Guerra de Iguape

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Guerra de Iguape
Tordo.jpg
O Meridiano de Tordesilhas segundo diferentes geógrafos: Ferber (1495), Cantino (1502), Ribeiro (1519), os peritos de Badajoz (1524), Pedro Nunes (1537), Oviedo (1545), João Teixeira Albernaz, o velho (1631 e 1642) e Costa Miranda (1688).
Data 1534 - 1536
Local Capitania de São Vicente, Brasil Colônia
Desfecho
  • Saque da cidade de São Vicente
  • Os Espanhóis abandonam o assentamento em Iguape
Beligerantes
Flag of Portugal (1521).svgImpério Português Flag of Cross of Burgundy.svg Império Espanhol

Carijós

Guaianás
Comandantes
Pero de Góis Ruy Garcia de Moschera
Forças
80 Portugueses 20 Espanhóis 150~200 Arqueiros Indígenas

A Guerra de Iguape aconteceu entre os anos de 1534 e 1536, na região de São Vicente, São Paulo. Em virtude de uma interpretação particular do Tratado de Tordesilhas, alguns espanhóis, liderados por Ruy Garcia de Moschera, instalaram-se nos arredores da província vicentina, aliando-se aos índios Carijós (Guaranis). Eles fundaram uma cidade e entraram em conflito com a Coroa de Portugal.

Quando as forças de defesa portuguesas lideradas por Pero de Góis enfrentaram o contingente espanhol no Entricheiramento de Iguape, foram prontamente derrotadas. Em seguida, Garcia de Moschera, o Bacharel de Cananeia e seus seguidores ocuparam e saquearam São Vicente, matando dois terços dos seus habitantes e quase a deixando para trás destruída, levando inclusive o livro do Tombo (escrituras que definiam as posses de terra).

Posteriormente, em virtude das incursões sistemáticas das forças portuguesas (que arregimentaram outros índios rivais, "de serra acima"),[1] os espanhóis foram forçados a se retirarem, primeiro para a Ilha de Santa Catarina, e, depois, para Buenos Aires, de volta ao Rio da Prata.

Foi o primeiro confronto entre europeus portugueses e espanhóis na América do Sul.[2]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Uma expedição portuguesa comandada por Gaspar de Lemos ou Gonzalo Coelho (fontes divergem) e Américo Vespucio chegou à ilha de São Vicente a 22 de Janeiro de 1502, dando-lhe este nome. No dia 24 de janeiro, Cosme Fernandes Pessoa (chamado de Bacharel de Cananeia[2] por causa de seu diploma universitário), um novo cristão (um judeu que se converteu ao cristianismo), chegou ao local que chamaram de Barra del Río Cananor e partiu na ilha de Cardoso (chamado de Marataiama pelos Carijós), o primeiro europeu a habitar o Brasil.

Bacharel de Cananeia conquistou prestígio entre os indígenas locais, juntou-se a uma filha do cacique Ariró e estabeleceu-se numa vila da qual de fato governava e controlava o comércio da região. Segundo documento do historiador português Jaime Cortesão, o Bacharel já vivia no Brasil antes da chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500, contrariando a versão tradicional.[2] É citado num documento datado de 24 de abril de 1499, descoberto por Cortesão onde relatou extraoficialmente uma possível viagem de Bartolomeu Dias ao Brasil.[3][4] Outro documento, de 1526, descreve a vila de São Vicente, informando que teria uma dezena de casas, apenas uma de pedra, com uma torre de defesa, tantos historiadores acreditam que Bacharel de Cananeia teria sido o verdadeiro fundador de São Vicente. Quando, em 15 de janeiro de 1528, o espanhol Diego García de Moguer, a caminho do Río da Prata, chegou a Cananéia, relatou que Cosme Fernandes Pessoa (a quem chamou de Bacharel de Cananéia) vivia entre os indígenas com 6 mulheres, mais de 200 escravos e mais de mil guerreiros.

Localização do Iguape.

No inverno de 1526, em Puerto de los Patos na ilha de Santa Catarina, após ouvir histórias sobre os tesouros do rei Blanco, 32 espanhóis abandonaram a nau San Gabriel liderados pelo desertor Rodrigo de Acuña da expedição Garcia Jofre de Loaísa. O navio foi atacado por três galeões franceses e teve que fazer escala em Santa Catarina.[5] Um grupo desses desertores (provavelmente seis) viajou cerca de 300 km ao norte e chegou a Cananéia, juntando-se à cidade de Bacharel de Cananeia onde dois deles, Gonzalo de Costa e Francisco de Chávez, casaram-se com as filhas de Fernandes. Chávez foi o único europeu que sobreviveu à expedição de Aleixo Garcia ao Império Inca.

O grupo de 40 espanhóis comandados pelo tenente Ruy García de Mosquera em 1529 partiu em um brigue do Forte Sancti Spíritu, no rio Paraná, em busca de alimentos. Quando voltaram, encontraram o forte destruído, enquanto Cabot havia partido para a Espanha. Como o navio fabricado no local não era adequado para viajar para a Europa, eles decidiram ir para a costa sul do atual Brasil, onde sabiam que Bacharel de Cananeia estava.[3] Chegaram a Cananéia e se estabeleceram mais ao norte na ilha Comprida, onde fundaram o povoado de I-Caa-Para ou Iguape. Aliaram-se ao Bacharel, ajudando-o a manter sua cidade ameaçada pelos navios corsários.

