Judas Iscariotes

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O beijo de Judas, pintura anónima do século XII

Judas Iscariotes (em hebraico יהודה איש־קריות, Yehudhah ish Qeryoth; em grego bíblico Iouda Iskariôth[1] ou Iouda Iskariotes[2] ) foi um dos doze apóstolos de Jesus Cristo, que, de acordo com os evangelhos canônicos, veio a ser o traidor que entregou Jesus aos seus captores por trinta moedas de prata. Judas, em grego Ioudas, é uma helenização do nome hebraico Judá (יהודה, Yehûdâh, palavra que significa "abençoado" ou "louvado"), sendo, por sinal, o nome de apóstolo que mais vezes aparece nos Evangelhos (vinte vezes) depois do de Simão Pedro.

Etimologia de Iscariotes[editar | editar código-fonte]

São várias as explicações etimológicas que, ao longo dos tempos, foram surgindo para o nome "Iscariotes". Uma delas tem uma conotação política, ligando-o ao grupo dos sicários, uma ramificação do grupo dos zelotes que perpetrava violentos ataques – geralmente com punhais, e daí o seu nome latino de sicarii – contra as forças romanas na Palestina. Por isso, se argumenta que Judas Iscariotes, alegadamente, teria sido um membro deste grupo e que o seu nome seria a transliteração de homem do punhal, em hebraico ish sicari. Outros derivam o seu nome do aramaico saqar, palavra que significava alguém "mentiroso", que é "falso".

Outra possibilidade é que Iscariotes fosse usado como apelido, em hebraico ish Qeryoth, que significa homem de Queriote. (João 6:71; 13 26:). Também, podia ser designado "filho" ou "descendente" ou "natural" de Queriote. "Queriote" – de acordo com a interpretação inicialmente veiculada por São Jerónimo – seria o nome simplificado da aldeia, ou mais provavelmente um conjunto de aldeias, de Queriote-Ezron (Josué 15:21) – nome que significa "cidades de Ezron" – localizada na província romana da Judeia (no território da Tribo de Judá) e que é comummente identificada com a moderna Qirbet el-Qaryatein, situada a cerca de 20 km a sul de Hebron.

Aspectos religiosos e históricos segundo os Evangelhos Canónicos[editar | editar código-fonte]

O seguimento apostólico[editar | editar código-fonte]

Judas Iscariotes foi escolhido como um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo, sendo apresentado, na listagem dos seus nomes, sempre em último lugar (Mateus 10:2-4; Marcos 3:16-19; Lucas 6:13-16). Mais tarde, ele tornou-se infiel e iníquo, conforme apresentado no Novo Testamento. Era o encarregado da bolsa do dinheiro dos apóstolos: «tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava» (João 12:6). Teria demonstrado exteriormente a sua fraqueza na cena da unção com óleo perfumado em Betânia, onde testemunhou que estava mais apegado ao dinheiro do que propriamente aos gestos concretos com que Jesus demonstrava a sua missão (João 12:1-6).

A traição[editar | editar código-fonte]

Judas entregou Jesus por trinta moedas de prata, o preço de um escravo segundo Êxodo 21:32. De acordo com o autor do Evangelho de Mateus, os principais sacerdotes decidiram não colocar essas moedas no tesouro do Templo de Jerusalém, mas, em vez disso compraram um terreno no exterior da cidade para sepultar defuntos, conhecido ainda hoje como "Campo de Sangue". Segundo Zacarias, profeta do Antigo Testamento, a vida e o ministério do prometido Messias (ou Cristo) seria avaliado em 30 moedas de prata (Zacarias 11:12-13). Isto significava que, segundo a leitura dos acontecimentos feita pelo evangelista Mateus, os líderes religiosos judaicos foram induzidos a avaliar a vida e ministério de Jesus de Nazaré como dotados de bem pouco valor.

A motivação da sua ação é justificada ou explicada, nos Evangelhos, de diferentes modos. Assim, nos Evangelhos mais antigos, de Mateus e de Marcos, tal deveu-se à sua avareza (Mateus 26:14-16; Marcos 14:10-11). Já nos Evangelhos de Lucas e de João o seu procedimento é devido à influência direta de Satanás - ο σατανας - (Lucas 22:3; João 13:2-27) sobre as suas ações.

A morte[editar | editar código-fonte]

O Suicídio de Judas

Os autores do Novo Testamento, relendo à luz da sua Fé as escrituras do Antigo Testamento, procuraram, de algum modo, mostrar que a morte de Judas fora análoga à que as Escrituras apresentavam para o "desesperado" («Vendo Aitofel que se não tinha seguido o seu conselho, albardou o jumento, e levantou-se, e foi para sua casa [...], se enforcou e morreu» (II Samuel 17:23)) e para o "ímpio" (no deuterocanônico Sabedoria 4:19: «Em breve os ímpios tornar-se-ão cadáver sem honra, objeto de o próbrio para sempre entre os mortos: o Senhor os precipitará de cabeça para baixo, sem que digam palavra, e os arrancará de seus fundamentos. Serão completamente destruídos, estarão na dor e sua memória perecerá.»).

