Crise na Costa do Marfim de 2010–2011
A crise na Costa do Marfim foi iniciada após o segundo turno da eleição presidencial de 2010, a primeira em dez anos, quando os dois candidatos, Laurent Gbagbo, presidente do país desde 2000, e Alassane Ouattara, candidato da oposição, reivindicaram a vitória. Vários governos estrangeiros, organizações e líderes mundiais reconheceram Ouattara como o real vencedor das eleições. Após meses de tentativa de negociação, a crise entrou numa fase decisiva, com a intensificação de confrontos entre as forças leais a Gbagbo e os grupos paramilitares favoráveis a Ouattara (que ele chama de Forças Republicanas), constituídos por antigos rebeldes da insurreição de 2002, que dividiu o país em dois, e ex-partidários de Gbagbo.1
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Histórico [editar]
A crise iniciou-se como uma conseqüência dos resultados eleitorais obtidos no segundo turno das eleições presidenciais, realizadas em 28 de novembro de 2010, que deram como vencedor o candidato da oposição, Alassane Ouattara, por uma margem estreita votos. No entanto, a intervenção do Conselho Constitucional e a lealdade das forças armadas a Gbagbo permitiram-lhe manter-se no poder, apesar do parecer desfavorável e da pressão exercida pela comunidade internacional.
Resultados da eleição presidencial [editar]
Em 28 de novembro de 2010, o segundo turno da eleição foi disputado entre o presidente Laurent Gbagbo e Alassane Ouattara, antigo primeiro-ministro do país (1990-1993).
Em 2 de dezembro, Youssouf Bakayoko, presidente da Comissão Eleitoral Independente anuncia a vitória de Alassane Ouattara, com 54,1% dos votos, contra 45,9% dados a Laurent Gbagbo, com uma taxa de participação de 81,09 % dos eleitores. O anúncio dos resultados havia sido adiado várias vezes e aconteceu após a data limite. A imprensa foi surpreendida com o anúncio no Hôtel du Golf, que estava sob proteção das forças da ONUCI2 . Bakayoko teria feito o anúncio nesse hotel - também escolhido por Ouattara como quartel general da campanha - justamente por contar com a proteção das forças da ONU.3 .
O fator desencadeante da crise foi principalmente o fato de Laurent Gbagbo e alguns membros do seu gabinete não se conformarem com os resultados das eleições, instigando o Conselho Constitucional a manipular os resultados, de modo a dar a vitória ao presidente em exercício.
Paul Yao N'Dre, presidente do Conselho Constitucional, próximo do presidente Gbagbo,4 5 declarou que a Comissão Eleitoral Independente não tinha mais autoridade para anunciar os resultados, pois, já que a data limite havia sido ultrapassada, os resultados eram inválidos.3 6 Segundo N'Dre, após a data limite, somente o Conselho Constitucional estaria habilitado a anunciar os resultados.3 .
Após o anúncio da vitória de Outtara pela Comissão Eleitoral, os militares fecharam as fronteiras do país.3 .
Em 3 de dezembro, o Conselho Constitucional declara Gbagbo vencedor. 7 . N'Dre anuncia que os resultados de sete regiões do norte foram anulados. Isto inverte os resultados em favor de Gbagbo, que passa então a ter 51,45 % dos voto, enquanto Ouattara passa a ter 48,55 %8
Paralelamente, o enviado especial da ONU à Costa do Marfim, Young-jin Choi, reconhece a vitória de Ouatarra :
- "Os resultados do segundo turno da eleição presidencial, tal como anunciados em 2 de dezembro pela comissão eleitoral não mudam, o que confirma que o candidato Alassane Ouattara venceu o escrutínio."9 .
Com base nos resultados anunciados pela comissão eleitoral e contando com o apoio da ONU, Ouatarra sustenta que ele é o presidente eleito e acusa o Conselho Constitucional de abuso de autoridade.10 :
- "Estou consternado por causa da imagem do meu país, mas o fim do processo é a validação pelo representante especial da ONU, e é essa validação que confirma que sou eu o vencedor."9 .
