José Manuel Losada

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José Manuel Losada
Nascimento 31 de maio de 1962 (55 anos)
Flag of Spain.svg Zamora, Espanha
Nacionalidade Espanhola
Alma mater Universidade de Valhadolide
Universidade da Sorbonne
Profissão Professor universitário, teórico literário

José Manuel Losada (Zamora, 1962) é professor e teórico literário especializado nos campos da mitocrítica e literatura comparada, sobre os quais escreveu e editou numerosos livros em espanhol, francês e inglês.

Carreira Académica[editar | editar código-fonte]

Doutor pela Universidade da Sorbona em 1990 e eleito como Diretor de Investigação (HDR) pela Universidade de Nancy II em 1998, José Manuel Losada foi Visiting Scholar na Universidade de Harvard, membro do SCR do St John’s College da Universidade de Oxford, Professor Convidado na Universidade de Montreal e Professor Auxiliar na Universidade de Navarra. Desde 1992, é professor na Universidade Complutense de Madrid, onde dá aulas de literatura francesa, literatura comparada ou literatura e religião. Losada é investigador principal de vários projetos I+D de investigação relacionados com a mitocrítica.

J.M. Losada é o fundador e editor de Amaltea, Revista de Mitocrítica,[1] (2008 –) uma prestigiada revista académica especializada na análise da receção dos mitos antigos, medievais e modernos na literatura e nas artes contemporâneas. É também fundador e presidente de Asteria, Associação Internacional de Mitocrítica,[2] uma associação cultural sem fins lucrativos especializada na promoção da investigação sobre os mitos na literatura e as artes contemporâneas. Além disso, J.M. Losada é fundador e director de Acis, Grupo de Investigação de Mitocrítica,[3] que agrupa a numerosos professores e doutorandos interessados pela análise dos mitos na atualidade a partir de uma visão interdisciplinar. Apoiado pelos membros destas entidades, Losada coordenou numerosos congressos internacionais,[4] atividades de divulgação (“Passeios Mitológicos” durante a Semana da Ciência de Madrid)[5][6] e concursos de criação plástica e mitológica.[7]

A sua produção académica inclui vinte livros especializados e mais de duzentos artigos publicados em livros e revistas científicas.

Mitocrítica Cultural[editar | editar código-fonte]

Losada define o mito da seguinte forma:

O mito é um relato explicativo, simbólico e dinâmico, de um ou vários acontecimentos extraordinários pessoais com referente transcendente, que carece em princípio de demonstração histórica, compõe-se de uma série de elementos invariáveis reduzidos a temas e submetidos a crises, apresenta um carácter conflitivo, emotivo, funcional, ritual e remite sempre a uma cosmogonia ou a uma escatologia absolutas, particulares ou universais.[8]

Este conceito expansivo e sincrético do mito permite ao crítico elaborar inovadoras análises e sínteses dos relatos míticos e os seus diversos processos. A mitocrítica (termo criado por Gilbert Durand) é o estudo dos mitos; a maior contribuição que Losada fez para a teoria literária diz respeito à atualização destes estudos mitocríticos ao que ele chama de “mitocrítica cultural”. Sem perder de vista as conquistas do passado, esta “nova mitocrítica” deve desenvolver uma epistemologia que permita apreender e explicar uma realidad imaginária global, orientada a uma maior compreensão da cultura atual. Esta disciplina resulta das principais premissas hermenêuticas assumidas por J. M. Losada:

  1. Só é possível fazer autêntica mitocrítica à margem de preconceitos ideológicos.
  2. A mitocrítica exige a aceitação prévia de uma definição do mito em cada estudo particular.
  3. A erudição sem razão e a especulação alheia ao texto perturbam a mitocrítica.
  4. A catalogação de cada mito numa tipologia mitocrítica é garantia de uma definição coerente.
  5. Qualquer estudo de um mito deve ser, necessariamente, de natureza interdisciplinar.[9][10]

Como consequência desta última premissa, a mitocrítica, sem abandonar a análise do imaginário simbólico, invade qualquer manifestação cultural. Esta nova mitocrítica encarga-se de estudar as manifestações míticas em campos tão amplos como o da literatura, o cinema e a televisão, o teatro, a escultura, a pintura, os videojogos, a música, a dança, o jornalismo, a Internet e os demais meios de manifestação cultural e artística:

A mitocrítica, disciplina que estuda os mitos (a mitologia contém-nos, como um panteão as suas estátuas), é, por natureza, interdisciplinar: une as contribuições da teoria literária, da história da literatura, das belas artes e dos novos meios de difusão na era da comunicação. Igualmente, aborda o seu objeto de estudo desde a sua inter-relação com outras ciências humanas e sociais, de maneira particular a sociologia, a antropologia e a economia. Justifica-se então a necessidade de uma aproximação, de uma metodologia que permita compreender a complexidade do mito e as suas manifestações na época contemporânea.[11]

A mitocrítica cultural demonstrou-se particularmente apta para a análise dos mitos na época contemporânea, cujo estudo difere consideravelmente do realizado até à atualidade. Losada distingue três fatores ou “lógicas” principais que a mitocrítica cultural deve ter em conta para poder realizar uma análise apropriada dos mitos nas manifestações culturais contemporâneas: a lógica da globalização, a lógica da imanência e a lógica do consumo. Estes três fatores modificam o carácter tradicional dos mitos e devem ser analisados com atenção tanto para compreender a epifania mítica atual como a cultura contemporânea.

