Fungos dematiáceos

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Fungos negros (na forma de fungo liquenizado) sobre uma pedra calcária.

Fungos dematiáceos, também conhecidos pelos nomes comuns de fungos negros (ou leveduras negras, do inglês black yeast), fungos microcoloniais ou fungos meristemáticos,[1] é a designação genérica dada a um grupo diversificado de microfungos de crescimento lento e reprodução maioritariamente assexuada (fungos imperfeitos), caracterizados por apresentarem pigmentação escura devido à presença de compostos do complexo melanínico na sua parede celular.

Descrição[editar | editar código-fonte]

A designação fungos dematiáceos, pouco significativa do ponto de vista taxonómico por ser claramente polifilética, descreve um grupo diverso de microfungos de crescimento lento que se reproduzem principalmente por esporulação assexuada. Neste grupo alguns géneros foram observados a reproduzirem-se por gemulação, mas a forma preponderante de reprodução é hifal ou meristemática (isodiamétrica).[2][3][4][5]

Apesar da sua diversidade, os fungos dematiáceos partilham múltiplas características distintivas, em particular a melanização das suas paredes celulares. A plasticidade morfológica, a incrustação da parede celular com melaninas e a presença de outras substâncias protectoras, como carotenoides e micosporinas,[6] são adaptações fisiológicas passivas que conferem a estes fungos uma alta resistência contra as pressões ambientais, em particular a exposição à radiação solar em ambientes inóspitos.[7] A presença de 1,8-dihidroxinaftaleno-melanina na parede celular destes fungos[8] resulta numa coloração característica entre o oliváceo, o castanho-escuro e o negro.

O agrupamento compreende pelo menos dois grupos de fungos filogeneticamente muito diferenciados.[9][10] Muitos pertencem às ordens Capnodiales, Dothideales e Pleosporales (classe Dothideomycetes).

A maioria destes fungos tem distribuição natural restrita a habitats com características extremas de radiação solar, secura ou temperatura, podendo por isso ser considerados extremotolerantes ou mesmo extremófilos. Muitos membros deste grupo ocorrem como colonizadores de rochas nuas em regiões de forte insolação, como na bacia do Mediterrâneo e em regiões desérticas (quentes ou frígidas), o que leva a que sejam frequentemente referidos como fungos incrustantes das rochas ou fungos saxícolas.[9][10] Também ocorrem em salinas e outros ambientes halinos caracterizados por forte insolação.[11]

Os fungos dematiáceos, considerados como incluindo os organismos eucarióticos mais resistentes conhecidos,[7] foram pela primeira vez descritos na década de 1980, em três artigos científicos seminais quase concomitantes.[12][13][14]

Os fungos dematiáceos do taxon Chaetothyriales (classe Eurotiomycetes)[9][10] são encontrados em ambientes ricos em hidrocarbonetos em espaços interiores, protegidos mas pobres em nutrientes. Podem também ocorrer como patógenos oportunistas em hospedeiros vertebrados, provocando diversas afecções como cromoblastomicose, feohifomicose e diversas formas de dermatite e de outras doenças cutâneas (entre estes organismo está Exophiala dermatitidis (Wangiella)).[15] Várias espécies ocorrem associadas a líquenes[16][17] e a outros organismos fotótroficos,[18] causando helmintosporiose e antracnose em diversas famílias de plantas, e por vezes associados a formigas em formas específicas de associação mutualista.[19]

Em anos recentes, alguns fungos dematiáceos, como E. dermatitidis ou Hortaea werneckii, atraíram a atenção dos investigadores da área da astrobiologia como microorganismos modelo.[20] Outras áreas de interesse são a utilização destes fungos em biorremediação de ecossistemas poluídos por biofiltração,[21] o estudo dos efeitos da radiação ionizante em áreas contaminadas,[22][23] a biodeterioração de materiais[24][25] e os mecanismos de adaptação a altas concentrações de sal.[11] Um esforço colaborativo coordenado pelo Broad Institute visa sequenciar o genoma de diversos fungos dematiáceos com o objectivo de esclarecer a sua ecologia, filogenia e patogenicidade.

