Maria Felipa
| Maria Felipa de Oliveira | |
|---|---|
Monumento a Maria Felipa da artista plástica Nádia, Salvador | |
| Conhecido(a) por | ter lutado na Independência da Bahia em 1823 |
| Nascimento | |
| Morte | 4 de julho de 1873 |
| Nacionalidade | brasileira |
| Etnia | negra |
Maria Felipa de Oliveira (Ilha de Itaparica, data incerta – 4 de julho de 1873) foi uma heroína negra brasileira.[1] Foi combatente brasileira na Batalha de Itaparica, na campanha de Independência da Bahia, também chamada de Independência do Brasil na Bahia, com desfecho em 2 de julho de 1823. Ao lado de Joana Angélica e Maria Quitéria, entrou para a história como símbolo da resistência.[2][3][4]
Biografia
[editar | editar código]Maria Felipa nasceu na Ilha de Itaparica (Bahia) em data desconhecida, descendente de negros escravizados, vindos do Sudão. Alta e corpulenta, trabalhou como marisqueira, pescadora e trabalhadora braçal, tendo aprendido na luta da capoeira a brincar e a se defender.[5]
Entre 1822 e 1823, Maria Felipa liderou um grupo de 200 pessoas, entre mulheres negras, índios tupinambás e tapuias, nas batalhas contra os portugueses que atacaram a Ilha de Itaparica, incendiando algumas embarcações de transporte portuguesas. A narrativa oral em geral afirma que Maria Felipa liderou um grupo para lutar contra os soldados portugueses: com o apoio de homens da cidade, queimou inúmeras embarcações portuguesas, diminuindo o poderio colonizador no decorrer da batalha, e depois, enfrentou os portugueses usando folhas de cansanção, uma folha típica da região, que em contato com a pele dá a sensação de queimação; e toda a ação resultou em uma queda no número de soldados da tropa portuguesa. A participação de Maria Felipa nos mostra um claro exemplo de como a luta pela independência da Bahia, mobilizou e angariou tantas outras mulheres, principalmente mulheres negras, o que a historiografia insistiu em apagar, assim como as fontes históricas são escassas.[6][7]
Além de todas as suas mazelas diante do conflito que envolvia não somente militares, mas movimentos populares, multirraciais e descentralizados, ela também integrava redes de vigilância e defesa na Baía de Todos os Santos.[8][9]
Homenagem
[editar | editar código]Escola Maria Felipa
[editar | editar código]Nas cidades de Salvador e Rio de Janeiro, a Escola Maria Felipa, primeira escola Afro-Brasileira que leva seu nome, busca homenageá-la como mulher que lutou bravamente pela história da independência da Bahia, símbolo de resistência diante das atrocidades enfrentadas. Maria Felipa é frequentemente lembrada em paralelo a outras figuras femininas da época, como Maria Quitéria e Joana Angélica, mas se destaca por seu protagonismo popular, atuando fora das tropas formais e mobilizando comunidades locais. Essas mulheres foram exemplos de liderança popular feminina, destacando-se na combinação de resistência armada e estratégias coletivas.[10] Sua história foi registrada pelo escritor baiano Ubaldo Osório Pimentel, avô do romancista João Ubaldo Ribeiro, e permanece ainda hoje no imaginário popular.[11][12][13]
Casa de Maria Felipa
[editar | editar código]Localizada no Curuzu, no bairro da Liberdade, em Salvador (BA), a Casa de Maria Felipa é um espaço de memória, cultura e resistência que abriga o acervo doado pela pesquisadora Eny Kleyde Farias como resultado dos seus 10 anos de pesquisa sobre o tema. O objetivo da casa é atuar como um espaço de cultura, visando resgatar e salvaguardar o patrimônio imaterial dos moradores do Curuzu para as gerações futuras. Desde 2009, em 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, a Casa de Maria Felipa concede o Título Maria Felipa na Contemporaneidade a mulheres que fazem a diferença nacional e internacionalmente.[14]
Livro Heroínas negras brasileiras: em 15 cordéis
[editar | editar código]Escrito pela cordelista e poeta Jarid Arraes, o livro publicado em 2017 pela Editora Jandaíra (1ª edição), recebeu nova edição em 2020, sendo publicado pelo selo Seguinte, Editora Cia. das Letras. Maria Felipa é uma homenageadas na coleção de cordéis que resgata a memória de 15 personagens que lutaram pela sua liberdade e seus direitos, reivindicaram seu espaço na política e nas artes, levantaram sua voz contra a injustiça e a opressão. Além de Maria Felipa, encontramos a biografia de Antonieta de Barros, Aqualtune, Carolina Maria de Jesus, Dandara, Esperança Garcia, Eva Maria do Bonsucesso, Laudelina de Campos, Luisa Mahin, Maria Felipa, Maria Firmina, Mariana Crioula, Na Agontimé, Tia Ciata, Tereza de Benguela e Zacimba Gaba, em cordel e breve texto descritivo. No fim do livro é possível encontrar outras fontes de pesquisa sobre cada uma delas.[15]
Monumento a Maria Felipa
[editar | editar código]Em 2 de julho de 2023, a Prefeitura de Salvador, através da Fundação Gregório de Mattos (FGM), inaugurou a estátua em homenagem à Maria Felipa, na Praça Cayru, no Comércio. [16]

Memória
