Insurreição Pernambucana

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A Insurreição Pernambucana, também referida como Guerra da Luz Divina, registrou-se no contexto da segunda das invasões holandesas do Brasil, culminando com a expulsão dos holandeses da região Nordeste do país tornando esta à coroa portuguesa.[1] Em 15 de maio de 1645, reunidos no Engenho de São João, 18 líderes insurretos pernambucanos assinaram compromisso para lutar contra o domínio holandês na capitania. O movimento integrou forças lideradas por André Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira, Henrique Dias e Filipe Camarão, nas célebres Batalhas dos Guararapes, travadas entre 1648 e 1649, que determinaram a expulsão dos holandeses do Brasil.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Até a chegada do administrador da Companhia das Índias Ocidentais (em neerlandês, West-Indische Compagnie ou WIC), Maurício de Nassau, aos territórios conquistados em 1637,[1] os portugueses empreendiam a chamada "Guerra Brasílica", um tipo de guerrilha que consistia em ataques rápidos e furtivos às forças holandesas após os quais os atacantes desapareciam rapidamente nas matas. A partir de então essas emboscadas ficariam suspensas no território da capitania de Pernambuco, uma vez que Nassau implementou uma política de estabilização nos domínios conquistados.[2]

Sob o seu governo, o nordeste brasileiro conheceu uma época de ouro: a "Nova Holanda". Ao pisar em solo pernambucano, encontrou cerca de 7.000 almas vivendo nas piores condições de higiene e habitação. Mandou construir pontes, palácios, iniciou a urbanização do que hoje é conhecido como o bairro de Santo Antônio na capital pernambucana, incentivou as artes e as ciências, retratou a natureza do novo mundo através de seus dois artistas Frans Post e Albert Eckhout. Ao todo foram 46 estudiosos dos mais variados gêneros.

Com relação à exploração da metrópole para colônia, foi tolerante com os senhores de engenho, os quais deviam muito à WIC.[1] Foi igualmente tolerante com o judaísmo e o catolicismo, deixando que se professassem todas as religiões livremente. Preferia não penhorar engenhos nem sufocar revoltas com crueldade. Enfim, procurava fazer a administração contrária ao que queriam os senhores da WIC.

Causas imediatas da Insurreição[editar | editar código-fonte]

No contexto da Restauração portuguesa, o Estado do Brasil pronunciou-se em favor do Duque de Bragança (1640),[2] assinando-se uma trégua de dez anos entre Portugal e os Países Baixos.

No nordeste do Brasil, os engenhos de cana-de-açúcar viviam dificuldades num ano de pragas e seca, pressionados pela Companhia das Índias Ocidentais, que sem considerar o testamento político de Nassau, passou a cobrar a liquidação das dívidas aos inadimplentes. Essa conjuntura levou à eclosão da Insurreição Pernambucana, que culminou com a extinção do domínio holandês no Brasil.

Contexto internacional[editar | editar código-fonte]

A Insurreição Pernambucana se insere no contexto da Guerra Luso-Holandesa (15951663), e as disputas em torno do território brasileiro não seriam, de fato, encerradas com a expulsão dos neerlandeses de Pernambuco, em 1654. A questão só seria efetivamente resolvida pela via diplomática, a partir de 1661, com a assinatura do Tratado de Haia, pelo qual Nova Holanda - denominação da colônia da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais (W.I.C.) que abrangia a porção leste da Capitania de Pernambuco - foi "vendida" a Portugal por quatro milhões de cruzados (ou oito milhões de florins), quantia equivalente a cerca de 4,5 toneladas de ouro[3], a ser paga em dinheiro ou açúcar, tabaco e sal. Ainda nos termos do acordo, os neerlandeses gozariam de benefícios alfandegários e liberdades comerciais nos territórios do império português. Em razão da demora no pagamento da indenização, um outro acordo - o Tratado de Paz, Aliança e Comércio, firmado em Haia, no dia 30 de julho de 1669[4]- determinaria a cessão da posse de Cochim e Cananor à Companhia Holandesa das Índias Orientais (V.O.C.), como garantia da penhora das prestações prometidas e não desembolsadas desde 1661, sendo a indenização restante avaliada em 2.500.000 cruzados, a serem pagos em prestações. [5][6] As liberdades comerciais neerlandesas de atuarem no império português foram reafirmadas.[7] No final da guerra, Portugal acabou por ceder o Ceilão (também invadido pela Companhia das Índias Orientais), além de suas possessões na Costa do Malabar, concederndo à República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, privilégios no comércio açucareiro.[8] Em troca, os Países Baixos reconheciam a total soberania portuguesa sobre o Brasil e Angola.

