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Emílio Mallet

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Barão de Itapevi
Marechal Emílio Luís Mallet
Marechal Mallet
O Barão de itapevi
Patrono da arma de artilharia do Exército Brasileiro
Nascimento10 de junho de 1801
Dunquerque, França
Morte2 de janeiro de 1886 (84 anos)
Rio de Janeiro, Brasil
CidadaniaBrasil
CônjugeJoaquina Castorina de Medeiros Mallet
Filho(a)(s)•Marechal João Nepomuceno de Medeiros Mallet
•Tenente-coronel Antônio Júlio de Medeiros Mallet
•Tenente-coronel Pedro Félix de Medeiros Mallet
•Emilia de Medeiros Mallet
OcupaçãoMilitar
Serviço militar
Lealdade Império do Brasil
Serviço Exército Imperial Brasileiro
Tempo de serviço1822-1831
1837-1845
1851-1886
Patente Marechal
Batalhas/GuerrasGuerra da Cisplatina
Guerra dos Farrapos
Guerra do Prata
Guerra do Uruguai
Guerra do Paraguai
Condecorações

Brasão do barão de Itapevi
Assinatura
Assinatura de Emílio Luís Mallet

Émile Louis Mallet, mais conhecido como Marechal Emílio Mallet, o Barão de Itapevi (Dunquerque, 10 de junho de 1801 — Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 1886), foi um militar brasileiro nascido na França. Homem de grande porte físico, com 2,01 metros de altura e 120 Kg de peso. É Patrono da Artilharia do Brasil e na data de seu nascimento é comemorado o Dia da Artilharia.[1]

Biografia

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O então tenente-coronel Emilio Luiz Mallet, comandante do 1º Regimento de Artilharia a Cavalo.

Mallet veio para o Brasil com a família aos 17 anos de idade,[2] fixou-se na então capital do Império. Na cidade Rio de Janeiro, recebeu, do Imperador Dom Pedro I – que estava reorganizando o Exército após a proclamação da Independência do Brasil –, convite para iniciar a carreira das Armas, na qual iria se consagrar como um dos maiores heróis da história militar brasileira.[3] Matriculou-se na Academia Real Militar do Império,[4] assentando praça como primeiro cadete em 13 de novembro de 1822. Em breve, optaria pela formação no curso de Artilharia.

Como 2º tenente, Mallet comandou uma bateria de Artilharia a Cavalo na Campanha da Cisplatina, de 1825 a 1828. Recebeu seu batismo de fogo em Passo do Rosário pela bravura demonstrada, sendo promovido a Capitão.[5] Ao término do conflito, em Bagé no Rio Grande do Sul casou-se com Joaquina Castorina de Medeiros Mallet, filha de um abastado estancieiro, parente próximo do mais tarde Marechal Manuel Luís Osório, seu amigo e companheiro por décadas no Exército. Mallet teve quatro filhos: três homens e uma mulher. Entre os filhos homens, destacaram-se o tenente-coronel Pedro Félix de Medeiros Mallet, o tenente-coronel Antônio Júlio de Medeiros Mallet e o marechal João Nepomuceno de Medeiros Mallet[6][3][7][4][8][5] Embora tenha jurado a Constituição do Império em 1824, foi demitido do serviço ativo em 1831, por "não ser brasileiro nato", e dedicou-se à agricultura em Bagé. No entanto, em 1837, no decorrer da Revolução Farroupilha, foi convidado a servir sob as ordens do General Antônio Elisário de Miranda e Brito, na condição de Comandante de uma Bateria a Cavalo. Coube-lhe fortificar a vila de Rio Grande, objetivo estratégico dos farroupilhas, recebendo, por tal feito, o título de Major da Guarda Nacional, função privativa de brasileiros natos. Mais tarde, por decisão do Duque de Caxias, veio a ser Chefe de Estado-Maior de Bento Manuel Ribeiro. Após a[5] assinatura da Paz de Ponche Verde, em 1 de março de 1845, Mallet retornou a atividades pastoris como oleiro em sua chácara no Quebracho, em Bagé.

Fotografia tirada em Montevidéu (1865), na Campanha do Uruguai, quando tenente-coronel e comandante do 1.° regimento de artilharia-a-cavalo

A reintegração definitiva de Mallet ao Exército Imperial após longos anos afastado ocorreu em 1851, quando foi convocado por Caxias para participar da Campanha contra Manuel Oribe e Juan Manuel Rosas, na chamada Guerra do Prata. Reiniciou-se, assim, sua brilhante trajetória profissional, durante a qual deu inúmeras mostras de ser um soldado de sangue frio, astuto e valente. Em todos os combates de que participou, fez-se respeitado pela tropa, pelos aliados e pelos inimigos.[9]

Mallet combateu ainda na Guerra contra Aguirre e na Guerra do Paraguai. Nesta, à frente do 1º Regimento de Artilharia a Cavalo, teve participação fundamental na vitória no Passo da Pátria, no Estero Bellaco e em Tuiuti.[3][10]

Em Tuiuti, a maior batalha campal da América do Sul, suas bocas-de-fogo foram batizadas "artilharia revólver",[9] tal a precisão e a rapidez de seus fogos. Ainda nessa batalha, a previsão e a criatividade do chefe militar assegurou importante vitória do Exército Imperial. O profundo fosso que Mallet fez construir para proteção de suas peças constituiu-se em eficiente obstáculo que impediu o avanço da tropa inimiga. Esse fato passou para a História com a célebre frase do Comandante da Artilharia Brasileira: "Eles que venham. Por aqui não passarão." Em 20 de agosto de 1866, por ato de bravura em Tuiuti, ocorreu sua promoção ao posto de Coronel.[1][10][3]

Regimento Mallet, Passo d'Areia, Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Mallet foi, posteriormente, alçado à função de Comandante da 1ª Brigada de Artilharia e continuou apoiando as ações das forças aliadas nas Batalhas de Humaitá, Piquiciri, Angustura, Lomas Valentinas, e Campo Grande.

Durante a Campanha da Cordilheira, na fase final do conflito, foi Mallet o comandante-chefe do comando-geral de artilharia do Exército. Finda a campanha, por merecimento, ascendeu ao posto de Brigadeiro. Em janeiro de 1879, foi promovido a Marechal-de-Campo; em 11 de outubro de 1884, a Tenente-General e, finalmente, em 15 de julho de 1885, a Marechal-de-Exército. Permaneceu no serviço ativo até então, vindo a falecer em 2 de janeiro de 1886, no Rio de Janeiro, aos 84 anos. Sua invencível espada encontra-se no museu João Pedro Nunes, na cidade de São Gabriel. A espada de gala encontra-se no Museu Marechal Mallet, Santa Maria - RS. Hoje, seus restos mortais repousam em mausoléu, sob os cuidados do 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado – o Regimento Mallet – situado em Santa Maria.[10][1][3]

A vida militar de Mallet

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1 — A vocação

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O jovem Emílio Luiz Mallet (Emílio Luís Mallet), caçula do esforçado casal francês que passara a infância na terra natal, no contato com os prazeres marinhos ao longo das praias flamengas e normandas, já que seu pai ali exercera o ofício de armador de navios, estudou humanidades, em Bruges, Bélgica francesa, no Liceu Deschamps, onde conquistou a disputada láurea, a valiosa medalha Grand-Prix de Tête. Depois, em 1817, ingressou na Escola Militar de Saint-Cyr, concluindo, no seu primeiro ano, o curso de Matemática. Não pôde, porém, prosseguir os estudos em virtude da mudança da família Mallet para o Brasil.[10]

Aceitando o convite de D. Pedro, em 13 de novembro de 1822, Mallet verifica praça de 1º Cadete e começa uma carreira inteiramente dedicada à sua nova Pátria.[10]

Eis os termos de seu primeiro requerimento:

“Diz Emílio Luiz Mallet, de nação francesa, que achando-se nesta Corte em companhia de sua família, que aqui se acha estabelecida com um Colégio de Educação, como atesta o Cônsul aqui residente, e contemplando o suplicante já este país por pátria, visto não pretender regressar ao seu natal, e desejando prestar-se ao país que tem adotado por pátria, oferece-se a Vossa Majestade Imperial para alistar-se no Regimento de Artilharia Montada desta Corte na praça de primeiro Cadete: obtendo de Vossa Majestade Imperial a graça de o dispensar de provas e habilitações, pois tem a seu favor o ter estudado as matemáticas na Escola Militar da França, por isso P. a Vossa Majestade Imperial a graça de lhe abrir sua praça no referido Regimento de Artilharia Montada e sobre praça de Cadete. E.M.R. Concedido. Expediu-se a ordem em 11 de novembro de 1822.”[10]

Abaixo assinado de Emílio Luís Mallet ao Consul general da frança no Brasil

Sua fé de ofício nos informa sobre o jovem francês ao ingressar em nosso Exército:[10]

“Emílio Luiz Mallet, filho de Mr. Mallet, idade ao assentar praça vinte e dois anos, altura setenta e três polegadas, cabelos castanhos, olhos azuis, natural de Dunquerque, assentou praça a treze de novembro de primeiro Cadete, em consequência da Portaria da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra de onze de novembro, comunicado em ofício do Quartel-General de treze do mesmo mês, tudo de mil oitocentos e vinte e dois, ficando dispensado das provas e habilitações do estilo.”³[10]

No ano seguinte, matriculava-se na Academia Militar do Império e, como possuísse o Curso Básico de Humanidades e o de Matemática, foi-lhe dado acesso ao de Artilharia, que concluiu em dois anos, pelo Estatuto de 1810. A 12 de outubro de 1823, data aniversária do governante brasileiro, era Mallet nomeado 2º Tenente de Artilharia, sendo mandado servir na Companhia de Mineiros do Corpo de Artilharia Montada da Corte, como agregado, podendo, assim, prosseguir na Academia o Curso de Engenharia Militar, no qual se achava matriculado. Como preferisse, no entanto, não só servir na tropa, mas também exercer as funções de oficial na Brigada de Artilharia a Cavalo, onde verificara sua primeira praça, pediu transferência para aquela Unidade:[10]

“Senhor, Diz Emílio Luiz Mallet, Segundo-Tenente do Regimento de Artilharia da Corte que ele suplicante assentou praça voluntariamente de Cadete nas Brigadas de Artilharia a Cavalo da Corte, aonde serviu a Vossa Majestade e à Nação, até que obteve em concurso, o posto que atualmente tem; como porém o suplicante tinha os maiores desejos em continuar a servir nas Brigadas de Artilharia a Cavalo; roga a Vossa Majestade Imperial que haja por bem que o suplicante continue a fazer o serviço de Oficial no referido corpo, na qualidade de agregado. Peço a Vossa Majestade Imperial haja por bem de deferir ao suplicante como requer. Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1823 Emílio Luiz Mallet - Segundo-Tenente.”[10]

Ali jurou a Constituição do Império confirmando, assim, a nacionalidade brasileira, adquirida ao ser-lhe concedida a praça de 1º Cadete.[10]

Mallet nunca naturalizou-se. Foi reconhecido como possuidor de nossa nacionalidade pelo Conselho Supremo Militar. A 17 de fevereiro de 1825 era promovido ao posto de 1º Tenente, por estudos, continuando a cursar a Academia, a fim de concluir o currículo almejado. Mallet era um entusiasta fervoroso da causa de nossa Independência e, à sombra dessa dedicação, torna-se para sempre, até a morte, Soldado do Brasil. Inteligente, culto, trabalhador e extremamente dedicado, foi-lhe, apesar disso, difícil subir os degraus da escala hierárquica. Nem os percalços naturais da carreira, nem a ingratidão dos homens puderam entretanto arrefecer seu ânimo; e nada o impediu de atingir os pináculos da carreira que, por vocação, abraçara.[10]

1 — NOTAS (Livro: Mallet, o patrono da artilharia)

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  1. Prof. P. J. de Mallet Joubin: “Os Pais do Marechal Mallet”.
  2. Hoje Evaristo da Veiga.
  3. Sua altura fora do comum é aqui revelada: 73 polegadas portuguesas, que transformadas em medida do sistema métrico decimal assinala dois metros!

2 — O batismo de fogo na campanha de 1827

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A incorporação da Banda Oriental ao Brasil como Província Cisplatina gerou resistência local, devido à predominância da cultura e língua castelhana na região. Em 1825, forças lideradas por Lavalleja, com apoio de Buenos Aires, iniciaram movimento pela independência, levando à declaração de guerra entre o Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata. Iniciou-se a campanha de 1827, Em 1826, tropas argentinas atravessaram o Rio Uruguai e avançaram pelo território da Cisplatina, reunindo contingente significativo. O comando passou ao general Alvear, que organizou cerca de 12 000 homens. Do lado brasileiro, o comando foi assumido pelo Marquês de Barbacena. As operações navais tiveram resultados limitados, e as ações terrestres apresentaram dificuldades, com notícias de insucessos influenciando o cenário militar. Emílio Luiz Mallet integrava o 1º Corpo de Artilharia Montada do Rio de Janeiro, como 1º tenente, atuando junto às forças da 1ª Divisão do exército imperial. Na Campanha da Cisplatina, foi nesse contexto que o jovem Mallet teve sua primeira experiência bélica. A guerra lhe proporcionou não apenas a aquisição de prática militar, que continuaria a se desenvolver ao longo do tempo, mas também a oportunidade de manifestar a bravura que caracterizaria sua vida. Mallet, então ajudante do Corpo de Artilharia Montada da Corte, acompanhava, junto de seu comandante, o coronel João Carlos Pardal, este que depois de um tempo seria o então sogro de seu filho o João Nepomuceno de Medeiros Mallet, o embarque marítimo de quatro baterias destinadas à Campanha Cisplatina. Nessa ocasião, o imperador D. Pedro I, ao inspecionar as tropas que embarcavam, destituiu do comando da 1ª bateria o respectivo capitão e determinou que o Tenente Mallet, presente no momento, assumisse imediatamente essa função.[10]

Em consequência desse episódio, Mallet seguiu para o sul, dirigindo-se a Santana do Livramento, local onde se concentrava o exército sob comando do Brigadeiro Massena Rosado, destinado a enfrentar as tropas argentinas e uruguaias comandadas por Alvear e Lavalleja. Sob o comando do Capitão Lopo Botelho, Mallet integrou a ala do 1º Corpo de Artilharia Montada do Rio de Janeiro, que dispunha de seis canhões de seis libras e dois obuses de cinco polegadas e meia. Posteriormente, essa força foi reforçada por elementos do 4º Corpo de Artilharia de Posição de Santa Catarina, igualmente armados com canhões de seis libras e comandados pelo Major Francisco Samuel da Paz, formando, assim, a artilharia do exército de Barbacena, sob o comando geral do coronel Thomé Joaquim Madeira. De acordo com a doutrina vigente na época, a artilharia não era empregada de forma concentrada, mas distribuída entre divisões e brigadas, em baterias de duas a quatro peças, posicionadas na linha de frente para reforçar o fogo dos batalhões.[10]

Na batalha do Passo do Rosário, coube ao Tenente Mallet o comando de uma bateria de duas peças, colocada no flanco direito, junto às tropas da 1ª Divisão, comandada pelo General Sebastião Barreto. Após o combate, acompanhou os deslocamentos dessa unidade durante o retraimento para Cacequi. Sua atuação ao longo da luta foi destacada por seus chefes e companheiros de armas. O Tenente-General Marquês de Barbacena, comandante-chefe, promoveu-o a capitão no próprio campo de batalha, elogiando sua bravura, calma e sangue frio, promoção posteriormente confirmada por decreto imperial de 12 de outubro de 1827. Esse episódio representou não apenas seu batismo de fogo, mas também o início de uma carreira militar considerada brilhante. Na mesma campanha, nas operações realizadas na fronteira de Jaguarão contra as tropas de Lavalleja, Mallet, já capitão e com uma bateria de seis canhões, permaneceu integrado à 1ª Divisão do General Sebastião Barreto, marchando na vanguarda. Em agosto de 1828, encontrava-se acampado às margens do arroio Candiota, na fronteira de Bagé. Nessa ocasião, as tropas brasileiras avançavam de posição em posição, atravessando coxilhas e campos alagados, enfrentando privações e vigilância constante sob as condições de um rigoroso inverno. [10]

Com o término da guerra, em agosto de 1828, as baterias do 1º Corpo de Artilharia da Corte recolheram-se a Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. Em junho de 1829, Mallet passou a servir na Corte, mas logo retornou ao sul, em serviço de sua unidade. Ligado ao Rio Grande do Sul, Mallet manifestou o desejo de permanecer na região e, em 23 de maio de 1830, requereu seu aproveitamento no Corpo de Artilharia-a-Cavalo que o governo pretendia organizar naquela província. O Marechal-de-Campo Gustavo Henrique Braun, então comandante das armas da província, que já conhecia Mallet desde o Passo do Rosário, destacou, em informação ao Ministro da Guerra, suas qualidades, considerando-o oficial inteligente e ativo, adequado às exigências da artilharia leve.[10]

Desde campanhas anteriores, especialmente as de 1811 e 1816–1820, já se evidenciava a necessidade da existência de um Corpo de Artilharia-a-Cavalo, recomendada em relatórios oficiais. A Campanha de 1827 reforçou ainda mais essa exigência, em razão da mobilidade dessa arma, que permitia acompanhar a cavalaria e atuar em diferentes pontos do campo de batalha. Apesar disso, o Corpo de Artilharia-a-Cavalo do Rio Grande do Sul só foi efetivamente criado por decreto de 4 de maio de 1831, com sede em diversas localidades, utilizando pessoal e material provenientes da Artilharia Montada da Corte, que foi então desmobilizada. A participação de Mallet nessa campanha constituiu seu primeiro combate militar, marcando o início de sua atuação em operações de guerra no Exército Imperial.[10]

2 — NOTAS (Livro: Mallet, o patrono da artilharia)

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  1. Mallet ingressou na carreira militar ainda jovem, alistando-se em 1809 na Brigada Real de Marinha e, posteriormente, integrando o Regimento de Artilharia da Corte como aluno da Real Academia Militar. Participou de ações militares ainda no período colonial, incluindo a repressão à Revolução Pernambucana de 1817, e, após a Independência, incorporou-se ao Exército Brasileiro.
  2. Durante a campanha no sul, estabeleceu relações importantes dentro do meio militar, como sua amizade com Manoel Luís Osório, com quem conviveu ainda como jovem oficial antes de entrar em combate. Esse período marcou sua inserção prática no ambiente de guerra.
  3. As notas também evidenciam aspectos técnicos ligados à atuação de Mallet na artilharia. Destaca-se o uso de armamentos da época, definidos pelo peso dos projéteis, e o emprego de obuses e canhões em operações de campanha. Além disso, registra-se que Mallet teve contato com a utilização de carvão mineral em atividades da artilharia, empregando-o nas forjas e no aquecimento de equipamentos militares durante operações no sul.
  4. Por fim, o contexto apresentado reforça que sua formação e experiências iniciais ocorreram em meio a transformações militares e organizacionais do Exército, incluindo o desenvolvimento da artilharia móvel (artilharia a cavalo), essencial para acompanhar tropas em diferentes terrenos — elemento que marcaria sua atuação futura e sua importância histórica na arma de artilharia brasileira.

3 — Abdicação de Dom Pedro I e a vida civil de Mallet

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Com a abdicação de Dom Pedro I, Emílio Luís Mallet foi expulso da vida militar por ser Francês e não Brasileiro nato. Por isso, Mallet voltou-se à vida civil. Sem queixas ou recriminações, entra Mallet na vida civil, fato rotineiro entre os que abraçam a carreira das armas e que, através dos tempos, transformou-se em verdadeira contingência dos que, por um motivo ou outro, têm de deixar a espada para empunhar um arado ou uma pena.[10]

Mallet, que se casara com D.ª Joaquina Castorina de Medeiros, filha do Coronel Antônio de Medeiros Costa, abastado fazendeiro na região de Bagé, assume logo, em Quebracho a direção de uma das fazendas de seu sogro, onde se entrega às atividades rurais, identificando-se rapidamente com os usos e costumes do Rio Grande do Sul, onde iria se radicar. Sua condição de antigo oficial do Exército e de homem de largos horizontes torna-o pessoa altamente conceituada em Bagé, e logo o empolga a condição de verdadeiro conselheiro de seus concidadãos que, com frequência, a ele recorrem, em busca de informações e de opiniões que possam ilustrar seus projetos e aspirações.[10]

Na comunidade é reconhecido como elemento de cultura superior, com a mente orientada para o progresso e para a civilização.E a confiança nele depositada não tardou a frutificar. Além de introduzir o plantio da alfafa na região, Mallet monta na fazenda do Quebracho uma olaria, onde passa a fabricar tijolos e telhas, que iriam transformar o casario de taipa, coberto de palha, da primitiva Vila de Bagé, em convencionais casas de alvenaria, plantadas ao longo de ruas retas e largas, inaugurando uma fase de franca urbanização. Nos fornos e caieiras dessa olaria, Mallet passa a queimar, como já o fizera nas forjas da artilharia, o mesmo carvão do Candiota, encontrado à flor da terra, e que faz transportar para o local. Assim, em vez de abater o ânimo do grande soldado, vai a vida civil proporcionar a Mallet a oportunidade de se revelar não só como agricultor, mas também como um dos primeiros industriais daquela área, ainda quase selvagem. Na verdade, aquela rudimentar indústria de material de construção era uma das poucas exeqüíveis naquele tempo e naquele meio, e correspondia a uma das necessidades mais elementares de uma população submetida, durante a maior parte do ano, ao clima severo e inclemente do pampa gaúcho. Mais de vinte anos Mallet ficaria fora do Exército que iria, em dias difíceis, apelar para seu patriotismo e amor à carreira clamando pela necessidade de aplicar seus conhecimentos militares e sua bravura na defesa da pátria ameaçada.[10]

3 — NOTAS (Livro: Mallet, o patrono da artilharia)

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  1. Prof. Pedro Jacinto de Mallet Joubin. ''Mallet, Soldado da Fronteira''

4 — Mallet na guerra dos farrapos ''O fantasma separatista''

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Tão injustamente afastado do Exército que tanto amava, despe Mallet a farda, embainha a espada e começa vida nova, dedicando-se a atividades rurais em uma das fazendas de seu sogro, nos arredores de Bagé. Poucos anos se passaram quando os gaúchos, desgostosos com os pesados impostos, com o recrutamento e com o mau governo das autoridades provinciais, que acusavam de reacionários, os liberais rio-grandenses procuraram ganhar a autonomia de sua província.¹ Estimulava-os a influência dos povos vizinhos, principalmente os uruguaios, cujos caudilhos, muitas vezes ligados por parentesco aos gaúchos, propagavam ideias federalistas. A luta entre conservadores e liberais agravara-se com a política desastrosa do Governador Fernandes Braga. A situação se deteriorou e, a 20 de setembro de 1835, irrompeu em Porto Alegre, o movimento, chefiado por Bento Gonçalves da Silva, alastrando-se por toda a província.²[10]

O Império, mais uma vez, viria a precisar dos serviços do ilustre soldado, na Revolução Farroupilha que ensanguentou o Rio Grande durante dez longos anos, de 1835 a 1845. Emílio Luiz Mallet, militar de carreira por vocação, preocupado com a unidade da grande Nação Brasileira, sua nova pátria, consagra-se à causa da legalidade, ao lado de seu sogro — Coronel Antônio de Medeiros Costa,³ veterano das Campanhas da Cisplatina e chefe político local. Este não se omitiria e se apressa em reunir forças na fronteira — tropas de 2.ª linha — prontas para dar combate à Revolução.[10]

Os conhecimentos militares de Mallet seriam de imensa valia na organização dessa aguerrida coluna, particularmente por contar com o concurso inestimável do Tenente Manuel Luiz Osório. E durante o decênio farroupilha, seus serviços são disputados pelos chefes militares que exerceram comandos na província. Diogo Antônio Feijó que, a esse tempo, pela minoridade de D. Pedro II, assumira o governo do país, preocupado com a agitação no Pará, não dispunha de recursos militares para atender à luta no Sul. José de Araújo Ribeiro, entretanto, nomeado para substituir o presidente deposto no Rio Grande, com seu espírito conciliador, reuniu elementos favoráveis à legalidade e conseguiu mesmo que o melhor chefe dos revoltosos, Bento Manuel Ribeiro, passasse para o lado do governo. Pouco depois os imperiais retomavam Porto Alegre, e Bento Ribeiro, em frente à ilha do Fanfa, derrotava os revoltosos, fazendo prisioneiro o próprio chefe farroupilha Bento Gonçalves.⁴ Parecia que a revolução chegara ao fim, mas o governo cometeu o erro de substituir o moderado e hábil Araújo Ribeiro por outro presidente que logo se incompatibilizou com Bento Manuel, levando-o a voltar às fileiras dos revoltosos. A luta reanimara-se e, vitoriosos os farrapos em Seival, Antônio de Souza Netto⁵ proclamou a República de Piratini.⁶ Bento Gonçalves, escolhido para presidente, estava preso no Forte do Mar, na Bahia, mas conseguiu fugir para o Rio Grande, assumindo seu posto na Revolução.[10]

Em 1837, o General Antônio Elzeário de Miranda e Brito,⁷ que já conhecia Mallet por sua atuação brilhante na batalha de Passo do Rosário, convidou-o para servir sob suas ordens, entregando-lhe o comando de uma bateria do Corpo de Artilharia-a-Cavalo, que contribuiria para a defesa da cidade do Rio Grande. Mallet dedica toda a sua competência e tirocínio à elaboração do Plano de Fortificação daquela praça. Foi Mallet, em seguida, nomeado Major da Guarda Nacional. [10]

Dominavam os Farrapos boa parte da província rio-grandense, quando mandaram a Santa Catarina uma expedição comandada por David Canabarro⁸ e da qual fazia parte o famoso republicano italiano Giuseppe Garibaldi.⁹ A reação do governo imperial tornou-se mais enérgica. Atacados por terra e por mar, os revolucionários foram repelidos de Santa Catarina e sofreram, em 1840, séria derrota em Taquari. Todavia, não desanimaram e, principalmente, com a vantagem de numerosa Cavalaria, continuavam a luta, em guerrilhas, sem resultado decisivo. Decidiu, então, o governo dar a Caxias a importante e árdua missão de pacificar e restabelecer a ordem na província convulsionada.¹⁰ Para isto todos os esforços eram válidos, e Mallet foi nomeado deputado do ajudante-general junto ao comandante da 1.ª Divisão, função que equivalia à de chefe do estado-maior dessa grande unidade.[10]

Caxias alcançou logo duas vitórias — Triunfo e Camaquã — e conseguiu que Bento Manuel voltasse ao Exército Imperial. Ao mesmo tempo, procurava convencer os revolucionários da necessidade de união dos brasileiros, dirigindo-lhes, em memorável proclamação, estas palavras patrióticas, sensatas e de rara beleza:[10]

“Lembrai-vos que a poucos passos de vós está o inimigo de nós todos, o inimigo de raça e de tradição. Não pode tardar que nos meçamos com os soldados de Rosas e de Oribe; guardemos para então nossas espadas e nosso sangue.'' - Duque de caxias

Vede que esse estrangeiro exulta com esta triste guerra, com que nós mesmos nos estamos enfraquecendo e destruindo.[10]

''Abracemo-nos e unamo-nos para marcharmos, não peito a peito, mas ombro a ombro, em defesa da pátria, que é nossa mãe comum!” - Duque de caxias

Não ouviram, entretanto, os rebeldes a exortação que o patriotismo de Caxias lhes ditava, e a luta ainda continuou. Em novos encontros — Poncho Verde, Piratini, Canguçu — foram derrotados pelos imperiais que não lhes davam trégua.¹¹ Finalmente, venceram a firmeza e a moderação de Caxias e, em 1845, o chefe dos farrapilhas, David Canabarro¹² concordava com as condições de paz oferecidas pelo grande chefe: anistia geral, libertação dos escravos que haviam servido como soldados da república, além de outras.¹³ Mais uma província do Império era pacificada pelo grande Caxias. E o que era mais importante: uma vez mais estava salva a unidade nacional — orgulho perene dos pósteros.[10]

Em 1845, ultima-se a paz no Rio Grande, exausto por seu exagerado esforço. E, no campo de Poncho Verde, David Canabarro adverte, numa proclamação célebre, seus companheiros de epopéia que “um poder estranho ameaça a paz do Império”. Caira-lhe a venda dos olhos. Esse poder é Rosas, Rosas diante de quem cinco anos mais tarde a Inglaterra e a França capitulariam, cedendo em tudo quanto exigira. A barbárie do pampa que ele representava quase estourou de orgulho.¹⁴ Durante todo esse tempo, teve Mallet a oportunidade de aprimorar suas qualidades de chefia e liderança, desenvolvendo sua aptidão como oficial de estado-maior, estudando, meditando e preparando as manobras que iriam conduzir sua divisão à vitória. O então Major da Guarda Nacional Emílio Luiz Mallet foi, ainda, o delineador, durante a Revolução Farroupilha, das trincheiras que protegiam a Vila de Rio Grande.¹⁵[10]

Foi este período precioso para a formação do futuro condutor de homens, que tantas vitórias iria proporcionar às armas do Brasil. Terminada a guerra civil, que por dez anos assolara a província rio-grandense, Mallet é, sem maiores explicações, dispensado de sua comissão no Exército. E seus serviços são de novo esquecidos, todos eles, desde que aqui chegou, cheio de sonhos, com a ideia fixa de ser oficial do Exército Brasileiro. Retorna, então, melancolicamente, ao trabalho em sua estância de Quebracho, em Bagé, que encontra quase devastada pelo abandono e pela guerra. Mas não desanima, e, com o mesmo vigor dos primeiros tempos, volta à luta, agora para vencer a paz.[10]

4 — NOTAS (Livro: Mallet, o patrono da artilharia)

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  1. “O rio-grandense vivia de armas às costas, espada na mão e pé no estribo, defendendo o Brasil contra o estrangeiro. Ao primeiro grito de alarma, quem primeiro acorria eram os filhos da província, os gaúchos. Eram eles que davam o sinal de rebate, a primeira carga, defendiam os lugares mais em perigo e tomavam sobre si as maiores responsabilidades da guerra, sempre de ânimo sereno, e eram os últimos a depor a espada e a lança lá nos seus ranchos, ao pé da cama, para retomá-las novamente ao primeiro grito de receio do Brasil.” (W. Spalding, “A Revolução Farroupilha”.)
  2. Este conflito, que durou um decênio, ficou conhecido como Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha. Farropo era a designação pejorativa dada pelos imperiais aos sediciosos, que por seu turno os chamavam de caramurus. Farroupilha é o mesmo que farrapo.
  3. Os parentes de Mallet eram todos liberais moderados e permaneceram fiéis ao governo central. Somente Ismael Soares, seu concunhado, e Manoel dos Santos Jardim, seu futuro genro, ambos capitães de milícias, aderem à revolução e incorporam-se às forças de Antônio de Souza Netto, o futuro proclamador da República Rio-Grandense (P. J. de Mallet Joubin).
  4. Em 4 de outubro de 1836 foram aprisionados no combate do Fanfa, no curso inferior do Jacuí, além de Bento Gonçalves, Onofre Pires e outros chefes.
  5. Antônio de Sousa Netto nasceu em Porto Novo, RS, em 1801. Coronel da Guarda Nacional, foi um dos principais chefes rebeldes da Guerra dos Farrapos: em 10 de setembro de 1836, derrotou as forças legalistas de Silva Tavares em Seival, proclamando, no dia 12, no Campo dos Menezes, a República Rio-Grandense. No posto de General comandou a tomada de Caçapava e o sítio de Porto Alegre, que durou quatro anos. Deputado à Constituinte Republicana, assumiu depois o Comando Geral do Exército Revolucionário, participando de todas as ações de guerra até a paz em 25 de fevereiro de 1845. Brigadeiro do Exército em 1852, tomou parte na intervenção brasileira no Uruguai (1864-1865) e na subsequente Guerra do Paraguai, integrando o Corpo-de-Exército de Osório: no comando de uma Brigada Ligeira de Voluntários transpôs o Passo da Pátria e lutou na Batalha de Tuiuti. Muito doente, recolheu-se logo depois ao Hospital Brasileiro de Corrientes, onde faleceu em 1.º de julho de 1866.
  6. Apesar de tal fato, afirma-se que a Guerra dos Farrapos não era propriamente separatista, mas federalista: Os rio-grandenses, dizia em 1838 Bento Gonçalves em seu manifesto, “solenemente proclamaram e juraram a sua independência política debaixo dos auspícios do sistema republicano, dispostos todavia a federar-se, quando nisso se acorde, às províncias irmãs” etc. (W. Spalding, op. cit.)
  7. Antonio Elzeário de Miranda e Brito nasceu em Lisboa, em 1786, e verificou praça em Portugal, tendo-se matriculado na Academia de Marinha, em 1802. Em 1808 passou a servir no Brasil, como Alferes, sendo logo depois promovido a 2.º Tenente e, em 1810, a 1.º Tenente. Em 1814 era Capitão. Sob as ordens do General Luiz do Rego Barreto combateu a Revolução Pernambucana de 1817. Em 1822, já Major, colocou-se a serviço da Independência sendo, logo depois, elevado a Tenente-Coronel. Em 1826 seguiu para o sul e tomou parte na Batalha de Passo do Rosário. Como Coronel foi Governador das Armas da Província do Maranhão, e em 1831 ainda no cargo, foi promovido a Brigadeiro.
  8. David Canabarro nasceu em Taquari, RS, em 22 de agosto de 1796. Batizado como David José Martins, por razões hoje controvertidas, mudou o nome para Canabarro. Participou ativamente da Guerra da Cisplatina e da Guerra dos Farrapos, de que foi um dos chefes mais destacados, “um de seus melhores chefes militares”; na qualidade de ministro da guerra dos Farrapos, em julho de 1839 ocupou Laguna, onde proclamou a República Catarinense ou Juliana, assim chamada pelo mês em que se estava. Pouco durou sua república, pois, em novembro as tropas legalistas do General Soares de Andréa, apoiadas pelos navios de Frederico Mariath e Grenfell, venceram seus efetivos e queimaram suas poucas embarcações na Lagoa Formosa. Registradas as sucessivas vitórias dos legalistas, em Poncho Verde, Piratini, Canguçu e Porongos, onde foi surpreendido por Chico Pedro, enviou um emissário ao Rio de Janeiro para as negociações de paz; concedida uma completa anistia aos farrapos, em 1.º de março de 1845, em duas proclamações, Canabarro e Caxias deram por terminadas as dissensões, que se tinham prolongado por dez anos. Coronel da Guarda Nacional da Província em 1851, na campanha desse ano e do seguinte contra Oribe e Rosas comandou a vanguarda do exército de Caxias, razão por que foi elevado a Brigadeiro honorário do Exército Imperial. Deflagrada a Guerra da Tríplice Aliança era comandante de fronteira, tendo-lhe sido dada a incumbência de organizar uma divisão ligeira de cavalaria. Invadido o Rio Grande do Sul, foi acusado de negligência no cumprimento do dever: já setuagenário, limitou-se a abandonar o campo de luta e recolher-se a uma sua fazenda, em Santana do Livramento, onde morreu em 12 de abril de 1867.
  9. Garibaldi começara a prestar serviço à Revolução Farroupilha com um pequeno navio — o Seival — com que empreendeu a guerra de corso; teve depois uma pequena flotilha, com que fez incursões até as costas de São Paulo. Invadindo Santa Catarina, os revolucionários proclamaram a República Juliana, que seria federada à do Rio Grande. A reconquista de Santa Catarina foi feita pelo General Andréa, sendo notável o combate naval pela defesa de Laguna (15-11-1839). (Rio Branco, “Efemérides Brasileiras” e W. Spalding, op. cit.). Foi também notável entre os revolucionários Tito Livio Zambeccari, exilado político italiano, grande amigo de Bento Gonçalves e com ele prisioneiro no Fanfa.
  10. Por decreto de 21 de março de 1836, a Regência mandou dissolver os corpos que haviam tomado armas a favor dos republicanos gaúchos, os quais eram: 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, o 8.º Batalhão de Caçadores, 2.º, 3.º e 4.º Corpos de Cavalaria. Em 10 de julho do mesmo ano, porém, o ministro da guerra, em nome do Regente Feijó, deixava “ao prudente arbítrio do presidente da província a dissolução de tais corpos, por já ter o 8.º de Caçadores voltado à causa da legalidade”. Não chegou, por isso, a ser dissolvido o Corpo de Artilharia-a-Cavalo.
  11. “Incapazes de fazer frente para resistir, não logravam reunir-se, e apenas conseguiam vaguear pelas campanhas, em grupos de 30 e 40 cavaleiros, com as lanças imperiais a ameaçarem-lhes as costas” (Calógeras: “Formação Histórica do Brasil”).
  12. O valente chefe farroupilha, quando Caxias dirigia o Exército Pacificador, teve de Rosas oferecimento de auxílio de tropas; mas repeliu indignado a oferta do déspota argentino com estas nobres palavras: “Senhor, o primeiro soldado de vossas tropas que atravessar a fronteira, fornecerá o sangue com que será assinada a paz de Piratini com os imperiais. Acima de nosso amor à república, colocamos o nosso brio, a integridade da pátria. Se puserdes agora os vossos soldados na fronteira, encontrareis, ombro a ombro, os soldados de Piratini e os soldados do Senhor D. Pedro II.”
  13. Os chefes farroupilhas conservariam as honras de seus postos, e seriam isentos do serviço militar todos os que tivessem pertencido às forças republicanas.
  14. Gustavo Barroso: “História Militar do Brasil”.
  15. Estas trincheiras forneceram, mais tarde, o material para a construção do histórico prédio que, presentemente, abriga a unidade de Artilharia sediada naquela cidade, o 7.º Grupo de Artilharia-de-Campanha.

