Trote estudantil

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O trote estudantil (ou simplesmente trote) consiste num conjunto de atividades para marcar o ingresso de estudantes no ensino superior ou, mais raramente, no ensino médio, ou de pessoas em algumas organizações. Geralmente, têm, como alvo, aprovados num processo seletivo, e variam em termos de grau de violência e agressividade.

Costuma ocorrer nos dias da denominada calourada, que acontecem no início de um semestre ou ano letivo, em escolas, faculdades e universidades. É aplicado pelos estudantes mais antigos, chamados de veteranos, nos recém-chegados, conhecidos como calouros ou "bixos". O trote também costuma acontecer na escola depois da calourada, principalmente nos calouros que não compareceram a ela. Algumas instituições, visando a acabar com a tradição do trote estudantil, promovem uma variação mais saudável desse, o chamado trote solidário, um modo mais útil e menos agressivo de recepção a novos alunos.

São frequentes também, mesmo depois da época de calourada, trotes fora da instituição de ensino, principalmente em casas de república, lugar onde dormem juntos os alunos que vieram de outras cidades, uma vez que, nestes locais, a escola ou universidade não tem controle sobre os estudantes e não pode emitir ocorrências ou realizar punições.

Etimologia da palavra[editar | editar código-fonte]

A palavra "trote" possui correspondentes em vários idiomas, como trote (espanhol), trotto (italiano), trot (francês), trot (inglês) e trotten (alemão). Em todos estes idiomas, e também em português, o termo se refere a uma certa forma de se movimentar dos cavalos, uma andadura que se situa entre o passo (mais lento) e o galope (mais rápido). Todavia, deve ser lembrado que o trote não é uma andadura normal e habitual do cavalo, mas algo que deve ser ensinado a ele (muitas vezes à base de chicotadas e esporadas). Da mesma forma, o calouro é encarado pelo veterano como algo (mais que um animal, mas menos que um ser humano) que deve ser domesticado pelo emprego de práticas humilhantes e vexatórias; em suma, o calouro deve "aprender a trotar".

Da mesma forma, denominar o calouro de bixo (ou bixete, se for mulher), parece querer indicar "que o calouro deve ser humilhado a ponto de nem mesmo merecer que a palavra bicho seja escrita corretamente."[1]

Origens do trote[editar | editar código-fonte]

As origens do trote estudantil podem ser encontradas nas primeiras universidades, na Europa da Idade Média.[2] Nestas instituições, surgiu o hábito de separar veteranos e calouros, aos quais não era permitido assistirem as aulas no interior das respectivas salas, mas apenas em seus vestíbulos (de onde veio o termo "vestibulando" para designar estes novatos). Por razões profiláticas, os calouros tinham as cabeças raspadas e suas roupas, muitas vezes, eram queimadas.[3]

Todavia, já no século XIV, as preocupações com a higiene haviam se transformado em rituais aviltantes, com nítida conotação sadomasoquista. Isto é observado nas universidades de Bolonha, Paris e, principalmente, Heidelberg, onde os calouros, reclassificados como "feras" pelos veteranos, tinham pelos e cabelos arrancados, e eram obrigados a beber urina e a comer excrementos antes de serem declarados "domesticados".

Em Portugal, os trotes violentos (como o notório "Canelão") podem ser rastreados a partir do século XVIII na Universidade de Coimbra. Não por coincidência, estudantes da elite brasileira que, por lá, realizaram parte de seu processo educativo trouxeram a "novidade" para o território nacional.[4] Em decorrência disso, surgiram desavenças entre veteranos e calouros que culminaram com a morte, em 1831, de um estudante da faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco – seria a primeira, mas, lamentavelmente, não a última vítima de um trote violento no Brasil.

O trote como rito de passagem[editar | editar código-fonte]

Segundo Arnold Van Gennep, criador do conceito, os ritos de passagem podem ser classificados em três grupos principais:

Conforme indica, "as fronteiras entre tais ritos não são estanques, e sim dinâmicas; um comumente implica um outro".[5] Portanto, do ponto de vista da antropologia cultural, o trote se classifica como um "rito de passagem de margem", permitindo que, dele, sejam extraídas quatro conclusões preliminaresː[6]

  1. O trote é um cerimonial que está entranhado no seio da cultura acadêmica;
  2. O caráter iniciático do trote é confirmado por todos os seus participantes;
  3. O trote representa um ritual de violência e agressão contra o calouro;
  4. O trote é um rito de passagem às avessas, representando uma prática oposta aos valores humanistas da universidade.

Trotes violentos[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Trote (abuso)

Represálias[editar | editar código-fonte]

Ao calouro que se recusar a participar das atividades, são endereçadas várias represálias: agressões, bullying e ser - em casos extremos dentro de certas escolas - considerado bixo eterno. O bixo eterno é assim chamado porque jamais alcançará o status de veterano, por não ter aceitado se submeter à vontade dos veteranos. Portanto, se ele aparecer no primeiro dia de aula, mesmo já não sendo mais novato, será tratado como calouro.

Existem, ainda, casos de represália por parte dos calouros, que, algumas vezes, reagem violentamente ou ameaçam os veteranos que tentam subjugá-los. Alguns calouros, por exemplo, no primeiro dia de aula, apresentam-se em suas faculdades com roupas nas quais se encontram símbolos que poderiam impor respeito e/ou medo aos veteranos (símbolos de artes marciais, forças armadas ou policiais, gangues etc.), de forma a convencer que aplicar o trote nele não é uma boa ideia. Obviamente, o calouro pode ter pertencido ou pertencer a um desses grupos, mas ele pode estar mentindo, o que, uma vez descoberta a mentira, pode piorar sua situação com os veteranos.

