Sebastianismo

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Retrato d’El Rei Dom Sebastião, galeria Câmara dos Azuis

O sebastianismo foi uma crença ou movimento profético que surgiu em Portugal em fins do século XVI como consequência do desaparecimento do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Uma vez que não havia um corpo, acreditava-se que D. Sebastião voltaria para salvar o Reino de Portugal de todos os problemas desencadeados após seu desaparecimento. As primeiras pretensões reais da volta de Dom Sebastião se deram no arquipélago dos Açores. Lá, havia de fato uma espera pela volta imediata e real do rei-mártir.[1]

O desaparecimento[editar | editar código-fonte]

A notícia de que a empreitada liderada por Dom Sebastião ao Norte da África, a fim de estreitar as relações e reforçar o poder sobre os territórios do Magrebe, teria dado errado começou a chegar a Portugal a partir do dia 10 de agosto de 1578. Segundo Jacqueline Hermann[2], primeiro tentou-se esconder o mensageiro, a fim de não alardear a notícia entre os que tinham ficado em Portugal. Depois, começou-se a buscar um sucessor para o trono, a fim de “aquietar o povo que bramava com magua do damno geral”.

Não se sabia ainda se o rei estava morto e se o trono estava de fato vago, mas a certeza de que as tropas portuguesas tinham sucumbido aos mouros em Alcácer-Quibir foi ficando mais próxima à medida em que faltavam notícias e, aos poucos, raros sobreviventes que tinham partido junto com D. Sebastião voltavam a Portugal. As reações foram diversas: uns maldiziam a empreitada, outros culpavam o próprio D. Sebastião, a Câmara de Lisboa e até o cardeal D. Henrique, seu tio, que tinha sido contra a ida a Marrocos.

Sebastianismo em Portugal[editar | editar código-fonte]

Após o desaparecimento de D. Sebastião no norte da África, foi seu tio, o cardeal D. Henrique (Henrique I de Portugal ou Cardeal-Rei), quem assumiu o trono. Na época, D. Henrique já tinha 66 anos e era cardeal da Igreja Católica. A princípio, ele aceitou ser somente governador e defensor do reino, mas aceitou a Coroa de Portugal e se retirou do Mosteiro de Alcobaça, onde vivia recolhido, para ser coroado no dia 28 de agosto de 1578, 14 dias após a chegada da primeira notícia do desaparecimento de Dom Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir. Dom Henrique ficou somente dois anos no poder: ele morreu em janeiro de 1580.

Com o desaparecimento de Dom Sebastião e a morte de seu tio, Dom Henrique, houve uma disputa por quem sucederia o trono português por falta de herdeiros diretos. Logo após a morte do cardeal-rei, um colegiado de cinco governadores precisou assumir o reino. Meses depois, quem reivindicou o trono e chegou a ser aclamado em algumas cidades foi o Prior do Crato, D. António, sobrinho de D. Henrique. Embora não fosse considerado filho legítimo do Infante Dom Luís (portanto, neto do Rei Dom Manuel I), D. António gozava de muita popularidade entre os portugueses, uma vez que havia sido prisioneiro na Batalha de Alcácer-Quibir, na qual lutou junto com Dom Sebastião[1].

Mas a empreitada de D. António foi infrutífera e o trono terminou nas mãos de seu primo, o rei Filipe II da rama espanhola da casa de Habsburgo. Mesmo passados mais de dois anos do desaparecimento de Dom Sebastião, havia em Portugal esperança de que ele retornasse para salvar o Reino – é a isso que se chama de sebastianismo. Basicamente é um messianismo adaptado às condições lusas e à cultura do Brasil. Traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através do retorno de um morto ilustre.

Vários setores da população não acreditavam na morte do rei, divulgando a lenda de que ele ainda se encontrava vivo, apenas esperando o momento certo para voltar ao trono e afastar o domínio estrangeiro. De certa maneira, isso ecoava uma crença no chamado "rei encoberto", que povoara a Península Ibérica, e que se manifestara fortemente durante as revoltas das "Germaníadas" em Valência, durante o reinado do imperador Carlos V.[3]

Os impostores[editar | editar código-fonte]

Entretanto, foi com o aparecimento dos chamados falsos "D. Sebastião" que aquilo que era uma crença difusa acabou por ganhar contornos políticos mais definidos, e em alguns casos, mais preocupantes para Madri que, com o reinado de Dom Filipe I (da Espanha, II em Portugal), era sede da União Ibérica. O caso mais emblemático e importante para a constituição do que se chamou de sebastianismo foi o do "Sebastião de Veneza", um calabrês, Marco Túlio Cattizzone, que se fizera passar por D. Sebastião. Cattizzone tinha mulher e filhos vivos, mas, ainda assim, foi tão convincente que, por pouco, não escapou da empreitada com vida, já que, exceto o fato de não falar português, houve pessoas próximas a Dom Sebastião que garantiram estar vendo o próprio. Mesmo assim, todos acabaram condenados à morte. Antes do Sebastião de Veneza, uma série de outros pretendentes tentaram se passar pelo rei desaparecido e as tentativas foram punidas com a morte. Outro caso emblemático foi o do “Confeiteiro de Madrigal”, um jovem de nome Gabriel de Espinosa, que tinha mulher e filho, era bonito, sabia falar francês e alemão, mas não português – assegurava que tinha esquecido no cativeiro. Foi enforcado[1].