Perspectiva islâmica[editar | editar código-fonte]

Existe uma lenda de que Judas (segundo outros autores, seria Simão de Cirene) teria sido crucificado no lugar de Jesus Cristo. A "teoria da substituição" aparentemente se fundamentaria no Alcorão (ou Corão): «E por os judeus dizerem: "Matamos o Messias, Jesus, filho de Maria, o Mensageiro de Alá Deus", embora não sendo, na realidade, certo que o mataram, nem o crucificaram, senão que isso lhes foi simulado. E aqueles que discordam, quanto a isso, estão na dúvida, porque não possuem conhecimento algum, abstraindo-se tão-somente em conjecturas; porém, o fato é que não o mataram.» (Alcorão, surata 4 § 157)

Mas a explicação mais coerente da Surata 4 § 157, à luz de todos os textos do Alcorão, é que os judeus eram incapazes de se gloriarem de terem matado Jesus, porque efetivamente era Deus quem estava no controle dos acontecimentos e quem permitiu que Jesus Cristo morresse numa Cruz. A "Teoria da Substituição" não é mais do que uma tentativa de harmonizar a declaração de que Jesus não foi crucificado (na frase idiomática wa-lakin shubbiha lahum) com a descrição dos Evangelhos sobre a sua crucificação. Na verdade, nenhuma destas histórias tem apoio no Alcorão ou das Tradições Islâmicas autênticas, apoiando-se, isso sim, sobretudo, nos escritos polemistas do cosmógrafo do século XIV, ad-Dimashqï (Ref. "Encyclopedia Britannica", "Judas").

O Evangelho de Judas[editar | editar código-fonte]

O Evangelho de Judas é um evangelho apócrifo, atribuído a autores gnósticos nos meados do século II, composto de 26 páginas de papiro escrito em copta dialectal que revela as relações de Judas com Jesus Cristo sob uma outra perspectiva: Judas não teria traído Jesus, e sim, atendido a um pedido deste ao denunciá-lo aos romanos.

Desaparecido por quase 1700 anos, a única cópia conhecida do documento foi publicada em 6 de abril de 2006 pela revista National Geographic. O manuscrito, autentificado como datando do século III ou IV (220 a 340 D.C.), é uma cópia de uma versão mais antiga redigida em grego. Contrariamente à versão dos quatro Evangelhos oficiais, este texto clama que Judas era o discípulo mais fiel a Jesus, e aquele que mais compreendia os seus ensinamentos. O seu conteúdo consiste basicamente em ensinamentos de Jesus para Judas, apresentando informações sobre uma estrutura hierárquica de seres angelicais e uma outra versão para a criação do universo.

Outras perspectivas[editar | editar código-fonte]

De acordo com alguns estudiosos, Judas de Iscariotes teria sido membro da seita dos zelotes. No quadro de um Messianismo Político do 1.º Século, estaria convencido de que ele, com todo o seu poder, concretizaria a chegada do Reino tão desejado por Israel. Mas, com o tempo, terá começado a sentir-se desiludido, porque Jesus não terá correspondido aos seus ideais e expectativas. Desencantado com Jesus, o terá entregue ao Sinédrio, para assim unir o povo judeu numa revolta contra Roma e desencadear o estabelecimento imediato do Reino de Deus. (Ref.ª Diário de Noticias de 21 de maio de 2006, Secção Opinião, Anselmo Borges, Padre e Professor de Filosofia; National Geographic, Abril de 2006, pág.; História Viva, Novembro de 2003, pág. 61-5; O Processo de Judas, Dr. Remy Bijaoui, Imago, 1999).

Esta visão é apresentada em muitas obras literárias e no cinema, com especial atenção para A Última Tentação de Cristo (1988), baseado no romance do mesmo nome de Nikos Kazantzakis (1954), mais tarde (1988) transformado em filme dirigido por Martin Scorsese, além do filme O Rei dos Reis, clássico sobre a vida de Jesus Cristo de 1961 dirigido por Nicholas Ray, onde apresenta Judas (interpretado com brilhantismo por Rip Torn) como um zelote, que auxilia Barrabás na luta contra a Opressão Romana, e que ao se juntar ao grupo de Jesus, ele está convencido que o Galileu instalará o Reino de Deus na Judeia, pois Jesus tem o poder de fazer milagres, e que assim, liquidará com todos os opressores romanos. Para provar o poder de Cristo, e também com a finalidade de forçá-lo a se proclamar Rei, ele entrega-o às autoridades, mas quando vê o Nazareno subjugado, açoitado, e carregando uma cruz, seu conceito sobre o Filho de Deus se desvanece, e desiludido, ele resolve se enforcar.

