Marquês de Vauvenargues

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Vauvenargues, cujo nome era Luc de Clapiers (6 de agosto de 171528 de maio de 1747) foi um moralista, ensaista e escritor francês.

Nascido em aix-de-Provence, Vauvenargues escolheu uma carreira militar e serviu em um regimento real por dez anos (1733-1743),até ser obrigado a se aposentar sem ter qualquer perspectiva futura em razão de um colapso físico durante uma campanha contra os austríacos, na Boêmia. Desfigurado e doente, imergindo em um estudo solitário nos horríveis aposentos que alugou em Paris, Vauvenargues leu, refletiu e densenvolveu uma sombria Filosofia de vida expressa em um estilo aforístico conciso em uma série de ensaios e fragmentos, todos escritos durante a década de 1737-1747.

Vauvenargues rejeitou de forma clara a “cause oculte de M Newton”, mantendo que o movimento é inato à matéria e afirmando a “ordre immuable et nécessaire” de tudo o que acontece. Ele também rejeita a “liberdade da vontade “ e afirma a relatividade do “bem e do mal”. “On n’ a point de volonté”, pondera ele, “quin ne soit um effet de quelque passion ou de quelque réflexion”, Acrescentando “donc l’ homme ne peut agir que par lês loisde son Dieu”. Como em Espinosa, o “Deus” em Vauvenargues não é o criador do universo, a fonte do bem e do mal, o guardião e juiz do homem, ou o legislador divino que estabelece as regras de moralidade. Ele é simplesmente a totalidade da natureza e suas leis inalterárveis. Assim, para Vauvenargues a moral é construída pelo homem e “l’ humanité est La premiè des vertus”.

As principais influências que deram forma à sua Filosofia foram Bayle e, em especial, Espinosa, a quem ele não pôde evitar de descobrir ao ler Boulainvi, uma fonte virtualmente inevitável para uma figura como essa em uma época como aquela. Mas o Espinosismo de Vauvenargues é uma Filosofia individual intensamente moralista, senão também uma instância política, a serviço do indivíduo liberado. Preocupado com as implicações do sistema de Espinosa para o estilo de vida e a moralidade, ele parece de todo alheio às polêmicas da crítica à Bíblia do tractatus e do sistema cuidadosamente criado na construção da Ética. Tipicamente vauvenargueniano na sua luta com o paradoxo contido no coração do sistema de Espinosa, que todas as ações e decisões humanas são determinadas necessariamente, e não há livre arbítrio, mas que, no entanto, esse fatalismo “n’ exclut point la Liberte”, isto é, uma liberdade que inclui segurança de vida, escorada em condições políticas e sociais nas leis.

A política de Vauvenargues reflete a característica secular e individualista do seu pensamento. Adotando o princípio hobbesiano-espinosista de que nem as leis naturais nem a moralidade natural existem, e de que “bem” e “mal” começam com a legislação e as regras morais estabelecidas por homens no contexto do estado, a justiça, para Vauvenargues, existe apenas sob um soberano. Mas como a justiça nada mais é do que o poder das instituições e do processo legal estabelecido e mantido pelos governantes e legisladores, sua qualidade irá variar enormemente de estado para estado e de época para época. Como os homens são naturalmente, e de modo inevitável, determinados à autopreservação e autoengrandecimento, a justiça absoluta é inatingível e o propósito real da máquina legal em qualquer Estado é minimizar a fricção e limitar os efeitos prejudiciais,sobre a sociedade e outros indivíduos,dos impulsos naturais de qualquer pessoa.

Diferentemente de Hobbes e de Locke, porém, Vauvenargues não contrasta o estado natural no qual os homens estão em guerra uns com os outros com a vida sob o estado, separando os dois ao postular um contrato básico. Em vez disso,como Espinosa, ele não vê distinção real entre o estado natural, no qual os homens sempre têm interesses mútuos e colaboram com os propósitos de defesa e segurança comum, e a sociedade civil, em particular,Vauvernagues como todos os radicais, desgosta e rejeita a noção de Hobbes de que com a formação do estado, o indivíduo desiste do seu direito natural, inclusive do seu direito natural de criticar e de julgar.

De modo inevitável, alguns grupos e indvíduos sempre serão mais poderosos e ricos do que outros. A desigualdade é inerente à sociedade, e as leis feitas pelo Estado sempre têm um caráter relativo e provisório, em vez de um caráter permanente ou absoluto, sendo promulgadas como forma de estabilizar e minimizar os efeitos prejudiciais de uma hierarquia e desigualdade que não têm legitimidade intrínseca – ordenada por Deus ou não. Vauvenargues não emulou Radicati ou os plebeus alemães Knutzen e Edelmann, sugerindo que essa desigualdade ilegítima deveria ser apagada pela redistribuição da propriedade. Entretanto,como depois em Diderot, tudo o que tende a nivelar a hierarquia e a desigualdade também tende ao bem da comunidade como um todo. Como Boulainvilliers, Vauvenargues é um firme oponente do absolutismo real. Mas ele também avisa, seguindo Espinosa, que se engajar em uma revolução,ou destronar um tirano, serve a qualquer propósito se o povo não fizer nada para mudar tais sistemas de lei e de autoridade; é como pavimentar a estrada rumo ao despotismo. Se as pessoas não querem mais tirania, então devem aprender a mudar suas leis e a criar uma república bem ordenada ou uma monarquia constitucional. No entanto Vauvenargues não compartilha a antipatia de Espinosa por Cromwell. Mais que isso, ele não o vê como um rei com outro nome, mas como inimigo da monarquia, ilustrando o surgimento no século XVlll do novo mito de Cromwell, uma característica do radicalismo dessa época, como um inimigo da tirania e um homem do povo.

Vauvenargues, Radicati e Doria como Shaftesbury, eram nobres, mas, diferentemente de Boulainvilliers e d’ Holbach, assumiram um republicanismo político caracterizado pelo nivelamento e antiaristocracia, bem como tendências anticlericais. Assim, eles podem ser ser colocados ao lado de Espinosa, Van den Enden, Koerbagh, Leenhof e Mandeville entre os holandeses, Knuttzen e Edelmann, entre os alemães, Radicati, entre os italianos, e Toland, na Inglaterra, como pensadores radicais, postulando e, até certo ponto,enfrentando ativamente a destruição estrutura institucional e monárquica do ancien régime e, em parte, seu sistema social hierárquico, bem como sua escora teológica e filosófica.

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