Principais figuras do movimento[editar | editar código-fonte]

Batalha dos Guararapes (óleo sobre tela por Victor Meirelles, 1879).

João Fernandes Vieira - Senhor de engenho português, era mulato e chegou ao Brasil com dez anos de idade. Na opinião do historiador Charles Ralph Boxer foi o principal lider da reconquista de Pernambuco. Conforme as palavras do historiador brasileiro Oliveira Lima, "João Fernandes Vieira, apesar de ser de cor, governou Angola e Pernambuco".[9] Em 1645 foi o primeiro signatário do pacto então selado no qual figura o vocábulo pátria pela primeira vez utilizado em terras brasileiras. Na função de Mestre-de-Campo, comandou o mais poderoso terço do Exército Patriota nas duas batalhas dos Guararapes (1648 e 1649). Por seus feitos, foi aclamado Chefe Supremo da Revolução e Governador da Guerra da Liberdade e da Restauração de Pernambuco.

André Vidal de Negreiros - brasileiro nascido na Paraíba, mobilizou recursos e gentes do sertão nordestino para lutar ao lado das tropas luso-brasileiras, um dos melhores soldados de seu tempo, tomou parte com grande bravura em quase todos os combates contra os holandeses. Foi nomeado Mestre-de-Campo, notabilizando-se no comando de um dos terços do Exército Patriota nas duas batalhas dos Guararapes.[2] Comandou o sítio de Recife que resultou na capitulação holandesa em 1654. André Vidal de Negreiros foi na opinião do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen o grande artífice da expulsão dos holandeses. Pelos seus feitos foi nomeado governador e capitão-geral das capitanias do Maranhão, de Pernambuco e o Estado de Angola.

Morro dos Guararapes, local onde foram travadas as Batalhas dos Guararapes, com Recife ao fundo. O Parque Histórico Nacional dos Guararapes é bem tombado pelo IPHAN.[10]

Filipe Camarão ou Potiguaçu - Indígena da tribo potiguar, à frente dos guerreiros de sua tribo organizou ações de guerrilha que se revelaram essenciais para conter o avanço dos invasores, destacou-se nas batalhas de São Lourenço (1636), Porto Calvo (1637) e de Mata Redonda (1638). Nesse último ano participou ainda da defesa de Salvador, atacada pelos melhores soldados de Maurício de Nassau.[2] Distinguiu-se comandando a ala direita do exército rebelde na Primeira Batalha dos Guararapes, pelo que foi agraciado com a mercê de Dom, o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo, o foro de fidalgo com brasão de armas e o título de Capitão-Mor de Todos os índios do Brasil.

Henrique Dias - Brasileiro filho de escravos, conhecido como governador da gente preta, recrutou ex-escravos afro-brasileiros oriundos dos engenhos assolados pelo conflito e dominados pelos invasores, como mestre-de-campo comandou o Terço de Homens Pretos e Mulatos do Exército Patriota nas duas batalhas dos Guararapes, suas tropas também eram denominadas Henriques ou milícias negras. Participou de inúmeros combates, distinguindo-se por bravura nos combates de Igaraçu onde foi ferido duas vezes, participou ainda da reconquista de Goiana e notoriamente em Porto Calvo em 1637, quando teve a mão esquerda estraçalhada por um tiro de arcabuz, sem abandonar o combate decidiu a vitória na ocasião. Quando D. João IV desautorizara a Insurreição Pernambucana há uma breve trégua, mas mesmo assim Henrique Dias escreve estas palavras ao holandeses "...Meus senhores holandeses...Saibam Vossas Mercês que Pernambuco é...minha Pátria, e que já não podemos sofrer tanta ausência dela. Aqui haveremos de perdar as vidas, ou havemos de deitar a Vossas Mercês fora dela. E ainda que o Governador e Sua Majestade nos mandem retirar para a Bahia, primeiro que o façamos havemos de responder-lhes, e dar-lhes as razões que temos para não desistir desta guerra". Pelos seus serviços prestados também recebeu vários títulos de fidalgo, como a a mercê do Hábito da Ordem de Cristo e a a Comenda de Soure.

Antonio Dias Cardoso - Português, foi um dos principais líderes da Insurreição Pernambucana e comandou um pequeno efetivo que venceu a batalha dos Montes das Tabocas contra uma tropa muito maior liderada diretamente por Maurício de Nassau e posteriormente também em menor número venceu em Casa Forte a tropa neerlandesa comandada pelo Tenente-coronel Hendrick Van Hans, Comandante-Geral holandês no Nordeste do Brasil. Também participou ativamente nas duas batalhas dos Guararapes quando na primeira foi subcomandante do maior dos quatro terços do Exército Patriota, tendo-lhe sido passada a investida da principal frente de batalha por João Fernandes Vieira, na segunda batalha comandou a chamada Tropa Especial do Exército Patriota, desbaratando toda a ala direita dos holandeses.

