Emoção em animais

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Um esquilo da espécie Funambulus palmarum partilha sentimentos emocionais com a sua cria que se encontra enjaulado. Foto de junho de 2011 em Batticaloa, Sri Lanka.

Charles Darwin foi um dos primeiros cientistas a escrever sobre a existência e a natureza das emoções em animais. Sua abordagem observacional e às vezes simples tornou-se uma abordagem científica mais complexa, baseadas em hipóteses. As hipóteses gerais relacionadas as interações entre humanos e animais também suportam a afirmação de que os animais podem sentir emoções e que as emoções humanas evoluíram a partir dos mesmos mecanismos [1]. Foram desenvolvidos vários testes, como testes de viés cognitivo e respostas de sentimentos de otimismo ou pessimismo foram mostrados em uma ampla gama de espécies, incluindo ratos [2], cachorros [3], gatos, ovelhasporcos [4]  e abelhas. Porém testes científicos estão sendo realizados para caracterizar as respostas cognitivas dos animais como ações realizados em resposta à um estímulo específico e não como sentimentos propriamente ditos.[5]

O fato é que não existe um consenso científico sobre as emoções dos animais, no entanto algumas evidências sustentam a afirmação de que os animais não-humanos possuem afectividade e que as emoções humanas evoluíram a partir dos mesmos mecanismos. A emoção dos animais está inerente ao estudo sobre a suposição da existência de emoções em alguns animais vertebrados e outros invertebrados, principalmente sobre aves e mamíferos.

 Etimologia e definições[editar | editar código-fonte]

A palavra 'emoção' data da época de 1650, adaptada de uma palavra do latim emovere onde o e- significa "fora" e movere significa "movimento".[6] As emoções foram descritas como respostas a eventos internos ou externos que têm um significado particular para o organismo. As emoções são breves e consistem em um conjunto coordenado de respostas, que podem incluir mecanismos fisiológicos, comportamentais e neurais.[7]

Emoções básicas e complexas[editar | editar código-fonte]

Em humanos, as vezes, é feita distinção entre emoções 'básicas' e 'complexas'. Seis emoções são classificas como básicas: raiva, desgosto, medo, felicidade, tristeza e surpresa.[8] As emoções complexas que podem ser incluídas são: ciúmes, desprezo e simpatia. De qualquer forma, essa distinção é difícil de ser utilizada em relação aos animais, pois acredita-se que eles expressam emoções muito mais complexas.[9]

 Crítica[editar | editar código-fonte]

O argumento de que os animais possam experimentar emoções por muitas vezes é rejeitado já que muitos não acreditam na existência da consciência animal e argumentam que o antropomorfismo influência na perspectiva do individuo, pois deliberadamente tenta justificar atitudes animais e explica-los de acordo com seus próprios conhecimentos. O behaviorismo tem como abordagem a concepção de que toda ação é uma resposta à um estímulo específico, ou seja, os comportamentos positivos são resultados de atitudes que trazem satisfação ao individuo e os negativos que acarretam em situações indesejadas são os comportamentos que tendem a ser evitados. Essa concepção surgiu graças a experimentos que estimulam emoções positivas e negativas nos animais para induzir que eles ajam de determinada maneira. [10]

Outra explicação para as reações expressadas pelos animais seriam as de nível social, sendo assim animais expressam reações como simpatia, constrangimento, vergonha, orgulho e inveja, pois ajudariam os mesmo a conviver em grupo. Para o neurocientista António Damásio, da Universidade de Iowa “Gorilas ficam arrogantes para ganhar o respeito do grupo e cães dão sinais de constrangimento quando levam bronca de seus donos”.[11]

A experiência de Pavlov[editar | editar código-fonte]

Cachorro usado nos experimentos de Pavlov. Museu de Pavlov, Rússia

Dita como experiência revolucionária, a experiência de cão de Pavlov sintetizou como funciona o condicionamento clássico. Realizado por um médico Russo nos anos 20 com diversos cachorros, os estimulando a ficarem com água na boca sem que se houvesse comida por perto. Essa experiência consistia em que toda vez que os animais eram alimentados o médico tocava uma sineta, com o passar do tempo os mesmo começaram a associar as badaladas com a comida e começavam a babar apenas de ouvir o sino, mesmo que o prato estivesse vazio, provando assim que o seres vivos nascem com certos reflexos, ou seja, podem ser programados para determinadas reações em resposta a um estimulo.[12]

