Abelardo da Hora

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Abelardo da Hora
Abelardo da Hora, em seu atelier no Recife (2009).

Abelardo da Hora, em seu atelier no Recife (2009).
Nome completo Abelardo Germano da Hora
Nascimento 31 de julho de 1924
São Lourenço da Mata, Pernambuco
Morte 23 de setembro de 2014 (90 anos)
Recife, Pernambuco
Nacionalidade brasileiro
Área Escultura
Desenho
Gravura
Cerâmica
Pintura
Poesia
Formação Belas Artes
Direito
Movimento(s) Modernismo

Abelardo Germano da Hora (São Lourenço da Mata, 31 de julho de 1924Recife, 23 de setembro de 2014) foi um artista plástico, professor e poeta brasileiro.[1] Escultor, desenhista, gravurista, pintor e ceramista. Formado em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes do Recife e em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda. Casou-se em 1948 com Margarida Lucena da Hora, com quem teve sete filhos: Lenora (1949), Sandra (1950), Lêda (1952), Ana (1954), Sara (1955), Abelardo Filho (1959) e Iuri (1961). Abelardo faleceu na manhã do dia 23 de setembro de 2014 no Recife, aos 90 anos de idade.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Abelardo Germano da Hora, filho de José Germano da Hora e Severina Maria Germano da Hora, nasceu aos 31 de julho de 1924 na Usina Tiúma, em São Lourenço da Mata (PE). A partir de 1928, muda-se com a família para a Usina São João da Várzea, no subúrbio do Recife.

Em 1939, Abelardo entra na Escola de Belas Artes do Recife. No mesmo ano, ingressa no curso de escultura, da mesma instituição. A partir de 1940, começa a integrar do Diretório Estudantil da Escola de Belas Artes e é eleito seu presidente em 1941, onde começou a estimular os alunos a visitarem "a vida lá fora", liderando grupos de alunos a desenhar e pintar paisagens urbanas e rurais, bem como as matas no subúrbio do Recife, no bairro da Várzea.[2] Seu trabalho chamou a atenção do industrial Ricardo Brennand, que possuía residência na região e o contratou, trabalhando com ele no período de 1943 até 1945, realizando vários trabalhos ligado às temáticas regionais, fauna e flora, manifestações culturais, e encomendas dos clientes da Indústria cerâmica, produzindo relevos tanto em barro, quanto cerâmica e terracota. Em 3 de março de 1945 participa, no Recife, do comício pela redemocratização do país e contra a ditadura Vargas. Um de seus acompanhantes foi um dos filhos do industrial, Francisco Brennand, que teve Abelardo como seu primeiro professor de Arte e mestre para a vida.

Em 1945 viaja para o Rio de Janeiro e instala-se numa pensão do centro da cidade. Ali conhece os irmãos Augusto e Abelardo Rodrigues[3], e passa a acompanhar a atuação do Partido Comunista do Brasil (PCB) na Câmara dos Deputados da então capital federal. Faz a escultura “A Família” para participar do Salão de Belas Artes, que é suspenso pelo presidente Dutra. Nesse mesmo ano, Abelardo retorna ao Recife. Em 1946, voltou para Recife. Em 1947 tem sua primeira prisão "política", ao fazer propaganda de um comício do PCB.

Abelardo passou o ano de 1947 preparando sua primeira exposição de esculturas, que foi realizada em abril de 1948 na Associação dos Empregados do Comércio de Pernambuco. Na vernissage da exposição, criou a Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), juntamente com o arquiteto Hélio Feijó, sendo presidente da SAMR por dez anos.[4]

A partir dos anos 1950, Abelardo da Hora passa a ser peça-chave na movimentação cultural de Pernambuco, contribuindo decisivamente para a forma como o estado seria visto pelo país. Ao lado de seu trabalho como artista, tem participação de igual magnitude na política, tendo sido membro do PCB até o golpe militar de 1964 e sendo figura importante nos processos da redemocratização do país. Com o golpe, Abelardo também é afastado de sua função como secretário na Prefeitura do Recife, e preso mais uma vez, junto com o líder comunista Gregório Bezerra. Nesse ano, ele, Gregório e outros militantes deixam o PCB, mas mantêm a militância progressista. Sem condições de trabalhar no Recife, Abelardo muda-se para São Paulo, onde é recebido pela amiga Lina Bo Bardi e seu marido Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo (Masp).[5] A partir de 1966, passa a trabalhar na TV Tupi, onde assina o cenário da novela A Ré Misteriosa, projeto premiado na IV Feira Internacional da Indústria (Fenit). Em seu retorno ao Recife, trona-se empresário nos anos 1970, com seu irmão Luciano, do ramo de pesca e pescados, mas continua sua atividade artística.

