Rábula de Edessa

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Reunião dos apóstolos para escolher o décimo-segundo após a traição de Judas.
Evangelho de Rábula, folio 1a

Rábula de Edessa foi um bispo de Edessa de 411 até agosto de 435, notável pela sua luta contra os pontos de vista de Teodoro de Mopsuéstia e os de Nestório. Porém, seu sucessor, Ibas, que estava encarregado da escola de Edessa, reverteu o que até então era a política oficial da sé da cidade.

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Ele foi um nativo de Kenneschrin, uma cidade umas poucas milhas ao sul de Alepo (na Síria) e uma sé episcopal. Seu pai era um sacerdote pagão e, mesmo sendo a sua mãe uma devota cristã, ele permaneceu pagão até um pouco depois de seu casamento. Durante uma viagem para as suas terras no campo, ele se converteu ao cristianismo parcialmente por ter tido contato com um caso de cura milagrosa e parcialmente por causa da influência dos ensinamentos de Eusébio, bispo da cidade, e de Acácio, bispo de Alepo.[1]

Ascetismo cristão[editar | editar código-fonte]

Com toda a energia que lhe era natural, ele se dedicou à prática do ascetismo cristão, vendendo todas as suas posses e se separando de sua esposa e parentes. Ele morou por um tempo num mosteiro e então passou para uma vida de grandes dificuldades como um eremita solitário. Com a morte de Diógenes, bispo de Edessa, no ano de 411 - 412, Rábula foi escolhido como seu sucessor e aceitou imediatamente a posição, sem a costumeira relutância.[1]

Como bispo, Rábula demonstrou uma energia extraordinária, pelo contínuo ascetismo em sua vida pessoal, pela forma como ele cuidou de todos os pobres e necessitados de sua diocese, pelo seu cuidado com a disciplina do clero e dos monges que estavam sob sua autoridade e, finalmente, pela feroz determinação com que ele combateu as heresias, especialmente a crescente escola dos seguidores de Nestório. Certa ocasião, ele visitou Constantinopla e pregou um sermão denunciando a doutrina nestoriana para Teodósio II (que era então um simpatizante de Nestório) e uma grande congregação. Este sermão sobreviveu parcialmente numa tradução siríaca.[1]

Controvérsia[editar | editar código-fonte]

Os estudiosos discutem se esta visão positiva de Rábula é acurada. Jan Willem Drijvers observa que "Parece que Rábula não era o bispo modelo como apresentado na Vita Rabbulae, mas um cristão fanático que teria perseguido todos os que tinham ideias diferentes, como os diofisitas e outros heréticos, assim como os judeus". De fato, de acordo com a Vita, imediatamente após ter se tornado bispo de Edessa, Rábula, em conjunto com outro monge, Eusébio, futuro bispo de Tella, foi até Baalbek (Heliópolis), no Líbano (Phoenicia Libanensis), um dos últimos refúgios do paganismo, com o objetivo de conseguir o martírio atacando as imagens sagradas pagãs lá. Ao invés de ser morto, ele sofreu uma surra severa. A Vita afirma então que Rábula foi preservado da morte por conta de seu destino, que era obter o episcopado.[2] Já o estudioso Michael Geddis nota que este é o exatamente o tipo de comportamento suicida condenado por Agostinho. Felizmente para os cidadãos de Baalbek (se não para Rábula), eles conseguiram manter os costumes e tradições de seus antepassados até o século VI.[3] Após uma carreira de vinte e quatro anos como bispo, ele morreu em agosto de 435, sendo sucedido por Ibas de Edessa.[1]

Legado[editar | editar código-fonte]

Rábula se tornou um amigo de Cirilo de Alexandria, com quem ele se correspondia e cujo tratado, De recta fide, ele traduziu para o siríaco.

O principal legado de Rábula para a literatura siríaca está no zelo com que ele lutou para substituir o Diatessarão (ou a "Harmonia de Tatiano") pelos Evangelhos canônicos, ordenando que uma cópia deles deveria obrigatoriamente ser colocada em todas as igrejas.[4] Já o legado literário dele é pequeno e se encontra todo na obra de Overbeck.

A versão sobreviveu e está preservada no Museu Britânico.[5] De acordo com seu biógrafo,[6] Rábula produziu uma versão (ou revisão) do Novo Testamento em siríaco, conhecida como Peshitta. O envolvimento de Rábula pode ter sido[7] um primeiro passo na direção da versão filoxeniana. FC Burkitt vai adiante e propõe a hipótese de que Rábula, pelo menos no que diz respeito aos Evangelhos, ajudou ativamente na tradução do texto atual da Peshitta, se utilizando do texto grego existente em Antioquia por volta do ano 400.

Referências

  1. a b c d RABBULA (em inglês). Página visitada em 24-09-2012.
  2. Drijvers 1997, p. 298-315
  3. Geddis 2005, p. 162-164
  4. Overbeck 1865, p. 239-244
  5. Wright 1894, p. 9
  6. Overbeck 1865, p. 172
  7. Wright 1894, p. II

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Drijvers, Jan Willem. (1997). "The Protonike Legend, the Doctrina Addai and Bishop Rabbula of Edessa" (em inglês). Vigiliae Christianae (51).
  • Geddis, Michael. There is No Crime for Those Who Have Christ (em inglês). [S.l.: s.n.], 2005.</ref>
  • Overbeck. S. Ephraemi Syri, Rabulae Episc. Edesseni, Balæei aliorumque opera selecta (em inglês). Oxford: [s.n.], 1865.</ref>
  • Wright, William. Short history of Syriac literature. Oxford: [s.n.], 1894.</ref>

Ligações externas[editar | editar código-fonte]