Actante

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Barón von Munchhausen (1862).

Actante é um termo frequentemente utilizado na semiótica e que se desenvolve no Círculo Linguístico de Praga. Originalmente foi utilizado pelo linguista francês Lucien Tesnière (1893-1954) para denotar as principais funções sintáticas (sujeito, objeto direto e objeto indireto) que dependem do verbo na sintaxe. Posteriormente o linguista lituano Algirdas Julien Greimas (1917-1992) o utilizará para determinar os participantes ativos (pessoas, animais ou coisas) em qualquer forma narrativa, seja um texto, uma imagem, um som (Greimas, A. J. y Courtes, J., 1990). Actante. In: Semiótica. Diccionario Razonado de la Teoria del Lenguaje. Madrid: Gredos, pg.23-24).

Cquote1.svg o actante é quem realiza ou o que realiza o ato.

(Greimas, 1990)

Cquote2.svg

David Herman et alii (2007), na Enciclopédia da Teoria Narrativa, afirmam que outra das fontes utilizadas por Greimas para definir o conceito de actante foram os trabalhos de Vladimir Propp sobre os contos tradicionais russos. Propp utilizara o termo esfera de ação em seus trabalhos de 1928.

Actante, Ator e Personagem na Semiótica[editar | editar código-fonte]

Para a semiótica, todo texto (visual, sonoro, escrito) é dotado de uma estrutura interna, organizada como uma narrativa. A narrativa não é apenas uma descrição de fatos em uma sequência, mas uma mudança de estado sofrida ou executada por sujeitos ou, em termos semióticos, actantes, aqueles que executam ou sofrem a ação, que estão inscritos no texto, sujeitos das funções da narrativa. Chamam-se actantes às relações gramaticais e/ou funcionais que existem entre os atores (aqueles que atuam ou recebem a ação) em uma determinada narrativa).

Segundo ainda a semiótica "ator" é um conceito mais amplo que o de "personagem", pode ser figurativo (seres divinos ou humanos, animais, objetos) ou noológico (amor, ódio, virtude etc). De acordo com as funções actanciais que exerce, o ator é investido de um papel temático, isto é, tem uma missão a executar. Exemplos: o herói, o defensor dos valores sociais; o vilão, o rebelde; o conselheiro, aquele que sabe; o pescador, quem conhece os segredos do mar, o ajudante, um computador, um vírus etc.

Esclarecendo o assunto: Greimas e seus influenciadores[editar | editar código-fonte]

Greimas, o grande nome quando se fala em atuantes, construiu seus conceitos a partir do que Vladimir Propp e Étienne Souriau já haviam dito e estudado a respeito do assunto. A discussão sobre os atuantes gira em torno da definição dos personagens por meio de suas ações. A partir daí podemos enxergar semelhanças entre praticamente todas as narrativas, sejam elas reais ou fictícias. Uma vez definidos por suas ações o personagem deixa de ser importante, o que importa é sua atuação.

Wladimir Propp classificou os personagens do conto polular russo nos seguintes atuantes: Vilão; doador- o que dá condições para a ação; adjuvante- aquele que ajuda o herói; pessoa ou objeto procurado; o mandante; herói; falso herói. E. Souriau foi mais enigmático quando nomeou os atuantes que via no Teatro, chamando-os de: Leão- força temática orientada; Sol- representante do bem desejado; Terra- para quem o leão trabalha; Marte- o oponente; Balança- o árbitro que atribui o bem; Lua- o auxílio. [1]

Um modelo mais amplo[editar | editar código-fonte]

A partir destas definições Greimas chega à conclusão de que há um número restrito de atuantes. Toda narrativa terá, independentemente de quais sejam seus personagens, o mesmo grupo de atuantes. Ele acredita que nos dois modelos (de Propp e Sourriau) é possível visualizar a relação entre “sujeito” (aquele que pratica a ação) e “objeto” (aquele que sofre a ação), relação que é norteada pelo “desejo” e pela “procura”. Além de sujeito X objeto Greimas também observou a relação do destinador (aquele que anuncia, proporciona a ação) X o destinatário (aquele a quem a ação será dirigida) e a do adjuvante (o que facilita a ação) X o oponente (o que a dificulta). Este modelo é considerado mais abrangente, uma vez que pode ser aplicado em qualquer narrativa e não apenas ao conto popular russo ou ao Teatro. [2]

Para um melhor entendimento, é preciso tratar de alguns exemplos. E aqui usaremos o cinema para ilustrar os atuantes.

Atuantes no cinema[editar | editar código-fonte]

As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o guarda-roupa[editar | editar código-fonte]

No filme “As Crônicas de Nárnia – O Leão, a Feiticeira e o guarda-roupa” podemos definir os personagens da seguinte forma:

Sujeito- Os quatro irmãos: Lúcia, Susana, Pedro e Edmundo.

Objeto- A paz em Nárnia (ligada ao fim do inverno)

Destinador- Aslan, o leão.

