Mita

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Imagem de Potosi na época do Vice-Reino do Peru.

Mita [1] era uma forma de trabalho compulsório herdada dos incas pelos espanhóis à época colonial. Consistia basicamente na superexploração da mão de obra indígena. Cerca de 5% dos indígenas de cada distrito eram deslocados de suas respectivas comunidades, geralmente por um prazo de 4 a 6 meses (podendo chegar a 12 meses), e enviados a regiões de extração de minérios, em especial a prata e o mercúrio, ou de agricultura sazonal.[2]

A prática da mita trouxe efeitos devastadores sobre a saúde daqueles que eram escolhidos para o trabalho compulsório e contribuiu significativamente para a desestruturação de inúmeras comunidades indígenas. Assim Josef Ribas auxilia na construção do surgimento colônia espanhola

Mineração na América Espanhola e suas implicações[editar | editar código-fonte]

Seguindo de perto o que Peter Bakewell expõe no seu texto sobre a América Espanhola,[3] percebe-se que "a mineração apoiava-se no trabalho indígena."

De um modo geral, pode-se dizer que, entre os variados tipos de trabalho criados ou modificados pelos espanhóis, quatro "modelos" se destacam, a saber: encomienda , a escravidão, o recrutamento forçado e os contratos de trabalho assalariado. Nesse sentido, é fundamental ressaltar que, à medida que os espanhóis conquistavam novos territórios, tanto a encomienda quanto a escravidão tornavam-se mais comuns na América Central e do Sul. A resistência ao trabalho servil eventualmente resultava em grande mortandade entre os indígenas.

Na década de 1570, o recrutamento forçado para a mineração é denominado repartimiento (na Nova Espanha, atual México) ou mita (no Peru)[4] .

Don Francisco de Toledo, que assumira o posto de vice-rei do Peru em 1569, foi um dos principais mentores daquilo que é considerado como o modelo do recrutamento para a mineração adotado na América Espanhola. A chamada Mita de Potosi deslocava, todos os anos, para Potosi, mais da metade dos homens com idade entre 18 a 50 anos, aptos ao trabalho, das 30 províncias da região, todos recrutados compulsoriamente. "Segundo o censo realizado por Toledo, isso proporcionaria mão de obra suficiente para Potosi: cerca de 13.500 homens por ano." Fato curioso: Toledo era conhecido por ter uma personalidade extremamente arraigada aos princípios morais cristãos da reforma protestante.

Em Potosi, embora fossem pagos,[5] os indígenas eram submetidos a um excesso de trabalho, em condições degradantes, que os tornavam suscetíveis a uma variada gama de doenças, mormente doenças respiratórias. Os mitayos, termo utilizado para aqueles que trabalhavam nas minas, eram obrigados a longos deslocamentos e, durante o trajeto, não era raro que alguns não resistissem e morressem no caminho. Chegando às minas, as condições de trabalho eram extremamente insalubres, com ausência de luz, pouca ventilação, dificuldades de locomoção dentro dos veios etc. Basicamente, existiam dois tipos de divisão da mão de obra nas minas: os barreteros, que se utilizavam de barras e picaretas e, em certo sentido, eram mais especializados, ganhando melhores salários; e os carregadores, que, por serem destituídos de conhecimentos técnicos, eram empregados no carregamento daquilo que era encontrado nas prospecções.

Produção e produtividade[editar | editar código-fonte]

As fontes relacionadas aos números da produção não só da prata como ao do ouro são esparsas. No máximo, podem ser encontrados registros de recebimentos de determinados escritórios e, um pouco mais infiéis, os registros de cunhagem. Pode-se dizer que aproximadamente 85% da produção da prata do Peru originou-se de Potosi, e o mercúrio para esta mina vinha exclusivamente de Huancavelica. Já no caso do ouro, as principais regiões produtoras eram Nova Espanha, Nova Granada, Peru e Charcas e Chile.[6]

Com a gradual introdução do assalariamento, a Coroa Espanhola se beneficiou significativamente ao conseguir, a um só tempo, criar na América uma força de trabalho nativa assalariada e reduzir a participação dos encomenderos no trato com os indígenas. Assim a influência dos encomenderos sobre determinadas regiões colonizadas aos poucos desapareceu, em benefício do poder da Coroa e dos seus interesses nas Américas. Porém, mesmo com as restrições estipuladas pela Coroa ao trabalho compulsório indígena, tal sistema ainda se manteve até o século XVIII, só sendo abolido em 1812.[7]

Referências

  1. Forced Labor in Colonial Peru, por Donald L. Wiedner. The Americas. Vol. 16, n°. 4 (abril de 1960), pp. 357-383. Academy of American Franciscan History.]
  2. "Repartimiento". Encyclopædia Britannica Online. Acesso em 4 de fevereiro de 2013.
  3. Bakewell, Peter. A Mineração na América Espanhola Colonial. In: BETHELL, Leslie (org.). História da América Latina: A América Latina Colonial. Volume II. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Brasília, DF: Fundação Alexandre de Gusmão, 1999.
  4. BETHELL, op. cit.,. p.118.
  5. BETHELL, op.cit., p. 121.
  6. BETHELL, Leslie (org) História da América Latina: América Latina Colonial Vol. 2; cap 3. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Brasília, DF: Fundação Alexandre de Gusmão, 1999.
  7. BETHELL, op. cit. pp. 122 - 124.