Incrivelmente, o Sebastião de Veneza obteve o apoio de vários fidalgos, letrados e religiosos portugueses, muitos deles ligados a "corte" exilada de D. António, prior do Crato, que disputara com Filipe II a sucessão da coroa portuguesa. Entre eles, João de Castro (1551-1623), neto do homônimo navegador e vice-rei português da Índia (1500-1548)[4], que dedicou seus anos finais de vida a provar e defender a causa sebastianista. Como indicado por Jacqueline Hermann, foi João de Castro que deu forma letrada e constituiu um corpo mais teórico ao que antes era um conjunto de esperanças no retorno de um rei desejado.[2]

João de Castro, em seus tratados, uniu uma tradição exegética e apocalíptica em torno dos sonhos do livro de Daniel com o encobertismo e com os fundamentos proféticos da monarquia portuguesa.[5] Entre eles, o Milagre de Ourique, que ganhara novas cores com o Juramento de Afonso Henriques, diploma forjado nos anos 1590 no mosteiro de Alcobaça,[6] e, sobretudo, as Trovas de Gonçalo Annes Bandarra, escritas antes de 1540[4]. Foi João de Castro que editou e fez imprimir a primeira versão das Trovas que até então circulavam manuscritas ou oralmente. No seu Paráfrase e concordância, lançado na França em 1603[7], transcreveu e comentou os versos do sapateiro de Trancoso, buscando mostrar como as trovas enigmáticas e proféticas só poderiam indicar a volta de Sebastião I para retomar o trono português e expulsar os castelhanos.

Outro sebastianista importante foi Manuel Bocarro Francês, um cristão-novo, médico, matemático e astrólogo – que, apesar do nome, era português. Este, explica Jacqueline Hermann[2], “procuraria comprovar o destino da grandeza de Portugal através da interpretação combinada de textos, integrando, através de seus escritos, um variado conjunto de estudiosos das chamadas ‘ciências mágicas de seu tempo’”. Acabou morrendo em 1630 sem fazer a profecia astrológica que se esperava dele.

Novos contornos[editar | editar código-fonte]

Passados 62 anos após a notícia do desaparecimento de Dom Sebastião, o culto ganhou novos contornos, sobretudo após tanto tempo em que o Reino de Portugal permaneceu sob o comando de espanhóis, durante o período da União das Coroas – ou União Ibérica. No dia 1º de dezembro de 1640, um grupo de conjurados chefiados pelo Duque de Bragança (futuro D. João IV - dinastia de Bragança), depôs em Lisboa o representante de Filipe III e restaurou a independência de Portugal. Assim, o movimento tomou novas características por todo o Império Português.

Como demonstrado por Eduardo D'Oliveira França[8] e, mais tarde, por Luís Reis Torgal[9], houve uma adequação da crença sebástica para uma ideologia restauracionista à serviço da causa de João IV. O jesuíta Antônio Vieira foi um dos principais articuladores dessa construção profética a partir do chamado sebastianismo. Ainda que não tenha terminado suas obras proféticas, dedicou-se a elas de modo sistemático no fim da sua vida e já após o fim das Guerra de Restauração (1640-1668) contra a Espanha, escrevendo, entre outros, a Clavis Prophetaruam e a História do Futuro.

O poeta português Fernando Pessoa, em seu livro Mensagem, faz uma interpretação sebastianista da História de Portugal, em busca de um patriotismo perdido. O poema reinterpreta a História de Portugal em função de uma ressurreição de um passado heroico:

“Screvo meu livro à beira-magua.

Meu coração não tem que Ter.

Tenho meus olhos quentes de água.

Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar

Meus dias vácuos enche a doura

Mas quando quererás voltar?

Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Christo

De a quem morreu o falso Deus,

E a despertar do mal que existo

A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto?

Sonho das eras portuguez,

Tornar-me mais que o sopro incerto

De um grande anceio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,

Fazer minha esperança amor?

Da nevoa e da saudade quando?

