos, etc., que nascem no interior nordestino e vêm para as cidades grandes mostrando ritmo, cores, organização. Fantasias ricas que encantam os centros urbanos. O artista traduz isso em desenhos extraordinários e, o que é mais difícil, transpõe para esculturas de concreto. c. A grande riqueza do planeta resumida num flagrante exemplo através do corpo feminino. Não é apenas a mulher que está viva, mas suas esculturas. É toda a natureza que explode no artista.

Abelardo tem completo domínio sobre técnicas por ele criadas com sucesso total, como por exemplo o domínio do concreto imperecível para suas esculturas que podem ficar ao ar livre. No bronze, os resultados são excelentes porque ele acompanha os fundidores e principalmente o lixamento que pode desvirtuar os detalhes imprescindíveis. Nos desenhos, nas aguadas, nos tracejados coloridos a precisão é inigualável, sem sobrepujar, diminuir ou embaçar a importância do tema. Abelardo era de um tempo em que uma obra de arte exigia saber fazer e não apenas ter uma ideia que, algumas vezes, mesmo tentando explicá-la, é difícil de ser entendida.

Referências

  1. a b «Artista plástico Abelardo da Hora morre aos 90 anos, no Recife». G1. Consultado em 23 de setembro de 2014 
  2. «Hora, Abelardo da (1924)». 22 de fevereiro de 2007. Consultado em 16 de agosto de 2008 

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligação externa[editar | editar código-fonte]

"Abelardo da hora, Abelardo da gente", texto de Urariano Mota publicado no espanhol La Insignia, http://www.lainsignia.org/2007/abril/cul_012.htm