Delmiro Augusto da Cruz Gouveia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Delmiro Gouveia, industrial brasileiro


Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, mais conhecido como Delmiro Gouveia, (Ipu, Ceará, 5 de junho de 1863Pedra, Alagoas, 10 de outubro de 1917), um industrial brasileiro, foi um dos pioneiros da industrialização do país, e do aproveitamento do seu potencial hidroelétrico, tendo construído a segunda usina hidroelétrica do Brasil , sendo a primeira a Usina de Marmelos construída por Pacifico Mascarenhas, inaugurada em 11/12/1898, conforme o historiador Abílio Barreto (Alysson Mascarenhas Vaz pag. 358).1

Primeiros anos de vida[editar | editar código-fonte]

Nasceu na Fazenda Boa Vista, no município cearense de Ipu, sendo filho natural do cearense Delmiro Porfírio de Farias e da pernambucana Leonila Flora da Cruz Gouveia. Sua família transferiu-se em 1868 para o estado de Pernambuco, onde se estabeleceu na cidade de Goiana, mudando-se para o Recife em 1872.

Com a morte de sua mãe teve que começar a trabalhar aos 15 anos de idade, em 1878, inicialmente como cobrador da Brazilian Street Railways Company no trem urbano, denominado maxambomba. Posteriormente chegou a Chefe da Estação de Caxangá, no Recife. Foi despachante em armazém de algodão.2

Em 1883 foi ao interior de Pernambuco, interessado no comércio de peles de cabras e de ovelhas, que passou a negociar, tendo obtido grande sucesso. Em 1886 estabeleceu-se no ramo de couros e passou a trabalhar, por comissão, para o imigrante sueco Herman Theodor Lundgren (Casas Pernambucanas) e para outras empresas especializadas nesse comércio, como a Levy & Cia. Trabalhava também por conta própria. Em 1896 fundou a empresa Delmiro Gouveia & Cia e passou a alijar seus concorrentes do mercado, empregando os melhores funcionários das empresas concorrentes.3

Principais realizações[editar | editar código-fonte]

Em 1899, inspirado pela Feira Internacional de Chicago de 1893, inaugurou no Recife o Derby, um moderno centro comercial e de lazer, que pode ser considerado o primeiro shopping center do Brasil. Esse empreendimento foi um grande sucesso e motivo de orgulho para o Recife, e chegou a atrair multidões estimadas em mais de 8 mil pessoas, até que foi deliberadamente incendiado em 2 de janeiro de 1900 pela polícia de Pernambuco, por orientação do Conselheiro Rosa e Silva, que era feroz inimigo político de Delmiro, e a mando do então governador Sigismundo Gonçalves , fiel rocista.4

Após o incêndio, ateado por razões políticas no Derby, e também em virtude de ter-se apaixonado por, e depois raptado, uma filha natural de 16 anos do então governador de Pernambuco, seu arqui-inimigo político, Delmiro concluiu que sua vida corria perigo no Recife e transferiu-se, em 1903, para Pedra, em Alagoas, uma povoação perdida no coração do sertão, mas de localização estratégica para seu comércio, na Microrregião Alagoana do Sertão do São Francisco, fazendo fronteira com Pernambuco, Sergipe e Bahia, e hoje denominada Delmiro Gouveia em sua homenagem. Delmiro comprou uma fazenda em Pedra, às margens da Ferrovia Paulo Affonso, onde centralizou seu lucrativo comércio de peles e construiu currais, açude, sua residência, e prédios para abrigar um curtume.2

Planejando construir ali uma fábrica de linhas de costura - que até então eram importadas da Inglaterra, as conhecidas Linhas Corrente, que monopolizavam o mercado brasileiro - e apelando para ideais nacionalistas, nativistas e cívicos então em voga, conseguiu do governo de Alagoas concessões que incluíam o direito à posse de terras devolutas, isenção de impostos para a futura fábrica, e permissão para captar energia da cachoeira de Paulo Afonso, além de recursos governamentais para ajudar na construção de 520 quilômetros de estradas ligando Pedra a outras localidades.2 5 A partir de 1912 iniciou a construção da fábrica de linhas e da Vila Operária da Pedra, com mais de 200 casas de alvenaria. . Em 26 de janeiro de 1913 inaugurou a primeira hidroelétrica do Brasil com potência de 1.500 HP na queda de Angiquinho. Em 1914 iniciou as atividades da nova fábrica sob a razão social Companhia Agro Fabril Mercantil, produzindo as linhas com nome comercial "Estrela" para o Brasil, e "Barrilejo" para o resto da América Latina. Com preços muito abaixo das "Linhas Corrente", produzidas na Inglaterra pela Machine Cotton, que até então monopolizava o mercado de linhas de costura em toda a América Latina,5 logo dominou o mercado brasileiro, e amplas fatias dos mercados latinoamericanos.4