Um artigo científico publicado em 2011 sobre a ocorrência de fungos dematiáceos potencialmente patogénicos em máquinas de lavar louça domésticas[26] foi parcialmente reportado pela comunicação social e teve difusão viral.

Os fungos dematiáceos não apresentam qualquer relação como a espécie comestível Auricularia polytricha.[9][10]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Sterflinger, Katja (2006). «Black Yeasts and Meristematic Fungi: Ecology, Diversity and Identification». In: Rosa, Carlos; Gábor, Péter. Biodiversity and Ecophysiology of Yeasts. The Yeast Handbook [S.l.: s.n.] pp. 501–14. doi:10.1007/3-540-30985-3_20. ISBN 3-540-26100-1. 
  2. Sudhadham, M.; Prakitsin, S.; Sivichai, S.; Chaiyarat, R.; Dorrestein, G. M.; Menken, S.B.J.; De Hoog, G.S. (2008). «The neurotropic black yeast Exophiala dermatitidis has a possible origin in the tropical rain forest». Studies in Mycology [S.l.: s.n.] 61: 145–55. doi:10.3114/sim.2008.61.15. PMC 2610309. PMID 19287537. 
  3. de Hoog, GS; Hermanides-Nijhof, EJ (1977). «The Black Yeasts and Allied Hyphomycetes». Studies in Mycology [S.l.: s.n.] 15: 1–222. OCLC 222951121. 
  4. Butinar, Lorena; Sonjak, Silva; Zalar, Polona; Plemenitaš, Ana; Gunde-Cimerman, Nina (2005). «Melanized halophilic fungi are eukaryotic members of microbial communities in hypersaline waters of solar salterns». Botanica Marina [S.l.: s.n.] 48. doi:10.1515/BOT.2005.007. 
  5. Matos, T; De Hoog, GS; De Boer, AG; De Crom, I; Haase, G (2002). «High prevalence of the neurotrope Exophiala dermatitidis and related oligotrophic black yeasts in sauna facilities». Mycoses [S.l.: s.n.] 45 (9–10): 373–7. doi:10.1046/j.1439-0507.2002.00779.x. PMID 12421284. 
  6. Gorbushina, A.A.; Kotlova, E.R.; Sherstneva, O.A. (2008). «Cellular responses of microcolonial rock fungi to long-term desiccation and subsequent rehydration». Studies in Mycology [S.l.: s.n.] 61: 91–7. doi:10.3114/sim.2008.61.09. PMC 2610304. PMID 19287531. 
  7. a b GostinäAr, Cene; Grube, Martin; De Hoog, Sybren; Zalar, Polona; Gunde-Cimerman, Nina (2010). «Extremotolerance in fungi: Evolution on the edge». FEMS Microbiology Ecology [S.l.: s.n.] 71 (1): 2–11. doi:10.1111/j.1574-6941.2009.00794.x. PMID 19878320. 
  8. Kogej, Tina; Wheeler, Michael H; Lanišnik Rižner, Tea; Gunde-Cimerman, Nina (2004). «Evidence for 1,8-dihydroxynaphthalene melanin in three halophilic black yeasts grown under saline and non-saline conditions». FEMS Microbiology Letters [S.l.: s.n.] 232 (2): 203–9. doi:10.1016/S0378-1097(04)00073-4. PMID 15033240. 
  9. a b c d Gueidan, C.; Villasenor, C. R.; De Hoog, G. S.; Gorbushina, A. A.; Untereiner, W. A.; Lutzoni, F. (2008). «A rock-inhabiting ancestor for mutualistic and pathogen-rich fungal lineages». Studies in Mycology [S.l.: s.n.] 61: 111–9. doi:10.3114/sim.2008.61.11. PMC 2610302. PMID 19287533. 
