Nespereira (árvore)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Como ler uma infocaixa de taxonomiaNêspera
Nêspera
Nêspera
Classificação científica
Reino: Plantae
Filo: Magnoliophyta
Clado: eudicotiledóneas
Clado: rosídeas
Ordem: Rosales
Família: Rosaceae
Subfamília: Maloideae
Género: Eriobotrya
Espécie: E. japonica
Nome binomial
Eriobotrya japonica
(Thunb.) Lindl.

A Eriobotrya japonica[1], comummente conhecida como nespereira[2] (não confundir com a espécie Mespilus germanica, que consigo partilha este nome), é uma espécie de árvore, da subfamília Maloideae, da família das Rosáceas, pertencente ao tipo fisionómico dos microfanerófitos. Para se distinguir da sua congénere europeia, também lhe costumam chamar nespereira-do-japão[3], pese embora seja originária do sudeste da China.[1]

Nomes comuns[editar | editar código-fonte]

Esta espécie dá ainda pelos seguintes comuns: magnório[4] (também grafada manganório[5] ou magnólio[6]) e, no português de Macau, é conhecida ainda como biba[7].

Os frutos desta espécie além do nome comum geral nêspera[8], dão ainda pelos seguintes nomes comuns regionais: magnório[4] (bem como as já mencionadas variantes gráficas manganório[5] e magnólio[9]) em certas regiões do Norte de Portugal; biba[7], no português de Macau; e ameixa-amarela[10] (não confundir com a subespécie da ameixa comum, a Prunus domestica subsp. Syriaca, que também dá por este nome[11]), em certas regiões do Brasil.

Taxonomia[editar | editar código-fonte]

A Eriobotrya japonica foi descrita primeiro por Carl Peter Thunberg, sob a designação Mespilus japonica em 1780, tendo-se transferido para o género Eriobotrya às mãos John Lindley, na publicação de 1821 da «Transactions of the Linnean Society of London».[12]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Do que toca à nomenclatura científica:

  • O nome genérico, Eriobotrya, deriva da aglutinação dos vocábulos gregos antigos εριο (erio), que significa «lã», e βοτρυών (botrys), que significa «racimo, cacho», portanto, por atacado pode traduzir-se por «cacho lanudo»[13], o que será uma alusão às inflorescências destas plantas que são particularmente tomentosas, é dizer, estão revestidas de penugem.[14]
  • O epíteto específico, japonica, por sua vez, provém do latim e trata-se de uma alusão ao país que, no séc. XIX, se julgava ser a região de origem desta espécie, o Japão.[15]

Do que toca aos nomes comuns:

  • O substantivo «nespereira», deriva de «nêspera»[8], palavra que, por seu turno, entra na língua portuguesa por via do baixo latim, nespĭra ou nespĭla[16], que por sua vez são corruptelas do latim clássico mespĭlu[17], por dissimilação do «m» em «n», o qual entrou no latim por via do grego clássico μέσπιλον (méspilos)[18].
  • O substantivo «biba», por seu turno, provém do nome chinês 枇杷 (pi-po)[19], que designa o mesmo fruto.[7] Este substantivo, por seu turno advém do étimo 琵琶 (pípá guǒ), que signfica «de formato oval; de formato semelhante à pipa».[7]
  • O substantivo «magnório» (e as respectivas variantes) tem origem incerta, crendo-se que possa ser uma deturpação do substantivo «magnólia».[4]

Sinonímia[editar | editar código-fonte]

Descrição[editar | editar código-fonte]

Trata-se de uma árvore pequena ou arbusto grande de folha perene, pautada pela coloração verde e pela penugem felpuda acastanhada dos galhos. Dispõe de uma copa circular que pode chegar até a um metro de comprimento e de um tronco curto, que pode crescer entre os 5 e os 10 m de altura.[21]

Do que toca às folhas, são simples, podendo medir entre 10 a 25 centímetros de comprimento, sendo que o formato pode alternar entre o obovado e o elíptico-oblongas, têm a face enrugada, uma textura que lembra couro e uma coloração verde-escura.[22]

Conta ainda com panículas terminais compactas, guarnecidas flores brancas, que são ulteriormente sucedidas pelos frutos: as nêsperas.[22]

