Alta cultura

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O busto de Beethoven por Hugo Hagen

"Alta cultura" é um termo utilizado de diversas maneiras, sobretudo no discurso acadêmico, cujo significado mais comum é o conjunto de produtos culturais, principalmente artísticos, realizados por meio de grande apuro técnico, levando em conta a tradição e a beleza.[1]

Conceito[editar | editar código-fonte]

Na tradição ocidental a alta cultura tem origens históricas nos ideais estéticos e intelectuais da Grécia Antiga e Roma. Dentro desse ideal clássico, certos autores serviram como referência ideal de estilo e forma, como a realizada no dialeto ático que englobava peças dos dramaturgos Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes, no século V a.C. além do filósofo ateniense Platão.

Mais tarde, especialmente durante o Renascimento, esses valores foram absorvidos pela aristocracia, e (como evidenciado em obras como o cortesão de Baldassare Castiglione) o conhecimento clássico tornou-se parte do ideal aristocrático. Ao longo do tempo, o refinado classicismo da Renascença foi ampliado para abraçar uma gama mais ampla de autores que produziam em diferentes línguas. Dentre esses autores estavam figuras como Shakespeare, Goethe, Cervantes, e Victor Hugo.[2]

Michelangelo: David, 1501–1504.

Tanto no ocidente quanto na Ásia Oriental, a obra que demonstra a imaginação do artista foi considerada como o tipo de arte mais refinada. No Ocidente, essa tradição remontou aos antigos gregos, e foi reforçada pelo Renascimento e pelo Romantismo, responsável pelo fim da hierarquia dos gêneros dentro das artes plásticas.Na China, havia uma distinção entre os sumi-ês feitos pelos artistas civis do imperador e os trabalhos produzidos por artistas comuns, trabalhando em grande parte diferentes estilos, ou as artes decorativas como a porcelana chinesa. Na cultura ocidental, bem como na oriental, a distinção foi especialmente clara na pintura de paisagem, a qual durante séculos foi considerada como um tipo de obra superior, sendo Pietro Perugino, mestre de Rafael, um dos mais destacados criadores de vastos espaços onde se situavam os personagens, com uma forte acentuação de paisagem.

Durante séculos uma imersão na alta cultura foi considerada parte essencial da educação ideal do cavalheiro, e esse ideal foi transmitido por meio de escolas e instituições em toda a Europa e os Estados Unidos. Com o passar dos anos, as noções ocidentais de alta cultura foram sendo expandidas e associadas muitas vezes com: O estudo das "letras", especialmente os clássicos gregos e latinos, e mais amplamente todos os costumes que fazem parte do novo "cânone"; o cultivo da etiqueta; das artes plásticas - especialmente por esculturas e pinturas; a literatura em geral; drama e poesia clássica; gozo pela música clássica e pela ópera; religião e teologia; retórica e política; o estudo da filosofia e história; o gosto pela alta gastronomia e certos esportes associados como o polo, hipismo e esgrima.[3]

Esta visão, entretanto, é criticada em profundidade por exemplo na obra do filósofo Theodor Adorno. Segundo este pensador a massificação de produtos culturais que dispensam um nível maior de educação para sua apreensão é um movimento próprio da indústria cultural a serviço do consumismo, contribuindo para a passividade e a mediocrização intelectual, ainda que muitas vezes sob uma roupagem de multiculturalismo e sofisticação.[carece de fontes?] Cumpre assinalar que historicamente o termo alta cultura vem sendo empregado para designar os produtos do espírito humano que requerem um mínimo de instrução e apuro intelectual para seu mais pleno proveito cognitivo e estético, ainda que certas tendências revolucionárias em voga pretendam negar este uso tradicional da expressão por qualificarem-na de elitista, conservadora e reacionária.[carece de fontes?]

De acordo com o filósofo Roger Scruton, a alta cultura é a autoconsciência de uma sociedade. Ela contém as obras de arte, literatura, erudição e filosofia que estabelecem o quadro de referência compartilhado entre as pessoas cultas. Ainda segundo Scruton, a alta cultura é uma conquista precária, e dura apenas se apoiada por um senso da tradição e pelo amplo endosso das normas sociais circundantes. Quando essas coisas evaporam, a alta cultura é substituída por uma cultura de falsificações. A falsificação depende em certa medida da cumplicidade entre o perpetrador e a vítima, que juntos conspiram para acreditar no que não acreditam e para sentir o que são incapazes de sentir.[4]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Notas e referências

  1. Roger Scruton (2009). Beauty: A Very Short Introduction (em eng) Oxford [S.l.] p. 199. ISBN 9780191567940. Consultado em 9 de outubro de 2016. 
  2. Matthew Arnold (1869). Culture and Anarchy: An Essay in Political and Social Criticism (em eng) Smith, Elder & Company [S.l.] p. 272. ISBN 9780192805119. Consultado em 9 de outubro de 2016. 
  3. T. S. Eliot (2014). Notes towards the Definition of Culture (em eng) Houghton Mifflin Harcourt [S.l.] p. 128. ISBN 9780544358522. Consultado em 9 de outubro de 2016. 
  4. «High culture is being corrupted by a culture of fakes». The Guardian. Consultado em 9 de outubro de 2016.