Virgínia Leone Bicudo

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Virgínia Leone Bicudo
Conhecido(a) por
  • primeira profissional sem formação médica a ser reconhecida como psicanalista[1]
  • referência brasileira em estudos raciais
Nascimento 21/11/1910
São Paulo (cidade), Brasil
Morte 2003
São Paulo (cidade), Brasil
Residência Brasil
Nacionalidade brasileira
Instituições
Campo(s) Sociologia e Psicanálise
Tese Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo (1945)

Virgínia Leone Bicudo (São Paulo, 19102003) foi uma socióloga e psicanalista brasileira, a primeira não médica a ser reconhecida como psicanalista, tornando-se essencial para construção e institucionalização da psicanálise no Brasil. No campo da Sociologia, foi pioneira ao tratar do estudo das relações raciais como tema de sua dissertação de mestrado em 1945.[2][1]

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Virgínia nasceu na capital paulista, em 1910. Era filha da imigrante italiana Giovanna Leone e do descendente de escravos Theophilo Bicudo. Giovanna foi babá da filha de criação do coronel e senador Bento Augusto de Almeida Bicudo, padrinho de Teófilo. Com o apoio do coronel Bicudo, Teófilo tornou-se funcionário dos Correios e Telégrafos e depois ascendeu na instituição até chegar ao cargo de diretor de uma agência paulistana. [1]

Virgínia estudou na Escola Normal Caetano de Campos, no bairro da Luz, na cidade de São Paulo. Depois da Escola Normal, fez o curso de educação sanitária no Instituto de Higiene de São Paulo, em 1932. Já formada, tornou-se funcionária da Diretoria do Serviço de Saúde Escolar do Departamento de Educação, ministrando aulas de higiene em escolas do estado de São Paulo, onde veio a interessar-se pela Sociologia. Iniciou o curso de Ciências Sociais na Escola Livre de Sociologia e Política em 1936[1].

Faleceu em São Paulo, em 2003, aos 93 anos.

Socióloga[editar | editar código-fonte]

Recebeu o grau de bacharela em Ciências Políticas e Sociais, pela Escola Livre de Sociologia e Política, no dia 1º de março de 1939.[3]

Realizou em 1945 o Mestrado em Sociologia pela Escola Livre de Sociologia e Política, na mesma turma de Oracy Nogueira e Gioconda Mussolini, defendendo a dissertação Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo[4], primeiro trabalho de pós-graduação em Ciências Sociais no Brasil a tratar de relações raciais. Recentemente sua dissertação foi republicada e tem como mérito a recusa de formulações raciais de cunho biológico para se pensar a raça como categoria social[1].

Virgínia Leone Bicudo constatou que a discriminação racial no Brasil não só estava presente nas relações sociais como adquiria um caráter específico: configurava um preconceito que minimizava o confronto direto e impedia o desenvolvimento da consciência sobre a discriminação. Seu estudo defende a tese de que o critério da aparência calcado no branqueamento constituiria o principal determinante das oportunidades de ascensão social do negro no Brasil[1][2].

Participante do Projeto UNESCO no Brasil, coordenado por Roger Bastide e Florestan Fernandes, escreveu o relatório "Atitudes dos alunos dos grupos escolares em relação com a cor dos seus colegas", publicado em 1953, na Revista Anhembi.[1][5]

Foi uma das primeiras professoras universitárias negras no Brasil, lecionando na Universidade de São Paulo, na Santa Casa e na Escola Livre de Sociologia e Política[1].[6][7]

Psicanalista[editar | editar código-fonte]

Virgínia Bicudo foi a primeira psicanalista sem formação médica no Brasil. Iniciou sua análise com a Dra. Adelheid Lucy Koch, primeira analista credenciada pela International Psychoanalytical Association (IPA) no Brasil[1]. Em 1937, candidatou-se a membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), sendo aprovada como membro efetivo em 1945. Em 1962, foi eleita presidente da segunda diretoria do Instituto de Psicanálise, função que desempenharia até 1975.[6][5]

Em 1970, Virgínia iniciou em Brasília a análise e o ensino a um grupo de seis psiquiatras (Caiuby de Azevedo Marques Trench, Humberto Haydt de Souza Mello, Ronaldo Mendes de Oliveira Castro, Tito Nícias Rodrigues Teixeira da Silva e Luiz Meyer). O grupo foi, então, encampado pela Sociedade de Psicanálise de São Paulo, tornando-se a primeira turma da atual Sociedade de Psicanálise de Brasília.[6][5]

Difusora da psicanálise[editar | editar código-fonte]

Virgínia Bicudo trabalhou de diversas maneiras para a difusão da Psicanálise no Brasil[8][9]. Redigiu colunas na imprensa, defendendo suas ideias sobre a função social do psicanalista e participou da fundação da Sociedade de Psicanálise de Brasília. Colaborou também na criação da Revista Brasileira de Psicanálise (RBP). Em editorial de 2004, essa revista se referiu a ela como "uma das primeiras psicanalistas brasileiras com trânsito e publicações internacionais".[3][6][5]

Livros[editar | editar código-fonte]

  • BICUDO, Virgínia Leone. Nosso Mundo Mental. São Paulo: Instituição Brasileira de Difusão Cultural, 1956.
  • BICUDO, Virgínia Leone. Comunicação não-verbal como expressão de onipotência e onisciência. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, vol.37, n.4, 983-992, 2003.

Referências

  1. a b «Pioneiras da Ciência no Brasil». www.cnpq.br. Consultado em 5 de novembro de 2015 
  2. «Virgínia Bicudo: Mulher, negra e pioneira na psicanálise. Mas invisível no Brasil». HuffPost Brasil. 16 de abril de 2017 
  3. «Collaram grau os bacharelandos de 1938 pela Escola de Sociologia e Política». Correio Paulistano: 6. 2 de março de 1939. Consultado em 21 de junho de 2021 
  4. Bicudo, Virginia Leone (2010). Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. São Paulo: Sociologia e Política. 190 páginas. ISBN 9788562116032 
  5. a b c d TEPERMAN, Maria Helena Indig (2011). «Virgínia Bicudo: uma história da psicanálise brasileira». Brasília. Jornal de Psicanálise. 44. Consultado em 20 de maio de 2020 
  6. a b c d Medeiros da Silva, Mário Augusto (agosto de 2011). «Reabilitando Virgínia Leone Bicudo». Brasília. Sociedade e Estado. 26. Consultado em 20 de maio de 2020 
  7. Amendoeira, Paola (2020). «Olhares negros nos importam: o paradigma Virgínia Leone Bicudo». Revista Brasileira de Psicanálise. 54 (2): 241-249 
  8. Frausino, Carlos Cesar Marques (2020). «Um olhar sobre Virgínia Leone Bicudo». Revista Brasileira de Psicanálise. 54 (3): 227-236 
  9. Tauszik, Jean Marc (2020). «A atualidade de Virgínia Leone Bicudo». Revista Brasileira de Psicanálise. 54 (3): 237-244 

Bibliografia complementar[editar | editar código-fonte]