Império Romano

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Senatus Populusque Romanus
"O Senado e o Povo Romano" ou
Imperium Romanum[nota 1]

Império Romano

Império

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27 a.C. – 476 d.C.
1453
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Vexilo, com a águia e o acrônimo do Estado romano de Império Romano

Vexilo, com a águia e o acrônimo do Estado romano

Lema nacional
Senatus Populusque Romanus
(Senado e Povo de Roma)
Localização de Império Romano
Extensão máxima do Império Romano durante o reinado de Trajano, em 117
Continente Europa, Bacia Mediterrânea da África e da Ásia
Capital Roma
(27 a.C. - 286 d.C.)
Constantinopla
(A partir de 330)
Língua oficial Latim, grego
Religião Politeísmo romano (27 a.C. - 380 d.C.) / cristianismo (380 - 476)
Governo De jure: República
De facto: Oligarquia
Principado: 27 a.C.-295 d.C.
Dominato: 235 - 395
Imperador
 • 27 a.C. - 14 d.C. Augusto
 • 379 - 395 Teodósio I
 • 475 - 476
1449 - 1453
Rômulo Augusto / Constantino XI Paleólogo 
Legislatura Senado romano
Período histórico Antiguidade clássica
 • 31 a.C. Batalha de Áccio
 • 27 a.C. Otaviano é proclamado Augusto.
 • 285 Diocleciano divide o império entre Ocidente e Oriente
 • 330 Constantino declara Constantinopla como a nova capital do império.
 • 395 Morte de Teodósio I, selando a divisão permanente entre Leste e Oeste.
 • 476 d.C.
1453
Rômulo Augusto é deposto/ Queda de Constantinopla
Área
 • 25 a.C.[1] [2] 2 750 000 km2
 • 50[1] 4 200 000 km2
 • 117[1] 6 500 000 km2
 • 390 [1] 4 400 000 km2
População
 • 25 a.C.[1] [2] est. 56 800 000 
     Dens. pop. 20,7/km²
 • 117[1] est. 88 000 000 
     Dens. pop. 13,5/km²
Moeda Denário, sestércio, soldo
Atualmente parte de

Império Romano (em latim: Imperium Romanum) foi um Estado que se desenvolveu a partir da península Itálica, durante o período pós-republicano da antiga civilização romana, caracterizado por uma forma de governo autocrática e por grandes propriedades territoriais na Europa e em torno da bacia do mar Mediterrâneo.[3]

Os 500 anos de existência da República Romana, que precedeu o império, foram enfraquecidos e subvertidos por várias guerras civis.[nota 2] Muitas datas são habitualmente propostas para marcar a transição da república para o império, como a data da indicação de Júlio César como ditador perpétuo (44 a.C.); a vitória de seu herdeiro, Otaviano, na Batalha de Áccio (2 de setembro de 31 a.C.); ou a data em que o senado romano outorgou a Otaviano o título honorífico de Augusto (16 de janeiro de 27 a.C.).[nota 3] Assim, o termo "Império" tornou-se a designação utilizada, por convenção, para se referir ao Estado romano nos séculos que se seguiram à reorganização política efetuada pelo primeiro imperador, Augusto. Embora Roma possuísse colônias e províncias antes desta data, o Estado pré-Augusto é conhecido como República.

A expansão territorial romana começou na época da república, mas o império alcançou sua maior extensão sob o governo do imperador Trajano: durante o seu reinado o Império Romano controlava aproximadamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados da superfície terrestre.[4] Por causa da vasta extensão do império e de seu longo tempo de existência, as instituições e a cultura de Roma tiveram uma profunda e duradoura influência sobre o desenvolvimento dos idiomas, da religião, da arquitetura, da filosofia, do direito e das formas de governo nos territórios governados pelo romanos, particularmente na Europa e, por meio do expansionismo europeu, em todo o mundo moderno.

No final do século III, Diocleciano estabeleceu a prática de dividir a autoridade entre quatro co-imperadores, a fim de melhor proteger o vasto território, pondo fim à crise do terceiro século. Durante as décadas seguintes o império era frequentemente dividido ao longo de um eixo Ocidente-Oriente. Após a morte de Teodósio I em 395, o império foi dividido pela última vez.[5] O Império Romano do Ocidente acabou em 476, quando Rômulo Augusto foi forçado a se render ao chefe militar germânico Odoacro.[6] O Império Romano do Oriente (conhecido como Império Bizantino) chegou ao fim em 1453, com a morte de Constantino XI Paleólogo  e com a invasão da cidade de Constantinopla pelos turcos otomanos, liderados por Maomé II, o Conquistador.[7]

História[editar | editar código-fonte]

A expansão romana teve início no século VI a.C., pouco após a fundação da república. No entanto, só no século III a.C. é que Roma iniciou a anexação de províncias fora da península itálica, quatro séculos antes de alcançar a sua maior extensão territorial e, nesse sentido, constituía já um "império", apesar de ainda ser governado enquanto república.[8] [9] [10] A República Romana não era um estado-nação no sentido contemporâneo do termo, mas antes uma rede de cidades, cada uma com diferente grau de autonomia em relação ao senado romano. As províncias republicanas eram administradas por antigos cônsules e pretores, eleitos para um mandato de um ano.[11] O poder militar dos cônsules tinha como base a noção jurídica de imperium, ou comando militar.[12] Ocasionalmente, os cônsules bem-sucedidos eram agraciados com o título imperator (comandante), o qual está na origem do termo "imperador".[13]

A partir do final do século II a.C., ao mesmo tempo que Roma vive uma série de conflitos internos, conspirações e guerras civis, a sua influência alarga-se para além de Itália. O século I a.C. foi um período de instabilidade, marcado por diversas revoltas políticas e militares que abriram caminho para a implementação de um regime imperial.[14] [15] [16] Em 44 a.C., Júlio César é aclamado ditador perpétuo antes de ser assassinado.[17] No ano seguinte, Otávio Augusto, filho adotivo de César e um dos mais destacados generais republicanos, torna-se um dos três membros do Segundo Triunvirato — uma aliança política com Lépido e Marco António.[18] A divisão do império entre António e Augusto foi efémera. As tensões entre ambos no período que se seguiu à Batalha de Filipos levaram à dissolução do triunvirato em 32 a.C. e ao confronto na Batalha de Áccio, da qual Marco António e a rainha Cleópatra saíram derrotados e que proporcionou a anexação do reino egípcio por Augusto.[19] O Senado e o Povo de Roma proclamaram Otávio Augusto príncipe (princeps; primeiro cidadão) com imperium proconsular e o título augusto (augustus; o venerado). Este evento assinala o início do principado romano, a primeira época do período imperial entre 27 a.C. e 284 d.C. O governo de Augusto pôs fim a um século de guerra civil, dando início a uma época sem precedentes de estabilidade social, prosperidade económica e Pax Romana ("paz romana"), que se prolongou durante os dois séculos seguintes. As revoltas nas províncias eram pouco frequentes e rapidamente controladas.[20] Sendo agora o único governador de Roma, Augusto iniciou uma série de reformas militares, políticas e económicas em larga escala. O senado atribuiu-lhe o poder de nomear os próprios senadores e autoridade sobre os governadores de província, criando de facto o cargo que mais tarde seria denominado imperador romano. Em 27 a.C., Augusto tentou devolver o poder ao senado, o qual recusou, confirmando assim o novo regime político. Otávio recebeu do senado o título de Augusto e escolheu para si o título de príncipe.[21]

Augusto, o primeiro imperador, na estátua da Prima Porta.

Augusto implementou princípios de sucessão dinástica, sendo sucedido na dinastia júlio-claudiana por Tibério, Calígula, Cláudio. Em 69 d.C., durante o ano dos quatro imperadores, Vespasiano ascende ao poder e funda a efémera dinastia flaviana, sucedida pela dinastia nerva-antonina e da qual fizeram parte os imperadores Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio. Em 212, durante o reinado de Caracala, foi concedida cidadania romana a todos os cidadãos livres do império. Mas apesar deste gesto de universalidade, a dinastia severa foi marcada por vários tumultos ao longo da crise do terceiro século, uma época de invasões, agitação social, dificuldades económicas e pela peste. No contexto da periodização da História, esta crise é geralmente considerada o momento de transição entre a Antiguidade clássica e a Antiguidade Tardia.[22]

Diocleciano renunciou ao papel de príncipe e adotou o título domine (mestre ou lorde), marcando a transição do principado para o dominato — um estado de monarquia absoluta que se prolongaria até à queda do Império Romano do Ocidente em 476.[23] Diocleciano impediu o colapso do império, embora o seu reinado tenha sido marcado pela perseguições ao cristianismo. Durante o seu reinado, o império foi dividido numa tetrarquia de quatro regiões, cada uma governada por um imperador distinto.[24] Em 313 a tetrarquia entrou em colapso. Após uma série de guerras de sucessão, Constantino emerge como único imperador e o primeiro a converter-se ao cristianismo, estabelecendo Constantinopla como capital do império do oriente. Ao longo das dinastias constantina e valentiniana, o império encontrava-se dividido numa metade ocidental e noutra oriental, sendo o poder partilhado por Roma e por Constantinopla. A sucessão de imperadores cristãos foi brevemente interrompida por Juliano, que tentou restaurar as religiões romana e helenística. Teodósio I, o último imperador a governar o império oriental e ocidental, morreu em 395, após ter decretado o cristianismo a religião oficial do império.[25]

A partir do início do século V o Império Romano começou a fragmentar-se, uma vez que o elevado número de migrações dos povos germânicos era superior à capacidade do império em assimilar os migrantes. Embora o exército romano fosse eficaz a repelir os invasores, o mais notável dos quais Átila, o Huno, o império tinha assimilado de tal forma povos germânicos com lealdade duvidosa a Roma que o império se começou a desmembrar a partir de si próprio. A maior parte dos historiadores data a queda do Império Romano do Ocidente em 476, ano em que Rómulo Augusto foi deposto pelo líder germânico Odoacro.[26] No entanto, em vez de assumir para si o título de imperador, Odoacro submeteu-se ao domínio do Império Romano do Oriente, terminando assim a linha de imperadores ocidentais. Ao longo do século seguinte, o império oriental, conhecido atualmente como Império Bizantino,[nota 4] foi perdendo progressivamente o domínio da parte ocidental. O Império Bizantino terminou em 1453, com a morte de Constantino XI e a conquista de Constantinopla pelo Império Otomano.[27]

Geografia e demografia[editar | editar código-fonte]

A muralha de Adriano no norte de Inglaterra, que dividia o império romano da constante ameaça dos bárbaros, é o principal testemunho sobrevivente da política de consolidação do território e controlo de fronteiras.[28]

O Império Romano foi um dos maiores da História e dominava uma extensão territorial contínua ao longo da Europa, Norte de África e Médio Oriente,[29] desde a muralha de Adriano na chuvosa Inglaterra até às margens soalheiras do rio Eufrates na Síria, desde as planícies férteis da Europa Central até às luxuriantes margens do vale do Nilo no Egito.[30] A noção de imperium sine fine ("império sem fim") manifestava a ideologia romana de que o seu império não era limitado no espaço e no tempo.[31] A maior parte da expansão romana ocorreu durante a república, embora algumas partes do norte e centro da Europa tenham sido conquistadas no século I d.C., período que corresponde à consolidação do poder romano nas províncias.[32] A Res Gestae, narrativa das conquistas de Augusto, destacava o número de povos e regiões do império.[33] A administração imperial realizava frequentemente censos e mantinha registos geográficos meticulosos.[34]

O império atingiu a sua maior extensão territorial durante o reinado de Trajano (r. 98-117),[35] correspondente a uma área de cerca de cinco milhões de quilómetros quadrados e atualmente repartida por quarenta países.[36] A população deste período é tradicionalmente estimada entre 55 e 60 milhões de habitantes,[37] o que correspondia a entre 1/6 e 1/4 da população mundial[38] e à maior população de qualquer unidade política do Ocidente até meados do século XIX.[39] No entanto, estudos mais recentes têm estimado um pico demográfico entre 70 e 100 milhões de habitantes.[40] Cada uma das três maiores cidades do império — Roma, Alexandria e Antioquia — tinham o dobro do tamanho de qualquer cidade europeia durante o início do século XVII.[41] Adriano, o sucessor de Trajano, abandonou a política expansionista e optou por uma política de consolidação do território, definindo, fortificando e patrulhando as regiões de fronteira.[42]

Língua[editar | editar código-fonte]

A língua dos romanos era o latim, que Virgílio destaca como fonte da unidade e tradição romanas.[43] Embora o latim fosse a língua corrente nos tribunais e administração pública no Império do Ocidente e no exército de todo o império, não era imposto de forma oficial aos povos sob domínio romano.[44] Ao conquistar novos territórios, os romanos preservavam as tradições e línguas locais, introduzindo gradualmente o latim através da administração pública e documentos oficiais.[45] Esta política contrasta com a de Alexandre, o Grande, que impôs o grego helenístico como língua oficial do seu império.[46] Isto fez com que o grego antigo viesse a ser a língua franca da metade oriental do Império Romano, ao longo de todo o mediterrâneo oriental e da Ásia Menor.[47] [48]

Papiro do século V com texto bilingue em latim e em grego de um discurso de Cícero.

Embora os imperadores júlio-claudianos incentivassem o uso de latim na realização de negócios oficiais em todo o império, o grego continuou a ser a língua literária entre a elite cultural romana e a maior parte dos governantes era fluente em grego. Cláudio tentou limitar o uso de grego, chegando a revogar cidadania para aqueles que não soubessem latim, embora no próprio senado houvesse embaixadores nativos em grego.[49] No Império do Oriente, as leis e os documentos oficiais eram regularmente traduzidos de latim para grego.[50] A utilização simultânea de ambas as línguas pode ser observada em inscrições bilingues em grego e latim.[51] [52] Em 212, quando foi concedida cidadania a todos os homens livres do império, era esperado que os cidadãos que não soubessem latim adquirissem algumas noções básicas da língua.[53] No início do século V, Justiniano esforçou-se por promover o latim enquanto língua do Direito no oriente, embora o latim tenha perdido progressivamente influência e existência enquanto língua viva.[54]

Inscrição bilingue no teatro de Léptis Magna na província de África.