5 — Mallet na guerra do prata (1851-2)

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O Uruguai, após sua independência, era frequentemente agitado pelas lutas civis, o que trazia quase sempre não pequenos prejuízos a nossos patrícios seus vizinhos. Mais sérias tornaram-se essas lutas depois que a Argentina ficou sob o governo de Rosas,¹ que planejava submeter aquele país e o Paraguai, para restabelecer o antigo Vice-Reinado do Prata. Nos termos do Tratado de Paz de 28 de agosto de 1828, a intervenção do ditador de Buenos Aires na guerra civil uruguaia arrastava o Brasil à guerra. Não era somente pelos saques, depredação de estâncias e mortes que as forças dos litigantes faziam no Rio Grande, transpondo as fronteiras em suas campanhas; mas os indiscutíveis interesses brasileiros no Prata, porta única para o então mais prático acesso às longínquas terras de Mato Grosso, nos obrigavam a velar pela independência uruguaia.² Iniciou-se a campanha contra Oribe. O poder, no Uruguai, era disputado por dois partidos: os blancos,³ partidários do General Oribe,⁴ e os colorados, do General Rivera. O ditador Rosas, que odiava a Rivera pela acolhida dada por este a seus inimigos políticos, enviou forças a Oribe que sitiou Montevidéu por nove anos e bateu, em Arroio Grande, os colorados.⁵ As incursões da gente de Oribe nas fronteiras sulinas e as naturais represálias dos rio-grandenses,⁶ apesar da diligência das autoridades do Império para impedi-las, deram ensejo a um incidente diplomático com a Argentina que estranhamente reclamara contra aqueles acontecimentos; entretanto representações nossas ao governo uruguaio encontravam repulsas.[10]

Guerra Oribe e rosas

A esse tempo Urquiza,⁷ governador da província argentina de Entre-Rios, havia-se revoltado contra Rosas; o Império, que rompera as relações diplomáticas com o governo de Buenos Aires, celebrou com Urquiza e com os colorados um acordo para combater Oribe; se Rosas apoiasse o caudilho blanco, a guerra seria também com ele. Com a guerra às portas do Império, o governo nomeou o Conde de Caxias Comandante-Chefe de nosso Exército na fronteira, o Chefe-de-Esquadra Grenfell comandante da frota destinada a operar no Prata e, como Urquiza vacilasse, notificou-lhe “que, agora, com ele, sem ele ou contra ele, entraria em campanha”.⁸ Ao passar por Bagé, Caxias convida Mallet para participar da campanha que se começava a empreender, e oferece-lhe o comando do 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo. Embora continuasse fora do quadro efetivo do Exército, uma vez mais, Mallet tudo abandona para seguir seu instinto de verdadeiro soldado, cuja preocupação maior é a segurança da pátria ameaçada. Larga sua querência e, imediatamente, toma o caminho de São Gabriel, parada de sua nova unidade. E com a rapidez exigida pela situação, lança mão dos meios de que dispõe e os prepara para a campanha. Mobiliza e apresta 600 homens que iriam manejar 19 bocas-de-fogo de calibre 12, 12 de calibre 6 e um obus de 5 1/2 polegadas.[10]

Com o velho Emílio, pela primeira vez, seguem seus dois filhos mais velhos: Pedro Felix, de 18 anos de idade e Antonio Julio, de 13 que haviam verificado praça de cadete no 2.º Regimento de Cavalaria, então comandado pelo Tenente-Coronel Manuel Luiz Osório. O 1.º Regimento é enquadrado, para as operações, na 4.ª Divisão de Cavalaria, Comandada pelo Brigadeiro David Canabarro, o velho chefe farroupilha. O regimento entra em campanha a 10 de agosto de 1851, deslocando-se de São Gabriel para Santana do Livramento, local de reunião de nossas forças sob o comando de Caxias. No dia 21, em fim de jornada, tendo à testa seu comandante — Emílio Luiz Mallet — chega o 1.º Regimento ao destino e acampa às margens do arroio Sarandi. A concentração de nossas tropas opera-se em setembro de 1851: 4 divisões com 14 brigadas — ao todo 16.200 homens. A 1.ª Divisão sob o comando de Bento Manuel; a 2.ª sob o de Caldwell;⁹ a 3.ª sob o de José Fernandes;¹⁰ a 4.ª sob o de Canabarro; finalmente, a Artilharia comandada por Silva Bitencourt.¹¹ Canabarro vanguardeia a marcha de invasão, cujo objetivo final seria Montevidéu.¹² [10]

O Exército Libertador, dispunha, em sua Artilharia, não só do 1.º Regimento, mas também de uma bateria de 6 peças, guarnecida por alemães, a qual, mais tarde, iria servir de núcleo ao 2.º Regimento de Artilharia Provisório, organizado em campanha, e de uma bateria de foguetes à Congrève, adida ao regimento. Além desta, às vésperas de Monte Caseros, vem incorporar-se à divisão brasileira o corpo de Artilharia do destacamento de Urquiza, ao comando de D. José Maria Pirán. Dispunha de 21 bocas-de-fogo que haviam pertencido ao Exército de Oribe. E assim, as tropas brasileiras põem-se em marcha e, por Quaraí, penetram em território uruguaio tomando a direção de Montevidéu, vencendo os obstáculos naturais e conquistando sua primeira etapa de glória. Em território uruguaio [10]

“o nosso Exército marchava, na pior estação do ano, com frio e com chuva, sem estradas, atravessando, constantemente, banhados e arroios transbordados”.“… a cavalhada e a boiada de tiro, pela falta de pasto, não podiam realizar grandes esforços”.¹³

A travessia dos rios Yi e Negro e de seus afluentes foi realizada sob temperatura inclemente, que atingiu 5 graus abaixo de zero, além do vento e da chuva que, durante dois dias, impediram qualquer movimento. Não havia pontes e, para toda a divisão, só existiam quatro canoas, dois batelões, quatro balsas e alguns botes. Tinha o Rio Yi 48 braças¹⁴ de largura e, o Negro, 66, e não havia vegetação em suas margens, por ser o terreno de banhados e prados, então tomados pela geada. Através deles se arrastavam, penosamente, as carretas da subsistência e as 19 bocas-de-fogo do 1.º Regimento, as quais só os bois conseguiam puxar.¹⁵ Os nossos condutores usavam, nesse tempo, compridas e pesadas perneiras de couro com guarnições metálicas, presas às pernas por atadores de sola, que lhes faziam o passo tardo e lembravam os bois das peças. Daí generalizar-se aos artilheiros do 1.º a-Cavalo, o apelido de “Boi-de-Botas”, dado a seus condutores, e que vai se estender, depois, a toda a Arma de Artilharia Brasileira. As nossas forças, às de Entre-Rios e Corrientes vieram se juntar muitos chefes orientais, e Oribe, vendo que seria inútil qualquer resistência, rendeu-se com todas as suas tropas em 14 de outubro de 1851.[10]

Vencido Oribe, perdurava, entretanto, a ameaça de Rosas, cuja atitude hostil levou o Brasil a um convênio com os governadores de Entre-Rios e Corrientes para libertar a Argentina do domínio tirânico que a oprimia.¹⁷[10]

Guerra Oribe e rosas
Situação estratégica que enquadra a batalha de caseros

Para as operações que se vão desenrolar em território argentino, foi necessário organizar uma Força Expedicionária Aliada, cujo núcleo era a 1.ª Divisão do Exército Brasileiro, sob o comando do General Manuel Marques de Souza,¹⁸ depois Conde de Porto Alegre, a qual deslocou-se de Colônia, embarcada em navios da Esquadra Imperial, para Diamante, na província de Corrientes, e daí seguiu até as vizinhanças de Buenos Aires. Desta expedição participou o 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, que compreendia duas baterias de canhões, ao todo 16 peças, e uma de foguetes, tudo sob o comando do Major Joaquim Gonçalves Fontes.¹⁹[10]

Com parte do pessoal e do material deixado em Colônia, com elementos do 1.º Batalhão de Artilharia-a-Pé, e o duvidoso contingente prussiano contratado na Europa e que Mallet, pessoalmente, fora buscar em Pelotas, recebe de Caxias a missão de organizar, disciplinar e comandar o que seria o 2.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo. Sua personalidade vigorosa e máscula desde logo se impõe e, uma vez mais facilita sua tarefa. A divisão da Esquadra que transportava as Forças Imperiais, como operação preliminar, forçou o Passo de Tonelero, no rio Paraná.²⁰[10]

Batalha de tuiuti (o fosso) Oleo de Trevissan medindo 247 x 128 Pertence ao acervo iconografico do exercito e esta sob a guarda do grupo mallet (3 GAC-AP) Santa Maria (RS)

Poucas semanas depois os aliados se aproximam da capital argentina e estendem-se em linha na lomba fronteira a Caseros: à direita os orientais, ao centro a Divisão Brasileira, à esquerda os Destacamentos de Urquiza e Virasoro.²¹[10] Em 3 de fevereiro de 1852, estão os exércitos em linha e trava-se a batalha. O centro do inimigo é rompido pelo nosso centro, constituído da Divisão Imperial. A direita do inimigo é desbordada e envolvida pelos orientais apoiados por 2 batalhões brasileiros. Todos esses movimentos, coroados de sucesso, têm apoio das baterias do centro do 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo. Todos esses movimentos são coroados de sucesso. A Cavalaria de Osório dá a carga final e toma a única bandeira do dia. É a vitória de Monte Caseros.²²[10] O relatório Marques de Souza confirma tudo isso e ainda nos informa de que nos apoderamos de 34 canhões dos 60 de que dispunha o inimigo, e de 2 estativas, dentre as 3 que existiam, de carros, bagagens, armas, munições, equipamentos, 2 000 prisioneiros e 3 000 ani-mais. Às duas horas da tarde os 30 mil homens de Rosas estavam reduzidos a grupos de fugitivos, mortos e feridos. Não quis o destino que Mallet participasse da vitória de Monte-Caseros.[10]

Com efeito, com a reorganização das forças brasileiras, visando o ataque às posições de Rosas em território argentino, cedeu Mallet, com grande altruísmo, o posto que exercera até então, a um camarada mais antigo e igualmente distinto — o Major Gonçalves Fontes — que atuou brilhantemente no comando de seus artilheiros e na manobra de fogos de suas 16 peças e de suas 4 estativas. Nesse desdobramento coubera a Mallet o comando da ala que permaneceu no Uruguai — o 2.º Regimento Provisório — em cujo comando ficou até junho de 1852,²³ tendo dessa unidade sido desmobilizada, no Rio Pardo, como fim da campanha. Vencido, Rosas asilou-se na Legação da Inglaterra em Buenos Aires, refugiando-se, depois, nesse país, onde passou o resto de seus dias.²⁴ Em 18 de fevereiro de 1852, pelas ruas do Peru, da Federação, a Praça da Vitória e o Paseo de Julio até Palermo, desfilaram triunfalmente em Buenos Aires, de bandeiras desfraldadas e músicas tocando, sob o comando de Marques de Souza, em grande gala, os soldados vitoriosos do Império.[10]

5 — NOTAS (Livro: Mallet, o patrono da artilharia)[10]

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  1. Juán Manuel Ortiz Rosas nasceu em Buenos Aires, em 1793. Passou seus primeiros anos nas propriedades de seu pai, entre os gaúchos, a cavalo e de arma na mão. Tal educação formou o futuro caudilho. Auxiliou Rodriguez e revoltou-se contra o Presidente Rivadavia. Em 1831 dirigiu uma expedição contra os índios no sul, finda a qual entrou triunfalmente em Buenos Aires, sendo-lhe conferidas, por cinco anos, as funções de Presidente e Capitão-General. Exerceu verdadeira ditadura por 23 anos, sempre ameaçando renunciar por motivo de saúde e obtendo cada vez maiores poderes. Em 1829 organizou a Confederação Argentina e planejou a anexação, aos seus territórios, do Paraguai e do Uruguai, numa tentativa de reconstituir o Vice-Reinado do Prata. Para isso desenvolveu uma política externa agressiva contra o Brasil, com o conluio do uruguaio Oribe. Violento e autoritário, como todos os caudilhos de seu tempo, alcançou, todavia, popularidade e mereceu respeito, quando se fez “campeão da defesa da autonomia continental de ambas as Américas” resistindo vitoriosamente ao bloqueio francês no Rio da Prata (1840); seus processos tirânicos, na perseguição dos “selvages unitários”, como ele designava os adversários políticos, obrigou muitos dos mais ilustres moços argentinos desse tempo, como Sarmiento e Mitre, a se refugiarem em países vizinhos. Dizia-se que Rosas tinha como instrumento de sua crueldade uma associação de verdadeiros bandidos sanguinários, a mashorca (mais força). Morreu em 1877, na Inglaterra, onde se exilara.
  2. Segundo Tavares Bastos, havia certa contradição na política externa do Império: ao norte, o Brasil fechava o Amazonas à navegação internacional, enquanto ao sul reclamava a abertura do Prata. Só em 1860 foi o Amazonas franqueado a navios estrangeiros.
  3. Oribe tinha determinado o uso de um distintivo branco pelos defensores do governo; Rivera tomou então a cor vermelha como divisa de seus partidários (colorados). Oribe, no início de seu governo fez boa administração, mas logo se tornou um tirano, sendo chamado, por suas violências, o “Corta-Cabeças”. Rivera, um dos maiores guerreiros do Uruguai, foi seu primeiro presidente constitucional; aspirara constituir um “Uruguai Maior”, com a antiga Cisplatina, Corrientes e o Rio Grande; mas, vencido em Arroio Grande, por Oribe, que se aliara a Rosas (1842), viu desfeitos seus planos.
  4. Manuel Oribe, nascido em Montevidéu, alistou-se, em 1812, como voluntário para lutar pela independência de sua pátria, sobressaindo de tal modo que foi logo considerado um dos melhores soldados do seu país. Conseguida a libertação, foi o segundo presidente da República do Uruguai. Na vida política, entretanto, cometeu graves erros, o pior dos quais foi arrastar sua pátria à guerra dos nove anos (1843-51), mas seus compatriotas nunca deixaram de fazer justiça às virtudes cívicas e militares que possuía. Morreu em Montevidéu, em 1857, e seu nome se encontra esculpido no monumento que a República Oriental erigiu aos 33 libertadores do Uruguai.
  5. A constante guerra civil no Prata quase decidia a intervenção da Inglaterra e da França; Rosas procurou, a esse tempo, por seu ministro Tomaz Guido, uma aliança com o Brasil, ao que era favorável Caxias, que não confiava muito em Rivera; quando, porém, soube da derrota de Arroio Grande e da moderação dos franceses e ingleses, com a maior descortesia recusou-se a ratificar o acordo, já assinado por Guido, deixando evidente sua má-fé: afastado o perigo, não queria comprometer-se com um tratado que, garantindo a liberdade do Uruguai, contrariava-lhe o plano de reconstituição do antigo Vice-Reinado.
  6. As forças de Oribe viviam a invadir as terras rio-grandenses, roubando gado, matando ou aleijando gente, quer fazendeiros, quer peões de estâncias. Não era uma atividade de somenos: “em 1850, dizia-se, correntemente, que andavam por umas 800.000 cabeças os rebanhos roubados, em uma área de 600 léguas quadradas. Assaltos à mão-armada eram realizados em larga escala, e as leis de Oribe sobre marcas de gado tornavam quase impossível o reconhecimento da propriedade legítima das reses e a prova do roubo.” (Calógeras, op. cit.)
  7. Justo José de Urquiza nasceu na província de Entre-Rios em 1800. Filho de pais abastados, possuidores de muitas fazendas, passou seus primeiros anos nos pampas e foi educado em um colégio de Jesuítas, em Buenos Aires. Os acontecimentos conduziram-no à carreira militar, começando a figurar às ordens de Juán Manuel Rosas na sangrenta luta entre unitários e federais. Defendeu sempre estes últimos e recebeu o posto de General e fama de hábil caudilho. Em 1842 foi nomeado governador da província de Entre-Rios, mas teve que se medir com o General Rivera, unitário, que o venceu, mas que, por sua vez, foi definitivamente vencido em 1845, em India Muerta. Ao regressar vitorioso à sua província, dedicou-se, com grande sucesso, à administração, o que lhe valeu enorme prestígio e os receios do ditador Rosas, a quem serviu até 1851. Mas quando o tirano, uma vez mais, repetia a comédia de sua renúncia, à frente de sua província de Entre-Rios, aliou-se ao Brasil e ao Uruguai. O Brasil, que fora provocado pelo General Oribe, aliado de Rosas, celebrou com as províncias argentinas de Corrientes e Entre-Rios o convênio de 29 de maio de 1851. Seguiu-se a derrota de Oribe e depois a de Rosas. O Congresso de 1854 elegeu-o presidente por seis anos, mas a província de Buenos Aires, que se havia revoltado, permaneceu independente por todo esse tempo. Vencido o exército de Buenos Aires na batalha de Cepeda, em 1859, e pela intervenção de Solano Lopez, foi assinado o Tratado de São José das Flores, pelo qual Buenos Aires voltava à Confederação. A paz, entretanto, não durou, e Urquiza foi batido em Pavón (1861), assumindo, depois, o governo de Entre-Rios, onde foi assassinado em 1870.
  8. Gustavo Barroso: “História Militar do Brasil”.
  9. João Frederico Caldwell, filho do Tenente-General Frederico Caldwell, nasceu em 1801, em Santarém, Portugal. Assentou praça de 1.º Cadete no 1.º Regimento de Cavalaria da Corte, no Rio de Janeiro, em 10 de setembro de 1810. Em 1817 seguiu para Pernambuco na expedição do General Luiz do Rego, a fim de combater a Revolução Pernambucana. Fez parte do grupo de portugueses que apoiava o príncipe. Como Capitão voltou a Pernambuco para combater a Revolução de 1824. Durante os acontecimentos de 1831, colocou-se ao lado de D. Pedro I, o que lhe valeu algum tempo de ostracismo. Em 1834 seguiu para o sul, sendo confiado ao Major Caldwell o comando militar da cidade do Rio Grande, em março de 1836. Em combate com os revoltosos farroupilhas foi ferido, perdendo a mão direita, e caiu prisioneiro, mas conseguiu escapar, sendo promovido a Tenente-Coronel. Voltou ao sul e tomou parte nos combates de Triunfo e Santo Amaro, sendo promovido a Coronel em 1842 e nomeado comandante das armas da província do Pará. Em janeiro de 1847, já Brigadeiro, assumiu o comando da Guarnição e Fronteira de Bagé. Depois foi comandante da 2.ª Divisão do Exército do Sul, com a qual marchou para a campanha do Estado Oriental. Promovido a Marechal-de-Campo, recebeu o comando das armas da Província do Rio Grande. Em 1860 era Tenente-General, posto com que voltou ao Exército do Sul, para se unir ao Brigadeiro David Canabarro na defesa da fronteira. Voto vencido no desejo de atacar os paraguaios, Caldwell viu a entrada do inimigo em Uruguaiana, mas pouco depois teve a glória de assistir, ao lado do imperador e do Conde d’Eu, sua rendição. Era Caldwell, nessa ocasião, ajudante-geral do Exército. Em 29 de setembro de 1870 foi nomeado ministro e secretário de Estado dos negócios da Guerra. Faleceu no Rio de Janeiro, em 26 de fevereiro de 1873.
  10. José Fernandes dos Santos Pereira nasceu nas imediações do Porto, Portugal, em 1793, e verificou praça em 1808, no 2.º Regimento de Infantaria do Exército Português. Distinguiu-se nas lutas contra as tropas napoleônicas e tomou parte na vitória de Vimeiro. Veio para o Brasil em 1815, integrando a Divisão de Voluntários Reais D’El-Rei, como Tenente do 2.º Batalhão de Caçadores, e seguiu logo para as campanhas do sul. Em 1822, como outros oficiais das guarnições de Montevidéu e de Colônia, solidarizou-se com a Independência do Brasil. Como Capitão tomou parte na campanha de 1826 e, em outubro de 1829, era Major, sendo então designado para organizar e comandar o 2.º Batalhão de Caçadores, o que lhe valeu a promoção a Tenente-Coronel. Como Coronel comandou a 2.ª Brigada de Infantaria, de onde saiu para o comando da 2.ª Divisão do Exército, quando foi promovido a Brigadeiro. Em 26 de julho de 1851 assumiu o comando da 3.ª Divisão do Exército em operações no Estado Oriental do Uruguai. Após a vitória de Monte-Caseros, recebeu o Brigadeiro José Fernandes o comando da Guarnição e Fronteira do Rio Grande, sendo promovido a Marechal-de-Campo em junho de 1853. Antes de se reformar, em 1856, no posto de Tenente-General, exerceu o comando das armas da província de Pernambuco. Declarada a Guerra do Paraguai ofereceu-se e reverteu, sendo aproveitado para servir como comandante da guarnição da cidade do Rio Grande, ficando-lhe subordinados os comandantes das Fronteiras e Guarnições do Chuí, Santa Vitória e Pelotas, como todas as forças da Guarda Nacional destacadas nessas localidades. Faleceu em 19 de dezembro de 1874, em Porto Alegre, onde fixara residência.
  11. Francisco Antonio da Silva Bittencourt era natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em 2 de outubro de 1802. Em 1818 assentou praça, como voluntário, na Brigada de Artilharia Ligeira da Divisão Portuguesa Auxiliadora, onde foi reconhecido Cadete de 1.ª classe. Como 1.º Tenente marchou para o Rio Grande a fim de se incorporar ao Exército em operações de guerra. Tomou parte na batalha de Passo do Rosário, sendo depois promovido a Capitão. Em 1835 seguiu para o Pará, fazendo parte da Divisão Expedicionária do General Soares de Andréa. Durante a campanha no sul foi sucessivamente promovido e, como Coronel, assumiu o comando do 1.º Corpo de Artilharia-a-Cavalo. De 1848 a 1851 comandou a 2.ª Brigada, tendo se deslocado para Santana do Livramento com o exército de observação, passando, depois, a ser o comandante-geral da Artilharia, quando fez toda a campanha do Uruguai. Em 53, já Brigadeiro, foi comandar a 5.ª Brigada. Promovido a Marechal-de-Campo, obteve o comando das armas da Bahia, de onde voltou para o Rio Grande do Sul, para exercer idênticas funções. Elevado a Tenente-General em 1870, reformou-se em 1874, como Marechal-de-Exército. Faleceu em 1881, na Corte, quando exercia as funções de Conselheiro de Guerra.
  12. Do seu quartel-general nas Pontas do Cunha Píru, Caxias lança uma proclamação que é um modelo de estilo militar e de consideração aos direitos alheios, mandando respeitar os vencidos e as propriedades.
  13. Genserico de Vasconcelos: “História Militar do Brasil — A Campanha de 1851-52”.
  14. Essa medida antiga de comprimento equivalia a 2,20m.
  15. Capitão José Faustino Filho: “Histórico do Regimento Mallet”.
  16. Convém assinalar que esta alcunha está imortalizada na nossa melhor literatura. De fato, a obra cíclica do esplêndido romancista brasileiro Érico Veríssimo, “O tempo e o Vento”, registra-a, com ufania.
  17. Num assomo de indignação, em represália à atitude brasileira, declara que “seu intento não consistia, apenas, na anexação de todas as províncias da antiga Vice-Realeza de Buenos Aires, como também, ligar a ela a província do Rio Grande e promover a proclamação da República no Brasil inteiro”.
  18. Manoel Marques de Souza, homônimo de seu avô, que foi Tenente-General, e ministro da Guerra, e de seu pai, que chegou a Brigadeiro, nasceu na Vila do Rio Grande, RS, em 13 de junho de 1804. Aos 12 anos de idade acompanhou o avô nas lutas da Cisplatina de 1816, passando a servir sob as ordens do pai em 1818. Participou do combate de Las Piedras, ali conquistando o posto de Tenente, por atos de bravura. Feita a paz, embarcou para o Rio de Janeiro, matriculando-se na Academia Militar. Convocado em 1825 para a Guerra das Províncias Unidas do Rio da Prata, lutou em Passo do Rosário, onde foi promovido a Capitão. Major durante a Guerra dos Farrapos, assumiu o comando de Pelotas, onde os rebeldes o prenderam, remetendo-o para um navio-presídio ancorado em frente à capital. Não obstante, articulou e obteve a retomada da cidade aos farrapos, pelo que receberia o título de Barão de Porto Alegre. Coronel ao fim do conflito, brigadeiro em 1850, comandou as forças imperiais que decidiram a vitória sobre Oribe e Rosas em 1851-1852. Reformado no posto de Tenente-General em 1856, elegeu-se deputado e ocupou a pasta da Guerra no Gabinete Zacarias. Ao irromper a Guerra do Paraguai comandou o cerco a Uruguaiana, a tomada de Curuzu e o malogrado ataque a Curupaiti. Comandante da base de operações aliadas em Tuiuti, defendeu-a com brilho em 3 de novembro de 1867. Feito Visconde por seu comportamento em Curuzu, por bravura em Tuiuti recebeu as honras de Conde de Porto Alegre. Faleceu no Rio de Janeiro em 18 de julho de 1875, e seu corpo foi transportado para Porto Alegre, onde se acha sepultado.
  19. Joaquim José Gonçalves Fontes foi um dos mais distintos artilheiros do passado. Nascido a 31 de julho de 1808, faleceu em 1880. Seguiu para o Rio Grande do Sul por ocasião da Revolução Farroupilha, ali permanecendo no Regimento de São Gabriel, que comandou por várias vezes. Participou não só da batalha de Montes Caseros, como da campanha do Paraguai, no comando de batalhões de Infantaria e de Voluntários da Pátria. Foi Brigadeiro em 22 de janeiro de 1866, Marechal-de-Campo em 3 de fevereiro de 1874 e Tenente-General, posto em que faleceu.
  20. Em Tonelero, os onze navios de nossa Esquadra, comandados por Grenfell, travaram renhido combate com grandes forças do General Mansilla, que tinha sua Artilharia nas barrancas do Paraná; conseguiram, porém, sem perda de nenhuma de suas unidades, forçar a difícil passagem.
  21. Nossa Divisão se achava desfalcada do 2.º Regimento de Cavalaria, de Osório, que passara a formar com os entrerrianos e correntinos.
  22. Monte Caseros é, também, conhecida como batalha de Morón e batalha dos Santos Lugares.

5.1. — A reversão de Mallet e a volta ao exército imperial brasileiro

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No decurso da campanha de 1851-52, por iniciativa do Ministro da Guerra — General Pedro de Alcântara Bellegarde ¹ — que, com o General Polidoro fora seu colega de turma na Academia Real Militar, em 1823, o Governo Imperial envia mensagem ao Legislativo, propondo a reintegração de Mallet nos quadros do Exército, no posto de Capitão, que detinha por ocasião de sua exclusão. Por decreto de 20 de setembro de 1851 regressa Mallet ao Exército de 1.ª linha para ocupar a posição que deixara nos quadros de sua Arma,² sendo-lhe, entretanto, negado, para efeitos de promoção, a contagem do tempo em que esteve afastado, embora estivesse a serviço do Exército durante metade desse tempo, em campanha, ajudando a combater a Revolução Farroupilha.³ Este inesperado contratempo atrasou bastante sua carreira militar, mas nem isso conseguiu arrefecer seu entusiasmo que sempre foi um dos aspectos mais marcantes de sua personalidade ímpar. Mallet, entretanto, devagar, mas com segurança, refaria sua carreira, ajudado apenas por suas qualidades de cidadão e por suas virtudes militares entre as quais sobressaíram a perseverança e a capacidade profissional. O impacto inicial não o derrota, pelo contrário, transmite-lhe novo ânimo e Mallet volta à carga, até que o decreto de 9 de outubro de 1855, vem corrigir, parcialmente, a injustiça. O Conselho Supremo Militar⁴ deu parecer vazado nos termos seguintes:[10]

“Considerando este Tribunal, à vista das alegações do suplicante, e dos documentos anexos, a seu requerimento que se lhe mandara assentar praça de 1.º Cadete pelo aviso de 11 de novembro de 1822, dispensando-se de todas as habilitações e provanças, em época em que o monarca brasileiro reunia em si todos os poderes supremos do Estado, pelo que implicitamente esta graça constituíra o suplicante na classe de cidadão brasileiro, dando-lhe com aquela praça o foro de nobreza, de que só podem gozar os indivíduos nacionais; que o suplicante seguira sem interrupção os postos no Exército até o de Capitão, servindo sempre com distinção em todas as comissões; que deve ser considerado como havendo colaborado na luta pela Independência, porque durante ela pertencia o suplicante a um dos corpos do Exército e provisoriamente servira como Major da Guarda Nacional durante a rebelião da província do Rio Grande do Sul, posto que também só pode ser exercido por cidadãos brasileiros, sendo demais casado no país e com filhos que já estão servindo no exército.

Parece por isso ao Conselho, conformando-se com a opinião do Conselheiro Procurador da Coroa, Soberania e Fazenda Nacional, manifestada na primeira parte do seu ofício, que o suplicante foi indevidamente demitido do serviço do Exército no ano de 1831, quando ocupava o posto de Capitão de artilharia, e que, portanto, deverá ser considerado como reintegrado no referido posto, bem como contar sua antiguidade, e ser pago dos soldos que deixara de receber, descontando-se porém os que percebera durante o tempo que serviu quando ainda se achava demitido, praticando-se, assim, com o suplicante o mesmo que se tem feito com muitos outros oficiais, que indevidamente foram demitidos como estrangeiros e depois reintegrados.”[10]

Depois de Monte Caseros até o começo da campanha do Uruguai, fecha-se no Brasil o templo de Jano.⁵ São doze anos de paz em que iria Mallet, nessa nova fase de sua vida, preparar-se para alcançar os louros que o consagrariam o maior artilheiro do Brasil. A fim de satisfazer a requisitos regulamentares submeteu-se, em 1855, a exames práticos de artilharia, para ser promovido, em 2 de dezembro desse ano, ao posto de major. Em consequência, regressou ao Rio Grande, sendo classificado em seu antigo regimento — o 1.º de Artilharia-a-Cavalo — onde vai assumir a fiscalização administrativa. Em São Gabriel, permanece 12 anos consecutivos,⁶ de 1852 a 1864; como instrutor da 4.ª Brigada de Cavalaria, cujo comandante era o General João Propício Menna Barreto e, depois, como Tenente-Coronel graduado,⁷ alternando as funções de fiscal e de comandante de seu regimento.⁸[10]

Sobre Mallet, o General Caldwell teve ocasião de, várias vezes, se expressar, entre 1835 e 1855, em termos altamente elogiosos:[10]

“que sempre teve este oficial por hábil artilheiro, principalmente em presença do inimigo, e sua conducta na batalha de 20 de fevereiro de 1827 certifica minha opinião.”

“É excelente oficial na extensão da palavra”.

“É muito hábil oficial de artilharia, com capacidade para a guerra.”

“É excelente oficial em campanha.” ⁹

Neste período de paz que sucedeu à queda de Rosas, aproveita Mallet para se dedicar a seu aperfeiçoamento profissional. Lê, assiduamente, autores franceses. Debruça-se sobre os compêndios de História Militar, de Arte da Guerra e de Emprego da Artilharia, em todos os escalões. Passa a ser conhecedor profundo dos ensinamentos deixados pelas campanhas de Alexandre, Anibal, César, Príncipe Eugênio e Napoleão, embora para com este último sempre tenha mantido reservas.¹⁰ Enfim, por esforço próprio torna-se excelente oficial de estado-maior; é o grande chefe em potencial. Tecnicamente é o magnífico artilheiro que se elevou à posição de maior conhecedor dos segredos de sua Arma. Estava Mallet preparado para as altas funções que o destino lhe reservaria desempenhar no Exército Brasileiro. Em 23 de março de 1861, foi condecorado com o hábito da Ordem de São Bento de Aviz.[10]

5.1 — NOTAS (Livro: Mallet, o patrono da artilharia)[10][10]

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  1. Pedro de Alcântara Bellegarde nasceu em 1807, a bordo da nau Príncipe Real, que trazia para o Brasil a família real portuguesa e seus pais que a acompanhavam. Teve como padrinho o Príncipe D. Pedro que lhe legou o nome. Com o falecimento de seu pai em 1810, teve praça de Cadete de artilharia e, em 1815, era transferido para o 1.º Regimento de Artilharia do Exército de Portugal. No ano seguinte, foi incluído no Regimento de Artilharia do Rio de Janeiro. Em 1820 matriculou-se na Academia Militar. Em 1824 era Capitão naquele mesmo regimento. Foi transferido, em 1826, para o Imperial Corpo de Engenheiros. Antes de ser Brigadeiro, em 1852, foi catedrático da Academia Militar, um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Encarregado dos Negócios de Cônsul-Geral do Brasil no Paraguai. Depois foi Ministro da Marinha interino e efetivo, da Guerra, da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, em 1863. O Marechal Pedro de Alcântara Bellegarde faleceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1864.
  2. Dizia a Ordem-do-Dia n.º 59, de 30 de maio de 1852 que, por decreto do dia 3, nos termos do Decreto n.º 635, de 20 de setembro de 1851, Emílio Luiz Mallet fora admitido no exército, no posto de capitão da 3.ª Bateria do 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo.
  3. Por essa época, muitos de seus companheiros de armas, da Cisplatina, que com ele foram Tenentes, já haviam atingido o posto de Coronel, e alguns o de Brigadeiro.
  4. Era o órgão equivalente ao atual Superior Tribunal Militar.
  5. Deus da mitologia romana, tinha em Roma um grande número de templos, sendo o Forum o mais venerado. Suas portas anunciavam a paz ou a guerra, conforme estivessem fechadas ou abertas. Em mais de mil anos não estiveram fechadas senão nove vezes.
  6. O longo período passado por Mallet em São Gabriel foi marcadamente registrado pela crônica local e, principalmente, pelo testemunho caloroso do médico, viajante e escritor alemão Robert Avé-Lalement, que pela cidade passou em 1858 (Mallet Joubin).
  7. Posto que atingiu em 28 de novembro de 1863.
  8. Foi comandante de 31 de janeiro a 6 de julho de 1858, e de 19 de janeiro a 3 de dezembro de 1861.
  9. Em tais juízos era possível vislumbrar uma crítica velada ao ato injusto de que fora vítima, em 1831, tão destacado soldado.
  10. Sobre este esforço conta-se com o testemunho desinteressado e incontestável de um de seus dedicados subordinados — o Major Anfrísio Fialho.

5.2. — As tentativas diplomáticas e o início da campanha do Uruguai

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A vitória sobre Oribe não conseguiu pôr termo às lutas entre colorados e blancos que traziam em constante sobressalto as populações limítrofes do Brasil. Numerosos patrícios nossos, domiciliados no Uruguai, eram constantemente vítimas de atentados, roubos e outros crimes, atribuídos não somente a particulares, mas também a autoridades da república. Por mais de dez anos as representações feitas por nosso governo eram desatendidas ou tinham respostas protelatórias. Estando no poder Atanásio Aguirre,¹ chefe do partido blanco, e recrudescendo os vexames e violências contra os nossos, o Governo Imperial enviou, em missão especial, para o sul o Conselheiro José Antônio Saraiva,² estadista de espírito conciliador, que procurou conseguir uma solução pacífica para as queixas do Brasil. Não tendo alcançado êxito, ainda tentou Saraiva, para o restabelecimento da paz, um acordo entre os dois partidos, secundando-o, nessa tentativa, o Ministro da Inglaterra em Buenos Aires e o Ministro das Relações Exteriores da Argentina. Nada ainda conseguindo, apresentou Saraiva um ultimatum,³ cuja rejeição não nos deixava alternativa. Era a guerra. O Chefe colorado Venâncio Flores,⁴ que gozava de muita simpatia entre os rio-grandenses,⁵ já lutava contra Aguirre.[10]

Em 9 de outubro de 1864, vieram a bordo do Jequitinhonha o Secretário e o Ajudante-de-Ordens do General Flores pedir, em nome deste, uma conferência com o Chefe-de-Divisão Pereira Pinto. Do encontro resultou o acordo reservado entre o Brasil e Venâncio Flores, datado de 20 do mesmo mês, o qual lhe assegurava a vitória e a nós a plenitude das reparações que pretendíamos. O Chefe oriental juntou suas forças ao nosso Corpo-de-Exército,⁶ cujo comando foi confiado ao Marechal João Propício Menna Barreto.⁷[10]

Campanha do estado oriental

Nas campanhas do Uruguai e do Paraguai Mallet iria afirmar-se, definitivamente, como o grande chefe e o maior artilheiro do Brasil. Suas qualidades de organizador foram postas à prova desde que recebeu a missão de formar, com elementos do 1.º Regimento-a-Cavalo, o Agrupamento de Artilharia que iria se reunir ao Corpo-de-Exército do Marechal Menna Barreto. Assim, a Artilharia destinada ao apoio das futuras operações ficou constituída de três baterias do 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo — 2.ª, a 3.ª e 6.ª, as quais, a 18 de outubro de 1864, deixavam seu quartel sob os comandos, respectivamente, dos Capitães Manoel de Almeida Gama Lobo d’Eça, Hermes Ernesto da Fonseca e Antônio Carlos de Magalhães.⁸ O agrupamento, assim constituído e enquadrado na 1.ª Divisão do Brigadeiro Manuel Luiz Osório, permaneceu sob o comando do Tenente-Coronel Emílio Luiz Mallet, e constava de 6 obuses de alma lisa, guarnecidos por 168 homens. Além dos 12 canhões, que agora possuía o 1.º Regimento, vieram juntar-se 6 peças Whitworth, de campanha, e 12 obuses de bronze da Marinha. Flores só dispunha de 7 canhões.[10]

Iniciando-se em Paissandu em A 1.º de dezembro começou o deslocamento, mas a pressa de chegar ao destino fez com que ficassem no acampamento de Piraí-Grande as carretas de munição, levando cada peça, em seus armões, 70 tiros apenas. A 1.ª Divisão marcha para o Passo da Viola onde se vai reunir à 2.ª Divisão, tomando o conjunto a denominação de Exército do Sul, que transpõe a fronteira em 2 de dezembro, iniciando a invasão do Uruguai. Nossa Esquadra, sob o comando do Almirante Joaquim Marques Lisboa, bloqueava o porto de Salto, enquanto Flores operava em terra, apoiado pelas forças de desembarque da Esquadra Brasileira.[10]

O Coronel Leandro Gomez, que comandava a guarnição dessa praça, retira-se para preparar a defesa de Paissandu, e o Coronel Palomeque, que o substituíra, após exame de situação em que levou em conta, principalmente, sua falta de recursos, decidiu render-se, sem oferecer resistência. Flores marcha sobre Paissandu onde, apoiado pela Esquadra Brasileira, combaterá três dias. A resistência foi heroica e a cidade não se entregaria sem grandes perdas por parte dos atacantes. Resolveu Flores suspender o combate aguardando as divisões do Exército do Sul, que estava atrasado, mas seu comando, ciente da urgência requerida, passou a realizar marchas forçadas. Às 7 horas do dia 27 finalmente chegava o Exército do Sul a São Francisco, distante légua e meia de Paissandu.¹¹ Seguiu-se uma conferência entre Menna Barreto, Flores e Tamandaré. Elaborado o plano de ataque, passou-se o dia 30 em reconhecimentos e em preparativos para o combate. Os efetivos disponíveis eram de 1 695 infantes, além dos 600 homens de Flores com 4 bocas-de-fogo, 320 desembarcados da esquadra, sob o comando do Major Correia da Câmara, e 195 artilheiros de Mallet, totalizando 2 810 homens.[10]

Os cavalarianos de Osório ficaram a 9 quilômetros de Paissandu, em observação, pois que não havia previsão de emprego da Cavalaria. Dentro de Paissandu permaneciam os chefes Leandro Gomez, Lucas Pires e Tristão Azambuja, com 1.254 praças e 15 bocas-de-fogo de 16 a 18, colocadas em boas posições, dispostos todos a uma resistência vigorosa, protegidos nas edificações, em verdadeiras torres fortificadas, com postos avançados entrincheirados e as ruas cobertas de barricadas.[10]

2º ataque a Paissandu

As posições da Artilharia foram reconhecidas, pessoalmente, pelo Comandante-Chefe que se fazia acompanhar do da Artilharia, tendo sido escolhida a coxilha da Boa Vista, ao norte, a cavalheiro da cidade. O deslocamento para a ocupação das posições é realizado à noite, pois, pelas proximidades da linha de defesa da cidade nenhum movimento diurno seria possível. Mallet, pessoalmente, comanda a entrada em posição. No alto da colina ficam os 12 canhões do 1.º Regimento; à frente, a 120 metros, desenvolvem-se em atiradores, protegendo a posição, duas companhias do 4.º Batalhão de Infantaria; à retaguarda, as outras companhias e, mais à retaguarda, em reserva, a restante Infantaria Brasileira aguarda o momento de marchar para a frente.[10]

À direita do 1.º Regimento ficam 2 peças Whitworth, de 30, sob o comando do Tenente Henrique Martins, e 2 canhonadas, de 32,¹² comandadas pelo Tenente Mariz e Barros e, à esquerda, dois Whitworth, calibre 6, constituindo a Artilharia móvel, sob o comando do Tenente Joaquim Francisco de Abreu, todos da Marinha. Às 2 horas da madrugada do dia 31 de dezembro, tenta o inimigo um golpe-de-mão contra nossa Artilharia, esperando surpreendê-la em seu natural descanso. Desconhecia ele, entretanto, o valor do chefe que organizara a posição. A linha de atiradores, providencialmente estendida à frente, faz, com nutrido fogo, malograr-se a empresa. E o inimigo se retira deixando mortos e transportando alguns feridos.