Abordagem científica[editar | editar código-fonte]

Nos últimos anos, a comunidade científica tornou-se cada vez mais favorável à ideia de emoção em animais. A pesquisa científica forneceu informações sobre as semelhanças das mudanças fisiológicas entre humanos e animais quando experimentam emoção.[13] O ramo da ciência mais próximo de ser responsável pelo estudo das emoções em animais é a etologia, que analisa o comportamento animal. Porém o mesmo só busca explicações causais para o comportamento dos animais, e não emocionais, recorrendo quase sempre aos instintos como justificativa, já que acredita-se ser mais recomendável estudar o comportamento do que tentar chegar a alguma emoção subentendida. Para alguns cientistas é necessário cautela na hora de estudar sobre emoções em animais. já que se acreditarmos que nossos sentimentos são as únicas e verdadeiras experiências que todos os animais possam ter, porém os mesmos podem correr o risco de ser humanizados e de não compreendermos como eles agem, e desrespeitar as emoções deles. Se fosse analisado nas perspectivas de alguns etnólogos há alguns anos atrás, as emoções ocidentais não poderiam ser equiparadas ou possíveis de se existir nas culturas consideradas inferiores, pareciam então não ser necessário se compreender a respeito das emoções em certas tribos montanhesas, como agora parece acontecer quando se quer catalogar os sentimentos em animais.[14]

Além disso, o psicólogo Donald Olding Hebb constatou que os tratadores que atribuem termos psicológicos humanos para descrever certos comportamentos animais eram mais eficientes em prognosticar suas condutas do que os cientistas que se valiam de terminologias mais "objetivas", ou seja, mais descritivas e menos antropomórficas. Em contrapartida, os primeiros trabalhos de Jane Goodall receberam inúmeras críticas por adotar termos humanos e associar em sua apresentação de dados sobre os chimpanzés de Gombe. À mesma época, Desmond Morris apontou os riscos da humanização do comportamento, que teria sido provocado pela grande proximidade evolutiva desses grandes primatas com os humanos.[15]

Voltaire e René Descartes[editar | editar código-fonte]

Um grande debate surgiu entre filósofos em relação a noção de alma dos seres vivos, este debate acabou sendo servindo como parâmetro para definir as discussões sobre os direitos dos animais. Dois grandes nomes em relação a esse tema foram Voltaire e Descartes que definiram conceitos antagonismos em relacionados a alma dos animais não- humanos. No século XVII, Descartes surge com a premissa de que animais não têm almas, logo não pensam e não sentem dor, trazendo então uma maior liberdade no manejo dos animais, sem necessitar de uma grande preocupação. Em contra partida Voltaire logo intervém e apresenta o pensamento de que os animais são seres dotados de capacidade de desenvolvimento de conhecimento, além de sentimentos, julgando ser características visíveis apenas pelos convívio com os mesmos ao longo da vida. Outro filosofo que surge em defesa dos animais é Jean-Jacques Rousseau que argumenta em seu prefácio de "Discursos sobre a Desigualdade" que os seres humanos também são animais, embora considere seu intelecto limitado em comparação ao homem, o mesmo acredita que os animais são seres sencientes e por isso devam desfrutar dos mesmos direitos naturais e que o homem não tem o direito de maltrata-los.[16]

Evidência[editar | editar código-fonte]

Beijo de um cavalo demostra capacidade de afeição e carinho entre animais e humanos.

Nos últimos anos, pesquisas foram desenvolvidas em larga escala, ampliando o entendimento anterior da linguagem animal, cognição, uso de ferramentas e sexualidade animal.

Os vertebrados são seres sencientes. Têm a capacidade de avaliar as ações dos outros, lembrarem-se das suas próprias ações e consequências, avaliar riscos e ter certos sentimentos e grau de consciência.

Segundo César Ades, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em comportamento animal, os primatas cujos filhotes morrem, são capazes de os carregarem durante dias, às vezes até que estes se decomponham. Segundo um estudo da pesquisadora inglesa Jane Goodall - que conviveu por anos com chimpanzés em seu habitat natural, revelou-se que algumas crias, quando perdem a sua mãe, revelam emoções semelhantes à dos humanos, sentindo-se deprimidos por longos períodos de tempo.

