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Decadentismo

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Decadentismo
Decadentismo
Gravura Pornokratès (1878), de Félicien Rops
Histórico
Período fim do século XIX
Local de origem  França
Características
Esteticismo, pessimismo, erotismo refinado, artificialismo, exaltação da morbidez, da arte pela arte e da degeneração como ideal estético
Relações artísticas
Influenciado por Simbolismo, Romantismo
Reação a Realismo, parnasianismo, naturalismo, positivismo
Influenciou Simbolismo, Esteticismo, Modernismo
Artistas notáveis
Escultura, modelagem e outras artes plásticas tridimensionais Camille Claudel, Franz von Stuck, Jean-Baptiste Carpeaux
Pintura, ilustração e outras artes plásticas bidimensionais Félicien Rops, Gustave Moreau, Fernand Khnopff, Jean Delville, Franz von Stuck, Carlos Schwabe, Odilon Redon, Aubrey Beardsley
Música Claude Debussy, Erik Satie, Richard Strauss, Alexander Scriabin, Gustav Mahler
Romances, poesias e outras artes escritas Paul Verlaine, Joris-Karl Huysmans, Jean Lorrain, Rachilde, Octave Mirbeau, Oscar Wilde, Walter Pater, Arthur Symons, Ernest Dowson, Rubén Darío, José Juan Tablada
Obras notáveis
À reboursJoris-Karl Huysmans, 1884; SaloméOscar Wilde, 1891

Les Chants de MaldororConde de Lautréamont, 1869

Les Fleurs du malCharles Baudelaire, 1857

O decadentismo foi um movimento literário e artístico do final do século XIX que ocorreu no Ocidente, principalmente na França, baseado na sensação de decadência social e na oposição ao realismo e ao positivismo. Foi representado principalmente pelos poetas franceses Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé e é geralmente reconhecido como um movimento precursor do simbolismo, quando não se confundindo com este[1].

Visão geral

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Uma das melhores expressões do movimento decadentista é encontrada no verso de Verlaine: "Eu sou o império ao fim da decadência". De fato, Verlaine esteve durante algum tempo à frente do movimento, especialmente depois da publicação de Os poetas malditos (1884).

O decadentismo foi a antítese do parnasianismo e de sua doutrina inspirada no ideal clássico da "arte pela arte", apesar de Verlaine, um dos expoentes máximos do decadentismo, ter sido um parnasiano. A fórmula pictórica e escultórica dos parnasianos ut pictura poesis, segundo a lição de Horácio, é substituída no decadentismo pelo ideal de uma poesia que "tende à forma de música".

Paul Bourget explicava, a propósito de Baudelaire, que a ideia de decadentismo vêm do insulamento das frases ou versos num romance. Isto é, cada frase passa a valer como organismo independente e não como parte de um todo.[2]

O decadentismo arremete contra a moral e os costumes burgueses, evoca a evasão à realidade cotidiana, exalta o heroísmo individual e infeliz, explorando as regiões mais extremas da sensibilidade e do inconsciente.

Seu esteticismo foi acompanhado, em geral, de um exotismo e interesse por países distantes, especialmente os orientais, que exerceram grande fascinação em autores como os franceses Pierre Louÿs (em sua novela "Afrodita", de 1896, e em seus poemas "As canções de Bilitis", de 1894) e Pierre Loti e o inglês Richard Francis Burton, explorador e tradutor de uma polêmica versão de "As mil e uma noites".

Mas a máxima expressão do decadentismo é constituída pelo romance "À rebours" ("Às avessas"), escrito em 1884 pelo francês Joris-Karl Huysmans, considerado um dos escritores mais rebeldes e significativos do fim de século. O romance narra o estilo de vida excêntrico do duque Jean Floressas des Esseintes, que se tranca em uma casa de campo para satisfazer o propósito de "substituir a realidade pelo sonho da realidade". Esse personagem se converteu no modelo exemplar dos decadentes, a ponto de personagens como Dorian Gray, de Oscar Wilde, e Andrea Sperelli, de Gabriele D'Annunzio, serem considerados como "descendentes diretos" de Des Esseintes . "À rebours" foi definido pelo poeta inglês Arthur Symons como "o breviário do decadentismo".

