Augusto

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Augusto
Imperador romano
Statue-Augustus.jpg
Augusto de Prima Porta
Governo
Reinado 16 de janeiro de 27 a.C.19 de agosto de 14 d. C.
Consorte Cláudia Pulcra (? — 40 a.C.)
Escribônia (40 a.C.38 a.C.)
Lívia Drusa (38 a.C.14 d.C.)
Antecessor Júlio César (como ditador)
Sucessor Tibério
Dinastia Júlio-claudiana
Vida
Nome completo Caio Júlio César Otaviano Augusto
(Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus)
Nascimento 23 de setembro de 63 a.C.
Roma, República Romana
Morte 19 de agosto de 14
Nuvlana, Itália, Império Romano
Sepultamento Mausoléu de Augusto
Filhos Júlia, a Velha
Caio César (adotivo)
Lúcio César (adotivo)
Agripa Póstumo (adotivo)
Tibério (adotivo)
Pai Caio Otávio
Júlio César (adotivo)
Mãe Ácia Balba Cesônia

Augusto (em latim: Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus;[nt 1] Roma, 23 de setembro de 63 a.C. - Nuvlana (atual Nola) 19 de agosto de 14) foi o fundador do Império Romano e seu primeiro imperador, governando de 27 a.C. até sua morte em 14 d.C..[nt 2] Nascido Caio Otaviano, pertenceu a um rico e antigo ramo equestre da família plebeia dos Otávios. Depois do assassinato de seu tio-avô Júlio César em 44 a.C., o testamento de César nomeou Otaviano como seu filho adotivo e herdeiro. Junto com Marco Antônio e Lépido, formou o Segundo Triunvirato e derrotou os assassinos de César. Após a vitória na Batalha de Filipos, os três dividiram a República Romana entre si, passando a governar como ditadores militares.[nt 3] O triunvirato foi posteriormente posto de lado sob as ambições conflitantes de seus membros: Lépido foi exilado e despojado de sua posição, e Marco Antônio cometeu suicídio após sua derrota na Batalha de Áccio em 31 a.C..

Após o fim do Segundo Triunvirato, Augusto restaurou a fachada externa da república livre, com o poder governamental investido no senado romano, os magistrados executivos, e as assembleias legislativas. Porém, na realidade, manteve seu poder autocrático sobre a república como um ditador militar. Por lei, reteve um conjunto de poderes garantidos em vida pelo senado, incluindo o comando militar supremo, e aqueles do tribuno e censor. Levou vários anos para desenvolver o quadro em que um estado formalmente republicado poderia ser liderado sob seu governo único. Rejeitou os títulos monárquicos e em vez disso chamou-se "Primeiro Cidadão do Estado" (Princeps Civitatis). O quadro constitucional resultante tornou-se conhecido como principado, a primeira fase do Império Romano.

O reinado de Augusto iniciou uma era de relativa paz conhecida como Pax Romana ("Paz Romana"). Apesar de contínuas guerras de expansão nas fronteiras imperiais e uma guerra civil de um ano sobre a sucessão imperial, o mundo romano esteve amplamente livre de conflitos em larga escala por mais de dois séculos. Ele dramaticamente aumentou o império, anexando Egito, Dalmácia, Panônia, Nórica e Récia, expandindo as possessões da África e Germânia e completando a conquista da Hispânia. Além das fronteiras, protegeu o império com uma região tampão composta por Estados clientes, e fez paz com o Império Parta via diplomacia. Reformou o sistema romano de tributação, desenvolveu redes de estradas com um sistema de correio oficial, estabeleceu um exército permanente, bem como a guarda pretoriana, criou serviços oficiais de policiais e bombeiros, e reconstruiu muito da cidade de Roma durante seu reinado.

Augusto morreu em 14 d.C., com 75 anos. Pode ter morrido de causas naturais, embora haja rumores não confirmados que sua esposa Lívia Drusa o teria envenenado. Foi sucedido como imperador por seu filho adotivo Tibério (também enteado e antigo cunhado). Com 41 anos, foi o soberano com maior tempo de mandato de Roma.[2] [3]

Nomes[editar | editar código-fonte]

Ao longo de sua vida, os historiadores referiram-se a Augusto ( /ɔːˈɡʌstəs/[4] ) por muitos nomes:

  • Ao nascer foi chamado Caio Otávio (Gaius Octavius) em homenagem a seu pai biológico. Os historiadores tipicamente referem-se simplesmente como Otávio (ou Otaviano) entre seu nascimento em 63 a.C. e sua adoção póstuma por Júlio César em 44 a.C.;[5]
  • Com sua adoção por César, levou o nome de seu pai adotivo e tornou-se Caio Júlio César Otaviano (Caius Julius Caesar Octavianus) em concordância com o padrão de nomenclatura da adoção romana. Embora tenha perdido "Otaviano" rapidamente e seus contemporâneos referiam-se a ele como "César" durante o período, os historiadores chamam-o Otaviano entre 44 a.C. e 27 a.C.;[6] [7]
  • Como parte de suas ações para fortalecer seus laços políticos com os antigos soldados de César, em 42 a.C., após a deificação do último, Otaviano adicionou "filho do Divino" (Divi Filius) em seu nome, tornando-se Caio Júlio César, Filho do Divino (Gaius Julius Caesar Divi Filius);[8]
  • Em 38 a.C., Otaviano substituiu seu prenome "Caio" e seu nome "Júlio" por "Imperador" (Imperator), o título que as tropas saldaram o líder deles após o sucesso militar, oficialmente se tornando Imperador César, Filho do Divino (Imperator Caesar Divi Filius).[9]
  • Em 27 a.C., após a derrota de Marco Antônio e Cleópatra, o senado romano votou novos títulos para eles, oficial tornando Imperador César, Filho do Divino, Augusto (Imperator Caesar Divi Filius Augustus). Foi em 27 a.C. que obteve seu nome tradicional Augusto, com o qual os historiadores o identificaram até sua morte em 14 d.C..[9] [nt 4]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Enquanto que sua família paterna provinha da cidade de Velitras, a aproximadamente 40 km de Roma, Otaviano nasceu na capital em 23 de setembro de 63 a.C., na Cabeça do Touro, uma pequena propriedade no Palatino, muito próxima ao Fórum Romano. A ele foi dado o nome "Caio Otávio Turino", sendo seu cognome uma possível alusão à vitória de seu pai em Túrio contra um bando de rebeldes escravos.[10] Devido à lotação de Roma à época, Otaviano foi levado por seu pai para Velitras. Ele somente menciona brevemente a família equestre de seu pai em suas memórias. Seu bisavô paterno foi um tribuno militar da província romana da Sicília durante a Segunda Guerra Púnica, seu avô serviu em vários ofícios políticos locais e seu pai foi governador da Macedônia.[11] [nt 5] Sua mãe, Ácia, foi a sobrinha de Júlio César.[13]

Denário de 44 a.C., mostrando Júlio César no anverso e a deusa Vênus no reverso

Seu pai morreu em 59 a.C., quando tinha quatro anos.[14] Sua mãe casou-se provavelmente em 56 a.C. com Lúcio Márcio Filipo, um antigo propretor da Síria.[15] [16] [17] Filipo alegou descender de Alexandre, o Grande, e foi eleito cônsul em 56 a.C..[18] Filipo nunca teve muito interesse pelo jovem Otaviano e, por a isso, ele foi criado por sua avó e irmã de Júlio César, Júlia Cesaris. Ela morreu em 52 ou 51 a.C.; Otaviano realizou a oração fúnebre.[19] A partir deste momento, sua mãe e seu padrasto desempenharam um papel mais ativo em sua criação. Ele vestiu a toga viril quatro anos depois[15] e foi eleito para o Colégio dos Pontífices em 47 a.C..[20] No ano seguinte, foi responsável pelos jogos gregos que foram realizados em honra ao Templo de Vénus Genetrix, construído por Júlio César.[21] De acordo com Nicolau de Damasco, Otaviano desejava juntar-se pessoalmente a César em sua campanha na África, mas desistiu quando sua mãe protestou.[22]

Em 46 a.C., Ácia consentiu que se juntasse com Júlio César na Hispânia, onde planejava lutar com as forças de Pompeu, seu último inimigo, mas Otaviano adoeceu e foi incapaz de viajar. Quando se recuperou, velejou para o fronte, mas naufragou. Após alcançar a costa com a ajuda de seus companheiros, cruzou território hostil para o acampamento de César, impressionando consideravelmente seu tio-avô.[15] Veleio Patérculo registra que depois desse momento, César permitiu que o jovem compartilhasse sua carruagem.[23] César depositou um novo testamento com as virgens vestais ao voltar para Roma, nomeando Otaviano como seu primeiro beneficiário.[24]

Ascensão ao poder[editar | editar código-fonte]

Herdeiro de César[editar | editar código-fonte]

A Morte de César, por Jean-Léon Gérôme (1867). Em 15 de março de 44 a.C., Júlio César foi assassinado por uma conspiração liderada por Marco Júnio Bruto e Caio Cássio Longino. Museu de Arte Walters, Baltimore.

Otaviano estava estudando e passando por treinamento militar em Apolônia, na província romana da Ilíria, quando César foi morto nos Idos de Março (15 de março) de 44 a.C.. Rejeitando o conselho de alguns oficiais do exército para refugiar-se com as tropas da Macedônia, navegou para a Itália para verificar se tinha alguma segurança e potencial fortuna política. Após desembarcar em Lúpias, próximo de Brundísio (atual Brindisi), soube do conteúdo do testamento de César e só então decidiu tornar-se seu herdeiro político bem como herdeiro de dois-terços de seu estado.[21] [25] [26] César, não tendo filhos legítimos vivos sob a lei romana,[nt 6] adotou seu sobrinho-neto Otaviano como seu filho e principal herdeiro.[27]

Após a sua adoção, Otaviano assumiu o nome de seu tio-avô, Caio Júlio César. Embora os romanos que eram adotados em uma nova família geralmente mantivessem seus nomes antigos na forma de cognome, não há evidência de que tenha portado o nome Otaviano, pois teria feito suas origens modestas muito óbvias.[28] [29] [30] Contudo, apesar do fato de nunca oficialmente ter portado o nome Otaviano, para evitar a confusão do ditador morto com seu herdeiro, os historiadores frequentemente referiram-se ao novo césar – entre sua adoção e sua ascensão, em 27 a.C. – como Otaviano.[31] Mais tarde, Marco Antônio atacou Otaviano com a alegação de que sua adoção teria ocorrido através de favores sexuais, porém Suetônio, em sua obra Vida dos Doze Césares, descreve a acusação de Antônio como calúnia política.[32]

