Kursk (K-141)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Kursk (submarino))
Kursk
 Rússia
Operador Marinha da Rússia
Fabricante Sevmash
Homônimo Batalha de Kursk
Batimento de quilha 22 de março de 1990
Lançamento 16 de maio de 1994
Comissionamento 30 de dezembro de 1994
Identificação K-141
Estado Parcialmente desmontado;
proa naufragada e destruída
Destino Afundou por explosões internas
em 12 de agosto de 2000
Características gerais
Tipo de navio Submarino de mísseis de cruzeiro
Classe Oscar II (Projeto 949A Antei)
Deslocamento 24 000 t (submerso)
Maquinário 2 reatores nucleares
2 turbinas a vapor
Comprimento 154 m
Boca 18,2 m
Calado 9 m
Propulsão 2 hélices
- 90 000 cv (66 200 kW)
Velocidade 32 nós (59 km/h) (submerso)
Profundidade 300 a 600 m
Armamento 24 mísseis P-700 Granit
2 a 4 tubos de torpedos de 650 mm
4 tubos de torpedo de 533 mm
Tripulação 118

O Kursk (Курск) foi um submarino de mísseis de cruzeiro operado pela Marinha da Rússia e a décima primeira embarcação da Classe Oscar II. Sua construção começou em março de 1990 nos estaleiros da Sevmash e foi lançado ao mar em maio de 1994, sendo comissionado na frota russa em dezembro do mesmo ano. Era armado com 24 mísseis de cruzeiro P-700 Granit e vários tubos de torpedos de 650 e 533 milímetros, tinha um deslocamento de mais de 24 mil toneladas e conseguia alcançar uma velocidade máxima de 32 nós na superfície e dezesseis nós submerso.

O Kursk foi designado para servir na Frota do Norte, porém pouco atuou pelos seus primeiros cinco anos de serviço devido a uma escassez de combustível e dinheiro na Rússia pós-fim da União Soviética. Suas atividades no período consistiram em apenas algumas viagens de treinamento. A primeira e única missão da embarcação ocorreu em meados de 1999, quando foi enviada por seis meses para o Oceano Atlântico e Mar Mediterrâneo com o objetivo de monitorar as operações da Sexta Frota dos Estados Unidos durante uma intervenção militar na Iugoslávia por parte da OTAN.

O navio afundou em 12 de agosto de 2000 no Mar de Barents durante um grande exercício junto com a frota, quando torpedos na sua proa detonaram acidentalmente devido a um vazamento de peróxido de hidrogênio. Atrasos no reconhecimento da ocorrência de um acidente e início de operações de busca, equipamentos obsoletos e recusa de ajuda internacional impediram a localização rápida do Kursk e resgate de sobreviventes. A resposta da marinha e do governo foram muito criticadas. Seus destroços foram recuperados em outubro de 2001 e desmontados.

Características[editar | editar código-fonte]

Desenho da Classe Oscar II

A Classe Oscar II, designada pelos soviéticos como Projeto 949A Antei, foi projetada pelo Escritório de Projetos Rubin. A principal diferença em relação à Classe Oscar I, ou Projeto 949 Granit, era adição de uma seção atrás da torre de comando.[1] Esta tinha a intenção de modificar a sala de máquinas ao adicionar um sistema de silenciamento em massa e um sonar MGK-540 aprimorado.[1][2] A insonorização adicional permitiu que a Classe Oscar II fosse muito mais silenciosa que submarinos soviéticos anteriores, porém ao custo de um aumento de 1,3 mil toneladas de deslocamento.[2]

O Kursk tinha um comprimento de fora a fora de 154 metros, boca de 18,2 metros e calado de nove metros quando navegando na superfície. Seu deslocamento na superfície era de aproximadamente 14,7 mil toneladas, enquanto o deslocamento submerso chegava a por volta de 24 mil toneladas.[3] Tinha um casco duplo dividido em nove compartimentos interconectados e normalmente acessíveis, com exceção do sexto, onde ficavam os reatores nuclares, que eram acessados apenas por um corredor especial antirradiação.[2] O casco externo era feito de chapas de aço com oito milímetros de espessura, que por sua vez eram apoiadas por um casco cilíndrico rígido interno feito de chapas de cinquenta milímetros. O espaço entre os dois cascos variava de um a quatro metros, dependendo da localização.[4] Todo o casco externo era coberto com placas de revestimento anecóico de borracha, o que reduzia os sons vindos de dentro da embarcação e dispersavam a onda acústica que podia ser captada por um sonar inimigo.[5]