O primeiro-ministro e chefe da coalizão Forces Nouvelles, Guillaume Soro apoia a vitória de Ouattara11 e pede demissão do posto de primeiro-ministro a Gbagbo, em 4 de dezembro 12
Gbagbo toma posse em 4 de dezembro e declara:
- "A soberania da Costa do Marfim é o que devo defender e eu não a negocio."13 .
Gbagbo nomeia Gilbert Aké, um economista próximo a ele, como primeiro-ministro14 .
Ouatarra, por sua vez, faz o juramento presidencial pouco depois e declara:
- "Eu gostaria de dizer que a Costa do Marfim está agora em boas mãos."15
Outtara confirma Guillaume Soro como primeiro-ministro.15 .
A comunidade internacional (destacando-se a União Europeia, Estados Unidos,União Africana e Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), além da Organização das Nações Unidas, posiciona-se a favor dos resultados proclamados pela Comissão Eleitoral que deram Ouattara como o vencedor na eleição.
Em diferentes partes do país, já chegavam então notícias de confrontos violentos.11
Confrontos [editar]
Em março de 2011 começam os combates diretos entre os rebeldes de Ouattara e as forças do governo, nas principais cidades do país, resultando em cerca de mil civis mortos no oeste marfinense, além de aproximadamente de 450 mil refugiados,16 chegando a luta às ruas da maior cidade do país, Abidjan em abril de 2011, com combates e fogo de artilharia em torno do palácio presidencial e da televisão estatal.17
Em Abidjan [editar]
A partir de 22 de fevereiro e durante todo o mês de março de 201118 , houve confrontos na principal cidade do país, Abidjan, entre o chamado "Commando Invisible", liderado por Ibrahim Coulibaly, dito "IB", e tropas leais a Laurent Gbagbo. Não é claro, porém, que esse grupo armado seja favorável a Ouattara.19 Esses confrontos ocorreram principalmente em Abobo (cuja população votou majoritariamente em Ouattara), mas também em Adjamé, no norte de Abidjan, Yopougon, Koumassi e Treichville. A Missão da ONU na Costa do Marfim (ONUCI) acusa os partidários de Laurent Gbagbo de atirar em civis, fazendo uma dezena de mortos em Abobo.20
No oeste do país [editar]
No início de março de 2011, explode um conflito em Moyen-Cavally, no oeste da Costa do Marfim. Em 18 de fevereiro de 2011, a ONUCI se retira de Toulépleu.21 . Em 6 de março, após os combates, as Forces nouvelles, pró-Ouattara, tomam Toulépleu a milicianos e mercenários liberianos. 22 Em 13 de março, Doké é controlada pelas Forces Nouvelles.23 . Em 21 de março, é a vez de Bloléquin,24 após a criação das Forças Republicanas da Costa do Marfim (Forces républicaines de Côte d'Ivoire, FRCI).25 Em 28 de março, é a cidade de Duékoué que cai.26 Isto permite às FRCI ter acesso às estradas que levam ao porto de San-Pédro, situado a pouco mais de 300km, na região do Bas-Sassandra, e à capital política, Yamoussoukro.
Em 2 de abril, a Organização das Nações Unidas responsabilizou as forças do presidente eleito, Ouattara, por pelo menos 220 das 330 mortes já confirmadas durante a tomada da cidade de Duékoué. As demais teriam sido causadas pelas tropas fiéis a Gbagbo. 27 No mesmo dia, a organização de assistência humanitária Caritas, ligada à Igreja Católica, informou que mais mil civis morreram durante os confrontos em Duékoué. Representantes da Cruz Vermelha estimavam em 800 o número de mortes em combates na cidade ao longo da semana. 28
Generalização do conflito [editar]
Em 28 de março, paralelamente à ofensiva contra Duékoué, as FRCI atacam Daloa, no centro-oeste, e Bondoukou, no leste,29 da qual assumem o controle em 29 de março.30 . Em 30 de março, as tropas pró-Ouattara tomam Soubré31 , Tiébissou,32 Gagnoa,33 Guibéroua,33 , Bocanda,33 San-Pédro,34 e finalmente entram na capital, Yamoussoukro.35 36 .