A constante referência a intérpretes na literatura e nos documentos oficiais indica a vulgaridade e prevalência no Império Romano de uma grande quantidade de línguas locais. Os próprios juristas romanos preocupavam-se em assegurar que as leis e os juramentos eram corretamente traduzidos e compreendidos nas línguas locais, como a língua púnica, gaulesa, aramaica, ou ainda a língua copta, predominante no Egito ou as línguas germânicas, predominantes nas regiões do Reno e do Danúbio.[55] Em algumas regiões, como na província de África, o púnico era usado em moedas e inscrições nos edifícios públicos, algumas bilingues com o latim. No entanto, a predominância do latim entre as elites e como língua oficial de documentos escritos comprometeu a continuidade de diversas línguas locais, uma vez que todas as culturas no interior do império eram de tradição predominantemente oral.[56]

No ocidente, o latim vulgar substituiu progressivamente as línguas celtas e itálicas, relativamente às quais partilha a mesma raiz indo-europeia, o que facilitou a sua adoção.[57] O latim desenvolveu-se progressivamente em diversos ramos regionais que evoluiriam para as línguas românicas modernas, como as línguas portuguesa, espanhola, francesa, italiana ou romena. Apesar disso, o latim continuou ser a língua internacional por excelência no ensino, literatura, diplomacia e vida intelectual até ao século XVII, e em obras jurídicas e eclesiásticas até aos nossos dias.[58] Embora no Império Bizantino o grego tivesse permanecido como língua franca, a distribuição das línguas regionais é muito mais complexa. A maioria dos que falavam grego vivia na península e nas ilhas gregas, na Anatólia ocidental, nas principais cidades do império e em algumas regiões costeiras. Tal como o grego e o latim, a língua trácia e diversas línguas extintas da Anatólia tinham raiz indo-europeia.[59] [60] Várias línguas afro-asiáticas, principalmente a língua copta no Egito e a língua aramaica na Síria e Mesopotâmia, nunca foram substituídas pelo grego.[61]

Governo[editar | editar código-fonte]

Os três principais elementos do estado imperial romano foram o governo central, as forças armadas e os governos provinciais.[62] As forças militares impunham o domínio sobre um território através de campanhas militares. No entanto, depois de uma cidade ou povo assinarem tratados de cooperação, as missões militares convertiam-se em missões de policiamento, protegendo cidadãos romanos e, a partir de 212 d.C, todos os homens livres do império, os campos de cultivo e locais religiosos.[63] Sem recursos modernos de comunicação ou destruição em massa, os romanos não dispunham de capital humano suficiente para impor o seu domínio apenas através da força. Era necessária a cooperação com as elites locais para manter a ordem, recolher informações e cobrar impostos. Os romanos muitas vezes exploravam divisões políticas internas entre os povos assimilados, apoiando uma facção contra outra.[64] [65] As comunidades que demonstrassem a sua lealdade perante Roma podiam manter as suas próprias leis, cobrar os seus próprios impostos e, em casos excecionais, estavam isentas dos impostos centrais. Os privilégios jurídicos e a relativa independência constituíam um incentivo a que fosse do interesse da população manter a sua reputação perante Roma.[66] Assim, o poder do governo central romano era limitado, embora eficiente no uso dos recursos disponíveis.[67]

Governo central[editar | editar código-fonte]

O imperador era a suprema autoridade religiosa e política do império, reservando para si competências que durante a república eram atribuição do senado, como o direito de declarar guerra, ratificar tratados e negociar com líderes estrangeiros.[68] A autoridade do imperador baseou-se na concentração dos poderes de vários cargos republicanos, entre os quais a inviolabilidade e autoridade sobre o poder civil dos tribunos da plebe, a autoridade sobre o exército dos procônsules e a autoridade dos censores para manipular a hierarquia da sociedade romana e controlar o senado.[69] Embora as funções do imperador tenham sido definidas durante o principado, ao longo do tempo o poder do imperador foi-se afastando do modelo constitucional e aproximando-se progressivamente do modelo despotismo característico do dominato.[70] A morte de um imperador provocava um período de incerteza e crise. A maior parte dos imperadores indicava o seu sucessor, geralmente um membro familiar chegado ou herdeiro adotivo. O novo imperador deveria garantir a lealdade do aparelho de estado para estabilizar o cenário político.[71]

Os imperadores da dinastia julio-claudiana eram assistidos por um corpo informal de conselheiros, que incluía não só senadores e equestres, como também escravos e libertos de confiança.[72] Após o reinado de Nero, a influência deste conselho era vista com desconfiança e o consilium passou a ser escolhido por indicação oficial.[73] Embora até ao fim da dinastia antonina os senadores assumissem o papel de destaque nas decisões políticas, a influência dos equestres no conselho foi aumentando progressivamente.[74] As mulheres da família do imperador intervinham frequentemente nas suas decisões.[75] Fora do seu círculo reservado, o acesso ao imperador tinha lugar durante uma receção diária (salutatio), inspirada na tradição romana da homenagem diária dos clientes aos seus patronos, e durante a qual se realizavam no palácio cerimónias religiosas e banquetes públicos. Os cidadão comuns sem acesso a estas recepções podiam manifestar-se em grupo durante os jogos realizados nos grandes recintos.[76] Por volta do século IV, à medida que os centros urbanos entravam em declínio, os imperadores cristãos tornam-se figuras resguardadas do público, promulgando decretos generalistas e deixando de responder a petições individuais.[77]

O senado sobreviveu à restauração de Augusto e ao turbulento ano dos quatro imperadores, conservando durante o principado o prestígio político que detinha na república, embora não tivesse suficiente poder político para se opor à vontade do imperador.[78] Era o senado que legitimava o domínio do imperador, e o imperador necessitava da experiência dos senadores enquanto legati para as funções de generais, diplomatas e administradores.[79] [80] O exército era a fonte pragmática do poder e autoridade do imperador. Os legionários eram pagos pelo tesouro imperial e todos os anos juravam lealdade ao imperador durante o sacramentum.[81] Nenhum imperador conseguia reinar sem o apoio da guarda pretoriana e das legiões, pelo que era comum o pagamento de um donativum para garantir o seu apoio. Em teoria, o senado era livre para escolher o novo imperador, embora na prática o fizesse de acordo com o desejo dos pretorianos.[82]

Governo provincial[editar | editar código-fonte]

O anfiteatro de Pula, na Croácia, é um dos maiores e mais bem preservados anfiteatros romanos.

Para que um território anexado se tornasse uma província era necessária a realização de um inventário das cidades, de um censo da população e de um levantamento topográfico.[83] A administração passava então a manter diversos registos, entre os quais dos nascimentos e mortes, das transações de propriedade e dos procedimentos jurídicos. As províncias eram administradas por governadores romanos. As províncias senatoriais eram governadas por magistrados eleitos em Roma em nome do povo romano. As províncias imperiais, excluídas do controlo do senado, eram governadas por membros da ordem equestre que administravam o imperium em nome do imperador. Um governador devia ser acessível à população governada, embora pudesse delegar várias tarefas, para as quais dispunha de um quadro de funcionários públicos: apparitores (assessores), entre os quais se incluíam lictores, mensageiros, escribas e guarda-costas; legatus civis e militares, geralmente da ordem equestre; e um conselho não oficial de pessoas de confiança.[84]

As finanças públicas eram supervisionadas por funcionários nomeados para o cargo. Durante o império, procedeu-se a uma reforma do sistema fiscal, separando-o dos tribunais e da administração pública, já que durante a república era comum a exploração da população local.[85] Os procuradores, cuja autoridade era extra-judicial e extra-constitucional, geriam não só a propriedade do Estado, como a vasta propriedade do imperador (res privata). Dado que existiam poucos funcionários nos governos locais, caso um administrador de província necessitasse de apoio para uma disputa jurídica ou caso criminal podia convocar qualquer cidadão romano com alguma competência administrativa, como um procurador ou um oficial militar, desde um centurião até às patentes inferiores.[86] [87]

Exército e marinha[editar | editar código-fonte]

Relevo do sarcófago Grande Ludovisi (250-260) ilustrando uma batalha entre guerreiros romanos e germânicos; acredita-se que a figura central seja o imperador Hostiliano (d. 251)

Os legionários do exército imperial romano eram profissionais de carreira que se voluntariavam para vinte anos de serviço ativo e cinco na reserva, cujos salários eram pagos através do erário militar. A profissionalização do exército teve início no fim da República e substituiu o serviço militar obrigatório, pelo qual se convocavam os habitantes para combater uma ameaça específica.[88] Serviam no exército imperial cerca de 300 000 soldados no século I e menos de 400 000 no século II um número significativamente menor do que o conjunto das forças armadas dos territórios conquistados e que corresponde a cerca de 2% dos homens adultos residentes no império.[89]

As três principais divisões militares eram a guarnição de Roma, incluindo a Guarda pretoriana e os vigiles (polícia e bombeiros); o exército provincial, incluindo as legiões e as tropas auxiliares romanas; e a marinha romana. A omnipresença de guarnições militares em todo o império foi uma das principais influências no processo de romanização.[90] Cada legião organizava-se em dez coortes, cada uma com seis centúrias, que por sua vez eram divididas em dez contubernia. Estima-se que cada legião tivesse, em média, 5000 soldados.[91] Durante e após a Segunda Guerra Civil da República de Roma, Augusto reduziu o número de legiões, superior a 60, para apenas 28.[92] Durante os três séculos seguintes, o número total de legiões manteve-se em trinta.[93]

Augusto criou também a guarda pretoriana, nove coortes ostensivas guarnecidas em Itália e com a função de manter a ordem pública. Os pretorianos eram melhor remunerados e serviam menos tempo do que os legionários, retirando-se ao fim de dezasseis anos de serviço militar.[94] As tropas auxiliares (auxilia) eram recrutadas entre os não cidadãos e organizavam-se em pequenas unidades com aproximadamente o tamanho de uma coorte. Os soldados recebiam menos do que os legionários, embora ao fim de 25 anos de serviço lhes fosse oferecida e aos filhos a cidadania romana. As tropas auxiliares tinham cerca de 125 000 homens, distribuídos por aproximadamente 250 regimentos auxiliares.[95] Durante o início do império, a cavalaria romana era proveniente principalmente de Hispânia e das regiões celtas e germânicas, influenciando alguns aspetos do treino e do equipamento romanos.[96]

A marinha romana (classis) abastecia e e transportava as legiões, auxiliava a proteção das fronteiras ao longo dos rios, protegia as rotas de comércio marítimo contra os ataques de piratas e patrulhava o Mediterrâneo, partes da costa atlântica e o mar Negro. No entanto, o exército era considerado o ramo mais prestigiado.[97] Durante o início do principado, a marinha organizava-se de forma semelhante a uma centuria. Os voluntários podiam-se inscrever na infantaria naval ou como remadores, marinheiros ou artesãos, embora todos fossem todos considerados milites (soldados). A maior parte da tripulação era formada pelos remadores (remiges), que durante o império eram na sua maioria peregrini das províncias de tradição marítima.[98] A centúria era liderada por um centurião, assistido por um optio e um beneficiarius que supervisionava os funcionários administrativos, aspirantes e especialistas. Cada navio era comandado por um trierarca e cada esquadrão de dez navios liderado por um navarco.[99] [100]

O termo genérico para um navio de guerra a remos era navis longa, distinguindo-o dos veleiros mercantes (navis oneraria) ou das pequenas embarcações (navigia minora).[101] A marinha possuía diversos tipos de embarcações, desde pequenas barcaças de reconhecimento, como as liburnas, até grandes navios de guerra, como o hexarreme.[102] [103] A principal arma do navio era o rostrum, usado para afundar ou imobilizar os navios inimigos perfurando o seu casco. No convés eram também montadas balistas e catapultas.[104]

Direito[editar | editar código-fonte]

Os tribunais romanos possuíam jurisdição para deliberar sobre processos que envolvessem cidadãos romanos em todo o império, embora houvesse poucos funcionários para fazer cumprir a lei de forma uniforme entre as províncias. Para os que não tinham cidadania romana, a política do império consistia em respeitar a mos regionis, a "tradição local" ou "leis da terra" dos povos romanizados, vendo-as como fonte de precedentes jurídicos e fonte de estabilidade social.[105] [106] A compatibilidade entre o direito romano e o direito local era vista como reflexo da Ius gentium, a lei das gentes ou direito internacional comum entre todas as comunidades humanas.[107] Quando determinados aspetos das leis provinciais entravam em conflito com as leis ou costumes romanos, podiam ser feitos apelos aos tribunais romanos, tendo o imperador autoridade para promulgar uma decisão final.[nota 5] [108] [109]

A maior parte dos territórios da parte oriental do império tinha implementados códigos de direito e procedimentos jurídicos. A ocidente, o direito tinha sido administrado numa base tribal e o direito à propriedade privada pode ter constituído uma novidade da era romana, sobretudo entre os povos celtas. O direito romano facilitava a aquisição de riqueza por parte da elite pró-romana, a qual via vantagens nos seus novos privilégios enquanto cidadãos do império.[110] O alargamento da cidadania de forma universal a todos os habitantes do império em 212 exigiu a aplicação uniforme do direito romano, substituindo os códigos de direito locais que eram aplicados a não cidadãos. A tentativa de Diocleciano em estabilizar o império após a crise do terceiro século incluiu duas compilações jurídicas notáveis em apenas quatro anos, o Código Gregoriano (Codex Gregorianus) e o Código Hermogeniano (Codex Hermogenianus), destinadas a auxiliar os administradores de província a implementar padrões jurídicos consistentes.[111]

Finanças[editar | editar código-fonte]

Personificação do rio Nilo e da sua prole. século I d.C.