Globalização Social[editar | editar código-fonte]

A globalização e, particularmente, a lógica da globalização, sem a qual é impossível conceber o mundo contemporâneo, afetou significativamente a mitologia. Por isso a mitocrítica cultural deve partir de duas realidades inquestionáveis: a primeira, que os novos suportes tecnológicos estão acessíveis ao público em geral; a segunda, que os mitos tradicionais evoluíram e, consequentemente, requerem uma análise desde as novas perspectivas. As adaptações e reescrituras dos mitos tradicionais, assim como a criação de novos mitos, exigem ampliar as perspectivas do investigador até as adaptar ao mundo globalizado. A mitocrítica deve ter em conta que as tecnologias da informação contribuem com uma nova cosmovisão e estão altamente implicadas na produção de ideologias que reconfiguram tanto a percepção como a criação de literatura e arte.

Lógica da Imanência[editar | editar código-fonte]

Tradicionalmente, todas as religiões incorporaram mitos que, da mesma forma que a sua mensagem e a sua doutrina, estavam relacionados com o conceito de transcendência. O mito utilizava-se para transmitir uma série de valores culturais, sociais, políticos ou éticos; a tarefa da mitocrítica é criar as ferramentas apropriadas para compreender a transcendência associada a cada mito. O contexto cultural mudou consideravelmente, de maneira particular desde o século XX. Na atualidade, diz Losada, “a cosmovisão imanente – aceitação tácita de um horizonte intranscedente no imaginário individual e coletivo – é maioritária na sociedade ocidental contemporânea.” [12]

Os mitos modernos – como os mitos antigos e medievais com os seus respectivos tempos – interatuam com os tempos modernos; cada um é herdeiro do seu tempo. Dado que não há mito sem transcendência, nem modernidade sem questionamento da transcendência, o conflito é inexorável. Por isso a mitocrítica hoje não pode ignorar a tensão de vetores que se atraem ou se repelem: a transcendência tradicional do mito, a multiforme modernidade opõe a imanência absoluta, a imanência relativa, a transcendência imanente e transcendência sagrada.[13]

É função da mitocrítica cultural explorar todas as derivações ideológicas que a imanência contemporânea projeta sobre a transcendência tradicional. O conceito de imanência deve ser tido em conta para poder analisar as novas forma do mito. Em consonânsia com esta mudança de paradigma ideológico, as reescrituras dos relatos míticos são maioritariamente subversivas. [14]

Lógica do Consumo[editar | editar código-fonte]

A relação entre a sociedade consumista e o seu impacto nos temas míticos parte de uma fato: o mito converteu-se num produto de consumo, inclusivé uma mercadoria básica e genérica destinada ao uso comercial, sujeita às leis de oferta e procura. Losada explica como as companhias publicitárias tratam de relacionar os seus produtos a mitos culturais que transmitem valores desejáveis. Uma característica inerente a esta sociedade de consumo é a natureza efêmera das personagens célebres e objetos submetidos a uma “processo de mitificação”, ou seja, dos novos mitos. Isto afeta significativamente as estrelas de música ou cinema, as quais ocasionalmente se envolvem numa aura de excepcionalidade somente para a perderem depois com a mesma rapidez com que a adquiriram. [15]

Obras Destacadas[editar | editar código-fonte]

Livros[editar | editar código-fonte]

  • 1993: Tirso, Molière, Pouchkine, Lenau. Analyses et synthèses sur un mythe littéraire. Editado com Pierre Brunel, París, Klincksieck. ISBN 2252029390.
  • 1997: Bibliography of the Myth of Don Juan in Literary History, José Manuel Losada ed. Lexington (NY): Edwin Mellen. ISBN 0773484507.
  • 1999: Bibliographie critique de la littérature espagnole en France au XVIIe siècle. Présence et influence, Ginebra (Suiza): Droz. ISBN 2600003134.
  • 2010: Métamorphoses du roman français. Avatars d’un genre dévorateur, José Manuel Losada ed. Lovaina (Bélgica): Peeters. ISBN 9789042922013.
  • 2010: Mito y mundo contemporáneo. La recepción de los mitos antiguos, medievales y modernos en la literatura contemporánea. Bari (Italia): Levante Editori. ISBN 9788879495479.
  • 2012: Myth and Subversion in the Contemporary Novel. Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing. Editado com Marta Guirao. ISBN 1443837466.
  • 2013: Mito e interdisciplinariedad. Los mitos antiguos, medievales y modernos en la literatura y las artes contemporáneas. Bari (Italia): Levante Editori. Editado com Antonella Lipscomb. ISBN 9788879496230.
  • 2014: Abordajes. Mitos y reflexiones sobre el mar. José Manuel Losada ed., Madrid: Instituto Español de Oceanografía. ISBN 9788495877512.
  • 2014: Victor Hugo et l’Espagne. L’imaginaire hispanique dans l’œuvre poétique. Com a colaboração de André Labertit, París, Honoré Champion. ISBN 9782745326980.
  • 2015: Myths in Crisis: The Crisis of Myth. Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing. Editado con Antonella Lipscomb. ISBN 9781443878142.
  • 2015: Nuevas formas del mito, José Manuel Losada ed. Berlín: Logos Verlag. ISBN 9783832540401.
  • 2016: Mitos de hoy. Ensayos de mitocrítica cultural, José Manuel Losada ed., Berlín, Logos Verlag. ISBN 9783832542399.