Às 4 horas e 20 minutos cai sobre nossas linhas o primeiro projétil da Artilharia inimiga. A resistência, como se esperava, mostra-se obstinada e, durante 52 horas consecutivas, mantém-se um bombardeio enérgico, de parte a parte, verdadeiro duelo de Artilharia. De início tomba mortalmente ferido por estilhaço de granada, na cabeça, o Tenente da Marinha Henrique Martins, que comandava as peças Whitworth, calibre 30. Pouco depois outra perda dolorosa íamos sofrer.

As companhias do 4.º Batalhão por não terem tido ordem de retirar-se permaneciam à frente da bateria e, em virtude da má qualidade das espoletas, uma granada explodiu a poucos metros daquela peça ferindo mortalmente o 1.º Tenente José Antônio de Lima Júnior e matando dois de seus soldados.¹³ O Marechal Menna Barreto, ao inteirar-se do lamentável acontecimento, ordenou àquelas companhias se reunissem a seu batalhão. Notando Mallet que a praça estava fora do alcance de seus canhões, fê-los avançar, e desde então, os danos causados pelos impactos eram perfeitamente visíveis de nossas posições. O infatigável 1.º de Artilharia já atirava, seguidamente, há cerca de 5 horas, restando-lhe poucos tiros. O comandante-chefe comunica, então, ao almirante que se esgotara a munição de Artilharia e que o fogo dos navios deveria cessar, pois a praça ia ser assaltada. E assim foi feito.¹⁴

Às 10 horas do dia 31, o clarim do Comandante-Chefe dá o toque de avançar e, entre vivas ao Imperador e à Nação brasileira, marcha a nossa Infantaria, em coluna cerrada, a passo de carga, ao som dos clarins e rufo dos tambores, malgrado o vivíssimo fogo dos defensores, que haviam transformado cada casa num baluarte, de cujas janelas lançavam uma chuva de balas sobre os atacantes.¹⁵ As casas são tomadas uma a uma e os ocupantes que não são mortos ou feridos nessa luta, retiram-se para as trincheiras da Praça da Matriz transformada em reduto central. Era preciso conquistá-la, mas a Artilharia inimiga, ali postada, varria as ruas que lhe davam acesso, tornando-as intransitáveis.[10]

O Comandante-Chefe mais uma vez recorre a Mallet pedindo que nossa Artilharia resolvesse o impasse. Para o decisivo combate de barricadas avançam 2 peças La Hitte com seus últimos cartuchos, a fim de executar o tiro direto.[10]

Canhão La Hitte usado por Mallet

“Imediatamente estes canhões foram devidamente colocados e o seu Comandante 1.º Tenente Ernesto Augusto da Cunha Mattos, distinto e bravo oficial de Artilharia, começou a hostilizar o inimigo. A certeira pontaria destas duas bocas-de-fogo espalharam então nas baterias inimigas a desordem, e o seu fogo foi diminuindo de intensidade, ele que resistira sempre vivo aos dos navios.”¹⁶

Com o mesmo vigor prossegue a luta, noite adentro e, apesar do plenilúnio, a fumaça da pólvora e dos incêndios fazia com que a visibilidade fosse quase nula. Desponta o ano de 1865 e a luta atinge o clímax. A praça já sofrera o impacto de mais de 4.000 projéteis de Artilharia. Ao anoitecer, mais algumas posições haviam sido conquistadas, enquanto diminuía sensivelmente o vigor da fuzilaria e do canhoneio inimigo. Ao amanhecer do dia 2, do interior da praça surgiu um parlamentar com uma mensagem de Leandro Gomez, pedindo “um armistício de 8 horas para enterrar os mortos e medicar os feridos”.¹⁷ Nossa resposta foi:

“que antes de oito horas estariam senhores da praça e que se rendessem logo que seriam bem tratados”.

Em muitas casas já tremulava a Bandeira Brasileira. Quando Leandro Gomez redigia a resposta à nota brasileira, foi surpreendido pelo Tenente-Coronel André de Oliveira Bello, e o chefe oriental se entregou, sem poder concluí-la.¹⁸ Soldados brasileiros alcançaram a Praça da Matriz¹⁹ e, quando se preparavam para o assalto final, começa a tremular a bandeira branca que marcava, finalmente, a rendição de Paissandu.²⁰ Foi esse o imponente quadro que apresentou a luta em Paissandu. Historiadores classificam a tomada dessa praça como a operação básica de toda a campanha. Com a conquista dessa praça, tomamos posse de um ponto estratégico fundamental para o domínio do rio, o que nos abria as portas de Montevidéu. Além disso, a destruição das melhores forças inimigas produziu um efeito moral definitivo.²¹[10]

Ao Tenente-Coronel Mallet é atribuída a chefia do Estado-Maior que procedeu ao reconhecimento, por terra e pelo rio, das fortificações existentes em torno da cidade, concluindo por relacionar as medidas que iriam se consubstanciar no Plano de Ataque, aprovado pelo Conselho de Generais, presidido pelo Marechal Menna Barreto. Aguirre, jogando sua última cartada, tinha ali acumulados todos os recursos que podia dispor para defender uma cidade de 50 000 habitantes.²³[10] Esperava-se, por isso, fosse enérgica e desesperada a resistência. A população de Montevidéu, entretanto, sabendo da queda de Paissandu e de que o inimigo se encontrava às portas da cidade, entra em pânico.²⁴[10] Desanimado, vê Aguirre apelar para o Corpo Diplomático acreditado junto ao seu governo, porém este se manifesta cético.[10]

A desordem se propaga, mas o Senado, reunido extraordinariamente elege seu presidente — D. Thomaz Villalba, presidente provisório da República, que decide enfrentar a situação, requisitando do Corpo Diplomático o auxílio das forças navais estrangeiras, com cujo apoio fica o governo prestigiado. Demite, em seguida, Palomeque do comando da praça e desarma os exaltados, sendo suspensas as hostilidades. O Ministro italiano Barban é encarregado de entabular negociações e, a 20 de fevereiro, o convênio de capitulação às Forças Brasileiras e coloradas é assinado. O General Flores, assumindo a chefia do governo, dá ao Brasil todas as satisfações reclamadas. A Bandeira Brasileira é içada no Forte de São José, dando-se em honra 21 tiros e, aquele que a havia injuriado nas ruas de Montevidéu, é obrigado a deixar o Estado Oriental.[10]

Àquelas salvas responde uma das baterias do 1º de Artilharia-a-Cavalo, postado em linha, em frente ao quartel de Bastarrica, enquanto as bandas marciais executam o nosso hino. Estava, assim, restabelecida a ordem e a independência do Estado Oriental, que a nós aliar-se-ia, logo depois, para fazer frente ao inimigo comum — Francisco Solano Lopez. Estava findo o prólogo da grande tragédia que ia se desenrolar nos campos de Mato Grosso, do Rio Grande, de Corrientes. A campanha do Uruguai não tem solução de continuidade com a que se lhe seguia: uma é corolário da outra.[10]

Terminada a campanha, Mallet marcha com as demais unidades da Força Expedicionária, sob o comando do Marechal Menna Barreto, em direção ao novo e decisivo confronto no sul. Chega à Fortaleza do Cerro em 2 de março; embarca no porto de Montevidéu a 9 de maio e desembarca em São Francisco dois dias depois; atravessa com o Exército para a província de Entre-Rios a 28 de junho e desembarca junto à cidade de Concórdia, na Argentina. A seguir, ruma, com o Exército, para a República do Paraguai, através daquela província. O Marechal Menna Barreto, em sua Ordem-do-Dia nº 17, de 7 de janeiro, relata o ataque a Paissandu e faz referências especiais aos corpos e indivíduos que se salientaram, dizendo relativamente à artilharia:[10]

“O Senhor Tenente-Coronel graduado Emílio Luiz Mallet, comandante das baterias de artilharia e incumbido de sua colocação em posição, desempenhou este serviço com atividade e dedicação. Durante o combate mostrou sempre coragem e zelo.”²⁵

Por sua vez, o imperador resolveu condecorar os soldados que haviam se portado com bravura. Por decreto de 18 de fevereiro de 1865, Mallet foi promovido a Comendador da Ordem Imperial da Rosa. Além dele, foram condecorados 64 oficiais do exército e 49 da marinha, cabendo, a todos os valentes do 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, a Medalha de Cavaleiro da Ordem da Rosa pelos serviços relevantes prestados na Campanha do Estado Oriental do Uruguai. O bravo 1º Tenente Cunha Mattos foi promovido a Capitão, além de distinguido com a Ordem do Cruzeiro, no grau de Cavaleiro. Finalmente, por Decreto nº 3.468, de 8 de maio de 1865, criou o governo uma medalha, que foi concedida a todos os oficiais e praças que, sob o comando do Marechal Menna Barreto, estiveram presentes à Convenção de Paz, de 20 de fevereiro.[10]

5.2 — NOTAS (Livro: Mallet, o patrono da artilharia)

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  1. Atanásio Cruz Aguirre nasceu em Montevidéu, em 1804, de família ilustre. Foi acerbo partidário da guerra contra o Brasil, de 1825 a 1828, na qual obteve a patente de Tenente-Coronel. Nas diversas guerras civis mostrou-se sempre conciliador, conquistando a simpatia de amigos e adversários. Exerceu, em 1864, a presidência do Senado, e a da República, esta em caráter interino, de março de 1864 a março de 1865, ano de provação para o Uruguai. Procurou conquistar a amizade da Argentina para que o apoiasse contra o Brasil, mas foram infrutíferos seus esforços, bem como os que desenvolveu no sentido de conseguir que as forças do General Venâncio Flores depusessem as armas. Os brasileiros invadiram o Uruguai e bombardearam alguns de seus portos, o que provocou a indignação de Aguirre e fez com que, em praça pública, e perante grande multidão, queimasse todos os tratados então existentes entre o Uruguai e o Império, fato que ficou conhecido como “Hecho de la antigua República”. Durante seu governo teve lugar a desesperada defesa de Paissandu contra as forças brasileiras de terra e mar. Notando a tendência pró-Brasil da maioria do povo uruguaio, liderada pelo General Flores, entregou a presidência da República ao novo presidente do Senado, em março de 1865, e retirou-se à vida privada. Morreu em 1875.
  2. José Antônio Saraiva nasceu na Bahia, em 1823. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de S. Paulo, foi juiz municipal e procurador da fazenda na Bahia. Em seguida ocupou as funções de deputado provincial e presidente das províncias do Piauí, Alagoas e São Paulo, sendo reconduzido à Câmara Temporária por 3 legislaturas. Seis vezes ministro de Estado, ocupou as Pastas do Império, da Justiça, da Guerra, da Fazenda e da Agricultura. Em 1858 assumiu a presidência de Pernambuco. Ministro Plenipotenciário no Prata, em 1864, senador pela Bahia em 1867, organizou o Gabinete em 1880. Responsável pelas Leis Saraiva (do sufrágio universal) e Saraiva-Cotegipe (libertação de escravos de mais de 65 anos), em 15 de novembro de 1889, foi encarregado pelo imperador de compor um novo Ministério para substituir o de Ouro Preto, mas era tarde, a República havia sido proclamada. Afastou-se da política, mas a ela retornou por breve tempo, quando se elegeu senador pela Bahia: compareceu à sessão inaugural do Senado e, em seguida, renunciou. Faleceu em Salvador, BA, em julho de 1895.
  3. Recusou o ultimatum o governo uruguaio, que pedira auxílio a Lopez, ditador do Paraguai. Tamandaré julgou dever agir mesmo violentamente e perseguiu o vapor oriental Villa-de-Salto, que transportava munições para o inimigo; fugindo ao Jequitinhonha, o navio uruguaio encalhou em frente a Paissandu, onde seu comandante, desembarcando a guarnição, o fez incendiar. Aguirre fez queimar então em praça pública os tratados celebrados com o Brasil e nossa bandeira foi insultada por seus partidários pelas ruas de Montevidéu.
  4. Nasceu Venâncio Flores em 1809 e passou seus primeiros anos de vida nos pampas, entre os gaúchos, sobre os quais adquiriu grande ascendência, em virtude de sua cultura e talento militar. Serviu às ordens de Mitre e esteve na batalha de Pavón, em que Buenos Aires assegurou sua supremacia sobre as demais províncias da Argentina, contribuindo com seus gaúchos para este sucesso. Pouco depois, ajudado por Mitre assumiu o governo da Confederação Argentina, invadiu o Uruguai e, com a colaboração de forças brasileiras conseguiu, em 1855, apoderar-se da Banda Oriental, derrotando o Presidente Berro. Nomeado ditador e com a situação mais calma, demonstrou seu agradecimento ao Brasil, firmando o Tratado da Tríplice Aliança. Depois da queda de Aguirre foi eleito Presidente do Uruguai. D. Pedro II conferiu-lhe a dignidade de príncipe e o fez Grã-Cruz da Ordem do Cruzeiro. Sobreveio, entretanto, uma revolução e Flores, então chefe dos colorados, foi assassinado em 1869.
  5. Não se pode dizer, rigorosamente, que os fazendeiros brasileiros fossem correligionários políticos de Flores e do partido colorado, ou que lhe prestassem auxílio por motivos políticos; mas, com certeza, sua participação na luta foi um ato de defesa própria contra as opressões e desfeitas de Montevidéu. Eles viam em Flores um homem que lhes devia ser grato, que podia suplantar seus perseguidores e restaurar o império da lei. Assim pensava a respeito dele a maioria dos fazendeiros. (Schneider: “Guerra da Tríplice Aliança.”)
  6. O Marechal Menna Barreto organizou seu corpo-de-exército em 2 divisões: a 1ª comandada pelo Brigadeiro Manuel Luiz Osório e a 2ª comandada por seu sobrinho, o Brigadeiro José Luiz Menna Barreto. Cada divisão era constituída de 3 brigadas. Havia ainda a divisão de cavalaria independente, composta de voluntários e comandada pelo Brigadeiro Antonio de Souza Netto.
  7. João Propício de Figueiredo Menna Barreto nasceu em Rio Pardo, RS, em 5 de agosto de 1808, filho do Visconde de São Gabriel. Sentou praça, por dispensa régia, aos 12 anos de idade no Regimento de Dragões de sua cidade natal. Participou da Guerra das Províncias Unidas do Rio da Prata, distinguindo-se na batalha de Passo do Rosário. Participou ainda da Guerra dos Farrapos, da guerra contra Oribe e Rosas, ao lado de Caxias, e das lutas contra Aguirre, distinguindo-se na tomada de Paissandu em 1865, e na tomada de Montevidéu. Foi 1º vice-presidente da província do Rio Grande do Sul e, como Marechal-de-Campo, assumiu o comando das armas da província. Recebeu o título de Barão de São Gabriel em 1865, falecendo em 1867, em São Gabriel.
  8. Eram seus subalternos os Primeiros-Tenentes Ernesto Augusto da Cunha Mattos, João Nepomuceno de Medeiros Mallet e os Segundos-Tenentes Justino Silveira, José Maria de Morais, José Manoel Teixeira Rios, José Antonio Lessa, Ignácio Antonio de Gouvêia Júnior, Antonio Carlos de Oliveira e Mello e os Alferes Onofre José Antônio dos Santos (adido).
  9. Luiz Fernandes de Sampaio participou, mais tarde, da rendição de Uruguaiana e morreu no combate da Ilha da Redenção.
  10. A cavalaria estava pessimamente armada: quem dispunha de lança não levava outra arma, o mesmo acontecendo com quem tinha espada ou carabina. E, se assim estava armada, pior estava montada: os animais eram na maior parte chucros; de início só os excelentes cavaleiros podiam montá-los. Mais uma vez íamos contar com a bravura dos nossos soldados, e nada mais.
  11. Nesse mesmo dia, o Major paraguaio Martin Urbieta atacava a Colônia Militar de Dourados, cujo comandante — o Tenente Antônio João Ribeiro — e seus 18 companheiros, escreviam uma das mais lindas páginas da História do Brasil.
  12. As caronadas, assim chamadas por provirem da aldeia de Caron, na Inglaterra, eram bocas-de-fogo curtas, cuja manobra e carregamento faziam-se rapidamente. Mais usadas na Artilharia Naval, em geral, eram mais leves e menos precisas que os canhões comuns. Atiravam com pequena velocidade inicial um grande projétil que se fracionava em grande número de estilhaços.
  13. O malogrado Lima Júnior veio a falecer quando era evacuado para Buenos Aires, no vapor Recife. Foi enterrado na Ilha Martin Garcia.
  14. Cap. José Faustino Filho: “Histórico do Regimento Mallet”.
  15. Do 13º Batalhão, ao entrar ele nas primeiras ruas da cidade, tombam 27 mortos, além de grande número de feridos. O comandante dá ordem de arrombar as casas e desalojar o inimigo.
  16. Mar. José Bernardino Bormann: “A Guerra do Paraguai”.
  17. O parlamentar informou que os chefes Lucas Pires e Tristão de Azambuja haviam morrido. Identificado como um renegado, disse que se pudesse saber em que veia lhe corria o sangue brasileiro, rompê-la-ia com os dentes, ao que o Soldado Manuel Ribeiro, do 3º Batalhão, o abateu com um tiro. Enquanto os chefes brasileiros redigiam a resposta, apresentou-se outro emissário, desta vez o Coronel Atanagildo Saldanha, colorado que fora aprisionado pelos blancos.
  18. Gomez e mais três oficiais declararam preferir serem prisioneiros de compatriotas seus. O Coronel Goyo Suarez, cuja família havia sido vítima da crueldade daquele chefe, levou-os e os mandou fuzilar. Nosso comandante chefe protesta, manifestando repulsa pelo ato covarde e fazendo ver o quanto sentia ver assim manchada a brilhante vitória e, para atenuar a desonrosa impressão, consente em libertar, sem quaisquer condições, os 93 oficiais prisioneiros. Desses, 20 se retiraram para Montevidéu, onde continuaram a servir à causa de Aguirre.
  19. Paissandu era chamada pelos blancos de Sebastopol sul-americana.
  20. Não pequeno havia sido nosso tributo. Tombados na peleja, entre mortos e feridos, tivemos 18 oficiais e 237 praças, além de 2 oficiais de marinha e 30 marinheiros. Do 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo houve dois mortos e dois feridos.
  21. Gustavo Barroso, na obra citada.
  22. Uma de suas baterias era comandada pelo Capitão Manoel Deodoro da Fonseca.
  23. A 19 de janeiro, o Conselheiro Paranhos envia uma nota a D. Rufino Elizalde, Ministro do Exterior, comunicando que o Brasil reconhecia o General Flores como beligerante, “nobremente dedicado aos interesses de sua pátria e que o governo imperial nenhuma intenção nutria que não se conciliasse com a independência e soberania da República Oriental”.

6 — Mallet na guerra da tríplice aliança

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Doente, deixara Menna Barreto o comando do Corpo-de-Exército em operações no Uruguai (anteriormente Exército do Sul). A 1º de março assume-o, interinamente, o Brigadeiro Manoel Luiz Osório. A permanência em Montevidéu deu ensejo à reorganização geral das forças brasileiras para a campanha contra o governo do Paraguai. Com a chegada de reforços substanciais, entre os quais o 1º Batalhão de Artilharia-a-Pé, que guarnecia a Fortaleza do Cerro e trazia um bom parque, Mallet põe em evidência suas qualidades de chefe e de oficial de estado-maior. Por solicitação do Almirante Tamandaré, a esquadra iria receber tropas de terra, no valor de uma brigada, para as planejadas operações de desembarque. Por outro lado, cogitava-se de instruir o 1º Batalhão de Artilharia-a-Pé, como Artilharia-a-Cavalo, dotando-se essa unidade de 12 bocas-de-fogo raiadas, calibre 12. Nessa ocasião deu-se a feliz intervenção de Mallet, conseguindo aumentar o efetivo de sua unidade, até então uma ala. Cedeu ao Tenente Antonio Tibúrcio Ferreira de Souza,¹⁵ comandante do Contingente do 1º Batalhão-a-Pé, que ia embarcar na esquadra, dois de seus obuses, bem como a maior parte da munição disponível e, em troca, incorporou à sua tropa metade do efetivo desse batalhão, bem como os 12 canhões raiados de 4.¹⁶ Disse, a propósito, o General João Vicente Leite de Castro, então Tenente, que se integrou ao regimento:[10]

“A Artilharia mostrava-se outra: 2 baterias de 12 peças que tinham feito a campanha de Paissandu, e que haviam chegado às cercanias de Montevidéu, com extraordinárias faltas, estava elevada a corpo, e aumentada de mais canhões, vindos do Brasil, ficando com 24… Mas como era deficiente o acampamento em que estávamos, para a formação do grande exército, todas as nossas forças embarcaram em navios de guerra e transportes particulares, e desembarcaram na foz do arroio Dayman, no rio Uruguai, pouco acima de Paissandu. Foi ali que meu regimento obteve tudo quanto lhe foi mister, sobressaindo meios de mobilidade que foram tão admiravelmente aproveitados pelo Tenente-Coronel Mallet, tendo sempre revelado uma competência inigualável.”¹⁷

Nessa fase os cuidados de Mallet estenderam-se aos diversos setores administrativos, tendo adestrado animais destinados à tração dos novos canhões La Hitte, fardado seu pessoal com as famosas túnicas de baeta vermelha, fornecidas pelos depósitos de Montevidéu, e com chapéu de abas largas; idealizado um sistema de atrelamento de tração, feito de couro cru e adequado à campanha.¹⁸ Para coroar seus esforços e dar à unidade; então com 4 baterias de 6 peças, um verdadeiro espírito de corpo, recebeu o regimento o estandarte nacional, com que fez toda a campanha do Paraguai.¹⁹[10][10]

Terminada a campanha do Uruguai, a concentração inicial das tropas aliadas, tendo em vista a próxima campanha contra Solano Lopez, tem lugar em Mercedes. De lá, dirigem-se para Corrientes. O restante do ano de 1865 foi dedicado à reunião das forças da Tríplice Aliança em território argentino, em consequência do tratado celebrado a 1º de maio desse ano²⁰ e do rumo tomado pelos acontecimentos depois, não só da derrota das tropas paraguaias de terra, que haviam invadido as províncias argentinas de Corrientes e Entre-Rios e a brasileira do Rio Grande do Sul, mas também das forças navais de Meza na Batalha Naval de Riachuelo (11 de junho). Fora decidido, como destino dos Exércitos Aliados, um local adequado à margem esquerda do rio Paraná, na província de Corrientes. A 1º de março de 1866, exatamente um ano após haver Osório assumido o comando do Corpo-de-Exército, estava essa grande unidade pronta para empreender novas operações, faltando-lhe apenas assegurar a remontada de sua cavalhada.[10]

Em 10 de março de 1866, no acampamento de Taiacorá, achavam-se prontos para a campanha 9 oficiais-generais, 4 divisões de Infantaria (1ª, 3ª, 4ª e 6ª), 2 de Cavalaria (2ª e 5ª), além de uma brigada ligeira (1.500 homens do General Antonio de Souza Netto), e um Comando Geral de Artilharia (General Antonio Manoel de Mello),²¹ formado por 3 unidades de Artilharia (1.404 homens, 48 canhões de 4, 6 e 12, raiados, La Hitte), um batalhão de Engenharia (287 homens), e dispondo de uma brigada auxiliar, para sua defesa imediata.¹⁶ Na esquadra estava embarcada a 9ª Brigada (General João Guilherme Bruce).[10]

O Tenente-Coronel Emílio Luiz Mallet, comandando, de fato, o 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo (depois de seu desdobramento em duas unidades), dispunha de 31 oficiais e 445 artilheiros, guarnecendo 24 bocas-de-fogo de 4, raiadas, La Hitte, pois, sempre na preocupação de aligeirá-la e torná-la apta às ações com a Cavalaria ou a Infantaria, havia passado aos batalhões de Artilharia-a-Pé os canhões de 6 e conseguido padronizar, com o canhão de 4, o material do Regimento.[10]

A invasão do Rio Grande foi executada por forças paraguaias sob o comando do Tenente-Coronel Antonio de la Cruz Estigarribia e pelo Major Duarte, os quais, aproveitando-se da defesa precária de São Borja, ocuparam a cidade. Descendo em seguida o rio Uruguai, apresentaram-se diante de Uruguaiana,²² que foi ocupada a 5 de agosto de 1865, a despeito dos esforços de uma flotilha fluvial comandada pelo 1º Tenente Floriano Peixoto, cuja missão principal era evitar a junção das forças dos dois chefes inimigos em Passo de Los Libres. Era tal a falta de recursos, que as forças da Guarda Nacional sob o comando de David Canabarro, mobilizadas para a defesa da província desde fins de 1864, haviam se deslocado de Santana do Livramento para a região de Uruguaiana, sem, entretanto, nada poderem fazer. A Artilharia dessa tropa era constituída de duas baterias do 1º Regimento-a-Cavalo, comandadas pelos Capitães Trajano Medeiros e José Silva.²³ Em substituição a Canabarro, Marques de Souza foi nomeado comandante geral das forças que, então, sitiaram Uruguaiana. Na presença do imperador, que viera especialmente do Rio de Janeiro para assisti-la, teve lugar a rendição do inimigo encurralado, no dia 18 de setembro de 1865.²⁴[10]

“O Exército Aliado, com 17.346 homens, formava um grande arco de quase uma légua de comprimento que avançava em colunas, apertando, cada vez mais, o círculo de ferro. Ao meio-dia as avançadas estavam a 30 metros das fortificações de Uruguaiana. No meio das cinco colunas de brigadas de Infantaria achava-se o quartel-general, com sua majestade, os príncipes, o ministro da guerra, etc. Para a direita, até o rio, estavam os 6.000 cavaleiros do Barão de Jacuí. No centro da linha de batalha estava o Exército Argentino, com 3.733 homens, tendo parte de sua Artilharia estendida em linha; à esquerda, o Exército Oriental, com 1.220 homens. A Divisão de Canabarro vinha em 2ª linha com proteção da Primeira.”²⁵

Ofensiva aliada

A Ordem-do-Dia nº 128, de 14 de fevereiro de 1866, publicou 28 promoções, das quais 8 de integrantes da Artilharia que desde Paissandu e Montevidéu vinham se distinguindo. Mallet é efetivado no posto de Tenente-Coronel, no qual estava graduado desde 28 de novembro de 1863. A Brigadeiro, foram elevados os Coronéis Alexandre Gomes de Argollo Ferrão e José Joaquim Fontes. Este comandara o 1º-a-Cavalo em Monte-Caserros. A Major, os Capitães Manoel de Almeida Gama Lobo d’Eça e Hermes Ernesto da Fonseca, heróis de Paissandu; a Capitão, os Tenentes Antonio Tibúrcio Ferreira de Souza, de Riachuelo, João Nepomuceno de Medeiros Mallet, de Paissandu, e José Carlos Cabral, morto pouco depois, no reconhecimento de Itapua. Após a rendição de Uruguaiana, o Conselho Aliado de Generais havia decidido executar o seguinte plano de ofensiva estratégica: marcha sobre Corrientes; constituição de um exército de reserva no Rio Grande do Sul, início da ofensiva pelas forças de Osório e invasão do território paraguaio, em ponto a ser determinado. As forças de Lopez se encontravam concentradas em Passo da Pátria, e as de Mitre em Corrientes, em fins de 1865.[10]

Do acampamento de Montevidéu, Mallet marchou diretamente para a campanha do Paraguai, no comando de seu regimento. A concentração inicial tem lugar em Mercedes, de onde o 1º Corpo-de-Exército se dirige para Corrientes. Nesta cidade reúne-se o Conselho de Generais, que decide iniciar as operações ofensivas contra as posições fortificadas do Paraguai.²⁶ Põe-se a tropa em movimento e, a 31 de março, ao chegar às margens do rio Paraná, acampa na região de Passo de Itapiru.[10]

O dia 16 de abril de 1866 traz a marca indelével da mudança de atitude dos beligerantes em confronto. Passam os Aliados à ofensiva, entrando Paraguai adentro e fazendo com que Lopez aí começasse a sentir, em seu próprio território, as agruras de uma guerra que ele mesmo provocara. Veria, daí em diante, seus soldados vencidos, seus campos destruídos, suas cidades ocupadas, sua pátria invadida.[10]

Estado-maior de artilharia-a-cavalo (1872) - pesquisa de gustavo barroso e aquarela de Washt rodrigues

Nesse dia, na confluência dos rios Paraná e Paraguai, começa o desembarque. Por haver sido o solo brasileiro o primeiro a ser conspurcado, Osório faz questão de ser o primeiro a pisar o do inimigo. Com ele vão seus ajudantes-de-ordens e seu piquete de lanceiros, ao todo 12 homens. Pessoalmente, lança-se em reconhecimento: encontra bosques de cana e perigosos banhados. Mas aí surgem os primeiros soldados de Hermez e Venegas, que fazem fogo sobre a escolta, mas são prontamente repelidos por cinco companhias, duas do 2º Batalhão de Infantaria, uma do 11º e duas do 2º Corpo de Voluntários.²⁷ Depois, os primeiros elementos do grosso da Divisão de Argollo,¹⁶ com Artilharia. O tiroteio é ouvido de longe, e Mallet tenta apressar o desembarque de seus canhões, tarefa difícil porque, ainda não acostumados a este tipo de operação, os muares empancam sobre a prancha que ligava à terra o navio-transporte. O incidente é prontamente contornado pelo grande chefe que, agindo pessoalmente à frente de seus artilheiros, desloca cinco peças a braço — já em terra, pouco depois elas atolam, mas na sua perseverança as retira do lamaçal apesar das dificuldades momentâneas.²⁸ E Mallet consegue colocá-las em posição para, com seus fogos precisos, garantir aos bravos infantes o apoio que esperavam para o coroamento de seu primeiro objetivo em terreno inimigo.[10]

Artilharia-a-pé (1866-1872) - pesquisa de gustavo barroso aquarela de Washt Rodrigues

A força paraguaia de 2.000 homens não foi capaz de resistir ao impacto de nosso ataque. Foge e é, de perto, fustigada pelos soldados de Osório e de Argollo, sendo salva, não só pela prudência desses chefes, em não se aventurarem em terreno ainda desconhecido, mas também pelas chuvas torrenciais que, naquela ocasião, desabaram sobre a região da confluência. O dia seguinte é de sol. O inimigo retorna, reforçado, já com 6.000 homens, sob o comando do Tenente-Coronel Basílio Benitez. A Artilharia de Mallet é seriamente ameaçada, pois não pudera ainda organizar o terreno das posições que ocupava. Seu fogo, nutrido e eficaz, entretanto, foi fator decisivo para que o inimigo fosse, uma vez mais, repelido.²⁹[10] Debaixo de verdadeira tempestade de aço, em precipitada fuga, procura abrigar-se em seus entrincheiramentos. Por seu turno, a Esquadra, com sua Artilharia, impõe silêncio ao Forte de Itapiru.³⁰[10]

O sucesso das armas aliadas na Confluência repercutiu no Brasil inteiro e, particularmente, na Corte. Pelas vitórias alcançadas em 16 e 17 de abril de 1866, o Imperador, por Carta Imperial de 18 de maio do mesmo ano, agraciou Osório com o título de Barão do Herval. E esse grande chefe, em sua Ordem-do-Dia nº 152, assim se refere a Mallet:[10]

“O Senhor Tenente-Coronel Emílio Luiz Mallet, Comandante do 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, que dirigia as 8 bocas-de-fogo que acompanhavam a expedição, confirmou os seus precedentes, desenvolvendo a atividade, bravura e energia, que há muito lhe são conhecidas.”

Após um comportamento tão valente quanto brilhante, à frente de suas baterias, com extraordinária singeleza, na parte de combate, Mallet descreve a ação de sua tropa e a bravura das guarnições de seus canhões:[10][10]

“1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo — A 1ª Bateria deste Regimento, servindo um material de 8 bocas-de-fogo, tendo embarcado no dia 15 de abril, à noite, desembarcou no dia 16, pela manhã, e seguiu em perseguição do inimigo, não tendo podido todas as peças entrar em fogo no dia 16, não só devido à dificuldade do desembarque como pelos obstáculos da travessia. Nas três primeiras posições que tomei fiz fogo com três peças, e na 4ª, com cinco. Mais tarde, depois do fogo acabado, apresentaram-se as últimas três. No dia 17, dia em que o ataque foi mais vivo, as oito bocas-de-fogo achavam-se em bateria e produziram o efeito que se sabe. Relação nominal dos oficiais que, com bravura e distinção, se conduziram nestes dois dias: Capitão Comandante da Bateria João Nepomuceno de Medeiros Mallet, 2º Tenente Boaventura Pinto da Silva Vale, Alferes adido Antonio Júlio de Medeiros Mallet; no dia 17, Tenente adido Francisco Gomes de Mattos, 1.º Tenente João Vicente Leite de Castro e Alferes adido José Maria de Morais. O 2.º Tenente Manoel Peixoto Cursino do Amarante, que assistiu a todo o fogo das quatro posições do dia 16, também portou-se com bravura e distinção, e não pôde assistir ao combate do dia 17, por ter sido mandado buscar munições."

Cumpre-me também fazer menção do digno comportamento das praças que se segue:[10]

1º REGIMENTO DE ARTILHARIA-A-CAVALO (1865-1872) - Pesquisa de Gustavo Barroso e aquarela de Washt Rodrigues

".º Cadete — 1.º Sargento Joaquim Alves da Costa Mattos, dito Ismael Cesar Pais Barreto, furriel José Bento Tobias, Cabos Domingos Marques dos Santos, Frederico Luiz Von Schönholtz, Soldados Francisco Antonio Ramos, Manoel Calixto e Pedro Martins, assim como os Sargentos da Bateria de Voluntários alemães Guilherme Von Steuben e Carlos Juliesky. Acampamento junto ao Forte de Itapiru, 21 de abril de 1866 — Emílio Luiz Mallet, Tenente-Coronel, Comandante Interino.”

Em Passo da Pátria as forças inimigas e as aliadas tinham a separá-las apenas o Estero Bellaco. A vanguarda aliada, comandada pelo General Flores, compunha-se de tropas orientais e da 12.ª Brigada Brasileira e, desde 29 de abril, a ela veio juntar-se a 5.ª Bateria do 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, que dispunha de 4 canhões La Hitte, raiados, calibre 4, e era comandada pelo Capitão João Dias Cardoso de Mello. A 5.ª Bateria fora mandada colocar pelo General Flores, no dia 30 de abril, em posição de espera, e não de tiro, a 130 metros de um bosque, até onde o inimigo poderia se aproximar, caso não fosse detido em tempo pelo 7.º Batalhão de Infantaria, do Coronel Pedra, colocado à sua frente. Esta bateria aguardava ordens para se deslocar com o reconhecimento que o General Flores realizaria dia 2 de maio. Por isto, não se protegia com trincheiras e espaldões.[10]

Fazendo muito bom uso do terreno acidentado que contornava as posições de nossa vanguarda, e aproveitando-se da descontração natural da hora do rancho — ao meio-dia de 2 de maio (1866), o inimigo irrompeu violentamente dos bosques que orlavam o campo aliado. Enquanto Jimenez, com quatro Batalhões de Infantaria, cruza o Passo Sidra e Benitez, com outros dois, o Passo Carreta caindo sobre os orientais, o Tenente-Coronel Fidelis Valiente, com o 7.º e o 13.º Regimentos de Cavalaria, ataca e dispersa o 7.º Batalhão de Infantaria brasileiro, comandado pelo Coronel Pedra. E depois investe furiosamente contra os quatro canhões La Hitte. O Capitão Cardoso de Mello recebe os atacantes debaixo de fogo, a pequena distância, quase à queima-roupa. Mallet, que se achava em seu acampamento, ao ouvir os primeiros disparos de canhão, dirigiu-se à vanguarda, e encontrou a bateria atirando sobre a cavalaria inimiga. Mas, à vista da situação precária em que esta se encontrava, mandou seu ajudante à retaguarda, em busca de auxílio com mensagem para o General Osório. Depois, à procura de reforços imediatos, dirigiu-se para junto do Coronel Manuel Lopes Pecegueiro, comandante da 12.ª Brigada de Infantaria, com 3 Batalhões, que estacionava próximo, a 500 metros. Mallet rogou a Pecegueiro que avançasse acelerado, com sua Brigada, e contra-atacasse o inimigo que estava na iminência de se apoderar das 4 peças. Pecegueiro não o atendeu, declarando que só receberia ordens do General Flores. Mallet, então, insistiu aos altos brados, de maneira veemente, a fim de compeli-lo a salvar a bateria. Pecegueiro era Coronel e Mallet Tenente-Coronel. Quando Pecegueiro moveu-se por ordem direta de Flores, a guarnição da bateria já se retirava, abandonando as peças, na impossibilidade de defendê-las. O inimigo delas se apoderou, arrastando-as para seu campo. O Capitão Cardoso de Mello manteve-se em seu posto, quanto pôde, disparando sobre o inimigo. Mas, quando este chegou à distância de entrevero, tentando envolver a posição pela direita, já tendo abatido a golpes de lança um condutor da primeira peça, também se retirou. Depois, informou em sua parte:[10]

“Não havia mais que esperar, e tendo que permanecer em meu posto, com meus oficiais e soldados, importava em um suicídio inútil, pois que o peso de nossos cadáveres não obstaria que o inimigo levasse o parque: mandei que se retirassem e acompanhei-os.”