O direito fiscal era confuso e contraditório e determinava um sistema complexo de impostos diretos e indiretos, alguns pagos em dinheiro e outros em géneros. Os impostos podiam ser específicos de eterminada província, podiam incidir apenas sobre determinado tipo de propriedades, como a pesca ou salinas ou podiam ainda ser aplicados apenas durante determinado intervalo de tempo.[112] Em regiões pouco monetarizadas eram aceites pagamentos em género, sobretudo nas que produziam cereais ou bens para abastecer os campos militares.[113] Os impostos também financiavam o exército, pelo que os contribuintes tinham direito a reembolso quando o exército capturava despojos ou excedentes.[114] [115]

O valor de impostos cobrados no império correspondia a 5% do produto interno bruto romano.[116] A taxa de imposto sobre rendimentos individuais variava entre 2 e 5%.[117] Os cidadãos pagavam impostos per capita e pelos seus terrenos, com base na sua produção ou na capacidade produtiva.[118] O código previa exceções; por exemplo, os agricultores egípcios estavam isentos quando o ciclo de cheias do rio Nilo não era favorável. As obrigações fiscais eram determinadas pelos censos, os quais exigiam que cada chefe de família se apresentasse perante o administrador encarregado e indicasse a constituição da sua família e as propriedades que possuía adequadas a agricultura ou habitação.[119]

Uma das principais fontes de impostos indiretos era a portoria, obtida em alfândegas e portagens sobre importações e exportações, inclusive entre províncias. Existiam também impostos especiais sobre o comércio de escravos. Um proprietário que libertasse um escravo pagava uma taxa de liberdade, calculada em 5% do seu valor (vicesima libertatis). Era ainda cobrado um imposto de 5% a todos os cidadãos romanos acima de determinadas posses que deixassem uma herança a outras pessoas que não a sua família próxima. Os impostos sobre bens do estado e 1% dos valores de leilão revertiam a favor do fundo de pensões militar.[120] As reduzidas taxas de imposto permitiram à aristocracia romana acumular riqueza, a qual igualava ou excedia a receita do próprio governo central. Por vezes, um imperador repunha o tesouro do estado através da apreensão das propriedades dos imensamente ricos. A recusa no pagamento de impostos por parte dos mais abastados foi um dos factores que contribuiu para o colapso do império.[121]

Sociedade[editar | editar código-fonte]

Banquete entre gerações, representado numa pintura mural de Pompeia, século I d.C., hoje no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles

O Império Romano era uma sociedade multicultural, com uma surpreendente capacidade de coesão, capaz de criar uma noção de identidade comum ao mesmo tempo que assimilou os mais diversos povos no seu sistema político.[122] A preocupação romana em criar monumentos e espaços comunitários abertos ao público, como os fóruns, anfiteatros, circos ou as termas, ajudou a estabelecer o sentimento de romanidade.[123] A sociedade romana possuía um sistema complexo de múltiplas hierarquias, que o conceito contemporâneo de classe social não define de forma precisa.[124]

As duas décadas de guerra civil anteriores ao governo de Augusto deixaram a sociedade tradicional romana num estado de confusão e sobressalto.[125] No entanto, a diluição da hierarquia rígida da república levou a uma cada vez maior mobilidade social entre os romanos,[126] [127] tanto ascendente como descendente, e mais expressiva do que em qualquer outra sociedade da Antiguidade documentada.[128] As mulheres, os libertos e os escravos tinham agora oportunidades económicas e de exercício de influência através de meios que anteriormente lhes estavam vedados.[129] A vida em sociedade do império, particularmente para os que tinham recursos limitados, foi ainda impulsionada pela proliferação de associações voluntárias e confrarias (collegia e sodalitates) formadas com diversas finalidades: guildas profissionais e comerciais, grupos de veteranos, associações religiosas, clubes gastronómicos,[130] e trupes artísticas.[131] No governo de Nero não era invulgar encontrar um escravo que fosse mais rico do que um cidadão nascido livre, ou um eques mais influente do que um senador.[132]

Estatuto jurídico[editar | editar código-fonte]

De acordo com o jurista Gaio, a principal distinção entre pessoas no direito romano dava-se entre cidadãos livres (liberi) e escravos (servi).[133] O estatuto jurídico dos cidadãos livres podia ainda ser precisado de acordo com a sua cidadania. Durante o início do império, só um número limitado de homens é que tinha pleno direito à cidadania romana, a qual lhes permitia votar, candidatar-se a eleições e serem ordenados sacerdotes. A maior parte dos cidadãos tinha apenas direitos limitados, tendo, no entanto, direito a proteção jurídica e outros privilégios que eram vedados àqueles que não tinham cidadania. Os homens livres que viviam no interior do império, mas que não eram considerados cidadãos, tinham o estatuto de peregrinos (peregrini, ou não-romanos).[134] Em 212, através do Édito de Caracala, o imperador Caracala alarga o direito de cidadania a todos os habitantes do império, revogando todas as leis que distinguiam cidadãos de não-cidadãos.[135]

Mulheres[editar | editar código-fonte]

Estatueta de bronze de uma mulher a ler. século I

Ao longo da república e durante o império, as mulheres romanas livres eram consideradas cidadãs, embora não pudessem votar, ocupar cargos políticos ou servir no exército.[136] [137] A mulher romana conservava o apelido de solteira (nomen) ao longo da vida. Na maior parte das vezes, os filhos escolhiam receber o apelido do pai, embora no período imperial pudessem também manter o apelido da mãe.[138]

A forma arcaica de casamento cum manum, pelo qual a mulher era sujeita à autoridade do marido, caiu em desuso durante o período imperial. Uma mulher romana que casasse continuava a ser proprietária dos bens que levava para o casamento. Tecnicamente, mesmo após a mudança para a residência do marido, continuava ainda sob a autoridade do pai, e só quando o pai morria é que se emancipava em termos legais.[139] Este princípio demonstra o relativo grau de independência das mulheres romanas em comparação com outras culturas da antiguidade e até à idade moderna.[140] Embora tivesse que responder perante o pai em assuntos jurídicos, a mulher romana era livre para gerir a vida quotidiana e o marido não tinha qualquer poder jurídico sobre ela.[141] [142] Embora fosse motivo de orgulho social ter casado apenas uma vez, o estigma social em relação ao divórcio ou ao segundo casamento era praticamente inexistente.[143]

A mulher romana podia possuir propriedade, realizar contratos e concretizar negócios, incluindo manufatura, transportes e empréstimos bancários.[144] [145] Era comum haver mulheres que financiavam obras públicas, o que indica que possuíam administravam fortunas consideráveis.[146] As mulheres tinham os mesmos direitos que os homens em relação a heranças, caso o pai morresse sem deixar um testamento.[147] [148] [149] O direito a possuir e gerir propriedade, incluindo os termos do seu próprio testamento, proporcionavam à mulher romana uma enorme influência sobre os filhos, mesmo em adultos.[150] Enquanto parte do programa de Augusto para restaurar a tradição moral e a ordem social, a legislação moral tentou regular a conduta da mulher enquanto forma de promover os valores da família.O adultério, que durante a república tinha sido uma questão do foro privado, foi criminalizado[151] e definido enquanto ato sexual ilícito (stuprum) que ocorra entre um homem e uma mulher casada.[nota 6] [152] [153] [154] [155]

Escravos[editar | editar código-fonte]

Um escravo entrega ao amo tábuas para escrita. Relevo de um sarcófago do século IV.

Na época de Augusto, cerca de 35% dos habitantes da província de Itália eram escravos.[156] A escravatura era uma instituição complexa e de utilidade económica que sustentava a estrutura social romana.[157] Nas cidades, os escravos podiam exercer diversas profissões, entre as quais professores, médicos, cozinheiros e contabilistas, embora a maioria realizasse apenas tarefas pouco qualificadas. A indústria e a agricultura dependiam da mão de obra escrava. Fora de Itália, os escravos constituíam em média entre 10 a 20% da população.[158] Embora a escravatura tenha diminuído nos séculos III e IV, permaneceu parte integrante da sociedade romana até ao século V até desaparecer gradualmente ao longo dos séculos VI e VII, a par do declínio dos centros urbanos a da desintegração do complexo sistema económico que criava a procura.[159]

A escravatura romana não tinha por base discriminação racial.[160] [161] Durante a expansão republicana, período em que se dá a generalização da escravatura, a principal fonte de escravos eram prisioneiros de guerra das mais diversas etnias. A conquista da Grécia levou para Roma um grande número de escravos extremamente qualificados e instruídos. Os escravos eram também trocados em mercados e por vezes vendidos por piratas. Entre outras fontes de escravos estão o abandono infantil e a auto-escravização entre os mais pobres.[162] Os vernae, pelo contrário, eram escravos filhos de uma mãe escrava que nascessem e crescessem nessa propriedade. Embora não tivessem qualquer proteção jurídica em particular, o dono que maltratasse ou não cuidasse dos seus vernae era mal visto pela sociedade, já que estes eram considerados parte da sua família, podendo até ser filhos dos homens livres da família.[163] [164] [165]

A legislação sobre escravatura era bastante complexa.[166] Perante a lei romana, os escravos eram considerados propriedade e não tinham personalidade jurídica. Um escravo podia ser sujeito a formas de castigo corporal vedadas a cidadãos, serem explorados sexualmente, torturados e executados sumariamente. Em termos jurídicos, um escravo não podia ser considerado violado, uma vez que a violação só podia ser exercida sobre pessoas livres; um violador de um escravo teria de ser acusado pelo dono por danos materiais.[167] [168] Os escravos não tinham direito a contrair matrimónio, embora por vezes fossem reconhecidas uniões e pudessem casar no caso de ambos serem libertados.[169] Tecnicamente, um escravo não podia possuir propriedade,[170] embora um escravo que realizasse negócios pudesse ter acesso a um fundo ou conta individual (peculium), da qual podia dispor livremente. Os termos desta conta variavam em função da relação de confiança entre o proprietário e o escravo. Um escravo com aptidão para os negócios podia ter autonomia considerável para realizar lucros e gerir outros escravos.[171] Dentro de uma residência ou de uma oficina, era comum a existência de uma hierarquia entre escravos, em que um deles administrava os restantes.[172] Os escravos bem sucedidos tinham a possibilidade de acumular dinheiro suficiente para comprar a sua liberdade ou serem libertados pelos serviços prestados. A manumissão tornou-se tão frequente que, no século II a.C., uma lei limitou o número de escravos que um proprietário podia libertar.[173]

No seguimento das Guerras Servis, a legislação tentou diminuir a ameaça de rebeliões de escravos limitando a dimensão dos grupos de trabalho e perseguindo os fugitivos.[174] Com o decorrer dos séculos, os escravos foram ganhando cada vez maior proteção jurídica, incluindo o direito de apresentar queixa em relação aos amos. Um contrato de compra podia ter uma cláusula que determinasse que o escravo não podia ser destinado a prostituição, já que grande parte dos prostitutos e prostitutas eram escravos.[175] O crescimento do comércio de escravos eunucos durante o fim do século I promoveu legislação que proibia a castração de um escravo contra a sua vontade.[176]

Libertos[editar | editar código-fonte]

Ao contrário das cidades-estado gregas, Roma permitia que os escravos libertos se tornassem cidadãos, tendo inclusive direito ao voto.[177] Um escravo que conseguisse a libertas era denominado um liberto (libertus; "pessoa liberta," fem. liberta) em relação ao seu antigo amo, o qual se tornava então o seu patrão (patronus). No entanto, as duas partes continuavam a ter obrigações habituais e jurídicas entre si. A classe social dos libertos era denominada libertini, embora mais tarde os termos liberto e libertino (libertinus) fossem usados indistintamente.[178] Um libertinus não podia ocupar cargos na administração pública ou no sacerdócio de estado, embora pudesse exercer sacerdócio no culto imperial. Um liberto não podia também casar com uma mulher de uma família da ordem senatorial ou ele próprio fazer parte dessa ordem de forma legítima, embora durante o início do império os libertos ocupassem lugares cimeiros na administração.[179]

Ordens[editar | editar código-fonte]

Gordiano III e vários senadores, representados em fragmento de um sarcófago, século III, no Museu Nacional Romano

No contexto do Império Romano, uma ordem (ordo; pl. ordine) significa uma classe aristocrática. Uma das finalidades dos censos era determinar a ordem (ordo; pl. ordine) a que determinada pessoa pertencia. Em Roma, as duas ordens de maior estatuto eram a ordem senatorial (ordo senatorius) e a ordem equestre (ordo equester). Fora de Roma, os decuriões (ordo decurionum) representavam a aristocracia local. A posição de "senador" não era um cargo eletivo. Um cidadão era admitido no senado depois de ser eleito e servir durante pelo menos um mandato enquanto magistrado. Um senador deveria também ter uma riqueza de, no mínimo, um milhão de sestércios.[180] [181] Nem todos os homens que cumpriam os critérios para a ordo senatorius aceitavam um lugar no senado, o qual exigia domicílio em Roma. Dado que o senado compreendia 600 lugares, os imperadores muitas vezes preenchiam os assentos vagos por nomeação direta.[182] [183] O filho de um senador perencia por direito à ordo senatorius, embora tivesse que se qualificar por mérito próprio para ser admitido no senado. Os senadores podiam ser expulsos por violar as normas de conduta moral; por exemplo, não podiam casar com uma mulher liberta ou lutar na arena.[184] Na época de Nero, os senadores eram oriundos principalmente de Roma e de outras partes de Itália, sendo alguns da península Ibérica e do sul de França. Durante o governo de Vespasiano começaram a ser acrescentados senadores das províncias orientais.[185] Durante a dinastia severa, os itálicos eram já menos de metade do senado.[186]

O cargo de senador correspondia à máxima posição de prestígio e ao culminar do percurso político (cursus honorum). No entanto, os membros da ordo equester em muitos casos possuíam maior riqueza e poder. A admissão à ordem tinha como critério a riqueza e posses de uma pessoa, a qual se qualificava mediante uma avaliação censitária de 400 000 sestércios e pelo menos três gerações de nascimentos livres.[187] Os eques progrediam ao longo de uma carreira militar (tres militiae) com o intuito de virem a ser prefeitos e procuradores no quadri da administração imperial.[188] [189]

A integração nas ordens de homens das províncias revela a mobilidade social existente nos primeiros três séculos do império. A aristocracia romana baseava-se na competição e, ao contrário da posterior nobreza europeia, uma família romana não podia manter o seu estatuto apenas através da herança de títulos ou terras.[190] [191] A admissão às ordens de topo trazia consigo não só privilégios e prestígio, mas também uma série de responsabilidades. A manutenção do estatuto exigia despesas pessoais avultadas, uma vez que o financiamento de obras públicas, eventos, e serviços das cidades romanas dependia dos seus cidadãos mais proeminentes e não dos impostos coletados, os quais se destinavam principalmente a financiar o exército.[192]

Economia[editar | editar código-fonte]

Moses Finley foi o principal defensor da visão primitivista que a economia romana era "subdesenvolvida e subaproveitada", caracterizada pela agricultura de subsistência; centros urbanos que consumiam mais do que produziam em termos de comércio e indústria; artesão de baixo nível; lentidão no desenvolvimento tecnológico; e "falta de racionalidade econômica."[193] As análises atuais, no entanto, são mais complexas. As conquistas territoriais de Roma permitiram uma reorganização em grande escala do uso da terra, que resultou em especialização e superávit agrícola, particularmente no norte da África.[194] Algumas cidades eram conhecidas por determinadas atividades industriais ou comerciais e a escala de construção em áreas urbanas indica uma significativa indústria de construção.[195] Papiros preservaram métodos contábeis complexos que sugerem elementos do racionalismo econômico[196] e o império era altamente rentabilizado.[197] Embora os meios de comunicação e transporte fossem limitados na antiguidade, nos séculos I e II ele desenvolveram-se muito e as rotas de comércio ligavam as economias regionais.[198] Os contratos de fornecimento para o exército, que permeava todas as partes do império, baseavam-se em fornecedores locais perto da base (castro), em toda a província e através das fronteiras provinciais.[199] O império talvez seja melhor analisado como uma rede de economias regionais, com base em uma forma de "capitalismo político", onde o Estado monitora e regula o comércio, com o objetivo de assegurar os seus próprios rendimentos.[200] O crescimento econômico, embora não comparável ao das economias modernas, era maior do que a maioria das outras sociedades antes da Revolução Industrial.[201]

Mineração e metalurgia[editar | editar código-fonte]

Relevo resultante da técnica de mineração ruina montium, em Las Médulas, Hispânia, uma das mais importantes minas de ouro do império.