Prevenção[editar | editar código-fonte]

Os calouros, sabendo que serão vítimas do trote, tomam atitudes de forma a evitá-lo. Alguns, por exemplo, começam a estudar depois de algumas semanas, ainda que isto lhes prejudique os estudos.

Parte das instituições de ensino baniu o trote ou o substituiu pelo "trote solidário" (também chamado de trote cidadão em algumas partes do Brasil), no qual o calouro planta árvores ou faz trabalho comunitário, conhecendo a forma de vida de alguma comunidade carente na cidade onde está a instituição.

Também é comum algumas escolas formarem "salva-calouros", veteranos fiscais que se voluntariam para controlar o nível dos trotes.

Ainda assim, a melhor forma de evitar o trote é não submeter-se a ele. Se o calouro perceber que o nível do trote está ameaçando sua saúde física e/ou mental, ele deve imediatamente, a qualquer custo, retirar-se das atividades de trote e, se assim for de acordo com sua vontade, reportar a um responsável a ocorrência de tal atividade, uma vez que, hoje, na maioria das instituições de ensino superior no Brasil, existem departamentos para coibir atividades de trote que estejam prejudicando os calouros.

A Universidade de São Paulo (USP) tem, por sua vez, um serviço de atendimento ao calouro no qual este pode reportar um trote violento e/ou abusivo, o chamado Disque-Trote.[14]

O "trote solidário"[editar | editar código-fonte]

Nos últimos anos, mortes provocadas por trotes violentos levaram a uma condenação formal deste tipo de ritual. As instituições de ensino tentaram eliminar ou amenizar sua prática, através do endosso mais ou menos tácito ao chamado "trote solidário". São assim denominadas as atividades assistencialistas, organizadas geralmente pelos centros acadêmicos, e que envolvem a coleta de alimentos não perecíveis e roupas, doados posteriormente para creches, asilos e orfanatos, bem como campanhas de doação de sangue para hospitais e centros de saúde.

Todavia, a versão "amena" da antiga prática, que mistura cabeças raspadas, pintura corporal, "pedágios" e "aulas-trote" (em que um veterano se faz passar por um professor tirano), parece ter o objetivo implícito de perpetuar o sadomasoquismo pedagógico perante a sociedade, sociedade esta que parece muito mais preocupada com o espetáculo do que com a violência, tolerando a violência ritual praticada regularmente contra os jovens como um símbolo do sucesso daqueles que foram aprovados no vestibular.

Fim do status de calouro[editar | editar código-fonte]

Em algumas escolas em que cada etapa tem um ano de duração, a data a partir da qual o calouro deixa de ser considerado como tal costuma ser 13 de maio, referência à data na qual a Lei Áurea aboliu a escravidão no Brasil, em 1888. Geralmente, são feitas festas para comemorar a libertação dos bixos, às vezes com mais trotes.

O comum é o estudante deixar de ser calouro depois de ter passado de sua primeira etapa (série, módulo, ano ou semestre). Quase sempre, se o aluno repete a primeira etapa, ele continua sendo calouro.

Para os alunos que entram de transferência (que costumam entrar depois da primeira etapa, por já tê-la feito em outra instituição), o status é ambíguo.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • MATTOSO, G. O calvário dos carecas: a história do trote estudantil. São Paulo, EMW, 1985.
  • VAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. Petrópolis, Vozes, 1978.
  • VASCONCELOS, Paulo Denisar. A violência no escárnio do trote tradicional. Santa Maria, UFSM, 1993.
  • ZUIN, Antônio Álvaro Soares. O trote na universidade-Passagens de um rito de iniciação. Cortez, São Paulo, 2002)
  • ZUIN, Antônio Álvaro Soares. O Trote no Curso de Pedagogia e a Prazerosa Integração Sadomasoquista. Educ. Soc. [online]. Agosto 2002, vol.23, no.79, p. 243-254. Disponível na World Wide Web: Scielo. ISSN 01017330.

Referências

  1. ZUIN, Antônio Álvaro Soares. O trote na universidade-Passagens de um rito de iniciação. São Paulo. Cortez. 2002. p.44.
  2. VASCONCELOS, Paulo Denisar. A violência no escárnio do trote tradicional. Santa Maria. UFSM. 1993. p.13.
  3. Marina Dias (09-02-2009). «A origem medieval do trote universitário». Veja (revista). Consultado em 09-02-2014. 
  4. ZUIN, Antônio Álvaro Soares. O trote na universidade-Passagens de um rito de iniciação. São Paulo. Cortez. 2002. p.31.
  5. VAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. Petrópolis. Vozes. 1978. p.31.
  6. VASCONCELOS, Paulo Denisar. A violência no escárnio do trote tradicional. Santa Maria. UFSM. 1993. p.14-15.
  7. Revista Época, Séculos de violência no campus, reportagem de 10 de maio de 1999 [em linha]
  8. Marília News, Conferência em Marília discute o ‘trote’ como ato solidário (2009) [em linha]
  9. Reportagem da Revista Veja sobre o assassinato de Edison Tsung Chi Hsueh
  10. «Calouro é vítima de trote violento no interior de SP». 
  11. http://oglobo.globo.com/cidades/sp/mat/2010/02/02/alunas-dizem-policia-que-foram-obrigadas-tirar-calcinha-durante-trote-em-fernandopolis-em-sp-915765841.asp
  12. http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4242664-EI5030,00-Mais+alunas+afirmam+ter+bebido+combustivel+em+trote+em+SP.html
  13. http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1473897-5605,00-CALOURO+E+AGREDIDO+E+VAI+PARAR+NO+HOSPITAL+NO+DIA+DE+AULA+NA+ESPM+EM+SP.html
  14. «USP se prepara para receber os novos alunos». 4 de fevereiro de 2015. Consultado em 19 de fevereiro de 2015. 

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]