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Batalha de Alcácer Quibir

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(Redirecionado de Batalha de Alcácer-Quibir)
Batalha de Alcácer-Quibir
Guerras Luso-marroquinas

Única representação semi-contemporânea conhecida da batalha (Miguel Leitão de Andrade, "Miscellânea", 1629)
Data4 de agosto de 1578 (447 anos)
LocalAlcácer Quibir, Sultanato Sádida Marrocos (atual Reino de Marrocos)
Casus belliApoio português à causa de Maomé Almotauaquil ao trono Sádida.
Desfecho
Beligerantes
Reino de Portugal Reino de Portugal
Sultanato Sádida Marrocos(aliado)
Mercenários:
Estados Papais Estados Papais
Reino de Espanha Espanha (voluntários)
Sacro Império Sacro Império Romano-Germânico (mercenários)
Sultanato Sádida Marrocos
Comandantes
Sebastião (desaparecido)
Maomé Almotauaquil
Mulei Maluco
Amade Almançor Saadi
Forças
  • 12 000 portugueses
  • 6 000 mouros
  • 600 italianos
  • 2 000 espanhóis
  • 3 000 alemães e belgas
  • Total: 23 640 homens
  • 40 canhões
  • 60 000
  • 34 canhões
Baixas
  • 8 000 mortos
  • 16 000 capturados
  • 3 000 mortos
  • 1 000 desaparecidos
  • 6 000 feridos

A Batalha de Alcácer-Quibir[nota 1] (em árabe:معركة القصر الكبير , trad. lit. "grande fortaleza"), também conhecida pela Batalha dos Três Reis (em árabe: معركة الملوك الثلاثة) ou também como Batalha de Oued al-Makhazin (em árabe: معركة وادي المخازن) foi uma batalha travada no norte de Marrocos, perto da cidade de Alcácer Quibir, a 4 de agosto de 1578, opondo os exércitos do Reino de Portugal, apoiante da pretensa à coroa do então deposto sultão Mulei Maomé Almotauaquil ao do Sultanato Sádida, leais ao sultão reinante Mulei Maluco e apoiados pelo Império Otomano.

A vitória marroquina nessa batalha, infligiu a Portugal, o seu maior desastre militar já sofrido até hoje, marcando o fim definitivo da expansão portuguesa no Norte de África, a perda considerável da classe político-administrativa vigente da época, um aumento brutal da despesa do Reino, o fim do período de expansão português iniciado com a vitória na Batalha de Aljubarrota, e levando à crise dinástica de 1580, e à subsequente união dinástica com a Espanha, sob os Habsburgos, durante 60 anos. Fora isto, a derrota na batalha de Alcácer-Quibir levou ao nascimento do mito do Sebastianismo.[1][2][3][4][5][6]

Por outro lado, a morte dos dois sultões, e a grande derrota portuguesa, permitiram a plena consolidação do poder de Ahmad al-Mansur, que transformou a vitória militar num poderoso capital político e simbólico, reforçando a centralização do Estado e a sua legitimidade religiosa e dinástica, entrando Marrocos, durante o seu reinado, no zénite da dinastia Sádida. A captura de um número elevado de prisioneiros e a subsequente economia dos resgates, associada ao saque e ao prestígio internacional, proporcionou um afluxo extraordinário de recursos, permitindo a expansão da corte, o reforço do exército e uma diplomacia mais afirmada face à Europa e ao Império Otomano. De mesmo modo, e indiretamente, porém, essa mesma vitória inaugurou um modelo de poder assente em receitas excecionais e gastos elevados, estimulando políticas fiscais e militares difíceis de sustentar a médio prazo. Após a morte do sultão em 1603, a ausência dessas condições excecionais contribuiu para a rápida fragmentação política do sultanato, revelando que o triunfo de 1578, embora fundador do apogeu sádida, continha também os germes da sua fragilidade estrutural futura.[7][8][9][10]

Antecedentes

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Expansão portuguesa em Marrocos

