Praxiteles

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A Afrodite de Cnido, na versão conhecida como Afrodite Colonna, Museu Pio-Clementino.

Praxiteles (Πραξιτέλης) (Atenas, c. 395330 a.C.), foi um dos mais famosos escultores da Grécia Antiga. Várias obras de sua autoria, descritas na antiguidade, são conhecidas através de cópias romanas.

Vida[editar | editar código-fonte]

Uma inscrição encontrada em Atenas com a data de 375 a.C. dá conta da primeira obra importante assinada pelo artista, o que coloca o ano de seu nascimento em torno de 395 a.C., e outras inscrições atestam sua origem ateniense. Embora isso não seja inteiramente provado, a versão mais corrente de sua biografia diz que seu pai foi o escultor Cefisódoto, o Velho, líder de um respeitado atelier. O que parece induscutível é que Cefisódoto, o Velho, foi seu mestre na escultura. A literatura antiga também fala de dois filhos de Praxiteles, o mais velho de nome Cefisódoto, o Jovem e outro chamado Timarco, ambos também escultores 1 .

Sua família parece ter tido posses e ocupado uma posição de prestígio. É provável que depois da morte de Cefisódoto, o Velho, em torno de 370 a.C. Praxiteles tenha herdado o seu atelier, seus clientes e suas propriedades, o que pode explicar em parte o fato de ele ter-se tornado um homem rico e influente, a ponto de poder custear um monumento e ser um dos cerca de 300 abastados atenienses encarregados de desempenhar as liturgias. Nesta altura já devia estar casado, pois seu primeiro filho nasceu possivelmente em torno de 365 a.C. Data desta época, em que sua carreira atinge seu auge, sua criação mais famosa, a Afrodite de Cnido, a primeira representação da mulher nua em tamanho natural.2

Obra[editar | editar código-fonte]

Praxiteles foi, com Escopas e Lisipo, um dos condutores da evolução do Alto Classicismo para o Helenismo, caracterizando um interregno chamado de Classicismo Tardio, ou Baixo Classicismo. Mesmo que em suas figuras ainda apareça uma beleza sobre-humana, já não possuem os traços impessoais e a aura de grandiosidade remota e augusta da fase imediatamente anterior, onde Fídias e Policleto foram as lideranças principais, se aproximando, em vez, do mundo emocional, prosaico e sensual dos humanos. Preferiu como sujeitos os deuses jovens, como Apolo, Afrodite e Hermes, usando o mármore como material de eleição, embora tenha trabalhado também o bronze. Algumas de suas obras foram coloridas por Nícias, tratamento que melhorava o efeito final da peça, segundo o próprio autor.

Afrodite de Cnido[editar | editar código-fonte]

Variantes da Afrodite de Cnido: à esquerda, a forma que aparece nas moedas, ao centro, a Afrodite Altemps, da subfamília da Afrodite Belevedere, e à direita, a Afrodite Braschi, pertencente à subfamília da Afrodite Colonna.

Sua obra mais importante é a Afrodite de Cnido, vendida à cidade de Cnido depois de ter sido rejeitada em Kos, que preferiu uma versão mais pudica da deusa. A repercussão da obra se deve ao fato de ela ter sido o primeiro nu feminino em tamanho natural da arte da Grécia Antiga. Imediatamente sua fama se espalhou pela Grécia, atraindo admiradores de pontos distantes que vinham em caravanas e navios apenas para ver a estátua, e que davam expressão ao seu entusiasmo em viva voz. Era amada pelo povo de Cnido, que recusou uma oferta do rei Nicomedes I da Bitínia para comprá-la em troca de toda a dívida da cidade, que, segundo Plínio, era imensa.3 4 O mesmo Plínio deixou registrado:

"Praxíteles é um artista cujas estátuas eu já mencionei entre os que trabalham em bronze, mas em seus trabalhos em mármore ele supera a si mesmo.... e superior a tudo no mundo e mesmo entre o que ele fez está a Afrodite, que muitas pessoas viram em Cnido depois de atravessarem mares para isso. Ele fez duas figuras, que colocou para serem vendidas ao mesmo tempo. Uma delas estava vestida e por esta razão foi preferida pelo povo de Kos, que tinha direito de fazer uma oferta, embora ambas tivessem o mesmo preço. Fizeram isso porque consideraram a única forma decente e digna de ação. A estátua que eles recusaram foi comprada pelo povo de Cnido, e adquiriu uma reputação imensamente superior".5