[editar | editar código]- A figura histórica de Maria Felipa é citada no romance-histórico O Sargento Pedro, publicado em 1910, de autoria do itaparicano Xavier Marques.[17]
- Em 26 de julho de 2018 foi declarada Heroína da Pátria Brasileira pela Lei Federal nº 13.697, tendo seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, que se encontra no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, situado em Brasília, Distrito Federal.[18]
- Existe uma representação de Maria Felipa produzida pela perita técnica Filomena Orge a partir de relatos orais obtidos na ilha de Itaparica pela pesquisadora Eny Kleyde Farias.[19]
- Há também um retrato, de 1870, de uma mulher negra com um turbante que foi equivocadamente associado à imagem de Maria Felipa.[20][21]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ «Maria Felipa de Oliveira - Heroína da Pátria». www.livrodeaco.com.br. Consultado em 3 de julho de 2026
- ↑ Tribuna da Bahia (ed.). «3 mulheres são heroínas do 2 de Julho». Tribuna da Bahia. Consultado em 22 de dezembro de 2016. Arquivado do original em 21 de fevereiro de 2017
- ↑ «Quem foi Maria Felipa, a escravizada liberta que combateu marinheiros portugueses e incendiou navios». BBC News Brasil. Consultado em 1 de fevereiro de 2023
- ↑ Souza, Duda Porto de; Cararo, Aryane (2018). Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil 2a edição revista e ampliada, 2a reimpressão ed. São Paulo, SP: Seguinte
- ↑ Revista Raça (ed.). «Sabe quem foi Maria Felipa?». Revista Raça. Consultado em 22 de dezembro de 2016. Arquivado do original em 23 de dezembro de 2016
- ↑ Eny Kleyde Vasconcelos Farias (2010). Maria Felipa de Oliveira: heroína da independência da Bahia. [S.l.]: Quarteto. 148 páginas. ISBN 8580050081
- ↑ «Baianos defenderam ilha de ataque português há 200 anos». Folha de S.Paulo. 15 de janeiro de 2023. Consultado em 1 de fevereiro de 2023
- ↑ REIS, Joao José; SILVA, Flávio dos Santos; AGUIAR, Luiz Henrique Dias (2008). História da Bahia. Salvador: EDUFBA
- ↑ PEREIRA, Clovis Moura (2004). «Dicionário da Escravidão Negra no Brasil.». Edusp
- ↑ «Por que Maria Felipa?»
- ↑ «Independência da Bahia continua mal contada em 1822». Bahia Já. Consultado em 3 de julho de 2019
- ↑ Inácio Acioli de Cerqueira e Silva (1835). «Memórias históricas e políticas da província da Bahia». Biblioteca Digital de Literaturas de Língua Portuguesa - UFSC. p. 176. Consultado em 4 de julho de 2019
- ↑ «O Povo e a Guerra» (PDF). UFBA. Consultado em 4 de julho de 2019
- ↑ «Casa de Maria Felipa». Salvador da Bahia. Consultado em 3 de julho de 2026
- ↑ «Heroínas negras brasileiras - Jarid Arraes - Grupo Companhia das Letras». www.companhiadasletras.com.br. Consultado em 3 de julho de 2026
- ↑ «Inauguração do monumento à Maria Felipa fecham as celebrações do 2 de Julho». Fundação Gregório de Mattos. 27 de julho de 2023. Consultado em 2 de julho de 2026
- ↑ «REVISTA CIENTÍFICA DO DEPARTAMENTO DE POLÍCIA TÉCNICA DA SECRETARIA DA SEGURANÇA PÚBLICA DO ESTADO DA BAHIA SALVADOR» (PDF). DEPARTAMENTO DE POLÍCIA TÉCNICA DO ESTADO DA BAHIA. Revista Prova Material (004). Abril de 2005. Consultado em 18 de agosto de 2022
- ↑ «Portal da Câmara dos Deputados». www2.camara.leg.br. Consultado em 18 de agosto de 2022
- ↑ Santana, Fernanda (1 de julho de 2023). «A história de como Maria Felipa ganhou um rosto». Correio. Consultado em 2 de julho de 2023
- ↑ «Praça Cairu, em Salvador, tem nome alterado e vira Praça Maria Felipa; entenda como são feitas as mudanças». G1. 14 de março de 2024. Consultado em 24 de março de 2024
- ↑ Moura, Milton; Brito, Felipe Peixoto (2022). «A presença de Maria Felipa num processo judicial em Itaparica, Bahia, 1834». Veredas da História (2). ISSN 1982-4238. doi:10.9771/rvh.v15i2.51856. Consultado em 24 de março de 2024
Bibliografia
[editar | editar código]- «Mulheres em Conflito - Matéria A Independência delas». REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL (117). Junho de 2015
- AMADO, Janaína (1995). «O Grande mentiroso: tradição, veracidade e informação em história oral». São Paulo. História (14): 125-136
- FARIAS, Eny Kleyde Vasconcelos (2010). Maria Felipa de Oliveira: heroína da independência da Bahia. Salvador: Quarteto
- MARQUES, Xavier (1921). Sargento Pedro: tradições da independência 2 ed. Salvador: Catilina
- REIS, João José; SILVA, Eduardo (1989). Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras
- RIBEIRO, João Ubaldo (1984). Viva o Povo Brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira
- TAVARES, Luis Henrique Dias (2001). História da Bahia 10 ed. Salvador/São Paulo: UNESP/Edufba
- TAVARES, Luis Henrique Dias (2005). Independência do Brasil na Bahia. Salvador: EDUFBA
Ligações externas
[editar | editar código]- Radionovela "Maria Felipa: a Heroína Esquecida" - Produção IRDEB-BA.
- Coisas da Bahia: conheça a história de Maria Felipa - Programa Aprovado, exibido em 04/04/2015.
- Professores falam sobre a importância de Maria Felipa para a história da Bahia e do Brasil - Programa Bahia Meio Dia, exibido em 02/07/2012