O sucesso da empresa - que em 1916 já produzia mais de 500.000 carretéis de linha por dia - chamou a atenção do conglomerado inglês Machine Cotton, que tentou por todos os meios comprar a fábrica.5 Por motivos políticos e questões de terras, Delmiro Gouveia entrou em conflito com vários coronéis da região, o que provavelmente, segundo a maioria dos historiadores, ocasionou seu misterioso assassinato à bala. Outros historiadores - apoiados no conceito de Direito Romano qui prodest? - a que isto serviu? a quem isto aproveitou? - incluem a Machine Cottton no rol dos suspeitos.6 Seus herdeiros, não resistindo às pressões da Machine Cotton, venderam a fábrica à empresa inglesa, detentora na América Latina da marca "Linhas Corrente", que mandou destruir as máquinas, demolir os prédios, e lançar os maquinários e escombros no rio São Francisco, livrando-se assim de uma incômoda concorrência.2 7

Destaques[editar | editar código-fonte]

Construiu a primeira hidrelétrica do Brasil, uma usina com potência de 1.500 HP, na queda de Angiquinho, uma cachoeira em Paulo Afonso. "Ele exportava peles de bode para a moda de Nova Iorque um século antes de se ouvir falar por aqui no tal do mundo 'fashion'",1 diz um artigo. Em 1899 inaugurou em Recife o primeiro shopping center do Brasil, o Derby, um centro comercial e de lazer com mercado, hotel, cassino, velódromo, parque de diversões e loteamento residencial.2 Em 1914 fundou a Companhia Agro Fabril Mercantil, a primeira na América do Sul a fabricar linhas para costura e fios para malharia. Após seu assassinato - até hoje não bem esclarecido - o maquinário original da Companhia Agro Fabril Mercantil foi atirado em um penhasco do rio São Francisco pelo grupo escocês Machine Cotton que comprou a empresa de seus sucessores, para destruí-la, livrando-se da assim da sua concorrência no ramo.1

Cronologia[editar | editar código-fonte]

