Ovimbundos

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Mapa étnico de Angola em 1970 (Área dos Ovimbundu marcada a azul escuro)

Os Ovimbundu (Ovi-mbundu, singular Oci-mbundu, adjectivo e idioma U-mbundu)[1] [2] [3] [4] (em português frequentemente referidos como Ovimbundos, uma forma híbrida que expressa o plural pelo prefixo umbundu "ovi" e pelo sufixo português "-s") [5] [6] [7] [8] são uma etnia bantu de Angola. Eles constituem 37% da população do país.[9] . Os seus subgrupos mais importantes são os Mbalundu ("Bailundos"), os Wambo (Huambo), os Bieno, os Sele, os Ndulu, os Sambo e os Kakonda (Caconda). [10]

História[editar | editar código-fonte]

Descendentes de populações bantu que chegaram à região no início do 2º milénio, os Ovimbundu ocupam hoje o planalto central de Angola e a faixa costeira adjacente, uma região que compreende as províncias do Huambo, Bié e Benguela.

São um povo que, até à fixação dos portugueses em Benguela, vivia da agricultura de subsistência, da caça e de alguma criação de gado bovino bem como de pequenos animais[2] . Durante algum tempo, uma vertente importante teve o comércio das caravanas entre o Leste da Angola de hoje e os portugueses de Benguela. Este comércio entrou em colapso quando, no início do século XX, o sistema colonial português lhes exigia o pagamento de impostos[11] [12] , os Ovimbundos viraram-se sistematicamente para a agricultura de produtos comercializáveis, principalmente o milho[13] .

No decorrer do século XX, e em especial no período da "ocupação efectiva" de Angola, implementada a partir de meados dos anos 1920, a maioria dos Ovimbundu tornou-se cristã, aderindo quer à Igreja Católica[14] , quer a igrejas protestantes, principalmente à Igreja Evangélica Congregacional de Angola (IECA), promovida por missionários norte-americanos[15] . Esta cristianização teve, entre outras, duas consequências incisivas. Uma, a constituição, em todo o Planalto Central, de aldeias católicas, protestantes e não-cristãs separadas. A outra, um grau relativamente alto de alfabetização e escolarização, e por conseguinte também do conhecimento do português, entre os Ovimbundos, com destaque para os protestantes[16] [nota 1] .

Em simultâneo houve dois processos de certo modo interligados. Por um lado, formou-se lentamente uma identidade social (um sentido de pertença) abrangendo todos os Ovimbundu, e não apenas subgrupos como p.ex. os M'Balundu ou os M'Bieno[nota 2] . Por outro lado, verificou-se uma "umbundização" cultural, inclusive linguística, de alguns povos vizinhos que tinham tido (e em certa medida mantiveram) características algo distintas dos Ovimbundu[nota 3] .

Os Ovimbundu foram muito afectados tanto pela guerra anti-colonial em Angola como pela guerra civil angolana.

Durante a primeira, o Estado colonial impôs no Planalto Central (como também noutras partes do território), no fim dos anos 1960/início dos anos 1970, o sistema das “aldeias concentradas”. Este sistema consistiu em juntar num único lugar duas ou três diferentes aldeias, frequentemente de religiões diferentes. Os sítios destas “aldeias concentradas” eram escolhidos pelas autoridades coloniais de acordo com critérios considerados como estratégicos, do ponto de vista da segurança. Por desconhecimento, tais critérios raramente correspondiam às exigências da agricultura de adaptação praticada (por necessidade, não por opção) pelos Ovimbundu[nota 4] . O resultado foram sérios prejuízos económicos que forçaram muitos homens a aceitar a contratação como mão-de-obra assalariada (e mal paga) nas plantações de café, no Norte de Angola, ou nas plantações de europeus existentes na sua região[17] . Estas circunstâncias tornaram-se fortes razões para uma adesão, naturalmente clandestina, de grande parte dos Ovimbundu à UNITA, movimento anti-colonial armado encabeçado por um Ocimbundu, Jonas Savimbi[18] .

