Laghman (província)

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Laghman
لغمان
Capital Metarlam[1]
População 631 600[1] habitantes
Censo 2012/2013
Área 3.842,6 km²
Densidade (2000) 97,07 hab/km²
Mapa
Afghanistan-Laghman.png

Laghman ou Lagman[2] (em persa: لغمان; transl.: Laghmān), historicamente também referida como Lamghan[3] (e suas variações Langhan,[4] ou Lamgan[5] ) e Lamghanat[6] (ou Langhanat,[7] Lamganat[2] ), é uma das 34 províncias do Afeganistão, localizada na porção oriental do país. Possui uma população multiétnica e rural estimada em 631 600 indivíduos segundo censo de 2012/2013. Sua capital é a cidade de Metarlam.[1]

História[editar | editar código-fonte]

A história de Lagman remonta desde ao menos a Antiguidade. Localizadas atualmente no Museu de Cabul, há inscrições em aramaico encontradas na província que indicam uma antiga rota comercial ligando o subcontinente indiano à Palmira, na Síria.[8] O aramaico era uma língua escrita burocrática do Império Aquemênida (séculos VI-IV a.C.), cuja influência estendeu-se para além de Lagman.[9] No século IV a.C., durante as invasões de Alexandre, o Grande, a área era conhecida como Lampaca ou Lampaka.[10]

Inscrições em aramaico datando do Império Máuria (séculos IV-II a.C.) foram encontradas em Lagman; nelas está contida informação sobre a conversão do imperador Asoca, o Grande (r. 273–232 a.C.) ao budismo.[11] No século VII d.C., o peregrino chinês Xuanzang visitou Lagman, que ele chamou Lan-p'o e considerou parte da Índia. Ele indicou a presenta de budistas maaiana e numerosos hindus:

Por vários séculos a dinastia nativa tinha deixado de existir, grandes famílias lutaram pela proeminência, e o Estado recentemente tornou-se uma dependência de Capis[a]. O país produzia arroz de terras altas e cana de açúcar, e tinha muita madeira, mas pouca fruta; o clima era ameno com pouca geada e neve alguma. [...] Havia aproximadamente 10 santuários budistas e alguns irmãos, muitos dos quais eram maaianistas. Os não-budistas tem um núcleo ou dois de templos e eles eram muito numerosos.[12]

Pelo século X, Lagman ainda esteve conectada ao mundo indiano. A obra Os Limites do Mundo (Hudud al-'alam), concluída em 982, menciona a presença de alguns templos de culto a ídolos na área.[13] [14] Segundo o historiador muçulmanos al-Utbi, a região foi convertida ao islamismo pelo fim do século X sob o Império Gaznévida, sob liderança de Sabuktigin (r. 977–997):

O emir marchou em direção a Lagman, que é uma cidade celebrada por sua grande força e abundância em riqueza. Ele conquistou-a e ateou fogo aos locais nas suas proximidades que eram habitados por infiéis, e demoliu os templos dos ídolos, ele estabeleceu o islã neles, ele marchou e capturou outras cidades e matou os desgraçados poluídos, destruindo os idólatras e louvando os muçulmanos. Após ferir e matar além de qualquer medida, suas mãos e aquelas de seus amigos tornaram-se frias na contagem do valor da propriedade saqueada. Sob a conclusão de sua conquista, ele retornou e promulgou relatos das vitórias obtidas ao islã, e todos, grandes e pequenos, concordaram em regozijo sobre este resultado e agradeceram Deus. [15]

Sabuktigin então teria vencido uma de suas maiores batalhas na região de Lagman contra os xaías de Cabul cujo governante, Jaiapala , agrupara um exército combatente de 100 000 soldados.[16] Apesar destas vitórias, sabe-se que as comunidades incrédulas na concepção islâmica (cafires), de modo a fugir à pressão muçulmana, partiriam para leste em direção as terras altas dos vales de Lagman, Cunar, Bajaur, etc. Mais adiante, Mahmud de Gázni (r. 997/998–1030), o terceiro sultão gaznévida, tentaria subjugar estas concentrações cafires, sendo portanto o primeiro monarca muçulmano a pressioná-lo à conversão, porém não obteria sucesso: Mahmud invadiu 17 vezes a Índia, sem conseguir, contudo, a subjugação dos cafires.[17]