O submarino era equipado com dois reatores nucleares de água pressurizada OK-650b que proporcionavam o vapor necessário para movimentar duas turbinas a vapor, cada uma girando uma hélice de sete lâminas. Este sistema produzia um total de noventa mil cavalos-vapor (66,2 mil quilowatts) de potência, suficiente para uma velocidade máxima de dezesseis nós (trinta quilômetros por hora) na superfície e 32 nós (59 quilômetros por hora) submerso.[3] Cada reator ficava em um compartimento próprio e selado. O invólucro pressurizado ficava alojado em um tanque de absorção com 25 metros cúbicos cheio de água e montado sobre uma base de amortecimento de vibração para absorver choques de explosões próximas do navio. O combustível consistia em elementos anulares de cermet de urânio-alumínio ou um tipo dispersado em zircônio envolto em vinte a 45 por cento de urânio enriquecido em 48 conjuntos, totalizando duzentos quilogramas para cada reator. Havia um sistema de desligamento de emergência por meio da inserção de hastes de controle. Como medida final de segurança, todo o compartimento dos reatores podia ser inundado com água por meio de válvulas especiais.[4]

O Kursk tinha a intenção de combater navios de superfície inimigos, especialmente porta-aviões.[2] Para isso, foi armado com 24 mísseis de cruzeiro antinavio P-700 Granit transportados em silos rígidos localizados na parte central da embarcação em ambas as laterais da torre de comando com doze de cada lado, ficando inclinados em quarenta graus.[6] Também levava consigo um carregamento de 24 torpedos. Haviam quatro tubos de torpedo de 533 milímetros na proa e dois ou quatro tubos de torpedo de 650 milímetros também, dependendo da fonte.[2][6][7] Desses tubos de torpedo também era possível disparar mísseis antissubmarino RPK-2 Wjuga e RPK-6 Wodopad.[1]

História[editar | editar código-fonte]

O batimento de quilha do submarino ocorreu em 22 de março de 1990 nos estaleiros da Sevmash em Severodvinsk, em Arcangel. Foi originalmente chamado K-141, mas foi renomeado em 6 de abril de 1993 para Kursk em homenagem à Batalha de Kursk na Segunda Guerra Mundial. Foi lançado ao mar em 16 de maio de 1994 e comissionado na Frota do Norte da Marinha da Rússia em 30 de dezembro do mesmo ano.[3][8] O navio pouco atuou nos anos após sua entrada em serviço devido à uma escassez de combustível causada pela situação econômica ruim da Rússia no período pós-fim da União Soviética, partindo apenas para cruzeiros de treinamento.[9] Consequentemente, sua tripulação passou pouquíssimo tempo no mar e era inexperiente.[10] Sua única missão ocorreu em 1999, quando foi enviado durante seis meses para o Oceano Atlântico e depois Mar Mediterrâneo com o objetivo de monitorar as operações da Sexta Frota dos Estados Unidos durante uma intervenção militar na Iugoslávia por parte da OTAN.[9]

Acidente[editar | editar código-fonte]

Kursk está localizado em: Distrito Federal do Noroeste
Kursk
Localização do acidente do Kursk

O Kursk deixou sua base em 10 de agosto de 2000 com uma tripulação de 118 homens e seguiu para exercícios no Mar de Barents, ao leste da Península de Rybachy, aproximadamente 135 quilômetros de Severomorsk e duzentos quilômetros de Murmansk. A área foi designada como campo de tiros de torpedo durante exercícios que seriam realizados por trinta navios da Frota do Norte.[7][11]