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Com o sucesso da Reconquista na Península Ibérica, os reinos cristãos europeus (em especial, os reinos hispânicos e italianos) iniciaram um período de várias incursões ao norte de África (Magrebe) de modo a reconquistar, novamente para a Cristandade, os territórios do norte do continente africano, perdidos já desde o meados do século VII. De facto, este assunto é em especial sensível aos reinos hispânicos, que viam estas incursões como o prolongamento da Reconquista: não apenas fechar a Reconquista na Península, mas sim empurrar a fronteira entre cristãos e muçulmanos para o outro lado do estreito de Gibraltar.[11]

Possessões portuguesas em Marrocos nos séculos XV e XVI
Arzila Portuguesa, c. 1570

Com a tomada de Ceuta em 1415, inicia-se o início da presença portuguesa no Algarve magrebino. Desde então, a coroa portuguesa tenta, especialmente no reinado de Afonso V, defender, consolidar e expandir a sua presença e influência em Marrocos. Após Ceuta, Portugal toma Alcácer-Ceguer, Arzila, Tânger, entre outros, aumentando assim o controlo militar e comercial da região. Com as tentativas posteriores infrutíferas de recaptura das praças aos portugueses, e o aumento da instabilidade do reino de Marrocos (iniciando-se com o assassinato do sultão Abuçaíde Otomão III em 1420), começa-se então um período de árduas e prolongadas crises sucessivas.[12][13][11]

Com a queda do Império Merínida e a ascensão do Sultanato Oatácida, as situações sociopolíticas e económicas apenas pioraram. Marrocos não saiu da crise — de facto, entrou numa fase diferente e até mais profunda da mesma — havendo uma continuação da fragilização do poder central, agora sob uma dinastia com legitimidade mais limitada e menor capacidade coerciva fora dos centros urbanos do norte, sendo que no sul as autoridades locais eram vistas como as únicas com autonomia e legitimidade de negócio e diplomacia com os portugueses. Os Oatácidas tornaram-se, portanto, mais vulneráveis à pressão portuguesa.[10][7][14][15][16]

Ascensão dos Sádidas

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Com o degradar do poder dos Oatácidas, surge na década de 1500, na região mais a sul, a dinastia Sádida, determinada a retirar o poder e influência aos portugueses, tomar o poder e restaurar o poder de Marrocos. Poder-se-á afirmar que houveram três principais razões para a reorganização das tribos do sul sobre a égide Sádida. Em primeiro lugar, e talvez o mais notável, a crescente expansão e força que os portugueses detinham na costa marroquina, e suas pretensas de se adentrarem para o interior alarmou os chefes e líderes locais, levando a procurar uma alternativa ao poder central. Em segundo lugar, as rotas comerciais, que eram uma importante percentagem da economia transariana, estavam agora a ser contestadas pelas alternativas do comércio marítimo europeu, mais eficiente, e por ataques de corsários cristãos. Os portugueses, principalmente, estavam focados em estabelecer rotas comerciais marítimas, e substituir as rotas terrestres, pela via marítima. Por último, os xarifes Sádidas temiam o crescimento do poder otomano na região, estando no seu apogeu, e demonstrando também interesse em influenciar e tomar todo o Magrebe. O Império Otomano, tendo apoiado os Oatácidas na tomada de poder anteriormente, pretendiam assim estabelecer um quase estado cliente do Império, aumentando a sua força e influência na região.[17][18][11]

Em setembro de 1554, após a batalha de Tédula, Maomé Axeique, vence decisivamente e destrona os Oatácidas, fundando assim o Sultanato Oatácida de Marrocos. Maomé Axeique teve três filhos — Abedalá Algalibe, Mulei Maluco e Amade Almançor — todos eles demonstrando, desde tenra idade, uma excelente aptidão e potencial para estadistas. No entanto, com a morte de Maomé Axeique, assassinado pelos otomanos em 1557, o seu filho mais velho assume o trono. Este, iria governar o sultanato durante dezassete anos, consolidando as conquistas do seu antecessor e impedindo uma restauração Oatácida, e defendendo o reino dos portugueses, espanhóis e otomanos. Com a sua ascensão ao trono, os seus irmãos mais novos, tinham-se refugiado em Argel (na altura parte do Império Otomano), de modo a escapar à purga de todos os rivais. Daí, foram acolhidos pelos otomanos, onde foram educados e por viagens no Império, ganharam grande experiência, tanto militar como administrativa e política. Mulei Moluco foi à capital otomana em julho de 1571 e, em seguida, com seu irmão Amade Almançor, ingressam ao serviço dos otomanos, tendo servido na Batalha de Lepanto, e na Conquista de Túnis.[16][7][10][19]

Crise sucessória do Sultanato

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Miniatura otomana representando a conquista de Marrocos sob o comando do governador otomano de Argel, Ramazan Paxá.