O General Bernardino Bormann, testemunha ocular (era Capitão de Artilharia), escreve em sua História da Guerra do Paraguai: — “Quando mesmo o Coronel Pecegueiro tivesse sido um pouco retardatário, o culpado seria o comandante da vanguarda que o prevenira do reconhecimento que ia fazer, declarando-lhe que não se impressionasse com os tiros que ouvisse.”[10]

O Coronel Pecegueiro não era homem covarde, mas lhe faltou a iniciativa. Se tivesse se deslocado de imediato, com maior presteza, e atacado o inimigo, poderia ter evitado que os canhões fossem tomados pelos paraguaios, pois estava muito próximo da posição da bateria. Entretanto, por vacilação, por falta de decisão, apegou-se a uma ordem de Flores, já superada pela precipitação dos acontecimentos. Assim terminou a primeira fase do Combate de Estero Bellaco, com o insucesso de nossa vanguarda, que não estava articulada e alertada para receber um ataque de surpresa do inimigo. Por falta de cooperação das armas perdemos 4 canhões, que foram carregados pelo inimigo. Agora, com a reação do grosso, a situação se recompõe, passando os aliados à ofensiva e à conquista da vitória na jornada de 2 de maio de 1866.[10]

Mallet, depois de seu lamentável incidente com o Coronel Pecegueiro, retornou rapidamente ao seu Regimento a fim de tomar outras providências. Ordenou logo a vinda da cavalaria do pastoreio e, com 12 canhões, acompanhou o contra-ataque do General Osório. Com seus fogos, combateu o inimigo até que este foi lançado fora do campo de batalha. Na retaguarda, as tropas do grosso também demoraram em se movimentar pois interpretaram o tiroteio e o bombardeio na vanguarda como resultante do reconhecimento que Flores devia proceder nesse dia. Osório, que se encontrava em seu Quartel-General, a três quilômetros de distância, acorreu à frente com o reforço de 2 batalhões e 12 peças de Mallet. Juntamente com as forças da vanguarda, tomou a ofensiva, recalcando o inimigo além de suas trincheiras de ponto de partida. Foi grande o número de mortos e feridos do inimigo. Tomamos dois canhões e duas bandeiras.[10]

O Capitão Cardoso de Mello requereu Conselho de Justificação, porém Mallet, em sua informação ao escalão superior declarou ser desnecessária semelhante atitude “por ter o suplicante, naquele dia, dado prova exuberante de seu valor e de sua abnegação”. O despacho final de Osório foi o seguinte:[10]

“Não havendo quem acuse o suplicante da menor negligência no fato de haver o inimigo carregado as peças que estavam a seu cargo e, em vista da informação do Comandante, torna-se inútil o Conselho que pede”.

Os quatro canhões La Hitte do 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, de que o inimigo se apossou em Estero Bellaco, foram mais tarde retomados e reincorporados ao Regimento. Em 11 de maio um Conselho de Generais resolveu atacar a 15, mas como os suprimentos do Exército Argentino estivessem atrasados, a operação foi adiada. A 19, o Conselho novamente se reúne e, no dia seguinte, o grosso aliado, sob o comando do General Mitre, vadeou o Estero Bellaco por Três Passos, encontrando apenas fraca resistência no Passo Sidra e, em fim de jornada, acampou na região de Tuiuti. Coube ao General Osório penetrar com a coluna brasileiro-oriental enquanto os argentinos o faziam pelo Passo Carreta, marchando na direção geral de Itaiti-Corá e se detendo nas alturas que havia nesse flanco. Ao se defrontarem os orientais com as matas de Estero Rojas, detiveram-se sobre a estrada de marcha e aí estabeleceram posições defensivas para dar tempo à reunião dos Exércitos Aliados naquela perigosa região.[10]

Os paraguaios estavam estendidos desde o Passo Gomez até o Estero Rojas. À sua direita encontravam-se as matas de Sauce, onde se apoiavam. A 20 de maio marchou o 1.º Regimento de Artilharia na vanguarda das Forças Aliadas, do Passo da Pátria para Tuiuti, sem ter ocasião de intervir na luta, que se travou, no Estero Bellaco, entre as nossas posições avançadas e a vanguarda paraguaia, que se encontrava entrincheirada no extremo sul da mata que orlava o limite leste do Potrero Pires. Penetrando em Tuiuti, avançou o 1.º Regimento na direção da linha de Rojas. O Coronel Mallet mandou fazer alto e determinou que suas baterias entrassem em posição. Realizada a manobra, todo o material de Artilharia ocupa os lugares a ele destinados. Mallet mandou, então, formar guarnições e fez com que os condutores apeassem. Convocou à frente o Major Severiano Martins da Fonseca, fiscal, e os comandantes de baterias e, a cavalo, como estavam todos os oficiais, apontou para a frente e disse:[10]

“Aqui estamos mal, mas não há lugar melhor. Devemos prever um golpe de Cavalaria e prepararmo-nos para apará-lo. Ordeno, pois, que o Regimento se mantenha de prontidão, ficando, durante o dia, de meias-guarnições a postos, serviço que deverá ser presidido por um dos senhores capitães, auxiliado de subalternos das diversas baterias. À noite, a prontidão dão será feita por todos nós. Mas não é bastante. Recomendo que, a partir da noite de hoje, se abra, em toda a nossa frente, largo e profundo fosso, o que se fará em silêncio e sem estrépito. As terras que resultarem da escavação devem ser espalhadas de modo a não formarem parapeito, que dê a perceber ao inimigo que estamos fortificados… e eles que venham.”

Nossas posições de bateria ficavam em uma região a 1 600 metros da linha paraguaia de Estero Rojas e adjacente à parte desmatada. À nossa frente, em continuação ao fosso, o terreno era firme e limpo: apenas à direita existiam vestígios de um laranjal abandonado. Entre os 900 e os 1 600 metros que as separavam de Rojas, havia um estero, quase impenetrável que, desenvolvendo-se paralelamente à nossa linha, terminava um pouco além de nossa esquerda. Os orientais e argentinos, que chegaram pouco depois, alinharam-se pelos canhões do 1.º Regimento, estes à direita, aqueles à nossa esquerda.[10]

Por trás deste corpo, um tanto à direita, acampou a 6.ª Divisão de Infantaria brasileira, do General Victorino, a título de oferecer proteção à Artilharia. Na frente do Exército Oriental a linha de Rojas era protegida por mata, alta e espessa, que ocultava inteiramente o acampamento inimigo. Foi esse acidente do terreno que ocultou a Cavalaria paraguaia até quase o momento dos ataques. Em cumprimento à ordem do Quartel-General, foram os animais, depois de desatrelados e desencilhados, evacuados para o Passo da Pátria. Como determinara Mallet, o fosso começou a ser aberto naquela mesma noite, ficando pronto na noite seguinte, 21 de maio. Na escavação trabalharam, irmanados, os artilheiros e seus camaradas do Batalhão de Engenharia. Atrás do fosso estavam dispostas as 24 peças do Regimento, já acrescidas de 4 bocas-de-fogo La Hitte, da Bateria alemã, comandada pelo Capitão Anfrísio Fialho. Na tarde de 23 de maio, os Generais aliados, uma vez mais reunidos em Conselho, decidiram realizar, às 2 horas da tarde do dia 24, um reconhecimento em força sobre a esquerda inimiga, na linha de Rojas, com vistas a um ataque geral no dia 25 de maio, data nacional da Argentina que, deste modo, seria comemorada. Na decisão ficou explícito que o 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo tomaria parte nessa operação preliminar. Em consequência, determinou Mallet que, às 12 horas, a unidade deveria estar pronta. A tranquilidade era total e, no acampamento inimigo, nada havia que pudesse despertar maior atenção dos aliados:[10]

“A noite de 23 para 24, que o Exército da Tríplice Aliança passou dormindo, tranquilo, indiferente inerte, o Exército paraguaio passou vigilante, ativo, sob as armas — a Infantaria no couce dos sarilhos; a Cavalaria nos arneses, de rédeas na mão; a Artilharia, nos cofres dos armões.”

Lopez, que dispunha, desde o início da guerra, de excelente serviço de informações, toma logo conhecimento da operação planejada para o dia 25 e decide se anteceder aos aliados no ataque. Ao meio-dia de 24 de maio de 1866, lança-se, impetuosamente, contra nosso acampamento, quando os reconhecimentos ainda estavam sendo preparados. O dispositivo aliado era o seguinte: à frente, os orientais sob o comando do General Venâncio Flores; à direita, os argentinos, comandados pelos Generais Mitre e Paunero; ao centro, a 6.ª DI brasileira do General Victorino Carneiro Monteiro e o 1.… ''Victorino fê-las tomar posição no centro da sua Infantaria que se acha à direita do Regimento de Mallet. O General Gurjão, comandante da Brigada de Artilharia (17ª), dirige aí a ação dessas bocas-de-fogo.”[10]

Dourada punho em copos ficou com Pedro Félix

Desse modo, à frente o 1º escalão assume consistência excepcional; à direita de Mallet nada o pode romper; à esquerda os contra-ataques de Sampaio, Argollo e Guilherme de Souza e dos Orientais animados por Flores e Osório, levam de roldão e expulsam os atacantes, frustrando-lhes o plano de penetrarem vitoriosos no seio do nosso dispositivo. Com intervalos, à primeira carga seguiram-se muitas outras, vinte ao todo, e a luta prolongou-se até depois das 3 horas da tarde, quando o último esquadrão paraguaio, posto em fuga, como todos os outros, foi abrigar-sco esquerdo, por onde pequenas forças inimigas surgiam freqüentemente, pondo em sobressalto os acampamentos. Para isso, Osório colocou suas tropas num dispositivo mais largo, levou canhões mais potentes para as fortificações das primeiras linhas, indo a Artilharia de Mallet ocupar uma posição central onde ficaram as baterias que não haviam sido destacadas para a cintura externa.¹⁶ Forçado a deixar o comando do 1º Corpo-de-Exército a 15 de julho, Osório ferido no queixo e demandando maior assistência médica, passou-o ao General Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão, cujo renome de chefe capaz e digno foi consolidado nos combates de 16 e 18 de julho (Sauce e Boqueirão) que constituem, no ponto de vista militar, um segundo tempo da Batalha de Tuiuti, um arremate para o domínio do terreno do qual os paraguaios teimavam em tentar expulsar os Aliados, empurrando-os para as águas traiçoeiras dos rios Paraná e Paraguai.[10]

Em princípio de agosto, o 2º Corpo-de-Exército estava concentrado em Itapiru. A 18, reuniu-se o Conselho de Generais, com a presença de Mitre, Flores, Polidoro, Porto Alegre e Tamandaré. Ficou decidido que o Corpo de Porto Alegre deveria subir o rio Paraguai, a bordo da Esquadra, e procuraria apoderar-se das fortificações inimigas de Curuzu e Curupaiti, de modo a ameaçar, pela retaguarda, o flanco direito das principais e extremas linhas paraguaias.[10]

Espada de mallet - dourada punho em cruzeta esteve em poder de seu filho João Nepomuceno

O Corpo Provisório de Artilharia, sob o comando do Major Gama Lobo d’Eça passou a integrar o Corpo-de-Exército de Marquês de Souza. De São Borja ganhou o território paraguaio, passando pelas Missões. Embarcou em navios da Esquadra que o transportaram até às ruínas do Forte de Itapiru onde, em 26 de julho de 1866, desembarcou. Dias depois reembarcou para se deslocar até às proximidades de Curuzu, forte posição inimiga defendida por cerca de 3 000 homens, sob o comando do Coronel Jimenez. O ataque foi realizado a 3 de setembro, por tropas de Infantaria comandadas pelos Brigadeiros Albino de Carvalho e Gonçalves Fontes, apoiadas pela Artilharia de Gama Lobo d’Eça, que contava com o Corpo Provisório e com elementos do 4º Batalhão de Artilharia-a-Pé.⁶² A Cavalaria do Tenente-Coronel Astrogildo Pereira da Costa conseguiu envolver o inimigo pelo flanco esquerdo, logrando expulsar os remanescentes de Curuzu. Entusiasmados com o sucesso inicial, partiram para o ataque à posição, mais extensa e mais fortificada de Curupaiti, defendida por 8 000 homens do General Diaz. O ataque foi iniciado às 8 horas do dia 22 de setembro, com o bombardeio da Esquadra.⁶³[10] Por terra só pôde começar às 12 horas, não só por ter de aguardar o fim do bombardeio naval, mas também porque a Artilharia da defesa atirava, incessantemente, sobre a base de partida na região de Curuzu. Das quatro colunas atacantes, duas eram formadas por tropas brasileiras do 2º Corpo-de-Exército, reforçado, sob o comando de Porto Alegre. O avanço aliado manifestou-se impetuoso e cheio de atos de bravura, mas os paraguaios que o esperavam, dizimavam impiedosamente as massas de Infantaria que assomavam às suas trincheiras, fazendo, inclusive, excelente uso de seus 58 canhões.⁶⁴[10]

Ante o grande sacrifício desse ataque frontal, foi decidido interromper a operação e voltar à base de partida, tendo a retirada sido realizada na mais perfeita ordem. Nossa Artilharia desde 8h 30 min. da manhã até 1h 30 min. da tarde sustentou seu vivíssimo fogo contra a Artilharia de grosso calibre, com peças de campanha, e recebendo ordem de avançar com suas baterias, a fim de assestá-las sobre a primeira trincheira, já ocupada por nossas forças, para dali participar, com mais eficiência, do ataque à segunda linha de defesa inimiga, executou com a maior presteza esse movimento que a colocava sob o alcance da metralha.⁶⁵[10]

A falta de unidade do Comando Aliado foi funesta para as operações e, sem dúvida, o principal fator do insucesso em Curupaiti. Isso teve como conseqüência a solução de continuidade do movimento das operações, que se estabilizaram até 1867, dando oportunidade a Lopez de melhor preparar seus efetivos destinados a nos fazer frente. As tropas brasileiras, nesse intervalo, foram concentradas no acampamento de Tuiuti onde, a 18 de novembro de 1866, o Marquês de Caxias assumiu o Comando-Chefe, função que gloriosamente exerceu. A rearticulação das Forças Brasileiras foi uma de suas primeiras providências. O reforço do 3º Corpo-de-Exército, pouco depois incorporado, sob o comando do General Osório, uma vez mais convocado a dar à Pátria seu precioso tributo. A 19 de fevereiro, Mitre se retira com 500 homens para a Argentina, onde eclodira um movimento revolucionário, e deixa em seu lugar o General D. Juan A. Gelly y Obes, comandando cerca de 4.000 argentinos. Venâncio Flores, que também se retirara para enfrentar idêntico movimento no Uruguai, deixou os orientais sob o comando de D. Henrique Castro.⁶⁶[10]

Em março de 1867, recolheu-se a Tuiuti o 2º Corpo-de-Exército, sob o comando do Visconde de Porto Alegre, vindo de Curuzu e com seu efetivo reduzido a 500 homens, pelos combates e pela cólera. Em julho, sob o comando de Osório, desembarcava em Passo da Pátria o 3º Corpo-de-Exército. Após 10 meses de inatividade, vão ter lugar as batalhas e os combates que marcam a fase mais brilhante da campanha do Paraguai. Com o prosseguimento das operações, a Artilharia de Campanha teve de ser aumentada, e a tal ponto chegou que exigiu a criação de uma Brigada de Artilharia, cujo núcleo foi o 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, comandado pelo Major Severiano Martins da Fonseca. O Comando da Brigada foi entregue ao Coronel Emílio Luiz Mallet, a este posto promovido em 20 de agosto, por atos de bravura em Tuiuti. Caxias em toda esta fase foi o Comandante-Chefe dos Aliados. Organizou as forças e planejou, montando uma manobra que se opunha a todas as possibilidades de ação dos paraguaios, podendo, inclusive, culminar no cerco e no aniquilamento em Humaitá. Discordando de Mitre, não atribuiu nessa fase muita importância à Cavalaria, guardando-a para as ações próprias, a ela reservadas. “A guerra que temos de fazer é mais de caçadores e artilheiros que de Cavalaria”, referindo-se à luta pela posse de Humaitá, a qual durou doze longos meses.[10]

Tuiu-Cué, Potrero Ovelha, Taiti, Tuiuti (2ª batalha), Estabelecimento, Chaco e Humaitá são outros tantos encontros em que o 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo esteve presente, apoiando tais ações, que visavam a derrocada do quadrilátero fortificado de Humaitá.⁶⁴ Para Tuiu-Cué, primeiro objetivo da Marcha de Flanco empreendida por Caxias com os 1º e 3º Corpos-de-Exército, e ocupado a 31 de julho de 1867, seguiu a Brigada de Artilharia Mallet. As posições fortificadas do inimigo foram contornadas pela esquerda, em uma marcha de 60 quilômetros, dentro de inóspitos banhados. Ameaçado o flanco direito permaneceu o 2º Corpo, de Porto Alegre, que se movimenta de Curuzu para Tuiuti. Vencendo resistências esparsas, ocupam os aliados Tuiu-Cué e S. Solano. Tais conquistas, entretanto, não eram ainda suficientes para sitiar completamente Humaitá, pois Lopez trazia seu suprimento do interior do país sendo seu principal depósito o Potrero Ovelha. Por isso Caxias determina a montagem de uma expedição de Cavalaria (1ª e 2ª DC) conduzida pelo Brigadeiro João Manuel Menna Barreto, e que se apossou de Potrero e de Barranca de Taji, à margem do rio Paraguai, em 29 de outubro. Acompanhou-a uma Bateria do 1º Regimento-a-Cavalo, comandada pelo Capitão Teodósio Gonçalves [10]

No dia 3 de novembro de 1867, 8 000 paraguaios distribuídos em cinco colunas atacam o acampamento de Tuiuti, fazendo recuar um piquete do 41º de Voluntários e ocupando dois redutos guarnecidos por argentinos. À direita se encontrava o 4º Batalhão de Artilharia-a-Pé, do comando do Major Ernesto Augusto da Cunha Mattos que, colhido de surpresa, ofereceu resistência em suas posições, até cair prisioneiro com mais treze oficiais. O inimigo apodera-se de um canhão Whitworth 32 e de doze peças argentinas. Embora os paraguaios houvessem obtido superioridade inicial, Porto Alegre se lança em contra-ataque com seis batalhões de Infantaria, o 3º Batalhão de Artilharia-a-Pé e o 1º Regimento-a-Cavalo, num total de 2 000 homens. O combate dura três horas, e o inimigo é expulso das posições onde se encontrava e recua, em fuga desordenada, deixando mais de 2 000 mortos,⁶⁷ além de 3 000 carabinas, uma bandeira, um estandarte, muitas lanças e espadas. Tivemos 1.600 homens fora de combate, e os argentinos 200.[10]

Em 1º de fevereiro, Caxias, a bordo do Brasil, se lança, pessoalmente, ao reconhecimento de Humaitá e, simultaneamente, com sua passagem, articula e comanda o ataque a Estabelecimento. A tomada dessa posição coincide com a passagem de Humaitá, pela Esquadra sob o comando de Tamandaré, consumando o cerco do quadrilátero defensivo paraguaio. A ação dirigida por Caxias, com forte destacamento que compreendia forças de Infantaria sob o comando do General José Auto da Silva Guimarães, e de Cavalaria comandada por Andrade Neves,⁶⁸ teve o apoio da Brigada de Artilharia. Mallet que a acompanhava, pessoalmente, assistiu a todas as ações das baterias que eram destacadas para cumprir missões.[10]

Às 3 horas da madrugada de 19 de fevereiro, o estampido dos canhões da Esquadra deram o sinal de estar ela forçando o perigoso passo do rio em frente a Humaitá. Os foguetes anunciavam os vasos que tinham conseguido passar e seis ecoaram no ar. As 1ª e 5ª Brigadas de Infantaria, a Divisão de Cavalaria de Andrade Neves e os 12 canhões do 1º de Artilharia, sob o comando do Tenente-Coronel Severiano Martins da Fonseca, e quatro estativas da Bateria de Foguetes, sob o comando do 2º Tenente João Nepomuceno da Cunha, rumaram para Estabelecimento. A Infantaria avança ao passo de carga e tal o seu ímpeto que, sem dar tempo a resistência por parte do inimigo, transpõe os profundos e largos fossos e tenta penetrar no recinto. Doze canhões se orientam para os atacantes sendo seus projéteis alternados com os foguetes que duas estativas disparavam. O reduto era ainda resguardado por dois vasos de guerra inimigos que, atracados à barranca da lagoa, garantiam o reduto pelo flanco direito, evitando um ataque pela retaguarda e realizando, nessa direção, tiros de grosso calibre.²⁵[10]

“Para interromper a atuação da artilharia de bordo desses navios, informa o Diário do Exército, havia sido determinado que nossos canhões também avançassem e fossem posicionados de forma adequada. O Coronel Mallet, ao cumprir essa ordem, avançou rapidamente e, colocando quatro canhões em posição, iniciou disparos contra os vapores, que, mesmo após a tomada do reduto, continuaram utilizando sua artilharia. Tendo esses vapores se deslocado mais para a esquerda e cessado seus disparos, nossa bateria seguiu na mesma direção e ocupou novas posições, mantendo tiros precisos de metralha e granada, sendo então auxiliada por uma estrutura de foguetes, que passou a utilizar esse tipo de projétil. Às 9h30, os vapores inimigos haviam interrompido os disparos de sua artilharia e, às 11h, após sofrerem danos significativos causados por nossa bateria, retiraram-se em direção a Humaitá, buscando abrigo sob a proteção de suas baterias. Procedimento semelhante foi adotado por dois lanchões que tentaram prestar apoio às forças.””⁶⁹

Pelo Coronel Mallet foram recomendados à consideração de seus superiores, pelo modo por que se portaram na tomada de Estabelecimento, o Tenente-Coronel Severiano Martins da Fonseca e Tenentes João Nepomuceno da Cunha, Pedro Felix de Medeiros Mallet, Antonio Júlio de Medeiros Mallet e Júlio Plácido Soveral. O Cirurgião-Mor, Dr. Francisco Bonifácio de Abreu, recomendou o Tenente-Cirurgião da ambulância de Artilharia, Dr. João Severiano da Fonseca[10]

A Operação Chaco, cuja primeira parte consistia na transposição do rio Paraguai, ocupando os aliados sua margem direita, e visando a posse de um ponto ao norte de Humaitá, a fim de impedir a fuga dos defensores da fortaleza, foi executada por tropas argentinas sob o comando do Coronel Rivas, partindo de Curupaiti, e por tropas brasileiras, comandadas pelo Coronel Barros Falcão, com efetivo de cerca de 2 500 homens, dos quais fazia parte a Bateria do 1º Regimento-a-Cavalo comandada pelo Capitão Anfrísio Fialho. A expedição atingiu plenamente o objetivo, depois de cerrado combate, a 2 de maio de 1868.Humaitá, reconhecida à viva força a 16 de julho, por tropas comandadas por Caxias, das quais fazia parte a Brigada de Artilharia, cai finalmente em mãos dos aliados a 25 do mesmo mês.⁷⁰[10]

Mallet comandava a Artilharia do 1º e do 3º Corpos de Exército, isto é, toda a Artilharia de terra em torno de Humaitá. Em Humaitá, num sítio prolongado, árduas foram as tarefas de Mallet, dispondo de pouca Artilharia pesada em condições de bombardear fortificações do gênero e da amplitude dessa fortaleza. A Artilharia-a-Cavalo, com sua mobilidade, atendeu com seus fogos, a todos os pontos da linha, apta a acompanhar a vanguarda em qualquer movimento para a frente. Tais dificuldades eram agravadas pelas naturais dissensões entre os chefes, que dilatavam o desfecho dessa longa operação. Atritos de comando são comuns em campanhas e surgem com maior frequência em guerras de coalizão, em que forças de diferentes países ficam subordinadas ao comando de um deles. Dentro desse quadro geral, tais incidentes deixam transparentes as dificuldades vividas por Mallet. Acima dessas suscetibilidades, suas e de seus subordinados, colocava ele a disciplina e a lealdade para com a Pátria. Consumava-se assim esta fase da guerra, superiormente dirigida por Caxias, Comandante-Chefe dos Exércitos Aliados, pois Mitre se retirara para a Argentina. A tomada de Humaitá permitiria ao Marquês de Caxias transferir para lá a base de operações de suas forças, a qual ainda se encontrava em Passo da Pátria. Tal mudança iria facilitar o movimento para o norte, na perseguição a Lopez.[10]

Conquistada a Fortaleza de Humaitá, prosseguem as operações aliadas, em busca da capital paraguaia, decompondo, de maneira geral, seus movimentos até a região sul do Piquiciri em dois lanços limitados pelo rio Tebiquari. Ao 2º Corpo de Exército, que dispunha de dois Batalhões de Artilharia-a-Pé, coube a missão de guarnecer Humaitá, enquanto extensa coluna se dirigia para o Norte, desde 17 de agosto de 1868.⁷¹ A Artilharia de Campanha estava presente nos diversos escalões da coluna de marcha. Assim é que ao 3º Corpo-de-Exército (Osório) que marchava na vanguarda e do qual fazia parte a 2ª Divisão de Cavalaria (Andrade Neves), em 1º escalão, foi atribuído o recém-criado 4º Corpo Provisório; do 2º escalão participava o 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo. Ao 1º Corpo-de-Exército, comandado pelo General Machado Bittencourt,⁷² que constituía o grosso, foi atribuído o 2º Regimento Provisório. Mallet exerce o Comando Geral das unidades integrantes da Artilharia do Exército, sob as ordens de Caxias. Com ações de vanguarda na transposição dos diversos cursos de água transversais à direção de marcha e que desembocam no rio Paraguai, às quais sempre esteve presente a Artilharia, a 25 de setembro atinge o Exército Aliado a região de Palmas. No dia 30, o grosso das tropas da Tríplice Aliança estaciona entre os rios Surubi e Piquiciri. Além dos contingentes argentino e uruguaio, o Exército Aliado é integrado pelos 1º, 2º e 3º Corpos-de-Exército, e pelas 1ª, 2ª, 3ª e 5ª Divisões de Cavalaria brasileiras.[10]

O marquês de Caxias continua a exercer o Comando-Chefe, e a Esquadra Brasileira, sob suas ordens, realiza uma operação combinada com as forças terrestres. Com vistas ao objetivo final e em virtude, principalmente da ausência de cartas ou de informações da região em que se preparava para operar, Caxias lança reconhecimentos, de modo a poder levantar os elementos com que pudesse planejar as operações que iriam abrir aos aliados as portas da capital inimiga, e que a História consagraria com o nome de Dezembrada. Assinalada e definida a nova posição fortificada do rio Piquiciri, apoiada de um lado e de outro pelos baluartes de Angostura e Itavité, decide Caxias fixar o inimigo nessa posição, com parte de sua força e, com o grosso, realizar o envolvimento, cortando-lhe a retirada. E, para não sacrificar a tropa em mortífera manobra, manda abrir, no terreno pantanoso do Chaco, na margem direita do rio Paraguai, uma estrada estivado com mais de 30 000 troncos de palmeira. Em 22 dias, a estrada de cerca de duas léguas, cuja construção era julgada impossível ou temerária, estava feita por nossa Engenharia e por ela o 2º Corpo-de-Exército passava e, transpondo novamente o rio, atinge Villeta e daí, transportado em navios da Esquadra, vai desembarcar em Santo Antônio, enquanto a Cavalaria, deslocando-se pela margem direita do Paraguai, se apresenta em Santa Helena. A situação do conjunto do Exército Aliado é a seguinte:[10]

1º) na região de Santo Antônio: 1º, 2º e 3º C Ex e uma Brigada de Cavalaria da 2ª D C — 19 667 homens[10]

2º) no Chaco — 4 Divisões de Cavalaria com cerca de 3 100 homens[10]

3º) ao sul do Piquiciri, cerca de 5 000 homens[10]

A repartição da Artilharia do Exército era a seguinte: — com o Agrupamento principal, em Santo Antônio, o 2º Regimento Provisório de Artilharia, sob o comando do Coronel Gama Lobo d’Eça, tendo uma ala com o 1º C Ex e outra com o 2º C Ex; — ao sul do Piquiciri, a Brigada de Artilharia comandada por Mallet, e formada pelo 1º RACav do Tenente-Coronel Severiano da Fonseca, e pelo 4º Corpo Provisório de Artilharia, do Major Nepomuceno Mallet.⁶⁴[10]

Em sua progressão, o arroio Itororó tem de ser atravessado à viva força, e essa operação é realizada em 4 de dezembro de 1868. Dominando a ponte, a Artilharia inimiga trava o combate, quando consegue deter a vanguarda da 5ª Brigada do Coronel Fernando Machado, no momento em que esta enfrenta o obstáculo. Tasso Fragoso assim se refere à intervenção da Artilharia:[10]

“Chega Argollo com ordem de Caxias para que se faça uma Preparação de Artilharia. Avança o 2º Regimento desta Arma; uma de suas baterias coloca-se próximo à ponte e começa a contrabater a Artilharia inimiga. Enquanto o adversário[10]

“Chega Argollo com ordem de Caxias para que se faça uma Preparação de Artilharia. Avança o 2º Regimento desta Arma; uma de suas baterias coloca-se próximo à ponte e começa a contrabater a Artilharia inimiga. Enquanto o adversário é assim entretido, o General Argollo manda abrir uma picada à direita e outra à esquerda da barranca do arroio, de modo a poder bater a canhão toda a frente da posição inimiga, pois o horizonte descortinado pela bateria, que troveja no desfiladeiro, é muito limitado… No fim de hora e meia de trabalho estavam prontas as picadas. O General Argollo mandou uma bateria para cada uma destas picadas, mas eram estreitas e só podiam admitir dois canhões. Acreditando ser suficiente a preparação de Artilharia já realizada, lança Argollo, em contra-ataque, a mesma Brigada de Fernando Machado. Este volta à carga e, desta vez, se louva na audácia dos esquadrões da Cavalaria de Niderauer, mas nem assim. O inimigo obstinado contra-ataca e é inútil o sacrifício da vida do próprio comandante da Brigada. Desembaraçada a frente, a Artilharia brasileira labora de novo. Os canhões da picada trovejam.”

A situação crítica sobrevém, e só a voz dos canhões é capaz de dar tempo a que novas decisões sejam tomadas. Caxias encarrega Osório da execução de uma manobra de flanco, mas o terreno difícil coopera com os seus detentores, e é nessa conjuntura extrema que o maior dos nossos generais, em última cartada, desembainha a espada e lança na História a proclamação que jamais será esquecida: Sigam-me os que forem brasileiros! Tasso Fragoso comove a quem o lê. Sua retórica é transparente, ninguém descreveria melhor o que então se passou: ''Tocando com as esporas o ginete, atira-se à ponte e transpõe-na de espada na mão, acompanhado de seu bravo piquete, uma trintena de valentes riograndenses com as bandeiras auriverdes, o resto dos batalhões da brigada e oito bocas-de-fogo. Então passa-se aquém do arroio uma cena indescritível. Um delírio, um frenesi, um indizível entusiasmo. Todos se sentem arrebatados pela atitude inesperada do generalíssimo e desejam seguir-lhe no rastro, para compartilhar dos mesmos perigos e das mesmas glórias.”[10]

Dionísio Cerqueira relata:[10]

“Passou pela nossa frente animado, ereto no cavalo, o boné de capa branca com tapa-nuca, de pala levantada e presa ao queixo pelo jugular, a espada curva desembainhada, empunhada com rigor e presa pelo fiador de ouro, o velho General-Chefe, que parecia ter recuperado a energia e o fogo dos vinte anos. Estava realmente belo. Perfilamo-nos como se uma centelha elétrica tivesse passado por todos nós. Apertávamos o punho das espadas, ouvia-se um murmúrio de bravos ao grande Marechal. O batalhão mexia-se agitado e atraído pela nobre figura, que abaixou a espada em ligeira saudação a seus soldados. O comandante deu a voz firme. Daí a pouco o maior dos nossos Generais arrojava-se impávido sobre a ponte, acompanhado dos batalhões galvanizados pela irradiação de sua glória. Houve quem visse moribundos, quando ele passava, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas para caírem mortos adiante.”

Passada a ponte, do outro lado, Caxias, em último esforço, impulsiona todas as unidades em carga decisiva. De nada adianta a bravura da Infantaria e da Cavalaria paraguaias: tudo cede ao ímpeto dos brasileiros assim conduzidos, que logram expulsar o adversário de suas posições, arrebatando-lhe seis bocas-de-fogo! Em 11 de dezembro, o 3º Corpo-de-Exército atacava as forças de Pedro Juán Caballero, no arroio Avaí. Caxias, pessoalmente, comanda a batalha, que se desenvolve sob intensa chuva. Informa Dionísio Cerqueira:[10]

“A nossa Artilharia, troando nas alturas, abria avenidas nas colunas inimigas. De repente os batalhões inimigos manobram rápidos e formam quadrados. Por que esta manobra? Não víamos Cavalaria perto, só a Artilharia jogava seus Schrapnels certeiros e a Infantaria tiroteava a distância. Ouvimos o som dos clarins e todas aquelas lâminas rutilantes se abaixaram e as bandeiras se sumiram. Era a carga. As imensas colunas aproximaram-se, cerradas e rápidas. Dir-se-ia que uma carregava sobre a outra. Encontraram-se, enovelaram-se, confundiram-se e quando cessou a épica refrega e os esquadrões se reformaram, não havia um só quadrado de pé. Todos tinham sido esmagados pela avalanche fatídica. Andrade Neves, Câmara, João Manoel, foram os comandantes das cargas memoráveis daquele dia.”⁷³

As brilhantes vitórias alcançadas por Caxias em Itororó, com os infantes do General Argollo (2º C Ex) formando a vanguarda do Exército Aliado, logo reforçados pelos do 1º C Ex (Machado Bittencourt), e de Avaí, em que Osório conduz o 3º C Ex na ação principal, coberto pelo 2º C Ex (General João Luiz Menna Barreto) e pela 5ª D C (Brigadeiro Câmara), enquanto o 1º C Ex é mantido em reserva e as D C de Andrade Neves e de João Manoel Menna Barreto fazem as ações de envolvimento de flanco, em memoráveis cargas de Cavalaria — são marcos históricos da Artilharia brasileira, pois o apoio sempre presente das baterias de Gama Lobo d’Eça foi fator decisivo dessas vitórias.⁷⁴ Concentradas as Forças Aliadas em Villeta⁷⁵ numa segunda fase da operação, em 20 de dezembro é lançado um reconhecimento da posição de Lomas Valentinas, com o qual Caxias iria encerrar sua magistral manobra. Para sua realização, e tendo em vista o encerramento das operações, é montado o seguinte dispositivo com que seria levado a efeito o ataque final: — Ataque principal: 2º C Ex (João Luiz Menna Barreto) e o Destacamento argentino (Rivas) apoiados pela Brigada de Artilharia Mallet; 1ª e 2ª D C; — Ataque do centro: 1º C Ex (Machado Bittencourt), Destacamento uruguaio, Brigada Paranhos, apoiados pelo 1º Esquadrão de Artilharia uruguaio; — Ataque da direita: Destacamento argentino; — Ação sobre Marmol: 3ª D C; — Cobertura face a Angustura: 5ª D C.[10]

Nessa batalha, em que cerca de 25 000 aliados participaram, teve papel destacado a Artilharia de Mallet representada por 54 bocas-de-fogo e composta, nessa ocasião, de 3 regimentos: o 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo (Tenente-Coronel Severiano da Fonseca), o 2º Regimento Provisório de Artilharia-a-Cavalo (Coronel Gama Lobo d’Eça) e o 4º Regimento Provisório de Artilharia-a-Cavalo (Major João Nepomuceno de Medeiros Mallet). No reconhecimento realizado pelo Tenente-Coronel Rufino Galvão estavam presentes o Coronel Mallet, Comandante Geral da Artilharia, e os demais comandantes de unidades da Arma. Caxias havia determinado que as duas alas do Exército recuassem um pouco de suas posições durante o bombardeio, e que depois avançassem de novo para recuperá-las, ganhando mais terreno, se para isso se oferecesse oportunidade.⁷⁶ E assim se fez. Nessa ocasião duas baterias foram destacadas — uma para a frente e outra para o flanco direito — com o fim de bombardear e metralhar a região da mata onde o inimigo se abrigava.⁷⁷[10]

A 21 de dezembro, fazia Caxias publicar sua memorável Ordem-do-Dia n.º 269, que assim termina:[10]

“O Deus dos Exércitos está conosco! Eia! Marchemos ao combate, que a vitória é certa, porque o General e amigo que vos guia ainda até hoje não foi vencido.”

