Combate militar na Caatinga

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Combatentes de Caatinga

Combate militar na Caatinga engloba o conjunto de técnicas para sobrevivência e guerra no bioma semiárido da Caatinga, que é unicamente brasileiro. A caatinga é um ambiente inóspito, encontrado principalmente na região Nordeste. O adestramento militar para atuar no ambiente operacional semiárido faz com que o Brasil tenha capacidade de enviar tropas para qualquer região com clima parecido.[1]

Condições de atuação[editar | editar código-fonte]

Recruta do 72º BIMtz se alimentando de planta típica.

A caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, sendo um ambiente inóspito que compreende aproximadamente 11% de todo o território nacional[1] e 70% do Nordeste. A vegetação é agressiva e muitas plantas têm espinhos, como a Senegalia polyphylla, o mandacaru e a macambira. Tudo isso é somado a animais peçonhentos, abelhas e vespas de vários tipos e galhos finos que se camuflam na paisagem. O ar é seco, dificultando a respiração, há escassez de água, solo pedregoso, calor escaldante e grande facilidade de produzir fogo.

A média anual de chuvas na caatinga é de 500 mm, semelhante aos índices pluviométricos de desertos. As temperaturas variam entre 25ºC e 27ºC, enquanto o solo duro e pedregoso pode atingir 60ºC.

Em situações extremas, a sobrevivência de soldados na Caatinga depende de habilidades para localizar fontes de água e alimentos, livrar-se de animais ameaçadores e abrigar-se do sol usando o que o ambiente oferece, não mais do que arbustos com poucas folhas e cactos. Para se hidratar, aproveita-se a água do orvalho, de plantas e do solo e se filtra essa água.[1]

Operações[editar | editar código-fonte]

Durante a Confederação do Equador, em Pernambuco, o General José Pereira Filgueiras resistia às tropas imperiais no sertão. Os soldados imperiais se encontravam incapacitados de operar no bioma, por estarem privados de meios de subsistência em decorrência da seca de 1825. Ambos os partidos, portanto, se limitaram a uma guerra de guerrilhas, cujos resultados se desconhecem.[2]

O guerrilheiro de esquerda Carlos Lamarca foi assassinado por agentes do Exército abaixo de uma baraúna, onde tinha parado para encontrar descanso após fugir por 300 km da Operação Pajussara, em 17 de setembro de 1971.[3]

Exército Brasileiro[editar | editar código-fonte]

Militares do Exército Brasileiro em instrução de guia.
Soldado brasileiro durante operação noturna.

Várias unidades do Exército Brasileiro são instruídas para operações em caatinga. O Centro de Instrução de Operações na Caatinga (CIOpC), situado no 72.º Batalhão de Infantaria Motorizado em Petrolina (PE), é responsável por fornecer cursos de atuação na área a militares do Exército, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. Os cursos oferecidos são o Estágio Básico de Combatente de Caatinga, com duração de uma semana, o Estágio Avançado de Combatente de Caatinga e o Estágio de Caçador de Caatinga, ambos com duração de duas semanas.[4] Visando a maior preparação dos soldados do Exército Brasileiro no ambiente operacional semiárido, os Estágios de Adaptação e Operação são autorizados a militares de carreira do Comando Militar do Nordeste, cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras, alunos da Escola de Sargentos das Armas e dos Centros de Preparação de Oficiais da Reserva. São realizados anualmente sete treinamentos. As instruções são ministradas no Parque Zoobotânico da Caatinga, dentro do próprio Batalhão,[1] que é o seu apoio para instruções sobre a fauna e flora, e no Centro de Instrução Fazenda Tanque de Ferro (CIFTF), um imóvel da União com área de 2.817,51ha, localizado próximo a Jutaí. O Centro está totalmente inserido em área coberta pela caatinga e é afastado dos grandes centros urbanos.[5]

Estão se ampliando os estudos relacionados a operações militares na Caatinga, com a missão de estudar, planejar e desenvolver uma doutrina operacional específica para este ambiente.

A caatinga exige um uniforme que possibilite uma ação mais eficiente do que os normalmente utilizados pelo EB, feito de material mais resistente para permitir o deslocamento no interior da caatinga sem comprometer a integridade física da tropa, além de proporcionar alguma camuflagem. Os combatentes do Exército usam uma farda confeccionada em brim cor cáqui com reforço de couro nos braços, pernas e peito,[4] para proteger o corpo do militar do contato com espinhos, galhos secos e pedras.[1] Em oposição ao capacete de kevlar, que concentra grande quantidade do calor, provoca ruídos em contato com os arbustos e reflete a luz, é usado um chapéu semelhante ao adotado pelos vaqueiros regionais, com pala dobrável e extensão para proteger a nuca. O coturno é semelhante ao tradicional, com cano de couro, mais resistente com a parte superior de lona.[6]

Há a necessidade de se utilizar óculos de acrílico e luvas de couro que protegem o dorso e a palma da mão mas permitem o livre movimento dos dedos.[6]

Desde sua criação, em 1995, até 2016, os estágios do 72º BIMtz já ensinaram 6.742 soldados a sobreviverem no ambiente hostil da caatinga.[1]

Marinha do Brasil[editar | editar código-fonte]

O curso de caatinga foi realizado ao Batalhão de Operações Especiais de Fuzileiros Navais (Comandos Anfíbios, ou COMANF), do Corpo de Fuzileiros Navais, em 2014.[7]

Polícia Militar[editar | editar código-fonte]

A Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) possui o BEPI (Batalhão Especializado de Policiamento do Interior), antiga CIOSAC (Companhia Independente de Operações e Sobrevivência em Área de Caatinga) que tem três Companhias, sendo a 1ª na cidade de Custódia, no sertão do estado, onde está o comando do BEPI, a 2ª na Cidade de Toritama, no Agreste do estado, e a 3ª na cidade de Palmares, Zona da Mata do estado, sendo as duas últimas criadas após a transformação da CIOSAC em BEPI. A unidade possui uma subseção de instrução que ministra o EAC (Estágio de Adaptação a Caatinga) e o CIOSAC (Curso Intensivo de Operações e Sobrevivência na Área de Caatinga) para militares de todo Brasil, tendo já ministrado cursos para o BOPE-PMDF, COT-DPF, Forças Armadas e treinado militares de todos os estados das regiões norte e nordeste para operar no bioma da Caatinga. Criada em 1997, a unidade é responsável pelo combate ao tráfico de entorpecentes, combate a assaltos a bancos e carros fortes, combate ao crime organizado no interior do estado, patrulhamento rural de alto risco, sobrevivência, busca e resgate em área de Caatinga, operações ribeirinhas e operações helitransportadas. Atualmente opera com viaturas Chevrolet S-10 4x4 e botes com motor de popa para operações em rios. Utiliza armamentos como Fuzis FN FAL 7,62 mm e Imbel IA2, e pistolas e metralhadoras Cal .40. Frequentemente o BEPI atua em conjunto com as Polícias Civis e Militares de outros estados, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e o GTA (Grupamento Tático Aéreo) da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco.

A matriz curricular do curso para ingressar no BEPI tem as seguintes disciplinas:

  • Treinamento Físico Militar;
  • Liderança e Motivação;
  • Instrução Tática Individual;
  • Orientação e Navegação;
  • Camuflagem;
  • Ofidismo;
  • Primeiros Socorros;
  • Direitos Humanos;
  • Armamento e Munição;
  • Tiro Policial;
  • Abordagem a Pessoas;
  • Abordagem a Veículos;
  • Abordagem a Edificações;
  • Defesa Pessoal;
  • Gerenciamento de Crises;
  • Sobrevivência na Caatinga;
  • Agentes Químicos;
  • Montanhismo;
  • Operações Ribeirinhas;
  • Acuidade Visual;
  • Serviços de Informações;
  • Patrulha Rural;
  • Ações Antibombas;
  • Operações Helitransportadas;
  • Ações Táticas.

A Polícia Militar da Paraíba possui o GEOsAC (Grupamento Especializado de Operações em Área de Caatinga), com sede na cidade de Pocinhos, no agreste do estado.

A Polícia Militar do Ceará possui o COTAR (Comando Tático Rural), uma companhia do Batalhão de Polícia de Choque especializada em Operações na Caatinga.

A Polícia Militar de Alagoas possui a COPES (Companhia de Operações Policiais Especiais do Sertão), com sede na cidade de Piranhas.

A Polícia Militar do Maranhão possui o COSAR (Comando de Operações e Sobrevivência em Área Rural), que possui treinamento para operar em áreas de Selva e de Caatinga, pois o estado do Maranhão possui os dois biomas.

A Polícia Militar do Estado de Sergipe (PMSE) possui a Companhia Especializada em Operações Policiais em Área de Caatinga (CEOPAC), antigo Pelotão, com a missão de atuar de forma preventiva e repressiva com o objetivo de combater os delitos considerados "ocorrências de alta complexidade em áreas rurais" (roubo de gado, tráfico de entorpecentes, assalto a bancos) e demais ilícitos penais.[8]

A Polícia Militar da Bahia (PMBA) tem a Companhia Independente de Policiamento Especializado - Caatinga (CIPE/Caatinga ou CPAC) e a Companhia Independente de Policiamento Especializado - Semiárido (CIPE/Semiárido ou CAESA).[9]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d e f Lemos, Andrea Barretto (14 de junho de 2016). «Treinamento especial prepara soldados brasileiros para operações em regiões áridas». Dialogo Americas. Consultado em 9 de outubro de 2016 
  2. SCHLICHTHORST, Carl (2000). O Rio de Janeiro como é (1824-1826). Traduzido por Emmy Dodt e Gustavo Barroso. Brasília: Livraria do Senado. pp. 258–259 
  3. «40 anos da morte de Carlos Lamarca». Terra. 2010. Consultado em 3 de setembro de 2016 
  4. a b Martins, Felipe (24 de janeiro de 2013). «Combatente de caatinga - Brasil». Brasil Em Defesa. Consultado em 12 de outubro de 2016 
  5. «CIOpC - Centro de Instrução e Operações na Caatinga». DefesaNet. 13 de outubro de 2015. Consultado em 9 de outubro de 2016 
  6. a b Galante, Alexandre (22 de novembro de 2010). «Estágio de Adaptação à Caatinga». Forças Terrestres - ForTe. Consultado em 12 de outubro de 2016 
  7. Gabino, Anderson (17 de novembro de 2014). «Fuzileiros Navais fazem adestramento em ambiente de caatinga no Rio Grande do Norte». Operacional. Consultado em 3 de setembro de 2016 
  8. «Companhia Especial de Policiamento em Área de Caatinga (CEOPAC)». Polícia Militar do Estado de Sergipe. Consultado em 3 de setembro de 2016. Arquivado do original em 24 de dezembro de 2014 
  9. «COMANDO DE POLICIAMENTO ESPECIALIZADO - CPE». Polícia Militar da Bahia. 4 de julho de 2011. Consultado em 9 de outubro de 2016