Nos anos 1970, passa temporada em Paris. Ao retornar ao Recife, volta a produzir intensamente, seja a série de esculturas com a temática da mulher - que levou até o fim da vida; seja trabalhos em cerâmica com motivos da fauna, da flora, e da cultura afrobrasileira, especialmente sobre as divindades do Candomblé. Abelardo sempre teve papel decisivo no desenho da paisagem lúdica da cidade do Recife, ainda desde os anos 1950, com o desenvolvimento de diversas esculturas de temas populares para praças públicas do Recife, ou com a sugestão ao poder público de colocação de esculturas em áreas construídas com mais de mil metros quadrados (aprovado pela Câmara Municipal do Recife, tornando-se lei). A partir dos anos 1980, passa a povoar prédios privados e shopping centers da cidade com suas esculturas de mulheres gigantescas em concreto.[6]

Intelectual com formação em Artes e Direito, a partir dos anos 1990 até os anos 2010 passa a ser figura constante na mídia de Pernambuco, dando opiniões sobre as questões da cidade, do estado e do país. Neste período recebe diversas homenagens e condecorações, entre elas a Medalha da Ordem do Mérito dos Guararapes, pelo então governador de Pernambuco Eduardo Campos, a Comenda da Ordem do Mérito Cultural (Grã-Cruz), pela então presidente Dilma Rousseff, e a comenda da Ordem do Rio Branco, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.[7][8] Inaugura, ainda em vida, a partir de 2004, o Instituto Abelardo da Hora (iAH), Oscip cultural idealizada por seu filho Abelardo da Hora Filho e seu neto Daniel da Hora (filho da terceira filha, Lêda). Com os projetos do iAH, passa a ter sua obra divulgada em várias plataformas editoriais, tanto impressas como digitais, e ganha exposições itinerantes em diversas cidades do Brasil, até depois de sua morte.

Sua obra foi sempre marcada por grande preocupação com as questões sociais, apresentando, segundo o crítico Geraldo Ferraz, “um expressionismo de contorções, de incisões, de amargo e profundo, aprofundado desenho, no cimento, no bronze ou no mármore, peculiarmente no primeiro desses materiais, que é preferido pelo artista pelo seu caráter tão duro e tão áspero, o que acrescenta sofrimento às figuras”.[9] Amigo de toda uma geração de outros importantes artistas e políticos, foi figura respeitada e um dos criadores mais celebrados do país, tendo participado, ao longo de sua carreira, em exposições individuais e coletivas em diversas capitais do Brasil, especialmente São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Recife. Participou também de exposições internacionais, em vários países da Europa, incluindo França, Itália, Inglaterra, Portugal; além de Estados Unidos, Canadá, Rússia, Israel, Mongólia, Argentina, Perú, Romênia e China. Em 2020, será inaugurado o Memorial Abelardo da Hora em João Pessoa (PB-BRA), museu dedicado à obra deste mestre, com mais de 350 obras, entre esculturas, desenhos, pinturas e gravuras.


Contexto e Obra[editar | editar código-fonte]

A escultura, no Brasil, pode ser caracterizada a partir de dois pontos de vista: a raiz popular, notadamente na representação de suas manifestações, e a vertente ligada às escolas européias, desde o Barroco. Neste aspecto, talvez a maior revolução nesta arte em nosso país tenha acontecido justamente numa região que sempre foi cosmopolita e porto privilegiado no contato com a Europa - o Recife. Foi lá que, em 1948, tudo que se conhecia sobre escultura no Brasil mudou radicalmente, com a primeira exposição do mestre Abelardo da Hora.[10]

Trazendo sua visão expressionista a cerca dos temas sociais ligados a sua gente, Abelardo apresentou para o país e para o mundo, com aquele seu primeiro trabalho, um espantoso domínio da técnica da escultura, da forma, das proporções, mas, sobretudo trouxe um aspecto novo no uso do concreto, tornando algo duro e robusto em algo plástico e flexível. Esta mistura, Abelardo e o concreto, foi fundamental para o estabelecimento do panorama da Arte Moderna no Nordeste, com reflexos em outras regiões. Considerado o maior escultor expressionista do Brasil, este gênio da forma, mestre de gerações de outros artistas de grande importância do cenário nacional, faz sua arte cheia de amor e solidariedade, mostrando denúncia social e beleza, e passa, com igual maestria, por outras técnicas, como o desenho, a gravura, a pintura e a cerâmica, numa produção tão rica e complexa como é também a Arte brasileira.