No entanto, com a morte de Abedalá Algalibe em 1574, e a sucessão por seu filho Maomé Almotauaquil, não consensual, a dinastia Sádida entrou na sua primeira crise. Após destacarem-se nas campanhas contra os cristãos, Mulei Maluco visitou Constantinopla novamente e obteve do novo governante otomano Murade III, que procura expandir a influência otomana em Marrocos, um acordo para ajudá-lo a recuperar militarmente o trono. Caso vencesse, Mulei Moluco tomaria o trono do Sultanato de Marrocos para si, em troca de se declarar vassalo dos otomanos, e da paga de quantias avolumadas de capital, juntamente com o arrendamento do porto de Larache aos otomanos, permitindo a estes terem uma base no atlântico para a pirataria e corso contra os cristãos.[20][21][22][23]

Em 1576, Mulei Maluco invade o Sultanato Sádida, com cerca de quinze mil homens, ganhando a Batalha de Fez e capturando de seguida a cidade. Depois, vence a Batalha de Rabat, e por fim a Batalha de Tarudante, destronando o seu sobrinho. Com isto, Mulei Maluco reconheceu Murade III como seu suserano, adotando os costumes otomanos na corte, e reorganizando o seu exército de acordo com os moldes otomanos (tropas regulares (guich), artilharia moderna, atiradores montados e infantaria com arcabuzes. Muitos soldados eram descendentes de andalusinos expulsos da Península Ibérica, tribos berberes como os Zwawa, além de turcos e ex-soldados otomanos), tornando-se, de facto, num estado cliente deste.[24][23]

Exílio de Maomé Almotauaquil e proposta a Portugal

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Com a sua derrota e tomada do poder por seu tio Mulei Moluco, Maomé Almotauaquil procurou refúgio primeiramente em enclaves espanhóis no continente africano. Primeiramente, refugia-se no em Veléz de la Gomera, e tentou formar uma coligação espanhola e portuguesa de forma a tomar novamente o trono. Com isto, prometeu que, caso ganhasse o trono novamente, Maomé Almotauaquil entregaria a importante cidade e seu porto de Larache, Arzila, e outras importantes praças e territórios ao domínio da Coroa portuguesa, permitindo aos portugueses adentrarem-se no sertão marroquino. Fora isto, daria também tolerância maior a cristãos nos seus territórios, juntamente com permissão de missionários jesuítas de continuarem, se bem que com limitações, a operar em Marrocos. Isto foi visto com bons olhos por vários patrocinadores portugueses e por vários membros da corte portuguesa, que viam na pessoa de Maomé Almotauaquil um aliado útil na expansão e recuperação do domínio português no norte de África, coisa que já era pedido ao rei em cortes anteriores, mas que o mesmo não tinha acedido.[25][26]

Arcabuzeiros, uma das classes dos soldados dos terços, representado nas Tapeçarias de D. João de Castro, séc. XVI

Os exércitos portugueses e marroquinos de final do século XVI

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Exército português

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Durante o século XVI, é de se notar um crescente processo de renovação das práticas militares de ambos os reinos. Por um lado, em Portugal, a par com o sistema de terços espanhóis, D. João III e seu sucessor D. Sebastião, geraram profundas reorganizações no exército português, de modo a profissionalizarem, e melhor capacitarem o mesmo para os desafios futuros. No último quartel do século XVI português, a expectativa de uma intervenção militar despoletou um esforço institucional sem precedentes, que perdurou, praticamente inalterável, por quase cem anos. Este esforço foi acompanhado pela atualização do conhecimento militar, em especial no reinado de D. Sebastião.[27]