Outros sustentam que na realidade Judas não traiu Jesus Cristo por 30 moedas. Argumentam que ele terá agido por ordem do próprio Jesus, precipitando dessa forma a morte na cruz e a redenção da humanidade. Por fim, ele não se teria suicidado como dizem os Evangelhos canónicos, mas antes retira-se para o deserto para meditar. O Evangelho sobre Judas, escrito gnóstico do 2.º Século, "não deve ser visto como a versão verdadeira sobre o destino do apóstolo de má fama, mas como mais uma peça no quebra-cabeças dos primeiros anos do cristianismo". (Ref.ª Veja de 12 de abril de 2006, ed. 1951, pág. 91).

Outros crêem que Judas apenas acreditava que Jesus iria reagir contra os guardas do império romano quando eles fossem pegá-lo. Se isto ocorresse, os Judeus (que não acreditavam que Jesus era o Messias) iriam se unir a eles e assim derrotar Roma. Os Judeus não acreditavam em Jesus, pois eles viam Messias como um libertador que viria de espada e destruiria Roma. Como Jesus veio em paz algumas pessoas não acreditaram e continuaram a dizer que Messias ainda viria dessa vez com uma espada na mão. Se Jesus reagisse contra os guardas que o vieram prender, como no plano de Judas, muitos judeus que antes não acreditavam iriam começar a acreditar e assim todos eles poderiam derrotar Roma juntos.

Conhecida é, também, a leitura alegórico-sapiencial que os Padres da Igreja dos primeiros séculos faziam entre o nome de Judas e a sua iniciativa de vender Jesus às autoridades como sendo análoga à venda de José, pelo seu irmão, Judá, aos ismaelitas (Génesis 37:26,27). Curioso é, ainda, o facto de o valor gemátrico do nome Judas, em hebraico, ser, precisamente, trinta - ou seja, o valor pelo qual ele entregou Jesus -, por alguns intérpretes entendido como sinal de que, ao trair o seu Mestre, Judas estava, igualmente, a trair a sua própria pessoa.

Judas Iscariotes na arte[editar | editar código-fonte]

Iconografia[editar | editar código-fonte]

A tragédia associada ao drama da vida e da morte de Judas Iscariotes foi, desde sempre, uma das mais prolixas inspirações para a criação de obras artísticas. Assim pode-se vê-lo:

Literatura[editar | editar código-fonte]

Célebre é, também, a referência que Dante Alighieri faz a Judas na sua "Divina Comédia" ao colocá-lo, juntamente com Cássio e Bruto, assassinos de Júlio César, na maior profundidade dos infernos e apresentando-o a ser continuamente devorado pelo príncipe das profundezas, Lúcifer:

"Quell' anima là sù c’ha maggior pena", / disse ’l maestro, "è Giuda Scarïotto, / che ’l capo ha dentro e fuor le gambe mena."

"O que sofre lá em cima a dor mais lancinante", / disse o Mestre, "é Judas Iscariotes, / que tem a cabeça dentro e esperneia as pernas para fora."

O escritor italiano Ferdinando Petruccelli della Gattina, no controverso romance Memorias de Judas (1867), reabilita a figura do apóstolo, visto como um revolucionário que lutou contra a opressão do Império Romano.

Música[editar | editar código-fonte]

Em 1978, o cantor brasileiro Raul Seixas gravou a canção Judas com a parceria de Paulo Coelho no álbum Mata Virgem mostrando Judas sendo condenado e relatando que ele foi escolhido para pregá-lo na cruz.

Em 2007, a cantora estado-unidense Kelly Clarkson gravou para seu terceiro álbum de estúdio, My December, a canção Judas, escrita pela própria cantora, em parceria com Jimmy Messer e Dwight Baker. A canção fala sobre uma traição de alguém que era tido como verdadeiro amigo e cuja atitude a intérprete lamenta profundamente no decorrer da melodia.

Em 2011, outra cantora estado-unidense, Lady Gaga, lançou uma canção de nome "Judas", contida no seu terceiro álbum de estúdio, Born This Way, como single. A canção narra uma luta pessoal da intérprete de querer amar a Jesus Cristo, porém se vê amando a Judas Iscariotes.[3] [4]

Na cultura popular[editar | editar código-fonte]

  • O beijo de Judas tornou-se no símbolo da amizade falsa e da hipocrisia.
  • Em alguns países, adoptou-se o costume da Malhação de Judas, onde se costuma espancar e queimar publicamente, no Sábado de Aleluia, um boneco de palha que personificaria o traidor de Cristo.
  • O filme Jesus Cristo Superstar apresenta os últimos dias de Jesus sob o ponto de vista de Judas.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Marcos 3:19; Marcos 14:10; Lucas 6:16
  2. Mateus 10:4; Lucas 22:3; João 12:4
  3. Dinh, James (23 de março de 2011). Lady Gaga To Direct 'Judas' Video With Laurieann Gibson (em inglês) MTV MTV Networks. Visitado em 3 de maio de 2011.
  4. Perpetua, Matthew (18 de fevereiro de 2011). Preview Six Songs From Lady Gaga's 'Born This Way' (em inglês) Rolling Stone. Visitado em 3 de maio de 2011.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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