Para fazer uma entrada bem-sucedida nos altos-escalões da hierarquia política romana, Otaviano não podia confiar em seus fundos limitados.[33] Após uma acalorada recepção pelos soldados de César em Brundísio,[34] exigiu uma porção dos recursos que foram repartidos para a pretendida guerra contra o Império Parta no Oriente Médio.[33] Isso equivaleu a 700 milhões de sestércios armazenados em Brundísio, o campo de preparação na Itália para as operações militares no Oriente.[35] Uma investigação senatorial posterior a respeito do desaparecimento dos recursos públicos não levou a ação alguma contra Otaviano, uma vez que subsequentemente usou o dinheiro para recrutar tropas contra o inimigo do senado, Marco Antônio.[34] Otaviano fez outro movimento ousado em 44 a.C., quando, sem permissão oficial, apropriou-se do tributo anual que era enviado da província romana do Oriente Próximo para a Itália.[33] [36]

Busto de Otaviano datado de ca. 30 a.C. Museus Capitolinos

Otaviano começou a reforçar suas forças pessoas com legionários veteranos de César e com tropas designadas para a guerra na Pártia, coletando apoio para realçar seu estatuto como herdeiro de César.[25] [37] Em sua marcha para Roma através da Itália, a presença de Otaviano com fundos recém-adquiridos atraiu muitos, conquistando vários ex-veteranos de Júlio César estacionados em Campânia.[33] Pelo mês de junho, havia formado um exército de 3 000 veteranos leais, pagando para cada um salário de 500 denários.[38] [39]

Chegando em Roma em 6 de maio de 44 a.C., Otaviano encontrou o cônsul Marco Antônio, antigo colega de Júlio César, em uma inquieta trégua com os assassinos do ditador; a eles foi garantida uma anistia geral em 17 de março e Antônio conseguiu conduzir a maioria deles para fora de Roma. Isto era devido ao discurso "inflamatório" dado por ele no funeral de César, o que criou uma opinião pública contrária aos assassinos.[33] Embora Marco Antônio estivesse acumulando apoio político, Otaviano ainda tinha a oportunidade de rivalizá-lo como principal membro da facção dos apoiantes de César. Marco Antônio tinha perdido o apoio de muitos romanos e apoiantes de Júlio César quando inicialmente opôs-se a moção para elevá-lo ao estatuto divino.[40] Otaviano falhou em persuadir Marco Antônio a renunciar o dinheiro do ditador para si. Contudo, durante o verão, conseguiu ganhar apoio dos cesarianos simpatizantes que viram o jovem herdeiro como o mal menor e esperavam manipulá-lo ou carregá-lo durante seus esforços para livrarem-se de Marco Antônio.[41]

Otaviano começou a fazer causa comum com os Optimates, os antigos inimigos de Júlio César. Em setembro, o principal orador optimate, Marco Túlio Cícero, começou a atacar Marco Antônio numa série de discursos retratando-o como uma ameaça para a ordem republicana.[42] [43] Com a opinião em Roma mudando contra ele e seu ano de poder consular próximo do fim, Antônio tentou aprovar o empréstimo do controle sobre a Gália Cisalpina, que tinha sido designada como parte de sua província, por Décimo Júnio Bruto Albino, um dos assassinos de César.[44] [45] Enquanto isso, Otaviano criou um exército privado na Itália mediante o recrutamento de veteranos cesarianos e em 28 de novembro adquiriu duas legiões de Antônio com a oferta tentadora de ganho monetário.[46] [47] Em face da grande força capaz de Otaviano, Antônio notou o perigo de permanecer em Roma e, para o alívio do senado, fugiu para a Gália Cisalpina, que era para ser-lhe entregue em 1 de janeiro.[48]

Primeiro conflito com Antônio[editar | editar código-fonte]

Busto de Augusto
Museus Capitolinos, Roma

Depois de Décimo Bruto recusar-se a entregar a Gália Cisalpina, Marco Antônio sitiou-o em Mutina.[49] As resoluções aprovadas pelo senado para parar a violência foram rejeitadas por Antônio, uma vez que o senado não tinha um exército próprio para enfrentá-lo; isto forneceu uma oportunidade para Otaviano, que já era conhecido por ter forças armadas.[47] Cícero também defendeu Otaviano contra as provocações de Antônio sobre a falta de linhagem nobre de Otaviano e a imitação do nome de Júlio César; ele alegou "não temos mais exemplo brilhante de piedade tradicional entre nossa juventude."[50]

Por insistência de Cícero, o senado introduziu Otaviano como senador em 1 de janeiro de 43 a.C. e lhe conferiu poder de voto ao lado dos ex-cônsules.[48] Além disso, foi-lhe garantido imperium (poder de comando), o que fez seu comando de tropas algo legal, sendo enviado então para aliviar o cerco junto com Hírcio e Pansa (os cônsules de 43 a.C.).[47] [51] Em abril de 43 a.C., as forças de Antônio foram derrotadas nas batalhas de Fórum dos Galos e Mutina e ele foi forçado a se retirar para a Gália Transalpina. Entretanto, ambos os cônsules foram mortos, o que deixou Otaviano como comandante único de seus exércitos.[52] [53]

Depois que Décimo Bruto acumulou mais recompensas que Otaviano por derrotar Antônio, o senado tentou dar o comando das legiões consulares para Décimo, o que fez Otaviano decidir não cooperar.[54] Ele instalou-se na planície Padana e recusou-se a ajudar em qualquer outra ofensiva.[55] Em julho, uma embaixada de centuriões enviada por Otaviano entrou em Roma e exigiu que ele recebesse o consulado deixado vago por Hírcio e Pansa.[56] Otaviano também exigia que o decreto que declarava Antônio um inimigo público deveria ser rescindido. Quando isto foi recusado, ele marchou sobre a cidade com oito legiões.[55] Encontrou nenhuma oposição militar em Roma, e em 19 de agosto de 43 a.C. foi eleito cônsul com seu parente Quinto Pédio como co-cônsul.[57] [58] Nesse meio tempo, Antônio formou uma aliança com Marco Emílio Lépido, outro proeminente cesariano.[59]

Segundo Triunvirato[editar | editar código-fonte]

Proscrições[editar | editar código-fonte]

Áureo portando a efígie de Marco Antônio (esquerda) e Otaviano (direita), emitido em 41 a.C. para celebrar o estabelecimento do Segundo Triunvirato por Otaviano, Antônio e Lépido em 43 a.C.. Ambos os lados carregam a inscrição "III VIR R P C", que significa "Um dos três homens para a Regulação da República"[60]

Em uma reunião próximo de Bonônia (atual Bolonha) em outubro de 43 a.C., Otaviano, Marco Antônio e Lépido formaram uma junta chamada Segundo Triunvirato. Esta pretensão explícita dos poderes especiais foi reconhecida por cinco anos por lei aprovada pelas plebes, diferente do não-oficial Primeiro Triunvirato de Pompeu, Júlio César e Marco Licínio Crasso.[61] [62] Os triúnviros então colocaram em movimento proscrições nas quais 300 (segundo Apiano) ou 130 (segundo Tito Lívio) senadores[63] e 2 000 equites foram alegadamente estigmatizados como criminosos e privados de suas propriedades; para os que não conseguiram escapar, também suas vidas.[64] Este decreto emitido pelo triunvirato foi motivado em parte pela necessidade de levantar dinheiro para pagar os salários das tropas para o conflito próximo com os assassinos de César, Marco Júnio Bruto e Caio Cássio Longino.[65] Recompensas pela prisão deles deu incentivo aos romanos para capturar aqueles proscritos enquanto seus bens móveis e imóveis foram apreendidos pelos triúnviros.[64]

Os historiadores romanos contemporâneos fornecem registros conflitantes sobre qual triúnviro foi mais responsável pelas proscrições e assassinatos, embora todas as fontes concordem que promulgar as proscrições foi um meio para todas as três facções eliminarem inimigos políticos.[66] Marco Veleio Patérculo afirmou que Otaviano tentou evitar proscrever oficiais enquanto Lépido e Antônio eram responsáveis por iniciá-los. Dião Cássio defendeu Otaviano por tentar poupar o maior número possível, enquanto Antônio e Lépido, que eram mais velhos e estavam há mais tempo na política, tinham muitos inimigos para lidarem.[67]

Esta alegação foi rejeitada por Apiano, que sustentou que Otaviano compartilhava um interesse comum com os demais triúnviros na erradicação de seus inimigos.[68] Suetônio apresentou o caso que Otaviano, embora relutante de início em proscrever oficiais, no entanto persuadiu seus inimigos com mais rigor que os outros triúnviros.[66] Plutarco descreve as proscrições como uma troca cruel e impiedosa de amigos e família entre Antônio, Lépido e Otaviano. Por exemplo, Otaviano permitiu a proscrição de seu aliado Cícero, Antônio de seu tio materno Lúcio Júlio César (o cônsul de 64 a.C.) e Lépido, seu irmão Paulo.[67]

Batalha de Filipos e divisão do território[editar | editar código-fonte]

Denário cunhado ca. 18 a.C.. Anverso: César Augusto (CAESAR AVGVSTVS); reverso: "Júlio Divino" (DIVVS IVLIV[S])

Em 1 de janeiro de 42 a.C., o senado postumamente reconheceu Júlio César como uma divindade do Estado romano, Júlio Divino (Divus Iulius). Otaviano foi capaz de promover sua causa ao enfatizar o fato que foi o "Filho do Divino" (Divi Filius).[69] Antônio e Otaviano então enviaram 28 legiões por mar para enfrentar os exércitos de Bruto e Cássio, que tinham construído sua base de poder na Grécia.[70] Após duas batalhas em Filipos, na Macedônia em outubro de 42 a.C., o exército dos triúnviros foi vitorioso e Bruto e Cássio cometeram suicídio. Marco Antônio usaria mais tarde os exemplos destas batalhas como um meio para menosprezar Otaviano, pois ambas foram decisivamente vencidas com o uso das forças de Antônio. Além da reivindicação de responsabilidade pelas vitórias, Antônio também estigmatizou Otaviano como um covarde por entregar seu controle militar direto para Marco Vipsânio Agripa.[71]

Depois de Filipos, um novo arranjo territorial foi feito entre os membros do Segundo Triunvirato. Enquanto Antônio colocou a Gália, as províncias da Hispânia e a Itália nas mãos de Otaviano, ele próprio viajou para o Egito onde aliou-se com Cleópatra (r. 51–30 a.C.), a antiga amante de Júlio César e mãe de seu infante, Cesarião. Para Lépido restou a província da África. A Otaviano ficou a missão de decidir onde, na Itália, os 10 000 veteranos da campanha macedônia, que os triúnviros prometeram exonerar, seriam assentados. Os 10 000 que lutaram ao lado de Bruto e Cássio, e que poderiam facilmente aliar-se com um oponente político de otaviano se não apaziguados, também exigiram terras.[72] Não havia mais terras controladas pelo governo para lotear como assentamentos para seus soldados, então Otaviano teve que escolher entre duas opções: alienar muitos cidadãos romanos por meio de confiscos, ou alienar muitos soldados que podiam criar uma considerável oposição contra ele. Otaviano escolheu a primeira.[73] Houve dezoito cidades romanos afetadas pelos novos assentamentos, com populações inteiras sendo expulsas ou ao menos dado despejos parciais.[74]

Rebeliões e alianças matrimoniais[editar | editar código-fonte]

Moeda com efígie de Lúcio Antônio
Moeda com efígie de Cleópatra (r. 51–30 a.C.)