Nesta campanha começou no posto de soldado, durante a invasão de 1624 a 1625 teve sucesso ao lado de sua companhia em conter o invasor no perímetro de Salvador que estava cercada pelos melhores soldados de Maurício de Nassau, por seus feitos durante a campanha chegou rapidamente ao posto de capitão, onde foi para a reserva, mas devido ao seu reconhecido valor foi novamente convocado para lutar, era conhecedor profundo das técnicas de guerrilha dos indígenas, onde os mesmos utilizavam-se largamente de emboscadas, e em 1645 recrutou, treinou e liderou uma força de 1.200 pernambucanos mazombos insurretos, armados com armas de fogo, foices, paus, arcos e flechas, numa emboscada em que derrotaram 1.900 neerlandeses melhor equipados. Esse sucesso lhe valeu o apelido de mestre das emboscadas.

Devido a seus feitos foi lhe concedido a honra de Cavaleiro da Ordem de Cristo e o comando do Terço de João Fernandes Vieira, do qual havia sido ajudante à época da 1ª batalha dos Guararapes. Em 1656 foi nomeado Mestre-de-Campo, encerrando definitivamente a sua carreira militar. Em 1657, assumiu o governo da Capitania da Paraíba.

Devido a ter comandado a Tropa Especial do Exército Patriota e principalmente por ter operado no passado da mesma maneira que fazem atualmente as tropas de forças especiais, combatendo em menor número, sem posição fixa, usando a surpresa como elemento de combate, utilizando-se de emboscadas, recrutando população local, treinando-as em técnicas irregulares como as de guerrilha, dentre outras coisas, foi homenageado como patrono do 1º Batalhão de Forças Especiais do Exército Brasileiro e por isso é reconhecido atualmente como o primeiro operador de forças especiais do Brasil.

Nota

  1. a b c Miriam Ilza Santana (12 de março de 2008). «Insurreição Pernambucana». InfoEscola. Consultado em 26 de janeiro de 2013 
  2. a b c d Tiago Soriano (17 de março de 2010). «Insurreição Pernambucana». História Brasileira. Consultado em 26 de janeiro de 2013 
  3. «Historical Currency Converter». www.historicalstatistics.org. Consultado em 2016-11-24 
  4. Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Volume IV: 1877-1878, p.164
  5. Magalhães, Leandro Henrique. A legitimidade da restauração Portuguesa a partir do Discurso do Padre Antonio Vieira (1641-1661). Curitiba: UFPR, 2000. Capítulo Segundo - Padre Antonio Vieira: Vida e Obra.
    Citação:
    "Apesar da capitulação dos neerlandeses em Pernambuco ter sido realizada a 26 de janeiro de 1654, as negociações entre Portugal e os Países Baixos se estenderam até 6 de agosto de 1661, quando é assinado o tratado de paz entre os dois reinos, ficando Portugal com a obrigação de pagar uma indenização [...], sendo que o pagamento deveria ser realizado com o açúcar, fumo e o sal de Setúbal [cuja qualidade era considerada a melhor da Europa, sendo empregado na salga do arenque, importante atividade econômica neerlandesa]. O não cumprimento do tratado por parte de Portugal, que não pagara a indenização exigida pelos Países Baixos, levou à assinatura de um novo, em 30 de julho de 1669, onde Portugal se comprometeria a pagar a referida indenização com as regiões de Cochim e Cananor, além do sal de Setúbal, o que demonstra uma clara opção da coroa portuguesa pelo Brasil."
  6. Cabral de Mello discute Brasil como negócio. Por Ricardo Bonalume Neto. Folha de S. Paulo, 5 de dezembro de 1998 (entrevista com Evaldo Cabral de Mello, autor de O Negócio do Brasil - Portugal, os Países Baixos e o Nordeste, 1641-1669.
  7. BATISTA, Felipe de Alvarenga. Os tratados de Methuen de 1703: guerra, portos, panos e vinhos. Rio de Janeiro: PEPI/IE/UFRJ, 2014, pp 55, 118
  8. Portugal, os Países Baixos e o Brasil, por Evaldo Cabral de Mello. Novos Estudos nº 52, p. 121 (primeiro capítulo do livro O Negócio do Brasil - Portugal, os Países Baixos e o Nordeste 1641-1669. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. ISBN 8586020761
  9. Oliveira Lima. O Movimento da Independência (1821-1822). São Paulo: Melhoramentos, 1922.
  10. «Parque Histórico Nacional dos Guararapes (Jaboatão dos Guararapes, PE)». Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Consultado em 17 de janeiro de 2015 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]