Dois dias depois, durante os exercícios, uma explosão ocorreu na proa do Kursk às 11h29min (7h29min UTC) enquanto ele estava se preparando para lançar dois torpedos a uma profundidade de periscópio.[2] Uma segunda explosão muito maior ocorreu 135 segundos depois da primeira, sendo registrada por uma estação sismológica na Noruega com uma magnitude entre 3 e 3,5 na escala Richter. Essas explosões abriram um buraco de dez por oito metros no casco interno e causaram uma onda de choque que percorreu todo o comprimento do submarino até a popa, quebrando a segunda e terceira anteparas estruturais estanques e deformando a quarta. Estas acabaram ruindo sob a pressão hidrostática da água, inundando o interior do Kursk.[11] As outras anteparas até a última permaneceram intactas. A enorme quantidade de água que entrou no submarino o deixou com uma flutuabilidade negativa e o fez afundar imediatamente até acomodar-se no fundo do mar a uma profundidade de 108 metros.[7] Seus destroços ficaram com um adernamento de dois graus para frente e 1,5 grau para bombordo.[11]

A maior parte dos estilhaços e pedaços arrancados do submarino caíram de vinte a trina metros a bombordo. A condição do casco interno indicava que a onda de choque da segunda explosão foi direcionada de dentro do navio para cima e bombordo.[12]

Sobreviventes[editar | editar código-fonte]

"Aqui está escuro para escrever, mas vou tentar por tato. Parece que não há chances reais, 10–20%. Espero que pelo menos alguém leia isto. Aqui está uma lista de pessoal de outras seções que agora estão na nona e vão tentar escapar. Saudações a todos, não há necessidade de desespero."

Capitão-tenente Dmitri Kolesnikov[13]

A primeira explosão provavelmente matou todos os tripulantes nos compartimentos dianteiros, enquanto a onda de choque da segunda matou os restantes, com a exceção de 23 que trabalhavam nas seções dos reatores nucleares e salas de máquinas, no sétimo, oitavo e nono compartimentos. Eles conseguiram se refugiar no último compartimento.[12] Um desses sobreviventes foi o capitão-tenente Dmitri Kolesnikov, que conseguiu escrever bilhetes contando sobre a situação no compartimento.[13]

Não se sabe por quanto tempo os tripulantes reunidos no último compartimento conseguiram sobreviver, mas estimativas são de aproximadamente entre duas a três horas baseadas nas condições difíceis pós-acidente e nas reservas de oxigênio. Verificou-se na posteriores autópsias que os corpos de três homens apresentavam vestígios de queimaduras químicas, enquanto o nono compartimento em si estava cheio de água e coberto de cinzas e poeira. A origem das queimaduras nunca foi estabelecida oficialmente, mas acredita-se que os três estavam tentando recarregar o sistema de geração de oxigênio quando acidentalmente derrubaram um cartuxo de superóxido na água, seja pela fadiga, escuridão ou estresse, causando uma explosão.[12]

Ações de resgate[editar | editar código-fonte]

As autoridades da Rússia só aceitaram a ajuda dos noruegueses e britânicos quatro dias depois do acidente. O fato mais constrangedor ao Governo Russo foi ver os homens-rãs ocidentais, com roupas especiais e descendo em “sinos” (equipamentos de resgate), realizar a operação de descida e abertura das escotilhas em menos de um dia. A justificativa da Marinha Russa era a necessidade de se preservarem os segredos militares do submarino nuclear. O governador da província de Kursk, Alexander Rutskoi, disse que o motivo pelo qual os russos não queriam ninguém no fundo do mar Barents era o teste de um novo tipo de míssil, que segundo informações ainda permanecia nele.

Na segunda-feira, 21 de Agosto, às 07.45 da manhã, quatro mergulhadores noruegueses da empresa Stolt Comex Seaway conseguiram abrir a primeira escotilha do submarino. Os homens-rãs deparam-se com o cenário mais temido. “Todos os compartimentos estão inundados e nenhum membro da tripulação sobreviveu”, declarou o vice-almirante russo Mikhail Motsak.