A insatisfação generalizada a respeito destes assentamentos encorajou muitos a unirem-se com Lúcio Antônio, o irmão de Marco Antônio apoiado pela maioria do senado. Enquanto isso, Otaviano pediu o divórcio de Cláudia Pulcra, filha de Fúlvia e seu primeiro marido Públio Clódio Pulcro. Alegando que seu casamento nunca foi consumado, retornou-a para sua mãe, que agora era esposa de Marco Antônio. Decidida a agir, Fúlvia, junto com Lúcio Antônio, levantou um exército na Itália para lutar pelos direitos de Antônio. Lúcio e Fúlvia fizeram uma aposta política e marcial em sua oposição, uma vez que o exército romano ainda dependia dos triúnviros para seus salários. Lúcio e seus aliados terminaram cercados na Perúsia, onde Otaviano forçou-os a se render no começo de 40 a.C..[74] Ele e seu exército foram poupados, devido a seu parentesco com Antônio, enquanto Fúlvia foi exilada para Sicião.[75] Otaviano, contudo, não mostrou misericórdia com seus aliados. Em 15 de março, o aniversário do assassinato de Júlio César, executou 300 senadores e equestres por se aliarem com Lúcio.[76] Perúsia também foi pilhada e incendiada como um aviso para outros.[75] Este evento sangrento maculou a reputação de Otaviano e foi criticada por muitos, como o poeta augustano Sexto Propércio.[76]

Sexto Pompeu, filho do triúnviro Pompeu e ainda um general renegado após a vitória de Júlio César sobre seu pai, foi estabelecido na Sicília e Sardenha como parte de um acordo alcançado com o Segundo Triunvirato em 39 a.C..[77] Tanto Antônio como Otaviano estavam competindo por uma aliança com Pompeu, que ironicamente foi um membro do partido republicado, não da facção cesariana. Otaviano conseguiu uma aliança temporária em 40 a.C. ao casar-se com Escribônia, a filha de Lúcio Escribônio Libão, um apoiante de Pompeu. Escribônia deu a luz a única filha natural de Otaviano, Júlia, que nasceu no mesmo dia em que divorciou-se dela para se casar com Lívia Drusa, pouco mais de um ano depois do casamento deles.[76]

Enquanto no Egito, Antônio envolveu-se em um caso com Cleópatra e teve três filhos com ela.[nt 7] Ciente da deterioração de sua relação com Otaviano, Antônio deixou Cleópatra e navegou para a Itália com uma grande força para opôr-se a ele, liderando cerco a Brundísio (atual Brindisi). Este novo conflito provou-se insustentável para ambos e seus centuriões, que haviam se tornado importantes figuras políticas, recusaram-se a lutar, enquanto as legiões sobre o comando deles seguiram o exemplo. Entrementes, em Sicião, Fúlvia morreu de uma doença súbita enquanto Antônio estava a caminho para encontrar-se com ela. Sua morte e o motim dos centuriões levou os triúnviros a realizar uma reconciliação.[78] [79]

No outono de 40 a.C., Otaviano e Antônio aprovaram o Tratado de Brundísio, pelo qual Lépido permaneceu na África, Antônio no Oriente e Otaviano no Ocidente. A península Itálica foi deixada aberta para recrutamento de soldados por todos mas, na realidade, esta província era inútil a Antônio. Para cimentar ainda mais as relações de aliança com Marco Antônio, Otaviano ofereceu sua irmã, Otávia, a Jovem, em casamento ao colega triúnviro no final de 40 a.C..[78] Durante o casamento deles, Otávia deu-lhe duas filhas, conhecidas como Antônia, a Velha e Antônia, a Jovem.[80]

Guerra com Pompeu[editar | editar código-fonte]

Denário de Sexto Pompeu cunhado por sua vitória contra a frota de Otaviano. No anverso, o Farol de Messina que derrotou Otaviano, no reverso, o mostra Cila

Sexto Pompeu ameaçou Otaviano na Itália negando os carregamentos de grão da península através do Mediterrâneo; seu filho foi nomeado comandante naval em esforço para provocar a fome na Itália. O controle de Pompeu sobre o mar levou-o a adotar o nome de "Filho de Netuno" (Neptuni Filius). Um acordo de paz temporário foi alcançado em 39 a.C. com o Tratado de Miseno e o bloqueio da Itália foi encerrado quando Otaviano garantiu a Pompeu as províncias da Córsega e Sardenha, Sicília e o Peloponeso, assegurando-lhe também a futura posição de cônsul de 35 a.C..[81] [82] [83]

O acordo territorial entre o triunvirato e Sexto Pompeu começou a desmoronar novamente quando Otaviano divorciou-se com Escribônia e casou-se com Lívia Drusa em 17 de janeiro de 38 a.C..[84] Um dos comandantes navais de Pompeu o traiu e rendeu a Córsega e Sardenha para Otaviano que, ainda assim, carecia dos recursos necessários para confrontá-lo sozinho. Um acordo foi alcançado e o Segundo Triunvirato foi estendido por outro período de cinco anos começando em 37 a.C..[62] [85]

Em apoio a Otaviano, Antônio esperou ganhar apoio em sua própria campanha contra o Império Parta, desejando vingar Roma de sua derrota em Carras em 53 a.C..[85] Em um acordo alcançado em Tarento, Antônio forneceu 120 navios para serem usados contra Pompeu, enquanto Otaviano enviou 20 000 legionários para Antônio usar contra a Pártia. Otaviano enviou apenas um décimo da quantidade prometida, o que Antônio viu como uma provocação intencional.[86]

República Romana em 39 a.C.

Otaviano e Lépido lançaram uma operação conjunta contra Sexto na Sicília em 36 a.C..[87] Apesar dos contratempos de Otaviano, a força naval de Sexto Pompeu foi quase inteiramente destruída em 3 de setembro pelo general Agripa na Batalha de Nauloco. Sexto fugiu com suas forças remanescentes para o Oriente, onde foi capturado e executado em Mileto no ano seguinte por um dos generais de Antônio. Como Lépido e Otaviano aceitaram a rendição das tropas de Pompeu, Lépido tentou reivindicar a Sicília para si, ordenando que Otaviano partisse. Porém, suas tropas desertaram em nome de Otaviano, pois estavam cansadas de lutar e receberam uma sedutora promessa de dinheiro.[88]

Lépido rendeu-se a Otaviano e a ele foi permitido manter o ofício de pontífice máximo (chefe do colégio dos sacerdotes), porém foi removido do triunvirato, encerrando assim sua carreira pública, e efetivamente foi exilado para a vila do Cabo Circei, na Itália.[65] [88] Os domínios romanos estavam agora divididos entre Otaviano no Ocidente e Antônio no Oriente. Para manter a paz e estabilidade em sua porção do império, Otaviano assegurou aos cidadãos de Roma seus direitos de propriedade. Desta vez, assentou seus soldados exonerados fora da Itália, enquanto retornou 30 000 escravos a seus antigos proprietários romanos que anteriormente fugiram para Pompeu para juntar-se a seu exército e marinha.[89] Para assegurar sua segurança e a de Lívia e Otávia, retornou para Roma e recebeu do senado imunidade tribunal, ou sacrossantidade (sacrosanctitas).[90]

Guerra com Antônio[editar | editar código-fonte]

Antônio e Cleópatra,
por Lawrence Alma-Tadema

Nesse meio tempo, a campanha de Antônio contra a Pártia foi desastrosa, manchando sua imagem como um líder, com os meros 2 000 legionários enviados por Otaviano sendo insuficientes para repor suas forças.[91] Por outro lado, Cleópatra conseguiu restaurar as forças de seu exército, e uma vez que já estava envolvido em um caso romântico com ela, decidiu enviar Otávia de volta para Roma.[92] Otaviano usou isto para espalhar propaganda desfavorável a ele, alegando que estava se tornando menos que romano, pois rejeitou uma esposa romana legítima por uma "amante oriental".[93] Em 36 a.C., Otaviano usou um estratagema político para fazê-lo parecer menos autocrático e Antônio mais vilão ao proclamar que as guerras civis estavam chegando ao fim e que deixaria o carto de triúnviro se Antônio fizesse o mesmo; Antônio recusou.[94]

Após as tropas romanas capturarem o Reino da Armênia em 34 a.C., Antônio fez seu filho Alexandre Hélio o governante da Armênia. Ele também recompensou Cleópatra com o título "Rainha dos Reis", ato que Otaviano usou para convencer o senado que Antônio tinha ambições de diminuir a preeminência de Roma.[93] Quando Otaviano tornou-se cônsul mais uma vez em 1 de janeiro de 33 a.C., abriu a sessão seguinte no senado com um ataque veemente a respeito dos títulos e territórios concedidos por Antônio a seus parentes e rainha.[95] A rixa entre Antônio e Otaviano levou uma grande parcela dos senadores, bem como os cônsules daquele ano, a deixar Roma e desertarem para Antônio, porém, Otaviano recebeu dois desertores chave de Antônio no outono de 32 a.C.,[96] Munácio Planco e Marco Tício. Eles lhe deram a informação que precisava para confirmar com o senado todas as acusações feitas.[97] Otaviano forçosamente entrou no Templo de Vesta e confiscou o testamento secreto de Antônio, que ele prontamente divulgou. O testamento doava os território romanos conquistados como reinos para seus filhos, e designava Alexandria como o sítio para a sua tumba e de sua rainha.[98] [99]

No final de 32 a.C., o senado oficialmente revogou os poderes de Antônio como cônsul e declarou guerra ao regime de Cleópatra no Egito.[100] [101] No começo de 31 a.C., enquanto Antônio e Cleópatra estavam temporariamente estacionados na Grécia, Otaviano ganhou uma vitória preliminar quando a marinha sob o comando de Agripa com sucesso transportou tropas através do Mar Adriático. Enquanto Agripa cortou as rotas marítimas de suprimento da força de Antônio e Cleópatra, Otaviano desembarcou no lado oposto do continente na ilha de Córcira e marchou para sul. Presos por terra e mar, desertores do exército de Antônio fugiram para o lado de Otaviano, enquanto as forças de Otaviano estavam suficientemente confortáveis para fazerem os preparativos.[102] Numa tentativa desesperada de libertar-se do bloqueio naval, a frota de Antônio navegou através da baia de Áccio, na costa ocidental da Grécia. Foi lá que, em 2 de setembro de 31 a.C., a frota de Antônio enfrentou uma armada muito maior com navios mais manobráveis sob o comandante Agripa na Batalha de Áccio.[103] Antônio e suas forças remanescentes foram poupadas devido ao último esforço da frota de Cleópatra que estava esperando nas proximidades.[104]

Otaviano os persuadiu e após outra derrota em Alexandria em 1 de agosto de 30 a.C., Antônio e Cleópatra cometeram suicídio. Antônio caiu sobre sua própria espada e foi levado por seus soldados para Alexandria onde morreu nos braços de Cleópatra. A rainha egípcia morreu logo depois, supostamente pela mordida venenosa de uma víbora ou por veneno.[105] Tendo explorado sua posição como herdeiro de César para promover sua própria carreira política, Otaviano estava bem ciente dos perigos em permitir que outro o fizesse e, seguindo o conselho de Ário Dídimo que "dois Césares são um em demasia", ordenou que Cesarião - filho de Júlio César com Cleópatra - fosse morto, enquanto poupou os filhos de Cleópatra com Antônio, com a exceção do filho mais velho de Antônio com Fúlvia.[106] [107] Devido a sua conduta misericordiosa com seus inimigos após a Batalha de Áccio, Otaviano foi elogiado pelos romanos.[108]

Otaviano torna-se Augusto[editar | editar código-fonte]

Áureo de Otaviano cunhado ca. 30 a.C.