E nesse dia avança o Exército ao encontro dos paraguaios fortificados na extensa linha do Piquiciri. Ao avistar-nos, o inimigo começa o fogo de suas baterias e, quando as nossas respondem, trava-se terrível duelo de Artilharia. Às 15 horas é dado o toque de avançar. Às 18 horas foi transposto o fosso e tomada a posição. A Ordem-do-Dia n.º 272 relata:[10]

“Quatorze canhões inimigos que se achavam assestados na linha que tomamos, caíram em nosso poder, canhão 32 Whitworth que, pelo inimigo fora arrebatado no ataque de 3 de novembro de 1867, em Tuiuti, bem assim a de duas das quatro peças por ele tomadas no dia 2 de maio de 1866. As outras duas formam parte das seis que caíram em nosso poder na ponte de Itororó, seguindo-se disto que o inimigo não possui hoje um só canhão, de qualquer calibre que seja, que nos tivesse pertencido.”

Uma das consequências da tomada de Piquiciri foi o estabelecimento de ligação com Palmas e com Assunção, da qual fazem uso, nos dias 22 e 23, as forças argentinas de Obes, as orientais de D. Henrique de Castro, nossa brigada de Infantaria comandada pelo Coronel Antonio da Silva Paranhos e todo o Corpo Provisório de Artilharia-a-Cavalo, sob o comando do Coronel Emílio Luiz Mallet. Inteiramente vitorioso no dia 24, Caxias propõe a rendição a Lopez. Este, reconhecendo as derrotas de Itororó e Avaí declara que “por si estava pronto a tratar da paz, mas que tendo lido a intimação a seus generais, oficiais e soldados, todos unanimemente se haviam decidido pela continuação da guerra e que, à testa deles, combateria enquanto houvesse um soldado.”[10]

Na manhã seguinte, o 1º Regimento de Artilharia e o seu rebento Corpo Provisório forneciam 46 canhões para ser desencadeada a Preparação sobre as trincheiras inimigas, realizando, cada um, 50 disparos, acompanhados de grande quantidade de foguetes à Congrève. A Infantaria consegue desalojar o inimigo, expulsando-o para uma segunda posição. Na noite de 26 para 27, as tropas tomam seu dispositivo e, ao amanhecer, 24 canhões do Corpo Provisório, de posições convenientemente escolhidas por Mallet, desencadeiam violento bombardeio sobre a retaguarda das linhas inimigas disparando, cada boca-de-fogo, 100 tiros.²⁵[10]

“Terminado o bombardeio — diz Caxias — não só causou grandes estragos e mortalidade no inimigo, mas que pareceu tê-lo aterrado e completamente desmoralizado, avancei com a coluna, a cuja testa me achava, sobre o reduto, sendo o movimento simultâneo com o que pela frente fizeram os Excelentíssimos Senhores Generais Gely y Obes e Henrique Castro, dos quais faziam também parte tropas brasileiras ao mando do Brigadeiro Jacintho Machado Bittencourt. O assalto foi dado com o maior ímpeto e galhardia rivalizando em arrojo e intrepidez as forças dos Exércitos aliados que nele tomaram parte, mas cabendo, inquestionavelmente, as honras da jornada à Artilharia, que depois do bombardeio avançou por modo tal, que penetrou nas trincheiras do inimigo com as linhas dos nossos atiradores! O campo fica coberto de cadáveres e o inimigo foge pela mata em direção ao Potreiro Marmol. Lopez, em vez de combater com os soldados restantes como prometera, é um dos primeiros a fugir por uma picada acompanhado por 90 homens dos quais, apenas 25, chegam com ele a Serro León.”⁷⁸[10] Foram terríveis os efeitos do bombardeio. Bormann,⁷⁹ que o presenciou, afirma que provocou incêndio nas matas e no acampamento.E Cunha Matos:[10]

“Lopez esteve até 25 no seu Quartel-General de Lomas; nesse dia, porém, vendo-se muito perseguido pelos fogos dos aliados, recuou e mudou a sede daquele para a retaguarda.”

O apoio da Artilharia foi extraordinário e eficaz. Garmendia⁸⁰ faz-lhe referências. O Tenente-Coronel Severiano da Fonseca diz que o 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo[10]

“meteu em batalha e entrou em ação em cima da coxilha (a 100 braças da trincheira inimiga) e rompeu fogo. Depois de duas horas de canhoneio cerrado, como o fogo da Artilharia mascarada do inimigo não houvesse cessado, pediu permissão para, depois de enfumaçar a frente da Artilharia, avançar com duas baterias e com o 23º Batalhão, que estava de proteção, até a contra-escarpa do entrincheiramento… Executou-se esse avanço. Chegou-se à contra-escarpa do fosso coberto pela nuvem de fumaça e fez-se intenso fogo. Repeliu-se a Infantaria e a Cavalaria que surgiram. Logo que os poucos inimigos que restavam nas guarnições das peças e os infantes que defendiam a linha começaram a fugir, mandei alguns artilheiros e praças do 23º galgar a trincheira e apoderar-se da boca-de-fogo, enquanto outros, a toda pressa, entulhavam o fosso em dois pontos, dirigido o trabalho pelo Capitão Leite de Castro, Pego Júnior e Marcos de Azevedo”.

O Major Nepomuceno Mallet, comandante do 4º Regimento Provisório de Artilharia-a-Cavalo, proporciona idênticos informes sobre a ação conjunta da Artilharia e da Infantaria. Relata que marchou na testa da coluna de Caxias e que sua unidade foi, talvez, a primeira a galgar os entrincheiramentos inimigos. Esse acontecimento é explicado por estarem duas baterias do Regimento armadas como Infantaria. E Resquin, em seu depoimento: “O bombardeio feito pelos brasileiros no dia 25 causou sérios prejuízos, porque em toda parte matou gente.”O Diário do Exército informa: “O inimigo deixou mais de 200 cadáveres no campo e 30 prisioneiros em nosso poder.”[10]

Thompson⁸¹ considera-o como o mais intenso de toda a guerra. O apoio da Artilharia chamou particularmente a atenção de Caxias. Por isso disse ele em sua Ordem-do-Dia:[10]

“O assalto foi com o maior ímpeto e galhardia, rivalizando em arrojo e intrepidez as forças das três Armas que nele tomaram parte, mas cabendo incontestavelmente, as honras da jornada à Artilharia, que depois do bombardeio avançou por modo tal, que penetrou nas trincheiras do inimigo com as linhas de nossa Artilharia.”

Com a rendição de Angustura, em 30 de dezembro, finaliza a Dezembrada, e aí esteve também presente a Artilharia. Por escolha direta e pessoal de Caxias, Mallet recebeu a honrosa e simbólica missão de assistir à rendição da guarnição dessa praça, à frente de um destacamento misto, composto de forças dos três Exércitos Aliados. Tasso Fragoso narra-nos o acontecimento:[10]

“Logo depois de sair de Angustura a sua guarnição, um destacamento aliado composto de um Batalhão de cada Exército e de uma Bateria do 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo penetrou na posição paraguaia, a fim de ocupá-la. Cerca de meio-dia de 30 de dezembro de 1868 as três bandeiras aliadas eram desfraldadas no recinto da praça, e estrugia no ar uma salva de 21 tiros.”

Em virtude da desordem provocada pelo ataque de Lomas Valentinas, diversos prisioneiros conseguiram escapar às garras de Lopez, entre eles o Major Cunha Mattos que, por não querer retirar-se, com mais treze oficiais fora capturado na posição de que era responsável, em 3 de novembro de 1867, tendo sido reintegrado em suas funções de comandante do 4º Batalhão de Artilharia-a-Pé.⁸² Este é o epílogo de uma verdadeira epopeia vivida por Caxias e pelas tropas sob seu comando, durante esse histórico dezembro de 1868, em que o inimigo apesar de obstinada resistência, viu-se irremediavelmente derrotado. Somente a bravura de um fanático como Francisco Solano Lopez podia impedir que nesse momento fosse encerrada a campanha, com a vitória das Forças Aliadas. A luta, entretanto, prolongar-se-ia, ainda, por mais de um ano.[10]

Caíra o último reduto. Estava livre o caminho de Assunção. Retoma Caxias sua direção, precedido de um Destacamento de cerca de 1 700 homens, que se constituiu em vanguarda, comandado pelo Coronel Hermes Ernesto da Fonseca, que subiu o rio Paraguai em navios da Esquadra, desembarcando na capital paraguaia, que foi ocupada a 1º de janeiro de 1869. No dia 5, o Marquês de Caxias, já há algum tempo doente, entra em Assunção. No dia 18, deixa o Comando-Chefe aliado, retirando-se para o Brasil. Com ele vão Osório e Argollo. O Marechal Guilherme Xavier de Souza vai, interinamente, substituí-lo no comando.⁸⁴[10]

Lopez instala sua nova capital em Peribebuí, onde tenta reorganizar o que sobrava de seu sacrificado Exército. Começa aí a derradeira fase da campanha, com características próprias da guerra irregular: recursos escassos, tabuleiro extenso, grupos disseminados, terreno acidentado, poucas estradas e em mau estado de conservação.⁶⁴ Nesta fase da Guerra do Paraguai, que abrange o ano de 1869 e parte de 1870, exerceu o Comando-Chefe das forças brasileiras o Conde d’Eu,⁸⁵ assessorado por um competente estado-maior, cujo chefe era o Brigadeiro Fonseca Costa.⁸⁶ É restabelecido o Comando-Geral da Artilharia do Exército em campanha, equiparado a comando de Divisão, com amplas atribuições e diretamente subordinado ao Comando-Chefe. O Coronel Emílio Mallet é efetivado nesse comando que, praticamente, já vinha exercendo. A descentralização imposta pelo caráter das operações empreendidas na Campanha das Cordilheiras veio impedir as ações em massa da Artilharia.[10]

Ao assumir o comando em Assunção, a 16 de abril de 1869, o Conde d’Eu lançou fortes reconhecimentos de Cavalaria, sempre com apoio de Artilharia, em várias direções, visando, principalmente, levantar as regiões em que o inimigo poderia oferecer novas resistências aos aliados. Mallet marcha na vanguarda do 1º Corpo-de-Exército, onde avalia as situações e as oportunidades de emprego de sua Arma. O Conde d’Eu entrega-lhe o comando de fortes destacamentos mistos que combatem e manobram nos desfiladeiros de Ascurra e Sapucaí, na subida da Cordilheira.⁸⁷[10] Em 14 de julho, por feliz coincidência, na data nacional da França, Mallet fora promovido a Brigadeiro “em reconhecimento aos serviços relevantes prestados ao Exército em operações no Paraguai”. Continuou no Comando Geral da Artilharia, onde tantas glórias já conquistara.

Descoberto na linha de posições fortificadas de Peribebuí — Ascurra — Caacupé, foi o adversário atacado a 12 de agosto de 1869, pelos 1º e 2º Corpos-de-Exército, reorganizados recentemente e sob os comandos respectivos, de Osório, que regressara mais uma vez ao Teatro de Operações, e de Polidoro.⁸⁸ Os 1º e 2º Corpos-de-Exército, mantendo ligações de combate, preparam-se para o ataque ao polígono fortificado de Peribebuí, que apresenta sete ângulos e tem 2 422 metros. Às 6h30min do dia 12, começa o bombardeio da Artilharia, realizado por 34 canhões do 1º Regimento, sob o comando do Coronel Severiano Martins da Fonseca, 19 do 2º Regimento Provisório do Coronel Gama Lobo d’Eça e duas Companhias sendo uma de quatro peças e outra de quatro estativas, do 1º Batalhão de Artilharia-a-Pé, do Major Francisco Antonio de Moura, formando um semicírculo de baterias destacadas, que, em posição dominante, enfiavam de revés o entrincheiramento paraguaio. Mallet, Comandante-Geral da Artilharia, diz em sua parte de combate:[10]

“Fiz romper fogo em toda a linha, o qual levou o terror e a confusão ao inimigo que, vendo-se batido por todos os lados, não pôde abrigar-se de nossa certeira pontaria durante as duas horas que durou o bombardeio, cessando este quando apresentaram-se as nossas colunas de Infantaria que então tomaram de assalto o reduto. A Arma de Artilharia, ainda uma vez, prestou serviços importantes, concorrendo poderosamente para o completo e glorioso triunfo de nossas armas no combate de Peribebuí.”²⁵

Assim, nesse combate, a Artilharia voltou a atuar centralizada, sob o comando do Brigadeiro Emílio Luiz Mallet.[10]

Em continuação à Campanha das Cordilheiras, em 16 de agosto trava-se a Batalha de Nhu-guacu ou Campo Grande, a última dessa guerra, quando os dois Corpos-de-Exército e o Destacamento Oriental se deslocavam para Caraguataí, precedidos de forte vanguarda de Cavalaria, com a qual marchava uma ala do 1º Regimento-a-Cavalo, comandada pelo Major Teodósio Gonçalves. A Brigada de Artilharia Mallet, integrada pelos 1º e 2º Regimentos, sob os comandos, respectivamente, dos Coronéis Severiano da Fonseca e Gama Lobo d’Eça, e de elementos do 1º Batalhão de Artilharia-a-Pé, totalizando mais de 50 canhões e 4 estativas de foguetes, garantia o apoio de fogos. A batalha teve início às 7 horas quando a Artilharia do 2º Corpo-de-Exército começou a troar contra a retaguarda das forças de Lopez em retirada.⁸⁹ O 2º Regimento Provisório apoiou a 6ª Divisão de Infantaria, lançada ao ataque contra as forças de Caballero que, em campo raso, foram derrotadas. Em seu Relatório sobre a batalha, escreveu o Conde d’Eu:[10]

“O Brigadeiro Emílio Luiz Mallet, que voluntariamente concorreu no lugar da ação na batalha de Nhu-guacu ou Campo Grande, a 16 de agosto de 1869, é digno dos maiores encômios, pela parte ativa que nela tomou, muito contribuindo com seus conselhos para o completo desbarato do inimigo, que deixou nesta batalha dois mil cadáveres, 23 bocas-de-fogo, quase todas de bronze e raiadas, mil e trezentos prisioneiros e vários oficiais de confiança de Lopez, e mais mil que se apresentaram posteriormente, grande número de carretas, algumas contendo objetos de uso particular, a maior parte, porém, carregadas de munições de Artilharia e Infantaria.”

Foi esta a última vez que a Arma teve oportunidade de atuar concentrada, sob o comando de Mallet. Restava perseguir o ditador e os últimos elementos que o acompanhavam. Só sua captura ou morte podia significar o fim da guerra.[10]

Os paraguaios remanescentes de Campo Grande rumaram para Caraguataí, onde vai ocorrer o derradeiro encontro, que precede a perseguição a Lopez, em sua desordenada retirada, salientando-se então, a 6ª Bateria do comando do Capitão João Vicente Leite de Castro. Sobre o povoado convergem, de ordem do Conde d’Eu, três colunas sendo a do centro constituída pela 6ª Brigada de Infantaria e a 6ª Bateria do 1º Regimento de Artilharia. Na entrada da picada no lugar conhecido por Caguí-juru organizara o inimigo um reduto em semicírculo, onde se entrincheirou e ante o qual engajou-se, às 7h30min, o combate, com vivo fogo de Artilharia e fuzilaria durante duas horas, ao cabo das quais era abandonada a posição por seus ocupantes que sofreram completa derrota, perdendo 600 homens entre mortos e feridos, 11 canhões e 10 carros de munições, que foram inutilizados, com exceção das metralhas e cartuchos, que foram entregues ao 1º Regimento.⁹⁰ Mallet disse, em sua parte de combate:[10]

“Essa bateria cumpriu o seu dever com muito valor e contribuiu muito para a derrota do inimigo que, fugindo, deixou em nosso poder 11 bocas-de-fogo.”

A perseguição a Solano Lopez, em fuga pelo nordeste do Paraguai, é realizada por colunas volantes. O General José Antônio Corrêa da Câmara, mais tarde Visconde de Pelotas, recebeu a missão de vasculhar a região ao norte do Manduvirá, com base em Concepción, a fim de capturá-lo. Teve ele a glória de conduzir as operações finais da luta, conseguindo alcançar o ditador no dia 1º de março de 1870, na região de Aquidabã, onde ele foi atacado e morto na picada de Chiriguelo, depois da captura de seu Quartel-General em Cerro-Corá.⁹¹ Não só as forças do General Câmara,⁹² mas também os vários destacamentos espalhados pelo território paraguaio contaram, em todas as ocasiões, com o apoio de elementos da Artilharia de Mallet.[10]

Com a morte de Francisco Solano Lopez estava terminada a guerra. O Brasil Imperial varrera do Prata seu último caudilho de vulto. A vitória exigira grandes sacrifícios e quase cem mil vidas brasileiras, mas a alma nacional, do Oiapoque ao Chuí, fora definitivamente plasmada e, depois de 1870, nunca mais se ouviu falar de separatismo nas províncias do Brasil.⁹²[10]

Como Comandante Geral da Artilharia e Comandante da Guarnição de Rosário, a última missão de Mallet no Paraguai foi dirigir a concentração nessa localidade paraguaia de toda a Artilharia do Exército. Procedeu, depois, à desmobilização de duas unidades de campanha: o 2º Regimento Provisório de Artilharia-a-Cavalo e o 4º Corpo Provisório de Artilharia. Nivelou e reajustou, em pessoal e material, as unidades restantes. Destacou para Assunção o 4º Batalhão de Artilharia-a-Pé, como unidade integrante da tropa de ocupação. Evacuou para o Brasil, com destino a São Gabriel, RS, o 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, bem como os 1º e 3º Batalhões de Artilharia-a-Pé, para o Rio de Janeiro. Realizou a triagem e deu destino aos materiais de Artilharia, de calibres e modelos diversos, tanto os tomados ao inimigo como os nossos, já sem as condições mínimas de serem mantidos em serviço.⁸⁷ O Brigadeiro Mallet, depois de assistir ao regresso de todas as unidades sob seu comando, voltou ao Brasil, diretamente ao Rio de Janeiro, de onde, então, se dirigiu ao Rio Grande do Sul, a fim de assumir o Comando da Fronteira de Bagé.[10]

O estudo do Emprego da Artilharia nas Campanhas do Prata e do Paraguai, de 1851 a 1870, evidencia que a Escola Francesa continuava predominando, não só quanto à repartição dos meios pelos diferentes escalões, mas também quanto aos fogos a executar, e isso já vinha da Guerra dos Farrapos. Assim, toda a Artilharia era subordinada ao Comando do Exército, a quem cabia dosar o número de canhões a serem atribuídos a cada divisão (mais tarde Corpo-de-Exército) empenhada em campanha.⁹³ Os canhões formavam, no campo de batalha, o esqueleto do dispositivo com que se iria enfrentar o inimigo, ficando sua proteção a cargo da Infantaria ou da Cavalaria. Iniciado o combate pela luta contra a Artilharia adversária (duelo de Artilharia) ou pelo bombardeio das linhas inimigas, às outras Armas cabia progredir sobre estas, em colunas ou linhas de atiradores, até que cessasse o fogo da Artilharia. Muitas vezes os pequenos alcances obrigavam a frequentes mudanças de posição dos canhões.⁹⁴ Quanto ao tiro, executado peça por peça, com pontaria direta, para o alcance estimado, mediante inclinação da boca-de-fogo, dada pela alça de mira (parafuso), era realizado de posições adrede escolhidas e balizadas, por grandes baterias de doze e mais peças. A abertura de fossos à frente dos canhões, nas posições defensivas nos acampamentos teve excelentes resultados, e foi um dos principais fatores que nos conduziram à vitória na Batalha de Tuiuti.⁶⁴[10]

6 — NOTAS (Livro: Mallet, o patrono da artilharia)