Em 31 de março, a capital econômica do país, Abidjan, foi totalmente cercada pelas forças pró-Ouattara. Em algumas horas, muitos membros do exército e da polícia desertam, tal como o próprio chefe do estado-maior, general Philippe Mangou, que busca refúgio na embaixada da África do Sul, juntamente com sua família. As tropas ainda fiéis a Gbagbo se reagruparam em torno do palácio presidencial.37 .
Na tarde de 11 de abril, tropas da ONU e do presidente-eleito Ouattara fizeram o assalto final ao palácio presidencial, prendendo e depondo o presidente Gbagbo, levado para um hotel em Abdijan, onde foi mantido sobre supervisão da ONU, encerrando a luta de meses pelo poder no país.38 39
Situação humanitária [editar]
Os conflitos na Costa do Marfim provocaram o deslocamento de quase um milhão de pessoas40 , sobretudo provenientes do oeste do país e da comuna de Abobo. Essas pessoas se dirigem em primeiro lugar a outras áreas da Costa do Marfim, onde existem 735.000 refugiados,41 mas também à Libéria, onde há 120.000 refugiados, 42 e a vários outros países vizinhos: Gana, Guiné, Togo, Mali, Nigéria, Níger, Benin e Burkina Fasso41 .
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Campo de Bahn, condado de Nimba (Libéria), a 50 km da fronteira marfinense.
Referências
- ↑ Adam Nossiter (31 de março de 2011). Ivory Coast Battle Nears Decisive Stage in Key City. The New York Times.
- ↑ "Ivory Coast's Ouattara wins vote - election chief", por David Lewis e Loucoumane Coulibaly. Reuters, 2 de dezembro de 2010.
- ↑ a b c d "Ivory Coast seals borders after opposition win" por David Lewis eo Tim Cocks, Reuters, 2 de dezembro de 2010.
- ↑ N'Dre foi nomeado para presidir o Conselho Constitucional por Gbagbo, em 8 de agosto de 2009.
- ↑ Paul Yao-N'Dré, la dernière carte de Gbagbo por Cheikh Yerim Seck. Jeune Afrique, 13 de agosto de 2009.
- ↑ "Ouattara named winner of I.Coast election", por Christophe Koffi. AFP, 2 de dezembro de 2010.
- ↑ "Ivory Coast poll overturned: Gbagbo declared winner", BBC news, 3 December 2010.
- ↑ "Constitutional body names Gbagbo I.Coast election winner", AFP, 3 December 2010.
- ↑ a b Alassane Ouattara vainqueur du scrutin ivoirien, dit l'Onu sur lexpress.fr
- ↑ "World leaders back Ouattara as Ivory Coast poll winner", BBC News, 3 December 2010.
- ↑ a b "Ivory Coast's Gbagbo sworn in despite poll row", por Tim Cocks e Loucoumane Coulibaly. Reuters, 4 de dezembro de 2010.
- ↑ "Defiant Gbagbo sworn in as I.Coast president", por Roland Lloyd Parry. AFP, 3 de dezembro de 2010.
- ↑ Laurent Gbagbo : «Je ne négocie pas la souveraineté de la Côte d’Ivoire», por Fabrice Tété. Lynxtogo.info, 6 de dezembro de 2011.
- ↑ "Côte d'Ivoire: Laurent Gbagbo nomme à son tour son Premier ministre", AFP, 5 de dezembro de 2010 (em francês).
- ↑ a b Cote d'Ivoire: Le président Alassane Ouattara - "Le pays est en de bonnes mains" sur allafrice.com
- ↑ Ivory Coast crisis: 'Nearly 450,000 refugees' (em inglês). BBC. Página visitada em 03/04/2011.
- ↑ Ivory Coast: Battle for Abidjan intensifies. BBC News (3 de abril). Página visitada em 03/04/2011.
- ↑ Côte d`Ivoire: la crise depuis le second tour de la présidentielle. AFP 4 de março de 2011.
- ↑ Le "commando invisible" d'Abidjan, anti-Gbagbo ou pro-Ouattara ?, por Guy Kerivel. Reuters, 27 de março de 2011.