Anos de guerra civil deixaram Roma em um estado próximo ao da ilegalidade, mas a república não estava preparada para aceitar o controle de Otaviano como um déspota. Ao mesmo tempo, Otaviano não poderia simplesmente desistir de sua autoridade sem ariscar mais guerras civis entre os generais romanos, e ainda que não desejasse qualquer posição de autoridade, sua posição exigia que olhasse para o bem-estar da cidade de Roma e das províncias romanas. Os objetivos de Otaviano deste ponto em diante foram retornar Roma ao estado de estabilidade, legalidade tradicional e civilidade levantando a pressão política ostensiva imposta sobre os tribunais e assegurar eleições livres ao menos nominalmente.[109] Após Áccio e a derrota de Antônio e Cleópatra, Otaviano estava em posição de governar a república inteira sob um principado não-oficial,[110] porém teria que alcançá-lo através do aumento do poder adquirido, cortejando o senado e o povo, enquanto confirmando as tradições republicanas de Roma, para parecer que não estava aspirando a ditadura ou a monarquia.[111] [112]

Primeiro pacto[editar | editar código-fonte]

Augusto como um magistrado. A cabeça em mármore da estátua foi feita ca. 30-20 a.C., enquanto o corpo no século II. Louvre, Paris

Marchando sobre Roma, Otaviano e Marco Agripa foram eleitos como cônsules. Em 29 a.C., Otaviano fez uma exibição ao retornar em plenos poderes para o senado e abrir mão de seu controle das províncias romanas e seus exércitos. Sob seu consulado, contudo, o senado tinha pouco poder na iniciativa legislativa através da introdução de projetos de lei para debate senatorial. Embora Otaviano não mais estivesse em controle direto das províncias e dos exércitos, manteve a lealdade de soldados ativos e veteranos. As carreiras de muitos clientes e adeptos dependiam de seu patrocínio uma vez que seu poder financeira era incomparável na república.[113] De acordo com o historiador Werner Eck: "A soma de seu poder deriva primeiro de todos os vários poderes de ofícios delegados a ele pelo senado e povo, segundo de sua imensa fortuna privada, e terceiro de numerosos relações de clientela estabelecidas com indivíduos e grupos por todo o império. Todos juntos formaram a base de sua auctoritas [autoridade], que ele enfatizou como a fundação de suas ações políticas."[114]

Em grande medida, o público estava ciente dos vastos recursos financeiros que Augusto comandou. Quando falhou em encorajar senadores suficientes para financiar a construção e manutenção das estradas na Itália, assumiu a responsabilidade direta por elas em 20 a.C.. Isto foi divulgado na moeda romana emitida em 16 a.C., após doar vastas somas em dinheiro para o erário de Saturno, o erário público.[115]

Para H. H. Scullard, o poder de Augusto estava baseado no exercício de "um proeminente poder militar e [...] a sansão final de sua autoridade foi força, por mais que o fato estava disfarçado."[116] O senado propôs a Otaviano, o vitorioso das guerras civis, que mais uma vez assumisse comando das províncias. A proposta do senado foi a ratificação dos poderes extra-constitucionais de Otaviano. Através do senado, foi capaz de continuar o aspecto de uma constituição ainda funcional. Fingindo relutância, aceitou a responsabilidade de supervisionar por dez anos as províncias que foram consideradas caóticas.[117] [118] As províncias cedidas a ele compunham muito do mundo conquistado e incluíam todas da Hispânia e Gália, Síria, Cilícia, Chipre e Egito. Além disso, o comando destas províncias lhe permitiu exercer controle sobre a maioria das legiões romanas.[119] [120]

Enquanto atuou como cônsul em Roma, enviou senadores para as províncias sob seu comando como representantes para gerir assuntos provinciais e garantir que suas ordens foram executadas. Por outro lado, as províncias que não estavam sob seu controle foram supervisionadas por governadores escolhidos pelo senado romano.[120] Otaviano tornou-se a figura política mais poderosa da capital e em muitas províncias, mas não teve monopólio sobre o poder político e marcial. O senado ainda controlava o Norte da África, um importante produtor regional de grãos, bem como a Ilíria e Macedônia, duas regiões estratégicas com várias legiões.[121] Contudo, com o controle de apenas cinco ou seis legiões distribuídas entre os procônsules senatoriais, comparadas as 22 legiões sob controle de Augusto, o controle do senado destas regiões não representou nenhum desafio político ou militar.[116] O controle do senado de algumas das províncias romanas ajudou a manter uma fachada republicada para o principado autocrático. Igualmente, o controle de Otaviano sobre províncias inteiras com o objetivo de assegurar a paz e criar estabilidade seguiu precedentes republicanos, sob o qual delegou-se para proeminentes romanos como Pompeu poderes militares similares em momentos de crise e instabilidade.[111]

Em 16 de janeiro de 27 a.C., o senado concedeu-lhe os novos títulos de augusto e príncipe.[122] Augusto, da palavra latina augure ("aumentar"), pode ser traduzido como "o mais ilustre". Foi um título de autoridade religiosa, em vez de política. De acordo com as crenças religiosas romanas, o título simbolizava uma marca de autoridade sobre a humanidade que ia além de qualquer definição constitucional de seu estatuto. Após os métodos rigorosos empregados para consolidar seu controle, a mudança em seu nome também serviria para demarcar seu reinado benigno como Augusto de seu reinado de terror como Otaviano. Seu novo título foi também mais favorável que Rômulo, anteriormente estilizado por ele em referência à história de Rômulo e Remo, uma vez que estava associado com noções de monarquia e realeza, uma imagem que Otaviano tentou evitar.[108] Príncipe, vindo a frase latina primum caput, "a primeira cabeça", originalmente significou o mais antigo ou mais distinto senador cujo nome aparece primeiro na lista senatorial; no caso de Augusto tornou-se um título quase real para um líder que era o primeiro encarregado.[122]

Augusto também estilizava-se como "Imperador César, filho do Divino" (Imperator Caesar divi filius). Com este título não só vangloriava-se de sua ligação familiar com o deificado Júlio César, como o uso de imperador significava uma ligação permanente para a tradição romana de vitória. A palavra César foi meramente um cognome para um ramo da família juliana, embora tenha transformado César em uma nova linha familiar iniciada com ele.[122]

A Augusto foi garantido o direito de pendurar a coroa cívica (corona civica), feita de carvalho, acima da porta de sua residência, e a de louros, nos umbrais.[121] Presente em várias cerimônias estatais, esta coroa foi geralmente mantida acima da cabeça do general romano durante um triunfo e foi dada a campeões de atletismo, corrida e concursos dramáticos. Porém, Augusto renunciou exibir insígnias de poder como o cetro, a diadema, a coroa dourada ou a toga púrpura de seu predecessor Júlio César.[123] Embora tenha se recusado a simbolizar seu poder com tais itens, o senado recompensou-o com um escudo dourado disposto no salão de reuniões da Cúria, no qual havia a inscrição "valor, piedade, clemência e justiça" (virtus, pietas, clementia, iustitia).[121] [124]

Segundo pacto[editar | editar código-fonte]

Busto de Augusto com características idealizadas. Museu de Arte Walters, Baltimore

Por 23 a.C., algumas das implicações do estabelecimento de 27 a.C. foram se tornando evidentes. A conservação de um consulado anual por Augusto desde 31 a.C. fez sua dominância sobre o sistema político romano muito óbvia, enquanto ao mesmo tempo reduziu pela metade as oportunidades para alcançar o que ainda era suposto para ser o chefe do Estado romano.[125] Além disso, seu desejo para ter seu sobrinho Marco Cláudio Marcelo em seus passos e posteriormente assumir o principado estava causando problemas políticos[nt 8] e alienando seus três maiores apoiantes - Agripa, Mecenas e Lívia.[128] Sentindo pressão de seu grupo central de apoiantes, Augusto virou-se para o senado em uma tentativa de reforçar seu apoio lá, especialmente com os republicanos; após sua escolha para co-cônsul em 23 a.C., Aulo Terêncio Varrão Murena, morrer antes de assumir ofício[129] [130] [131] ele nomeou o distinto republicano Cneu Calpúrnio Pisão, que havia lutado contra Júlio César e apoiado Cássio e Bruto.[132]

No final da primavera, Augusto sofreu duma severa doença, e em suposto leito de morte fez disposições que assegurariam a continuidade do principado de alguma forma,[126] [133] enquanto ao mesmo tempo colocou em dúvida as suspeitas dos senadores de seu anti-republicanismo. Ele preparou-se para legar seu anel de sinete para gripa,[134] seu general favorito. Contudo, entregou a seu co-cônsul Pisão todos os seus documentos oficiais, um registro das finanças públicas, e autoridade sobre tropas listadas nas províncias enquanto seu sobrinho supostamente favorecido, Marcelo, permaneceu de mãos vazias.[135] Isto foi uma surpresa para muitos que acreditavam que ele o nomearia como herdeiro de sua posição como um imperador não-oficial.[136] Augusto outorgou apenas propriedades e possessões para seus herdeiros designados, com um sistema óbvio de herança imperial institucionalizado que teria provocado resistência e hostilidade entre os romanos de espírito republicano que temiam a monarquia.[112] Com relação ao principado, foi óbvio para Augusto que Marcelo não estava pronto para tomar sua posição.[137] Outrossim, ao dar seu anel de sinete a Agripa, intencionava sinalizar para as legiões que ele seria seu sucessor, e que não importasse o que as leis constitucionais eram, eles continuariam a obedecer Agripa.[126] [138]

