Efeito Werther

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Werther e Charlotte, d'Os Sofrimentos do Jovem Werther

Um suicídio copiado é definido como a emulação de um outro suicídio que a pessoa que está tentando se suicidar tem ciência, devido a tradição e conhecimentos locais ou a representações do suicídio original em diferentes meios de comunicação, como televisão, livros e a internet.

Efeito Werther refere-se a um pico de emulações de suicídios depois de um suicídio amplamente divulgado. O nome se deve ao romance Os Sofrimentos do Jovem Werther do alemão Johann Wolfgang von Goethe.[1]

Na ausência de fatores de proteção, o suicídio publicizado serve como um gatilho para o próximo suicídio por uma pessoa suscetível ou sugestionável. Isto é referenciado como suicídio por contágio.[2] Eles ocasionalmente se espalham por uma escola, comunidade ou quando uma celebridade está envolvida, nacionalmente. Isto é chamado de suicídio em série ou suicídio em cluster. Suicídios em cluster são causados por aprendizagem social de comportamentos relacionados a suicídios, ou "suicídios copiados".[3] Clusters pontuais são suicídios em série no espaço e no tempo, e tem sido ligados diretamente a socialização de indivíduos próximos.[4] Clusters de massa são suicídios em cluster no tempo, mas não no espaço, e têm sido ligados a radiodifusão da informação relativa a suicídios de celebridades através da mídia de massa.[5]

Para tentar prevenir esse tipo de suicídio, é comum em alguns países a mídia desencorajar reportagens sobre suicídios, exceto em casos especiais.

História[editar | editar código-fonte]

Leitura de Werther de Goethe - Wilhelm Amberg, 1870

Uma das associações mais antigas conhecidas entre mídia e suicídio surgiu do romance alemão Die Leiden des jungen Werthers (Os Sofrimentos do Jovem Werther em português) de Goethe. Logo após a sua publicação em 1774, jovens começaram a imitar o personagem principal vestindo calças amarelas e jaquetas azuis.[6]

No romance, Werther atira em si próprio com uma pistola depois da rejeição da mulher que ele amava, e logo após sua publicação começaram a existir relatos de jovens rapazes usando o mesmo método para se suicidarem em um ato de semelhante desesperança.[6]

Isto resultou no banimento do livro em diversos lugares, como Leipzig e Copenhague. Em Milão, o Arcebispo ordenou a compra de todos os exemplares e os queimou em praça pública.[7][8] Daí o termo "Efeito Werther", usado na literatura técnica para designar uma onda de suicídios copiados.[9] O termo foi cunhado pelo pesquisador David Phillips em 1974, dois séculos depois do romance de Goethe ser publicado.[10]

Relatórios em 1985 e 1989 de Phillips e seus colegas descobriram que suicídios e outros acidentes parecem crescer depois de um suicídio bem publicizado.[6]

Fatores demográficos[editar | editar código-fonte]

Pessoas que são jovens ou velhas - mas não as pessoas de meia idade - parecem ser mais suscetíveis a esse efeito.[11]

Devido a efeitos de identificação diferencial, as pessoas que tentam copiar um ato suicida tendem a ter a mesma idade e gênero que a pessoa do suicídio gatilho.[11]

Momento[editar | editar código-fonte]

Estes atos suicidas tendem a acontecer em dias ou às vezes semanas depois que um suicídio é anunciado.[11] Em casos excepcionais, como um suicídio amplamente discutido de uma celebridade, um nível aumentado de pensamentos suicidas pode persistir por até um ano.[11]

Fatores em reportagens de suicídio[editar | editar código-fonte]

Suicídios copiados são principalmente atribuídos à mídia. Phillips disse "Ouvir sobre um suicídio parece fazer com que aquelas pessoas que são vulneráveis tenham permissão para tentá-lo. Ele cita estudos que mostraram era mais provável que pessoas se envolvessem em um comportamento desviante perigoso, como consumo de drogas, se alguém tivesse definido o exemplo primeiramente.[4]

O efeito Werther não apenas prediz um crescimento de suicídios, mas também que a maioria desses suicídios vai ocorrer da mesma ou de similar maneira que o publicizado. Quanto maior a similaridade entre a pessoa do suicídio publicizado e a pessoa exposta a informação do caso, maior a probabilidade de que o grupo etário ou demográfico morrer por suicídio. O aumento geralmente acontece apenas em áreas onde a história do suicídio foi altamente publicizada.[6] Ao saber do suicídio de outrem, algumas pessoas decidem que a ação pode ser mais apropriada para elas também, especialmente se o suicídio publicizado for de alguém em uma situação similar a delas.