Sebastião I de Portugal

Inicialmente, foram estabelecidas capitanias-mores no Porto e em Lisboa. As leis promulgadas contemplavam a normalização do armamento, passando pela fortificação costeira, a construção naval, e a centralização do recrutamento e enquadramento sistemático dos homens em companhias. A criação deste tipo de unidades militares teve o seu início oficial a 6 de Março de 1568 – ainda durante a regência do cardeal D. Henrique – com a criação, no Porto, de companhias com o efetivo de 300 homens, regime que se estendeu, ainda nesse mesmo ano, ao Oriente. Pouco depois, através do Regimento dos Capitães-mores e mais capitães, e officiais das companhias de gente de cavallo e de pé: e da ordem que teram em se exercitarem de 10 de dezembro de 1570, o Rei D. Sebastião regulamenta a Lei das Armas que cada pessoa he obrigada a ter... de 1569 e alarga a estrutura das ordenanças a todo o Reino, criando a base do que seria um exército verdadeiramente nacional. Reduziu-se o seu efetivo de 300 para 250 soldados, fixando definitivamente uma orgânica idêntica para todo o reino. Na prática, as chamadas “ordenanças militares sebásticas” resumiram todo o esforço levado a cabo desde a época de D. Manuel numa única série de diplomas publicados entre 1568 e 1574, que reestruturaram o poder militar do reino de acordo com um sistema único e coerente.[27][28]

A grande referência legislativa e organizacional do exército português durante o período sebástico, veio da experiência espanhola, da qual se adotaram muitos aspetos — o efetivo de cada companhia, por exemplo — mas o sistema que vigorava no ducado de Sabóia também influenciou significativamente as leis militares promulgadas por D. Sebastião. Esta é especialmente visível na periodicidade dos exercícios de campo, dos quais existem vários registos da participação de oficiais contratados naquele ducado. O rei esteve sempre profundamente comprometido com as reformas em curso, e seguiu de perto a sua implementação. Presenciou diversos exercícios entre 1570-72, e em 1573 deslocou-se ao Alentejo e Algarve, permitindo uma avaliação da situação no terreno: esta revelou-se um sucesso, com 122 companhias de ordenanças inspecionadas, correspondendo a mais de 20.000 homens. A realidade do cumprimento da legislação levou a alterações ao diploma inicial, e em 1574 fez publicar Providências à lei de 1570, pelas quais se procurou aligeirar o encargo das populações com os exercícios periódicos agravando, ao mesmo tempo, as penas pelo incumprimento das disposições do regimento, nomeadamente no que respeitava às faltas dos soldados ou inexistência de armas.[27]

Guerreiros tuaregues (amazigues), pintura de George Francis Lyon em 1821. Os guerreiros tuaregues do exército marroquino de finais de século XVI, assemelhar-se-iam a estes.

Exército marroquino

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No contexto do exército marroquino, a partir do primeiro quartel do século XVI assiste-se à crescente e progressiva introdução de novos meios e métodos de fazer a guerra. Destes destaca-se a proliferação de armas de fogo entre as populações (proveniente da Europa e de Argel, por exemplo), e pela mão dos andaluzes (descendentes dos expulsos da Península Ibérica aquando o édito de expulsão) e de renegados europeus. Apesar dos otomanos se apresentarem como os grandes campeões do Islão, a sua progressão pelo Mediterrâneo entrou em conflito com a vivência autónoma dos povos da ponta ocidental do Magrebe. O poder regional dos marroquinos foi um dos principais obstáculos à entrada da influência otomana mas também alguns grupos que se mostravam avessos a partilhar o protagonismo de que gozavam, como os “andaluzes”, que tinham usufruído do monopólio da fabricação e utilização da artilharia até ao último quartel do século XVI.[27]

Arcabuzeiros andaluzes e renegados cristãos ("elches") nos exércitos do Sultanato Sádida, por Jorge de Henin, Descripción (1615).

