Cerco de Cartago

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Disambig grey.svg Nota: Para a captura da cidade pelo Califado Omíada em 698, veja Batalha de Cartago (698).
Cerco de Cartago
Terceira Guerra Púnica
Karthago Scipio.JPG
Mapa da antiga cidade de Cartago
Data 149 a.C.146 a.C.
Local Cartago
Desfecho Vitória decisiva romana
Fim da Terceira Guerra Púnica
Mudanças territoriais Destruição de Cartago
Beligerantes
República Romana República Romana Cartago Cartago
Comandantes
República Romana Cipião Emiliano
República Romana Mânio Manílio
Cartago Asdrúbal, o Boetarca
Forças
80 000 infantes
4 000 cavaleiros
400 000 pessoas:
* 90 000 defensores
* 310 000 civis
Baixas
17 000 mortos 350 000 mortos
50 000 escravizados
Cartago está localizado em: Tunísia
Cartago
Localização do Cartago no que é hoje a Tunísia

Cerco de Cartago é a principal operação militar da Terceira Guerra Púnica, travada entre as forças de Cartago, no norte da África, e as da República Romana. O cerco começou em algum momento entre 149 e 148 a.C. e terminou na primavera de 146 a.C. com o saque e a posterior destruição completa da antiga cidade de Cartago.

Contexto[editar | editar código-fonte]

Depois que um exército romano liderado pelo cônsul Mânio Manílio desembarcou em 149 a.C. no norte da África, Cartago imediatamente se rendeu e ofereceu reféns e armas. Porém, os romanos exigiram a rendição completa da cidade e, para sua surpresa, os cartagineses se recusaram depois que a facção que defendia a guerra emergiu vitoriosa num conflito político interno entre os senadores cartagineses. As tropas cartaginesas ocuparam as muralhas da cidade e desafiaram os romanos, uma situação que perdurou por dois anos. Neste período, os 500 000 cartagineses no interior da muralha transformaram a cidade num gigantesco arsenal capaz de produzir cerca de 300 espadas, 500 lanças, 140 escudos e mais de 1 000 projéteis para as catapultas diariamente[1].

Os romanos elegeram o jovem e imensamente popular Cipião Emiliano como cônsul, o que exigiu uma lei específica para remover a exigência de idade para o cargo. Cipião restaurou a disciplina das forças romanas e derrotou os cartagineses na Batalha de de Néferis depois de várias derrotas romanas. Em seguida, Emiliano ordenou a construção de um molhe para bloquear completamente o imenso porto de Cartago.

Captura da cidade[editar | editar código-fonte]

Na primavera de 146 a.C., os romanos finalmente conseguiram vencer a muralha e invadiram a cidade, mas tiveram que enfrentar uma custosa batalha. Cada edifício, casa e templo havia sido transformado numa fortaleza e todos os cartagineses com idade suficiente lutaram por sua vida. Os romanos foram forçados a avançar lentamente, capturando a cidade casa por casa e rua por rua enfrentando soldados cartagineses que nada mais tinham a perder. Finalmente, depois de uma longa batalha, os cartagineses se renderam. Os cerca de 50 000 habitantes ainda vivos foram todos vendidos como escravos e a cidade foi arrasada até o chão. Todo o território vizinho foi declarado ager publicus ("terra pública") e dividido entre fazendeiros locais e colonos italianos.

Lamento de Cipião[editar | editar código-fonte]

Antes do final do final da batalha, um evento dramático foi narrado nas fontes antigas: 900 sobreviventes, a maioria deles desertores romanos, haviam se refugiado num templo de Eshmun, na cidadela de Birsa, que já estava pegando fogo. Asdrúbal, o Beotarca negociou uma rendição e implorou por misericórdia, mesmo tendo sido ele o responsável por torturar prisioneiros romanos perante o exército romano[2]). Neste ponto, a esposa de Asdrúbal saiu de seu esconderijo com os dois filhos do casal, insultou o marido por sua covardia e pulou com as crianças no fogo que os desertores haviam iniciado[3]. Os desertores também pularam nas chamas[3], o que teria levado Cipião Emiliano às lágrimas e a recitar um trecho da Ilíada, de Homero[4], uma profecia sobre a destruição de Troia que cabia bem ao eventos que se passavam em Cartago. Segundo ele, o destino de Cartago poderia, um dia, ser o mesmo de Roma[5][6]. Nas palavras de Políbio:

Diz-se que Cipião, ao vislumbrar a cidade que estava perecendo inexoravelmente e estava nos estertores finais de uma destruição completa, chorou e lamentou abertamente por seus inimigos. Depois de um longo tempo imerso em seus pensamentos se deu conta que todas as cidades, nações e autoridades devem, como os homens, encontrar seu destino; que isto aconteceu com Ilium, antes uma próspera cidade, com os impérios da Assíria, Média e Pérsia, o maior de seu tempo, e à própria Macedônia, cujo brilho ainda era tão recente, propositalmente ou com os versos lhe escapando da boca, afirmou:
«O dia chegará no qual a sagrada Troia perecerá,
E Príamo e seu povo serão assassinados.»

E quando Políbio, que lhe dirigiu a palavra livremente, pois ele era seu mestre, perguntou-lhe o que ele quis dizer com aquelas palavras, ele respondeu, sem sequer tentar disfarçar, que falava de seu próprio país, pelo qual ele temia quando pensava sobre o destino de todas as coisas humanas. Políbio ouviu-o de fato e lembrou disto em sua história.
 
Políbio, Histórias XXXVIII 5.

Análise moderna[editar | editar código-fonte]

Desde o século XIX, diversos historiadores passaram a afirmar que os romanos salgaram a terra depois de terem destruído a cidade, mas este fato não tem suporte nas fontes antigas[7].

Referências

  1. Apiano. The Punic Wars. The Third Punic War (em inglês). [S.l.: s.n.] 
  2. Apiano. «118». História de Roma. Guerras Púnicas (em inglês). [S.l.: s.n.] 
  3. a b Apiano. The Punic Wars. The Third Punic War (em inglês). [S.l.: s.n.] 
  4. Homero, Ilíada, livro 6
  5. Políbio, Histórias XXXVIII (Excidium Carthaginis), 7–8 e 20–22., tradução e comentários de W. R. Patton. Loeb classical library, 1927, pp. 402–409 e 434–438.
  6. Políbio. «Histórias» (em inglês) 
  7. Ridley, R.T. (1986). «To Be Taken with a Pinch of Salt: The Destruction of Carthage». Classical Philology (em inglês). 81 (2). JSTOR 269786. doi:10.1086/366973 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]