Diz a tradição que o artista usou como modelos para sua celebrada criação duas cortesãs de extraordinária beleza, que eram também suas amantes: Phryne, para o corpo, e Cratina, para a cabeça. A cópia das formas de mortais para elaborar uma estátua de uma deusa não foi bem vista por alguns autores da antiguidade, entendendo que isso seria o mesmo que colocar prostitutas em altares, e era ofensivo para a dignidade divina. Além disso, em seu tempo a nudez pública só era aceitável para o corpo masculino, e para justificar a nudez o autor disse que a deusa estava se preparando para o banho.6 7 8 A postura da mão direita também foi motivo de muita polêmica e ambiguidade desde que a estátua foi exposta ao público pela primeira vez. Para muitas pessoas, a mão não estava ali por modéstia, para ocultar pudicamente o sexo, mas era a postura típica de quem se masturba e conduzia a atenção direta e convidativamente para a região genital que pretendia dissimular. Instalada em uma rotunda a céu aberto, podia ser observada de todos os ângulos, e segundo alguns relatos a estátua se tornou o objeto de desejo de muitos jovens, que chegaram a tocá-la e mesmo a copular com ela, apaixonados especialmente por suas nádegas. Por causa dessa confusão entre realidade e ficção, obras como a Afrodite foram questionadas por filósofos da escola platônica, preocupados que elas acabariam por rebaixar o nível moral dos cidadãos em vez de elevá-lo, explorando suas fraquezas animais e o puro prazer em vez de incentivar suas virtudes de caráter e iluminar seu espírito, como a boa arte deveria fazer.9

A Vênus adormecida, de Giorgione, uma variante tardia da Afrodite de Cnido.

No entanto, o coro dos elogios ultrapassou em muito as críticas. Diversos escritores antigos a louvaram dizendo que o artista chegara a plasmar na pedra a beleza real da própria deusa, e várias peças literárias da época fazem Afrodite se perguntar, surpresa, onde Praxíteles a teria visto nua.10 A estátua é conhecida em várias cópias e fragmentos, foi cunhada em moedas e deu origem a algumas variantes do tipo, em conjunto denominadas Venus pudica, pois estão em atitude de ocultar a genitália com a mão direita.11 Segundo Antonio Corso, as variantes se dividem em dois grandes grupos, um que tem seu protótipo na Afrodite Belvedere, e outro que se alinha à Afrodite Colonna. A Belvedere se aproxima mais das formas que aparecem nas moedas de Cnido, e por isso é considerada mais fiel ao original.12 Além dessas variantes esculturais, de larga descendência, a tipologia da Pudica originou uma tradição igualmente prolífica na pintura e em outras artes visuais, sendo exemplos notórios a Vênus adormecida de Giorgione e a Vênus de Urbino, de Ticiano, cuja recepção critica tem sido também altamente polêmica e ambígua em termos morais.13

Hermes com o infante Dionísio[editar | editar código-fonte]

Hermes com o infante Dionísio
  • O grupo de Hermes com o infante Dionísio rapidamente ganhou larga reputação desde que foi descoberto em Olímpia em 1877, tendo sido considerado por vários estudiosos como o original durante um bom tempo, mas hoje se crê que seja também uma cópia, embora de extraordinária qualidade.14 15 Segundo Carpenter, a atribuição da peça a um copista deriva do uso de cinzéis especiais, do tratamento diferenciado da frente e das costas, de detalhes do penteado e outros elementos, características aparentemente só encontradas na tradição romana.15

Outras peças afamadas[editar | editar código-fonte]

  • O Apolo Sauroctono. A única referência antiga que ateste esta obra como sendo de Praxíteles foi transmitida por Plínio. Tornou-se muito famosa, sendo objeto de inúmeros estudos que centraram na análise de sua postura lânguida e sensual.16
  • O Apolo Liceio.
  • O Sátiro Capitolino, embora sua atribuição seja incerta. Mais provável de sua escola seja um torso do mesmo sujeito preservado no Louvre.
  • A Cabeça Leconfield, fragmento de uma Afrodite do tipo de Cnido, possivelmente original.
  • A Cabeça Aberdeen, talvez parte de um Hermes, hoje no Museu Britânico, muito semelhante ao Hermes de Olímpia.
  • Pausânias diz que havia em Atenas uma estátua de um soldado a cavalo, atribuída a Praxíteles.17

Ver também[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui multimídias sobre Praxiteles

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Corso, Antonio. The art of Praxiteles: the development of Praxiteles' workshop and its cultural tradition until the sculptor's acme (364-1 BC). L'Erma di Bretschneider, 2004. pp. 110-111.
  2. Corso, pp. 9; 143; 176.
  3. Kleiner, Fred. Gardner's Art Through the Ages: A Global History. Cengage Learning EMEA, 2008. pp. 137-138
  4. Osborne, Robin. Looking on - Greek style. In Morris, Ian (ed). Classical Greece: ancient histories and modern archaeologies. Cambridge University Press, 1994. pp. 81-83
  5. Corso, pp. 9-10.
  6. Corso, pp. 10-16.
  7. Pollitt, Jerome. The art of ancient Greece: Sources and documents‎. Cambridge University Press, 1990. p. 86.
  8. Osborne, p. 82
  9. Dennis, Kelly. Art/Porn: A History of Seeing and Touching. Berg, 2009, pp. 15-22.
  10. Corso, p. 10.
  11. Osborne, pp. 8-83
  12. Corso, pp. 13-14.
  13. Dennis, pp. 26-38.
  14. Kleiner, p. 132.
  15. a b Carpenter, Rhys. "Who Carved the Hermes of Praxiteles?". In: American Journal of Archaeology, 1931; 35 (3):249-261.
  16. Maxmin, Jody. "A Note on Praxiteles' Sauroktonos". In: Greece and Rome (Second Series), 1973; 20 (01):36-37.
  17. Pausânias. Descrição da Grécia, 1.2.3.