Localização de São Vicente.

Expedição de Martim Afonso de Sousa[editar | editar código-fonte]

O Bacharel de Cananeia foi acusado perante o rei de Portugal, de manter relações com espanhóis, ameaçando o domínio português na região. Em 3 de dezembro de 1530 partiu de Portugal uma expedição comandada por Martim Afonso de Sousa, cujos objetivos eram primeiro estabelecer oficialmente a colonização do Brasil, confirmando o poder da coroa portuguesa lá. A expedição consistia em dois navios, duas caravelas e um galeão, tripulado por 400 homens.

Expedição portuguesa ao Império Inca[editar | editar código-fonte]

Depois de lutar contra os corsários franceses, Sousa chegou a Cananéia em 12 de agosto de 1531, onde fez contato com Bacharel de Cananeia e Chávez, fazendo com que este comandasse a expedição de seu capitão Pero Lobo Pinheiro ao Império Inca. Os oitenta integrantes da expedição de Pero Lobo Pinheiro e um grupo indígena que os acompanhava foram massacrados pelos Carijós às margens do Rio Iguaçu logo após deixarem Cananéia em 1º de setembro de 1531, frustrando a expedição.

Outeiro do Bacharel visto da barra do Icapara.

Em 26 de setembro de 1531, Sousa zarpou para o Rio da Prata, mas naufragou e voltou para Cananéia em 8 de janeiro de 1532, de onde seguiu para o norte e alcançou a ilha de São Vicente.

Fundação de São Vicente[editar | editar código-fonte]

Lá, em 22 de janeiro de 1532, fundou oficialmente a primeira cidade do Brasil: São Vicente. Os portugueses contaram com a ajuda do português João Ramalho, que chegara à região em 1513 e alcançara uma boa posição entre os indígenas Guaianás no planalto de Piratininga (atual cidade de São Paulo).

Sousa distribuiu sesmarías e fez vários edifícios, deixando São Vicente povoada e organizada. Obteve de João III a autorização para criar o sistema de capitanias hereditárias e escolheu para si os territórios onde já havia construído estabelecimentos às custas da Coroa, a Capitania de São Vicente. Essa capitania se estendeu por 45 léguas de costa, desde as vizinhanças da ilha do Mel, na Baía de Paranaguá, até Barra de Bertioga, no Cabo Frío. Bacharel de Cananeia instalou-se em São Vicente e quando Sousa soube do ocorrido com Pero Lobo Pinheiro, suspeitou que o massacre poderia ter sido planejado pelo Bacharel de Cananeia e os desertores espanhóis, por isso ordenou seu retorno a Cananéia, que era seu local de exílio. Sousa regressou a Portugal a 22 do maio de 1533, deixando a administração nas mãos de Brás Cubas.

Guerra[editar | editar código-fonte]

Temendo por sua segurança, Bacharel de Cananeia foi com a família para Iguape, onde morava seu aliado Mosquera. O Bacharel de Cananeia recebeu ali uma notificação enviada de São Vicente com a qual foi ordenado a cumprir o seu exílio em Cananéia, enquanto os espanhóis foram instados a obedecer ao Rei de Portugal João III e ao Governador Martim Afonso de Sousa. Caso contrário, foi-lhes concedido um prazo peremptório de trinta dias para abandonar a região, sob pena de morte e confisco de bens, indicando que se encontravam numa zona atribuída a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas. Mosquera respondeu que não reconhecia a jurisdição da Coroa portuguesa, uma vez que era no que entendia ser as terras da Reino de Castela.

Ficaram sabendo que Sousa preparava uma expedição sob o comando de Pero de Góis para encorajar os espanhóis a se renderem. O Bacharel de Cananeia em 1536, antes da iminência do ataque dos portugueses, com Mosquera, apoiados por duzentos índios armados com arcos e flechas, capturaram um navio corsário francês que pouco antes chegou a Cananéia em busca de mantimentos, apreendendo suas armas e munições.[6] Ruy Díaz de Guzmán descreveu a captura do navio:

A partir dessas demandas e respostas houve uma grande insatisfação entre um e outro; E nesta altura um navio de corsários franceses chegou àquela costa, que chegou à Cananea, entrou naquele porto, e os espanhóis avisados, resolveram atacar o navio, e viram desembarcar dois marinheiros, que tinham saltado para abastecer-se com os índios, numa noite muito escura cercaram o navio com muitas canoas e jangadas, nas quais iam mais de duzentos arqueiros, e levando consigo os dois marinheiros franceses, ordenaram-lhes que dissessem que vinham com refresco e comida, que tinham saído para olhar, e não havia necessidade de suspeitar, porque tudo estava muito quieto; Em seguida, aqueles que estavam no navio se protegeram e lançaram as cordas para eles, enquanto as canoas tinham tempo de chegar, e pegar as escadas para subir; e os castelhanos e índios saltando para dentro, de repente lutaram com os franceses, os rederam e levaram o navio com muitas armas e munições, e outras coisas que eles trouxeram, com cujo sucesso os espanhóis estavam muito bem equipados para qualquer evento (...)