A invenção e aplicação generalizada de mineração hidráulica, auxiliada pela capacidade romana de planejar e executar operações de mineração em grande escala, permitiu a extração de vários metais preciosos de modo proto-industrial.[202]

Por ano, a produção total de ferro era estimada em 82.500 toneladas,[203] assumindo uma capacidade produtiva de c. 1,5 kg per capita.[204] O cobre foi produzido a uma taxa anual de 15.000 toneladas[205] e chumbo em 80.000 toneladas,[206] ambos os níveis de produção não seriam emparelhados até a Revolução Industrial;[207] a Hispânia sozinha tinha 40% de quota de produção de chumbo mundial.[208] A alta saída de chumbo foi um subproduto da extensa mineração de prata que atingiu um montante de duzentas toneladas por ano.[209] Em seu pico, por volta do século II a.C., o estoque romano de prata é estimado em 10.000 toneladas, de cinco a dez vezes maior do que a massa de prata combinado da Europa medieval e do Califado por volta do ano 800[210] Qualquer uma das principais províncias mineradoras do império produzia tanta prata quanto o contemporâneo Império Han e mais ouro por toda uma ordem de magnitude.[211]

A elevada quantidade de moedas metálicas em circulação fez com que mais dinheiro cunhado estivesse disponível para negociação ou poupança na economia.[212]

Moeda[editar | editar código-fonte]

O governo imperial era, como todos os governos, interessado na emissão e no controle da moeda em circulação. Cunhar moedas era um ato político: a imagem do imperador da época aparecia na maioria das emissões e moedas eram um meio de mostrar a sua imagem por todo o império. Caracterizados também foram antecessores, imperatrizes, outros membros da família e herdeiros aparentes do imperador. Mediante a emissão de moedas com a imagem de um herdeiro, a sua legitimidade e sucessão futura era proclamada e reforçada. Mensagens políticas e de propaganda imperial, como proclamações de vitória e reconhecimentos de lealdade também apareciam em algumas moedas.

Legalmente somente o imperador e o senado tinham autoridade para cunhar moedas no interior do império.[213] No entanto a autoridade do senado era principalmente e apenas no nome. Em geral, o governo imperial emitia moedas de ouro e prata, enquanto o senado emitia moedas de bronze marcadas pela legenda "SC", abreviação de senatus consultum ("por decreto do senado"). No entanto, moedas de bronze poderiam ser emitidas sem essa legenda. Algumas cidades gregas foram autorizados a emitir moedas de prata e bronze, que hoje são conhecidos como "imperiais gregas".[214] Casas da moeda imperiais estavam sob o controle de um ministro-chefe financeiro e as emissões provinciais estavam sob o controle dos procuradores imperiais provinciais. As casas da moeda senatoriais eram governadas por funcionários da tesouraria do senado.

Transportes e comunicações[editar | editar código-fonte]

Relevo galo-romano representando uma barcaça fluvial que transporta pipas de vinho, uma invenção dos gauleses que se tornou de uso comum durante o século II. Na parte superior pode-se observar as ânforas nas quais o vinho é armazenado.[215] [216]

Os romanos privilegiavam o transporte de mercadorias por via marítima ou fluvial, uma vez que o transporte por terra era mais difícil.[217] O Império Romano circundava o Mediterrâneo, o qual denominavam Mare Nostrum ("nosso mar").[218] As embarcações à vela romanas navegavam não só o Mediterrâneo, como todos os principais rios do império, entre os quais o Guadalquivir, o Ebro, o Ródano, o Reno, o Tibre e o Nilo.[219]

O transporte por via terrestre fazia uso de uma rede complexa e avançada de estradas romanas. Os impostos em género pagos pelas comunidades locais exigiam a deslocação frequente de funcionários administrativos, animais e veículos do cursus publicus – o sistema estatal de correios e transportes implementado por Augusto.[220] A primeira via foi criada em 312 a.C. por Ápio Cláudio Cego, para ligar Roma à cidade de Cápua: a Via Ápia.[221] À medida que o império se expandiu, a administração adaptou o mesmo esquema nas províncias. No seu apogeu, a rede viária romana atingiu cerca de 400.000 km de estradas, 80.500 km das quais pavimentadas.[222] [223]

A cada sete ou doze milhas romanas situava-se uma mansio, uma estação de serviço destinada ao cursus publicus e funcionários do governo e mantida pelo estado. Entre os funcionários destes postos estavam condutores, secretários, ferreiros, um veterinário e alguns carteiros e polícias militares. A distância entre as mansiones era determinada pela distância que uma carroça podia percorrer ao longo de um dia e algumas podiam crescer até se tornarem pequenas vilas ou entrepostos comerciais.[224] Para além das mansiones, algumas tabernas ofereciam alojamento, restauração, rações animais e, eventualmente, serviços de prostituição.[225] Os animais de tração mais comuns eram as mulas, as quais viajavam a uma velocidade de quatro milhas por hora.[226] Para ter uma ideia do tempo de comunicação, um mensageiro precisava de nove dias para viajar entre Roma e Mogúncia, na província da Germânia Superior.[227] As estradas estavam balizadas por marcos miliários (miliarium) colocados em intervalos de cerca de mil passos (1480 metros). [228]

Comércio externo[editar | editar código-fonte]

Embora as províncias romanas efetuassem grande parte das trocas comerciais entre si, as rotas comerciais estendiam-se muito para além das fronteiras do império, chegando a regiões tão remotas como a China e a Índia[229] O comércio com a China era realizado principalmente através de intermediários ao longo da Rota da Seda. No entanto, o comércio com a Índia era também feito por via marítima a partir dos portos egípcios no mar Vermelho. A principal mercadoria transacionada eram os cereais,[230] sendo para além disso comercializados diversos alimentos, entre os quais azeite e garum (molho de peixe), escravos, minério, utensílios de metal, tecidos, fibras naturais, madeira, olaria, artefactos de vidro, mármore, papiro, especiarias, plantas medicinais, marfim, pérolas e pedras preciosas.[231]

Embora a maior parte das províncias fosse capaz de produzir vinho, havia preferência por determinadas regiões e castas, pelo que o vinho correspondia a um dos principais produtos comerciais. A escassez de vinho era rara.[232] [233] Os principais fornecedores da cidade de Roma eram a costa ocidental da panínsula itálica, o sul da Gália, a região Tarraconense e Creta. Alexandria, a segunda maior cidade, importava vinho de Lataquia na Síria e do mar Egeu.[234] A nível de retalho, o vinho era vendido ao copo ou a granel em tabernas ou lojas próprias (vinaria), consumido no local ou transportado, cujo preço variava em função da qualidade do produto.[235]

Trabalho e profissões[editar | editar código-fonte]

Trabalhadores de uma oficina têxtil.

Estão registadas em incrições 268 diferentes profissões na cidade de Roma e 85 em Pompeia.[236] Existiam associações profissionais (collegia) para as mais diferentes profissões, entre as quais os pescadores (piscatores), mercadores de sal (salinatores), comerciantes de azeite (olivarii), artistas (scaenici), comerciantes de gado (pecuarii), ourives (aurifices), condutores (asinarii ou muliones) e pedreiros (lapidarii).[237]

O trabalho realizado pelos escravos divide-se em cinco categorias: doméstico, para o qual os epitáfios registam pelo menos 55 profissões; serviço público ou imperial; ofícios urbanos; agricultura e mineração.[238] Os condenados realizavam grande parte do trabalho em minas e pedreiras, nas quais as condições eram notoriamente violentas.[239] Na prática, existia pouca divisão de trabalho entre os escrevos e os homens livres,[240] e grande parte dos trabalhadores eram analfabetos e não qualificados.[241] A maior parte dos trabalhadores não qualificados estava empregada na agricultura. No sistema de produção agrícola itálico, os trabalhadores eram sobretudo escravos, embora nas restantes províncias o seu peso fosse muito menor em relação a outros trabalhadores dependentes.[240]

A produção têxtil era uma das principais fontes de emprego. Tanto tecido como vestuário eram duas das principais mercadorias de troca entre as províncias.[242] O vestuário de melhor qualidade era exportado por homens de negócios (negotiatores ou mercatores), os quais eram muitas vezes residentes abastados dos centros de produção.[243] O pronto-a-vestir podia ser vendido por intermédio de vendedores (vestiarii) ou mercadores itinerantes.[243] Os produtores têxteis geriam muitas vezes pequenos negócios, empregando aprendizes, trabalhadores livres assalariados e escravos.[244] Tanto os fiadores (fullones) como os tintureiros (coloratores) tinham as suas próprias guildas.[245] Os centonarii eram trabalhadores especializados na produção têxtil e na reciclagem de tecidos em retalhos.[246]

PIB e distribuição de riqueza[editar | editar código-fonte]

A estimativa do produto interno bruto da economia romana difere entre os vários historiadores.[247] Nos anos de amostragem de 14, 100 e 150, as estimativas do PIB variam entre 166 e 380 HS. Estima-se que o PIB per capita da província de Itália tenha sido de 40[248] a 66%[249] superior à média do império, devido às transferências fiscais das províncias e à concentração do rendimento da elite no centro do império. Segundo o modelo económico de Scheidel-Friesen, o rendimento anual total gerado no império ascende a cerca de 20 mil milhões HS, dos quais cerca de 5% são coletados pelos governos locais e central. Os 1,5% mais ricos recebiam cerca de 20% da distribuição de riqueza. Outros 20% eram distribuídos por 10% da população de classe média. A maioria da população produzia mais de metade do rendimento anual, embora vivesse numa economia de subsistência.[250]

Religião[editar | editar código-fonte]

Sacerdote romano; a cabeça está coberta em capile velato com uma dobra da toga e a mão estendida num gesto de libação. Século II-III.

A religião na Roma Antiga engloba não só as práticas e crenças que os romanos viam como suas, mas também os diversos cultos importados para Roma ou praticados nas províncias. Os romanos viam-se a si próprios como profundamente religiosos, atribuindo a sua prosperidade económica e militar à boa relação com os deuses (pax deorum). A religião arcaica que se acredita ter sido herdada dos primeiros reis de Roma constituiu a fundação do mos maiorum, ou "tradição", um código social fundamental para a identidade romana. Não existia qualquer princípio análogo à separação Igreja-Estado e os lugares de sacerdote na religião do estado eram preenchidos pelas mesmas pessoas que ocupavam lugares na administração pública. Durante o período imperial, o pontifex maximus era o próprio imperador.

A religião romana era prática e contratual, baseada no princípio do do ut es ("dou-te aquilo que possas oferecer"). A religião tinha como princípios o conhecimento e a prática correta da oração, dos rituais e do sacrifício, e não a ou dogmas. Para o cidadão comum, a religião era parte do quotidiano.[251] A maioria das residências possuía um altar doméstico, no qual se realizavam as orações diárias e se ofereciam libações. As cidades eram pontuadas por altares de bairro e locais considerados sagrados, como nascentes de água e cavernas. Apuleio descreveu a influência quotidiana da religião, através da observação da forma como as pessoas que passavam por um local de culto faziam um voto ou ofereciam alguns frutos.[252] O calendário romano era organizado em função das comemorações religiosas. Durante o período imperial, havia 135 dias do ano dedicados a festividades religiosas e jogos (ludi).[253]

Estatuetas que representam divindades romanas e gaulesas, destinadas a devoção pessoal em altares privados

Após a crise republicana e a transição para o império, a religião do estado adaptou-se de forma a apoiar o novo regime. Augusto implementou vasto programa de revivalismo e reformas religiosas. Os votos públicos, que anteriormente pediam às divindades a segurança da república, passaram a ser vocacionados para o bem-estar do imperador. O culto da personalidade vulgarizou novamente as práticas de veneração dos ancestrais e do génio – a divindade tutelar de cada indivíduo. Era possível ao próprio imperador tornar-se ainda em vida uma divindade de estado mediante uma votação no senado. O culto imperial, influenciado pela religião helenística, tornou-se uma das principais formas de Roma anunciar a sua presença nas províncias, cultivando em toda a extensão do império a lealdade e partilha da mesma identidade cultural.[254] A rejeição da religião do Estado tornou-se sinónimo de traição ao imperador, facto que esteve na origem do conflito de Roma com os primeiros cristãos, já que os romanos viam o cristianismo enquanto superstição.

Uma das características da religião romana é o grande número de divindades a que prestavam culto.[255] A política de conquista romana consistia na assimilação de divindades e cultos dos povos conquistados, e não na sua erradicação.[256] Uma das formas de Roma promover a estabilidade entre os diversos povos foi através do apoio às diferentes heranças religiosas, construindo templos destinados a divindades locais que enquadravam as práticas autóctones na hierarquia da religião romana. As várias incrições por todo o império registam a reverência em paralelo de divindades romanas com divindades locais.[257] No apogeu do império, eram adoradas em Roma divindades internacionais, cujo culto tinha sido difundido para as mais remotas províncias, entre elas Cibele, Ísis, Epona e os deuses do monismo solar, como Mitra e Sol Invicto.[258]

Relevo no Arco de Tito em Roma, representando o transporte triunfal de despojos do Templo de Jerusalém
Relevo no Arco de Tito em Roma, representando o transporte triunfal de despojos do Templo de Jerusalém
Esta estela funerária do século III está entre as mais antigas incrições cristãs, escrita simultâneamente em grego e latim. A abreviatura "D.M." no topo refere-se a Di Manes, os espíritos tradicionais romanos da morte, mas é acompanhada pelo símbolo cristão
Esta estela funerária do século III está entre as mais antigas incrições cristãs, escrita simultâneamente em grego e latim. A abreviatura "D.M." no topo refere-se a Di Manes, os espíritos tradicionais romanos da morte, mas é acompanhada pelo símbolo cristão

As religiões de mistério, que ofereciam aos iniciados salvação após a morte, eram uma questão de escolha pessoal, praticada de forma complementar aos rituais familiares e à participação na religião pública. No entanto, os mistérios envolviam secretismo e juramentos exclusivos, o que os conservadores romanos viam com desconfiança e como elementos característicos de magia, conspiração e atividade subversiva. Foram feitas diversas tentativas ocasionais para suprimir seitas que aparentavam ameaçar a unidade e moral tradicionais, algumas delas de forma brutal. Na Gália foram feitas várias tentativas para controlar o poder dos druidas, inicialmente através da proibição dos cidadãos romanos em pertencer à ordem e depois através da proibição completa do druidismo. No entanto, as próprias tradições celtas foram reinterpretadas no contexto da teologia imperial, dando origem a uma nova religião galo-romana[259]

O rigor monoteísta do judaísmo colocava dificuldades à política de tolerância religiosa romana, obtida através de compromisso e de isenções excepcionais. A religião judaica, ao contrário da cristã, era considerada legítima (religio licita). No entanto, quando os conflitos políticos e religiosos se tornaram irreconciliáveis despoletaram-se várias revoltas entre judeus e romanos. O cerco de Jerusalém, em 70, esteve na origem do saque ao templo da cidade e da dispersão do poder político judaico.[260] O cristianismo surgiu na província da Judeia no século I d.C. enquanto seita religiosa judaica. A religião expandiu-se gradualmente até Jerusalém, estabelecendo inicialmente centros importantes em Antioquia e Alexandria, e a partir daí por todo o império. As perseguições oficiais foram muito poucas e esporádicas, e a maior parte dos martírios ocorreu por iniciativa de autoridades locais.[261] [262] [263] [264]