A segunda teve as suas raízes na concorrência pela tomada do poder, entre os movimentos anti-coloniais FNLA, MPLA e UNITA, despoletada pela intenção, manifestada por Portugal em 1974, a seguir ao derrube do regime autoritário corporativista instaurado por Salazar, de retirar-se das suas então colónias. Tendo o MPLA saído vitorioso deste conflito, e assumido sozinho o poder político na Angola tornada independente, a UNITA optou em 1975 por uma oposição armada ao MPLA que apenas terminou com a morte de Jonas Savimbi, em 2002. Durante estes 17 anos, os Ovimbundu sofreram o impacto dos combates que se desenrolaram na sua região, e que levaram entre outros à quase destruição das cidades de Huambo e Kuito, mas também o da repressão por parte das tropas governamentais (MPLA). As consequências foram perturbações acentuadas no funcionamento económico da sociedade umbundu e um êxodo rural maciço para as cidades, em parte para as da própria região, com destaque para Huambo, Benguela e Lobito, mas numa parte crescente para fora da região, principalmente Luanda e áreas adjacentes, e em segundo lugar para as capitais de província, de Malanje até Lubango e Ondjiva.

Actualidade[editar | editar código-fonte]

Alcançada a paz, uma parte dos Ovimbundu refugiados nas cidades regressou para as suas terras de origem, enquanto a outra parte, possivelmente mais da metade, preferiu ficar nas áreas urbanas. No Planalto Central, regista-se a reconstrução, ainda em curso, das cidades do Huambo e Kuito, e a recomposição, algumas vezes em moldes diferentes, da sociedade rural.[nota 5] . Ao mesmo tempo, a forte presença dos Ovimbundu nas cidades fora da sua região, facto novo na história de Angola, confere-lhes uma projecção nova, a nível nacional.

Algumas das personalidades mais emblemáticas da história contemporânea de Angola são originárias dessa etnia, como Daniel Chipenda, Comandante Augusto Chipenda, Comandante Kassange, Dom Zacarias Camuenho, Jonas Savimbi, Marcolino Moco, Cornélio Caley, entre outros. Na literatura e na cultura os Ovimbundu ocupam um lugar de destaque no panorama artístico nacional.[carece de fontes?], Ndunduma Wa Lepi, Aires de Almeida Santos, Alda Lara, Cikakata Mbalundu ,Tchissica Artz, Sabino Henda, Bela Tchicola, entre outros, são descendentes deste povo, enquanto Manuel Rui Monteiro e Pepetela nasceram em zonas tradicionalmente habitadas por ele.

Na Comunicação Social membros desta etnia também ocupam uma posição de relevo: radialistas e jornalistas do triângulo Benguela-Huambo-Huíla marcam presença a cena nacional, com destaque para Analtina Dias, Bela Malaquias, Patrícia Pacheco, Luísa Fançony, Cristina Miranda, Mateus Gonçalves, de entre outros mais ou menos conhecidos.

A nível político, a situação alterou-se: a UNITA continua a ter as suas raízes mais fortes entre os Ovimbundu, o que é ilustrado pela eleição de mais um M'Bieno, Isaías Samakuva, como sucessor de Jonas Savimbi na presidência do partido; por outro lado, há uma presença crescente de Ovimbundu nas fileiras do MPLA que, nas eleições parlamentares de 2008, foi o partido mais votado também na área desta etnia.[19] No entanto, o crescimento substancial da UNITA nas eleições de 2012 verificou-se de maneira particularmente expressiva nas províncias do Huambo e, mais ainda, do Bié.

Notas

  1. A IECA também promoveu o desenvolvimento do umbundu, para o qual elaborou regras ortográficas e esboços de uma gramática e léxicos.
  2. Este processo incluiu também o grupo dos Kiaka que, numa data ainda não estabelecida, tinham vindo da Baixa de Cassanje. Ver Mesquitela Lia, Os Kyaka de Angola, 2 volumes, Lisboa: Távola Redonda, 1988 e 1989, respectivamente.
  3. O caso dos Hanya é ilustrado em Alfred Hauenstein, Les Hanya: Description d'un groupe ethnique bantou de l'Angola, Wiesbaden: Steiner: 1967 e António Guebe, O que eu aprendi no Otchoto, Luanda: Kilombelombe, 2003.
  4. Ver os relatórios detalhados publicados pela então Missão de Inquéritos Agrícolas de Angola. Uma análise resumida baseada nestes relatórios encontra-se em Jorge Vieira da Siilva & Júio Artur de Morais, Ecological conditions of social change in the Central Highlands of Angola, in: Franz-Wilhelm Heimer (org.), Social Change in Angola, Munique: Weltforum Verlag, 1973, pp. 93-109
  5. A título de ilustração, ver os estudos de caso do Bailundo, por Fernando Florêncio (No reino da Toupeira. Autoridades tradicionais do M’Balundu e o Estado angolano, in Fernando Florêncio e outros, Vozes do universo rural. Reescrevendo o Estado em África, Lisboa: Centro de Estudos Africanos/ISCTE-IUL & Gerpress. 2010) e por Cláudio Tomás ("Discursos e práticas alternativas de reconciliação nacional e de construção da nação em Angola: O caso da Igreja Evangélica Congregacional de Angola", dissertação de mestrado, Lisboa: ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, 2009) bem como da área Huambo – Caála, por Teresa Koloma Beck.