Também são considerados decadentes os pós-simbolistas franceses Jean Lorrain, Madame Rachilde, Octave Mirbeau e, de certa maneira, também Auguste Villiers de L'Isle-Adam, Stéphane Mallarmé e Tristan Corbière.

A revista "Le Décadent", fundada en 1886 por Anatole Baju, serviu como veículo de expressão do movimento.

O decadentismo na Europa

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Na Inglaterra, aparecem como representantes do decadentismo as figuras de Oscar Wilde, especialmente em sua novela O retrato de Dorian Gray (1891), e seu mestre Walter Pater, que publicou uma novela considerada seminal para a sua geração, "Marius the Epicurean" (1885), além de nomes como Arthur Symons, Ernest Dowson e Lionel Johnson.

O italiano Gabriele d'Annunzio cultivou o elemento aristocrático típico do decadentismo, em seu romance "Il piacere" e em seus poemas cheios de sentimento, com uma escrita rica e sugestiva.

O decadentismo na Espanha e na América Latina

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Espanha e América Latina também se deixaram influenciar por esta atitude estético-literária, e toda a poesia do fim de século responde aos ideais artísticos da "arte pela arte". Assim pode ser considerado o modernismo do nicaraguense Rubén Darío e do mexicano José Juan Tablada. O decadentismo artístico foi muito mais persistente na América: Amado Nervo, Leopoldo Lugones, Mariano Azuela, César Vallejo, Horacio Quiroga e outros llenaron muchos años de la vida literaria suramericana y en ellos la nota francesa nunca estuvo ausente.

Esta renovação estética adquiriu na Espanha matizes peculiares, e assim aparece nas obras decadentistas de Manuel Machado e da primeira fase de Juan Ramón Jiménez (en algunas obras como "Ninfeas", 1900), Francisco Villaespesa e Valle-Inclán, em especial em suas primeira obras, como seu livro de versos "Aromas de leyenda" (1907). São decadentistas ainda mal estudados os poetas Emilio Carrere e Alejandro Sawa, os novelistas Álvaro Retana, Antonio de Hoyos y Vinent e Joaquín Belda, assim como o contista peruano Clemente Palma.

Fim do decadentismo e influência posterior

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Em 1890, a revista Mercure de France publicou um manifesto em defesa do simbolismo. A partir de então, a trajetória do decadentismo, entendido como movimento, pode-se considerar terminada. Anteriormente, em setembro de 1866, um artigo publicado por Jean Moréas em Le Figaro, mencionou pela primeira vez o simbolismo, referindo-se ao "bosque dos símbolos".

As teorias do simbolismo apareceram publicadas na revista Le symboliste, enquanto que os decadentes continuaram usando Le décadent como veículo para difundir suas teses. Formou-se assim a divergência entre os decadentes, complacentes experimentadores no campo dos sentidos e da linguagem, e os simbolistas, que buscam os valores absolutos da palavra e aspiram a expressar uma harmonia universal.

O decadentismo como ponto de encontro

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Mais tarde, alguns críticos ampliaram o significado do termo decadente como oposto aos convencionalismos. Desta maneira, o decadentismo seria, em suas origens, antiacadêmico em pintura, antipositivista em filosofia, antinaturalista em literatura. Assim, várias tendências, escolas e orientações, diversas e distantes, acabaram por confluir e encontrar-se compreendidas sob a mesma etiqueta.

Genericamente se definem como decadentes aquelas formas de arte que superam ou alteram a realidade na evocação, na analogia, na evasão, no símbolo. A lista de nomes pode incluir Rainer Maria Rilke, Konstantínos Kaváfis, Paul Valéry, Marcel Proust, Franz Kafka, James Joyce, Oscar Wilde, Thomas Stearns Eliot ou mesmo movimentos de vanguarda como o surrealismo, o imagismo russo, o cubismo ou o realismo crítico de Thomas Mann.

Referências

  1. «Decadentismo». Itaú Cultural. 6 de fevereiro de 2015. Consultado em 2 de agosto de 2025 
  2. Bobone, Carlos Maria (11 de novembro de 2018). «O cordeiro com nome de Lobo». Observador. Consultado em 2 de abril de 2020