Durante o início do século IV, Constantino tornou-se o primeiro imperador a converter-se ao cristianismo, dando início a uma era de hegemonia cristã. O imperador Juliano realizou uma breve tentativa de reavivar as religiões tradicionais e de afirmar o estatuto especial do Judaísmo. No entanto, em 391 e durante o governo de Teodósio I, o Cirstianismo torna-se a religião oficial do império, excluindo todas as outras. A partir do século II, os Padres da Igreja começam a condenar as restantes práticas religiosas, denominando-as coletivamente por "pagãs".[265] Ao mesmo tempo, são rejeitados apelos à tolerância religiosa por parte de tradicionalistas e o monoteísmo cristão torna-se uma das características do domínio imperial. Todos os hereges e não cristãos estavam sujeitos a ser perseguidos ou excluídos da vida pública. No entanto, as práticas cristãs foram influenciadas por grande parte da hierarquia religiosa romana e por muitos aspetos dos rituais romanos, e muitas destas práticas sobrevivem ainda através de festivais e tradições locais cristãs.[266] [267]

Arquitetura e engenharia[editar | editar código-fonte]

Coliseu de Roma, uma das mais notáveis obras de engenharia clássica, mandado erigir por Vespasiano, serviu para vários espectáculos, inclusive dramatizações de batalhas navais
Coliseu de Roma, uma das mais notáveis obras de engenharia clássica, mandado erigir por Vespasiano, serviu para vários espectáculos, inclusive dramatizações de batalhas navais
O aqueduto da Ponte do Gard, no rio Gardon, no sul da França (antiga Gália), é um Patrimônio Mundial pela UNESCO
O aqueduto da Ponte do Gard, no rio Gardon, no sul da França (antiga Gália), é um Patrimônio Mundial pela UNESCO

Os romanos notabilizaram-se como pioneiros na engenharia e construção de sofisticadas infraestruturas como canalizações, aquedutos, estradas e pontes.[268] As obras estenderam-se por todo o império, cujo sucesso se deveu em grande parte à extensa rede viária. Além do saneamento básico, as infraestruturas incluíam equipamentos como termas, fóruns, teatros, anfiteatros e monumentos.[269]

A invenção do concreto (betão) como material de construção foi uma importante evolução no Império Romano,[270] quando se descobriu as pozolanas, cinzas vulcânicas nas imediações do Vesúvio que finamente trituradas e misturadas com cal produziam uma argamassa resistente e duradoura. Descobertas as suas propriedades aglomerantes, os romanos fizeram uso alargado das pozolanas, utilizando-as na feitura do opus coementicium (o cementizio), uma argamassa criada pela mistura de pozolanas com cal (tipicamente na proporção de 2:1) imediatamente antes da adição de água. Esta argamassa constitui um ligante suficientemente poderoso para construir grandes estruturas, como pontes, cúpulas e vigas longas, com a particularidade de ganhar presa mesmo quando submersa. Exemplos da sua utilização são a cúpula do Panteão de Roma e os molhes do porto romano de Cosa. A utilização das argamassas pozolânicas perdeu-se com a desagregação do Império Romano, mas foi retomada a partir do Renascimento.[271]

Aquedutos construídos por todo o império abasteciam as explorações agrícolas e as cidades com água potável[268] . O escoamento era geralmente com superfície livre, apresentando uma inclinação mínima para que a água pudesse correr, e eram edificados em alvenaria. O atravessamento de vales era feito sobre estruturas em arcaria. Contavam ainda com a ajuda de bombas hidráulicas.

As águas residuais eram recolhidas numa sofisticada rede de esgotos, de que é exemplo a cloaca Máxima, em Roma, uma das mais antigas redes de esgotos do mundo,[272] construída em Roma nos finais do século VI a.C., iniciada por Tarquínio Prisco,[273] que usufruía da experiência desenvolvida pela engenharia etrusca para drenar os esgotos para o rio Tibre. O funcionamento da cloaca Máxima e outras redes de esgotos romanas, como a de Eboraco (actual cidade inglesa Iorque) prosseguiu durante bastante tempo após a queda do Império Romano.[274]

O desenvolvimento dos aquedutos facilitou construção generalizada de termas (as thermae) e balneários (balneae) no império.[275] Estes locais destinados aos banhos públicos asseguravam a higiene corporal e a hidroterapia.[276] As mais antigas termas romanas conhecidas datam do século V a.C. em Delos e Olímpia, embora as mais conhecidas sejam as termas de Caracala. Homens e mulheres tomavam banhos diariamente (à tarde depois do trabalho)[277] , costume relacionado a assimilação do culto à deusa grega Hígia (equivalente romana: Salus) e Panaceia, filhas de Esculápio, deusas da saúde e limpeza, como a recomendações da medicina hipocrática continuada pelos romanos.

Cultura[editar | editar código-fonte]

Uma família romana durante um banquete. Afresco em Pompeia
Uma família romana durante um banquete. Afresco em Pompeia
Mulheres com roupas típicas. Afresco em Pompeia
Mulheres com roupas típicas. Afresco em Pompeia
Homem condenado atacado por um leopardo em uma arena.  Mosaico na  Tunísia, século III
Homem condenado atacado por um leopardo em uma arena. Mosaico na Tunísia, século III

A vida no Império Romano girava em torno da cidade de Roma e suas famosas sete colinas. A cidade também tinha vários teatros,[269] ginásios e muitas tabernas, termas e lupanares. Em todo o território sob o controle de Roma, a arquitetura residencial variou desde casas muito modestas até vilas rurais e, na capital, elegantes residências no monte Palatino, da qual a palavra "palácio" é derivada. A maioria da população vivia no centro da cidade, em blocos de apartamentos.

A maioria das cidades e vilas romanas tinha um fórum e templos, assim como a própria cidade de Roma. Aquedutos foram construídos para levar água para os centros urbanos [268] e serviram como uma via para importação de vinho e óleo[necessário esclarecer]. Senhores patrícios geralmente residiam nas cidades e suas propriedades rurais eram deixadas sob os cuidados de dirigentes agrícolas. Para estimular uma maior produtividade do trabalho, muitos proprietários libertaram um grande número de escravos. No reinado de Augusto, escravos domésticos gregos ensinaram os jovens romanos (às vezes até mesmo as meninas). Esculturas gregas adornaram o paisagismo helenístico no Palatino ou nas vilas.

Muitos aspectos da cultura romana foram retirados da cultura grega.[278] Na arquitetura e na escultura, a diferença entre os modelos gregos e romanos são aparentes. As principais contribuições para a arquitetura romana eram o arco e a cúpula.

O centro da estrutura social inicial era a família,[279] que não foi apenas marcado por relações de sangue, mas também pela relação legalmente construída de patria potestas.[280] O pater familias era o chefe absoluto da família; ele era o mestre sobre sua esposa, seus filhos, as noras, os sobrinhos, os escravos e os libertos, eliminando os seus bens à vontade ou, até mesmo, colocando-os à morte.[281] Inicialmente, apenas a aristocracia patrícia o privilégio de formação de clãs familiares, ou Gens, como pessoas jurídicas; mais tarde, na esteira das lutas políticas e de guerra, os clientes também foram alistados. Assim, tais gentes plebeus foram os primeiros formados, imitando os seus homólogos patrícios.[282]

A escravidão e os escravos eram parte da ordem social. Havia mercados de escravos, onde eles podiam ser comprados e vendidos. Muitos escravos foram libertados pelos mestres por serviços prestados, alguns escravos podiam economizar dinheiro para comprar sua liberdade. Geralmente a mutilação e o assassinato de escravos eram proibidos pela legislação. Estima-se que mais de 25% da população romana era escravizada.[283] [284] O professor Gerhard Rempel do Western New England College, Estados Unidos, afirma que apenas na cidade de Roma, durante o império, havia cerca de 400 mil escravos.[285]

A cidade de Roma tinha um lugar chamado Campo de Marte (Campus Martius) que era, inicialmente, uma área de preparação para os soldados romanos. Mais tarde, o campo tornou-se uma área de entretenimento onde os jovens se reuniam para jogar e se exercitar, o que incluía salto em distância, luta livre, boxe e corridas. A equitação e a natação também eram algumas das atividades físicas preferidas.[286] No campo, os passatempos incluíam também a pesca e a caça. Jogos de tabuleiro jogados em Roma incluíam o dado (téssera; tesserae ou tali), o xadrez romano (latrúnculo; Latrunculi), o jogo de damas romano (cálculos; Calculi), jogo da velha (terni lapilli) e ludus duodecim scriptorum e tabula, antecessores do gamão.[286] Também havia várias outras atividades para manter as pessoas entretidas, como corridas de bigas, performances musicais e teatrais.

Recreação e espetáculo[editar | editar código-fonte]

Pintura mural representando um motim desportivo no anfiteatro de Pompeia, o qual levou à interdição total de combates de gladiadores na cidade.
Pintura mural representando um motim desportivo no anfiteatro de Pompeia, o qual levou à interdição total de combates de gladiadores na cidade.
Victor na sua quadriga
Victor na sua quadriga
O Mosaico de Zliten, de uma residência privada na província onde hoje é a Líbia, representa uma série de cenas de arena: no topo, músicos tocam uma tuba romana, um órgão de água e dois cornus; seis pares de gladiadores com dois árbitros; quatro bestiários; e três condenados a morrer nas bestas.[287]
O Mosaico de Zliten, de uma residência privada na província onde hoje é a Líbia, representa uma série de cenas de arena: no topo, músicos tocam uma tuba romana, um órgão de água e dois cornus; seis pares de gladiadores com dois árbitros; quatro bestiários; e três condenados a morrer nas bestas.[287]

Quando Juvenal se queixou de que os romanos tinham trocado a sua liberdade política por "pão e circo", estava-se a referir à doação de cereais por parte do Estado e os eventos circenses realizados num recinto de espetáculos denominado circo. O maior destes recintos em Roma foi o Circo Máximo, palco de corridas de cavalos, corridas de bigas, encenação de caçadas (venatio), competições atléticas, recriações históricas e combates de gladiadores. Desde a antiguidade que várias festas religiosas tinham em destaque jogos (ludi), sobretudo corridas de cavalos e bigas (jogos circenses; ludi circenses).[288] Embora o seu valor recreativo tendesse a se sobrepor em relação ao significado ritualístico, as corridas continuaram a fazer parte das festividades religiosas da antiguidade que celebravam a agricultura, rituais e o ciclo da vida e da morte.[289]

Durante o governo de Augusto, os espetáculos públicos ocupavam 77 dias do ano; por volta do reinado de Marco Aurélio, o número de dias aumentou para 135.[290] Os jogos circenses eram antecedidos por um desfile bastante elaborado (pompa circense; pompa circensis) que terminava no recinto.[291] Os eventos de competição também eram realizados em recontos mais pequenos, como anfiteatros e estádios. Entre as modalidades desportivas, inspiradas nos modelos gregos, estavam as corridas a pé, boxe, luta livre e o pancrácio.[292] Havia várias modalidades que tinham lugar em piscinas próprias, como a naumaquia e uma modalidade de balé aquático.[293] Os eventos teatrais financiados pelo Estado (jogos cênicos; ludi scaenici) tinham lugar nas escadarias dos tempos, nos grandes teatros de pedra, ou em teatros de pequena dimensão denominados odeão.[294]

Os circos eram a maior estrutura construída de forma regular no mundo romano,[295] inspirada pelo hipódromo grego. O Anfiteatro flaviano, conhecido por Coliseu de Roma, tornou-se arena regular de desportos violentos na cidade de Roma após a sua abertura em 80[296] As corridas circenses continuaram a ser realizadas de forma mais frequente.[297] O Circo Máximo (Circus Maximus) tinha uma plateia de cerca de 150 000 espectadores, enquanto que o Coliseu tinha 50000 lugares sentados e mais 10000 de pé.[298] As ruínas de grande parte dos anfiteatros, circos e teatros construídos em cidades fora de Itália podem ainda ser observadas.[299] As elites locais eram responsáveis pelo mecenato dos eventos e espetáculos das arenas, os quais enfatizavam o seu estatuto social, embora também consumissem recursos financeiros significativos.[300]

A disposição física do anfiteatro representava a hierarquia da sociedade romana: o imperador presidia no seu púlpito opulento; os senadores e altas patentes militares tinham os melhores lugares reservados; as mulheres sentavam-se resguardadas da ação; os escravos sentavam-se nos piores lugares e os restantes sentavam-se onde houvesse lugar entre os dois grupos.[301] A multidão podia exigir um resultado assobiando ou aplaudindo, embora fosse o imperador que tivesse a palavra final. Os espetáculos podiam rapidamente tornar-se locais de protestos políticos e sociais, pelo que muitas vezes os imperadores recorriam à força para dominar a população. Um dos casos mais notáveis foi a Revolta de Nika em 532, quando o exército sob o comando de Justiniano massacrou milhares de cidadãos.[302]

As equipas de bigas distinguiam-se pelas cores envergadas, sendo os azuis e verdes as mais populares. A lealdade dos fãs era acérrima, convergindo muitas vezes para cenas de violência.[303] A competição era perigosa, mas os condutores estavam entre os mais celebrados e recompensados atletas da antiguidade.[304] Uma das estrelas desportivas foi Diocles da Lusitânia (atualmente Portugal), que conduziu bigas ao longo de 24 anos e acumulou ganhos de 35 milhões de sestércios.[305] Os cavalos também foram populares, celebrados na arte e em inscrições, muitas vezes pelo próprio nome.[306] O desenho dos circos romanos evoluiu no sentido de assegurar que nenhuma das equipas possuía qualquer vantagem e de minimizar o número de colisões,[307] as quais, no entanto, continuaram a ser frequentes e a satisfazer o desejo de espetacularidade da multidão.[308] As corridas estavam envoltas numa aura de mistério em função da sua associação com os rituais ctónicos: as imagens circenses eram consideradas protetivas ou de boa sorte, e os condutores muitas vezes suspeitos de feitiçaria.[309] As corridas de bigas continuaram a decorrer ao longo do período bizantino, ainda com o mecenato imperial, embora o declínio das cidades nos séculos VI e VII tenha precipitado o seu desaparecimento.[310]

Os romanos acreditavam que as competições entre gladiadores tinham origem nos jogos fúnebres e sacrificais da antiguidade, nos quais eram selecionados prisioneiros de guerra e forçados e lutar entre si para expiar as mortes de romanos nobres. Alguns dos primeiros estilos de luta entre gladiadores tinham denominações étnicas, como trácio ou gaulês.[311] Os combates encenados eram considerados munera (serviços, ofertas, benfeitorias) e inicialmente eram distintos dos jogos de festivais, os ludi.[312] Ao longo do seu reinado de quarenta anos, Augusto financiou oito espetáculos de gladiadores, nos quais lutaram um total de dez mil homens, e 26 espetáculos de caçadas que resultaram na morte de 3500 animais.[313] Para assinalar a abertura do Coliseu, o imperador Tito ofereceu 100 dias de eventos na arena, durante os quais chegaram a competir 3000 gladiadores num único dia.[314] O fascínio romano pelos gladiadores pode ser constatado na forma como são frequentemente representados em mosaicos, pinturas murais e utensílios como lamparinas.[315]