Artigos[editar | editar código-fonte]

  • 1989. “Calderón de la Barca: El laurel de Apolo”. Revista de Literatura (Madrid), 51: 485-494. ISSN 0034849X.
  • 2004: “The Myth of the Fallen Angel. Its Theosophy in Scandinavian, English, and French Literature”. Nonfictional Romantic Prose. Expanding Borders, Steven P. Sondrup & Virgil Nemoianu eds. Amsterdam / Philadelphia (PA): John Benjamins: 433-457. DOI: 10.1075/chlel.xviii.34los. ISBN 9027234515.
  • 2008: “Victor Hugo et le mythe de Don Juan”, Don Juans insolites, Pierre Brunel ed. París : Presses de l’Université Paris-Sorbonne: 79-86. ISBN 9782840505679.
  • 2009: “La nature mythique du Graal dans Le Conte du Graal de Chrétien de Troyes”. Cahiers de Civilisation Médiévale (Poitiers), 52,1 (2009): 3-20. ISSN 00079731.
  • 2014: “Myth and Extraordinary Event”. International Journal of Language and Literature. New York: pp. 31 – 55. Link
  • 2015: “Myth and Origins: Men Want to Know”, Journal of Literature and Art Studies. New York, vol. 5, nº 10, pp. 930-945. ISSN 2159-5836 (print) ISSN 2159-5844 (online). Link


Referências

  1. «Amaltea, revista de mitocrítica». Consultado em 11 de agosto de 2015 
  2. «Asteria, asociación internacional de mitocrítica» (em espanhol). Consultado em 11 de agosto de 2015 
  3. «Acis, grupo de investigación de mitocrítica». Consultado em 11 de agosto de 2015 
  4. «Congresos internacionales de mitocrítica realizados hasta la fecha» (em espanhol). Consultado em 11 de agosto de 2015 
  5. «Acercándonos a los mitos a través de la iconografía urbana: de Cibeles a Colón» (em espanhol). Consultado em 11 de agosto de 2015 
  6. Jusuy Rodríguez, Sara (10 de enero de 2011). «El Olimpo está en el Prado» (pdf) (em espanhol) (683). pp. 2–3. Consultado em 11 de agosto de 2015  Verifique data em: |data= (ajuda)
  7. «II Certamen internacional de creación plástica y mitológica» (em espanhol). Consultado em 11 de agosto de 2015 
  8. Losada, José Manuel (2012). «La tríada subversiva: un acercamiento teórico». In: J.M. Losada; M. Guirao. Myth and Subversion in the Contemporary Novel (em inglés e espanhol). Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing. p. 9. ISBN 1-4438-3746-6 
  9. Losada, José Manuel (2010). «Por una mitocrítica abierta: teoría, método y significado». In: J.M. Losada. Mito y mundo contemporáneo (em espanhol). Bari: Levante Editori. pp. 9–24. ISBN 978-88-7949-547-9 
  10. Losada, José Manuel (2015). «Tipología de los mitos modernos». In: J.M. Losada. Nuevas formas del mito (em espanhol). Berlín: Logos Verlag. pp. 187–221. ISBN 978-3-8325-4040-1 
  11. Losada, José Manuel (2015). «Mitocrítica y metodología». In: J.M. Losada. Nuevas formas del mito (em espanhol). Berlín: Logos Verlag. p. 9. ISBN 978-3-8325-4040-1 
  12. Losada, José Manuel (2015). «Mitocrítica y metodología». In: J.M. Losada. Nuevas formas del mito (em espanhol). Berlín: Logos Verlag. p. 12. ISBN 978-3-8325-4040-1 
  13. Losada, José Manuel (2015). «Tipología de los mitos modernos». In: J.M. Losada. Nuevas formas del mito (em espanhol). Berlín: Logos Verlag. p. 189. ISBN 978-3-8325-4040-1 
  14. Losada, José Manuel; Guirao, Marta, eds. (2012). Myth and Subversion in the Contemporary Novel (em inglés e espanhol). Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing. ISBN 1-4438-3746-6 
  15. Losada, José Manuel (2010). «Mito moderno y proceso de mitificación». In: J.M. Losada. Mito y mundo contemporáneo (em espanhol). Bari: Levante Editori. pp. 559–578. ISBN 978-88-7949-547-9