- ↑ « Côte d'Ivoire: Ouattara prend le pas sur Gbagbo », L'Humanité, 30 de março de 2011.
- ↑ Sécurité de l`Ouest : Le contingent Onuci de Toulépleu démantelé. Le Nouveau Reveil / Abidjan.net, 18 de fevereiro de 2011.
- ↑ Les Forces Nouvelles ont pris Toulépleu, por Laurent Beugré. Le Nouveau Réveil, 7 de março de 2011.
- ↑ Côte d'Ivoire : La ville de Doké aux mains des forces nouvelles Lesafriques
- ↑ Bloléquin occupée par les Forces nouvelles - L’entrée et la sortie de Guiglo bloquées par les Fds, por Blaise Bonsie. Inter, 22 de março de 2011.
- ↑ Côte d’Ivoire: Alassane Ouattara met en place les Forces républicaines de Côte d'Ivoire sur afriquejet.com
- ↑ Les pro-Ouattara revendiquent la prise de Duékoué Nouvelobs
- ↑ ONU responsabiliza presidente eleito por massacre na Costa do Marfim. O Globo, 3 de abril de 2011.
- ↑ Organização católica aponta mil mortos em Costa do Marfim. Folha de São Paulo, 2 de abril de 2011.
- ↑ Sécurisation des villes du pays - Les Frci avancent, Gbagbo négocie, por Kesy B. Jacob. Nord-Sud, 29 de março de 2011.
- ↑ Côte d`Ivoire: les forces pro-Ouattara contrôlent Bondoukou (est). AFP, 29 de março de 2011.
- ↑ Les pro-Ouattara prennent Soubré. AFP, 30 de março de 2011.
- ↑ Côte d'Ivoire : la capitale aux mains des pro-Ouattara. AFP, 30 de março de 2010.
- ↑ a b c Opération "restaurer la paix et la démocratie en Côte d’Ivoire" - Gagnoa, Guibéroua, Bocanda et San-Pedro aux mains des FRCI. Le Patriote, 31 de março de 2011.
- ↑ Romandie News, 31 de março de 2011.
- ↑ Des combattants pro-Ouattara sont entrés à Yamoussoukro. AFP, 30 de março de 2011.
- ↑ Côte d`Ivoire: les forces pro-Ouattara contrôlent Yamoussoukro (habitants). AFP, 30 de março de 2011.
- ↑ Figaro 31 de março de 2011
- ↑ Stearns, Scott. Ivory Coast's Gbagbo Captured at Presidential Compound. Voice of America. Página visitada em 11/04/2011.
- ↑ Gbagbo, wife in Ouattara's custody in I.Coast: UN. Reuters. Página visitada em 11/04/2011.
- ↑ Près d'un million de déplacés en Côte d'Ivoire, selon le HCR. Radio-Canada.ca/Agence France Presse/ Reuters, 25 de março 2011
- ↑ a b Réfugiés : «L’exode dans la panique», carte page 4, Libération, 1º de abril de 2011.
- ↑ Hundreds Die In Battle For Ivory Coast City. Sky.com, 2 de abril de 2011
Bibliografia [editar]
- Bah, Abu Bakarr. (2010). "Democracy and civil war: Citizenship and peacemaking in Côte d'Ivoire". African Affairs 109 (437): 597–615. DOI:10.1093/afraf/adq046.
- Collier, Paul. Wars, Guns, and Votes: Democracy in Dangerous Places. Nova York: Harper Perennial. Capítulo: Meltdown in Côte d'Ivoire, 155–168 p. ISBN 9780061479649
- Zounmenou, David. (2011). "Côte d'Ivoire's post-electoral conflict: what is at stake?". African Security Review 20 (1): 48–55. DOI:10.1080/10246029.2011.561011.
Ver também [editar]
- História da Costa do Marfim
- Guerra civil da Costa do Marfim
- Wikisource: Constituição de 2000 (em francês)
- Wikisource: Relatório da ONU sobre as violações de direitos humanos na Costa do Marfim desde 2002 (em francês).