Logo após sua luta com a doença diminuir, Augusto desistiu de seu consulado permanente. As únicas ocasiões que serviria novamente como cônsul seriam os anos 5 e 2 a.C.,[135] [139] ambas para introduzir seus netos na vida pública.[132] Embora tenha abdicado como cônsul, manteve seu imperium consular, levando-o a um segundo compromisso, conhecido como "segundo pacto", com o senado.[140] Esta foi uma manobra inteligente: ao deixar o cargo de cônsul, permitiu a senadores aspirantes uma chance melhor de preencher a posição, enquanto ao mesmo tempo poderia "exercer patrocínio mais amplo dentro da classe senatorial."[141] Augusto não estava mais em uma posição oficial para governar o Estado, ainda que sua posição dominante sobre as províncias romanas permaneceu inalterada uma vez que tornou-se um procônsul.[135] [142] Quando foi cônsul teve o poder para intervir, quando considerou necessário, com os assuntos dos procônsules provinciais nomeados pelo senado.[143] Como um procônsul, ordinariamente perdeu seu poder, porém, o senado lhe concedeu "poder sobre todos os procônsules" (imperium proconsulare maius).[140] A existência do imperium maius é debatido pelos estudiosos, e também é sugerido que a ele foi concedido imperium aequum, ou poder igual ao dos governadores, mas sua influência suprema permitiu-o controlar os assuntos das províncias.[144]

Afrescos presentes dentro da Casa de Augusto, sua residência durante seu reinado como imperador

A Augusto também foi garantido o poder vitalício de um tribuno (tribunicia potestas), embora não o título oficial de tribuno.[140] Legalmente tal poder era exclusivo para patrícios, um estatuto que ele adquiriu anos antes quando adotado por Júlio César.[141] Isto permitiu-o convocar o senado e povo à vontade e estabelecer negócios diante dele, veto em ações da assembleia e do senado, presidir eleições e o direito de falar primeiro em qualquer reunião.[142] [145] Também incluso em sua autoridade tribunícia estavam os poderes geralmente reservados aos censores. Eles incluíam o direito de supervisionar as morais públicas e escrutinar leis para assegurar que eles fossem de interesse público, bem como a habilidade de manter um censo e determinar os membros do senado.[146] Não havia precedência no sistema romano para combinar os poderes tribunícios e censoriais em uma pessoa, e nem Augusto havia sido eleito para o ofício de censor.[147] A Júlio César haviam sido concedidos poderes similares, entre os quais havia a supervisão da moral do Estado, contudo esta posição não se estendeu para a habilidade do censor de realizar um censo e determinar a lista senatorial. O ofício de tribuno da plebe começou a perder prestígio devido ao acúmulo de poderes tribunais do príncipe, então ele reviveu sua importância ao fazer uma nomeação mandatória para qualquer plebeu desejando o pretorado.[148]

Em complemente à autoridade tribunícia, Augusto adquiriu imperium único dentro da cidade de Roma: todas as forças armadas da cidade, formalmente sob o controle dos prefeitos e cônsules, estavam agora sob sua autoridade única.[149] Com maius imperium proconsulare, era o único indivíduo capaz de receber um triunfo, pois foi legalmente o chefe do exército romano. Em 19 a.C., Lúcio Cornélio Balbo, governador da África e conquistador dos garamantes, foi o primeiro homem de origem provincial a receber esta recompensa, bem como o último.[150] Cada vitória seguinte dos romanos foi creditava a Augusto, uma vez que os exércitos romanos eram comandados pelos legados, que eram delegados do príncipe nas províncias.[149] Seu filho mais velho por seu casamento com Lívia, Tibério, foi a única exceção a esta regra, quando recebeu um triunfo por vitórias na Germânia em 7 a.C..[151] Assegurando que seu estatuto de maius imperium proconsulare fosse renovado em 13 a.C., Augusto permaneceu em Roma durante o processo de renovação e forneceu aos veteranos doações pródigas para ganhar o apoio deles.[139]

Muitas das sutilezas políticas do segundo pacto parecem ter evadido à compreensão da classe plebeia. Quando Augusto falhou em concorrer às eleições para cônsul em 22 a.C., temores de que estava sendo arrancado do poder pelo senado aristocrático surgiram. Em 22, 21 e 19 a.C., as pessoas revoltaram-se em resposta, e apenas permitiram que um único cônsul fosse eleito para cada um destes anos, ostensivamente para deixar a outra posição aberta para ele.[152] Em 22 a.C., houve escassez de alimentos em Roma, o que desencadeou pânico, enquanto muitos plebeus urbanos chamaram-o para assumir poderes ditatoriais para pessoalmente sanar a crise. Após uma exibição teatral de recusa perante o senado, finalmente aceitou a autoridade sobre o suprimento de grãos de Roma "pela virtude de seu imperium proconsular", e terminou a crise quase imediatamente.[139] Não foi até 8 d.C. que uma crise alimentar deste nível incitou-o a estabelecer o prefeito das provisões (praefectus annonae), um prefeito permanente que esteve encarregado com a aquisição de suprimentos de alimentos para Roma.[153]

Havia alguns que estavam preocupados com a expansão dos poderes concedidos a Augusto pelo segundo pacto, e isto veio a tona com a aparente conspiração de Fânio Cépio e Lúcio Lucínio Varrão Murena.[154] [155] No começo de 22 a.C., acusações foram trazidas contra Marco Primo, o antigo procônsul da Macedônia, de travar, sem aprovação prévia do senado, uma guerra contra o Reino Odrísio da Trácia, cujo rei foi um aliado romano.[130] Ele foi defendido por Murena, que disse no julgamento que seu cliente havia recebido instruções específicas do príncipe ordenando-o a atacar o Estado cliente.[126] Mais tarde, Primo testemunhou que as ordens vieram do recentemente falecido Marcelo.[156] Sob o pacto constitucional de 27 a.C., tais ordens teriam sido consideradas uma violação da prerrogativa do senado, pois a Macedônia estava sob a jurisdição do senado, e não do príncipe. Tal ação teria arrancado o verniz da restauração republicana promovida por Augusto, e exporia sua fraude de ser meramente o primeiro cidadão. Ainda pior, o envolvimento de Marcelo forneceu de alguma forma a prova de que sua política era para que o jovem tomasse seu lugar como príncipe, instituindo uma forma de monarquia - acusações que já tinham sido jogadas fora durante a crise de 23 a.C..[137]

A situação era tão séria que Augusto apareceu em pessoa no julgamento, mesmo embora não tivesse sido chamado como uma testemunha. Sob juramento, declarou que não deu tal ordem. Murena, incrédulo do testemunho e ressentido de sua tentativa de subverter o julgamento ao usar sua auctoritas (autoridade), rudemente exigiu saber por quê apareceu se não havia sido chamado. Ele respondeu que veio no interesse público.[157] [154] [156] Embora Primo tenha sido considerado culpado, alguns jurados votaram por sua absolvição, significando que nem todos acreditavam no testemunho de Augusto.[130] [131] Então, em algum momento antes de 1 de setembro de 22 a.C., um certo Castrício forneceu a Augusto informações sobre uma conspiração liderada por Fânio Cépio contra o príncipe.[158] [159] Murena foi nomeado entre os conspiradores. Julgado à revelia, com Tibério agindo como promotor, o juri considerou os conspiradores culpados, mas não foi um veredicto unânime.[130] Sentenciados a morte por traição, todos os acusados foram executados logo após serem capturados sem mesmo darem testemunho em sua defesa.[160] Augusto garantiu que a fachada de governo republicano continuasse com o efetivo pretexto dos eventos recentes.[161]

Em 19 a.C., o senado votou para permitir a ele vestir as insígnias consulares em público e diante do senado,[149] bem como sentar na cadeira simbólica entre os dois cônsules e segurar o fasces, um emblema da autoridade consular. Como sua autoridade tribunícia, esta garantia de poderes consulares foi outra detenção do poder dum ofício que não possuía.[162] Isso parece ter amenizado a população. Independente ou não do fato de Augusto ser um cônsul, a importância foi que aparecia como se o fosse diante do povo. Em 6 de março de 12 a.C., após a morte de Lépido, adicionalmente assumiu a posição de pontífice máximo, o mais alto sacerdote do Colégio dos Pontífices, a mais importante posição da religião romana.[163] [164] [nt 9] Em 5 de fevereiro de 2 a.C., também recebeu o título de pai da pátria (pater patriae).[166] [167]

Guerra e expansão[editar | editar código-fonte]

A expansão do Império Romano sob Augusto.

Imperador César, Filho do Divino, Augusto escolheu Imperador ("comandante vitorioso") para ser seu primeiro nome, uma vez que queria fazer a noção de vitória associada a ele enfaticamente clara. Pelo ano 13, ostentou 21 ocasiões onde suas tropas proclamaram "imperador" como seu título após uma batalha bem-sucedida. Quase o quarto capítulo inteiro de suas publicamente lançadas memórias de realizações conhecidas como o Res Gestae foi devotado às suas vitórias e honras militares.[168] Augusto também promoveu a ideia de uma civilização romana superior com o objetivo de governar o mundo, um sentimento embebido em palavras que o poeta contemporâneo Virgílio atribuiu ao lendário ancestral de Augusto: "Romano, lembre, por sua força, de governar os povos da Terra!"[169] [nt 10] O impulso para o expansionismo, aparentemente proeminente entre todas as classes de Roma, é concedido por sanção divina pelo Júpiter de Virgílio, que no Livro I da Eneida promete "soberania em fim".[nt 11] [170]

Pelo fim de seu reinado, os exércitos de Augusto conquistaram o norte da Hispânia (atuais Espanha e Portugal), as regiões alpinas da Récia e Nórica (atuais Suíça, Baviera, Áustria, Eslovênia), Ilíria e Panônia (atuais Albânia, Croácia, Hungria, Sérvia, Montenegro e Bósnia e Herzegovina) e estendeu as fronteiras da província da África para leste e sul.[171] Quando as tribos rebeldes da Cantábria (na Espanha) foram dominadas em 19 a.C., o território caiu sob as províncias da Hispânia e Lusitânia. Esta região provou ser um grande ativo em recursos para futuras campanhas, dado que era rica em depósitos minerais que poderiam ser adquiridos em projetos de mineração romana, especialmente os muito ricos depósitos auríferos em Las Médulas, por exemplo.[172]

Campanhas de Nero Cláudio Druso na Germânia (12–9 a.C.)
Campanhas de Enobarbo (3–1 a.C.), Tibério e Saturnino (4–6 d.C.) na Germânia