Destinatário: Nárnia

Adjuvante: esquilos, fauno, árvores

Oponente: A Feiticeira Branca.

Quem quer ser um milionário[editar | editar código-fonte]

Em “Quem quer ser um milionário” (Slumdog millionaire) a localização dos atuantes não é tão simples. Podemos identificar facilmente Jamal como Sujeito e o prêmio em dinheiro como o Objeto. No entanto, não se pode esquecer que a história de amor entre Jamal e Latika chega a ser mais importante que o programa “Who wants to be a millionaire”, do qual Jamal participa apenas pela chance de que Latika o veja.

Em uma história banal de amor, Greimas diz que o homem cumpre o papel de Sujeito + Destinatário (o que pratica a ação e quem se beneficiará através dela) e a mulher cumpre o de Objeto + Destinador (o que sofre a ação e ao mesmo tempo a motivação para que o sujeito busque o objeto). Ao aplicarmos isto na história de Jamal e Latika, porém, temos que nos lembrar que o grande destinador sugerido pelo filme inteiro é o próprio destino, ela é quem dá condições para que tudo aconteça. Sendo assim ficaremos com a seguinte classificação. [3] [4]

Sujeito/Destinatário- Jamal

Objeto - Latika

Destinador- O próprio destino (“estava escrito”)


E incluindo agora os outros atuantes


Adjuvante- a versão indiana do programa “Who wants to be a millionaire”, por meio do qual ao final os dois se encontram.

Oponente- Salim, que, exceto no final da história, impede o romance dos dois.

Quadro de Agentes da Narrativa segundo Propp,Étienne Souriau, Greimas[editar | editar código-fonte]

Propp
Souriau
Greimas
Força temática orientada
Sujeito
Ser amado ou desejado
Representante do bem desejado
Objeto
Doador ou provedor
Árbitro atribuidor do bem
Destinador
atribuidor
Conquistador virtual do bem
Destinatário
Ajudante
Auxílio, reduplicação de uma das forças
Ajudante
Vilão ou agressor
Oponente
Oponente
Traidor ou falso herói
***
Oponente

Referências[editar | editar código-fonte]

  • Beristáin, H. (1985). Actante. En: Diccionario de retórica y poética. México: Porrúa.
  • Bal, Mieke. Teoría de la Narrativa. Ed. Cátedra. Madrid, 1990.
  • Greimas, A. J. y Courtes, J. (1990). Actante. In: Semiótica. Diccionario razonado de la teoría del lenguaje. Madrid: Gredos.
  • Herman, David (2007). Routledge Encyclopedia of Narrative Theory. NY: Routledge. ISBN 0415775124.
  • Igor Mel’cuk. Actants in Semantics and Syntax I. Actants in Semantics. Universidade de Montreal
  • Lazard, Gilbert (1994). L'actance. Paris, Presses Universitaires de France,coll. « Linguistique nouvelle »,(ISBN 2-13-045775-4). Versão em inglês. Actancy. Walter de Gruyter Eds: ISBN 3110156709.
  • Prince, Gerald (1989). Dictionary of Narratology. Lincoln: Univ of Nebraska.
  • Propp, Vladimir (2003). As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso. SP: Martins, ISBN 8533617216.
  • Tesnière, Lucien (1959). Éléments de syntaxe structural. Klincksieck, Paris, 2nd ed. 1966. ISBN 2-252-01861-5.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Georges Polti, Les XXXVI situations dramatiques. Éditions d’aujourd’hui, 1980 (1895).
  • Étienne Souriau, Duzentas Mil Situações Dramáticas. São Paulo: Ática, 1993 (Francês, 1950).
  • Vladimir Propp, Morfologia do Conto Maravilhoso. São Paulo: Forense, 2006 (Rússia, 1928).
  • Lucien Tesnière, Elementos de Sintaxe Estrutural. Gredos, Madri, 1994 (1959).
  • Algirdas Julien Greimas, Semantica Estrutural. Gredos: Madri, 1987 (1966).
  • ---. 1973. "Actants, Actors, and Figures." On Meaning: Selected Writings in Semiotic Theory. Trans. Paul J. Perron and Frank H, Collins. Theory and History of Literature, 38. Minneapolis: U of Minnesota P, 1987. 106-120.
  • Julia Kristeva, O Texto do Romance, Horizonte Universitário: São Paulo, 1984 (1967).
  1. GREIMAS, A. J. Semântica estrutural: pesquisa de método. São Paulo: Cultrix, 1973, p.225-250
  2. GREIMAS, A. J. Semântica estrutural: pesquisa de método. São Paulo: Cultrix, 1973, p.225-250
  3. GREIMAS, A. J. Semântica estrutural: pesquisa de método. São Paulo: Cultrix, 1973, p.225-250
  4. Pogozelski, Rita de Cássia de Oliveira. Ressignificação do sujeito : um olhar autopoiético disparado pelas narrativas. Santa Cruz do Sul, setembro de 2010.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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