Quem, por alguma vez, tenha visitado a casa de Abelardo da Hora – na Rua do Sossego, Recife – certamente percebeu um ambiente curioso. Duas salas, separadas por um corredor de uns dez metros, abrigam dois estilos marcantes na carreira do artista. Na primeira, figuras esquálidas de retirantes. Na outra, peças de concreto polido ou bronze retratam nus femininos. Mulheres opulentas, renascentistas, em poses eróticas, estão a poucos metros da denúncia da fome e da miséria. Esse contraste sempre marcou a carreira de Abelardo, mas o essencial, segundo os críticos, é que ele nunca se curvou aos modismos. Preferiu comover-se tanto ao retratar as condições subumanas da sociedade nordestina quanto corpos femininos que transmitem ao mesmo tempo sensualidade e recato. “Quando ele modela um braço de uma de suas deusas temos a sensação única de ser distinguido com o privilégio de assistir ao nascimento de Vênus, de Ceres, da beleza e da fecundidade, na hora em que Deus criou a carne”, observa o pintor e discípulo José Cláudio.[11] “Sua arte, sensível aos valores plásticos e visuais do modernismo, não é episódica nem faz concessões”, acrescenta Mário Barata,[12] um dos maiores conhecedores do conjunto de uma obra que inclui mais de mil trabalhos espalhados pelo mundo.

"(...) As soluções de Abelardo da Hora cingiam-se, como ainda hoje se cingem, a um expressionismo de contorções, de incisões, de amargo e profundo, aprofundado desenho, no cimento, no bronze ou no mármore, peculiarmente no primeiro desses materiais, que é preferido pelo artista pelo seu caráter tão duro e tão áspero, o que acrescenta sofrimento às figuras. Então, Abelardo da Hora, conseguiu, para os seus temas, uma expressividade só sua, fremente e dura a um tempo, agressiva e manifestante ao mais alto grau, o que lhe dá um lugar muito destacado na escultura brasileira, tão destituída de protestos ao vivo" (Geraldo Ferraz).[4]

"Seria impossível alguma tentativa de enxergar isoladamente duas facetas de Abelardo da Hora. O artista desenhando, esculpindo, ensinando, ou homem político lutando, discutindo pelo ideal de união de uma classe, de uma criação brasileira, nordestina. Impossível separar. As batalhas pela Sociedade de Arte Moderna do Recife e o Atelier Coletivo são as mesmas que ainda hoje trava com o barro, espátulas e enormes fôrmas de gesso. E transmite tudo isso em sua obra. Esse espírito de luta, esse vigor expressionista que influenciou determinada fração de artistas pernambucanos são aspectos marcantes de Abelardo" (Alex Molt'Elberto).[13]


Referências[editar | editar código-fonte]


  1. ARTE no Brasil. São Paulo, Abril Cultural.
  2. AMARAL, Aracy. Arte para quê?: a preocupação social na Arte brasileira 1930-1970: subsídio para uma história social da Arte no Brasil. São Paulo, Nobel.
  3. GASPAR, Lúcia. Abelardo da Hora. Recife, Fundação Joaquim Nabuco.
  4. a b BRUSCKY, Paulo (org.); LEITE, Ronildo Maia (org.). Abelardo de todas as horas. Recife: Fundarpe.
  5. ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo, Itaú Cultural.
  6. DA HORA ALVES, D. (org.); DA HORA FILHO, A (org.) Amor e Solidariedade: catálogo de exposição. Recife, Ed. Dom Bosco.
  7. PERNAMBUCANOS em Brasília. Brasília, Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
  8. «Discurso em 20/05/2004 às 15:28». www.camara.leg.br. Consultado em 25 de janeiro de 2020 
  9. «HORA, Abelardo da». www.brasilartesenciclopedias.com.br. Consultado em 25 de janeiro de 2020 
  10. http://www.alepe.pe.gov.br/proposicao-texto-completo/?docid=C92A1B4147E446A303257B18004BB776
  11. CLÁUDIO, José. Memória do Atelier Coletivo: Recife 1952-1957. Recife, Artespaço.
  12. ZANINI, Walter (Coord.). História geral da arte no Brasil. São Paulo, Instituto Moreira Salles.
  13. CAVALCANTI, Carlos (org.). Dicionário brasileiro de artistas plásticos. Brasília, Record.