  10. a b c d Ruibal, C.; Gueidan, C.; Selbmann, L.; Gorbushina, A.A.; Crous, P.W.; Groenewald, J.Z.; Muggia, L.; Grube, M.; Isola, D. (2010). «Phylogeny of rock-inhabiting fungi related to Dothideomycetes». Studies in Mycology [S.l.: s.n.] 64: 123–133S7. doi:10.3114/sim.2009.64.06. PMC 2816969. PMID 20169026. 
  11. a b Plemenitas, A.; Vaupotic, T.; Lenassi, M.; Kogej, T.; Gunde-Cimerman, N. (2008). «Adaptation of extremely halotolerant black yeast Hortaea werneckii to increased osmolarity: A molecular perspective at a glance». Studies in Mycology [S.l.: s.n.] 61: 67–75. doi:10.3114/sim.2008.61.06. PMC 2610308. PMID 19287528. 
  12. Staley, J. T.; Palmer, F.; Adams, J. B. (1982). «Microcolonial Fungi: Common Inhabitants on Desert Rocks?». Science [S.l.: s.n.] 215 (4536): 1093–5. doi:10.1126/science.215.4536.1093. PMID 17771840. 
  13. Krumbein, W. E.; Jens, K. (1981). «Biogenic rock varnishes of the Negev desert (Israel) an ecological study of iron and manganese transformation by cyanobacteria and fungi». Oecologia [S.l.: s.n.] 50: 25. doi:10.1007/BF00378791. 
  14. Friedmann, E. I. (1982). «Endolithic Microorganisms in the Antarctic Cold Desert». Science [S.l.: s.n.] 215 (4536): 1045–53. doi:10.1126/science.215.4536.1045. PMID 17771821. 
  15. de Hoog GS, Guarro J, Gené J, Figueras MJ (2009). Atlas of Clinical Fungi, third ed. Centraalbureau voor Schimmelcultures, Utrecht, The Netherlands.
  16. Muggia, Lucia; Gueidan, Cecile; Knudsen, Kerry; Perlmutter, Gary; Grube, Martin (2012). «The Lichen Connections of Black Fungi». Mycopathologia [S.l.: s.n.] doi:10.1007/s11046-012-9598-8. 
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  19. Voglmayr, Hermann; Mayer, Veronika; Maschwitz, Ulrich; Moog, Joachim; Djieto-Lordon, Champlain; Blatrix, Rumsaïs (2011). «The diversity of ant-associated black yeasts: Insights into a newly discovered world of symbiotic interactions». Fungal Biology [S.l.: s.n.] 115 (10): 1077–91. doi:10.1016/j.funbio.2010.11.006. PMID 21944219. 
  20. Onofri, S.; Barreca, D.; Selbmann, L.; Isola, D.; Rabbow, E.; Horneck, G.; De Vera, J.P.P.; Hatton, J.; Zucconi, L. (2008). «Resistance of Antarctic black fungi and cryptoendolithic communities to simulated space and Martian conditions». Studies in Mycology [S.l.: s.n.] 61: 99–109. doi:10.3114/sim.2008.61.10. PMC 2610303. PMID 19287532. 
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  25. Gorbushina, A. A.; Krumbein, W. E.; Hamman, C. H.; Panina, L.; Soukharjevski, S.; Wollenzien, U. (1993). «Role of black fungi in color change and biodeterioration of antique marbles». Geomicrobiology Journal [S.l.: s.n.] 11 (3–4): 205. doi:10.1080/01490459309377952. 
  26. Zalar, P.; Novak, M.; De Hoog, G.S.; Gunde-Cimerman, N. (2011). «Dishwashers – A man-made ecological niche accommodating human opportunistic fungal pathogens». Fungal Biology [S.l.: s.n.] 115 (10): 997–1007. doi:10.1016/j.funbio.2011.04.007. PMID 21944212. Resumo divulgativoScienceDaily (June 20, 2011). 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]