Quando, meu sonho e meu Senhor?”[10]

A ideia de nacionalismo relacionada ao sebastianismo também está presente em História de Portugal, de Joaquim Pedro de Oliveira Martins[11], quando este diz que “Para nós, o Sebastianismo é uma prova póstuma da nacionalidade. Na hora das agonias derradeiras, os soluços violentos do povo traziam aos lábios a voz íntima, e proferiam de um modo eloquente e altissonante o pensamento natural orgânico”.

Sebastianismo no Brasil[editar | editar código-fonte]

O sebastianismo também influenciou certos movimentos brasileiros em todo o país, desde o Rio Grande do Sul até ao norte do Brasil, principalmente no início do século XX.

Por exemplo, Antônio Conselheiro empregou-o em seus discursos à população de Canudos, no sertão baiano, entre 1893 e 1897. Segundo ele, Dom Sebastião iria retornar dos mortos para restaurar a monarquia no Brasil, atraindo assim a ira do recém-inaugurado governo republicano do Brasil. Antônio Conselheiro via também na realeza de D. Pedro II e na Casa de Bragança o Direito Divino do Império do Brasil recebido na cristofania do milagre de Ourique. O resultado foi a destruição do Arraial de Canudos pelo Exército em 1897[12].

No nordeste destacam-se dois movimentos sebastianistas no interior do estado de Pernambuco, que, segundo a crítica aos movimentos na época, tiveram um caráter político-religioso violento e com líderes fanáticos, que ludibriavam a população de boa fé, já vítima dos problemas da seca[12]. O primeiro, A Tragédia do Rodeador, foi liderado por Silvestre José dos Santos que, em 1819, criou um arraial em um local denominado Sítio da Pedra. Ele foi destruído em 1820 pelo governador do estado, Luiz do Rego. Esta destruição, conhecida como Massacre de Bonito, matou 91 pessoas e feriu mais de 100. Depois disso, mais de 200 mulheres e 300 crianças foram aprisionadas e mandadas para Recife.

O segundo movimento é conhecido como A Tragédia da Pedra Bonita. Foi criada uma espécie de reino na localidade de Pedra Bonita, na Serra Formosa, por João Antonio dos Santos. Como o sucessor de João Antonio, João Ferreira, pregava que o rei D. Sebastião só voltaria se a Pedra Bonita fosse banhada de sangue, foi promovido um grande massacre no qual morreram 87 pessoas. Este arraial foi destruído pelo major Manoel Pereira da Silva.

Este último movimento inspirou o escritor José Lins do Rego a escrever o romance Pedra Bonita.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c BERCÉ, Yves-Marie (2003). O rei oculto: salvadores e impostores. Mitos políticos populares na Europa Moderna. São Paulo: Edusc; Imprensa Oficial do Estado 
  2. a b c Hermann, Jacqueline (1998). No Reino do Desejado. A construção do sebastianismo em Portugal, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras 
  3. NALLE, Sarah. “El Encubierto Revisited: Navigating between Visions of Heaven and Hell on Earth.” In Werewolves, Witches, and Wandering Spirits, ed. Kathryn A. Edwards (Kirksville, Mo.: Truman State University Press, 2002)
  4. a b O MESSIANISMO DO PADRE VIEIRA E A INQUISIÇÃO., acesso em 23 de outubro de 2016.
  5. Silvério Lima, Luís Filipe (2010). Impérios dos sonhos: profecias oníricas, sebastianismo e messianismo brigantino. São Paulo: Alameda. p. cap. 3 a 5. 
  6. A bibliografia sobre o Juramento de Afonso Henriques é extensa, bem como a polêmica em torno de sua autenticidade. Sobre isso ver: BUESCU, Ana Isabel. O Milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano. Uma Polémica Oitocentista, Lisboa, INIC, 1987.
  7. BANDARRA, Gonçalo Annes; CASTRO, João de. «Paraphrase et concordancia de alguas propheçias de Bandarra: çapateiro de Trancoso» 
  8. França, Eduardo (1997). Portugal na Época da Restauração 2a. ed. São Paulo: Hucitec. p. cap. 1 (Terceira Parte). ISBN 8527104164 
  9. Torgal, Luis (1981). Ideologia política e teoria do Estado na Restauração. Coimbra: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. p. vol. 1, cap. III. 
  10. GEBRA, Fernando de Moraes (2006). «Entre Mito e História: o sebastianismo em Mensagem de Fernando Pessoa». Revista Letras. Consultado em 15 de fevereiro de 2018. 
  11. OLIVEIRA MARTINS, Joaquim Pedro (1951). História de Portugal. Lisboa: Guimarães 
  12. a b GASPAR, Lúcia. Sebastianismo no Nordeste brasileiro. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: 24 out. 2017,

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]