Um exemplo de laço extremo entre os animais lembrado por Ades está entre o ganso macho e a fêmea, onde há um vínculo que dura a vida inteira. Quando morre a fêmea, o macho perde a sua combatividade e se mostra bastante perturbado e sem energia.

Outro estudo realizado na Universidade de Bristol mostra que as vacas têm uma forte vida sentimental que inclui emoções como a amizade, o rancor ou a frustração. Os bovinos são ainda capazes de sentir emoções fortes como dor, medo e até ansiedade – o que sugere que se preocupam com o futuro. Entretanto, a felicidade pode ser facilmente expressa nestes animais quando encarados a condições adequadas e propícias a si mesmos. Este estudo, coordenado por John Webster, professor de Produção Animal em Bristol e autor do livro Bem-Estar Animal: a Coxear em Direcção ao Éden (Animal Welfare: Limping Towards Éden) desmistificou ainda a ideia comummente aceite de que a inteligência está directamente relacionada com a capacidade de sofrer e que os animais, porque têm cérebros mais pequenos, sofrem menos do que os humanos.[17]

De acordo com Christine Nicol, professora de bem-estar animal na Universidade de Bristol, os animais estão mais próximos dos seres humanos sob o ponto de vista emocional do que até aqui se acreditava. Esta investigadora afirmou ainda que "O nosso desafio é ensinar aos outros que todos os animais que tencionamos comer ou usar são indivíduos complexos, e ajustar a nossa cultura de exploração animal em conformidade".[18]

O escritor contemporâneo e veterinário Richard Pitcairn reitera as afirmações de Charles Darwin: "É uma verdade inegável o fato de que os animais têm estados emocionais e sentimentos. Quem convive com eles pode ver isso facilmente, embora não seja algo de que as pessoas precisam estar intelectualmente convencidas. Não existe dúvida, na minha mente, de que os animais apresentam o mesmo leque de emoções que as pessoas: amor, medo, raiva, tristeza, alegria, e assim por diante".[19] Apesar de não ser ainda possível provar, por meio de observação, se um animal possui sentimentos conscientes, como também não se pode provar o que uma pessoa sente no seu íntimo. Porém, pesquisas indicam que pelo menos alguns animais dispõem da capacidade de autoconsciência. Podemos supor que talvez tenham consciência de suas emoções.[19]

Mamangaba exibem sinais de emoções.[20]

O livro Quando os elefantes choram (When elephants weep) apresenta a relação do choro, até então consideradas as únicas secreções dignamente humanas, associadas pelo autor Jeffrey Moussaieff Masson a uma expressão forte de alguma emoção ligadas a essa determinada espécie animal, no caso os elefantes. O livro apresenta uma visão que tenta transmitir a profundidade com que os animais experimentam as emoções, de uma forma que se aproxima das manifestação até então ditas como unicamente humanas, se tornando cada vez mais difícil delimitar a barreira que nos diferencia dos outros animais.[21]

Abordagem de Darwin[editar | editar código-fonte]

Charles Darwin inicialmente planejava incluir um capítulo sobre emoção em animais em sua obra a descendência do homem e seleção em relação ao sexo, mas à medida que suas idéias avançavam, eles se expandiam para a obra a expressão das emoções no homem e nos animais. Darwin propôs que as emoções são adaptativas e servem uma função comunicativa e motivacional, além de afirmar três princípios que são úteis na compreensão da expressão emocional. Primeiro: o princípio dos hábitos usáveis ​​assume uma posição Lamarckiana ao sugerir que as expressões emocionais úteis serão transmitidas para a prole. Segundo: o princípio da antítese sugere que existam algumas expressões apenas porque se opõem a uma expressão útil. Em terceiro lugar: o princípio da ação direta do sistema nervoso excitado no corpo sugere que a expressão emocional ocorre quando a energia nervosa ultrapassou um limiar e precisa ser liberada.[22]