Os gladiadores romanos eram combatentes treinados, podendo ser escravos, condenados ou simplesmente voluntários.[316] Neste tipo de combates, não era necessário, e nem mesmo desejável, que o adversário fosse morto. Os gladiadores eram lutadores com extrema perícia, cujo treino representava um investimento dispendioso de tempo e dinheiro.[317] Por outro lado, os nóxios (noxii) eram condenados sentenciados a lutar na arena, com pouco ou nenhum treino, muitas vezes desarmados e sem qualquer expectativa de sobrevivência. O sofrimento físico e a humilhação eram considerados justiça compensatória pelos crimes cometidos.[318] Estas execuções eram por vezes organizadas enquanto reencenações de mitológicas, e os anfiteatros equipados com artifícios de palco de modo a criar efeitos especiais.[319] Tertuliano considerava as mortes na arenas nada mais do que uma forma encapotada de sacrifício humano.[320]

Os historiadores contemporâneos concluem que o prazer que os romanos tinham com o "teatro da vida e da morte"[321] é uma das perspetivas mais difíceis de explicar e compreender desta civilização.[322] Plínio, o novo argumentava que os espetáculos de gladiadores eram benéficos para o povo e uma forma de o inspirar a desprezar a morte, ao manifestar o amor pela glória e desejo de vitória, mesmo no corpo de escravos e criminosos.[323] Alguns romanos como Séneca eram críticos destes espetáculos brutais, embora vissem virtude na coragem e dignidade no lutador derrotado, e não no vitorioso,[324] atitude que encontra a sua máxima expressão nos cristãos martirizados na arena. No entanto, a própria literatura sobre os mártires oferece descrições detalhadas e luxuriosas de sofrimento corporal,[325] tornando-se um género popular por vezes indistinto da ficção.[326]

Jogos e desporto[editar | editar código-fonte]

Jogos e desporto
Crianças a brincar com uma bola. Relevo do século II, no Museu do Louvre
Crianças a brincar com uma bola. Relevo do século II, no Museu do Louvre
Mosaico denominado "raparigas em biquini" na Villa del Casale, na Sicília
Mosaico denominado "raparigas em biquini" na Villa del Casale, na Sicília
Jogo de tabuleiro em pedra de Afrodísias. Os tabuleiros podiam também ser feitos de madeira, com versões luxuosas feitas de marfim. As peças eram feitas de osso, vidro ou pedra polida, podendo ser coloridas ou com relevos.[327]
Jogo de tabuleiro em pedra de Afrodísias. Os tabuleiros podiam também ser feitos de madeira, com versões luxuosas feitas de marfim. As peças eram feitas de osso, vidro ou pedra polida, podendo ser coloridas ou com relevos.[327]

No plural, ludi refere-se quase sempre a jogos com espectadores em larga escala. O singular ludus ("jogo, desporto, treino") tinha uma grande amplitude de significados, desde jogos de palavras, atuação teatral, jogos de tabuleiro, escola primária e até mesmo escola de treino de gladiadores, como o Ludus Magnus, o maior destes campos em Roma.[328]

As atividades mais praticadas entre crianças e jovens incluíam o aro e o jogo da bugalha. Os sarcófagos de crianças muitas vezes representavam-nas a jogar jogos. As raparigas brincavam com bonecas, geralmente com 15-16 cm de comprimento e feitas de madeira, terracota, osso ou marfim.[329] Entre os jogos com bola o trigon era um dos favoritos, o qual requeria destreza, a par do harpastum, um desporto mais violento.[330] Nos memoriais infantis e na literatura é muito frequente a alusão a animais de estimação, entre os quais aves, gatos, cabras, ovelhas, coelhos e gansos.[331]

Após a adolescência, grande parte do exercício físico destinado aos homens era de natureza militar. O Campo de Marte foi originalmente um campo de treino onde os jovens podiam aperfeiçoar as técnicas bélicas e de cavalaria. A caça também era considerada um passatempo apropriado. De acordo com Plutarco, os romanos conservadores reprovavam o atletismo ao estilo grego que promovia a perfeição do corpo de forma gratuita, condenando a promoção que Nero fazia da ginástica ao estilo grego.[332]

Algumas mulheres treinavam ginástica e dança. O famoso mosaico das "raparigas em biquini" mostra jovens em posições que podem ser comparadas a ginástica rítmica.[333] As mulheres eram, regra geral, encorajadas a promover a saúde através de atividades físicas, como jogos de bola, natação, caminhadas, leitura em voz alta (enquanto exercício de respiração) e viagens.[334]

Os jogos de tabuleiro entre dois adversários eram jogados por pessoas de todas as idade. Entre os mais populares estavam o latrúnculo, um jogo de estratégia no qual os oponentes coordenam jogadas e capturam várias peças, e o ludus duodecim scriptorum (doze marcas), jogado com dados de forma a organizar peças numa grelha de letras ou palavras.[335] Era também comum um jogo de dados conhecido por alea ou tabula, no qual o imperador Cláudio se viciou, e que pode ter sido semelhante ao gamão, usando um copo de dados (pyrgus).[336]

Vida urbana e rural[editar | editar código-fonte]

Na Antiguidade, as cidades eram vistas como territórios que fomentavam a civilização ao serem apropriadamente desenhadas, ordenadas e adornadas.[337] Augusto levou a cabo uma vasto programa de construção em Roma, financiou obras de arte pública que expressavam a nova ideologia imperial e reorganizou a cidade em bairros (vici) administrados a nível local, com serviço de polícia e bombeiros.[338] Um dos focos de arquitetura monumental foi o Campo de Marte, uma área descoberta nos arredores do centro que anteriormente estava destinada a desportos equestres e exercício físico dos jovens. Foram aí construídos o Altar da Paz (Ara Pacis) e o obelisco de Montecitorio, importado do Egito, o qual formava o ponteiro (gnómon) de um monumental relógio solar. Dotado de jardins públicos, o Campo de Marte tornou-se uma das principais atrações de Roma.[339]

O planeamento das cidades romanas e o estilo de vida urbano foram influenciados pela civilização grega de períodos anteriores.[340] Na parte oriental do império, o domínio romano veio acelerar o desenvolvimento de cidades que já de si tinham um acentuado carácter helenístico. Algumas cidades, como Atenas, Afrodísias, Éfeso e Gérasa, modificaram alguns aspetos da arquitetura e planeamento urbano em conformidade com os cânones imperiais, embora exprimindo também a sua identidade individual e proeminência regional.[341] Nas áreas mais ocidentais do império, habitadas por povos de língua celta, Roma encorajou o desenvolvimento de centros urbanos planificados, dotados de templos, foruns, fontes monumentais e anfiteatros. Estas novas cidades eram muitas vezes projetadas perto de, ou no próprio local, de assentamentos muralhados preexistentes (ópidos).[342] [343] [nota 7] A urbanização no norte de África expandiu as cidades gregas e púnicas ao longo da costa.[345]

Sanitários públicos (latrinae) em Óstia
Sanitários públicos (latrinae) em Óstia
Reconstrução do jardim da Casa dos Vettii em Pompeia
Reconstrução do jardim da Casa dos Vettii em Pompeia
Banca de venda de pão, representada numa pintura mural de Pompeia
Banca de venda de pão, representada numa pintura mural de Pompeia

A rede de cidades ao longo do território imperial (colónias, municípios, civitates ou, no termo grego, pólis) era um elemento de coesão durante a Pax Romana.[346] Os romanos dos séculos I e II eram encorajados pela propaganda imperial a absorver os valores do tempo de paz.[347] Muitas das características associadas à cultura imperial, como o culto público, jogos e banquetes cívicos, competições para artistas, oradores e atletas, assim como a grande maioria da arte e dos edifícios públicos, eram financiados por privados, cujas despesas em benefício da comunidade ajudavam a justificar o seu poder económico e privilégios jurídicos e provinciais.[348]

Até mesmo o polemicista Tertuliano declarou que o mundo do século II era mais ordeiro e culto do que em épocas anteriores: "Por todo o lado existem casas, por todo o lado existem pessoas, por todo o lado a res publica, a causa do povo, por todo o lado existe vida."[349] O declínio das cidades e da vida cívica no século IV, quando as classes abastadas já não eram capazes de financiar a obra pública, foi um dos sinais da dissolução iminente do império.[350]

Na cidade de Roma, grande parte da população residia em edifícios de apartamentos de vários pisos (insulas), os quais ofereciam muito pouca segurança em relação a incêndios. Os equipamentos públicos, como as termas (em latim: termae), sanitários (latrinae) e fontanários de água potável,[351] assim como o entretenimento de massas, destinavam-se principalmente ao cidadão comum que residia nas insulas.[352]

As termas públicas tinham função higiénica, social e cultural.[353] Os banhos eram o foco de socialização quotidiana no fim da tarde e antes do jantar.[354] As termas romanas têm por característica uma série diferentes salas que ofereciam banhos comunitários em três temperaturas diferentes, os quais podiam ser complementados por diversos serviços, como salas de exercício e treino, sauna, spa de exfoliação (no qual a pele era massagada com óleos, removidos com um estrígil), campo de jogos ou ainda uma piscina exterior.[355] As termas era aquecidas por hipocausto: o pavimento estava assente sobre condutas nas quais circulava ar quente.[356] Embora algumas termas oferecessem instalações segregadas pera homens e mulheres, o banho nu misto entre sexos era relativamente comum. As termas públicas faziam parte da cultura urbana por todas as províncias, embora a partir do fim do século IV as termas comunitárias tenham começado a dar lugar aos banhos privados.[357] Os cristãos eram aconselhados a frequentar as termas por razões higiénicas e de saúde, e não por prazer,[358] embora fossem também aconselhados a não frequentar os jogos públicos, os quais estavam integrados nos festivais religiosos que consideravam "pagãos".[359]

As famílias abastadas de Roma geralmente possuíam duas ou mais habitações; uma moradia urbana (domus, plural domūs) e pelo menos uma casa de campo (villa) na província. A domus era uma moradia unifamiliar privada, a qual podia incluir termas privadas (balneum).[360] Embora alguns dos bairros de Roma tivessem uma maior concentração de moradias abastadas, as classes superiores não viviam em enclaves segragados e pretendiam que as suas casas fossem visíveis e acessíveis. O átrio (atrium) era o espaço de recepção, no qual o chefe de família (pater familias) recebia clientes e visitas todas as manhãs, desde amigos igualmente abastados a dependentes carenciados que recebiam esmola.[361] Era também palco dos rituais religiosos das famílias, no qual estavam presentes altares e imagens dos respetivos ancestrais.[362] As habitações urbanas situavam-se geralmente em caminhos públicos movimentos, pelo que os rés-do-chão voltados para a rua eram muitas vezes arrendados para lojas (tabernas; tabernae).[363] Para além de uma pequena horta, a qual nas insulas podia ser substituída por floreiras, as habitações urbanas tinham geralmente um jardim formal enquadrado por um peristilo.[364] [365]

Pelo contrário, a villa correspondia a uma evasão do alvoroço urbano, retratada na literatura enquanto símbolo de um estilo de vida que equilibra o apreço pela arte e cultura (otium) com o apreço pela natureza e o ciclo agrícola.[366] As villas situavam-se geralmente em centros de produção agrícola ou em regiões balneares ao longo da costa. Idealmente, teriam uma vista sobre a região envolvente, cuidadosamente enquadrada pelo desenho arquitetónico.[367]

O programa de reabilitação urbana de Roma, levado a cabo por Augusto, e o crescimento da população para um milhão de habitantes, foi acompanhado pela nostalgia da vida rural manifestada na arte. A poesia enaltecia o quotidiano idealizado de agricultores e pastores. O interior das habitações eram muitas vezes decorados com pinturas de jardins, fontes, paisagens, motivos vegetalistas,[367] e animais, em particular aves e espécies marinhas, as quais eram retratadas com tal precisão que os arqueólogos contemporâneos conseguem por vezes identificar as espécies.[368]

O governo central tinha um papel interventivo no fomento da produção agrícola.[369] A produção de alimentos tinha a máxima prioridade na organização do território.[370] As quintas de maior dimensão (latifundia) alcançaram uma economia de escala tal que eram capazes de suster a vida urbana e a divisão do trabalho própria de econimias avançadas.[371] Os pequenos produtores eram beneficiados com a criação de mercados locais em cidades e centros de comércio. Em praticamente todo o território imperial se praticavam diversas técnicas agrícolas avançadas, como a rotação de culturas ou a selecção artificial, e era comum a introdução de novas espécies entre províncias, como a ervilha e a batata na Britânia.[372]

A manutenção do fornecimento sustentado de alimentos para a cidade de Roma tornou-se um dos principais tópicos de discussão política no fim da República, época em que o Estado implementou um subsídio pago em cereais (annona) a todos os cidadãos que se registassem para tal. Este subsídio era atribuído a 200 000–250 000 homens adultos em Roma e correspondia a 33 kg por mês, o que totalizava 100 000 toneladas de trigo, proveniente principalmente da Sicília, norte de África e Egito.[373] [nota 8] O subsídio tinha um custo de pelo menos 15% da receita fiscal do estado, mas melhorou significativamente as condições económicas e familiares entre as classes mais desfavorecidas, o que favoreceu também as classes mais abastadas ao impulsionar o consumo de vinho e azeite produzido nas grandes propriedades agrícolas.[375] [376] O subsídio de cereais tinha também um valor simbólico: não só afirmava o papel do imperador enquanto benfeitor universal, como o direito de todos os cidadãos a ter uma parte do lucro do processo de conquista.[377] O anonna, os equipamentos públicos e os espetáculos de entretenimento mitigavam as de outra forma precárias condições de vida das classes desfavorecidas e minimizavam a agitação social. No entanto, o humorista Juvenal via a política de panem et circenses como símbolo da ausência de liberdade política na república.[378]

Vestuário[editar | editar código-fonte]

Numa sociedade consciente do estatuto como a romana, o vestuário e os acessórios pessoas oferecem uma indicação imediata sobre a etiqueta a observar na interação com o portador..[379] Vestir de forma correta deveria refletir uma sociedade ordenada.[380] A toga era o vestuário nacional característico do homem romano, embora fosse pesada e pouco prática, sendo vestida sobretudo para tratar de assuntos políticos, rituais religiosos e presença nos tribunais.[381] Contrariamente à noção popular, o vestuário informal dos romanos era escuro ou colorido, e o conjunto mais comum entre os homens durante o quotidiano seria uma túnica, uma capa e, calças nalgumas regiões.[382] É difícil estudar a forma como os romanos se vestiam no quotidiano devido à falta de evidências diretas, uma vez que a retratística geralmente apresenta a pessoa com vestuário de natureza simbólica e são raros os tecidos sobreviventes deste período.[383]

Togato con tesa dell'imperatore claudio, inv. 2221.JPG
Julien 1.jpg
Uma toga imperial, vestida pelo imperador Cláudio (à esq.), e um pálio, vestido por um sacerdote de Serápis, muitas vezes identificado como o imperador Juliano (imperador) (à dir.)