Mais adiante, a região seria dominada pelo Sultanato Gúrida (séculos IX-XIII)[18] e então pela dinastia Chalji do Sultanato de Déli (séculos XIII-XIV) e o Império Timúrida (séculos XIV-XVI). No século XV, sob o imperador timúrida Tamerlão (r. 1370–1405) e os monarcas muçulmanos do Turquestão, novas tentativas mal-sucedidas de subjugação dos cafires foram realizadas.[17] Durante os primeiros anos do século XVI, o mogol Babur (r. 1526–1530) ocupou boa parte de seu tempo em Lagman, e no Baburnama (Memórias de Babur) ele discorreu sobre a beleza das colinas florestadas e a fertilidade do fundo dos vales da região.[13] No tempo que ali esteve, Babur teve um breve encontro com os cafires co vale de Cunar.[17]

Lagman foi reconhecida como um distrito dependente do Cabulistão no Império Mogol, e segundo o Baburnama, a "Grande Lagman" incluía a porção muçulmana do Cafiristão, inclusive o rio Cunar. Ela foi a base para expedições contra os infiéis e foi frequentemente mencionados em relatos de jiades lideradas pelo jovem irmão do imperador mogol Acbar, o Grande (r. 1556–1605), Maomé Haquim, que era governador de Cabul.[13] Sob Acbar e seu sucessor Jahangir (r. 1605–1627), os cafires de Tagao, Nijrao, Pech, Conar e Lagman foram convertidos ao islamismo.[19] Em 1747, Amad Xá Durrani (r. 1743–1773) derrotou os mogóis e fez esse território parte do Império Durrani.[20]

Nos anos 1880 são registradas revoltas em várias porções de Lagman: em 1882 na cidade de Farajgan, em 1883 no vale de Alichang e 1885 nas cidades de Vaigal, Culman e Sao.[21] Em 1895-1896, o Cafiristão é invadido e conquistado pelos emir afegão Abd-ur-Rahman (r. 1880–1901), que forçou os cafires remanescentes dos nuristani a aceitarem os islã.[22] Em 20 de fevereiro de 1919, o emir Abibulá Cã (r. 1901–1919) seria assassinado em Lagman durante uma viagem de caça.[23] Durante a Guerra Afegã de 1979-1989 e as batalhas que se seguiram entre os chefes militares rivais, muitas residências e negócios estabelecidos na província foram destruídos. Além disso, diz-se que os soviéticos teriam empregado uma estratégia de mirar e destruir a infraestrutura agricultural de Lagman para, assim, fragilizar a economia local.[24]

Geografia[editar | editar código-fonte]

A província de Lagman cobre uma área de 3 408 km2. Aproximados 55% de seu relevo é dominado por uma paisagem montanhosa ou semi-montanhosa, enquanto os demais 45% são representados por terras planas. A província é dividida em 5 distritos (Alingar, Aliching, Dawlat Shah, Metarlam e Qarghayi) e faz divida com outras seis províncias afegãs: Nangarar ao sul, Cunar a leste, Nuristão a nordeste, Panjshir a noroeste, Capisa a oeste e Cabul a sudoeste.[22]