Apesar destes obstáculos, a preponderância da influência militar dos otomanos, tantas vezes vitoriosa no campo de batalha contra os cristãos, fez-se sentir desde cedo entre a elite militar da nova dinastia. O exército que Mulei Maluco levou a Alcácer Quibir contém os elementos fundamentais da ordem de batalha otomana. De um modo geral, é na criação de um núcleo de tropas permanentes com carácter regular que reside a principal influência otomana. Este corpo regular era constituído por soldados de diversas origens: Os “andaluzes” oriundos do antigo reino de Granada, os berberes “gazulas” (yazula) que habitavam a encosta saariana do Atlas, os “azuagos” (Zouaoua) e “xarracas” (sharquis) oriundos da região de Bejaia (actual Bougie) e do leste de Argel, respetivamente, e os renegados cristãos convertidos ao Islão de diversas origens (os “elches”).[27]

Janízaros otomanos, presentes na guarda do sultão Mulei Moluco.

Presença otomana

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As indicações sobre a presença de uma força otomana acompanhando os marroquinos no campo de batalha variam entre as fontes, levando a algumas discordâncias entre os pesquisadores e historiadores modernos. Enquanto que alguns afirmam que a vitória sádida ocorreu sem qualquer interferência do exército otomano, outros afirmam que algumas fontes turcas modernas atribuem a vitória de 1578 a forças otomanas lideradas por Ramazan Paxá no campo de batalha (de salientar, no entanto, que estas fontes tendem a exagerar a história militar turca). No entanto, apesar da intervenção do exército otomano no campo de batalha ser contestado, é incontestável a presença de forças outrora otomanas, e com treino e formação militar de cunho otomano. Como por exemplo, os janízaros, força de elite do império otomano daquela época, presente na guarda do sultão e do seu séquito. Outros, no entanto, acabam mesmo por afirmar que houve, de facto, envolvimento do exército otomano na Batalha, e que o mesmo se demonstrou fundamental para a vitória sádida.[29][30][31][32][nota 2][33][7]

Com a reconquista de Tunis em 1574, aos Turcos faltaria apenas Marrocos para dominarem por completo o norte de África, ameaçando depois uma entrada na Península Ibérica.

Por carta de D. Sebastião a João de Mendonça, em 1576, é visivelmente notória a preocupação do rei em impedir o avanço da influência e poder otomanos ao extremo oeste magrebino, receando que caso caia o Sultanato, se abrissem as portas a uma possível nova invasão da Península Ibérica por parte dos muçulmanos:

Não é somente para dar a posse daquele Reino ao tio do Xarife, mas principalmente com o fundamento de o fazerem tributário e vassalo do Turco, e o Turco se fazer Senhor de toda África, e de todos os portos de mar dela, tendo em cada uma delas muitas galés que lhes será fácil de pôr em efeito. Assim, pela natureza da mesma terra, como por seu grande poder, que quando assim acontecesse, o que Deus não permita, visto é quantos males sem remédio poderiam recrescer a toda Espanha, que da Cristandade se pode dizer que é hoje a melhor e maior parte, e com este intento queria que não somente cuidareis nesta matéria e a discorrereis para me nela dardes parecer e conselho no que farei e devo fazer (…).[34]

Referia-se assim à reconquista de Tunis em 1574 pelos Turcos, o que os tornara senhores de todo o norte de África, excetuando Marrocos, onde o poder se disputaria na Batalha de Alcácer-Quibir, apoiando Sebastião o lado do Xarife deposto, contra o seu tio Mulei Maluco, que contava com o apoio turco. Ainda não se passavam 100 anos da expulsão ibérica do Reino Nacérida de Granada, e temia-se reedição da antiga invasão muçulmana de 711.[34]

Preparativos para a batalha

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Sebastião empregara uma parte significativa da riqueza do império português para equipar uma grande frota e reunir um grande exército. Este incluía 2 mil voluntários de Castela (liderados por Alonso de Aguilar), 3 mil mercenários vindos da Alemanha e da Flandres (comandados por Martim da Borgonha) bem como 600 italianos inicialmente recrutados para ajudar uma invasão da Irlanda sob a liderança do inglês Thomas Stukeley, bem como o auxílio em armas e munições.

Fez-se o recrutamento do exército português, mas verificou-se alguma corrupção, o que fez com que o exército expedicionário, de cerca de 15 000 a 23 000 homens, fosse em parte pouco disciplinado, mal preparado, inexperiente e com pouca coesão. A elite do exército era composta pelos "aventureiros", nobres portugueses veteranos nas guerras de África e do Oriente, e pelos mercenários estrangeiros, veteranos das guerras do norte da Europa. A força expedicionária terá reunido também 500 navios.