Publicar os meios de suicídios, reportagens romantizadas e sensacionalistas, particularmente sobre celebridades, sugestões de que há uma epidemia, glorificando o falecido e simplificando as razões, todos esses levam a um aumento da taxa de suicídio. Pessoas podem ver suicídios como fins gloriosos, com a pessoa jovem ou idosa recebendo muita atenção, simpatia e preocupação nacional que ela nunca teve em vida.[12]

Crescente taxa de suicídios tem demostrado ocorrer após dez dias de uma reportagem de televisão.[13] Estudos no Japão[14] e Alemanha[15] têm replicado achados de um efeito de imitação. Etzersdorfer et al.[16] em um estudo austríaco mostrou uma forte correlação entre o número de jornais distribuídos em várias áreas e o número de subsequentes suicídios por arma de fogo em cada área depois de uma reportagem midiática. As maiores taxas de suicídios copiados foram encontradas naquelas com similaridade em raça[14] idade e gênero[1] com a vítima da reportagem original.

Stack[17] analizou os resultados de 42 estudos e descobriu que aqueles medindo o efeito de uma história de suicídio de celebridade foram 14,3 vezes mais prováveis de achar um efeito de cópia do que estudos que não mediam esse efeito. Estudos baseados em uma história real, oposta a uma ficcional eram 4,03 vezes mais prováveis de descobrir um efeito de cópia e pesquisas baseadas em histórias televisionadas eram 82% menos prováveis de reportar um efeito de cópia que pesquisas baseadas em jornais. Outros estudiosos têm sido menos assertivos sobre suicídios copiados realmente acontecem ou são seletivamente exagerados. Por exemplo, medos de uma onda de suicídio seguinte a morte de Kurt Cobain nunca se materializaram em um verdadeiro aumento de suicídios.[18] Além disso, há evidências de um efeito Werther indireto, ou seja, a percepção de que o conteúdo suicida midiático influencia os outros, o que, por sua vez, pode concorrentemente ou adicionalmente influenciar os próprios pensamentos e comportamentos futuros de uma pessoa.[19] Da mesma forma, o pesquisador Gerard Sullivan criticou a pesquisa sobre suicídios copiados, sugerindo que as análises de dados tem sido seletivas e enganosas, e que as evidências para suicídios copiados são muito menos consistentes do que o sugerido por alguns pesquisadores.[20]

Muitas pessoas entrevistadas depois do suicídio de um parente ou amigo tem uma tendência de simplificar os problemas; seu luto pode levar a minimização ou ignorância de fatores significantes. Estudos mostram uma alta incidência de desordens psiquiátricas em vítimas de suicídios no momento de sua morte, com o número total variando de 98%[21] a 87,3%[22] com transtornos do humor e abuso de substâncias sendo as duas mais comuns. Estes são frequentemente não diagnosticados ou não tratados. Seus tratamentos podem resultar em reduções na taxa de suicídio.

Modelo de prova social[editar | editar código-fonte]

Um modelo alternativo para explicar o suicídio copiado, chamado "prova social" por Cialdini,[23] vai além de teorias de glorificação e simplificação de razões para olhar o porquê de suicídios copiados são tão similares, demograficamente e em métodos, ao suicídio publicizado. O modelo de prova social, pessoas imitam aquelas que parecem silimares, apesar ou mesmo por causa da desaprovação social. Para lidar com esse problema, Alex Mesoudi, da Queen Mary University, desenvolveu um modelo computacional de uma comunidade de 1000 pessoas, para examinar como suicídios copiados ocorrem. Estas são divididas em 100 grupos de 10, em um modelo desenhado para representar diferentes níveis de organização social, como escolas ou hospitais dentro de uma cidade ou estado. Mesoudi então rodou a simulação através de 100 gerações. Ele descobriu que as pessoas simuladas agiram exatamente como as teoria dos sociologistas prediziam. Elas eram mais prováveis de morrer por suicídio em clusters, seja porque elas tenham aprendido esse traço de seus amigos, seja porque pessoas suicidas são mais prováveis de serem semelhantes umas as outras.[24]