Causas[editar | editar código-fonte]

O governo russo anunciou em 1º de julho de 2002 que a causa do naufrágio foi a explosão de um torpedo.[14] Durante o exercício, um torpedo Tipo 65-76A número de série 298A 1336A PW sofreu um vazamento de peróxido de hidrogênio altamente concentrado chamado de peróxido de alto teste, que era usado como oxidante para o combustível do torpedo.[2][15] Este peróxido entrou em contato com o querosene do torpedo, causando a primeira explosão.[15] Normalmente, uma explosão de um torpedo dentro de um tubo de torpedo não teria consequências fatais, pois com a tampa do tubo fechada o casco interno seria capaz por conta própria de absorver a onda de choque.[11] Entretanto, entre o primeiro e segundo compartimentos havia uma válvula de pressurização que era normalmente deixada aberta para minimizar mudanças de pressão durante lançamentos, o que provavelmente permitiu que a onda de choque e talvez fogo e gases tóxicos entrassem nos compartimentos seguintes.[16] Registros de sonar do cruzador de batalha Pyotr Velikiy, que estava próximo do Kursk no momento do acidente, indicam que provavelmente houve um incêndio e vazamento de propelente no compartimento de torpedos.[11] A versão oficial do governo russo afirma que o vazamento inicial do peróxido foi causado por microporos nas soldas do torpedo, culpando assim seu fabricante, a Dagdizel.[14] A segunda explosão foi na verdade uma série de cinco a sete explosões em sequência que ocorreram durante um espaço de apenas meio segundo. A força total dessa explosão em cadeia foi estimada entre duas e três toneladas de trinitrotolueno e muito provavelmente ocorreu pela detonação de até sete ogivas dos torpedos na sala de torpedos.[11]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c Polmar 1990, p. 308
  2. a b c d e f g Polmar 2003, pp. 278–291
  3. a b c «Project 949 / Oscar». Federação de Cientistas Americanos. Consultado em 3 de março de 2023 
  4. a b Davidson, Jones & Large 2003, p. 4
  5. Zimmerman 2000, pp. 103–104
  6. a b Davidson, Jones & Large 2003, p. 5
  7. a b c Branfill-Cook 2014, pp. 231–232
  8. «"Курск": 15 лет со дня гибели». ТАСС. 15 de agosto de 2015. Consultado em 3 de março de 2023 
  9. a b Underwood 2005, p. 215
  10. Barany 2007, p. 32
  11. a b c d e f Davidson, Jones & Large 2003, pp. 1–3
  12. a b c Davidson, Jones & Large 2003, p. 3
  13. a b «Russia Publishes "Kursk" Sailor's Death Note». People's Daily. 3 de novembro de 2000. Consultado em 4 de março de 2023 
  14. a b Jędrusik 2017, p. 62
  15. a b Branfill-Cook 2014, pp. 71–74
  16. Underwood 2005, pp. 216–220

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Barany, Zoltan (2007). Democratic Breakdown and the Decline of the Russian Military. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-1-4008-2804-3 
  • Branfill-Cook, Roger (2014). Torpedo: The Complete History of the World’s Most Revolutionary Naval Weapon. [S.l.]: Seaforth Publishing. ISBN 978-1-84832-215-8 
  • Davidson, Peter; Jones, Huw; Large, John H. (outubro de 2003). «The Nuclear Hazards of the Recovery of the Nuclear Powered Submarine Kursk» (PDF). Sociedade de Arquitetos Navais e Engenheiros Marítimos. World Maritime Technology Conference, San Francisco. Arquivado do original (PDF) em 6 de fevereiro de 2012 
  • Jędrusik, Ryszard (2017). «Tragedia Kurska po latach. Wyniki niezależnego śledztwa». Statki i Okręty. XXI (181). ISSN 1426-529X 
  • Polmar; Norman (1990). Submarines Of The Russian and Soviet Navies, 1718-1990. Annapolis: Naval Institute Press. ISBN 0-87021-570-1 
  • Polmar; Norman (2003). Cold War Submarines, The Design and Construction of U.S. and Soviet Submarines. Washington: Potomac Books. ISBN 1-57488-530-8 
  • Underwood, Lamar (2005). The Greatest Submarine Stories Ever Told: Dive! Dive! Fourteen Unforgettable Stories from the Deep. Guilford: Lyons Press. ISBN 978-1-5922-8733-8 
  • Zimmerman, Stan (2000). Submarine Technology for the 21st Century. Victoria: Trafford Publishing. ISBN 1-55212-330-8 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]