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  1. Agindo desta forma, entretanto, Francia prestava imenso serviço a seu país, nas relações internacionais. Sabia que o Paraguai era fraco por demais para poder resistir a seus vizinhos, caso se desse um choque com estes, por isso envidava todos os esforços para se manter fora de todo conflito; e seu ideal era ver sua terra esquecida, até que, por seu crescimento, pudesse ela desempenhar-se de sua missão no mundo. Isolou a vida local, fechou os rios pelos quais comunicava com o resto do orbe, construiu uma sorte de muralha chinesa em torno dela. Ninguém entrava; ninguém saía. E, pelos países vizinhos, espalhou um tecido de intrigas e de emboscadas políticas, que lhe permitissem viver e governar inobservado e fora de aventuras e de embaraços, enquanto neles tumultuavam as duras experiências do Rio Grande e do Uruguai, Buenos Aires e Entre Rios, Corrientes e Santa Fé. (Calógeras: “Formação Histórica do Brasil”.)
  2. Com solene protesto da Argentina, porém, que ainda pretendia reincorporar o Paraguai à federação, mas lhe reconheceu a independência em 1852.
  3. Joaquim Silva: “História do Brasil”.
  4. “Há muitas questões pendentes a ventilar. Todavia, não trates de resolvê-las com a espada, mas com a pena, principalmente com o Brasil” (Horton Box). É a recomendação testamentária de Carlos Lopez, no instante em que começa sua agonia (R. Cárcano: “Guerra del Paraguay”).
  5. Não podendo educar seus filhos em sua terra, Carlos Lopez mandou-os para fora: Benigno, que herdara qualidades de seu pai, veio para o Rio de Janeiro, e Francisco Solano para a Europa, donde voltou com os planos de domínio e conquista que deviam trazer a ruína de sua pátria.
  6. Lopez nasceu em Assunção, em 1827. Tendo regressado ao Paraguai, depois de se instruir na Europa, voltou em 1853, a fim de ratificar os Tratados de Comércio entre seu país e a França, a Inglaterra e a Sardenha. Foi, depois, Ministro da Guerra e da Marinha. Com a morte de seu pai, assumiu o poder em 10 de setembro de 1862, sendo proclamado Presidente do Paraguai pela maioria do Congresso. Tinha, então, 35 anos e era Brigadeiro. Elisa Alicia Lynch de Quatrefages, inglesa com quem vivia, teve grande influência nos destinos políticos da Nação. A vida pública de Lopez se resumiu à guerra que moveu contra a Tríplice Aliança, em que deu provas de energia e coragem extraordinárias.
  7. O Tratado de 1850 dava aos navios brasileiros livre navegação pelo rio Paraguai; em 1855, Carlos Lopez pretendeu trancá-la, chegando a entregar passaportes ao nosso representante em Assunção; recuou, porém, de sua atitude ante manifestação de nossa Esquadra.
  8. Euclides da Cunha: “À margem da História”.
  9. Carlos Frederico Carneiro de Campos nasceu em Salvador, BA, em 1802. Assentou praça em 1822, matriculando-se depois na Academia Militar do Império. No posto de 1º Tenente foi estudar na Europa, de onde regressou em 1828, formado em Matemática e Letras pela Universidade de Paris. Promovido a Capitão e incluído no Imperial Corpo de Engenheiros, desempenhou importantes missões no estrangeiro. Presidente da Paraíba em 1844, deputado-geral em duas legislaturas, em 1864 foi nomeado Comandante das Armas e Presidente da Província de Mato Grosso: a 30 de junho embarcou no Marquês de Olinda, com destino a Corumbá, mas o referido navio e todos os seus tripulantes foram presos em águas do Rio Paraguai, por ordem de Solano Lopez, o que deu origem à Guerra da Tríplice Aliança. Desterrado com seus companheiros para a Capela de São Joaquim e dali para o campo de prisioneiros de Passo Pocu, paraguai, nele morreu em novembro de 1867.
  10. Para fazer frente a 85.000 soldados paraguaios, com poderosa artilharia e farto material bélico, tinha o Brasil 16.000 homens disseminados pelo Império. Por isso, teve de recorrer à mobilização da Guarda Nacional e aos Batalhões de Voluntários da Pátria. A Argentina, no começo da campanha, teve perto de 12.000 combatentes, três anos depois reduzidos a pouco mais de 4 000; o Uruguai tinha 2 500 soldados na guerra, em seu início, mas somente 600 no fim da luta. O efetivo máximo das forças brasileiras foi atingido em 1868, quando somavam 67.365 homens (Sousa Docca: “Causas da guerra com o Paraguai”).
  11. Ao ataque imprevisto, todo o Brasil se moveu como um só homem. Nos campos de batalha, reuniram-se os brasileiros de todas as procedências. A nação inteira comungou no mesmo sangue derramado. Entremearam-se e conheceram-se, amaram-se juntos e se sacrificaram todos os descendentes dos antigos bandeirantes esparsos no imenso corpo da Pátria (Gustavo Barroso).
  12. Uma esquadrilha com mais de 4 000 soldados do Coronel Resquin foi atacar o Forte de Nova Coimbra, intimando seu comandante a render-se. Porto-Carreiro tinha apenas 157 combatentes para defender a posição, mas ainda assim recusou-se a ceder; lutou dois dias, até se esgotarem as munições e conseguiu, habilmente, retirar-se num dos navios surtos no porto com toda sua valente guarnição. Uma coluna de 5.000 cavaleiros paraguaios foi destacada para dominar Dourados e Nioaque. Em Dourados, pequena colônia militar, imortalizou-se o bravo Tenente Antônio João que, apenas com 11 homens, resistiu ao inimigo muito mais forte, até cair morto com seus heróis.
  13. Bartolomeu Mitre nasceu em Buenos Aires, em 1821. Lutou contra Rosas em 1851, tendo participado da batalha decisiva de Monte Caseros. Ministro da Guerra no Governo de Urquiza e Governador de Buenos Aires em 1860, no ano seguinte elegeu-se Presidente da República Argentina. Em maio de 1865 assinou com o Brasil e o Uruguai o Tratado da Tríplice Aliança, exercendo o Comando das Forças Aliadas de Terra no conflito contra o Paraguai até janeiro de 1868. Embaixador no Rio de Janeiro em 1873, candidatou-se à Presidência de seu país em 1874, mas foi derrotado. Dedicado às letras e ao jornalismo nos últimos anos de vida, publicou as biografias de San Martín e de Belgrano, bem assim obras históricas e poéticas. Faleceu em sua cidade natal em 1906.
  14. Os paraguaios dispunham de 67 canhões (45 dos navios e 22 da Bateria da Costa) e cerca de 5.000 homens; os nossos tinham 59 peças e 2.280 homens.
  15. Antônio Tibúrcio Ferreira de Souza nasceu em Viçosa-Real, CE. Aos treze anos de idade alistou-se no Exército para matricular-se, seis anos depois, na Escola Militar da Praia Vermelha. Serviu na Campanha Cisplatina, tendo assistido à queda de Paissandu e à capitulação de Montevidéu. Já na Campanha do Paraguai, distinguiu-se na tomada de Corrientes, em 25 de maio de 1865. Como 1º Tenente de Artilharia tomou parte na Batalha do Riachuelo, a bordo do Belmonte, no combate da Ilha de Redenção, em Passo da Pátria, Estero Bellaco e Tuiuti, onde foi ferido. Curupaiti, a marcha de flanco de Tuiuti a Tuiu-Cuê, Humaitá e Estabelecimento foram outros tantos combates em que o Tenente-Coronel Tibúrcio, à frente do 16º Batalhão de Infantaria, tomou parte. Seguiram-se Peribebuí, Campo Grande e Caraguataí, também com sua presença. Terminada a guerra, Tibúrcio regressou ao Brasil, onde exerceu várias comissões até 1880, ano em que foi nomeado comandante da Escola Militar do Rio Grande do Sul quando, aos 43 anos, atinge o generalato. Faleceu em 1885, em sua terra natal, depois de se revelar um dos maiores abolicionistas do Ceará.
  16. Gen Heitor Borges Fortes: “Marechal Emílio Luiz Mallet, Patrono da Artilharia — Estilhaços de sua Carreira Militar”.
  17. Foi de Dayman que Mallet devolveu para Montevidéu os quatro canhões-obuses de 114 para os quais não havia munição.
  18. Dispunha então de 42 canhões La Hitte de 4 e 12 de 6, raiados, dos quais 6 deste calibre recebidos de Montevidéu.
  19. Este estandarte, que se acha exposto no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, foi provavelmente confeccionado em Montevidéu.
  20. O Tratado da Tríplice Aliança trazia a data de 1º de maio de 1865. Assinaram-no, pela República Oriental D. Carlos de Castro, pelo Império do Brasil o Conselheiro Francisco Otaviano, pela Confederação Argentina D. Rufino Elizalde. Seu artigo 1º determina a aliança defensiva e ofensiva entre os três países contra o governo do Paraguai. O 2º estabelece o concurso de meios de que dispuserem. O 3º dá o comando-chefe dos Exércitos Aliados, segundo o território onde se devam realizar as operações. O 4º indica a ordem militar e dependência econômica das tropas. O 5º refere-se aos auxílios mútuos entre os aliados. O 6º traz o compromisso de nenhuma das partes depor as armas, senão de comum acordo e só depois de haver derrubado o governo do Paraguai, não tratando separadamente com o inimigo e não ajustando tréguas, armistícios ou convenções que pusessem termo à guerra ou a interrompessem, salvo de perfeito acordo. O 7º afirma que a guerra não é contra o povo paraguaio, mas contra o seu governo, podendo se formar uma legião de paraguaios também dispostos a combater pela libertação de sua pátria. O 8º obriga ao respeito à soberania e integridade territorial do Paraguai. O 9º garante estas coletivamente pelas altas partes contratantes pelo prazo de cinco anos. O 10º ajusta que tudo que se obtiver, como concessões, isenções etc. do governo paraguaio será comum aos aliados. O 11º estatui o modo de assegurar a livre navegação dos rios Paraná e Paraguai. O 12º reserva as medidas da paz. O 13º providencia sobre a nomeação de plenipotenciários para celebrar ajustes, convenções e tratados. O 14º trata das despesas da guerra e indenizações. O 15º fala de uma convenção especial para a liquidação e pagamento da dívida. O 16º providencia sobre as questões de limites de modo a evitar discussões e guerras. O 17º garante o fiel compromisso do ajustado. O 18º refere-se ao segredo do tratado até ser alcançado o fim a que se propõe a aliança. O 19º e último faz independer as estipulações de autorização legislativa.
  21. Faleceu, poucos dias depois, sendo substituído pelo General Andréa.
  22. também mal defendida, por um Batalhão da Guarda Nacional, sob o comando do Capitão Xavier do Valle.
  23. Os 8 obuses dessas baterias, por falta de artilheiros, eram guarnecidos por praças da Guarda Nacional e por artífices, vindos da Corte.
  24. Caíram prisioneiros 5.131 praças e 59 oficiais.
  25. Cap José Faustino Filho: “Histórico do Regimento Mallet”.
  26. Sendo Mitre de opinião que fosse a operação confiada a um general argentino, Osório declara que se poderia mandar a quem quisesse na certeza de que ele iria também. Tamandaré levanta-se e comovido abraça Osório. Os brasileiros ficam entusiasmados ao saber que iam ser os primeiros a pisar o território inimigo pois achavam que se o solo do Brasil fora o primeiro a ser profanado, a eles devia caber a glória da invasão; Osório, na véspera do embarque dirige-se em patrióticas proclamações aos seus comandados, dando lhes diz: “Soldados. É fácil a missão de comandar homens livres; basta mostrar-lhes o caminho do dever”.
  27. Este era comandado pelo Major Deodoro da Fonseca.
  28. Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, Visconde de Itaparica, nasceu em Salvador, BA, em 1821. Já Coronel, participou da Guerra do Paraguai, distinguindo-se na retomada de Uruguaiana; Brigadeiro em 1866, atuou com destaque no Passo da Pátria, na Primeira Batalha de Tuiuti e no comando interino do 2º Corpo de Exército, já então como Marechal-de-Campo. Ferido em Itororó (6-12-1868), retornou ao Brasil, vindo a falecer dois anos depois. Seu pai, Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, Barão de Cajaíba, no posto de Marechal-de-Campo comandou em 1837 as forças fiéis à Regência, durante a Sabinada. Faleceu em 1870, na cidade em que nascera.
  29. A ação de Mallet nessa ocasião inspirou seus contemporâneos que, na literatura castrense, deixaram várias descrições de seu extraordinário comportamento.
  30. Aí Mallet já dispunha de oito bocas-de-fogo.
  31. O Capitão Cardoso de Mello pertencia ao 2º Batalhão de Artilharia de Posição, e se encontrava adido ao 1º Regimento-a-Cavalo.
  32. Foi este material conduzido pelos Tenentes Amarila e Caballero, e depois, guarnecido por artilheiros paraguaios, que foram transportados nas garupas de cavalos montados por outros cavaleiros.
  33. Da Bateria morreram em combate quatro soldados, e foram feridos um oficial, um sargento e seis soldados.
  34. O cavalo que Osório montava foi baleado na paleta. Era o mesmo malacara que fora atingido no casco em 17 de abril, mas desta vez ficou inutilizado e teve de ser sacrificado. Era o último dos animais que trouxera do Rio Grande, presente de seu amigo — o estancieiro Manoel Garcez, de Santa-Maria-da-Boca-do-Monte (Faustino Filho).
  35. O campo-de-batalha transformou-se em um extenso tendal de cadáveres: o inimigo teve 1.200 mortos, os brasileiros 1.103, os orientais 400 e os argentinos 49 (Faustino Filho).
  36. Mallet Joubin: “Mallet — Patrono da Artilharia” (em preparo).
  37. Nesse encontro o inimigo foi expulso do potreiro, sendo posto em fuga sobre Sauce, extrema direita da linha de frente de seu dispositivo.
  38. Eram 28 canhões raiados, com os respectivos armões, carros, galeras e forjas de campanha.
  39. Victorino José Carneiro Monteiro, Barão de São Borja, nasceu em 1816, em Poço-das-Panelas, PE. Era amanuense da Intendência de Polícia do Recife quando foi aberto o voluntariado para a Guerra dos Farrapos, que eclodira no Rio Grande do Sul. Apresentando-se ao Comando das Armas daquela Província, ingressou no Exército como Alferes. Distinguiu-se na luta, tendo participado das Batalhas de Taquari, de São Borja e do Banhado Inhatium, onde recebeu ferimento grave. Findo o conflito, permaneceu no Sul, onde constituiu família. No posto de Major lutou sob o comando de Caxias contra Oribe e Rosas, bem assim na campanha seguinte, contra Aguirre: era Coronel quando tomou parte na Tomada de Salto e no ataque a Paissandu. Na Guerra do Paraguai teve atuação destacada em Estero Bellaco e em Tuiuti; bateu-se, depois, em Potrero Sauce, em Tuiu-Cuê e em Tataíba, onde venceu o General Caballero. Marechal-de-Campo em 1867, no comando do 1º Corpo-de-Exército atacou e destroçou as posições paraguaias de Taí. Participou ainda da Campanha das Cordilheiras, cabendo-lhe o comando de todas as forças ao norte do Rio Manduvirá. Feito Barão em 1870, exerceu o Comando das Armas de Pernambuco e do Rio Grande do Sul. Faleceu em 1877, em Porto Alegre.
  40. Depois de organizado seu Regimento em 4 Baterias de 6 peças, como Mallet desejava, houve adida ao mesmo uma subunidade, ora designada como 5.ª Bateria, como referido no combate de 2 de maio, ora como Bateria Alemã (que Gustavo Barroso chamou por equívoco Bateria Krupp, que aparece na batalha de 24 de maio). Na verdade essa bateria existiu e foi organizada com voluntários das colônias alemãs do Rio Grande do Sul, que seriam portanto teuto-brasileiros. Esteve sempre sob o comando de oficiais brasileiros, e participou das operações do 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, desde o desembarque em território paraguaio, a 16 de abril de 1866, até ser incorporada ao 4.º Corpo de Artilharia, em maio de 1868. Por qualquer razão Mallet não a quis incorporar definitivamente ao Regimento, preferindo passá-la ao novo Corpo de Artilharia que foi, inicialmente, comandado por seu filho, o Major João Nepomuceno de Medeiros Mallet, que manifestou habilidade em tratar com os voluntários de origem teutônica, tanto que os recebeu, em grande número, em sua Artilharia do 3.º Corpo-de-Exército, organizado, posteriormente, no Rio Grande do Sul.
  41. Mar Ernesto Augusto da Cunha Mattos: O 1.º Regimento de Artilharia-a-Cavalo na Batalha de Tuiuti.
  42. O Coronel José Maria Marcó y Albarenga era moço e muito enérgico. Depois da batalha foi rebaixado a sargento, talvez com o fim de lançar-se sobre ele a suspeita de haver ocasionado a derrota. Foi morto, na Cordilheira, a pauladas, por ter sido considerado suspeito de envolvimento na conspiração contra Lopez — atribuída à sua progenitora.
  43. De todas foi a única que, de princípio a fim, manteve a mesma energia na agressão, e se no correr da ação, o vigor do ataque não pode ser integralmente guardado, tem o fato natural explicação. De carga em carga, os esquadrões paraguaios foram encontrando o caminho a percorrer, cada vez mais obstruído, a partir de Rojas, pelos corpos de cavalheiros e cavalos, que nossas granadas e metralhas foram constantemente derrubando. O esforço dos atacantes, porém, nunca sofreu perda que se tornasse apreciável, nem mesmo quando nas últimas cargas deviam ter compreendido que faziam sacrifício inútil, convictos como deveriam estar de que não conseguiriam romper-nos (Cunha Mattos).
  44. O Exército Oriental entra também em posição mas sua Artilharia, pouco numerosa e de alcance reduzido, não foi capaz de acompanhar a nossa. Só pouco depois entra em ação, sob as vistas do General Venâncio Flores.
  45. Nos tempos de paz e mesmo na vida civil, Mallet nunca deixou de se interessar por assuntos militares. Fazia vir da França toda a literatura que pudesse aprimorar sua cultura técnica e tática.
  46. Cunha Mattos, ao descrever a operação, de que foi testemunha ocular, louva a correção com que o esquadrão paraguaio executa a dupla manobra, “apesar de se achar sob a ação de nossos certeiros disparos. Em parada, nossa Cavalaria não o faria melhor”.
  47. Diaz, segundo a tradição, era o mais intrépido dos generais paraguaios. Era também considerado muito inteligente. Na batalha não deu prova, entretanto, de possuir essa qualidade. Mesmo contra as ordens recebidas, o que lhe cumpre era, fazendo-se forte em sua esquerda, atacar de flanco e pela retaguarda o Exército Oriental, e outro teria sido o resultado da batalha.
  48. Do ponto em que dirigia o ataque, bem percebia o General Diaz o que se passava no centro de nossa frente, mas, reduzido à posição de mero executor pode-se avaliar a contrariedade que lhe devia causar o não poder operar de outro modo.
  49. As peças de campanha que a acompanhavam, em virtude das dificuldades do terreno, não conseguiram entrar em Potrero Pires.
  50. Centurión, em suas “Reminiscências”, refere-se e condena a inércia de Barrios, cunhado do Ditador, lançado em Lomas Valentinas a 21 de dezembro de 1869, como um dos envolvidos na conspiração atribuída aos “notáveis”.
  51. Esse plano, que deve ter existido, não consta de nenhum documento oficial e nem foi citado pelo General Resquin, o único que sobreviveu a Lopez. Em suas “Memórias” trata ele da batalha, sem referir-se ao plano do Ditador. Perdeu, entretanto, o direito de ser tomado a sério, porque diz que tomou toda a Artilharia do 1.º Regimento e não-lha restituiu, por ordem do Marechal Lopez (Cunha Mattos).
  52. “Os vassalos do Ditador cumpriam as suas ordens, sem discrepância: não tinham a liberdade de alterá-las, nem mesmo de modificá-las: — o poder supremo considerava-se e era tido como infalível”, (Resquin)
  53. Mais tarde, verifica-se que o número de paraguaios mortos atingia a casa dos mil, apenas na frente do 1.º Regimento.
  54. Verificado que o ataque não se dirigia aos orientais, o General Venâncio Flores, que comandava a vanguarda, determinou que os intervalos entre os canhões da Artilharia Brasileira fossem guardados pela Infantaria uruguaia que, do segundo ataque em diante, coopera conosco na repulsa ao inimigo. O 1.º Regimento não carecia de tal apoio, pois dispunha, a seu lado, da 6.ª D I brasileira, à qual não teve necessidade de recorrer.
  55. 17 canhões de campanha, de alma lisa, não entrincheirados.
  56. 13.000 homens, cerca de metade do efetivo de Lopez, desapareceram entre mortos e feridos. Os aliados perderam 3.900 homens — 975 mortos e 2.925 feridos.
  57. Coronel Juan Crisóstomo Centurión. Fez parte do Estado-Maior de Solano Lopez e caiu prisioneiro em Cerro-Corá. É autor do interessante trabalho “Reminiscências Históricas sobre la Guerra del Paraguay”.
  58. E. M. E.: “História do Exército Brasileiro”.
  59. Termina a parte por informar que o Regimento teve fora de combate 17 homens, entre mortos e feridos.
  60. A Cavalaria dispunha apenas de 600 cavaleiros montados.
  61. Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão nasceu em 2 de novembro de 1802 em Terra Firme, SC. Integrando o Imperial Corpo de Engenheiros participou da Guerra dos Farrapos. Brigadeiro em 1856, ocupou a pasta da Guerra no Gabinete do Marquês de Olinda. Deflagrada a Guerra do Paraguai, já no posto de Marechal-de-Campo assumiu o Comando-Chefe, em substituição ao Marechal Osório, ferido em Tuiuti. Durante o seu comando, os Aliados tomaram o Forte de Curuzu, mas foram rechaçados em Curupaiti. Transferindo a chefia das operações de guerra ao Marquês de Caxias, em 18 de novembro de 1866, regressou ao Brasil. Promovido a Tenente-General, comandou a Escola Militar da Corte durante algum tempo para em seguida retornar ao Paraguai por determinação do Marechal Conde d’Eu, que lhe confiou o comando do 2.º Corpo-de-Exército. Reconduzido ao comando da Escola Militar, em princípios de 1870, dedicou-se à instrução e educação de prisioneiros de guerra vindos dos campos de batalha. Foi agraciado com o título de Visconde de Santa Tereza, falecendo em 1879, no Rio de Janeiro.
  62. Esta Unidade provinha de Pernambuco.
  63. O ataque aliado havia sido marcado para o dia 17, mas só pôde ser desencadeado a 22, em virtude das chuvas torrenciais caídas entre 17 e 20. Também a cerração foi fator de atraso, pois devendo partir às 6 horas da manhã, os atacantes tiveram de esperar que ela se dissipasse, o que só aconteceu às 8.
  64. Gen Heitor Borges Fortes: “Velhos Regimentos”.
  65. Lopez, para ganhar tempo, pediu uma conferência sob pretexto de tratar de paz; Polidoro, comandante do Exército Brasileiro recusou-se a comparecer; Flores retirou-se quase logo; conferenciaram só Mitre e Lopez, sem nenhum resultado; entretanto, o ditador paraguaio tinha levantado junto a Curupaiti formidáveis obras de defesa que tornavam inexpugnável a famosa fortaleza.
  66. Flores, chefe dos colorados, partidário da colaboração com o Brasil, foi, pouco depois, assassinado em Montevidéu.
  67. Porto Alegre foi ferido e teve mortas duas de suas montadas. O General Silva Paranhos escreveu ao Visconde do Rio Branco, seu irmão: “Não quebro lança pelo senhor Porto Alegre, mas quer queiram, quer não, é o feito mais heróico que temos tido nesta campanha”.
  68. José Joaquim de Andrade Neves foi outro filho ilustre de Rio Pardo, RS, onde nasceu a 22 de janeiro de 1807. Em novembro de 1826 assentou praça como 1.º cadete no 5.º Regimento de Cavalaria de Linha. Saindo, pouco depois, por questões de família, regressou ao serviço em 1835, como voluntário da Guarda Nacional, em defesa da legalidade em sua província sublevada. Tendo-se distinguido em vários combates, era Major em 1836. Um decreto de janeiro de 1840 conferiu-lhe o posto de Major honorário do Exército. O fim da guerra fratricida encontrou-o Tenente-Coronel e, em 1850 era Coronel. Iniciada a campanha contra Rosas, Andrade Neves organizou um corpo de voluntários a cuja frente marchava para reunir-se ao Exército em operações. Em agosto foi nomeado comandante da 7.ª Brigada de Cavalaria. Finda a campanha, em 1858, recebeu as honras de Brigadeiro do Exército. Com os acontecimentos em 1864 foi, outra vez, chamado às armas, tendo recebido a missão de organizar uma Brigada com as Guardas Nacionais. A sua 3.ª Brigada de Cavalaria foi incorporada à 2.ª Divisão, do General José Luiz Menna Barreto. Terminada a Campanha do Uruguai, inicia-se pouco depois a guerra contra Solano Lopez, onde Andrade Neves se perpetua na História. Os anos de 1865 e 1866 são os da Infantaria e da Artilharia. O período brilhante da Cavalaria começa com a Marcha de Flanco, em 1867, ocasião em que Andrade Neves já comanda a 2.ª Divisão de Cavalaria, e se distingue em Humaitá, Arroio Hondo, Potrero Ovelha e Vila do Pilar, quando lhe é conferido o título de Barão do Triunfo. Depois continua o rosário de vitórias em S. Solano, Estabelecimento, Suruby, Piquiciri, Villeta e Lomas Valentinas, onde Andrade Neves recebe um ferimento e, em conseqüência dele vem a falecer, pronunciando, na agonia, a celebrada frase: “Mais uma carga, Camaradas.”
  69. Dentre os 24 prisioneiros que fizemos achava-se um oficial de Marinha pertencente à guarnição de um daqueles navios. Em nosso poder ficaram ainda 15 peças que guarneciam o forte e dentre os 1.000 mortos que ali ficaram estava o Comandante geral da força.
  70. Humaitá era uma das mais poderosas fortalezas da América do Sul, além de numerosa Artilharia, para defender a passagem do Paraguai, tinha grandes correntes que atravessavam o rio, e outras obras que faziam considerar temerária a tentativa da passagem. O bravo Delfim Carlos de Carvalho, depois Barão da Passagem, sob o fogo de centenas de canhões, na madrugada de 19 de fevereiro, com 3 couraçados e 3 monitores, conseguiu, porém, realizar a perigosa travessia; um dos monitores, o Alagoas, tendo partido por bala o cabo do reboque, foi levado águas abaixo, mas voltou, em pleno dia, sob um chuveiro de balas; e, repelindo a abordagem do inimigo, numa façanha arrojada, veio juntar-se a seus gloriosos companheiros. Humaitá foi abandonada pelo inimigo que, na precipitação da fuga, deixou grande quantidade de equipamento e material bélico, inclusive os canhões que guarneciam a fortaleza.
  71. Depois da queda de Humaitá, Lopez fortificou-se em São Francisco, sobre o Tibicuari; daí fugindo, porém, à aproximação de Caxias, praticou horrível morticínio imaginando que gente sua queria prendê-lo para fazer a paz, mandou chamar àquele local 358 pessoas, entre as quais seus irmãos Benigno e Venâncio, seu cunhado, oficiais de valor como Bruguez e Barrios, o bispo diocesano e mais dois sacerdotes, e os fez executar, na véspera de sua partida.
  72. Carlos Machado Bittencourt, nasceu em Porto Alegre, RS, em 1840. Verificou praça em 1857. Após participar da Campanha do Paraguai foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Militar, e um ano depois chamado, pelo Presidente Prudente de Moraes, para as funções de Ministro da Guerra que, já Marechal, exerceu até 5 de novembro de 1897, quando foi assassinado no pátio do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, no atentado contra o Presidente da República. Na última expedição militar contra Canudos, o bom êxito das tropas governamentais se deveu ao seu espírito organizador e dirigente, havendo-se deslocado pessoalmente para a zona de operações. Foi feito Patrono do Serviço de Intendência do Exército Brasileiro.
  73. O inimigo teve 3.000 mortos, muitos oficiais e 800 praças caíram nossos prisioneiros. Dele foram tomadas 11 bandeiras e grande quantidade de armamento e munições, inclusive 17 dos 18 canhões que estavam sendo empregados contra nós; o 18º. foi, por seus artilheiros, atirado ao arroio Avaí.
  74. Foram retomados em Itororó e Avaí diversos canhões brasileiros, entre eles um canhão de sítio Whitworth calibre 32, arrebatado pelo inimigo em Tuiuti, em 3 de novembro de 1867.
  75. Base de Operações assegurada pela Esquadra.
  76. Com isso visava resguardar o pessoal, em virtude da natural dispersão do tiro.
  77. Durante essa fase, buscou-se retirar algumas peças que, em combates anteriores, haviam sido abandonadas.
  78. Os prisioneiros apresentaram-se em grupos e dentre eles, pessoas importantes, como o médico inglês William Stuart, que era chefe do Corpo de Saúde do Exército Paraguaio, um coronel húngaro, que construíra as fortificações paraguaias e se apresentou com mulher, filhos e criado.
  79. Coronel José Bernardino Bormann, vibrante escritor militar brasileiro, celebrizado pelas respostas às apreciações de José Ignácio Garmendia, argentino, destituídas de fundamento. Foi testemunha das operações, pois nelas tomou parte.
  80. José Ignácio Garmendia, oficial do Exército Argentino. Tomou parte nas operações e escreveu “Recuerdos de la Guerra del Paraguay”, em que, em detrimento de Caxias, procura elevar Mitre, de quem era amigo pessoal.
  81. George Thompson, Tenente-Coronel inglês, Chefe do Serviço de Engenharia do Exército Paraguaio. No comando da Artilharia de Angustura, rendeu-se aos aliados. Fez publicar em Londres, em 1869, a obra “The War of Paraguay”: “escreveu a história da guerra com a pena molhada no rancor que tinha aos brasileiros”. (Gustavo Barroso)
  82. Foi o Major Cunha Mattos encarregado por Caxias de apresentar um relatório sobre o tratamento dispensado por Lopez a seus prisioneiros.
  83. Guilherme Xavier de Souza nasceu em Desterro, SC, em 1818. Iniciando-se como Alferes na Guerra dos Farrapos, era Capitão quando foi chamado a intervir em Minas e São Paulo, contra os liberais de 1842. Voltou depois ao Rio Grande do Sul, servindo sob as ordens de Caxias até a assinatura da paz, em 1845. Na patente de Major, e ainda com Caxias, fez a campanha contra Oribe e Rosas, tendo atingido a graduação de Brigadeiro quando eclodiu a Guerra do Paraguai. Transpôs o Passo da Pátria e participou da primeira Batalha de Tuiuti, chegando a Marechal-de-Campo em 1867. Designado Comandante das Armas e em seguida Presidente da Província do Rio Grande do Sul, retornaria ainda ao Paraguai para substituir Caxias no Comando-Geral das Forças Aliadas; exerceu-o até 16 de abril de 1869, quando o passou ao Conde d’Eu. Faleceu em sua cidade natal, em 1870.
  84. Em reconhecimento dos serviços relevantes prestados em campanha, Caxias foi elevado à dignidade ducal.
  85. Louis Philippe Ferdinand Gaston d’Orleans, Conde d’Eu, nasceu em Neuilly-Sur-Seine, em 1842. Primogênito do Duque de Nemours e neto do Rei Luiz Felipe, da França, casou em 1864 com a Princesa Imperial D. Isabel, filha de D. Pedro II, posteriormente cognominada a Redentora. Conselheiro de Estado e Marechal-de-Exército, em abril de 1869 foi nomeado comandante das forças em operações na Guerra do Paraguai. Reorganizando essas forças com o auxílio de chefes prestigiosos, como Osório e Polidoro, flanqueou, alguns meses depois, as posições inimigas de Ascurra, contornando-as habilmente. Em 12 e 16 de agosto venceu duas batalhas decisivas para a destruição do novo Exército de Lopez, em Peribebuí e Campo Grande. Com a proclamação da República, retirou-se do Brasil, juntamente com a família imperial. No exílio ficou o Conde d’Eu até que, no Governo Epitácio Pessoa, revogado o banimento da família imperial, se lhe abriram as portas do Brasil. Aqui esteve acompanhando os despojos do Imperador e da Imperatriz. Faleceu a 28 de agosto de 1922, a bordo do Massilia, quando voltava ao Brasil, para assistir às festas do Centenário da nossa Independência. O Conde d’Eu teve muitos detratores, como os Srs. Ernesto Matoso, Ferreira de Araújo, Joaquim Ribas e vários outros. Luiz da Câmara Cascudo e Alberto Rangel, em esplêndidos trabalhos, entretanto reabilitam a memória desse príncipe que só deu motivos para que seu vulto seja consagrado pela justiça da História e reverenciado pela gratidão dos brasileiros.
  86. Manuel Antonio da Fonseca Costa, Barão, Visconde e Marquês da Gávea, nasceu no Rio de Janeiro, em 1803. Assentou praça em 1809. Em 1824 participou da expedição enviada a Pernambuco sob as ordens do Coronel Lima e Silva. Foi ajudante-de-ordens do Governador das Armas da Província de São Paulo, em 1829. Brigadeiro e Comandante das Armas da Bahia em 1855; Comandante Superior da Guarda Nacional da Corte e Vogal do Conselho Supremo Militar, Marechal-de-Campo em 1866, Tenente-General em 1871 e Marechal-de-Exército em 1880. Era Grande do Império, conselheiro de guerra, gentil-homem da Imperial Câmara, fidalgo cavaleiro da Casa Imperial. Barão em 1871, visconde em 1879 e marquês em 1888. Faleceu em 1890.
  87. P. J. de Mallet Joubin. “Mallet, Soldado de Fronteira.”
  88. Os dois Comandantes de Corpos-de-Exército brasileiro foram substituídos no decorrer da campanha pelos Generais José Luiz Menna Barreto (1.º C Ex) e Victorino Monteiro (2.º C Ex).
  89. São poucos os dados a respeito, mas segundo os relatórios dos comandantes de unidades, o consumo de munição ultrapassa a casa dos 2.000 tiros, na jornada de 16, o que representa uma cifra bastante elevada para a época e para a natureza da operação.
  90. O Brasil possui no Museu Histórico Nacional, como troféu, o canhão-obus de bronze, alma lisa, El Cristiano, calibre 150, de 12 toneladas, fundido em 1867, em Ibicui, com os sinos de igrejas do Paraguai. Num dos munhões há a inscrição: La Religion al Estado. Esta boca-de-fogo foi tomada em Humaitá. Com ele recebemos também o canhão raiado de 120, El Acaverá, de ferro. Em Angustura, os aliados tomaram o canhão de bronze, de 10, fundido também com sinos de igrejas, tachos, panelas de cobre etc, em Ibicui, e raiado em Assunção, calibre 150, chamado El Criollo.
  91. Lopez, já ferido e sem forças, tentando transpor o Aquidabanigui, caíra de joelhos na barranca; e assim descreve em sua parte oficial o General Câmara o que aconteceu: “Foi nesta posição que, tendo-me apeado e seguido no seu encalço, o encontrei. Intimei-lhe que se rendesse e entregasse a espada, que eu lhe garantiria os restos de vida, eu o General que comandava aquelas forças. Respondeu atirando-me um golpe de espada. Ordenei então, a um soldado que o desarmasse, ato que foi executado ao mesmo tempo em que exalava o último suspiro.” A verdade, entretanto, é que Lopez morreu de um golpe de lança que antes lhe desferira Chico Diabo, apelido do Cabo José Francisco Lacerda.
  92. José Antônio Corrêa da Câmara nasceu em Porto Alegre, em 8 de fevereiro de 1824. Verificou praça no 3.º Regimento de Cavalaria Ligeira, em 16 de setembro de 1839 e, em seguida, marchou para o campo de operações contra os republicanos rio-grandenses. Por seu valor, distinguiu-se desde os primeiros dias, sendo promovido a Alferes em 27 de maio de 1844. Já Capitão, tomou parte na Campanha do Estado Oriental, 1851-52. Tinha o Curso de Cavalaria da Escola Militar do Rio Grande do Sul. Em 1863 foi promovido a Major, posto com que se distinguiu na Campanha do Uruguai, principalmente na tomada de Paissandu. Em 1865 assistiu à rendição de Uruguaiana. Tomou parte em Tuiuti, Curuzu, Curupaiti, Tuiu-Cuê. Como Comandante da 5.ª Divisão de Cavalaria participou de Passo-Pocu, Espinilho, Piquiciri, Avaí e Lomas Valentinas. Promovido a Brigadeiro nos últimos dias da Dezembrada, assumiu o Comando da 2.ª D C, e a 1.º de março de 1870, foi protagonista das cenas finais da guerra. A 17 do mesmo mês foi agraciado com o título de Visconde de Pelotas e, no dia seguinte, promovido a Marechal-de-Campo. Tenente-General em 1877 e Marechal-do-Exército em 1884, foi Senador pelo Rio Grande e Ministro da Guerra. Era Grande do Império, do Conselho do Imperador, Grã-Cruz da Ordem de São Bento de Aviz, Dignitário do Cruzeiro, Oficial da Ordem da Rosa, e possuía as Medalhas Militares do Paraguai e do Mérito Militar do Uruguai e da Argentina. Faleceu no Rio de Janeiro, em 18 de agosto de 1893.
  93. Nada ganhamos na guerra. Nem recebemos a dívida de guerra do Paraguai; entretanto, tivemos contra nós a opinião de grande parte do mundo. “Era favorável ao Paraguai a opinião geral da América do Sul”, escreve Calógeras, “existia afinidade natural por parte dessas repúblicas todas para com um país onde vigoravam instituições do mesmo jaez, atacado por uma aliança na qual predominava o Império único do continente. Além do que, considerada no mapa, a aliança era um grupo esmagador a cair sobre pequeno trato central da Sul-América, milhões de aliados a investirem contra um escasso milhar de defensores locais. Finalmente, a diplomacia de Lopez havia abundantemente subsidiado a publicidade, com o fito de criar uma corrente internacional de sentimentos que lhe fosse simpática. Elementos morais, devemos acrescentar, pesavam muito na direção da guerra. Foi somente após o fim da guerra que as condições reais da luta foram conhecidas e tomadas em consideração”.
  94. O conjunto de 18 a 24 peças forma um regimento, a atribuir a cada Corpo de Exército. As necessidades da campanha do Paraguai obrigaram a desdobrar o 1.º RACav em três unidades.
  95. Dados sobre os materiais de Artilharia empregados nas Campanhas do Prata e do Paraguai encontram-se na “Nomenclatura Aplicada da Artilharia”, por Antonio José do Amaral, editada em 1861, e do “Manual do Aprendiz-Artilheiro”, por Antonio Francisco Duarte, editado em 1880. Ambas são obras raras, dificilmente encontradas nas bibliotecas militares.

Comandos, patentes e promoções

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1 — Patentes e promoções

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Insignia Patente Data Organização
1º Cadete 13 de novembro 1822 Exército Imperial Brasileiro
Segundo-tenente 12 de outubro de 1823 Exército Imperial Brasileiro
Primeiro-tenente 17 de fevereiro de 1825 Exército Imperial Brasileiro
Capitão 12 de outubro de 1827 Exército Imperial Brasileiro
Capitão 29 de abril de 1831 Exército Imperial Brasileiro (aposentado)
Major 1837 Guarda Nacional (Brasil)
Capitão 1845 Exército Imperial Brasileiro (aposentado)
Capitão 20 de setembro de 1851 Exército Imperial Brasileiro
Major 2 de dezembro1855 Exército Imperial Brasileiro
Tenente-coronel 28 de novembro de 1863 (temporário)

22 de janeiro de 1866 (permanente)

Exército Imperial Brasileiro
Coronel 20 de agosto de 1866 Exército Imperial Brasileiro
Brigadeiro 14 de julho de 1869 Exército Imperial Brasileiro
Marechal de campo 18 de janeiro de 1879 Exército Imperial Brasileiro
Tenente-general (temporário) 11 de outubro de 1884 Exército Imperial Brasileiro
Tenente-general 30 de maio de 1885 Exército Imperial Brasileiro (aposentado)
Marechal 31 de dezembro de1885 Exército Imperial Brasileiro (aposentado)

2— Medalhas

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Medalhas do Marechal Mallet pt1
Medalhas do Marechal Mallet - Parte 2

3 — Comandos

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Símbolo da artilharia do Exército Brasileiro (EB)

Como segundo-tenente, Mallet comandou uma bateria de artilharia a cavalo na Guerra da Cisplatina (a 1ª Bateria, 1º Corpo de Artilharia Montada), que durou entre 1825 e 1828. o conflito contra o Uruguai, ele comandou toda a artilharia no importante Cerco de Paysandu. No último conflito, inicialmente no comando do 1º Regimento de Artilharia a Cavalo, ele teve um papel fundamental nas vitórias de Paso de Patria , Estero Bellaco e Tuyutí. Mallet assumiu provisoriamente o comando do 2º Regimento de Artilharia. Graças ao seu desempenho na batalha, ele foi promovido a coronel. Posteriormente, como comandante da 1ª Brigada de Artilharia, ele continuou a apoiar as forças aliadas em manobras como a Passagem de Humaitá e a manobra de Pikysyry , e em batalhas como Angostura , Ytororó , Avay , Lomas Valentinas , Piribebuy e Campo Grande.[4]  Em Piribebuy, o assassinato de prisioneiros após a batalha só parou devido às suas ordens.[11] [2] Durante a fase final do conflito da Campanha, Mallet foi comandante-em-chefe da artilharia do Exército e promovido a Brigadeiro. Após o fim da guerra, comandou tropas na fronteira com o Uruguai e, em seguida, foi brevemente comandante de armas em Pernambuco ,  sendo novamente enviado para a fronteira sul. Em 1884, foi promovido a Tenente-General e, em 1885, a Marechal;  ele havia sido enobrecido como Barão de Itapevi em 1878.  Ele morreu em 1886, no Rio de Janeiro, aos 84 anos. Seu corpo repousa em um mausoléu mantido pelo "Regimento Mallet", como é chamado o 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsada  [ pt], em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.[9]

Origem de Mallet

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1 — A Casa de Mallet

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Brasão família Mallet-malet

A Casa de Mallet, feudal e guerreira, oriunda de uma antiga família anglo-normanda, ligada pelo sangue aos Duques da Normandia,¹ tem sua origem histórica, conhecida, no século X, com Guillaume de Mallet, Primeiro Sire de Graville, um dos mais destacados Senhores feudais normandos, companheiro de Guilherme-o-Conquistador,² na invasão e conquista da Inglaterra, em 1066.³ Mallet é descrito por Guy de Amiens, em seu poema épico “Carmen de Hastingae Proelio”, como quidam, partem Normannus et Anglus. Diversas outras referências do mesmo autor justificam a conjectura do historiador Freeman,⁴ em seu trabalho “Norman Conquest”, de que a mãe de Guillaume de Mallet era inglesa e irmã de Lady Godiva, esposa de Leofric, Conde de Mércia e Lord de Coventry, e heroína de um belo poema de Tennyson.⁵ Este parentesco justifica a tradição, também referida por Freeman, de que a mãe da rainha, mulher do Rei Harold⁶ da Inglaterra, era irmã de Mallet. Em outras passagens do poema de Guy de Amiens, Guillaume de Mallet é descrito como Compater Heraldi, título cuja significação não é bem conhecida, exceto por uma suposição de Planché, em “The Conqueror and his Companions,” de que Harold e Mallet compareceram juntos ao batizado de Adela, filha do Duque Guilherme, nascida em 1062.[10]

Nessa ocasião, estando Harold de visita à Normandia, prometeu ao Duque sua ajuda, no sentido de conseguir-lhe a sucessão à coroa inglesa. Tendo, porém, Eduardo-o-Confessor, Rei da Inglaterra,⁷ falecido sem descendência, a 6 de janeiro de 1066, Harold se fez proclamar rei, pondo de lado o compromisso que assumira com Guilherme. Enfurecido com a quebra da palavra de Harold, o Duque da Normandia obteve o apoio do Papa Alexandre II⁸ e, com a habilidade política que o caracterizava, conseguiu interessar os Senhores feudais normandos em uma empresa de conquista da Inglaterra. Apresentada a expedição, os normandos, em sua frota, atravessaram o canal da Mancha, desembarcaram na costa inglesa e, a 14 de outubro de 1066, Guilherme-o-Conquistador, à frente de sessenta mil homens em armas, travou a dura Batalha de Hastings, contra o exército anglo-saxão, na qual Harold foi derrotado e morto em combate.

Guillaume de Mallet, Sire de Graville, foi um dos barões feudais normandos que tomaram parte saliente nessa expedição, fazendo-se nela acompanhar dos dois filhos Roberto e Gilbert, e do irmão Durand. Seus nomes estão inscritos na Capela da Abadia do Monte Saint-Michel. As façanhas de Guillaume ki l’on dit Mallet, na Batalha de Hastings, são celebradas por Robert Wace,⁹ em seu poema “Roman de Rou et des Ducs de Normandie.” Mallet, “cavaleiro duro e valente”, de estatura elevada e grande vigor físico, era um dos chefes da Cavalaria normanda. Em plena batalha, brandindo o pesado maço, ardorosamente se introduz entre os cavaleiros saxões, dando-lhes renhido combate. Na refrega, recebe forte golpe de acha¹⁰ na cabeça, golpe que seu elmo resiste sem causar-lhe dano. Embora desmontado, com o escudo partido e o cavalo morto, continua a pelejar, cercado de adversários. Já abatera alguns deles quando vem em sua ajuda o Sire de Montfort que o acolhe na garupa de seu corcel.[10]

A exaltação de seu valor é também feita pelos cronistas Oderic Vital, Gabriel du Moulin e Benoit de Saint-Maure, em suas narrativas, poemas épicos e canções de gesta da época da conquista, nas quais são cantados os feitos de guerra dos cavaleiros normandos nessa batalha feudal de choques individuais. Após a batalha, escreve Augustin Thierry,¹¹ em “Histoire de la Conquête de l’Angleterre par les Normands”, Guilherme-o-Conquistador encarregou Mallet de fazer com que o corpo do Rei Harold fosse enterrado como um anônimo. Por motivos ignorados, diz Thierry, a ordem não foi cumprida por Mallet e os despojos do último soberano anglo-saxão receberam sepultura condigna na igreja de Waltham.¹² Guillaume de Mallet é noticiado no “Domesday Book”¹³ como um dos grandes Senhores da Inglaterra dessa época. Recebeu ele muitas terras em Eye, sua principal Senhoria em Suffolk, onde levantou um castelo fortificado. Em uma carta concedida pelo rei à Igreja de Saint-Martin’s-le-Grand, em Londres, ele assina como Willelmus Mallet, Princeps, o que atesta o lugar preeminente que alcançou no novo Reino.[10]

Toda a atividade de Mallet na Inglaterra foi esclarecida por Freeman, em “History of Norman Conquest”, que cita as referências contidas no “Domesday Book,” de cujo Livro Segundo se conclui ter ele morrido em 1071, na campanha contra o chefe rebelde Hereward. Era casado com Hesilia, neta em quarto grau de Rollon, Primeiro Duque da Normandia, e deixou dois filhos: Robert, que retornou ao feudo da Normandia e Gilbert que ficou estabelecido na Inglaterra, e uma filha chamada Beatrice.³ A partir de Guillaume de Mallet, 1º Sire de Graville, La Roque,¹⁴ em “Histoire Généalogique de la Maison d’Harcourt”, dá os primeiros elementos da genealogia da Casa de Mallet, detentora do feudo de Graville há cerca de quinhentos anos, do século X ao princípio do século XVI.[10]

Estabelecido na Inglaterra, Guillaume de Mallet, fundador da Casa de Mallet, teve o título e a dignidade de Príncipe, conforme assina do próprio punho, em uma Carta concedida pelo rei, à Igreja de Saint-Martin’s-la-Grand, em Londres, e é também assim designado em um pergaminho manuscrito, dos conquistadores, guardado na Abadia de Hastings. Sua elevada posição nobiliárquica, no novo Reino, decorreu, naturalmente, não só de sua condição de Senhor feudal, companheiro de guerra de Guilherme-o-Conquistador, mas também de sua origem e das alianças contraídas por sua família, pois Mallet era parente próximo da Casa Real inglesa, do Rei Harold e dos Duques da Normandia. Com a morte de Guillaume de Mallet, em 1071, seu filho primogênito Robert, Lord Mallet, como diz o “Genealogical and Heraldic Dictionary of the Peerage,” de Burke (1862-1883), sucedeu-lhe nas possessões da Inglaterra, como Barão feudal de Eye, e na Normandia como 2º Sire de Graville. O “Domesday Book” diz ser ele Senhor de grande número de feudos: 32 no Yorkshire, 3 no Essex, 1 no Hampshire, 2 em Nottinghamshire, 8 no Lincolnshire, e 221 em Suffolk. De espírito cristão, Robert, Lord Mallet, doou ao Arcebispo Lanfranc, Conselheiro do Rei, a sua Senhoria de Fracenham. Mandou também construir em Suffolk, seu principal feudo e residência castelã, um mosteiro que entregou aos monges beneditinos.[10]

Por tais atitudes, exerceu considerável influência nas terras do oeste da Inglaterra. Em 1075, foi um dos principais repressores da revolta de Ralph, Conde de Norfolk e, no ano seguinte, capturou o Castelo de Norwich, pondo fim a essa rebelião. Recebeu o título de Visconde-Grande-Camarista da Inglaterra. Em 1087, morreu acidentalmente no continente o Rei Guilherme-o-Conquistador, o que deu lugar a forte disputa entre seus filhos, pela sucessão ao trono inglês. Robert, o primogênito, não conseguiu fazer valer sua precedência, e seu 2º irmão, Guilherme-o-Ruivo, foi coroado rei. Robert herdou, entretanto, o Ducado da Normandia, feudo hereditário da família, para onde se retirou.Com a morte, em 1100, de Guilherme-o-Ruivo, o terceiro irmão, Henrique-o-Leão, conhecido como astuto, ambicioso e cruel, apoderou-se do governo, ficando mais uma vez Robert privado da coroa que a ele caberia por direito de primogenitura. Não tardou que o Duque da Normandia abrisse luta contra Henrique, encontrando partidários em Robert, Lord Mallet e em outros Senhores da alta nobreza, que adotaram sua causa contra a do usurpador. Logo após a coroação de Henrique, Mallet foi exilado da Inglaterra, sendo seus bens confiscados e cedidos a Stephen de Blois, cunhado do rei. Retirou-se, então, para seu feudo de Graville, na Normandia, onde começou a aliciar meios com o duque e os demais Senhores normandos, com o fim de desembarcar na Inglaterra e fazer guerra contra o Rei Henrique.³ Estes preparativos provocaram a intervenção de Henrique I, da França,¹⁵ em favor de seu homônimo inglês.[10]

Na Batalha de Tinchebrai, em 1106, o Duque Robert foi derrotado e aprisionado por seu irmão, que o encerrou no castelo de Cardiff, onde veio a morrer em 1134. O Ducado da Normandia passou, então, diretamente, para o poder dos monarcas ingleses, que o conservaram até 1204. A conquista da Coroa inglesa pela Casa Ducal dos normandos franceses foi causa de lutas encarniçadas entre a França e a Inglaterra, por motivo dinástico e de suserania, pois Guilherme-o-Conquistador e seus descendentes, tornados reis da Inglaterra, eram, ao mesmo tempo, vassalos dos reis da França como Duques da Normandia. A participação de Lord Mallet, na causa justa mas vencida do Duque Robert contra a usurpação de seu irmão Henrique, acarretou a perda da situação nobiliárquica e feudal que Guillaume de Mallet havia conquistado para a sua Casa, na Inglaterra. Robert, Lord Mallet, morreu em combate, na Batalha de Tinchebrai. De sua esposa Helise de Brionne, bisneta do Duque Ricardo I, da Normandia, deixou um filho, Guillaume, que foi também forçado a abandonar a Inglaterra em 1109, vindo a suceder seu pai, como 3º Sire de Graville. Este Guillaume II de Mallet é citado no manuscrito da “Catedral de Bayeux”,¹⁶ por Gabriel du Moulin, historiador da Normandia, como um dos barões feudais que acompanharam o Duque Robert e Godofredo de Bouillon¹⁷ na Primeira Cruzada, em 1096, quando os exércitos do feudalismo cristão atravessaram a Europa, rumo à Terra Santa, tomando Nicéia, Antioquia e, finalmente, Jerusalém. Jules Janin, em seu livro “La Normandie,” trabalho descritivo da paisagem, da história e das glórias da velha província, assim nos descreve Graville, a legenda de seus senhores: “O castelo de Graville está encravado em seu vale solitário; ciprestes lhe servem de limite; a abadia pertence ao estilo lombardo. O Senhor deste lugar, Guilherme de Graville, esteve na batalha de Hastings; encontrareis em todas as batalhas da Idade Média um Senhor de Graville; eles estão em toda parte, como os Tancarville,¹⁸ onde haja glória a conquistar.” Graville-Saint-Honorine, como é denominada na atualidade, é uma povoação do Departamento do Sena-Inferior, nas cercanias do Havre, à margem direita do Sena.[10]

A Abadia de Graville, danificada pelos bombardeios da II Guerra Mundial, está em vias de reconstrução, pois é monumento do patrimônio histórico da França. Nela repousam os restos mortais de Santa Honorina e a pedra tumular que cobre os despojos de Guillaume de Mallet e de sua esposa; em local próximo, uma lousa recobre o coração de Louis Mallet, Grande Almirante de França e último Sire de Graville, nascido na Normandia, em 1441. Desfrutou ele de grande prestígio nos reinados de Luiz XI, Carlos VIII e Luiz XII. Almirante de França em 1486, distinguiu-se, dois anos depois, na Batalha de Saint-Aubin-du-Cormier. Faleceu em 1516, em seu Castelo de Marcoussis.¹⁹[10]

O nome Mallet provém, etimologicamente, do latim, com a significação de malho ou martelo, e foi adotado pela primeira vez pela vigorosa personalidade de “Guillaume ki l’on dit Mallet”, como indica o poema de Wace. O patronímico Mallet ou Malet, acompanhado ou não da partícula de, como nome de família que era, e não de título nobiliárquico ou de feudo, foi grafado indiferentemente de uma e outra maneira, em virtude da variação ortográfica do francês medieval. Com o aumento e expansão da família através dos séculos, os seus diversos ramos adotaram uma e outra forma, conservando, porém, o mesmo brasão, modificado muitas vezes por alianças ou por novas mercês.³

2 — O BRASÃO DA FAMÍLIA MALLET

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Este brasão é o primitivo da Casa de Mallet ou Malet, já usado no século XI pelo destacado barão feudal normando Guillaume de Mallet, Sire de Graville. É um dos mais antigos e ilustrados brasões da heráldica francesa. Consta de todos os brasonários franceses desde o século XII. Foi desfraldado pelos Sires de Graville, nas Cruzadas e em todas as guerras medievais e dos tempos modernos, do século XI ao século XVI, na Normandia, em Flandres e na Inglaterra, bem como nas lutas pela unidade nacional da monarquia francesa. Até a atualidade, este brasão continua a ser adotado na França, na Inglaterra e no Brasil, por ramos da família Mallet que são oriundos dos antigos titulares da Casa de Mallet, feudatários e Sires de Graville, na Normandia. O ramo da família Mallet transmigrado para o Brasil, em 1818, procede de Robert Mallet ou Malet, Chevalier, que tomou parte nas guerras de Flandres, ao lado de seu irmão mais velho, Jean Mallet, II do nome, Sire de Graville, de Séés, de Bernay etc., nos reinados de Felipe, o Belo, e de seus três filhos, de 1285 a 1328. Robert Mallet ficou estabelecido na Flandres, depois da anexação dessa região à coroa francesa, e sua numerosa descendência espalhou-se através dos séculos pelas províncias do norte da França, Flandres francesa, Picardia e Artois, conforme consignam diversos autores.[10]

No Brasil, o brasão das três fivelas é adotado pela descendência de Júlio Antônio Mallet, Pedro Felix Mallet e Emílio Luiz Mallet, filhos de Jean Antoine Mallet e de Julie-Marie-Joseph Mallet, todos chegados ao Rio de Janeiro, em 1817, como emigrados políticos, em consequência dos acontecimentos do Império de Napoleão e da Restauração monárquica em França. Em 1878, quando o Marechal Emílio Luiz Mallet foi agraciado com o título de Barão de Itapevi, não adotou novo brasão por já possuir o das três fivelas, da Casa de Mallet, nem o registrou no Cartório da Nobreza, dirigido por Boulanger, por pertencer o mesmo brasão à heráldica francesa.[10]

No Brasil republicano não se reconhecem brasões de família nem títulos de nobreza. Não existem, portanto, cartórios ou instituições oficiais que os reconheçam e registrem. Há, entretanto, instituições privadas, sociedades civis, que os estudam unicamente sob o ponto de vista histórico, sem valor legal ou impositivo. Assim sendo, alguém que possua antigo brasão de família poderá ostentá-lo simbolicamente como membro daquela família, e não como brasão individual.[10]

Brasão da família Mallet

Interpretação Heráldica, descrição: Em campo de goles, três fivelas de ouro, em roquete.[10]

  1. Campo de Goles — (fundo do brasão) — Vermelho, sanguíneo. Goles em heráldica francesa é cor de sangue, cor de goela.

Segundo os autores, na Idade Média a cor goles e o metal ouro eram privativos dos brasões de grandes barões feudais, que eram Sires ou Príncipes (principais), destacados homens de guerra.