As nêsperas, em rigor, são drupas e caracterizam-se pelo formato piriformes ou elipsóides[22], podendo alcançar até 4 centímetros em diâmetro[23]. Quando amadurecem adquirem uma coloração amarela, destacando-se pelo mesocarpo carnudo e suculento.[22] Uma vez que conta, geralmente, com uma ou mais sementes grandes e duras pode ser considerada um fruto nuculâneo.[24]

Distribuição[editar | editar código-fonte]

É originário do Sudeste da China, pelo que o seu habitat natural são os bosques paleotropicais.[1] Sem embargo, hodiernamente, é cultivada no resto do mundo, seja por causa do fruto[22], seja como planta ornamental.[21]

Cultivo[editar | editar código-fonte]

A nespereira é uma planta dada a regiões subtropicais e temperadas, pautadas por Invernos muito amenos.[21] Nas regiões tropicais, pode ser cultivada a elevações superiores a 600 metros, se bem que a altitude que oferece as condições opimas de cultivo nos trópicos se situa entre os mil e os dois mil e trezentos metros.[21]

As regiões com amplitudes térmicas que se cingem entre os 21 e os 27 graus Celsius, costumam ser as que proporcionam as melhores condições, tendentes ao crescimento desta planta.[21] Porém, a nespereira, ainda assim é capaz de medrar em regiões com amplitudes térmicas que maiores, tolerando temperaturas mínimas de 9 graus Celsius e máximas de 36 graus Celsius.[21] Com efeito, quando dormente, a nespereira consegue, inclusive, resistir a temperaturas baixas, na ordem dos 12 graus negativos, se bem que as flores e os rebentos das folhas não costumam sobreviver a temperaturas inferiores a um grau negativo.[21]

Pasadena, California.

As nespereiras preferem regiões com níveis de pluviosidade anual na ordem dos 600 a 1.600 milímetros, embora seja capaz de tolerar níveis de pluviosidade mais modestos, na ordem dos 400 a 4.000 milímetros anuais de chuva. [21]

Também privilegiam os solos férteis e pouco húmidos, com boa exposição solar ou pouca sombra, contanto que o substracto não seja muito calcário.[25][23] É capaz de tolerar solos secos.[23] No que respeita ao PH do solo, os valores ideais rondam entre os 5.5 e os 6.5, embora a nespereira seja capaz de tolerar solos mais ácidos, até aos 4.5, e mais básicos, até ao 8.[23]

As regiões à beira-mar costumam produzir os frutos de melhor qualidade[25], sendo certo que a nespereira prefere estar resguardada das nortadas e ventos frios, que possam correr vindos do mar.[23]

Uma nespereira adulta, salvo em casos de maus anos agrícolas, mercê de geadas na época de floração, costuma produzir fruto todos os anos.[21] Com efeito, a tendência das nespereiras é para ficarem sobrecarregadas de fruto, o que amiúde pode levar a que as nêsperas não desenvolvam tamanhos muito significativos.[21] Por causa disto, há a prática agrícola de destruir parte dos frutos, ainda por amadurecer, por molde a fazer com que os frutos restantes adquiram tamanhos maiores, compensando assim o prejuízo inicial dessa destruição.[21]

Sementio[editar | editar código-fonte]

A semente deve vir de um fruto maduro e deve ser plantada ainda húmida.[23] As sementes compradas em loja, devem ser demolhadas durante 24 horas antes do plantio.[26]

A germinação ocorre, geralmente, cerca de 1 a 4 meses depois, posto que as temperaturas gerais se mantenham por volta dos 20 graus Celsius.[27] Quando grandes o suficiente, os rebentos podem ser envasados e ou transplantados.[23]

Usos[editar | editar código-fonte]

Agroflorestal[editar | editar código-fonte]

No âmbito do sistema agroflorestal, as nespereiras, mercê da copa frondosa e do tronco curto e compacto, podem oferecer sombra e servir de corta-vento a outras espécies.[21] As grandes e fibrosas folhas da nespereira são boas para fazer compostagem.[21]

Cosmética[editar | editar código-fonte]

