Praxe

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O termo Praxe descreve o conjunto das tradições académicas dos estudantes do Ensino superior em Portugal ou, mais frequentemente, os rituais de iniciação a que os caloiros são submetidos nas faculdades e universidades portuguesas (à semelhança do trote aplicado no Brasil).[1] A Praxe é replicada na maioria das instituições de Ensino Superior de Portugal, sendo geralmente realizada no primeiro ano de matrícula, visando a integração dos novos alunos.[2][3][4] O objetivo desde ritual de integração é a transmissão de valores dos alunos mais velhos para os mais novos, na tentativa de manter vivas as tradições da sua respetiva Academia.[5][6][7]

Com o crescimento do número de instituições de Ensino Superior em Portugal no final do século XX, o conceito de Praxe tornou-se diferente consoante a Academia. Nas Universidades de Coimbra e Porto afirma-se que estas mantém a tradição das verdadeiras tradições académicas, geralmente em contraste com novas práticas instituídas em faculdades e universidades mais novas.[4]

A praxe na sua vertente solidária tem vindo a ter um crescimento nos últimos anos, existindo ações de Praxe com vertente solidária num número cada vez maior de instituições de Ensino Superior. Entre estas ações, podemos encontrar exemplos de recolhas de alimentos e roupa ou trabalho comunitário, por exemplo.[8][9] Em algumas instituições, estas ações são organizadas pela própria Academia em alternativa à Praxe tradicional, noutras são organizadas pelos próprios estudantes e integradas nas tradições de Praxe.[10][11]

História[editar | editar código-fonte]

Nas Universidades, os rituais de receção a novos alunos datam pelo menos desde o início do século XVIII. Quando D. João V declarou que “mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos”. Esta proibição não foi suficiente para que, no século seguinte, esses rituais se tornassem em coisas tão brutas como pontapés nas canelas, conhecidos como canelões, ou o rapanço, onde lhes cortavam o cabelo, ou até a pastada, onde os novatos imitavam animais a comer o pasto. Na segunda metade deste mesmo século (século XIX), estes atos grutescos começam, então, a ser chamados de “Praxe”. Depois de, ao longo do século seguinte, a “Praxe” provocar um enorme desassossego na sociedade e nas próprias universidades, é abolida com a Instauração da República.[12]

A “Praxe” renasce depois em 1919, sendo recuperada como um símbolo da Academia, e volta a desaparecer no final da década de 60 entrando em desuso, devido ao Luto Académico que é instaurado depois da Crise Académica de 1969. No início da década de 80, e já com o fim do Luto Académico, renasce então a “Praxe” como nós a conhecemos. E assim, na década seguinte, a “Praxe” expande-se para outras universidades por todo o país, onde não havia qualquer tradição, tornando-se, também agora, alvo de polémicas.[13]

Mote[editar | editar código-fonte]

Associado à Praxe, está o mote Dvra Praxis, Sed Praxis (a Praxe é dura, mas é a Praxe) - baseada no mote latino Dvra Lex, Sed Lex. Este mote erradamente foi entendido como uma expressão de um conjunto de práticas relativas a caloiros que se caracterizava pela dureza (física e/ou psicológica). No entanto, a sua inspiração é de carácter jurídico, significando que a Praxe é "dura" devido a ser isenta, sendo todos tratados de igual forma, uma vez que todos são iguais entre estudantes.[2]

Controvérsias[editar | editar código-fonte]

Por vezes as atividades Praxisticas são levadas a extremos que promovem algum criticismo. Isto deve-se muito a pessoas que não fazem o bom uso do seu poder e acabam por, através da humilhação e da violência, degradar o código e os valores da praxe. Pois, cada academia possui o seu “código de praxe” que é constituído pelas normas praxistas, bem como tudo o que lhe diga respeito (traje, hierarquia,… etc.). Este foi formado para defender os valores da praxe em questão, sendo que desrespeitando o mesmo ficarão sujeitos a diversas sanções.[14]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Joana Fillol (25 de setembro de 2015). «O que é e o que não é permitido na praxe académica». Consultado em 23 de novembro de 2021 
  2. a b QvidPraxis. «O Porto e a Praxe». Consultado em 23 de novembro de 2021 
  3. Ambra Marcucci. «Praxe - A Portuguese academic tradition» (em inglês). Consultado em 23 de novembro de 2021 
  4. a b Alexandre Nogueira (27 de dezembro de 2019). «Praxe em Portugal: saiba o que é e como funciona a tradição». Consultado em 23 de novembro de 2021 
  5. Conselho de Praxe FCT/NOVA (18 de dezembro de 2020). «Código de Praxe (Faculdade de Ciências e Tecnologia - Universidade NOVA de Lisboa)» (PDF). Consultado em 23 de novembro de 2021 
  6. Associação Académica do Instituto Politécnico de Setúbal. «Manual Sadino - Código de Praxe e Traje do Instituto Politécnico de Setúbal» (PDF). Consultado em 23 de novembro de 2021 
  7. NEEMAAC. «Praxe». Consultado em 23 de novembro de 2021 
  8. Público (17 de setembro de 2019). «A praxe pode ser solidária. Estes caloiros vão ajudar o Banco Alimentar». Consultado em 23 de novembro de 2021 
  9. Margarida Lopes (1 de setembro de 2021). «Católica-Lisbon volta a promover praxe solidária». Consultado em 23 de novembro de 2021 
  10. rostos.pt (27 de fevereiro de 2016). «No Instituto Politécnico de Setúbal: «Praxe Solidária» para ajudar aqueles que mais precisam». Consultado em 23 de novembro de 2021 
  11. Rádio Pax (18 de novembro de 2021). «Alunos do IPBeja continuam a promover ações solidárias». Consultado em 23 de novembro de 2021 
  12. Cruzeiro, Maria Eduarda (1979). «Costumes estudantis de Coimbra no século XIX: tradição e conservação institucional» (PDF). Análise Social. XV (60): 795-838. Consultado em 23 de novembro de 2021 
  13. Elísio Estanque. «Praxe e Tradições Académicas». Consultado em 23 de novembro de 2021 
  14. Elísio Estanque; João Mineiro; João Sebastião; João Teixeira Lopes; José Pedro Silva. A Praxe Como Fenómeno Social (PDF) (Relatório). Consultado em 23 de novembro de 2021