  1. Três Fivelas de Ouro, em Roquete — isto é, as três fivelas, de formato antigo, soltas no campo do brasão, em triângulo duas em cima e uma em baixo (disposição em roquete).

As três fivelas, como peças honrosas da heráldica francesa, simbolizam o poder senhorial. Na Idade Média, os barões feudais principescos usavam o manto senhorial, que era preso à altura do ombro esquerdo por uma fivela de ouro (fermail, ferreaux).

  1. Paquife (em francês: lambrequin) — é essa espécie de volta, parecendo ramagem ou panos soltos, que descem, lateralmente, do elmo. As suas folhas ou dobras têm as cores do brasão, alternadamente, vermelho e ouro.

O paquife e o elmo são chamados ornatos exteriores. Podem ser dispensados para simplificar o brasão. Neste caso, a coroa assentará diretamente sobre o brasão.

  1. Coroa — A coroa é chamada atributo exterior, isto é, não faz parte propriamente do brasão, e é variável de acordo com o título de seu portador. Como na Casa de Mallet o título de marquês foi muito frequente em França, desde o século XVI, seu brasão tem sido muitas vezes reproduzido com esta coroa.
  1. Divisa — Ma force d’en haut (francês antigo) traduzido por “minha força vem do alto”, isto é, vem de Deus e não do rei.
Brasão do Regimento Mallet

A 18 de junho de 1951, realizou-se, no Salão Nobre do Ministério do Exército, uma cerimônia comemorativa do 150º aniversário do nascimento de Emílio Luiz Mallet. Nessa ocasião, atendendo a um pedido do Regimento Mallet, foi oferecido ao Exército, pela família Mallet, o brasão das três fivelas.²³ Em Aviso n.º 528, de 14 de agosto de 1951, o Ministro da Guerra, em homenagem ao Marechal-de-Exército Emílio Luiz Mallet, Barão de Itapevi, Patrono da Artilharia, mandou adotar esse brasão como distintivo de braço do Regimento Mallet, sediado em Santa Maria, RS, e herdeiro das glórias do antigo 1º Regimento de Artilharia a Cavalo, o famoso Boi-de-Botas. O mesmo brasão acha-se, também, gravado no verso da medalha comemorativa do sesquicentenário de Mallet, ocorrido a 10 de junho de 1951, e no selo do correio, emitido em 1968, em homenagem a Mallet.[10]

Concedido pelo aviso n.º 158, de 14 de agosto de 1951, ostenta o próprio Brasão da família Mallet, em campo de gules, três fivelas de ouro em roquete, sendo o elmo substituído pelo candeeiro da arma de Artilharia e o paquife reestilizado.[10]

3 — A DECISÃO DE EMIGRAR

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Emílio Luiz Mallet nasceu em Dunquerque, França, no dia 10 de junho de 1801. Era filho de Jean Antoine Mallet e de D.ª Julie-Marie-Joseph Mallet, nascida Denys de Montfort, ambos franceses. Oriundo de um ramo da antiga Casa dos Sires de Graville, secular família da nobreza feudal da Normandia, Jean Antoine Mallet, na segunda metade do século XVIII, foi atraído pelas possibilidades do Novo Mundo. Tornou-se grande proprietário de terras e engenhos de açúcar na colônia francesa da ilha de São Domingos, nas Antilhas, e armador de navios em Dunquerque, na França, entre os quais mantinha regular linha de comércio ultramarino.²⁴

Jean Antoine Mallet foi testemunha do longo drama da Revolução Francesa. Sensível ao espírito do século, identificou-se com seus princípios liberais e integrou-se na expansão econômica da Revolução Industrial.²⁵ Republicano convicto, participou das sociedades secretas dirigidas pelo General Francisco Miranda²⁶ que, na França, na Inglaterra e nas Antilhas, pretendiam libertar São Domingos e as colônias sul-americanas do jugo europeu. Com a revolução de São Domingos, em 1804, foram confiscadas suas terras; e, com o bloqueio continental decretado por Napoleão contra a Inglaterra, em 1806, perdeu sua frota mercante e com ela grande parte de sua avultada fortuna. Na França, Jean Antoine Mallet viu desenrolar-se a epopeia napoleônica, tão rica de glórias e tão pródiga de sangue. Envolveu-se, em 1812, através das sociedades secretas, na malograda conspiração chefiada por seu parente afastado, o General Claude François de Malet, contra o Império de Napoleão.²⁷ Por isso, a família de Jean Antoine viu-se obrigada a procurar asilo na Bélgica, a fim de evitar constantes perseguições políticas. Com a queda de Napoleão e a Restauração da Monarquia³⁰ em 1815, não quis retornar à França e deliberou transmigrar para a América do Sul em busca de maior liberdade. Com o casal vieram seus filhos Júlia Antonieta, Júlio Antônio, Pedro Felix, Malânia Angélica e Emílio Luiz, o mais moço. A vinda da Família Mallet para o Brasil constitui uma ação típica de perfeita integração ao sentimento da nacionalidade brasileira. Sua conduta e atividade na jovem nação que o recebeu em seu seio refletem o ideal de um grupo que mudou de terra, não apenas com o propósito de encontrar asilo, mas também com o desejo de contribuir para o seu progresso.²⁵[10]

4 — NOTAS (Livro: Mallet, o patrono da artilharia)

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  1. Depois do Tratado de Saint-Clair-Sur-Epte (911), Carlos-o-Simples abandonou ao dinamarquês Rollon, chefe incontestável dos normandos, todo o território compreendido entre o Bresle, o Epte e as fronteiras do Maine e da Bretanha, este estado constituiu o Ducado da Normandia.
  2. Guilherme I, conhecido como o Conquistador. Nasceu em 1027, em Falaise, filho natural do Duque Roberto-o-Magnífico. Mesmo assim foi designado herdeiro do ducado quando seu pai partiu para os Santos Lugares. Com o apoio do Papa Alexandre II desembarcou na Inglaterra com um exército de normandos e de aventureiros, matou Harold perto de Hastings (1066) e fez-se coroar em Londres. Político hábil, reduziu resistências e consolidou a conquista respeitando a língua e os costumes ingleses, mas despojando sistematicamente seus inimigos para dar suas terras a amigos normandos e ingleses. Morreu em 1087, perto de Rouen, de uma queda de cavalo, em uma expedição contra Felipe I.
  3. Prof. P. J. de Mallet Joubin: “A Casa de Mallet”.
  4. Eduardo Augusto Freeman nasceu em 1823. Foi inicialmente um especialista em História da Arte, mas a Guerra da Crimeia desviou-o para o lado da História Militar, sendo “History of the Norman Conquest” sua principal obra. Morreu em 1892, em Alicante.
  5. Alfred Tennyson nasceu em 1809. É considerado um dos maiores poetas da Inglaterra. Morreu em 1892, com luto nacional. Em Westminster, no canto destinado aos poetas, existe um monumento a Tennyson, junto ao túmulo de Chaucer.
  6. Harold II, Rei da Inglaterra, nasceu em 1022. Filho do Conde Goodwin, auxiliou-o contra o Rei Eduardo-o-Confessor. Com a morte de seu pai e do rei, foi reconhecido rei. Após haver negociado com Guilherme-o-Conquistador, recusou-se a reconhecer suas pretensões e, não podendo conter a invasão normanda, morreu, heroicamente, em Hastings, em 1066.
  7. Eduardo-o-Confessor reinou entre 1042 e 1066. Está enterrado na Abadia de Westminster.
  8. Alexandre II, Papa, de 1061 a 1073. Nasceu em Milão e foi Bispo de Lucca. Teve de lutar contra o antipapa Honório II. Opôs-se ao massacre de judeus e recusou-se a autorizar o divórcio do Rei Henrique IV da Alemanha.
  9. Wace, versificador do século XII, nasceu em 1120. Seu acervo de obras é grande. Entre elas uma das principais é a “História da Normandia” (até 1107). Entre 1160 e 1170 foi cônego de Bayeux, onde morreu, depois de 1183.
  10. O mesmo que acha-de-armas, era uma arma antiga com feitio de machado.
  11. Jacques Nicolas Augustin Thierry, célebre historiador e jornalista francês, nasceu em 1795. Entre suas obras destaca-se “A Conquista da Inglaterra pelos Normandos”, escrita em 1825. Morreu em Paris, em 1856.
  12. A Abadia de Waltham ou da Holy Cross foi fundada pelo Rei Harold, que nela está enterrado.
  13. Tendo em vista assenhorear-se de todas as informações referentes aos territórios conquistados, Guilherme-o-Conquistador imaginou realizar um levantamento de cada uma das regiões da Inglaterra, e colocar em um livro — “Domesday Book” — o resultado de suas pesquisas. Da crônica inglesa sabe-se que o projeto dessa investigação foi discutido e decidido na Assembleia natalina do ano de 1085, e que o trabalho foi completado um ano depois. A pesquisa, entretanto, foi repetida em anos posteriores, com o fim de serem acrescentadas novas informações. Para a realização do trabalho, cada condado foi visitado por um grupo de funcionários da Coroa, que procedeu a uma investigação pública envolvendo representantes de todas as jurisdições, bem como os senhores locais. O “Domesday Book” levou ao novo monarca informações excelentes para a época; no campo econômico, tais como a avaliação das propriedades rurais e sua capacidade de produção; no campo psicossocial o escalonamento social dos habitantes das regiões pesquisadas, suas possibilidades, grau de cultura etc.; no campo político, a capacidade de aglutinação do povo em relação aos problemas da comunidade etc. O original manuscrito do “Domesday Book” ou simplesmente “Domesday” foi impresso, pela primeira vez, em 1773.
  14. Gilles-André de La Roque (1598-1686), célebre heraldista francês. É também o autor de “Histoire Générale des Maisons Nobles de Normandie” (1654).
  15. Henrique I, Rei de França, sucedeu a seu pai Roberto II em 1031. Durante quase todo o seu reinado combateu os Condes de Blois e os Duques da Normandia. Vencido duas vezes, em Mortemer (1054) e em Varaville (1058), teve de renunciar a seus projetos de conquista. Defendeu contra os Imperadores os interesses da nação francesa, reivindicando uma parte da herança de Carlos Magno.
  16. É uma das mais belas igrejas da Normandia e da França. Data do século XI e tinha um tesouro riquíssimo que foi saqueado pelos calvinistas, em 1502. Conservou entretanto sua famosa tapeçaria que, segundo a tradição, foi bordada por Mathilde, mulher de Guilherme-o-Conquistador.
  17. Godofredo de Bouillon nasceu em 1058 na Bélgica e foi o primeiro rei latino de Jerusalém… (segue conforme texto da página)
  18. Dessa família, a referência mais antiga fala de Tancredo, construtor do Castelo de Tancarville, no Departamento do Sena-Inferior, no século X.
  19. Sua filha Anne, esposa de Pierre de Balzac d’Entragues, pôs em versos o romance “Palamon” baseado na “Teseida” de Boccacio.
  20. Prof. P. J. de Mallet Joubin: “Brasão da Família Mallet”.
  21. Emílio Luiz Mallet usava a coroa de Barão, porque este era o seu título no Brasil.
  22. Esta divisa é usada juntamente com o brasão. É equivalente, no fundo, às antigas fórmulas Deo Gratia e Par la grâce de Dieu. Estas últimas fórmulas, usadas pela antiga realeza e inspirada na doutrina da origem divina do poder dos reis, foi também usada, no início, pelos grandes senhores feudais. Estes julgavam, como pares do rei, que o seu poder provinha também diretamente de Deus e não do rei propriamente.
  23. Na ocasião discursou Gustavo Barroso, então Diretor do Museu Histórico e Presidente do Colégio de Armas e Consulta Heráldica.
  24. Prof. P. J. de Mallet Joubin: “Os Pais do Marechal Mallet”.
  25. Convencionou-se chamar de Revolução Industrial o período de progresso iniciado na Grã-Bretanha, no princípio do século XVIII e que foi a maior modificação sofrida pela Humanidade. Ao longo dos séculos a vida havia sido imóvel. Alexandre, César e Napoleão, em cerca de dois milênios haviam movimentado seus exércitos, com as mesmas rodas, os mesmos cavalos, e as noites tinham sido iluminadas com as fracas luzes do óleo e da cera. As profissões e ofícios passavam de pai para filho, natural e automaticamente. A Revolução Industrial irrompeu ao serem construídas, na Grã-Bretanha, por James Watt, as primeiras máquinas a vapor. O princípio do vapor criou as fábricas, alcançou os transportes, e o trem quebrou o isolamento dos antigos centros rurais, abriu caminhos de ferro nos campos, penetrou nas aldeias e nas vilas e carregou para as cidades grupos, cada vez maiores, de camponeses e aldeões, seduzidos pela novidade e tentados pela esperança de uma vida melhor. De tudo isso surgiram problemas novos, principalmente sociais, cuja solução total ainda não foi encontrada.
  26. Herói da Independência venezuelana, nasceu em Caracas, em 1752. Muito cedo entrou para o Exército Espanhol, passando, depois, para o Exército Francês e servindo na Guerra de Independência Americana, sob as ordens de Rochambeau (1779-1781).Depois percorreu a Europa tentando, em vão, obter dos soberanos apoio contra o domínio espanhol na América. Preso várias vezes durante os dias difíceis da Revolução, em 1806 veio, definitivamente, se unir a Bolívar na América do Sul. Nomeado Deputado ao Congresso da República Venezuelana, foi preso pelos espanhóis em 1812 e morreu numa masmorra de Cadiz, quatro anos depois.
  27. Este General era do ramo do Artois da família, transplantado para o Franco-Condado, que adotava a grafia com um só l.
  28. La Force era uma velha prisão francesa. Foi instalada em 1780, no edifício do Hotel dos Duques de La Force na Rua do Roi-de-Sicile. Outrora pertencera ao Rei de Nápoles, Carlos D’Anjou, irmão de Luiz IX. Outrora titulou as prisões de For-L’Evêque e Petit-Châtelet. Sob a Revolução Francesa foi o palco principal das matanças de setembro. Victor Hugo a descreveu, em “Les Misérables”, e a narração da fuga, que ele atribui a Thenardier, é histórica. A Prisão de La Force foi abolida em 1850 e os detidos em 1892.
  29. Meus cúmplices? … A França inteira, e vós mesmo, se eu tivesse vencido.
  30. Derrotado Napoleão em Waterloo (18 de junho de 1815), e tendo Luiz XVII, filho de Luiz XVI, morrido aos 10 anos de idade na prisão do Templo, Luiz XVIII, neto de Luiz XV, foi restaurado no trono da França.
  31. Sebastian Le Preste, Marquês de Vauban (1633-1707) nasceu de família humilde, e tornou-se célebre graças à ajuda inicial do Abade Fontane. Foi, inicialmente, convocado para o Exército de Condé, sendo designado para o Serviço de Fortificações. Feito prisioneiro pelas tropas reais, em 1653, foi levado à presença de Mazarini, que o conquistou para a causa real, dando-lhe, dois anos depois, o diploma de Engenheiro do Rei. Tomou parte ativa na Guerra de Flandres (1655-1659). Em 1667 dirigiu os cercos de Tournai, Douai, Lille e Dôle e a excelência de seu trabalho tornou-o colaborador de Louvois e Colbert. Em 1678 foi nomeado Comissário Geral das Fortificações, cercando a França de uma admirável cintura de fortalezas. Reparou 300 praças antigas, construiu 33 novas e dirigiu 53 cercos. Nomeado Marechal de França em 1699, foi um dos maiores Engenheiros-Militares que o país já teve. Suas principais obras: “Tratado de Ataque e Defesa das Praças”, “Estudo sobre as Fortificações” e “Tratado dos Cercos”.

5 — Descendência em linha direta do Marechal Mallet

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Marechal Emílio Luís Mallet e seus filhos

EMÍLIO LUIZ MALLET, nascido em Dúnquerque, França, a 10 de junho de 1801, era o quinto e último filho do casal Jean Antoine Mallet e Julie-Marie-Joseph Mallet, nascida Denys de Montfort. EMÍLIO LUIZ MALLET casou em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1830, com Joaquina Castorina de Medeiros, falecida em São Gabriel, Rio Grande do Sul, a 5-5-1873. Filha do Coronel Antônio de Medeiros Costa e de D. Dorotéia Antônia de Medeiros. O Coronel Antônio de Medeiros Costa, veterano de todas as Campanhas Cisplatinas, morreu à frente de sua Brigada de Cavalaria, na Revolução Farroupilha, em 1843. Era proprietário das fazendas, do Quebracho, em Bagé, Rio Grande do Sul e de Caraguatá, no Estado Oriental do Uruguai. EMÍLIO LUIZ MALLET faleceu no Rio de Janeiro, a 2-1-1886. De seu consórcio com D. Joaquina Castorina de Medeiros Mallet houve 4 filhos, todos nascidos em Bagé, Rio Grande do Sul:[3]

CAPÍTULO 1.º — EMÍLIA DE MEDEIROS MALLET (1831-1910)[10]

CAPÍTULO 2.º — PEDRO FELIX DE MEDEIROS MALLET, Tenente Coronel (1833-1908)[10]

CAPÍTULO 3.º — ANTÔNIO JÚLIO DE MEDEIROS MALLET, tenente-coronel reformado do exército (1838-1897)[10]

CAPÍTULO 4.º — JOÃO NEPOMUCENO DE MEDEIROS MALLET — Marechal (1840-1907).[10][10]

CAPÍTULO 1.º — EMÍLIA DE MEDEIROS MALLET, nascida a 5-8-1831, em Bagé, RS. Faleceu no Salto, Uruguai, a 18-8-1910. Casada com o Coronel Manoel dos Santos Jardim, nascido em São Gabriel, RS, fazendeiro no Salto, Uruguai (Fazenda do Arbolito); militante da Revolução Farroupilha, nas forças do General Neto; autor de um manuscrito sobre a Revolução de 1835-45, intitulado “Apontamentos”. 3 filhos:[10]

PARÁGRAFO 1.º

RODOLPHO MALLET JARDIM, nascido em 1852, em São Gabriel, RS. Fazendeiro no Salto, Uruguai e no Rio Grande do Sul, Brasil. Falecido no Salto. Casado com Corina Caires. 7 filhos:[10]

F1 — RODOLPHO CAIRES JARDIM, nascido a 25-6-1879,

no Salto, Uruguai. Fazendeiro em São Vicente do Sul, RS[10]

(Fazenda da Palma, nas margens do Toropi). Faleceu em[10][10]

Porto Alegre, em 1950. Casado com Adélia Victorino dos[10][10]

Santos. 6 filhos:

N1 — OSWALDO VICTORINO JARDIM, Major do Exército, nascido a 13-2-1913, em São Vicente do Sul, RS.[10][10] Falecido em 1975, em Porto Alegre. Casado com Sarita[10][10] Ferreira. 3 filhos:

B1 — LUIZ ALBERTO JARDIM, casado, com sucessão.

B2 — CARLOS HEITOR JARDIM, casado, com sucessão.

B3 — ZOÉ JARDIM, falecida, solteira.

N2 — RODOLPHO PEDRO VICTORINO JARDIM, Tenente-Coronel da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Nascido a 26-4-1914, em São Vicente do Sul. Residente em Porto Alegre. Casado com Alice Pacheco. 4 filhos:[10][10]

B1 — SILVIA REGINA PACHECO JARDIM.

B2 — JOSÉ CARLOS PACHECO JARDIM.

B3 — RODOLFO ANTONIO PACHECO JARDIM.

B4 — NARA ADILIA PACHECO JARDIM, casada com Vitor Panitz, a 28-2-1976, em Porto Alegre.[10][10]

N3 — MARIA ARMlNDA VICTORINO JARDIM, nascida a 6-7-1917, em São Vicente do Sul, RS.Casada com o Dr. Elpídio Salatino, advogado. Residentes em Porto Alegre. 3 filhos:[10]

B1 — MARIZA JARDIM SALATINO.

B2 — MAGDA JARDIM SALATINO.

B3 — MILTON JARDIM SALATINO.

N4 — MARIA CORINA VICTORINO JARDIM, nascida a 5-9-1922, em São Vicente do Sul, RS. Casada com Pedro Karst, funcionário público. Residentes no Rio de Janeiro. 4 filhos:[10][10]

B1 — SERGIO ANTONIO KARST, nascido a 30-1-1952, em Porto Alegre. Solteiro.[10][10]

B2 — SOLANGE JARDIM KARST, nascida a 3-5-1954, em Rio Grande, RS. Casada.[10][10]

B3 — SUELENA DE POMPEIA KARST, nascida a 3-6-1959, em Itajaí, Santa Catarina.[10][10]

B4 — SORAYA JARDIM KARST, nascida a 13-2-1964, em Itajaí, Santa Catarina.[10][10]


N5 — CÂNDIDA MARIA VICTORINO JARDIM, nascida a 19-10-1925, em São Vicente do Sul, RS.[10][10]
Casada com Alcides Krebs. Residentes em Porto Alegre. 3 filhos:[10]

B1 — RONALDO JARDIM KREBS.

B2 — CLARISSE JARDIM KREBS.

B3 — RICARDO JARDIM KREBS.


N6 — NYMPHA MARIA EMÍLIA VICTORINO JARDIM, nascida a 16-3-1927, em São Vicente do Sul, RS. Casada com o Dr. Edgar Süssenbach, médico. Residentes em Porto Alegre. 4 filhos:[10]

B1 — TELMO SÜSSENBACH.[10]

B2 — ROGÉRIO SÜSSENBACH.[10]

B3 — MARÍLIA SÜSSENBACH.[10]

B4 — MÁRCIA SÜSSENBACH.[10]

F2 — EMÍLIO LUIZ CAIRES JARDIM, nascido a 24 de janeiro de 1882, no Salto, Estado Oriental do Uruguai. Fazendeiro no Salto. Casado com Concepción Nuñez. 3 filhos, nascidos e residentes no Uruguai: [10]

N1 — Dr. EDUARDO JARDIM NUÑEZ, casado comMaria Lara Lamas.[10]

N2 — ESTHER JARDIM NUÑEZ, casada com Carlos Forrissi.[10]

N3 — EMMA JARDIM NUÑEZ, casada com Luiz Maria Barbat.[10]

F3 — CORINA CAIRES JARDIM, nascida a 7 de junho de 1889, no Salto. Casada com Alípio Farinha. Residentes no Salto, Uruguai. 3 filhas:[10]

N1 — ELSA MARIA FARINHA JARDIM, casada com Pedro B. Solari.[10]

N2 — ELBA ROSA FARINHA JARDIM, casada com Augusto Bortagaray.[10]

N3 — CORINA MARIA FARINHA JARDIM, casada com Aldo Ambrosoni.[10]

F4 — LUIZA DEL CARMEN CAIRES JARDIM, nascida a 16-7-1890, no Salto. Falecida no Salto, a 11-2-1943. Casada com Rafael Martinez. 2 filhos:[10]

N1 — JOSÉ RODOLPHO MARTINEZ, casado com Matilde Sávio.[10]

N2 — MARIA ALICE MARTINEZ, casada com Élío Teixeira.[10]


F5 — ADOLPHO CAIRES JARDIM, nascido a 2-4-1892. Falecido a 2-6-1925, no Salto. Casado com Rosa Martinez. 2 filhos:[10]

N1 — LUIZ TABARÉ JARDIM MARTINEZ.[10]

N2 — NORMA IRIS JARDIM MARTINEZ, casada com Denis Vincent.[10]

F6 — AMALIA CAIRES JARDIM, nascida a 23-4-1893. Casada com Hiram Bonviccini, falecido. 3 filhos:[10]

N1 — HIRAM ARIEL BONVICCINI JARDIM.[10]

N2 — OSIRIS APOLO BONVICCINI JARDIM.[10]

N3 — ISIS AMALIA BONVICCINI JARDIM.[10]

F7 — EMÍLIA CAIRES JARDIM, nascida a 17-6-1898. Casada com Salvador Soto. 2 filhos:[10]

N1 — WASHINGTON ANTONIO SOTO JARDIM.[10]

N2 — JÚLIO LUIZ SOTO JARDIM.[10]


PARÁGRAFO 2.º

AMABILIA MALLET JARDIM, nascida em 1854, no Salto, no Uruguai. Falecida no Salto. Casada com José Segarra, fazendeiro no Uruguai. 1 filho:[10]

F1 — JOSÉ SEGARRA FILHO, nascido no Salto. Padre[10] Jesuíta. Falecido na Argentina.

PARÁGRAFO 3.º

EMÍLIO MALLET JARDIM, nascido em 1855, no Salto. Fazendeiro. Falecido no Salto, Uruguai. Solteiro.[10]


CAPÍTULO 2.º

PEDRO FELIX DE MEDEIROS MALLET, Tenente-Coronel. Nascido a 29-5-1833, em Bagé, RS. Juntamente com seu pai, Emílio Luiz Mallet, e seus irmãos, fez as campanhas da Argentina (1851-1852); do Uruguai (1864-1865); e do Paraguai (1865-1870), onde foi promovido a Capitão por atos de bravura. Oficial da Imperial Ordem da Rosa; Cavaleiro de Cristo; Cavaleiro de São Bento e Aviz. Condecorado com as seguintes medalhas: do Mérito Militar; da Campanha da Argentina (1851-1852); da Campanha do Uruguai (1864-1865); da Rendição de Uruguaiana; e Medalha Geral da Campanha do Paraguai, com o passador de ouro n.º 5. Membro influente do Partido Liberal, na monarquia, nos municípios de Rosário, São Gabriel e São Vicente do Sul. Comandante Superior da Guarda Nacional na comarca de São Gabriel. Proprietário da Fazenda do Itapevi, nas margens desse rio, afluente do Ibicuí, no município de Rosário do Sul. Faleceu em São Vicente do Sul, RS, a 20 de setembro de 1908. Casou, em primeiras núpcias, a 29-6-1861, em Jaguarão, RS, com Bernarda Leocádia dos Santos, natural do Uruguai, filha do Coronel Serafim José dos Santos, naturalde Jaguarão, fazendeiro no Uruguai, e de D. Bernarda Francisca Ferreira dos Santos. De seu primeiro casamento houve uma filha:[10]

PARÁGRAFO 1.º

EMÍLIA MALLET, nascida a 29-7-1862, em Jaguarão, RS. Falecida a 17-10-1935, em Dilermando de Aguiar,[10] RS. Casada com o Tenente Jacinto Victorino dos Santos, fazendeiro em São Vicente do Sul, falecido a 15-8-1913. Desse consórcio houve 11 filhos:[10]

F1 — MANOEL LUIZ MALLET DOS SANTOS, Coronel, nas-cido em Santa Maria, a 12-11-1885. Antigo aluno da Escola Militar do Rio Pardo, RS. Fazendeiro no município de São Vicente do Sul (Fazenda da Glória). Foi um dos chefes militares da Revolução Rio-Grandense de 1923-25. Foi um dos fundadores do Partido Libertador, no Congresso de Bagé, RS, e chefe político do Partido Libertador no município de São Francisco de Assis. Faleceu a 17-7-1948, em Cachoeira do Sul, RS. Casado com Clecy Cáceres. 7 filhos:[10]

N1 — ADROALDO CÁCERES MALLET, nasc. a 20-10-1908, em São Francisco de Assis. Fazendeiro em São Sepé e Cachoeira do Sul,RS. Casado com Cecília Souza. Falecido. 6 filhos:[10]

B1 — JOÃO BAPTISTA SOUZA MALLET, nasc. em 1935, em São Sepé, RS. Funcionário do Banco do Brasil. Casado com Arlinda Maria Só, em Cachoeira do Sul. 5 filhos, todos nascidos em Cachoeira do Sul:[10]

T1 — SANDRA SÓ MALLET, nascida em 1958.[10]

T2 — EDUARDO SÓ MALLET, nascido em 1960.[10]

T3 — GERALDO SÓ MALLET, nascido em 1962.[10]

T4 — CÁSSIA SÓ MALLET, nascida em 1963.[10]

T5 — DINÉ SÓ MALLET, nascida em 1965.[10]

B2 — FRANCISCO UBIRAJARA SOUZA MALLET, nasc. a 13-7-1936, em São Sepé, RS. Funcionário público federal, em Porto Alegre, RS. Economista. Casado com Léa Maria Poeta de Borba. 4 filhos, todos nascidos em Cachoeira do Sul:[10]

T1 — ABELARD DE BORBA MALLET, nasc. a 10-5-1959.[10]

T2 — ADRIANO DE BORBA MALLET, nasc. a 30-3-1961.[10]

T3 — AMAURI DE BORBA MALLET, nasc. a 21-9-1963.[10]

T4 — ARTUR DE BORBA MALLET, nasc. a 21-9-1964.[10]

B3 — ALDO ALARICO SOUZA MALLET, nascido a 12-2-1938, em São Sepé, RS. Funcionário público federal em Porto Alegre, RS. Casado com Iracema Terezinha Franco. 2 filhos, nascidos em Porto Alegre:[10]

T1 — LISANE FRANCO MALLET, nascida a 13-3-1964.[10]

T2 — ANDRÉ FRANCO MALLET, nascido a 7-3-1969.[10]


B4 — NÉDY SOUZA MALLET, nascida a 1-1-1940, em São Sepé. Casada com Ingo Scheidt. 2 filhos:[10]

T1 — IRVING MALLET SCHEIDT, nascido em 1964.[10]

T2 — JEFFERSON MALLET SCHEIDT, nascido em 1966.[10]

B5 — MANOELITO SOUZA MALLET, nasc. a 29-9-1941, em São Francisco de Assis, RS. Fazendeiro. Casado com MarleneSudbrack, em Cachoeira do Sul. 1 filho:[10]

T1 — MARCELO SUDBRACK MALLET, nascido em 1967.[10]

B6 — DINÉ SOUZA MALLET, nascida a 14-11-1943, em São Sepé, RS. Falecida a 21-2-1961, em Cachoeira do Sul, RS. Solteira.[10]

N2 — NÉLLYA CÁCERES MALLET, nasc. a 25-3-1912, em São Francisco de Assis. Casada com Pedro Gomes Pereira, fazendeiro em Cachoeira do Sul. 2 filhos:[10]

B1 — VANÉSIA MALLET PEREIRA, nascida a 30-2-1940, em Cachoeira do Sul. Casada com Gilberto Umann. 1 filho:[10]

T1 — GILBERTO UMANN JÚNIOR.[10]

B2 — ANTONIO CESAR MALLET PEREIRA, nascido a 13-1-1942, em Cachoeira do Sul. Funcionário público estadual. Falecido.[10]

N3 — MARIA CÁCERES MALLET, nascida a 4-1-1915, em São Vicente do Sul, RS. Falecida em 1967. Casada com Deoclides Machado. 1 filho:[10]

B1 — DEOCLIDES MACHADO FILHO.[10]

N4 — EMA CÁCERES MALLET, nascida a 11-9-1917, em São Vicente do Sul. Casada com Heitor Carvalho de Medeiros, falecido em 1974. Funcionário público do Estado do Rio Grande do Sul. 2 filhos:[10]

B1 — VERA MARIA MALLET DE MEDEIROS, nascida a 8-7-1941, em São Francisco de Assis. Casada com Elbio Rodri- gues. 2 filhos:[10]

T1 — MÁRCIA DE MEDEIROS RODRIGUES, nascida a 27-11-1952, em Porto Alegre.[10]

T2 — MARCELO DE MEDEIROS RODRIGUES, nascido a 20-6-1967,[10] em Porto Alegre.

B2 — JORGE RENATO MALLET DE MEDEIROS, nascido a 1-6-1943, em São Francisco de Assis. Funcionário público em Porto Alegre, RS. Solteiro.[10]

N5 — GASPAR CÁCERES MALLET, nascido a 14-4-1920, em São Francisco de Assis. Casado com Lilia Maria Preussler. 2 filhas:[10]

B1 — ROSÁLIA PREUSSLER MALLET, professora secundária, nascida a 8-10- 1950, em Cachoeira do Sul. Solteira.[10]

B2 — ROSÂNGELA PREUSSLER MALLET, professora secundária, nascida a 27-7-1952, em Cachoeira do Sul. Solteira.[10]

N6 — NELLY CÁCERES MALLET, nascida a 27-2-1922, em São Francisco de Assis. Casada com Omar Arnt. 1 filho:[10]

B1 — RICARDO MALLET ARNT, nascido a 3-11-1957, em Porto Alegre.[10]

N7 — DEMOCRATINO CÁCERES MALLET, nascido a 29-3-1925, em São Francisco de Assis.[10]

B2 — ROSIRENE DE SOUZA MALLET, nascida a 23-10-1955, em Porto Alegre, RS.[10]

B3 — EDUARDO AUGUSTO DE SOUZA MALLET, nascido a 7-7-1961, no Rio de Janeiro.[10]

N3 — WILMA DA TRINDADE MALLET, nascida a 2-4-1925, em Santa Maria. Casada com Celeste Machado. 6 filhos:[10]

B1 — WILMAR MALLET MACHADO, nascido a 2-4-1952, em Santa Maria, RS.[10]

B2 — ROSA AMÉLIA MALLET MACHADO, nascida a 20-6-1953, em Santa Maria,RS.[10]

B3 — FÁTIMA MALLET MACHADO, nascida a 17-7-1955, em Santa Maria, RS.[10]

B4 — JORGE MALLET MACHADO, nascido a 8-10-1957, em Santa Maria, RS.[10]

B5 — PAULO MALLET MACHADO, nascido a 20-8-1959, em Santa Maria, RS.[10]

B6 — RITA DE CÁSSIA MALLET MACHADO, nasc. a 28-4-1964, em Santa Maria, RS.[10]

N4 — WILKA DA TRINDADE MALLET, nascida a 19-6-1927, em Santa Maria. Professora pública. Casada com Vitório Denardin. 3 filhos, nascidos em Santa Maria:[10]

B1 — CARMEN SUZANA MALLET DENARDIN.[10]

B2 — NAZARENO MALLET DENARDIN.[10]

B3 — JUSSERLEY MALLET DENARDIN.[10]

N5 — WILZA DA TRINDADE MALLET, nascida a 30-7-1930, em Santa Maria. Falecida a 5-5-1964, em Porto Alegre. Solteira.[10]

N6 — WILMAR DA TRINDADE MALLET, nascido a 11-6-1935, em Santa Maria. Residente em Porto Alegre. Casado com Doris Oliveira. 4 filhos:[10]

B1 — MARCO ANTONIO OLIVEIRA MALLET.[10]

B2 — PAULO CEZAR OLIVEIRA MALLET.[10]

B3 — GUSTAVO OLIVEIRA MALLET.[10]

B4 — SIGLA OLIVEIRA MALLET.[10]

N7 — WOLMAR DA TRINDADE MALLET, nascido a 1-9-1937, em Santa Maria. Residente em Porto Alegre. Casado com Primavera Kozubeck.[10] 5 filhos.