Sebastião partiu de Lisboa a 25 de Junho de 1578, passou por Tânger, onde estava Maomé Almotauaquil, seguiu para Arzila e daqui para Larache, por terra, havendo quem preferisse que se fosse por mar, para permitir maior descanso às tropas e o necessário reabastecimento em víveres e água. Seguiram depois a caminho de Alcácer Quibir, onde encontraram o exército de Mulei Maluco, muito superior em número.

Após incitar suas tropas das janelas da Igreja de Santa Maria, em Lagos, Sebastião partiu daquele porto com sua armada em 24 de junho de 1578.

Desembarcou em Arzila, no Marrocos Português, onde Maomé Almotauaquil juntou-se a ele com mais 6.000 mouros aliados, e ambos marcharam rumo ao interior.

Enquanto isso, Abedal Maleque I, que estava gravemente doente, reunira um grande exército, conclamando seus compatriotas à jiade contra os invasores portugueses. Os dois exércitos se aproximaram nas imediações de Alcácer-Quibir, acampando em lados opostos do Rio Lucos.

Cena da batalha. Representação do século XIX
Alcácer-Quibir, rio Lucos. Foi entre este rio e o rio Mocazim que se deu a Batalha

Em 4 de agosto de 1578, as tropas portuguesas e os mouros aliados alinharam-se para a batalha, e Sebastião cavalgou entre as fileiras, encorajando os soldados. Os marroquinos avançaram numa frente ampla, com o objetivo de cercar o exército português.

O sultão dispunha de 10.000 cavaleiros nas alas e, no centro, posicionou mouros expulsos da Espanha, que guardavam profundo ressentimento contra os cristãos.[35] Apesar da doença, Abedal Maleque deixou sua liteira e liderou as tropas a cavalo.

A batalha teve início com a troca de várias salvas de fogo de mosquetaria e artilharia. Thomas Stukley, que comandava o centro português, foi morto por uma bala de canhão logo no início. A cavalaria marroquina avançou e começou a cercar o exército luso. As forças logo se engajaram em combate corpo a corpo.

As alas do exército português cederam diante da cavalaria moura, e o centro passou a ser ameaçado. Com as alas comprometidas e sem seu comandante principal, o centro perdeu o moral e foi derrotado.

Relato e Esquema da Batalha

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Esquema da disposição das tropas de D. Sebastião em Alcácer-Quibir

Os relatos da batalha não foram uniformes, especialmente no que diz respeito ao que ocorreu depois de terminada a batalha, em que o rei Sebastião se retira e não há vitória declarada de qualquer lado, conforme consta em - Relação da Batalha de Alcácer que mandou um cativo ao Dr. Paulo Afonso,[36] onde se diz o seguinte:

Neste tempo vendo El Rei que estava na vanguarda o seu campo desbaratado, se veio recolhendo pela banda do Duque de Aveiro, e o seguiu alguma gente de cavalo e a pé, cuidando que ia fazendo uma ponta para volver sobre os mouros, viu o campo já tão desbaratado que se retirou. Durou a batalha quatro horas sem se declarar a vitória.

Nada mais se informa sobre o que ocorreu depois de terminarem esses combates. Apresenta-se logo de seguida um esquema da disposição das tropas de Sebastião (tendo previamente o cativo descrito detalhadamente a sua composição, e apontando Duarte de Menezes como "Mestre de Campo").

Desenlace

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Após quase quatro horas de intensos combates, a batalha terminou com a derrota total dos portugueses e do exército de Maomé Almotauaquil, deixando cerca de 8.000 mortos — entre eles, grande parte da nobreza portuguesa. Cerca de 15.000 homens foram capturados e vendidos como escravos no norte da África, e apenas cerca de 100 conseguiram escapar até a costa. O corpo do rei Sebastião, que havia liderado uma carga contra o inimigo e foi cercado, jamais foi encontrado.[37]

O sultão Abedal Maleque morreu durante a batalha, provavelmente por causas naturais (o esforço de cavalgar teria sido excessivo), mas sua morte foi mantida em segredo até a vitória ser assegurada. Maomé Almotauaquil tentou fugir, mas morreu afogado no rio. Devido à morte de Sebastião, Maomé Almotauaquil e Abedal Maleque durante o combate, o confronto ficou conhecido no Marrocos como a Batalha dos Três Reis.