Conquistar os povos dos Alpes em 16 a.C. foi outra vitória importante para Roma uma vez que forneceu um grande território tampão entre as cidades romanos da Itália e os inimigos da Germânia ao norte.[173] O poeta Horácio dedicou uma ode à vitória, enquanto o monumento Troféu de Augusto, próximo de Mônaco, foi construído em honra à ocasião.[174] A captura da região alpina também serviu para a próxima ofensiva, em 12 a.C., quando Tibério começou uma investida contra as tribos panônias e ilírias e seu irmão Nero Cláudio Druso contra as tribos germânicas na Renânia ocidental. Ambas as campanhas foram bem-sucedidas, com as forças de Druso alcançando o rio Elba pelo ano 9 a.C., ainda que tenha morrido pouco depois após cair de seu cavalo.[175] Foi registrado que o pio Tibério caminhou à frente do corpo de seu irmão por todo o caminho de volta a Roma.[176]

Nenhum esforço militar foi necessário em 25 a.C. quando a Galácia (na Turquia) foi convertida em província romana logo após o rei Amintas ser assassinado pela viúva vingativa de um príncipe escravo de Homonada. Após o reinado do rei cliente Herodes, o Grande (r. 73–4 a.C.), a Judeia foi incorporada à província da Síria quando Augusto depôs seu sucessor Herodes Arquelau. Como o Egito que havia sido conquistado após a derrota de Marco Antônio em 30 a.C., a Síria foi governada não por um procônsul ou legado, mas por um alto prefeito da classe equestre.[171]

Para proteger os territórios romanos orientais do Império Parta, Augusto convocou os Estados clientes do Oriente para agirem como territórios tampão e áreas que poderiam recrutar suas próprias tropas para defesa. Para aumentar a segurança do flanco oriental do império, estacionou um exército na Síria, enquanto seu habilidoso enteado Tibério negociou como diplomata com os partas.[177] Tibério foi responsável pela restauração de Tigranes V (r. 6–12) no trono do Reino da Armênia.[176] No entanto, sem dúvida, sua maior conquista diplomática foi a negociação com Fraates IV da Pártia (r. 37–2 a.C.) em 20 a.C. para o retornos dos estandartes de batalha perdidos por Crasso na batalha de Carras, uma vitória simbólica grande impulso à moral romana.[176] [177] [178] Werner Eck afirma que isso foi uma grande decepção para os romanos que procuraram vingar a derrota de Crasso por meios militares.[179] Contudo, Maria Brosius explica que ele usou o retorno dos estandartes como propaganda para simbolizar a submissão da Pártia à Roma. O evento foi celebrado na arte como no peitoral da estátua de Augusto de Prima Porta e em monumentos como o Templo de Marte Ultor construído para abrigar os estandartes.[180] [181]

Embora a Pártia sempre colocou uma ameaça aos romanos no Oriente, o verdadeiro fronte de batalha foi ao longo dos rios Reno e Danúbio.[177] Antes da batalha final com Antônio, Otaviano fez campanha contra as tribos na Dalmácia, o que configura o primeiro passo para a expansão dos domínios romanos para o Danúbio.[182] A vitória em batalha não foi sempre um sucesso permanente, com os territórios recém-conquistando sendo constantemente retomados pelos inimigos romanos da Germânia.[177] Um primeiro exemplo das perdas romanas em batalha foi a Batalha da Floresta de Teutoburgo em 9 d.C., quando três legiões inteiras lideradas por Públio Quintílio Varo foram destruídas com poucos sobreviventes por Armínio, líder dos queruscos, um aparente aliado romano. Augusto, em retaliação, enviou Tibério para a Renânia para pacificá-la, o que gerou alguns sucessos, embora a batalha de 9 d.C. representou o fim da expansão romana na Germânia.[183] O general romano Germânico tomou vantagem de uma guerra civil querusca entre Armínio e Segestes; eles derrotaram Armínio, que fugiu, mas foi morto depois, em 21, devido a uma traição.[184]

Morte e sucessão[editar | editar código-fonte]

Busto de Tibério, Gliptoteca Ny Carlsberg

A doença de Augusto em 23 a.C. trouxe o problema de sucessão para o primeiro plano dos assuntos políticos e públicos. Para assegurar estabilidade, precisava designar um herdeiro para sua posição única na sociedade e governo romanos. Isto era para ser alcançado de forma pequena, não dramática e incremental que não provocasse os temores senatoriais de monarquia. Se alguém fosse sucedê-lo em sua posição não-oficial de poder, teria que fazê-lo por meio de seus próprios méritos comprovados publicamente.[185] Alguns historiadores augustanos argumentam que indícios apontam para o filho de sua irmã, Marcelo, que foi rapidamente casado com Júlia, a Velha.[186] Outros historiadores disputam isso devido o testamento de Augusto lido em voz alta pelo senado enquanto estava seriamente doente em 23 a.C.,[187] que indicava uma preferência por Marco Agripa, que foi o segundo em comando e indiscutivelmente o único de seus associados que poderia ter controle das legiões e manter o império unido.[188]

Após a morte de Marcelo em 23 a.C., Augusto casou sua filha com Agripa. Esta união produziu cinco crianças, três filhos e duas filhas: Caio César, Lúcio César, Júlia, a Jovem, Agripina e Agripa Póstumo, assim nomeado por ter nascido após a morte de Marco Agripa. Logo após o segundo pacto, a Agripa foi garantido um mandato de cinco anos na administração da porção oriental do império com o imperium de um procônsul e o mesmo poder de tribuno garantido a Augusto (embora isso não tenha colocado em cheque a autoridade de Augusto), com uma sede de governo estabelecida em Samos, no mar Egeu oriental.[188] Embora esta garantia de poder tenha mostrado o favor do príncipe à Agripa, foi também uma medida de agradar os membros do partido cesariano ao permitir que um de seus membros compartilhasse um quantidade considerável de poder com ele.[189]

A intenção de Augusto de fazer Caio e Lúcio César seus herdeiros foi evidente quando adotou-os como seus próprios filhos.[190] Ele apossou-se do consulado em 5 e 2 a.C., e assim poderia pessoalmente inaugurá-los em suas carreiras políticas,[191] e eles foram nomeados como os cônsules de 1 e 4 d.C..[192] Augusto também mostrou favor a seus enteados, os filhos do primeiro casamento de Lívia, Nero Cláudio Druso Germânico (doravante referido como Druso) e Tibério Cláudio garantido-lhes comandos militares e ofício público, embora parece que preferiu Druso. Após a morte de Agripa em 12 a.C., Tibério foi ordenado a divorciar-se de sua esposa Vipsânia Agripina e casar com a viúva de Agripa - assim que um período de luto para ele terminou. Enquanto o casamento de Druso com Antônia (filha de Marco Antônio e Otávia) foi considerado um assunto inquebrantável, Vipsânia foi "apenas" a filha do primeiro casamento de Agripa.[193]

Augusto deificado paira sob Tibério e os demais júlio-claudianos no Grande Camafeu da França

Tibério partilhou dos poderes tribunícios de Augusto a partir de 6 a.C., mas logo depois partiu em aposentadoria, declaradamente não querendo mais papel na política enquanto exilou-se para Rodes. Embora nenhuma razão específica seja conhecido para sua partida, poderia ter sido uma combinação de razões, incluindo um casamento falho com Júlia,[151] [194] bem como um sentimento de inveja e exclusão devido ao aparente favorecimento de Caio e Lúcio, que juntaram-se ao colégio dos pontífices em tenra idade, foram apresentados para os espectadores de uma forma mais favorável e introduzidos no exército na Gália.[195] [196] Após as mortes precoces de Lúcio e Caio em 2 e 4 d.C. respectivamente, e a morte anterior de seu irmão Druso em 9 a.C., Tibério foi convocado para Roma em junho de 4, onde foi adotado por Augusto sob a condição que, em troca, adotaria seu sobrinho Germânico.[197] A prática de apresentar ao menos duas gerações de herdeiro tornou-se uma tradição.[193] Naquele ano, a Tibério foi garantido os poderes de tribuno e procônsul, emissários de reis estrangeiros tiveram que saldar seus respeitos a ele, e por 13 foi recompensando com seu segundo triunfo nível de imperium semelhante ao de Augusto.[198]

O único reclamante possível como herdeiro foi Agripa Póstumo, que tinha sido exilado em 7. Seu banimento tornou-se permanecente após decreto senatorial, e Augusto oficialmente o desonrou. Ele certamente caiu do favor como um herdeiro e o historiador Erich S. Gruen nota que várias fontes contemporâneas afirmam que Agripa Póstumo foi um "jovem homem vulgar, brutal e bestial, e de caráter depravado."[199]

Em 19 de agosto de 14, Augusto morreu enquanto visitava o túmulo de seu pai biológico em Nuvlana (atual Nola), na Campânia. Tanto Tácito como Dião Cássio escreveram que Lívia levou-o à morte pelo envenenamento de figos frescos, embora esta alegação permaneça não comprovada.[200] [201] Tibério, que estava presente no leito de morte de Augusto ao lado de Lívia, foi nomeado seu herdeiro. Suas famosas últimas palavras foram: "Eu desempenhei meu papel bem? Então aplaudam quando eu morrer" - referência à autoridade régia que desempenhou como imperador. Publicamente, contudo, suas últimas palavras foram, "Eis que encontrei Roma de barro, e deixo-a de mármore para vocês". Uma enorme procissão funeral de pranteadores viajou com o corpo de Augusto de Nuvlana a Roma, e no dia de seu enterro todos os negócios públicos e privados fecharam.[202] Tibério e seu filho Druso prestaram um elogio enquanto de pé no topo de dois rostras. O corpo de Augusto foi cremado em uma pira próximo a seu mausoléu e foi proclamado que ele juntou-se a companhia dos deuses como um membro do panteão romano.[203] Em 410, durante o Saque de Roma de 410, o mausoléu foi saqueado pelos visigodos de Alarico (r. 395–410) e suas cinzas dispersas.[204]

O historiador D. C. A. Shotter afirma que sua política em favor da família juliana sob a claudiana pode ter proporcionado a Tibério causa suficiente para mostrar aberto desdém a ele após sua morte; em vez disso, Tibério foi sempre rápido para repreender aqueles que o criticavam.[205] Shotter sugere que a deificação de Augusto, unido à atitude "extremamente conservadora" de Tibério a respeito de religião, obrigou-o a suprimir qualquer sentimento aberto que pudesse ter nutrido.[206] Também, o historiador R. Shaw-Smith cita cartas de Augusto para Tibério que exibem afeição a Tibério e alta consideração por seus méritos militares.[207] Shotter alega que Tibério focou sua raiva e criticismo em Caio Asínio Galo (por casar-se com Vipsânia após Augusto forçá-lo a divorciar-se) bem como os dois jovens césares Caio e Lúcio, os reais arquitetos de seu divórcio e rebaixamento imperial.[206]

Legado[editar | editar código-fonte]

A Virgem e o Menino, a profetiza Sibila Tiburtina à esquerda e o imperador Augusto à direita, no Les très riches heures du duc de Berry

O reinado de Augusto lançou as fundações de um regime que durou, no Ocidente, até o declínio final do Império Romano do Ocidente em 476, e no Oriente, até a Queda de Constantinopla em 1453. Tanto seu sobrenome César como seu título Augusto tornaram-se títulos permanentes dos governantes do Império Romano pelos 14 séculos seguintes à sua morte. Em muitas línguas, César tornou-se a palavra para imperador, como no alemão cáiser e no búlgaro e subsequentemente russo czar. O culto do "Divino Augusto" (Divus Augustus) continuou até a religião do Estado ser mudada para o cristianismo em 391 por Teodósio I (r. 378–395). Consequentemente, há muitas estátuas e bustos excelentes do primeiro imperador. Muitos o consideram como o maior imperador romano; suas políticas certamente estenderam o tempo de duração do império e iniciaram a Pax Romana ("Paz Romana") ou Pax Augusta ("Paz de Augusto").[208] O senado romano desejou que os imperadores subsequentes fossem "mais afortunados que Augusto e melhores que Trajano".[209] Ele foi inteligente, decidido, e um político astuto, mas talvez não foi tão carismático quanto Júlio César,[210] e foi influenciado por sua terceira esposa Lívia (às vezes para a pior).[211] No entanto, seu legado foi mais duradouro.