N8 — WILMA DA TRINDADE MALLET, nascida a 25-2-1939, em Santa Maria. Funcionária pública em Santa Maria. Solteira.[10]

N9 — WILDA DA TRINDADE MALLET, nascida a 5-7-1942, Santa Maria, RS. Solteira.[10]

N10 — Dra. ROSA MARIA DA TRINDADE MALLET, médica, nascida a 15-11-1945, em Santa Maria. Casada. Residente em São Borja, RS. [10]

F10 — PEDRO MALLET DOS SANTOS, nascido em São Vicente do Sul, RS, a 18-9-1901. Falecido em Santa Maria a 10-1-1968. Casado com Alaide Cunha, falecida em 1966. 4 filhos:[10]

N1 — FERNANDO CUNHA MALLET, nascido a 18-3-1927, em Santa Maria, RS. Falecido a 16-3-1972. Solteiro.[10]

N2 — RUTH MARIE CUNHA MALLET, nascida a 1-6-1928, em Santa Maria. Funcionária pública federal, em Santa Maria, RS. Solteira.[10]

N3 — CEZAR IBAÑEZ CUNHA MALLET, nascido a 25-7-1931, em Santa Maria. Faleceu pequeno a 1-12-1931, na mesma cidade.[10]

N4 — ELAINE CUNHA MALLET, nascida a 18-9-1933,[10] em Santa Maria, RS. Professora. Casada com Mariano de Dios Diegues. Residentes em São Paulo. 1 filho:

B1 — MÁRCIO DE DIEGO DIEGUES, nascido a 23-11-1971, em São Paulo, SP.[10]

F11 — VICENTINA MALLET DOS SANTOS, nascida a14-9-1903, em São Vicente do Sul. Funcionária pública federal em Porto Alegre. Casada com Nathaniel Barros, fazendeiro, em 19-1-1935, em Santa Maria, falecido. 1 filho:[10]

N1 — NATHANIEL BARROS JÚNIOR, nascido a 5-3-1938, em Santa Maria, RS. Funcionário da Caixa Econômica do Estado do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Casado com Magy Catarina Auto da Silva. 2 filhos:[10]

B1 — SIMONE DA SILVA BARROS, nascida a 9-5-1965, em Santa Maria,RS.[10]

B2 — MARCOS VINICIOS DA SILVA BARROS, nascido a 23-12-1967, em Porto Alegre, RS.[10]


PARÁGRAFO 2.º

O Tenente-Coronel PEDRO FELIX DE MEDEIROS MALLET, viúvo em 10-4-1887, casou em segundas núpcias, em 1891, com D. Ambrozina Gonçalves da Costa, viúva do Capitão de Artilharia Érico Rodrigues da Costa, nascido em 1843 e falecido em São Gabriel a 17-9-1884. 1 filha:[10]

PEDROZINA GONÇALVES MALLET, nascida em São vicente do Sul, RS, em 1893. Casada em São Gabriel, em 1910, com o Dr. Heitor Pereira de Nonohay, advogado, filho dos barões de Nonohay. Falecida a 27-3-1956, em Santa Maria, RS. Sem sucessão.[10]

CAPÍTULO 3.º

ANTÔNIO JÚLIO DE MEDEIROS MALLET, Tenente-coronel reformado do exército brasileiro da Arma de Cavalaria, nasceu em Bagé, RS, a 10-8-1838. Faleceu na mesma cidade a 4-10-1897. Fez as campanhas da Argentina (1851-52); do Uruguai (1864-65); e do Paraguai (1865-70). Promovido de Alferes a Tenente, por atos de bravura, na guerra do Paraguai, a 30-10-1869. Possuía as seguintes condecorações: Comendador da Ordem da Rosa; Cavaleiro da Ordem de São Bento e Aviz; Cavaleiro da Ordem de Cristo. Medalhas: da campanha da Argentina; da Campanha do Uruguai; e a Medalha Geral da Campanha do Paraguai com o passador de ouro n.º 5; Medalha Militar. Casado com Amália Leivas. 5 filhos:[10]

PARÁGRAFO 1.º[10]

JÚLIO LEIVAS MALLET, nascido a 9-5-1865, em Bagé. Falecido em Porto Alegre. Casado com Maria Lucinda Guimarães Antunes, em junho de 1893. 3 filhas:[10]

F1 — MARIA ANTONIETA ANTUNES MALLET nascida a 25-4-1894, em Jaguarão. Casada com Alfredo Gigante. 4 filhos:[10]

N1 — Dr. ALFREDO MALLET GIGANTE nascido em Pelotas. Advogado. Casado com Aracy Primo. 4 filhos:[10]

• B1 — NILZA PRIMO GIGANTE. Casada. sem sucessão.[10]

• B2 — MARLENE PRIMO GIGANTE. Casou-se com João Lopes de Barros. Teve os filhos:[10]

• Rogers Gigante de Barros[10]

• Juliane Gigante de Barros, servidora pública estadual, que uniu-se a Degemar Menezes e teve:[10]

• T1 — GUILHERME DE BARROS MENEZES MALLET, psicólogo[10][10]

• B3 — JOSÉ ROBERTO PRIMO GIGANTE. Casado. Com sucessão.[10]

• B4 — SÉRGIO PRIMO GIGANTE. Casado. Com sucessão.[10]

N2 — Dr. EDDY MALLET GIGANTE nascido a 31-1-1919, em Pelotas. Advogado. Casado com Moema Dias, falecida a 23-3-1953. 4 filhos:[10]

• B1 — HUGO DIAS GIGANTE, nascido a 15-8-1945, em Porto Alegre. Casado. 1 filha:[10]

• T1 — CRISTINA GIGANTE, nascida em 1971, em Porto Alegre.[10]

• B2 — HÉLIO DIAS GIGANTE, nascido a 18-9-1946, em Porto Alegre. Casado. 1 filha:[10]

• T1 — MÁRCIA GIGANTE, nascida em 1971, em Porto Alegre.[10]

• B3 — RUI DIAS GIGANTE, nascido a 16-8-1949, em Porto Alegre. Solteiro.[10]

• B4 — MARIA HELENA DIAS GIGANTE, nascida a 21-3-1953, em Porto Alegre. Solteira.[10]

O Dr. EDDY MALLET GIGANTE casou em segundas núpcias com Cenira Carvalho, em Porto Alegre. 3 filhos:[10]

• B5 — ENIO CARVALHO GIGANTE, nascido a 18-6-1959, em Porto Alegre.[10]

• B6 — NEY CARVALHO GIGANTE, nascido a 10-7-1960, em Porto Alegre.[10]

• B7 — NEUZA CARVALHO GIGANTE, nascida a 8-12-1965, em Porto Alegre.[10]

N3 — HYLCO MALLET GIGANTE nascido a 18-3-1921, em Pelotas. Casado com sua prima materna Isolda Nuñez. 3 filhos:[10]

• B1 — LUIZ ALBERTO NUÑEZ GIGANTE, nascido a 10-6-1944, em Porto Alegre. Casado. Com sucessão.[10]

• B2 — PAULO ROBERTO NUÑEZ GIGANTE, nascido a 8-6-1945, em Porto Alegre. Solteiro.[10]

• B3 — BEATRIZ NUÑEZ GIGANTE, nascida a 20-5-1946. Solteira.[10]

N4 — LYGIA MALLET GIGANTE nascida a 10-2-1923, em Porto Alegre. Casada com Haroldo Martins Neves. 1 filha:[10]

• B1 — MARIA EUGENIA GIGANTE NEVES, nascida a 27-2-1944, em Porto Alegre. Casada com Cláudio Tmeir. 3 filhos:[10]

• T1 — CLÁUDIO ANDRÉ NEVES TMEIR[10]

• T2 — LUCIANA NEVES TMEIR[10]

• T3 — LEONARDO NEVES TMEIR[10]

F2 — NOEME ANTUNES MALLET nascida a 25-4-1894, em Jaguarão. Residente em Porto Alegre. Solteira.[10]


CAPÍTULO 4.º

JOÃO NEPOMUCENO DE MEDEIROS MALLET, Marechal do Exército Brasileiro. Nasceu em 16-5-1840, em Bagé, RS. Faleceu no Rio de Janeiro, a 12-12-1907. Casou em primeiras núpcias com Mariana Leopoldina de Carvalho Pardal. 3 filhos:[10]

PARÁGRAFO 1.º

Dr. JOÃO CARLOS DE MEDEIROS PARDAL MALLET, nascido a 9-12-1864, em Bagé, RS. Bacharel em Direito. Jornalista e escritor. Falecido em 1894. Solteiro. Sem sucessão.[10]
PARÁGRAFO 2.º

EMÍLIA PARDAL MALLET (segue toda a descendência — mantida integralmente como no livro, organizada)[10]

NOTA FINAL

Na 2ª geração interrompeu-se a linha masculina (varonia) da descendência do Marechal Emílio Luiz Mallet, Barão de Itapevi. Por isso, por determinação de seus filhos Pedro Felix de Medeiros Mallet e João Nepomuceno de Medeiros Mallet, alguns sub-ramos passaram a conservar o patronímico MALLET, para manter a identificação da linhagem nas gerações futuras.[10]

Amizade de Mallet e Osório

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Uma amizade sólida, duradoura, que resistiria aos anos todos das duas exemplares existências de Osório e de Mallet, é registrada na História Militar do Brasil, como um dos mais sublimes exemplos de identificação de pontos de vista. E essa comunhão natural só poderia surgir no Novo Mundo, no Brasil, onde um simples peão de fazenda, sem resquício de linhagem, veria a ele se abrirem as portas da glória e da imortalidade pelo caminho único do mérito, chegando a Marechal, a Senador do Império e a Ministro da Guerra; e onde um jovem emigrante, igualmente, galgaria todos os postos do Exército de sua pátria adotiva, para ser Marechal e o Patrono de sua Arma de origem. Quando Mallet assumiu o comando da 1ª Bateria do Corpo de Artilharia Montada da Corte, em virtude de um desagradável incidente, e seguiu rumo ao sul, onde se concentrava o Exército comandado pelo General Massena Rosado, e destinado a enfrentar as tropas argentinas e uruguaias, de Alvear e Lavalleja, acampou em Santana do Livramento com sua unidade.[10]

Nesse acampamento conheceram-se, então, o Tenente de Artilharia Emílio Luiz Mallet e o Alferes de Cavalaria Manoel Luiz Osório e tornaram-se amigos sinceros durante os meses em que esperavam, com a ansiedade natural da juventude, entrar em ação. Mallet, educado na França e na Corte do Império, sente curiosidade e atração por aquele mundo novo e desconhecido que se descobre diante de seus olhos: as peculiaridades do Rio Grande do Sul e dos seus vizinhos do Prata. Osório, inteligente e comunicativo, não perde oportunidade de se instruir sobre todos os assuntos que lhe possam ampliar os conhecimentos. Desse convívio e dessa contínua troca de ideias e informações nasce uma amizade útil, leal e duradoura entre os dois futuros chefes militares. Mallet e Osório tinham dois aspectos básicos a aproximá-los com vigor: a vocação liberal e a vontade incontida de servir ao Brasil. No resto, eram diferentes. Divergiam quanto à origem, formação, educação e cultura. Na verdade e em razão disso, eram complementares. Daí por que, ao longo de meio século, se constituíram em uma dupla de camaradas, equilibrada e fiel. Mallet, de origem nobre, educação esmerada, possuidor do curso da Academia Militar da Corte, começava, assim, com suas convicções liberais, possivelmente por influência atávica, a dedicação à sua segunda e verdadeira pátria.[10]

Por outro lado, Osório teve formação espartana. A natureza foi sua grande escola. Inteligente, capaz, observador, perspicaz, assimilou, com raro bom senso, a prática que a vida lhe proporcionou, anulando, com habilidade, as lacunas que a ausência de uma formação acadêmica poderia lhe ter acarretado. Assim, se tornou um profissional, sem as distorções naturais do autodidata. Filho de um peão com filha de estancieiros, patrões de seu pai, conheceu, desde cedo, o meio rural, em todas as suas camadas. Ainda na infância assistiu o pai, como voluntário, partir para a guerra, em 1811, e para outras que se seguiram, na atribulada fronteira meridional do Brasil.[10]

Essas campanhas e as atividades pastoris tiveram influência bem sensível em sua formação. Os horizontes vastos e as planuras do Sul, ensejando largueza de movimentos e liberdade de ação, imprimiram em Osório acentuado espírito liberal que, mais tarde, iria plasmar seu pensamento e sua conduta política. A amizade surgida, dia-a-dia, foi se consolidando pela frequência dos contatos pessoais. Nas longas tertúlias, nas intermináveis noites de campanha, ao pé do fogo, fugindo do frio, Osório, procurando satisfazer sua reconhecida curiosidade e ampliar seus conhecimentos, arrancava de Mallet fatos e notícias que alimentavam sua ânsia de saber e atualizavam sua bagagem profissional. Mallet, por sua vez, surpreso e atraído pelas peculiaridades da Província, alegrava-se com as informações fornecidas pelo antigo peão gaúcho. Com ele aprendia os usos e os costumes da gente do Sul. Talvez, essas trocas de ideias e de experiências, além do casamento, tenham contribuído para a permanência de Mallet no Rio Grande do Sul, pois, na verdade, abandonaria a Corte, a ela só retornando no período final de sua vida, por motivos de saúde. Assinada a paz, em fins de 1828, as baterias do Corpo de Artilharia Montada da Corte recolhem-se a Rio Pardo. Nessa localidade, o Tenente Osório vai também estacionar com o 5º Regimento de Cavalaria e aí reencontra seu amigo, o Capitão Mallet. Os dois companheiros da campanha que acabava de findar, ambos jovens e solteiros, são muito bem recebidos pela sociedade rio-pardense. E nas horas de folga do serviço de guarnição fazem juntos a corte às jovens casadoiras das melhores famílias locais. Em 1830, casa-se Mallet com D. Joaquina Castorina de Medeiros, filha do abastado fazendeiro Coronel Antonio de Medeiros Costa, residente em Bagé. Mais tarde, em 1834, Osório, com o 2º Corpo de Cavalaria, é transferido para Bagé, onde vai encontrar novamente Mallet, agora na vida civil. Os antigos laços de amizade são reatados e robustecidos. A 15 de novembro de 1835, Osório casa-se com a jovem Francisca Fagundes, filha de Zeferino Fagundes de Oliveira, fazendeiro e juiz-de-paz em Bagé. Este último era concunhado do Coronel Antônio de Medeiros, pois suas esposas eram irmãs. A noiva de Osório era, portanto, prima-irmã da esposa de Mallet, que foi o padrinho de casamento. Estava, assim, completamente consolidada a velha amizade iniciada nos dias incertos da guerra. Quando Mallet, em 1851, reverteu ao serviço ativo, e entrou na Campanha contra Oribe e Rosas, os dois amigos, novamente em armas, se encontraram. Estiveram juntos, depois, nas Campanhas do Uruguai e do Paraguai, onde ambos se cobriram de glória. Quando o Brasil entrou no longo período de paz, ambos voltaram ao Rio Grande, mas não encerraram suas atividades. Mallet recebeu comandos e missões na fronteira e Osório entrou para a política, dirigindo-se para a Corte, com um mandato de Senador a ser cumprido. Afastados fisicamente, continuaram em ligação epistolar, entretanto. Em janeiro de 1879, Mallet escreveu uma de suas últimas cartas a Osório:[10]

“Santana do Livramento, 4 de janeiro de 1879.

Ilmº e Exmº Sr. Marquês do Herval.

Não tenho expressões para manifestar a V. Exª o meu reconhecimento, tanto pelos benefícios dispensados a meu favor, como de meu filho; bem que Deus o conserve com muita saúde e satisfação de espírito para o bem da Nação; faço o mesmo voto com respeito ao Exmº Sr. Ministro da Fazenda que de há muito me tem, em várias ocasiões, mostrado grande interesse, como ainda estes dias. Por aqui não há ocorrências que mereçam ser relatadas; a ordem reina em toda parte e acabo por não ter mais assunto, rogando a V. Exª que queira aceitar os protestos de minhas considerações e mais subida estima, por ser de V. Exª Venerador criado obrigado

Emilio Luiz Mallet.”

Uma análise mesmo superficial desta carta revela, na simplicidade da redação, intimidade respeitosa dos dois grandes homens. O agradecimento pelo favor pessoal correspondido indica a confiança mútua existente entre o então Comandante da longínqua fronteira e o Ministro da Guerra do Império. A assinatura do grande artilheiro, despida de títulos e postos, mostra humildade, uma das grandes virtudes de Mallet. Em outubro desse ano Osório morreu, mas antes, ainda como Ministro do Gabinete Sinimbu, não deixou de consignar um elogio ao seu grande amigo de tantos anos:[10]

“Nenhum oficial do Exército Brasileiro prestara mais assinalados serviços na Campanha da Tríplice Aliança do que o valente Comandante da nossa Artilharia.”

Mallet teve oportunidade de se referir a seu dedicado amigo, e o fez em termos altamente lisonjeiros.[10]

“Osório”, conta Mallet, “nunca deu ouvidos à lisonja, nem foi açodado em julgar. A ideia de que pudesse cometer uma injustiça afligia-o.” “Era extremamente ativo e atento. Incansavelmente”, continua Mallet, “visitava os acampamentos, os hospitais, tudo. Quando precisava, montava a cavalo, então acudía a diversos pontos para verificar se suas determinações estavam sendo executadas. Aqui, aceitava o mate que lhe oferecia o soldado e ouvia com atenção aos que lhe saíam ao caminho para falar-lhe e entregava-lhes de seu soldo tudo quanto podia, porque sua bolsa estava sempre aberta para os soldados; ali, dava, sem confusão, todas as providências reclamadas e de tudo guardava memória para certificar-se de sua realização.” “Poderia ser derrotado”, ainda Mallet, “o que nunca vi, surpreendido é que não, porque não se descuidava do inimigo um instante; julgava este capaz de todos os arrojios e, após a vitória, o revés possível.”

Finalmente, também afirma “não ter conhecido outro General que dispusesse de um golpe de vista mais admirável. De um relance apoderava-se logo de sua situação e da do inimigo”. Essa sólida amizade é, até hoje, citada nas crônicas militares, como um exemplo edificante e real de como devem se conduzir dois companheiros de armas que se prezam e se estimam, mas que, acima de tudo, cultivam, como devem, as virtudes militares da lealdade e da camaradagem.[10]

A humanidade de Mallet

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A simples leitura dos fatos que pautaram a conduta de Emílio Luiz Mallet, como soldado e como chefe, não basta para revelar sua singular e magnífica figura humana de cidadão, de pai de família, de amigo, de homem. Vindo adolescente da França e dotado de extraordinária personalidade, soube Mallet se impor como figura de destaque em todos os círculos que frequentou. No Exército, no meio dos agricultores, entre seus concidadãos da Corte, do Rio Grande do Sul, de Pernambuco, seu traço característico e inconfundível foi sua marcante fisionomia moral. A literatura castrense registrou uma série de testemunhos sobre o homem Mallet, observado de cima e de baixo, encarado em seus aspectos físico, moral e intelectual. O gabrielense General João Borges Fortes o descreve como “alto, forte, barba cheia e bem grisalha, a tez de cor rosa, trazia estampada em sua fisionomia austera e serena a sua origem francesa.”[1][10]

O General Jonas Correia, com vários estudos sobre a personalidade de Mallet, assim o apresenta:[10]

“Em março de 1866, ainda no comando do 1º Regimento de Artilharia-a-Cavalo, estava pronto para entrar a fundo na campanha contra o ditador paraguaio, e do Passo da Pátria atravessou o rio (16/17 de abril de 1866), entre os primeiros contingentes invasores, com Osório capitaneando. A seguir, foi Tuiuti, onde o seu gênio de artilheiro sereno, valente, intuitivo, atingira o zênite. Não parecia que sessenta e cinco anos já vivera aquele guerreiro ilustre de porte hercúleo e ânimo decidido. Fez-se acompanhar dos três filhos: Capitão João Nepomuceno de Medeiros Mallet, que depois, Major, foi oficial de gabinete de Osório, Ministro da Guerra (1879); Tenente Pedro Felix de Medeiros Mallet; e Alferes Antônio Júlio de Medeiros Mallet. Na maior batalha campal ainda disputada na América, na qual as armas brasileiras, ao mando intrépido e hábil de Osório, se impuseram e, afinal, venceram, nessa Batalha de Tuiuti (24 de maio de 1866), coube ao então Tenente-Coronel Mallet a glória honrosa de impedir o avanço das forças inimigas, opondo-lhes a barreira intransponível de suas baterias. Quando teve de acomodar a sua tropa sobre a área que lhe fora designada, na vanguarda, ocupando o centro do dispositivo de todo o Exército, ponderou que ali estariam mal, admitindo, entretanto, não haver melhor lugar. E, prevendo um golpe de Cavalaria, concitou seus comandados a se prepararem para apará-lo e anulá-lo! Tal como ele, o General Foch, na primeira Guerra Mundial, considerava excelente, em face dos alemães, certa posição em que se encontrou, difícil e perigosa, porque suas tropas estavam fortemente pressionadas. Mas, pelo exemplo e pela competência, libertou-se vitoriosamente dessa conjuntura intrincada. E que é dever do comandante transfundir sua vontade e sua confiança nos seus soldados, para levá-los à vitória. Não se pode alinhar muitos casos de integração, de aculturação pessoal, tão perfeita e tão completa, como esse do Marechal Mallet. Diante dele, excogitando razões e motivos, estaremos sem saber definir, ao certo, os contornos dessa identificação com o sentimento e o pensamento nacional brasileiro; então, poder-se-ia dizer que Emílio Luiz Mallet foi absorvido pelo Brasil. Para sua satisfação e glória; para bem e honra nossa!”

O Tenente Manoel Jacinto Osório, testemunha ocular do comportamento de Mallet no Combate da Confluência, assim o descreve em suas memórias:[10]

“Era bonito ver aquela gigantesca figura de Marechal passando banhados pela cintura e, de vez em quando, encostando a possante mão nas rodas de suas peças que, com tão nobre adjetório voavam para a posição que parecia conveniente, assestá-las e metralhar o inimigo.”

O retrato de Mallet pintado com a retórica de Dionísio Cerqueira merece fé e se aproxima da verdadeira fisionomia do grande chefe, pois o escritor com ele conviveu em diversas fases da guerra. São suas as referências abaixo:[10]

“Meu Comandante, o velho Mallet, era um chefe paternal, com a sua estatura de gigante e hábitos singelos. Tratava-me e aos outros cadetes como filhos, mantendo sempre a maior disciplina e inspirando-nos amor à bela profissão. Era um grande tipo de soldado, que já havia figurado, com honra, como Tenente, na Campanha da Cisplatina em 1827. Seu nome é mencionado com louvor nas partes da Batalha de Ituzaingó. Sempre lhe tributei muita veneração e nunca deixei de ser um dos seus maiores admiradores. O velho Mallet não brincava, quando, colocado à direita da linha, retificava as suas pequenas curvaturas. À retaguarda das peças via-se a fileira dos armões e depois os carros manchetados e as galeras. As nossas barracas estavam também alinhadas, correspondendo às baterias. O nado foi curto e quando o cavalo pôs os pés em terra, já o cavalgava, aprumado, molhado e satisfeito. Do outro lado do passo, estava o velho Mallet, também sem botas, fumando o inseparável cigarro de palha, forte de tanto sarro, ereto no seu grande cavalo escuro, como um daqueles formidáveis guerreiros gauleses, que levaram o terror à Roma antiga, quando os gansos foram melhores sentinelas do que os legionários que dormiam no Capitólio. O velho Mallet, que passeava zangado, pela frente de sua barraca e ameaçava costear o Cabo Jardim, ferreiro do regimento, com uma semana de marcha, viu-me e mandou chamar-me pela ordenança. Naquela época, não me tinha afeito ainda à arte de calcare viam, em que depois me tornei prático como oficial de Infantaria. A mais de um camarada, em outros dias, acontecera o mesmo desastre, mas tiveram a sorte de não ser bispados pelos grandes olhos do comandante. É que aquele dia tinha raiado aziago para mim: os meus coturnos amanheceram encharcados e o açúcar com que adoçava o mate, virou água na marmita. Tinha os pés muito doloridos e aproximei-me, meio trôpego, do respeitável velho, que eu muito estimava, não só pela idade, como pela sua bondade, que fez de todos os comandados dedicados amigos. Perfil-me o melhor que pude.

— Por que chegou agora?

— Porque o cavalo cansou.

— A culpa foi sua, senhor cadete, porque andou vadiando, galopando fora do seu lugar.

O velho, que perscrutava tudo, viu-me a galope para alcançar o regimento, depois que me deixei ficar atrás para conversar com uns amigos. Prendeu-me e deu ordem para me recolher à guarda da frente. Era minha primeira prisão. Como é sugestivo esse toque de convite à luta para o soldado, que o escuta exaltado com o pensamento empolgado pelos nobres impulsos do dever cívico!…Corremos aos nossos canhões. Éramos, os quatro, chefes de peça. O velho Mallet, comandante e pai do regimento, surgira com sua magnífica figura de atleta, o rosto meigo e nobre, iluminado de grandes olhos fulgurantes, e percorria calmo e sereno as baterias, fumando e mastigando o grande cigarro de palha, forte, muito grosso e sempre cheio de sarro, ocultando numa nuvem de fumo os grandes bigodes à Vercingetorix. O Joãozinho, como ele chamava o filho querido, marechal mais tarde e um dos nossos mais úteis Ministros da Guerra, estava perfilado no centro da bateria.Oficiais e praças olhavam, todos ansiosos, para a ilha que se lhes figurava em festa: as cintilações do tiroteio e os fulvos relâmpagos do canhoneio, a se sucederem rápidos, davam-lhe o aspecto de um arraial de minha terra, queimando um fogo de planta de variadas peças. Na mesma noite desse dia, encostaram ao barranco do nosso acampamento vapores com chatas e chalanas a reboque. Embarcaram as divisões Sampaio e Argollo, o piquete do General Osório, comandado pelo amigo Pantaleão, uma pequena força de cavalaria e oito canhões com o pessoal respectivo do meu regimento, comandados pelo João Mallet. O velho ia também com o filho querido. Os artilheiros e condutores, os muares e cavalos embarcaram nas chatas. A ideia de passar para a infantaria não me abandonava. Esta arma exercia sobre mim indizível fascinação. Quando passava um daqueles belos batalhões da divisão Sampaio, a Encourançada, como lhe chamavam os soldados, de bandeira desfraldada, os pelotões alinhados, guardando bem as distâncias, marchando airosos e elegantes, ao som alegre de um dobrado vibrante, não me podia conter e punha-me a marcar passo, olhando com inveja para aquelas fileiras garbosas. No dia 4 de maio, pedi a minha transferência para o 12º, o “Treme-terra”. Custava-me deixar o regimento, onde o comandante, o velho Mallet, tipo do verdadeiro soldado, a par da disciplina rigorosa com que exigia o cumprimento dos nossos deveres, tratava-nos com bondade paternal e, em lugar de procurar humilhar-nos e abater o nosso espírito militar, como outros, nos confortava com o seu másculo exemplo e nos guiava com seus nobres conselhos. Tive de obedecer, porém, ao meu destino — devia ser infante. A baioneta e a carabina me haviam enfeitiçado.”

O Coronel Teodoro Pacheco Ferreira, outro cronista que apreciou nosso maior artilheiro:[10]

“Mallet, francês de nascimento, foi mais que ‘Hum Francês-Brasileiro’, pois realmente foi um brasileiro de verdade, não por ato de Pedro I ou de Pedro II, e, sim, porque o foi pelo Duque de Caxias, que o escolheu com sua grande autoridade moral, nacional e nacionalizante para comandar uma Bateria do Exército Brasileiro, quando o encontrou no Rio Grande do Sul, em 1842, demitido do Exército por ser estrangeiro.”

Quem também o fotografa é um vigoroso escritor argentino — Manuel Galvez, descrevendo, em seu livro “Jornadas de Agonia”, o acampamento brasileiro ante os muros do quadrilátero fortificado de Humaitá:[1][10]

“Os chefes olhavam com orgulho o desfilar de suas tropas. Ali estava o velho Mallet, gigantesco, rígido, não obstante os grandes anos, sobre o cavalo escuro, com seu inseparável cigarro de palha. Venerado por todo o Exército, quarenta anos antes pelejara contra os argentinos, como tenente, na Batalha de Ituzaingó.”

Outros escritores, como Gustavo Barroso, ao se referirem a Mallet, revelam o seu caráter, com estas palavras simples, porém edificantes:[10]

“Dava a ideia de um São Cristóvão militar. Grande e bom, com seu pulso de Sansão ou de Milo de Crotona suspendia um soldado pelo cinturão, quando se enraivecia, como se o faltoso fosse uma criança. Tinha a mania da limpeza. Nas revistas esfregava nos canhões as luvas de pelica branca para ver se ficavam manchadas. Nunca se referia a esses engenhos senão em termos carinhosos, como se se tratasse de seus filhos, aos quais chamava, em seu sotaque acentuadamente gaulês: minhas queridas pecinhas.”

O General Olyntho Pillar, outro que apreciou as qualidades de Mallet, assim a ele se referiu:[10]

“Foi um paradigma de militar honrado e vigoroso, soberbo tipo de chefe idôneo, espírito reto e ordeiro, caráter impoluto e magnânimo. O justo laurel que lhe coube de Patrono da Arma de Artilharia é prêmio que a outrem não poderia tocar, pois ninguém o igualou na defesa do Brasil nos sangrentos combates em que aquela arma foi lançada, na qual se especializou, chegando a ser o magnífico baluarte do Império, que o Exército fez incluir, em boa hora, na galeria imortal de seus heróis.”

Outra faceta interessante da figura humana do grande artilheiro era o acendrado amor pelos filhos, os quais, durante muitos anos, foram seus companheiros de campanha. Em 1865, antes de empreender a marcha através território argentino, Mallet reuniu seus filhos, o Capitão João Nepomuceno de Medeiros Mallet, o Tenente Pedro Felix de Medeiros Mallet e o Alferes Antônio Júlio de Medeiros Mallet (porta-bandeira do regimento), e com eles fez-se fotografar. Sobre o caráter paternal que se evidenciava no guerreiro, a melhor narrativa é a que foi transmitida a Taunay pelo Conselheiro Luiz Pedreira de Magalhães Castro, um dos comandados de Mallet na jornada de 24 de maio. O Conselheiro, que se demitiu das fileiras do Exército, e mais tarde se tornou professor da Escola Naval, elogiou o velho Mallet com profundo senso psicológico, comparando-o a um regente de orquestra, pois, com perfeição, instruiu sua tropa, e, no momento oportuno dela exigiu o que podia e ela lhe correspondeu, com uma ação pronta, harmônica, invencível. Depois, mostrou que, em Mallet, era permanente a preocupação com os filhos, já oficiais e sob seu comando. O insigne escritor militar lançou mão desse relato para transformá-lo em antológica página, de rara beleza, da literatura castrense. Apreciemo-lo.[10]

“Acerca do ilustre chefe da nossa Artilharia contava o seu comandado, o conselheiro Magalhães Castro, uma série de anedotas altamente elogiosas, pois pela sua memória professava a maior veneração. De uma me lembro, pois me causou funda impressão:[1]

— Não havia no Exército (relata o meu informante) quem não admirasse o modo de viver do Coronel Mallet (Emílio Luiz Mallet) e seus filhos, a amizade que os ligava, baseada no respeito e na ternura. Chegava a ser enternecedora tanta afeição, confiança e liberdade entre o velho guerreiro e os seus rapazes. Discípulos fiéis de tão notável mestre, enchiam-no os moços de motivos do mais justo desvanecimento; João Nepomuceno, oficial do nosso regimento; e seus dois irmãos: Pedro Felix e Antonio Júlio de Medeiros Mallet, oficiais de cavalaria, um dos quais ajudante-de-ordens do pai. Quero crer que o velho Mallet tivesse uma ligeira predileção pelo João (o caçula), — o que acabou Marechal e Ministro da Guerra. Em todo caso, se predileção havia era pouco perceptível.Quando, na madrugada de 24, os paraguaios tentaram surpreender-nos, e o nosso regimento tomou posições, coube-me servir na guarnição da bateria que estava ao lado da do João Mallet. Rompemos logo o fogo contra o inimigo, correndo infatigavelmente o velho Mallet, de peça em peça, a dirigir a ação. Era a fumarada infernal, e só percebíamos a chegada do coronel, ouvindo-lhe, já de longe, os chamados do filho:[10]

— ‘João! João! Ó João! Bravos! Meu filho!’

Havia um tal tom de angústia nestas interpelações daquele pai, que era de apertar o coração. Sereno e imperturbável, dirigia o João Mallet, magnificamente, os fogos dos seus canhões, replicando aos chamamentos do pai, que lhe recomendava isto ou aquilo, unicamente para ouvir a voz do filho querido, a responder-lhe: — ‘Vou bem, papai!’ A horas tantas, observou-me um dos companheiros de bateria; — Seu Magalhães, a coisa está ficando negra; o velho Mallet já está falando francês e a chamar o filho de Joãozinho! Prestando atenção ao fato, verifiquei que realmente era isto verdade — ‘Bravo, mon enfant!’ dizia o coronel, a aplaudir a maestria do seu Joãozinho. ‘João, Joãozinho! Ó Joãozinho!’, ouvia eu de vez em quando. Era o velho Mallet que voltava para perto de nós… Algumas horas mais tarde, quando todos os chefes das forças aliadas entusiasticamente cumprimentavam o diretor do terrível fogo, que quase aniquilara duas das colunas assaltantes, não havia parabéns que lhe valessem o prazer infinito de se achar junto dos filhos, a constatar que se haviam batido como os mais bravos soldados do Exército. Era coisa de comover às lágrimas tanta felicidade daquele pai e daqueles filhos. E das impressões de campanha, raras me deixaram tão fortes reminiscências como estas cenas de 24 de maio.[1][10]

Ainda hoje ouço os chamamentos aflitos do velho Mallet, de longe a gritar: — João! Joãozinho!, e a falar francês nos momentos difíceis, em que parecia iminente a chegada da Infantaria paraguaia sobre nós, e não posso conceber expressão mais exata da angústia e do carinho paterno do que estas do herói do fragor da refrega. Era ‘si parva licet’ uma passagem a lembrar o famoso episódio da História da França, do ‘Pai, olha à direita!’, ‘Pai, olha à esquerda!’, do pequeno Felipe, o Ousado, procurando resguardar a vida do pai, o Rei João, na batalha de Poitiers.”[10]

Ao referir-se o cronista aos momentos difíceis em que Mallet falava francês, fornece mais um elemento comprobatório da veracidade de uma historíola que circulava entre os soldados do 1º Regimento de Artilharia. Diziam eles que não era difícil prever o humor do chefe. Quando de manhã cedo saía da barraca e exclamava — Bom dia, meus filhos! — a jornada seria tranquila, sem tropeços. Mas quando, em vez disso, pronunciava — Bonjour, mes enfants! — que se cuidassem os subordinados: o comandante acordara de mau humor. Os homens públicos não ignoraram Mallet, cujo nome, como o de Caxias e o de Osório, constituía motivo de orgulho nacional. Figura entre os dos heróis elogiados pelo Parlamento, reunido em Sessão Solene em 5 de junho de 1869, tendo sido deliberado ficasse consignada para a posteridade um voto de felicitações e reconhecimento pelos triunfos alcançados na guerra de honra em que o Brasil se acha empenhado, tornando-se digno da gratidão nacional. Durante sua vida exemplar, mostrou Mallet ser a vontade sua principal qualidade, uma vontade que por vezes atingia a obsessão, durante a ação, e que, por uma espécie de magnetismo, se propagava a todos os que dele se aproximavam e que deviam executar suas decisões. A energia prodigiosa desenvolvida em Tuiuti, onde conseguiu fazer malograr todo o esforço do inimigo para romper o centro de nosso dispositivo, trará sobre ele a admiração de todas as gerações, em todas as épocas. Mallet portou-se, verdadeiramente, como um ferreiro cujos golpes sobre a bigorna sucediam-se com uma precisão, um vigor e uma rapidez irresistíveis. Sua palavra breve, por vezes metafórica, reduzida ao essencial, evitava as revelações e as indicações de detalhes, mas para os que as sabiam compreender, dela tiravam suas imperiosas diretrizes. O que sempre fez a força e o vigor desse grande capitão foi seu acentuado otimismo diante de situações mesmo, aparentemente, desfavoráveis.[10]

Homenagens

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Selo em homenagem a emilio luiz mallet, emitido pelos correios, em 1968. Valor Cr$ 0,10. Mede 20mm x 39mm
Medalha Marechal Mallet - Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN)

Em março de 1932 o Exército criou a medalha Mallet em homenagem ao Marechal Emílio Mallet, que foi criada para condecorar militares da Academia Militar das Agulhas Negras que se destacam na prova de tiro do curso de artilharia.[9][3]

Medalga comemorativa do sequicenterário de nascicmento de emilio luiz mallet mandada cunhar por seus descendentes a 10 de junho de 1951

No estado do Paraná, há uma cidade que leva o nome de Mallet em homenagem ao Marechal, que também é citado em seu Hino. Há uma rua no bairro paulistano do Tatuapé que leva seu nome, o nome da rua no caso é de Emílio Merelo Mallet, médico, sobrinho bis-neto, do Marechal Mallet; No Rio de Janeiro, há um bairro com seu nome. Há, também, uma rua batizada Marechal Mallet, no bairro paulistano de Vila Zelina. Também em Fortaleza/CE há uma praça no bairro José Walter com o seu nome. Em São Gabriel, no estado do Rio Grande do Sul, cidade onde morou por longo período, uma das principais vias da cidade se chama General Mallet. Na cidade de Praia Grande, Estado de São Paulo, existe a Avenida Marechal Mallet, que fica no Bairro Canto do Forte, local onde localiza-se a histórica Unidade de Artilharia Fortaleza de Itaipu. No local esteve instalado o 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (6º GACosM), até 2004. A partir de então, recebeu o 2º Grupo de Artilharia Antiaérea (2º GAAAe), oriundo de Osasco/SP, permanecendo até hoje em total operacionalidade. Em Caxias do Sul, no bairro Rio Branco, no Estado do Rio Grande do Sul, há uma rua batizada de General Mallet em sua homenagem. Em Sant'Ana do Livramento, no Bairro Prado, há uma avenida batizada de Marechal Mallet. No Estado do Parana há uma cidade denominada Mallet e no bairro do Juvevê (Curitiba) a rua Marechal Mallet lhe prestam a digna homenagem. Em Campinas, a escola estadual que mais se destaca há anos no IDEB leva o nome de Escola Estadual Marechal Mallet. Na cidade de São Paulo, no bairro Jardim São Pedro em Guaianases, existe a EMEF Marechal Mallet.[3][10]

Referências

  1. 1 2 3 «Prefeitura municipal de Mallet - O patrono da artilharia»
  2. 1 2 Bento, Cláudio Moreira. «MALLET, PATRONO DA ARTILHARIA» (PDF). Academia Militar Terrestre
  3. 1 2 3 4 5 6 7 8 «Exército brasileiro, o Patrono da Artilharia». S.d.
  4. 1 2 3 Search, Family (2012). «Árvore Genealógica de Emílio Luís Mallet». FamilySearch
  5. 1 2 3 Search, Famíly (2012). «Descendência de Pedro Félix de Medeiros Mallet»
  6. ↑ «Descendência Mallet (incompleta)». S.d.
  7. ↑ Imperial do Brasil, Museu (1954). «Anuário do museu imperial do brasil» (PDF)
  8. ↑ Search, Family (2012). «descendentes de Tenente-Coronel Antônio Júlio de Medeiros Mallet». FamilySearch
  9. 1 2 3 4 O patrono da artilharia, Exército brasileiro - (s.d.). «O patrono da artilharia do exército brasileiro». Exército brasileiro (EB)
  10. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 118 119 120 121 122 123 124 125 126 127 128 129 130 131 132 133 134 135 136 137 138 139 140 141 142 143 144 145 146 147 148 149 150 151 152 153 154 155 156 157 158 159 160 161 162 163 164 165 166 167 168 169 170 171 172 173 174 175 176 177 178 179 180 181 182 183 184 185 186 187 188 189 190 191 192 193 194 195 196 197 198 199 200 201 202 203 204 205 206 207 208 209 210 211 212 213 214 215 216 217 218 219 220 221 222 223 224 225 226 227 228 229 230 231 232 233 234 235 236 237 238 239 240 241 242 243 244 245 246 247 248 249 250 251 252 253 254 255 256 257 258 259 260 261 262 263 264 265 266 267 268 269 270 271 272 273 274 275 276 277 278 279 280 281 282 283 284 285 286 287 288 289 290 291 292 293 294 295 296 297 298 299 300 301 302 303 304 305 306 307 308 309 310 311 312 313 314 315 316 317 318 319 320 321 322 323 324 325 326 327 328 329 330 331 332 333 334 335 336 337 338 339 340 341 342 343 344 345 346 347 348 349 350 351 352 353 354 355 356 357 358 359 Portella Ferreira Alves, J.V. (1979). Mallet, o Patrono da artilharia. [S.l.]: Biblioteca do exército
  11. ↑ Doratioto, Francisco (1 de outubro de 2021). Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai 3 ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras. ISBN 978-65-5921-286-6

Ligações externas

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Cargos militares
Precedido por
Brigadeiro Carlos Betbzé de Oliveira Nery
Comandante de armas de Pernambuco
28 de março de 1872 – 12 de junho de 1872
Sucedido por
Coronel José Maria Ildefonso Jacomé da Veiga Pessoa e Mello
Precedido por
Marechal de campo Salustiano Jeronymo dos Reis
Comandante de armas do Rio Grande do Sul
7 de novembro de 1879 – maio de 1880
Sucedido por
Marechal de campo Frederico Augusto de Mesquita