Códigos jornalísticos[editar | editar código-fonte]

Diversos países tem códigos jornalísticos nacionais[25] que tratam a temática do suicídio. Alguns vão do extremo de não mencionar esses casos, como o código de ética jornalística da Dinamarca:

Outros são menos restritivos, como o da Alemanha:

O psicologista Alex Mesoudi recomenda que reporters sigam as orientações da Organização Mundial de Saúde para cobertura de qualquer suicídio:[28]

  • Evitar a cobertura sensacionalista, principalmente quando uma celebridade está envolvida.
  • A cobertura deve ser minimizada até onde seja possível.
  • Qualquer problema de saúde mental que a celebridade pudesse apresentar deve ser trazido à tona.
  • Todos os esforços devem ser feitos para evitar exageros.
  • Deve-se evitar fotografias do falecido, da cena do suicídio e do método utilizado.
  • Devem ser evitadas descrições detalhadas do método usado
  • O suicídio não deve ser mostrado como inexplicável ou de uma maneira simplista.

Embora muitos países não tenham códigos nacionais, os meios de comunicação frequentemente têm orientações internas com linhas similares às da OMS.

Prevenção[editar | editar código-fonte]

O efeito Papageno é o efeito que mídia de massa pode ter ao apresentar alternativas não suicidas a crises. Seu nome se deve ao personagem abandonado, Papageno, da ópera A Flauta Mágica, do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart do século XVIII. Este personagem estava quase cometendo suicídio até outros personagens lhe mostrarem uma maneira diferente de resolver seus problemas.[11]

Existem mais pesquisas ao redor dos danos causados pelas "reportagens irresponsáveis" da mídia do que ao redor dos efeitos protetivos de histórias positivas, mas quando jornais se recusam a publicizar eventos suicidas ou mudar a maneira que provêm informações sobre esses eventos, o risco de suicídios copiados diminui.[11]

13 Reasons Why[editar | editar código-fonte]

Um caso recente no cenário mundial que levantou o debate sobre o efeito Werther foi a série 13 Reasons Why da Netflix. No último episódio da série, é exibida a cena de suicídio da adolescente Hannah cheia de detalhes, de forma explícita e metódica. Embora a série tenha uma avaliação positiva do público geral, a série é acusada de não levar em conta o perigo para os grupos vulneráveis ao exibir a cena em si.[29]

Entretanto, o Centro de Valorização da Vida (CVV) declarou que o número de emails com pedidos de ajuda subiram 445% (de 55 por dia para mais de 300 por dia) depois da estreia da série. O tráfego no site aumentou 170% (de 2500 visitas por dia para 6770 visitas por dia em abril).[30] De acordo com Carlos Correia, voluntário do CVV, diversas vezes a série é mencionada no atendimento.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Centro de Valorização da Vida - Ligue 141