A batalha terminou após quatro horas de combate intenso com a completa derrota dos exércitos do rei Sebastião e Mulei Maomé, com quase 9 mil mortos e 16 mil prisioneiros, nos quais se incluem grande parte da nobreza portuguesa. Talvez 100 sobreviventes tenham escapado, com custo, do local da batalha.

Mulei Maomé, aliado dos portugueses, tentou fugir ao massacre em que a batalha se convertera mas morreu afogado ao atravessar o rio Mocazim. O sultão Mulei Maluco também morreu durante a batalha, mas de causas naturais, uma vez que o esforço da batalha foi demais para o seu estado debilitado por um envenenamento que sofrera. D. Sebastião, por sua vez, desapareceu liderando uma carga de cavalaria contra o inimigo, e seu corpo jamais foi encontrado. Nestas condições, o exército português, não obstante alguns atos de grande bravura, foi completamente dizimado. Apesar de na época se duvidar da morte do rei português, é muito provável que ele tenha perecido nesta batalha.

Entre os prisioneiros na batalha de Alcácer-Quibir estava o Prior do Crato António, que, conta-se, conseguiu a libertação com recurso à astúcia: quando lhe perguntaram o significado da cruz de S. João que usava, respondeu que era o sinal de uma pequena mercê que tinha obtido do papa e que a perderia se não voltasse até 1 de Janeiro. O seu captor, pensando que se tratava de um homem pobre, permitiu a sua libertação em troca de um pequeno resgate.

Consequências

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As consequências desta batalha foram catastróficas para Portugal. Sebastião desaparecera, deixando como sucessor o seu tio-avô, o então Cardeal Henrique que morreu sem descendência dois anos depois. Assim se iniciou uma crise dinástica, ameaçando a independência de Portugal face a Espanha, pois um dos candidatos à sucessão era o seu tio, Filipe II de Espanha.

A disputa do trono português teve vários pretendentes: Catarina de Médici, rainha da França, que se dizia descendente de Afonso, Catarina, duquesa de Bragança e sobrinha do Cardeal Henrique; Emanuel Felisberto de Saboia, duque de Savoia e António de Portugal, Prior do Crato, ambos, sobrinhos do rei; Rainúncio de Parma e Filipe II. Filipe, efetivamente, ascendeu ao trono em 1580.

A maioria da nobreza portuguesa que participou na batalha, ou morreu ou foi feita prisioneira e todos os bispos e arcebispos nela presentes foram mortos. Para pagar os elevados resgates exigidos pelos marroquinos, o país ficou enormemente endividado e depauperado nas suas finanças.

Luís de Camões escreveu, numa carta a Francisco de Almeida, referindo-se ao desastre de Alcácer-Quibir, à ruína financeira da Coroa portuguesa e à independência nacional ameaçada: "Enfim acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela".

Na aldeia de Souaken, uma aldeia próxima do local da batalha, encontra-se um obelisco em memória de Sebastião e mais dois em memória dos outros dois reis. A batalha ainda hoje é conhecida em Marrocos como a "Batalha dos Três Reis".

Ver também

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Notas e referências

Notas

  1. Também grafada Alcácer-Quivir, al Qasr al-kibr, Alcazarquivir ou Alcassar
  2. "A Batalha dos Três Reis, nomeada após o rei de Portugal e os dois pretendentes ao sultanato saádida, ocorreu em Alcácer-Quibir em 4 de agosto de 1578. O pretendente saádida Abedal Maleque usou não apenas janízaros otomanos, mas também um contingente de muçulmanos andalusinos expulsos da Península Ibérica, que, segundo relatos, atacaram espanhóis e portugueses com especial vingança. Otomanos e saádidas também foram abastecidos com artilharia avançada." Fromherz, Allen (2012). Gates, Henry Louis, ed. Dictionary of African Biography (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. p. 313.

Referências

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Bibliografia

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  • Iornada de Africa composta por Hieronymo de Mendoça, em Lisboa, impresso por Pedro Crasbeeck, anno 1607

Ligações externas

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