Ele tinha composto um registro de suas realizações, o Res Gestae Divi Augusti, para ser inscrito em bronze na frente de seu mausoléu.[212] Cópias do texto foram inscritas através do império após sua morte.[213] As inscrições em latim exibiram traduções em grego, e foram inscritas em muitos edifícios públicos, tais como o Monumento de Ancira, em Ancara, chamada a "rainha das inscrições" pelo historiador Theodor Mommsen.[214] Algumas das obras escritas por Augusto sobreviveram. Elas incluem seus poemas Sicília, Epífano e Ajax, uma auto-biografia em 13 livros, uma tratado filosófico, e sua contestação por escrito do Elogio de Catão de Bruto.[215] Além destes, os historiadores, através de suas cartas existentes, buscam fatos ou pistas adicionais a respeito de sua vida pessoal.[207] [216]

Embora o mais poderoso indivíduo do Império Romano, Augusto desejava incorporar o espírito da virtude e normas republicanas. Para tal, com seus poderes censoriais, apelou para as virtudes de patriotismo romano proibindo todos os outros trajes além da toga clássica ao entrar no Fórum.[169] Além disso, outorgou leis acerca do casamento, uma vez que a aristocracia estava desenvolvendo uma desinclinação pelo matrimônio, contra o celibato e contra a ausência de prole, todos eles com punições pecuniárias, especialmente a respeito das qualificações para ser mencionado em um testamento.[217]

Augusto num relevo do Templo de Kalabsha, Núbia

Ele também queria se conectar com os assuntos dos plebeus e pessoas desfavorecidas, algo que alcançou através de várias ações de generosidade e uma redução de excessos. No ano 29 a.C., Augusto pagou 400 sestércios para cada 250 000 cidadãos, 1 000 sestércios para cada 120 000 veteranos nas colônias e gastou 700 milhões de sestércios na aquisição de terras para que seus soldados se assentassem. Ele também restaurou 82 templos diferentes para demonstrar seu cuidado com o panteão de deidades romanas. Em 28 a.C., derreteu 80 estátuas de prata erigidas em sua honra, na tentativa de parecer frugal e modesto.[218]

A longevidade do reinado de Augusto e seu legado para o mundo romano não devem ser negligenciados como um fator chave em seu sucesso. Como Tácito escreveu, as gerações jovens vivas em 14 d.C. nunca conheceram outra forma de governo além do principado.[219] O atrito das guerras civis sobre a velha oligarquia republicana e a longevidade de Augusto, portanto, podem ser vistos como grandes fatores contribuintes para a transformação do Estado romano numa monarquia de facto nestes anos, embora sua experiência, paciência, tato e perspicácia política também desempenharam sua parte. Seu legado final foi a paz e prosperidade do império desfrutada pelos próximos dois séculos sob o sistema que iniciou. Sua memória foi consagrada no ethos político da época imperial como um paradigma do bom imperador.[220] Cada imperador de Roma adotou seu nome, César Augusto, que gradualmente perdeu seu caráter como um nome e posteriormente tornou-se um título.[203] Os poetas augustanos Virgílio e Horácio louvaram-o como um defensor de Roma, um sustentáculo da justiça moral, e um indivíduo que suportou o peso da responsabilidade de manter o império.[221]

Contudo, para seu governo de Roma e o estabelecimento do principado, também esteve sujeito ao criticismo através das eras. O jurista contemporâneo Marco Antístio Labeão, apaixonado pelos dias da liberdade republicana pré-augustana nos quais nasceu, abertamente criticou seu regime. No começo de seus anais, o historiador Tácito escreveu que o príncipe tinha astuciosamente subvertido a Roma republicana em uma posição de escravidão. Ele continuou dizendo que, com a morte de Augusto e o juramente de lealdade a Tibério, as pessoas de Roma simplesmente trocaram um proprietário de escravos por outro.[222] Tácito, contudo, registra duas visões, contraditórias, de Augusto:

Estátua equestre fragmentada de Augusto, século I
Escultura fragmentada de Augusto de Arles
Pessoas inteligentes louvam e criticam-o de maneiras variadas. Uma das opiniões foi como se segue. Dever filial e uma emergência nacional, na qual não há lugar para conduta cumpridora da lei, tinha-lhe levado a uma guerra civil - e isso não pode ser iniciado nem mantido por métodos descentes. Ele tinha feito muitas concessões a Antônio e Lépido por causa de vingança contra os assassinos de seu pai. Quando Lépido ficou velho e preguiçoso, e a auto-indulgência de Antônio levou a melhor sobre ele, a única cura possível para o país distraído seria o governo por um homem. Contudo, Augusto colocou o Estado de modo a não fazê-lo rei ou ditador, mas criar o principado. As fronteiras do império estavam sobre o oceano, ou rios distantes. Exércitos, províncias, frotas e o sistema inteiro estavam inter-relacionados. Os cidadãos de Roma estavam protegidos pela lei. As províncias estavam decentemente tratadas. Roma em si tinha sido ricamente embelezada. A força tinha sido usada com moderação meramente para preservar a paz para a maioria.[223]

De acordo com uma segunda opinião oposta:

dever filial e crise nacional foram meramente pretextos. Na realidade, o motivo de Otaviano, o futuro Augusto, foi luxúria pelo poder [...] Houve certamente paz, mas foi uma paz manchada de sangue de desastres e assassinatos.[224]

Numa recente biografia sobre o imperador, Anthony Everitt afirma que, através dos séculos, julgamentos sobre o reinado de Augusto oscilaram entre estes dois extremos, mas salienta que:

Opôr-se não tem que ser mutualmente exclusivo, e não somos obrigados a escolher um ou outro. A história de sua carreira mostra que Augusto foi de fato implacável, cruel e ambicioso. Isso era em parte um traço pessoal, pois romanos da classe alta eram educados para competir uns com os outros e para se destacar. Contudo, ele combinou uma preocupação primordial de seus interesses pessoais com um profundo patriotismo, baseado na nostalgia das antigas virtudes de Roma. Em sua capacidade como príncipe, egoísmo e altruísmo coexistiram em sua cabeça. Enquanto lutando pelo domínio, deu pouca atenção para a legalidade ou para as civilidades normais da vida política. Foi tortuoso, indigno de confiança, e sedento de sangue. Mas, uma vez estabelecida sua autoridade, governou eficientemente e justamente, geralmente permitindo liberdade de discurso, e promoveu o governo da lei. Foi imensamente trabalhador e esforçou-se tão duro como qualquer parlamentar democrático para tratar seus colegas senadores com respeito e sensibilidade. Ele não sofreu das desilusões da grandeza.[225]

Tácito era da crença que Nerva (r. 96–98) com sucesso "misturou duas ideias anteriormente alienígenas, principado e liberdade".[226] O historiador do século III Dião Cássio reconheceu Augusto como um governante moderado e benigno e, como muitos outros historiadores após sua morte, viu-o como um autocrata.[222] O poeta Lucano era da opinião que a vitória de Júlio César sobre Pompeu e a queda de Catão, o Jovem marcou o fim da liberdade tradicional em Roma. O historiador Chester G. Starr escreve de sua evasão de criticá-lo: "talvez Augusto era uma figura demasiado sagrada para acusar diretamente".[226] O escritor anglo-irlandês Jonathan Swift, em seu "Discurso sobre as competições e dissenções em Atenas e Roma", criticou-o abertamente por instalar tirania sobre Roma e comparou o que acreditava da virtuosa monarquia constitucional da Grã-Bretanha com a república moral de Roma do século II a.C.. Em seu criticismo a Augusto, o almirante e historiador Thomas Gordon comparou-o com o tirano puritano Oliver Cromwell.[227] Thomas Gordon e o filósofo político francês Montesquieu reconhecem que um covarde em batalha. Em suas "Memórias da Corte de Augusto", o estudioso escocês Thomas Blackwell considerou-o um governante maquiavélico, "um usurpador vingativo e sedento de sangue", "perverso e sem valor", "um espírito médio" e um "tirano".[228]

Reformas na receita[editar | editar código-fonte]

Moeda de Augusto encontrada no tesouro de Puducotai (atual Tamil Nadu, Índia) pertencente ao Império Pandia. Atualmente encontra-se no Museu Britânico

A reformas de Augusto na receita pública tiveram um grande impacto sobre o sucesso subsequente do império. Trouxe uma parcela muito maior da base territorial expandida do império sob uma taxação direta e consistente de Roma, em vez dos tributos variáveis, intermitentes e de certa forma arbitrários por cada província como seus antecessores tinham feito. Esta reforma grandemente aumentou a receita líquida romana por suas aquisições territoriais, estabilizou seu fluxo, e regularizou a relação financeira entre Roma e as províncias, em vez de provocar novos ressentimentos com cada nova exação arbitrária de tributo.[229] As medidas de taxação de seu reinado foram determinadas pelo censo populacional, com cotas fixas para cada província. Os cidadãos de Roma e Itália pagaram tributos indiretos, enquanto os tributos diretos foram exigidos das províncias. Dentre os tributos indiretos havia uma taxa de 4% sobre o preço de escravos, uma taxa de 1% sobre bens vendidos em leilão e uma taxa de 5% sobre a herança de propriedades avaliadas acima de 10 000 sestércios por pessoa que não os parentes mais próximos.[230]

Outra importante reforma foi a abolição do imposto agrícola privado, que foi substituído pelo serviço civil assalariado de coletor de impostos. Contratantes privados que levantavam os impostos foram a norma durante a república, e alguns cresceram suficientemente no poder para influenciar a quantidade de votos dos políticos em Roma. Os fazendeiros fiscais (publicanos) ganharam grande infâmia por suas depredações, bem como grande fortuna privada, por adquirirem o direito de taxarem áreas locais.[229] A receita de Roma foi a soma das propostas vencedoras, e os lucros dos fazendeiros fiscais consistiu de quantias adicionais que eles podiam forçosamente espremer da população com a bênção de Roma. A falta de supervisão efetiva, combinado com o desejo dos fazendeiros fiscais de maximizar seus lucros, produziu um sistema de exações arbitrárias que foi com frequência barbaramente cruel para os contribuintes, amplamente (e com precisão) percebida como injusta e muito prejudicial para investimento e a economia.