Combates no Entrincheiramento de Iguape[editar | editar código-fonte]

Imediatamente mandaram cavar uma trincheira em frente ao povoado de Iguape, no sopé do morro conhecido como Outeiro do Bacharel onde construíram o Entrincheiramento de Iguape, guarnecendo-a com quatro das peças de artilharia do navio francês. Em seguida, providenciaram para que vinte espanhóis e 150 indígenas fizessem uma emboscada no manguezal, na foz da barra de Icapara, à espera da força portuguesa. Este, formado por oitenta homens, ao desembarcar foi recebido com fogo de artilharia, sendo frustrado. Durante a retirada, os sobreviventes foram surpreendidos pelos espanhóis emboscados na boca da barra, onde pereceram os restantes, sendo o seu capitão Pero de Góis gravemente ferido por um tiro de arcabuz.[7]

Combates em São Vicente[editar | editar código-fonte]

No dia seguinte, os espanhóis embarcaram no navio francês, precedido do navio de Pero de Góis a título de estratagema, e atacaram de surpresa a vila de São Vicente, que ocuparam e saquearam, matando dois terços dos seus habitantes e quase a deixando para trás destruído. Na ocasião do ataque à Vila de São Vicente, os espanhóis contaram com o apoio de Piquerobi, cacique da tribo Guaianá, e seu genro, o Bacharel de Cananeia.[8]

Consequências[editar | editar código-fonte]

O Bacharel enforcou seu velho amigo, que o traíra, Henrique Montes. Enquanto isso, em virtude das incursões sistemáticas das forças portuguesas, que contavam com o apoio de índios montanhosos rivais dos Carijós,[9] os espanhóis foram forçados a se retirar partindo de Iguape, primeiro para a ilha de Santa Catarina e depois para o Rio de Prata, tendo o Bacharel de Cananeia retornado a Cananéia, onde se acredita que foi assassinado pelos Carijós em 1537. Durante o cerco sofrido pelos nativos de Buenos Aires em dezembro de 1536, o avançado Pedro de Mendoza enviou Gonzalo de Mendoza em um navio à costa do Brasil em busca de comida. Em 1537 Gonzalo de Mendoza chegou à ilha de Santa Catarina e voltou a Buenos Aires com suprimentos e com García de Mosquera e seus homens.[10]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. cf. Donato, p. 89
  2. a b c Bueno, Eduardo (1998). Náufragos, traficantes e degredados: As primeiras expedições ao Brasil, 1500-1531. [S.l.]: Objetiva 
  3. a b «La Argentina manuscrita en Arte Historia» 
  4. «La Argentina. Historia del Descubrimiento y Conquista del Río de la Plata. Silvia Tiffemberg (edición crítica, prólogo y notas con la colaboración de Javier Jaque Hidalgo). Facultad de Filosofía y Letras. Universidad de Buenos Aires, 2012.ISBN 978-987-1785-55-1» (PDF). Cópia arquivada (PDF) em 28 de agosto de 2017 
  5. Wars of the Americas: a chronology of armed conflict in the Western Hemisphere, 1492 to the present, Volumen 1. Pág. 75. Autor: David Marley. Edición 2, ilustrada, revisada. Editor: ABC-CLIO, 2008. ISBN 1598841009, 9781598841008
  6. Anales de la República Oriental del Uruguay: notas para escribir la historia civil y colonial, Volumen 1, pág. 20. Autor: Mariano Balbino Berro. Publicado en 1895
  7. «HISTÓRIA DO MUNICÍPIO DE IGUAPE» 
  8. Silvana Alves de Godoy. «MARTIM AFONSO TIBIRIÇA. A NOBREZA INDÍGENA E SEUS DESCENDENTES NOS CAMPOS DE PIRATININGA NO SÉCULO XVI». Recôncavo. Consultado em 18 de março de 2019 
  9. Donato, Hernâni. Dicionário das batalhas brasileiras. Pág. 89. São Paulo: Ibrasa, 1987. ISBN 8534800340, 9788534800341
  10. Estudio histórico sobre el descubrimiento y conquista de la Patagonia y de la Tierra del Fuego. Pág. 269. Autor: Carlos Morla Vicuña. Editor: F.A. Brockhaus, 1903

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Donato, Hernâni. Dicionário das batalhas brasileiras. São Paulo: Ibrasa, 1987.
  • Luz Soriano, Simão José da. Historia da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal, comprehedendo a historia diplomatica, militar e politica d'este reino desde 1777 até 1834. Lisboa, Impr. Nacional, vol IV, 1870 p. 497.
  • YOUNG, Ernesto G. Esboço Histórico da Fundação da cidade de Iguape. Revista do IHGSP, vol II, São Paulo, 1896 pp. 49–151.