Lobotomia

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Dr. Walter Freeman, esquerda, e Dr. James W. Watts estudam uma radiografia antes de uma psicocirurgia

Lobotomia (do grego λοβός [cébrebro] e τομή [cortar]), ou também leucotomia, é uma intervenção cirúrgica no cérebro em que são seccionadas as vias que ligam os lobos frontais ao tálamo e outras vias frontais associadas. Foi utilizada no passado em casos graves de esquizofrenia. A lobotomia foi uma técnica bárbara da psicocirurgia que não é mais realizada[1] .

Efeitos e utilidade terapêutica[editar | editar código-fonte]

O procedimento leva a um estado algo sedado de baixa reatividade emocional nos pacientes. Existem controvérsias sobre os resultados do procedimento.

História[editar | editar código-fonte]

O neurologista português Egas Moniz

Foi desenvolvida em 1935 pelo médico neurologista português António Egas Moniz[1] (1874-1955), em equipe com o cirurgião Almeida Lima, na Universidade de Lisboa. Egas Moniz veio a receber com este trabalho o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1949.

A leucotomia foi a primeira técnica de psicocirurgia, ou seja, a utilização de manipulações orgânicas do cérebro para curar ou melhorar sintomas de uma patologia psiquiátrica (em contrapartida à neurocirurgia que se ocupa de doentes com patologia orgânica directa ou neurológica).

Inicialmente foi usada para tratar depressão severa. Egas Moniz sempre defendeu o seu uso apenas em casos graves em que houvesse riscos de violência ou suicídio. No entanto apesar de cerca de 6% dos pacientes não sobreviverem à operação, e de vários outros ficarem com alterações da personalidade muito severas, foi praticada com entusiasmo excessivo em muitos países, nomeadamente o Japão e os Estados Unidos. Neste último país foi popularizada pelo cirurgião Walter Freeman,[1] que divulgou a técnica por todo o seu país, percorrendo-o no seu Lobotomobile, e criando inclusivamente uma variante em que espetava um picador de gelo directamente no crânio do doente, desde um ponto logo acima do canal lacrimal com a ajuda de um martelo, rodando-se depois o mesmo para destruir as vias aí localizadas. Supostamente a atractividade deste procedimento seria o seu baixo custo e o desejo social de silenciar doentes psiquiátricos incómodos.

A leucotomia ganhou tal popularidade que foi inclusivamente praticada em crianças com mau comportamento. Cerca de 50.000 doentes foram tratados só nos Estados Unidos. Graças a estes abusos, bem como a irreversibilidade dos seus resultados, a leucotomia foi abandonada quando surgiram os primeiros fármacos antipsicóticos. A partir dos anos 50 a leucotomia foi banida da maior parte dos países onde era praticada. A sua aplicação em grande escala é hoje considerada como um dos episódios mais bárbaros da história da psiquiatria, sendo comum a sua comparação com a técnica da flebotomia (ou sangria) na história da medicina interna. Hoje em dia, um pequeno número de países ainda realiza procedimentos cirúrgicos semelhantes, porém dentro de indicações muito restritas.

A leucotomia hoje[editar | editar código-fonte]

Hoje em dia a leucotomia tal como exemplificada por Egas Moniz já não é praticada devido aos efeitos secundários severos. No entanto ainda hoje se praticam raramente técnicas diretamente descendentes da leucotomia original, mas com inflicção de lesões selectivas em regiões bem delimitadas. Os efeitos secundários destas técnicas são bem mais incomuns, mas devido à irreversibilidade do tratamento e às mudanças na personalidade do doente inevitáveis, elas são utilizadas apenas em última instância caso todos os outros tratamentos possíveis tenham-se revelado ineficazes. É assim praticada em alguns casos de dor crónica intratável (tratamento paliativo), neurose obsessiva, ansiedade crónica ou depressão profunda prolongada.

Pessoas famosas que foram lobotomizadas[editar | editar código-fonte]

  • Josef Hassid: Violinista polonês prodígio e esquizofrênico, faleceu aos 26 anos de idade.
  • Rosemary Kennedy: Irmã de John F. Kennedy passou por uma lobotomia em 1941, aos 23 anos, que a deixou permanentemente incapacitada;[2]
  • Rose Williams: Irmã mais velha do dramaturgo Tennessee Williams recebeu uma lobotomia que a deixou incapacitada pelo resto de sua vida; o acontecimento serviu de inspiração para alguns trabalhos do irmão.[3]
  • Howard Dully: Escreveu um livro com suas memórias quando descobriu que tinha sido lobotomizado em 1960 aos 12 anos.[4]
  • Sigrid Hjertén: Pintora sueca que morreu após uma lobotomia em 1948.