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b Schmidtke, A; Häfner, H. (1988). «The Werther effect after television films: new evidence for an old hypothesis». Psychol Med. (em inglês). 18 (3): 665-676. PMID 3263660. doi:10.1017/s0033291700008345 
  2. Loureiro, Gabriela (28 de novembro de 2014). «A era da auto destruição». Revista Galileu 
  3. O'Connor, Rory C.; Nock, Matthew K. (30 de abril de 2014). «The psychology of suicidal behaviour» (PDF). 1 (1): 73–85. doi:10.1016/S2215-0366(14)70222-6 
  4. a b Golman, D. (18 de março de 1987). «Pattern of Death: Copycat Suicides among Youths». New York Times. Consultado em 21 de abril de 2011 
  5. Mesoudi, A (2009). «The Cultural Dynamics of Copycat Suicide.». PLoS ONE. 4 (9): e7252. PMC 2748702Acessível livremente. PMID 19789643. doi:10.1371/journal.pone.0007252 
  6. a b c d Meyers, David G. (2009). Social Psychology (10th Ed). New York: McGraw Hill. ISBN 978-0-07-337066-8 
  7. Brown, Peter Hume (1913). The youth of Goethe (em inglês). Londres: J. Murray. p. 197. 329 páginas 
  8. Colt, George Howe (2006). November of the Soul - The enigma of Suicide (em inglês). Nova Iorque: Scribner. p. 87. 640 páginas. ISBN 0-7432-8202-7 
  9. «Preventing suicide: A report for media professionals» (PDF) (em inglês). World Health Organization. 2000. Consultado em 9 de junho de 2007 
  10. DeWyze, Jeannette (31 de março de 2005). «Why Do They Die?». San Diego Reader. Consultado em 29 de abril de 2017 
  11. a b c d e f Sisask, Merike; Värnik, Airi (4 de janeiro de 2017). «Media Roles in Suicide Prevention: A Systematic Review». International Journal of Environmental Research and Public Health. 9 (1): 123–138. ISSN 1661-7827. PMC 3315075Acessível livremente. PMID 22470283. doi:10.3390/ijerph9010123 
  12. Mulvihill, Geoff (11 de novembro de 2010). «Experts Fear Copycat Suicides After Bullying Cases.». ABC News. Consultado em 29 de abril de 2017. Arquivado do original em 14 de novembro de 2010 
  13. Phillips, David P. (1982). «The Impact of Fictional Television Stories on U.S. Adult Fatalities: New Evidence on the Effect of the Mass Media on Violence». The American Journal of Sociology. 87 (6): 1340–1359. doi:10.1086/227596 
  14. a b Stack, Steven (1996). «The effect of the media on suicide - evidence from Japan, 1955-1985». Suicide Life Threat Behav. 26 (2): 132–142. PMID 8840417 
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  16. Etzersdorfer, E.; Voracek, M.; Sonneck, G. (2004). «A dose-response relationship between imitational suicides and newspaper distribution». Arch Suicide Res. 8 (2): 137–145. PMID 16006399. doi:10.1080/13811110490270985 
  17. Stack, Steven (2002). «Media coverage as a risk factor in suicide». Inj. Prev. 8: IV30–2. PMC 1765497Acessível livremente. PMID 12460954 
  18. Jobes, D.; Berman, A.; O'Carroll, P.; Eastgard, S. (1996). «The Kurt Cobain suicide crisis: Perspectives from research, public health and the news media». Suicide and Life-Threatening Behavior. 26 (3): 260–271 
  19. Scherr, S.; Reinemann, C. (2011). «Belief in a Werther effect. Third-Person effects in the perceptions of suicide risk for others and the moderating role of depression». Suicide and Life-Threatening Behavior. 41 (6): 624–634. doi:10.1111/j.1943-278X.2011.00059.x 
  20. Sullivan, G. (2007). «Should Suicide Be Reported in the Media? - A Critique of Research» (PDF) 
  21. Bertolote, J. M.; Fleischmann, A.; De Leo, D.; Wasserman, D. (2004). «Psychiatric diagnoses and suicide: revisiting the evidence». Crisis. 25 (4). pp. 147–155. PMID 15580849. doi:10.1027/0227-5910.25.4.147 
  22. Arsenault-Lapierre, G.; Kim, C.; Turecki, G. (2004). «Psychiatric diagnoses in 3275 suicides: a meta-analysis». BMC Psychiatry. 4: 37. PMC 534107Acessível livremente. PMID 15527502. doi:10.1186/1471-244X-4-37 
  23. Cialdini, Robert B. (1993). Influence: the psychology of persuasion. New York: Morrow. p. 336. ISBN 0-688-12816-5 
  24. Hamzelou, J. (2009). «Copycat suicides fuelled by media reports.». Newscientist. Consultado em 21 de abril de 2011 
  25. «Codes by Country». EthicNet. Consultado em 30 de abril de 2017 
  26. «The National Code of Conduct of Denmark». Consultado em 30 de abril de 2017 
  27. «The National Code of Conduct of Germany». Consultado em 30 de abril de 2017 
  28. «Prevenção do Suicídio: Um manual para profissionais da mídia» (PDF). Genebra: Organização Mundial da Saúde. 2000. Consultado em 30 de abril de 2017 
  29. Martins, Pedro (24 de abril de 2017). «13 Reasons Why - "Culpar série por suicídio é como culpar termômetro pela febre", diz psicóloga». Omelete. Consultado em 30 de abril de 2017 
  30. «Série da Netflix aumenta busca por ajuda contra suicídio em 445%». Exame. 11 de abril de 2017. Consultado em 30 de abril de 2017 
  31. Ristow, Fabiano; Brandão, Liv (11 de abril de 2017). «'13 reasons why' vira alvo de polêmica e levanta a questão: como a ficção deve abordar o suicídio?». O Globo. Consultado em 30 de abril de 2017