Referências

  1. Arlindo Isabel, Ministério da Administração do Território (Angola). 1º Encontro sobre a Autoridade Tradicional em Angola. [S.l.]: Editorial Nzila, 2003. 450 pp. ISBN: 9789728823122.
  2. a b Kimbundu Ovimbundu O País. Visitado em 24 de Dezembro de 2010.
  3. Dialecto Ovimbundu Site oficial de Camacupa. Visitado em 24 de Dezembro de 2010.
  4. História e Cultura: A origem dos Ovimbundu Ritos de Angola. Visitado em 24 de Dezembro de 2010.
  5. Actas do Seminário Encontro de Povos e Culturas em Angola. Luanda, 3 a 6 de Abril de 1995. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Arquivo Histórico Nacional (Angola), Ministério da Cultura. Editora Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997. ISBN 9728325177, 9789728325176.
  6. Missão Permanente da República de Angola junto dos Escritórios das Nações Unidas e Organizações Internacionais em Genebra.
  7. Publicações culturais, Volumes 69-71. Companhia de Diamantes de Angola, 1965.
  8. Dicionário Houaiss, verbete "ovimbundo".
  9. Angola CIA World Factbook. Visitado em 24 de Dezembro de 2010.
  10. José Redinha, Etnias e culturas de Angola, Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola, 1975
  11. José Capela. O imposto da palhota e a introdução do modo de produção capitalista nas colónias. Porto: Afrontamento, 1977.
  12. Gervase Clarence-Smith. The Third Portuguese Empire: A study in economic imperialism. Manchester: Manchester University Press, 1985.
  13. Hermann Pössinger. (1986). "A transformação da sociedade umbundu desde o colapso do comércio das caravanas" (Revista). Revista Internacional de Estudos Africanos (4/5): 75-158.
  14. Iracema Dulley, Deus é feiticeiro: Prática e disputa nas missões católicas em Angola colonial, São Paulo: Edições Annablume, 2010
  15. Lawrence Henderson. Angola: Five Centuries of Conflict. Ithaca: Cornell University Press, 1979. ISBN 0801412471.
  16. John Erni Remick. American Influence on the Education of the Ovimbundu (the Benguela and Bié Highlands) of Angola, Africa, from 1880-1914. [S.l.: s.n.], 1976. (dissertação de doutoramento, Miami University, Oxford/Ohio.
  17. Afonso Mendes. O trabalho assalariado em Angola. Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, 1966.
  18. Linda Heywood, Towards an understanding of modern political ideology in Africa: The case of the Ovimbundu of Angola, Journal of Modern African Studies 36/1, 1998, pp. 130-167
  19. Não deixa de ser simbólica, neste contexto, a nomeação de Geraldo Nunda, Ocimbundu e antigo comandante da UNITA, para o posto de Chefe de Estado Maior das Forças Armadas Angolanas.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Wilfrid Hambly, The Ovimbundu of Angola, Chicago: Field Museum, 1934
  • Gladwyn Murray Childs, Umbundu Kinship and Character, Londres: Oxford University Press, 1949
  • Adrian Edwards, "The Ovimbundu Under Two Sovereignties: A Study of Social Control and Social Change Among a People of Angola", Londres: Oxford University Press, 1962
  • Linda Heywood, Contested Power in Angola, 1940s to the Present, Rochester/NY: University of Rochester Press, 2000 (história política dos Ovimbundu)
  • Hermann Pössinger, "Interrelations Between Economics and Social Change in Rural Africa: The Case of the Ovimbundu of Angola", in: Franz-Wilhelm Heimer (org.), "Social Change in Angola", Munique, Weltforum Verlag, 1973, pp. 31-52.

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