Darwin viu a expressão emocional como uma comunicação externa de um estado interno, e a forma dessa expressão muitas vezes ultrapassa o seu uso adaptativo original. Por exemplo, Darwin observa que os humanos geralmente apresentam seus dentes caninos quando zombam de raiva e ele sugere que isso significa que um antepassado humano provavelmente utilizou seus dentes em ação agressiva. O movimento da cauda de um cão doméstico, por exemplo, pode ser usado de maneiras sutilmente diferentes para transmitir muitos significados, como ilustrado na obra autor.[22]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Panksepp,, J. (1982). «Toward a general psychobiological theory of emotions». Behavioral and Brain Sciences. Consultado em 22 de junho de 2017 
  2. Borenstein,, Seth (2010). «Riso de seres humanos e de animais é assunto sério para os cientistas». Estadão. Consultado em 22 de junho de 2017 
  3. Daraya, Vanessa (2013). «Cachorros têm sentimentos como os humanos, diz estudo». Exame.com. Consultado em 22 de junho de 2017 
  4. Angier, Natalie (2009). «Estudos mostram que porcos possuem alta cognição e aprendem rápido». Folha de S. Paulo. Consultado em 22 de junho de 2017 
  5. «Behaviorismo - O estudo do comportamento». www.portal-administracao.com. Consultado em 6 de julho de 2017 
  6. «Emotional Competency - Emotion». www.emotionalcompetency.com. Consultado em 27 de julho de 2017 
  7. 1963-, Fox, Elaine, (2008). Emotion science : cognitive and neuroscientific approaches to understanding human emotions. Basingstoke: Palgrave Macmillan. ISBN 9780230005174. OCLC 226212790 
  8. «Classification of Emotions». The Emotion Machine (em inglês). 24 de maio de 2011 
  9. «Animal Minds and Animal Emotions». American Zoologist. 40 (6): 883–888. 1 de dezembro de 2000. ISSN 0003-1569. doi:10.1668/0003-1569(2000)040[0883:AMAAE]2.0.CO;2 
  10. «Behaviorismo - O estudo do comportamento». www.portal-administracao.com. Consultado em 6 de julho de 2017 
  11. Vicaria, Luciana (2016). «Eles têm sentimentos?». Época. Consultado em 6 de julho de 2017 
  12. Versignassi, Alexandre (2016). «O que é o cão de Pavlov?». Mundo estranho.abril. Consultado em 6 de julho de 2017 
  13. Scruton, R, Tyler, A (2001). «Do animals have rights?». The Ecologist. Consultado em 20 de julho de 2017 
  14. Vizachri, Tânia Regina (2010). «Emoções nos animais: uma ponte para a ética?» (PDF). www.ime.usp.br. Consultado em 20 de julho de 2017 
  15. Rapchan, Eliane Sebeika; Neves, Walter Alves (2005). «Chimpanzés não amam! Em defesa do significado». Revista de Antropologia. 48 (2): 649–698. ISSN 0034-7701. doi:10.1590/S0034-77012005000200008 
  16. «Direitos animais». www.portalnossomundo.com. Consultado em 27 de julho de 2017 
  17. Centro Vegetariano (5 de abril de 2005). «Animais têm emoções, revelam estudos». Consultado em 12 de agosto de 2013 
  18. «Jornal The Sunday Times». 27 de Fevereiro de 2005. Consultado em 12 de agosto de 2013 
  19. a b «Emoções nos animais». anda.jor.br. 31 de maio de 2009. Consultado em 12 de agosto de 2013 
  20. Underwood, Emily (2016). «Primitive signs of emotions spotted in sugar-buzzed bumblebees; After a treat, insects appeared to have rosier outlooks» (em inglês). Science News. Consultado em 29 de setembro de 2016 
  21. Vizachri, Tânia Regina (2010). «Emoções nos animais: uma ponte para a ética?» (PDF). www.ime.usp.br. Consultado em 20 de julho de 2017 
  22. a b 1809-1882., Darwin, Charles, ([1965]). The expression of the emotions in man and animals. Chicago,: University of Chicago Press. ISBN 0226136566. OCLC 509580 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • DURHAM, Eunice Ribeiro. Chimpanzés também amam: a linguagem das emoções na ordem dos primatas, 2002.
  • FELIPE, Sônia. O fim da inocência: ética na alimentação.
  • MATURANA, Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política.Belo hotizonte, UFMG, 2005.
  • RAPCHAM, Eliane Sebeika; NEVES, Walter Alves. Chimpanzés não amam! Em defesa do significado. (2005)

References[editar | editar código-fonte]