Por outro lado, as flores da nespereira têm efeitos repelentes contra insectos, sendo também usadas, no âmbito da cosmética, para a confecção de perfumes.[28]

Carpintaria e marcenaria[editar | editar código-fonte]

O cerne da madeira da nespereira tem uma coloração castanho-arroxeada, com veios escuros, que contrastam com a tonalidade clara da madeira.[29] Tem uma textura lisa, pouco dada a irregularidades e com pouca tendência para lascar, mostrando-se apta a ser polida.[29] Mesmo depois de trabalhada, por vezes, costuma reter alguma fragrância natural.[29] É uma madeira rija, que pode alternar entre peso-médio e peso-pesado.[29]

É adequada à confecção de postes, materiais de desenho e pintura e é muito cobiçada no âmbito da luteria.[29]

Medicina[editar | editar código-fonte]

Flores, São Paulo

As folhas das nespereiras têm propriedades analgésicas, antibacterianas, antieméticas, antitússicas, antivirais, adstringentes, diuréticas e expectorantes.[30][31][32] O decocto das folhas ou dos rebentos viços chegou a ser usado como mezinha com propriedades adstringentes intestinais[30] e como elixir bucal, para combater as aftas.[33] Este decocto também foi usado na medicina tradicional oriental para o tratamento da bronquite, tosse convulsa e resfriados.

Na preparação destes decoctos era retirada a penugem acastanhada que pode revestir as folhas e os rebentos, de maneira a evitar irritações da garganta.[33]

Às flores da nespereira, por sua vez, atribuem-se propriedades expectorantes.[34]

A nêspera, por seu turno, é um ingrediente popular na confecção de mezinhas antitússicas no Extremo Oriente.[33] Com efeito, este fruto tem propriedades ligeiramente adstringentes, expectorantes e mesmo sedativas.[30][34]

Chegou a ser usado historicamente para atenuar os efeitos dos enjoos e vómitos.[34]

Gastronomia[editar | editar código-fonte]

A nêspera pode ser consumida crua, cozinhada ou em conserva.[35] Tem um sabor adocicado, com um travo ligeiramente ácido.[23] Quando aberta, a nêspera trescala um odor bastante fragrante. Pode ser consumida em tartes, molhos e geleias.[25]

A semente da nêspera, apesar de amarga se consumida crua, pode ser usada em usada na confecção de certas bebidas e bolos, se for cozinhada, porquanto adquire um travo amendoado[36]. Com efeito, quando torrada, exibe propriedades estimulantes similares às do café.[37][38]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui imagens e outros ficheiros sobre Nespereira (árvore)