  • 1863 – Nasce Delmiro, no Distrito de Santo Izidro, Ipu.
  • 1868 – Transferência para Pernambuco
  • 1883 – Compra e exportação de peles
  • 1886 – Ramo de couros
  • 1896 – Casa Delmiro Gouveia e Cia
  • 1898 – Construção do mercado modelo no Derby (Recife)
  • 1903 – Escolhe a vida da Pedra (280 km de Maceió, capital de Alagoas), atual Delmiro Gouveia.
  • 1910 – Aproveitamento da cachoeira de Paulo Afonso
  • 1912 – Cia Agro Fabril Mercantil e construção da Vila Operária Padrão
  • 1913 – Energia hidrelétrica da queda de Angiquinho, Cachoeira em Paulo Afonso.
  • 1914 – Fabrica Estrela de linhas para costura
  • 1917 – Morre assassinado aos 54 anos.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • A Província, Recife, 27 dez. 1899. p. 1.
  • A Província, Recife, 29 dez. 1899. p. 1.
  • CAMARA, Phaelante da. A viagem do futuro Presidente. A Província, Recife, 13 mai. 1906. p. 1.
  • CAVALCANTI, Plínio. A Chanaan sertaneja da Pedra (escriptos sobre a obra realisada por Delmiro Gouveia no Nordeste do Brasil). Rio de Janeiro, 1927.
  • CHATEAUBRIAND, Assis. Uma Resposta a Canudos. In: Resposta a Canudos : reportagens e ensaios. Recife: COMUNICARTE; Brasília: Fundação Assis Chateaubriand, 1990. p. 59-71.
  • CHATEAUBRIAND, Assis. O Rei e o Senhor do Chifre Pequeno. O Jornal. Rio de Janeiro, 16 jun. 1963. Primeiro Caderno. p. 3.
  • Cia. Agro Fabril Mercantil. Correio da Pedra, Pedra, 12 ago. 1923. p. 1.
  • Delmiro Gouveia, Correio da Pedra, Pedra, 22 out. 1922. p. 1. (transcrição de matéria publicada no Jornal do Commercio, Recife, 10 out. 1922).
  • Derby. Jornal Pequeno, Recife, 27 jan. 1900. p. 2.
  • Espere um pouco. A Província, Recife, 10 jan. 1900. p. 1.
  • FIGUEROA, Salomão. Uma visita a Pedra e a Cachoeira de Paulo Affonso. Correio da Pedra, Pedra, 23 set. 1925. p. 1 e 2.
  • FREYRE, Gilberto. O Velho Félix e suas Memórias de um Cavalcanti. Rio de Janeiro,José Olympio Ed., 1959.
  • GÓES, Lauro. Recordações de um passado relativamente bem vivido, mas que jamais desejaríamos fazê-lo reviver (1914-1917). Recife, 1962. p. 7. (manuscrito).
  • GOUVEIA, Delmiro. A Província, Recife, 1 jan. 1898. p. 2.
  • GOUVEIA, Delmiro. O Sr. Rosa e Silva. Jornal do Commercio, Publicações a Pedido. Rio de Janeiro, 28 jun. 1899. p. 4
  • GOUVEIA, Delmiro. O Vice-attentado. Jornal do Commercio, Publicações a Pedido. Rio de Janeiro, 7 jul. 1899. p. 4.
  • GOUVEIA, Delmiro. Os dous Rosas. Jornal do Commercio, Publicações a Pedido. Rio de Janeiro, 12 jul. 1899. p. 3.
  • GOUVEIA, Delmiro. Rosa Vice-Presidente e Rosa Sabe Tudo. Jornal do Commercio, Publicações a Pedido. Rio de Janeiro, 21 jul. 1899. p. 4.
  • GOUVEIA, Delmiro. Os Rosas. A prova documental. Jornal do Commercio, Publicações a Pedido. Rio de Janeiro, 1 ago. 1899. p. 5.
  • GOUVEIA, Delmiro. Ao Público. A Província, Recife, 5 jan. 1900. p. 2.
  • LAGE, N. L. (Org.) Os Enigmas da Nossa História. 1ª ed. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1981. v. 12. 3.500 p.
  • LAGE, N. L. Delmiro Gouveia: Seu Crime Foi Plantar a Fartura no Sertão. In: Nilson Lemos Lage. (Org.). Os enigmas de nossa História. 1a. ed. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1981, v. 5°., p. 7-52.
  • LIMA JÚNIOR, Félix. Delmiro Gouveia: o Mauá do Sertão alagoano. Coleção Vidas e Memórias. Maceió, Departamento de Cultura/ Gov. de Alagoas, 1963.
  • MARCOVITCH, Jacques. Pioneiros e empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil. São Paulo: EdUSP, 2005, ISBN 9788531410482
  • MARTINS, F. Magalhães. Delmiro Gouveia não Morreu. A Saga do Comerciante e Industrial. Delmiro Gouveia, Museu Delmiro Gouveia/ Fundação Ormeo Junqueira Botelho, 1989.
  • MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Recife, CEPE, 1991.
  • MENEZES, Olympio. Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife, IJNPS/MEC, 1963.
  • No Derby. Jornal Pequeno, Recife, 27 dez. 1899. p. 2.
  • O ASSASSINATO do coronel Delmiro Gouveia. Diario de Pernambuco, Recife, 12out. 1917. (Confirma o boato do atentado contra Delmiro Gouveia e traz breve histórico da sua vida e obra.)
  • Paris no Derby. Jornal Pequeno, Recife, 11 set. 1899. p. 2.
  • Rosa e Silva. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 jul. 1899. p. 1.
  • SANTOS, Adolpho. Delmiro Gouveia. Depoimento para um estudo biográfico. Recife, 1947. (mimeo.). 44p.
  • SEGALL, Maurício. O Coronel dos Coronéis. Folha de São Paulo, São Paulo, 2 mar. 1980. Folhetim, p. 5.
  • WRIGHT, Marie Robinson. The New Brazil. It’s Resourses and attractions. Historical, Descriptive and Industrial. Philadelphia, George Barrie & Son, 1901.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Filmes[editar | editar código-fonte]

  • Delmiro Gouveia: O Homem e a Terra - Direção: Geraldo Sarno Roteiro: Texto: Cleber Neves Araújo, Documentário, P&B, 90 min, Rio de Janeiro, 1971
  • Coronel Delmiro Gouveia - Direção: Geraldo Sarno - Roteiro: Geraldo Sarno, Orlando Senna, Ficção, Colorido, 90 min. Rio de Janeiro 1978

Referências

  1. a b c Delmiro Gouveia. Agência Brasil, 4 de agosto de 2003
  2. a b c d e CORREIA, Profª Drª. Telma de Barros. Delmiro Gouveia: A Trajetória de um Industrial no Início do Século XX., Departamento de Arquitetura e Planejamento (SAP), Escola de Engenharia de São Carlos, USP
  3. Delmiro Gouveia. Fundação Joaquim Nabuco
  4. a b CORREIA, Profª Drª. Telma de Barros. Delmiro Gouveia: A Trajetória de um Industrial no Início do Século XX., Departamento de Arquitetura e Planejamento (SAP), Escola de Engenharia de São Carlos, USP, pp. 10-12
  5. a b c LAGE, N. L. Delmiro Gouveia: Seu Crime Foi Plantar a Fartura no Sertão. In: Nilson Lemos Lage. (Org.). Os enigmas de nossa História. 1a. ed. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1981, v. 5°., p. 7-52.
  6. O ASSASSINATO do coronel Delmiro Gouveia. Diario de Pernambuco, Recife, 12out. 1917. (Confirma o boato do atentado contra Delmiro Gouveia e traz breve histórico da sua vida e obra.)
  7. SANDRONI, Paulo. (org.). Novo Dicionário de Economia. Editora Best Seller, 1994. P. 212
Ícone de esboço Este artigo sobre uma pessoa é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.