A peça de vestuário básica para todos os romanos, independentemente do género ou estatuto social, era uma túnica simples com mangas. O comprimento era diferenciado em função do utilizador: as masculinas atingiam metade da altura entre o joelho e o tornozelo, embora as dos soldados fossem mais curtas; as femininas caíam até ao tornozelo e as das crianças até ao joelho.[384] As túnicas para os pobres e escravos eram feitas de cardada e o comprimento determinado em função do tipo de trabalho exercido. As melhores túnicas eram fabricadas em lã ou linho processado. Um homem que pertencesse a uma ordem senatorial ou equestre vestia uma túnica com duas fitas (clavi) púrpura, e quanto maior a dimensão, maior o estatuto do portador.[384]

A toga imperial era fabricada em lã branca e, devido ao seu peso, não era possível vesti-la corretamente sem assistência.[385] Na sua obra sobre oratória, Quintiliano descreve em detalhe a forma como um orador público deveria orquestrar os seus gestos em relação à sua toga.[386] Na arte, a toga é mostrada com a ponta mais longa pendente entre os pés, uma dobra curva na frente e uma aba saliente a meio.[387] Com o decorrer dos séculos, o panejamento torna-se mais intrincado e estruturado e, no final do império, o tecido formava uma dobra firme em volta do peito.[388] A toga praetexta, com uma tira púrpura que representava a inviolabilidade, era usada por crianças até aos dez anos, pelos magistrados executivos e pelos sacerdotes do Estado.[389] Só o imperador é que estava autorizado a vestir uma toga totalmente púrpura (toga picta).[390]

No século II, imperadores e homens de estatuto são muitas vezes retratados a vestir o pálio, um manto de origem grega dobrado em volta do corpo, ocasionalmente retratado também em mulheres. Tertuliano considerava o pálio uma peça de vestuário adequada para os cristãos, ao contrário da toga, e também para pessoas literadas, devido à sua associação com os filósofos.[391] Em meados do século IV, a toga foi praticamente substituída pelo pálio enquanto peça de vestuário simbólica da união social.[392]

A moda e o estilo do vestuário romano sofreram alterações ao longo do tempo.[393] Durante o Dominato, o vestuário de soldados e burocratas da administração torna-se cada vez mais decorado, com listas de tecido bordadas (clavi) e emblemas circulares (orbiculi) aplicados em túnicas e mantos. Estes elementos decorativos consistiam geralmente em pedrões geométricos, motivos vegetalistas estilizados e, em alguns casos, figuras animais ou humanas.[394] O uso de seda foi-se tornando cada vez mais comum, e os mantos de seda eram comuns entre os cortesãos do final do império. A militarização da sociedade romana e o declínio da vida cultural urbana refletiram-se nos hábitos de vestuário; para além do abandono da toga, tornou-se comum o uso de cintas ao estilo militar entre os funcionários públicos.[395]

Alimentação[editar | editar código-fonte]

Uma taberna onde se serviam refeições. No painel por cima do balcão estavam representados ovos, azeitonas, fruta e rabanetes.[396]

A generalidade dos apartamentos em Roma não tinha cozinha, embora fosse frequente o uso de fogareiros.[397] [398] As tabernas, bares, estalagens e termopólios vendiam refeições prontas, embora comer nesses locais ou levar comida para casa fosse comum apenas entre as classes mais baixas.[399] As classes mais abastadas preferiam refeições reservadas na sua própria residência, a qual geralmente tinha à disposição um chef e (archimagirus) e ajudantes de cozinha,[400] ou então em banquetes organizados em clubes privados.[401]

A maior parte da população obtinha 70% da dose diária de calorias através da ingestão de cereais e legumes.[402] Um dos principais preparados romanos era o puls, uma papa feita a partir de legumes cortados, pedaços de carne, queijo ou ervas aromáticas, com a qual se podia confecionar pratos semelhantes à polenta ou ao risotto.[403] A população urbana e o exército preferiam consumir cereais transformados em pão.[404] A moagem e cozedura era geralmente feita na mesma loja. Durante o reinado de Aureliano, o estado começou a distribuir entre os cidadãos de Roma a annona, uma ração diária de pão, azeite, vinho e carne de porco.[405] [406] [407]

Arte[editar | editar código-fonte]

Os cidadãos ou visitantes de Roma e de todas as cidades na extensão do império podiam no seu quotidiano observar arte nos mais diversos estilos e suportes. A arte pública ou oficial, entre a qual obras de escultura, monumentos como as colunas e arcos triunfais e a iconografia numismática, é frequentemente interpretada em função do seu significado histórico ou enquanto expressão da ideologia do império.[408] Nas termas imperiais, mesmo as pessoas de origem humilde podiam observar pinturas murais, mosaicos, estatuária e decoração interior de elevada qualidade.[409] Na esfera privada, os objetos produzidos para práticas religiosas e funerárias, uso doméstico e para venda apresentam diversos graus de qualidade estética e perícia artística.[410] A elite podia manifestar apreciação de arte através do mecenato de pintura, escultura e artes decorativas nas suas residências, embora com qualidade estética bastante diversificada.[411] A Arte da Grécia Antiga exerceu uma influência profunda na tradição romana. Alguns dos mais significativos exemplares de estátuas gregas são conhecidos apenas a partir das suas versões romanas e de eventuais descrições em fontes literárias gregas ou latina.[412] Apesar do enorme valor dado às obras de arte, os artistas detinham um estatuto social inferior, mesmo até os mais renomados. Os romanos e gregos viam artistas e artesãos enquanto trabalhadores braçais. Ao mesmo tempo, era reconhecida a perícia necessária para produzir arte de qualidade, sendo até considerada uma oferenda divina.[413]

Pintura[editar | editar código-fonte]

O Casamento de Zefiro e Clóris (54-68 a.C., Quarto Estilo.

Muito do que se conhece sobre pintura romana baseia-se na decoração do interior de residências privadas, em particular as que foram preservadas em Pompeia e Herculano após a Erupção do Vesúvio de 79. Para além dos frisos decorativos e de painéis com motivos geométricos e vegetalistas, a pintura mural representa cenas da mitologia e do teatro, paisagem e jardins, recreação e espetáculos, trabalho e vida quotidiana e cenas eróticas. Os pássaros, animais e vida marinha são frequentemente representados com especial cuidado em relação ao detalhe artístico. A sinagoga de Dura Europos é uma fonte ímpar de arte figurativa judaica durante o império,[414] preservada intacta após ter sido soterrada no século III posteriormente à invasão da cidade pelos Persas.[415]

Retratística[editar | editar código-fonte]

A retratística, sobrevivente principalmente em escultura, foi a mais prolífica forma de arte imperial. Durante o período de Augusto, os retratos usam proporções clássicas e feições jovens, evoluindo posteriormente para uma conjugação de realismo e idealismo.[416] Os retratos do período republicano demonstram um realismo intenso, embora após o século II a.C. tenha sido progressivamente adotado o conceito de nudez heroica, muitas vezes para o retrato de generais conquistadores.[417] A escultura imperial pode apresentar uma face adulta, por vezes envelhecida, no topo de um corpo jovem nu ou semi-nu com musculatura perfeita. Aliás, era comum a colocação de bustos num corpo criado para outro efeito.[418] Vestido com a toga ou o uniforme militar, o corpo comunica a patente ou a esfera de atividade, e não as características do retratado.[419]

As mulheres da família imperial eram frequentemente retratadas vestidas de forma semelhante à das deusas ou personificações divinas, como a Pax. Na pintura, a retratística é representada principalmente pelos Retratos de Fayum, os quais evocam as tradições egípcia e romana de celebração dos mortos através de técnicas de pintura realista. Grande parte da escultura retratística teria sido pintada e, embora a tinta raramente tenha sobrevivido ao longo dos séculos, os retratos de Fayum são um indicador da razão pela qual as antigas fontes literárias se maravilhavam com o realismo das representações artísticas.[420]

Mosaicos[editar | editar código-fonte]

O Triunfo de Neptuno, pavimento em mosaico de finais do século II na África Proconsular, atual Tunísia, o qual celebra as boas colheitas agrícolas com alegorias das estações, vegetação, trabalhadores e animais.[421]

Os mosaicos são uma das mais duradouras formas de artes decorativas romanas, podendo ser encontrados nas superfícies de pavimentos, paredes, tetos e colunas. A técnica mais comum é o opus tessellatum, criado a partir de peças uniformes (tessela) de materiais como pedra e vidro.[422] Os mosaicos eram geralmente produzidos no local, embora por vezes fossem produzidos e comercializados em painéis pré-fabricados. Uma oficina de mosaico era dirigida pelo mestre (pictor).[423]

Os mosaicos figurativos partilham muitos dos temas com a pintura e, nalguns casos, representam os mesmos temas em composições praticamente idênticas. Embora os padrões geométricos e cenas mitológicas sejam motivos recorrentes durante ao longo de todo o império, existem também diversas expressões locais. No norte de África, uma fonte particularmente rica de mosaicos, os temas preferidos em propriedades privadas eram cenas da vida quotidiana: caça, agricultura e vida selvagem local.[421] Entre os restantes maiores centros de produção de mosaico estão regiões da atual Turquia, Itália, sul de França, Espanha e Portugal.

O opus sectile é uma técnica relacionada na qual pedra lisa, geralmente mármore colorido, é cortada em formas precisas que compõem os padrões geométricos ou figurativos. Esta técnica, mais complexa, era particularmente valiosa e tornou-se extremamente popular para acabamentos de luxo durante o século IV. Um dos mais notáveis exemplos é a basílica de Júnio Basso.[424]

Artes decorativas[editar | editar código-fonte]

As artes decorativas destinadas a consumidores de luxo englobam peças de cerâmica, recipientes e utensílios de prata e bronze e artefactos de vidro. A produção de cerâmica de várias qualidades e as indústrias de metalurgia e vidro desempenhavam um papel económico importante no comércio e emprego. As importações estimulavam os novos centros de produção regionais. O sul da Gália tornou-se o principal produtor de terra sigillata, cerâmica de elevada qualidade e um dos principais artigos comercializados na Europa durante o século I.[425] Os romanos dominavam também a técnica de sopro de vidro, a qual teve origem na Síria durante o século I a.C..[426] [427]

Escultura[editar | editar código-fonte]

Os exemplos de escultura romana sobrevivente até aos nossos dias são abundantes, embora muitas vezes danificados ou fragmentados. Entre as tipologias mais frequentes estão estátuas e estatuetas em mármore, bronze e terracota e relevos de edifícios públicos, templos e monumentos como a Ara Pacis, a Coluna de Trajano e o Arco de Tito. Os nichos de anfiteatros eram inicialmente preenchidos com estátuas,[428] as quais eram também presença obrigatória nos jardins formais romanos.[429]

Os templos albergavam as imagens de culto de divindades, muitas vezes da autoria de escultores notáveis.[430] A religiosidade dos romanos proporcionava a produção de altares decorados, pequenas representações de divindades para altares domésticos ou ofertas votivas e outras peças para oferendas nos templos. As figuras divinas e mitológicas também eram, por vezes, alvo de repersentações seculares, humorísticas e até obscenas.

Os sarcófagos de mármore e calcário são característicos do período entre os séculos II e IV,[431] do qual existem pelo menos 10000 exemplares sobreviventes.[432] Embora as cenas mitológicas sejam aquelas cujo estudo é mais aprofundado,[433] os relevos em sarcófagos são a mais rica fonte de iconografia romana,[434] podendo também representar a ocupação em vida do morto e cenas militares, entre outros temas. Durante o período final do império foram introduzidos motivos religiosos judaico-cristãos.[435]

Artes performativas[editar | editar código-fonte]

Trupe teatral exclusivamente masculina durante a preparação para uma atuação mascarada.

A tradição grega de teatro mascarado masculino persistiu durante o Império Romano, representada na literatura latina pelas tragédias de Séneca. A mais popular forma de teatro foi, no entanto, o género da mímica (mimus), o qual era caracterizado por peças com argumento escrito, improvisação, linguagem por vezes brejeira, humor, cenas de sexo, sequências de ação e sátira política, a par de números de dança, acrobacias, malabarismo, funambulismo, striptease e ursos dançarinos.[436] A mímica realizava-se sem máscaras e promovia o realismo estilístico em palco. Os papéis femininos eram desempenhados por mulheres, e não por homens com disfarces.[437] O género estava relacionado com outro género denominado pantomimus, uma forma primitiva de ballet narrativo, música instrumental e libreto musical, muitas vezes sobre temas mitológicos que podiam ser trágicos ou cómicos.[438]

Embora por vezes vista enquanto elemento externo à cultura romana, a música e dança existiram em Roma desde a sua fundação.[439] Era habitual haver música em cerimónias fúnebres, enquanto que nos sacrifícios era comum tocar uma tibia, um instrumento de sopro cujo som se acreditava espantar as más influências.[440] A canção Carmen era uma parte integral de praticamente qualquer ocasião social.[441] Acreditava-se que a música refletia a ordem do cosmos, e era associada à matemática e ao conhecimento.[442]

Entre os instrumentos mais comuns estão as madeiras, os metais, os instrumentos de percussão as cordas, como a cítara grega.[443] O cornu, um instrumento de sopro metálico que se curvava ao longo do corpo do músico, era usado em peradas e sinalização militar.[444] O órgão hidráulico (hydraulis) foi um dos mais significativos feitos musicais e técnicos da Antiguidade,[445] acompanhando combates entre gladiadores, eventos nos anfiteatros e atuações em palco.[445]

Embora algumas formas de dança não tivessem aceitação no império e fossem vistas como estrangeiras ou pouco humanas, a dança estava incorporada nos rituais religiosos da Roma arcaica.[446] As danças extasiantes eram uma característica da religião de mistérios, em particular do culto de Cibele praticado pelos seus sacerdotes eunucos,[447] e do culto de Ísis. Na vertente secular, as dançarinas da Síria e de Cádis eram extremamente populares.[448]

Tal como os gladiadores, os artistas de espetáculos eram infames aos olhos da lei e com estatuto pouco superior em relação aos escravos, ainda que tecnicamente fossem livres. As grandes estrelas podiam, no entanto, disfrutar de riqueza e estatuto considerável, podendo envolver-se com as classes superiores, muitas vezes sexualmente, e inclusive com imperadores.[449] Os artistas apoiavam-se entre si através da formação de guildas.[450] O teatro e a dança foram muitas vezes condenados pelos polemicistas cristãos durante o final do império,[451] e cristãos que integrassem dança ou música nas suas práticas religiosas eram vistos pelos Padres da Igreja como pagãos.[452]

Literacia e educação[editar | editar código-fonte]

A retratística demonstra muitas vezes o orgulho existente na literacia, onde o encomendador se faz retratar com objetos associados à leitura e escrita, como neste casal de Pompeia.