A lobotomia ou psicocirurgia na ficção[editar | editar código-fonte]

  • Frances Farmer: Apesar de Farmer ser a pessoa mais associada pelo público com a lobotomia devido ao procedimento ser mostrado no filme biográfico francês, arquivos médicos e outros registros mostraram conclusivamente que Farmer nunca passou pelo procedimento. [1] (Footnoted site contains court transcripts which are also available through LexisNexis.)
  • Randle Patrick McMurphy, personagem fictício de Ken Kesey em Um Estranho no Ninho, retratado por Jack Nicholson no filme.
  • J. Frank Parnell, motorista do Chevy Malibu radioativo no filme Repo Man.
  • A Hole in One, filme de 2004 sobre uma jovem que quer uma lobotomia por picador de gelo no auge de sua popularidade.
  • Rat Korga, personagem do livro de ficção científca de Samuel R. Delany, Stars in My Pocket Like Grains of Sand, que voluntariamente opta por psicocirurgia para deixá-lo satisfeito com sua condição de escravo.
  • Várias vítimas do assassino em série Gerry Schnauz, em um episódio da série Arquivo X nomeado "Unruhe".
  • Session 9, filme de terror de 2001 sobre um grupo de homens contratados para remover asbesto em um hospital psiquiátrico.
  • Hannibal, livro ou filme no qual Hannibal Lecter realiza uma lobotomia em Paul Krendler, representado por Ray Liotta.
  • No livro The Bell Jar de Sylvia Plath, a personagem Esther Greenwood conhece uma garota chamada Valerie no asilo, que sofreu uma lobotomia.
  • O famoso mascote do Iron Maiden, Eddie, foi lobotomizado no palco durante um dos concertos ao vivo da banda; este concerto foi filmado pela TV alemã, mas o segmento foi cortado, sendo considerado "muito violento". A capa do quarto álbum Piece of Mind (e muitos dos álbuns posteriores) retratam Eddie após a lobotomia.
  • No livro Cyteen de C. J. Cherryh, a psicocirurgia envolve drogas que deixam a mente em um estado muito receptivo para pistas visuais e auditivas, que auxiliam o psicocirurgião a reprogramar o indivíduo.
  • No filme Do Inferno aparece o personagem Dr. Ferral, interpretado por Paul Rhys, lobotizando a personagem Ann Crook, interpretada por Joanna Page, e o personagem Sir William Gull, interpretado por Iam Holm
  • Na canção Downer da banda Nirvana, a primeira música composta por Kurt Cobain, aonde diz "Hang Out Lobotomies/ To save little Families" ou "Distribua Lobotomias/ Para Salvar Pequenas Famílias"
  • A canção Before the lobotomy do Green Day trata do tema falando de como se sente uma pessoa lobotomizada, e como era antes do procedimento, e como é depois dele.
  • A canção Teenage Lobotomy dos Ramones, fala diversas vezes no assunto, sendo até o refrão.
  • No filme O Planeta dos Macacos (1968) o astronauta Landon (Robert Gunner) é capturado, sofre uma lobotomia e torna-se um ser vegetativo.
  • No seriado americano Cold Case, vários personagens de casos antigos passam por lobotomias.
  • No filme Ilha do Medo o personagem Teddy - representado por Leonardo Di Caprio - se envolve em uma ilha onde são feitos experimentos secretos de lobotomia nos pacientes da instituição.
  • No filme Amor em Tempos de Guerra, o personagem Jean foi lobotomizado em um campo de concentração na tentativa de "não ser mais homossexual".
  • No filme Sucker Punch, as fantasias da personagem Babydoll, quando é internada em um sanatório, se desenvolvem enquanto ela evita ser submetida ao procedimento de lobotomia. Na verdade, Sweet Pea é quem fantasia.
  • Na série Mortal Kombat: Legacy, Raiden, o deus do trovão, é lobotomizado varias vezes em um sanatório, porém a lobotomia não funciona por causa de seus poderes divinos.
  • No filme População 436, a lobotomia é utilizada para silenciar pessoas contra um regime ditatorial de uma pequena cidade.
  • Na série Fringe, no final do episódio 3 da 4ª temporada, Walter Bishop tenta se auto-lobotomizar, mas é impedido por Olivia Dunham.
  • Na série American Horror Story: Asylum, no episódio "I am Anne Frank Part 2", 5º episódio da segunda temporada, o personagem Dr. Arden/Hans Gruber, médico da Instituição Mental Briarcliff interpretado por James Cromwell, realiza uma lobotomia transorbital na personagem Charlotte/Anne Frank.
  • Na série Supernatural, no episódio 17 da 7ª temporada, o personagem Sam Winchester, interpretado por Jared Padalecki, terá que realizar uma Lobotomia devido aos contantes surtos que Lucifer cria em sua mente.
  • No filme ''Fenômenos Paranormais'' (Grave Encounters, no original.), o personagem Lance Preston, interpretado por Sean Rogerson, sofre uma lobotomia dentro do hospício abandonado e fica anos preso lá dentro sofrendo as consequências da cirurgia.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c Levinson, Hugh (15 de novembro de 2011). Lobotomia a cerca de 75 anos: De cura milagrosa a mutilação mental. BBC Brasil. Página visitada em 15 de junho de 2012.
  2. Murawski, Wendy W.;Spencer, Sally. Collaborate, Communicate, and Differentiate!: How to Increase Student Learning in Today's Diverse Schools (em inglês). [S.l.]: Corwin Press, 2011. p. 3. ISBN 978-1-41298-1-842
  3. Kolin, Philip (1998). Something Cloudy, Something Clear: Tennessee Williams's Postmodern Memory Play (em inglês). Página visitada em 15 de junho de 2012.
  4. Day, Elizabeth (13 de janeiro de 2008). He was bad, so they put an ice pick in his brain... (em inglês). The Guardian. Página visitada em 15 de junho de 2012.