Referências

  1. a b c d «Eriobotrya japonica». Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Consultado em 17 de março de 2020 
  2. Infopédia. «nespereira | Definição ou significado de nespereira no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  3. Infopédia. «nespereira-do-japão | Definição ou significado de nespereira-do-japão no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  4. a b c Infopédia. «Magnório | Definição ou significado de Magnório no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  5. a b Infopédia. «Manganório | Definição ou significado de Manganório no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  6. priberam. «Magnólio | Definição ou significado de Manganório no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa». Priberam - Dicionário da Língua Portuguesa. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  7. a b c d Infopédia. «biba | Definição ou significado de biba no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  8. a b Infopédia. «nêspera | Definição ou significado de nêspera no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  9. Infopédia. «magnólio | Definição ou significado de magnólio no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  10. «Ameixa-amarela». Michaelis On-Line. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  11. «Prática de jardim: Ameixas, Ameixas E Mirabelas - Reconhecer Diferenças | 2022». Arte Da Paisagem. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  12. «Tropicos | Name - Eriobotrya japonica (Thunb.) Lindl.». legacy.tropicos.org. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  13. Gaffiot F., Dictionnaire Latin-Français, Hachette, Paris, 1934, p. 229 y 235
  14. «Eriobotrya japonica, loquat | Trees of Stanford & Environs». trees.stanford.edu. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  15. «japonica | Etymology, origin and meaning of japonica by etymonline». www.etymonline.com (em inglês). Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  16. «néspera». DIGALEGO (em galego). Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  17. «nespolo». Academic Dictionaries and Encyclopedias (em inglês). Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  18. «μέσπιλον - WordSense Dictionary». www.wordsense.eu (em inglês). Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  19. «Loquat -> 枇杷 - English-Chinese Online Dictionary». www.tigernt.com. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  20. «Eriobotrya japonica (Thunb.) Lindl. — The Plant List». www.theplantlist.org. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  21. a b c d e f g h i j k l m «Eriobotrya japonica - Useful Tropical Plants». tropical.theferns.info. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  22. a b c d e «Eriobotrya japonica (Thunb.) Lindl.». www3.uma.pt. Consultado em 22 de dezembro de 2021 
  23. a b c d e f g h Huxley, A. (1992). The New Royal Horticultural Society Dictionary of Gardening (em inglês). London, UK: Macmillan Press. 3200 páginas. ISBN 0-333-47494-5 
  24. Infopédia. «nuculâneo | Definição ou significado de nuculâneo no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  25. a b c Simmons, Alan (1972). Growing Unusual Fruit. Newton Abbot: David & Charles. 288 páginas. ISBN 0715355317 
  26. Sheat, Wilfrid G. (1948). Propagation of Trees, Shrubs and Conifers (em inglês). Los Angeles, USA: Macmillan. 479 páginas 
  27. Dirr, Michael A. (2006). The Reference Manual of Woody Plant Propagation: From Seed to Tissue Culture. Portland, Oregon, USA: Timber Press. 410 páginas. ISBN 1604690046 
  28. Genders, Roy (1997). Scented Flora of the World (em inglês). Penn State, Pensilvania, USA: R. Hale. 560 páginas. ISBN 0709159102 
  29. a b c d e Gamble, J. S. (1972). A manual of Indian timbers; an account of the growth, distribution, and uses of the trees and shrubs of India and Ceylon with descriptions of their wood-structure Рипол Классик ed. Moscovo. Rússia: S. Low, Marston & co. ltd.,. 522 páginas. ISBN 5875962321 
  30. a b c Chevallier, Andrew (1996). The Encyclopedia of Medicinal Plants (em inglês). Ann Arbor, Michigan, USA: DK Pub. 336 páginas. ISBN 0789410672 
  31. Yeung, Him-che (1995). Handbook of Chinese Herbal Formulas (em inglês). London, UK: Institute of Chinese Medicine. 441 páginas. ISBN 0963971514 
  32. World Health Organization. Regional Office for the Western Pacific (1998). Medicinal plants in the Republic of Korea : information on 150 commonly used medicinal plants (em inglês). Manilla: WHO Regional Office for the Western Pacific. 316 páginas. ISBN 9290611200 
  33. a b c Bown, Deni (1995). Encyclopedia of Herbs & Their Uses (em inglês). Ann Arbor, Michigan, USA: Dorling Kindersley. 424 páginas. ISBN 0789401843 
  34. a b c Chopra, R. N; Nayar, S. L; Chopra, I. C; Asolkar, L. V; Kakkar, K. K; Chakre, O. J; Varma, B. S; Council of Scientific & Industrial Research (India) (1956). Glossary of Indian medicinal plants ; [with] Supplement (em English). New Delhi: Council of Scientific & Industrial Research. OCLC 499428255 
  35. Hill, Albert F. (22 de novembro de 1968). «Useful Species: Dictionary of Economic Plants. J. C. Th. Uphof. Second edition. Cramer, Wiirzburg, 1968 (distributed in the U.S. by Stechert-Hafner, New York). viii + 591 pp. $9.75,». Science (em inglês). doi:10.1126/science.162.3856.890. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  36. Krikorian, A. D. (1 de junho de 1976). «Plants Consumed by Man. B. Brouk». The Quarterly Review of Biology (2): 348–348. ISSN 0033-5770. doi:10.1086/409440. Consultado em 12 de fevereiro de 2022 
  37. Facciola, Stephen (1990). Cornucopia: A Source Book of Edible Plants (em inglês). Ann Arbor, Michigan, USA: Kampong Publications. 677 páginas. ISBN 0962808709 
  38. Schultes, Richard Evans (1 de abril de 1985). «Plants for human consumption». Economic Botany (em inglês) (2): 176–176. ISSN 1874-9364. doi:10.1007/BF02907842. Consultado em 12 de fevereiro de 2022