As estimativas apontam para uma taxa de alfabetização média do império entre 5 e 30% ou mais, dependendo da definição de alfabetização.[453] [454] [455] A obsessão romana com documentos e inscrições pública é um indicador do valor que a escrita tinha na sociedade.[456] [457] [458] A burocracia romana dependia da capacidade de ler e escrever e tanto as leis como os editais eram afixados em locais públicos. O governo colocava à disposição dos romanos iliterados escribas (scriba) capazes de ler ou redigir documentos oficiais.[459] [460] A administração militar produzia uma quantidade assinalável de registos e relatórios escritos,[461] e a literacia entre o exército era bastante elevada.[462] Qualquer forma de comércio exigia também um mínimo de conhecimento de cálculo matemático.[463] Havia também uma quantidade assinalável de escravos literados, alguns bastante instruídos.[464]

Os livros eram caros, uma vez que cada cópia tinha que ser manuscrita num rolo de papiro (volumen) por escribas especializados.[465] O códice era ainda uma novidade no século I, mas em finais do século III tinha já substituído o volumen[466] [467] e era o suporte mais comum entre os livros de conteúdo cristão.[468] A produção comercial de livros tem início durante o período final da República.[469] Por volta do século I alguns bairros de Roma eram conhecidos pelas suas livrarias (tabernae librariae), as quais existiam também em muitas das cidades de província ocidentais.[470] </ref> Marshall, "Library Resources and Creative Writing at Rome," p. 253</ref> A qualidade das edições variava significativamente e alguns autores queixavam-se de cópias cheias de erros, plágio ou falsificações, uma vez que não existiam direitos de autor.[471]

Entre os séculos I e III houve um aumento significativo de público literário e, embora continuasse a ser uma minoria entre a população, já não estava restrito a uma elite sofisticada, o que esteve na origem da literatura de consumo destinada a entretenimento e que demonstra a fluidez social do império.[472] Os livros ilustrados, inclusive os eróticos, eram bastante populares.[473] As obras literárias eram lidas com frequência em jantares ou entre grupos de leitura.[474]

Ensino primário[editar | editar código-fonte]

Um professor com dois alunos e um terceiro, em pé, que segura um loculus, uma mala na qual se guardava canetas, um frasco de tinta e uma esponja para corrigir erros.[475]

A educação tradicional romana era moral e prática. As histórias sobre as grandes personalidades, ou lições sobre fracassos individuais, destinavam-se a incutir nos jovens os valores romanos (mores maiorum). Era esperado dos pais e da família que agissem como modelo comportamental e que os pais com uma profissão passassem aos filhos esse conhecimento, os quais se podiam depois tornar aprendizes.[476] O ensino formal era acessível apenas às famílias que o podiam pagar.[477] [478] As crianças mais novas eram ensinadas por um pedagogus, geralmente um escravo ou antigo escravo grego.[479] O pedagogo era responsável pela segurança das crianças, ensinava-lhes autodisciplina e noções de comportamento em público e ministrava aulas de leitura, escrita e aritmética.[480] [481] Em latim, illiteratus podia significar tanto uma pessoa que era incapaz de ler ou escrever como uma sem consciência cultural ou sofisticação.[482]

As crianças mais privilegiadas podiam ter aulas em casa com um pedagogo particular.[483] As restantes frequentavam uma escola particular dirigida por um ludi magister, financiada através de mensalidades dos vários pais.[484] O número de escolas foi aumentando gradualmente durante o império, criando mais e melhores oportunidades de educação.[485] As aulas podiam ser realizadas regularmente num espaço próprio arrendado ou em qualquer espaço público disponível, mesmo que no exterior. O ensino primário era ministrado a crianças entre os 7 e 12 anos de idade e as turmas não eram separadas nem por anos nem por sexos.[486]

Ensino secundário e superior[editar | editar código-fonte]

Mosaico de Pompeia no qual se representa a Academia de Platão.

Aos 14 anos, os homens das classes mais abastadas realizavam o ritual de passagem para a idade adulta. A partir desta idade começavam a receber formação no sentido de vir a desempenhar um eventual cargo de liderança política, religiosa ou militar, formação essa que geralmente era dada por um membro mais velho ou amigo da família.[487] O ensino secundário era ministrado por gramáticos (grammatici) ou reitores (rhetores).[488] Os gramáticos ensinavam principalmente literatura grega e latina, complementada por explicações do texto que serviam de pretexto para ensinar história, geografia, filosofia e matemática.[489] Após o reinado de Augusto, os autores latinos passaram também a fazer parte do currículo.[490] O reitor era um professor de oratória e retórica. A arte de bem falar (ars dicendi) era extremamente valorizada enquanto indicador de superioridade social e intelectual, e a eloquência (eloquentia) era considerada o elemento agregador de qualquer sociedade civilizada.[491] A educação superior proporcionava oportunidades de progressão na carreira, sobretudo para os membros da ordem equestre. A eloquência e a cultura eram consideradas características fundamentais dos homens cultivados e dignas de recompensa.[492]

As elites urbanas de todo o império partilhavam uma cultura literária imbuída de ideais de educação gregos (paideia).[493] Muitas cidades gregas financiavam escolas superiores e, para além da literacia e numeracia, o currículo incluía também música e desporto.[494] Atenas era o destino de muitos jovens romanos que aí procuravam as mais reputadas escolas de retórica e filosofia no império.[495]

Educação feminina[editar | editar código-fonte]

Retrato de uma mulher letrada de Pompeia (c. 50)

A poesia augustiniana enaltece o ideal da mulher instruída, culta, independente e versada em arte,[496] e uma mulher com qualificações elevadas representava uma mais-valia para qualquer família que tivesse ambições sociais.[497] Por norma, todas as filhas de membros das ordens equestre e senatorial recebiam instrução.[498] O nível de qualificação variava, desde aristocratas cultas até mulheres formadas para serem caligrafistas ou escribas.[499] [500]

Declínio da literacia[editar | editar código-fonte]

A literacia entrou abruptamente em declínio durante a crise do terceiro século.[501] Embora os Padres da Igreja fossem instruídos, consideravam a literatura clássica perigosa e sem valor, pelo que muitas vezes a reinterpretavam através de interpretações metafóricas e alegóricas. Juliano, o único imperador a rejeitar o cristianismo após a conversão de Constantino, proibiu os cristãos de ensinar o currículo clássico sob a alegação de que corrompiam os jovens.[502]

Enquanto que o formato do livro dava ênfase à continuidade do texto, a adopção progressiva do formato códice encorajava uma leitura parcelar, interpretações fragmentadas e criação de máximas.[503] Durante os séculos V e VI, a capacidade de ler torna-se cada vez mais escassa, mesmo entre os que faziam parte da hierarquia da Igreja.[504]

Literatura[editar | editar código-fonte]

Estátua em Constanţa, comemorativa do exílio de Ovídio.

No cânone literário ocidental, a literatura durante o período de Augusto até ao fim da república é vista como a idade de ouro da literatura latina, incorporando os ideais clássicos da unidade do conjunto, proporção entre as partes e articulação cuidada da composição.[505] Os três poetas clássicos latinos mais influentes – Virgílio, Horácio e Ovídio – pertencem a este período. Virgílio escreveu a Eneida, criando um épico nacional para Roma da mesma forma que os épicos de Homero o foram para a Grécia. Horácio aperfeiçoou o uso da métrica grega na poesia latina. A poesia erótica de Ovídio foi extremamente popular, embora vítima do programa moral de Augusto, que levou ao seu exílio em Tomis, onde permaneceu até ao resto da sua vida. As Metamorfoses de Ovídio são um poema contínuo ao longo de quinze livros, que abrangem temas desde a mitologia greco-romana até ao culto imperial de Júlio César. As versões de Ovídio dos mitos gregos tornaram-se numa das principais fontes de mitologia clássica. A sua foi tão influente na literatura medieval que os séculos XII e XIII foram denominados de "Idade de Ovídio"."[506]

O período entre meados do século I e meados do século II é convencionalmente denominado de idade de prata da literatura latina. Durante o governo de Nero, os escritores reagiram contra o augustinianismo.[507] Os três principais escritores – o filósofo e dramaturgo Séneca; Lucano, o seu sobrinho, que transformou a Segunda Guerra Civil no épico Pharsalia; e o romancista Petrónio, autor de Satíricon – cometeram todos suicídio após caírem em desgraça junto do imperador. Séneca e Lucano eram da Hispânia, tal como o epigramista Marcial.[508] A obra do poeta Estácio viria a exercer uma enorme influência na literatura do Renascimento.[509]

Legado[editar | editar código-fonte]

A revista estadunidense National Geographic descreveu o legado do Império Romano em O Mundo Segundo Roma:

"A influência duradoura romana é refletida difusamente na linguagem, literatura, códigos legais, governos, arquitetura, engenharia, medicina, esportes, artes, entre muitos outros aspectos da vida contemporânea. Muito disso está tão intricado à nossa cultura que mal nos damos conta da nossa dívida com a Roma antiga. Considerando o idioma, por exemplo.[510]

"A extraordinária grandeza do Império Romano se manifesta sobretudo em três coisas: os aquedutos, as estradas pavimentadas, e a rede de esgotos."

Dionísio de Halicarnasso, Ant. Rom. 3.67.5[511]

Vários estados alegaram ser os sucessores do Império Romano, depois da queda do Império Romano do Ocidente. O Sacro Império Romano, uma tentativa de ressuscitar o império no Ocidente, foi criado em 800, quando o Papa Leão III coroou o rei franco Carlos Magno como imperador romano no dia de Natal, embora o império e o escritório imperial não se tornaram formalizados por algumas décadas. Após a queda de Constantinopla, o Principado de Moscou, como herdeiro da tradição ortodoxa cristã do Império Bizantino, proclamava a si mesmo como a Terceira Roma (Constantinopla teria sido a segunda). Estes conceitos são conhecidos como translatio imperii.

Quando os otomanos, que basearam seu Estado no modelo bizantino, tomaram Constantinopla em 1453, Mehmed II estabeleceu sua capital lá e alegou sentar-se no trono do Império Romano. Ele foi tão longe a ponto de lançar uma invasão à Itália com o propósito de "reunificar o império", embora os exércitos papal e napolitano tenham parado a sua marcha para Roma em Otranto em 1480. Constantinopla somente foi oficialmente renomeada para Istambul em 28 de março de 1930.

Distribuição mundial do alfabeto latino.

Excluindo esses estados que reivindicam a herança romana, se a data tradicional para a fundação de Roma for aceita como verdadeira, pode-se dizer que o Estado romano durou, em alguma forma, de 753 a.C. até a queda em 1461 do Império de Trebizonda (um Estado sucessor e fragmento do Império Bizantino, que escapou da conquista pelos otomanos em 1453), totalizando 2.214 anos de existência. O impacto romano sobre as civilizações ocidental e Oriental existe até os dias atuais. Com o tempo, a maioria das conquistas romanas foram duplicadas por civilizações posteriores. Por exemplo, a tecnologia do cimento foi redescoberta por John Smeaton (1755-1759).

O império contribuiu com muitas coisas para o mundo, como um calendário com anos bissextos, as instituições do cristianismo e aspectos da moderna arquitetura do neoclassicismo e bizantina. O extenso sistema de estradas que foi construído pelo exército romano dura até hoje. Devido a esta rede de estradas, o tempo necessário para viagens entre os destinos na Europa não diminuiu desde a Antiguidade até o século XIX, quando a energia a vapor foi aplicada aos transportes. Mesmo a astrologia moderna veio a nós diretamente dos romanos.

Richmond Virginia Capitol.jpg
Maison Carrée (Nîmes).JPG
O Capitólio Estadual da Virgínia, Estados Unidos (esquerda), construído no final do século XVIII, foi inspirado na Maison Carrée, templo galo-romano construído por volta de 16 a.C. sob o reinado de Augusto.

O Império Romano também contribuiu com sua forma de governo, o que influencia constituições diferentes, incluindo as da maioria dos países europeus e muitas das ex-colônias europeias. Nos Estados Unidos, por exemplo, os autores da constituição observaram, na criação da presidência, que eles queriam inaugurar uma "Era Augusta". O mundo moderno também herdou o pensamento jurídico de direito romano, totalmente codificada na antiguidade tardia. Regendo um vasto território, os romanos desenvolveram a ciência da administração pública de um modo nunca antes concebido ou necessário, criando um amplo serviço civil e métodos formais de cobrança de impostos.

Enquanto no ocidente, o termo "romano" adquiriu um novo significado em conexão com a Igreja e o Papa de Roma. A forma grega romaioi permaneceu ligada à população cristã de língua grega do Império Romano do Oriente e ainda é usada pelos gregos, além de sua denominação comum.[512]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Outras possibilidades são Res publica e Romania. Res publica, como um termo denotando a comunidade romana em geral, pode referir-se tanto à era republicana como à era imperial, enquanto Império Romano é usado para denotar a extensão territorial da autoridade romana. O termo tardio Romania, que foi mais tarde usado para o Império Bizantino, aparece em fontes gregas e latinas do quarto século em diante. (Ver Wolff, R.L. Romania: The Latin Empire of Constantinople. In: Speculum, 23 (1948), pp. 1-34 (pp. 2-3).)
  2. Durante estas lutas, centenas de senadores morreram, e o senado foi renovado com legalistas do primeiro triunvirato e depois do segundo triunvirato.
  3. Augusto oficialmente proclamou ter salvo a República Romana e cuidadosamente disfarçou seu poder sob formas republicanas: cônsules continuaram a ser eleitos, tribunos dos plebeus continuaram a servir a justiça, e senadores ainda debatiam na cúria romana. Porém, era Otaviano, e cada um de seus sucessores após ele, quem influenciava tudo e controlava as decisões finais e, em última análise, tinha as legiões para garanti-lo, caso fosse necessário.
  4. O termo "Império Bizantino" é moderno. À época, os habitantes denominavam-no Império Romano viam-se a si próprios como romanos.
  5. Esta prática foi estabelecida durante a República.
  6. Existia uma dupla moral: uma mulher casada apenas podia ter relações sexuais com o marido; no entanto, um homem casado não estaria a cometer adultério se tivesse relações sexuais com uma prostituta, escrava ou outra pessoa de estatuto considerado marginal.
  7. Júlio César aplicou pela primeira vez o termo oppidium a este tipo de assentamento, tendo mesmo denominado Avárico uma urbs, ou cidade. A arqueologia indica que os oppida eram centros religiosos, comerciais e de produção industrial, muralhados com o propósito de defesa, embora seja possível que a sua ocupação populacional fosse muito variável ao longo do ano.[344]
  8. Só o excedente da província do Egito era suficiente para as necessidades da cidade de Roma e dos exércitos de província[374]

Referências

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  333. Os historiadores dividem-se na ênfase dada aos elementos atléticos e de dança destes exercícios: H. Lee, "Athletics and the Bikini Girls from Piazza Armerina," Stadion 10 (1984) 45–75, vê-as como ginastas, enquanto M. Torelli, "Piazza Armerina: Note di iconologia", in La Villa romana del Casale di Piazza Armerina, edited by G. Rizza (Catania, 1988), p. 152, assume que são dançarinas em eventos desportivos. A questão é sumarizada em Katherine M.D. Dunbabin, Mosaics of the Greek and Roman World (Cambridge University Press, 1999), p. 133.
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