Referências

  1. a b c Settled Population of Laghman province by Civil Division , Urban, Rural and Sex-2012-13 (em inglês). Visitado em 20-08-2015.
  2. a b Kurumu 1944, p. 370
  3. Sen 1999, p. 342
  4. Kumar 2008, p. 126
  5. Chandra 2008, p. 119
  6. Dale 2004, p. 189
  7. Mubārak 1977, p. 670
  8. Rahel 1975, p. 14
  9. Casparis, J. G. De. Ashoka (em inglês). Visitado em 20-08-2015.
  10. Henning 1949, p. 80-88
  11. Behrendt 2004, p. 39
  12. Watters 1904, p. 180-181
  13. a b c Schimmel 1982, p. 649
  14. Bosworth 1986, p. 649
  15. Elliot 1869, p. 22
  16. Elphinstone 1866, p. 321
  17. a b c Kakar 2006, p. 149
  18. Flood 2009, p. 13
  19. Kakar 2006, p. 149-150
  20. Friedrich Engels. Ashoka (em inglês). Visitado em 20/08/2015. Cópia arquivada em 18/10/2008.
  21. Kakar 2006, p. 63
  22. a b Wade 2015, p. 48
  23. Olesen 1995, p. 101
  24. Arreguín-Toft 2005, p. 186

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Arreguín-Toft, Ivan. How The Weak Win Wars: A Theory Of Asymmetric Conflict. [S.l.]: Cambridge University Press, 2005. ISBN 0521839769
  • Behrendt, Kurt A.. Handbuch der Orientalistik. [S.l.]: BRILL, 2004. ISBN 9004135952
  • Bosworth, C. E.; Donzel, E. van; Lewis, B.; Pellet, Ch.. The Encyclopaedia of Islam. [S.l.: s.n.], 1986. vol. V. ISBN 90-04-07819-3
  • Chandra, Lokesh; Banerjee, Radha. Xuanzang and the Silk Route. [S.l.]: Indira Gandhi National Centre for the Arts, 2008.
  • Dale, Stephen Frederic. The Garden of the Eight Paradises: Bābur and the Culture of Empire in Central Asia, Afghanistan and India (1483-1530). [S.l.]: BRILL, 2004. ISBN 9004137076
  • Elliot, Sir H. M.. The History of India, as Told by Its Own Historians. The Muhammadan Period. [S.l.]: Trubner and Co., 1869. Capítulo: Chapter II, Tarikh Yamini or Kitabu-l Yamini by Al Utbi. ,
  • Elphinstone, Mountstuart. The History of India: The Hindu and Mahometan Periods. [S.l.]: J. Murray, 1866.
  • Flood, Finbarr Barry. Objects of Translation: Material Culture and Medieval "Hindu-Muslim" Encounter. [S.l.]: Princeton University Press, 2009. ISBN 0691125945
  • Henning, W. B.. The Aramaic Inscription of Asoka Found in Lampāka. Universidade de Londres: [s.n.], 1949. vol. 13.
  • Kakar, M. Hassan. A Political and Diplomatic History of Afghanistan - 1863-1901. Leida e Boston: Brill, 2006. ISBN 1566-7162
  • Kumar, Raj. History Of The Chamar Dynasty : (From 6Th Century A.D. To 12Th Century A.D.). [S.l.]: Gyan Publishing House, 2008. ISBN 817835635X
  • Kurumu, Türk Tarih. Türk Tarih Kurumu yayınları. [S.l.]: Türk Tarih Kurumu Basımevı, 1944.
  • Mubārak, Abū al-Faz̤l ibn. The Akbar nāmā of Abu-l-Fazl: (History of the reign of Akbar including an account of his predecessors). [S.l.]: Ess Ess Publications, 1977.
  • Olesen, Asta. Islam and Politics in Afghanistan. [S.l.]: Psychology Press, 1995. ISBN 0700702997
  • Schimmel, Annemarie. Islam in India and Pakistan. [S.l.]: BRILL, 1982. ISBN 9004064796
  • Sen, Sailendra Nath. Ancient Indian History and Civilization. [S.l.]: New Age International, 1999. ISBN 8122411983
  • Wade, Norman M.; Hansen, Dag. Cultural Guide SMARTbook 1 – Afghanistan: Train, Advise and Assist in a Culturally-Sensitive Manner. [S.l.]: The Lightning Press, 2015. ISBN 1935886509
  • Watters, Thomas; Davids, T. W. Rhys; Bushell, S. W.. On Yuan Chwang's travels in India, 629-645 A.D.. Londres: Sociedade Real Asiática, 1904.