Moeda do Reino Himiarita, ao sul da Arábia. É também uma imitação de uma moeda de Augusto, século I

Os rendimentos fiscais da província do Egito foram empregados para financiar as operações do império e resultaram na mudança da forma romana de governo.[231] Como foi efetivamente considerado uma propriedade privada do imperador e não uma província imperial, tornou-se parte do patrimônio de cada um dos imperadores sucessores.[232] Em vez de um legado ou procônsul, Augusto instalou um prefeito da classe equestre para administrar o Egito e manter seus portos marítimos lucrativos; esta posição tornou-se a mais alta conquista política para qualquer equestre além da de prefeito da guarda pretoriana.[233] O território agrícola altamente produtivo do Egito rendeu enormes receitas que estavam disponíveis para ele seus sucessores pagarem por obras públicas e expedições militares.[231]

Mês de agosto[editar | editar código-fonte]

O mês de agosto (em latim: Augustus) foi nomeado em honra a Augusto. Até seu tempo era chamado sextil (sextilis em latim) devido ao fato de ter sido o sexto mês do calendário romano original. Comumente se diz que Agosto tinha 31 dias, pois Augusto quis que seu mês coincidisse em tamanho com o julho de Júlio César, mas isso foi uma invenção do estudioso do século XIII João de Sacrobosco. Sextil tinha 31 dias antes de ser renomeado, e não foi escolhido por seu comprimento (ver calendário juliano). De acordo com o senatus consultum citado por Macróbio, sextil foi renomeado em honra a Augusto, pois vários dos eventos significativos de sua ascensão ao poder, culminando com a queda de Alexandria, ocorreram naquele mês.[234]

Forças armadas[editar | editar código-fonte]

Camafeu de Augusto presente na Cruz de Lotário

Com o fim das guerras civis, Augusto também foi capaz de criar um exército permanente para o Império Romano, fixado num tamanho de 28 legiões e cerca de 170 000 soldados[235] que foram apoiados por numerosas unidades auxiliares de 500 soldados cada, frequentemente recrutadas nos territórios recém-conquistados.[236] Além disso, com suas finanças assegurando a manutenção das estradas através da Itália, ele também instalou um sistema oficial de mensageiros com estações de retransmissão supervisionadas por um oficial militar conhecido como prefeito dos veículos (praefectus vehiculorum).[237] Ademais do advento duma comunicação mais rápida entre os políticos italianos, sua extensiva construção de estradas também permitiu que os exércitos romanos marchassem rapidamente e num ritmo sem precedentes através do país.[238] No ano 6, Augusto estabeleceu o erário militar, doando 170 milhões de sestércios para o novo tesouro militar que proveu soldados ativos e aposentados.[239]

Sob Augusto, Roma foi totalmente transformada com a institucionalização da primeira força policial (coortes urbanos; cohortes urbanae) e de bombeiros (vigiles urbanos, vigiles urbani) da cidade e com o estabelecimento do prefeito municipal como um ofício permanente. A força policial foi dividida em coortes de 500 homens cada, enquanto as unidades de bombeiros variaram de 500 a 1 000 homens cada, com sete unidades atribuídas para cada um dos 14 setores da cidade criados por ele.[240] Um prefeito dos vigiles (praefectus vigilum) foi colocado como encarregado dos vigiles urbanos.[241]

Uma das instituições mais duradouras de Augusto foi a guarda pretoriana, estabelecida em 27 a.C., originalmente como uma unidade de guarda pessoal no campo de batalha e que evoluiu para uma guarda imperial bem como uma importante força política de Roma.[242] Ela teve o poder de intimidar o senado, instalar novos imperadores, e depor aqueles que desgostava. O último imperador a quem serviu foi Maxêncio (r. 306–312) e sob Constantino (r. 306–337) esta unidade foi debandada e seus quartéis, o acampamento pretoriano, foram desmantelados.[243]

Projetos de construção[editar | editar código-fonte]

Na esfera da arquitetura, Augusto promoveu um extenso programa de construção que incluiu construções, restaurações e decorações, financiadas com seus recursos privados.[220] Tal programa torna-se expresso na célebre frase proferida em seu leito de morte: "Encontrei uma Roma de tijolos; dei uma de mármore para vocês". Embora há alguma verdade no significado literal disso, Dião Cássio afirma que foi uma metáfora para a força do império.[244] Mármore pode se encontrado em edifícios de Roma anteriores a Augusto, mas não era extensivamente usado como um material de construção até seu reinado.[245] Embora isso não se aplique às favelas de Subura, que ainda eram tão frágeis e propensas a incêndio como sempre, ele deixou uma marca sobre a topografia monumental do centro e do Campo de Marte.[246]

O estilo augustano pode ser entendido como uma mistura de conservadorismo e inovação, frequentemente associado a um olhar grego[220] por meio do emprego da ordem coríntia, que tornou-se o estilo arquitetônico dominante a partir de Augusto. Suetônio certa vez comentou que Roma era indigna de seu estatuto como uma capital imperial, uma vez que Augusto e Agripa desmantelaram este sentimento ao transformar a aparência de Roma num modelo grego clássico.[245] Para celebrar sua vitória na batalha de Áccio, o Arco de Augusto foi construído em 29 a.C. próximo da entrada do Templo de Castor e Pólux e alargado em 19 a.C. para incluir o padrão dum arco triplo.[245] Também construiu o Altar da Paz (Ara Pacis), com inúmeros relevos que representam os cortejos imperiais dos pretorianos, as vestais e os cidadãos de Roma,[247] um relógio monumental, cujo gnômon central foi um obelisco tomado do Egito,[246] o Templo de César, a Biblioteca de Apolo do Palatino[248] e o Fórum de Augusto com seu Templo de Marte Ultor.[249]

Outros projetos também foram encorajados, tais como a reforma do Septa Júlia de Júlio César, que tornou-se palco de lutas de gladiadores,[250] e a construção do Teatro de Balbo, o Panteão, as Termas, o Estagno e o Euripo de Agripa,[220] ou fundados em nome de outros, frequentemente parentes, como por exemplo o Pórtico de Otávia e o Teatro de Marcelo. Mesmo seu mausoléu foi construído antes de sua morte para abrigar os membros de sua família.[251] Há também muitos edifícios construídos fora da cidade de Roma que portam seu nome e legado, tais como o Teatro de Mérida,[252] na atual Espanha, o Maison Carrée de Nîmes[253] e o Templo de Augusto e Lívia de Vienne, ambos na França, e o Troféu de Augusto em La Turbie, próximo de Mônaco.[174]

Templo de Augusto e Lívia em Vienne, final do século I a.C.
Busto de ca. 20 a.C. encontrado na villa de Chiragan, Gália. Atualmente encontra-se no Museu de São Raimundo, Toulouse

Após a morte de Agripa em 12 a.C., uma solução tinha que ser encontrada para a manutenção do suprimento de água de Roma. Tal discussão se deveu ao fato de Agripa supervisionar a questão quando serviu como edil e de, como cidadão privado, financiá-lo. Naquele ano, o imperador organizou um sistema onde o senado designou três de seus membros como os principais comissários encarregados do suprimento de água e de assegurar que os aquedutos da cidade não caíssem em desuso. No final da era augustana, a comissão de cinco senadores chamada curatores locorum publicorum iudicandorum ("supervisores da propriedade pública") foi encarregada da manutenção dos edifícios públicos e templos do culto estatal.[240] Augusto também criou o grupo senatorial dos curadores viários (curatores viarum) para conversação das estradas. Esta comissão senatorial trabalhou com oficiais locais e contratantes para organizar reparos regulares.[237]

Literatura[editar | editar código-fonte]

No período augustano, a literatura prosperou enormemente no mundo romano. Muito da literatura produzida nesta época provém de homens que construíram suas carreiras durante os anos do Segundo Triunvirato, por meio do patrocínio de particulares, alguns deles associados com Augusto. A prática do patrocínio dos círculos literários foi comum, porém desde o século II a.C. havia sido praticamente abandonada. Em torno de Caio Cílnio Mecenas, um dos mais próximos associados do príncipe, formou-se um círculo que promoveu Virgílio e Horácio, enquanto outro formou-se em torno de Marco Valério Messala Corvino e promoveu Ovídio e Tibulo. Além deles, autores como Marco Vérrio Flaco, Propércio, Tito Lívio e Higino também estiveram ativos.[220]

A literatura augustana produziu os mais amplamente lidos, influentes e duradouros poetas romanos. Os poetas republicanos Catulo e Lucrécio foram reconhecidos como seus predecessores, ao passo que Lucano, Marcial, Juvenal e Estácio figuram como seus herdeiros da chamada "Idade de Prata" da literatura latina. Embora Virgílio por vezes é considerado um "poeta cortesão", sua Eneida, a mais importante das épicas latinas, permite leituras complexas sobre a fonte e significado do poder de Roma e as responsabilidades de um bom líder. Os trabalhos de Ovídio foram amplamente populares, mas o poeta foi exilado por Augusto em um dos grandes mistérios da história da literatura. Entre os trabalhos em prosa, a história monumental de Tito Lívio é preeminente para seu escopo e realização estilística. A obra em vários volumes Sobre Arquitetura de Vitrúvio, um arquiteto patrocinado pelo próprio imperador, permanece de grande interesse informacional.[254]

Questões pertinentes ao tom, ou a atitude dos escritores em relação a seu assunto, são ponto de grande interesse entre os estudiosos que estudam o período. Em particular, o esforço de entender a extensão do avançar, apoiar, criticar ou minar as atitudes políticas e sociais promulgadas pelo regime, formas oficiais que foram frequentemente expressas em media estética.[255] Para os historiadores, a literatura augustana enveredou para uma propaganda ao regime, não por algum tipo de controle estatal, mas por um sentimento de gratidão e alívio da parte dos patronos e escritores ao fato de Augusto ter trazido estabilidade e paz para os assuntos públicos.[220]

Aparência física e imagens oficiais[editar | editar código-fonte]

O camafeu Blacas, em ônix, retratando Augusto trajando um gorgoneion. Ca. 20-50

Seu biógrafo Suetônio, escrevendo cerca de um século após sua morte, descreve sua aparência como:

[...] vulgarmente formoso e extremamente gracioso em todos os períodos de sua vida, embora não se importou com nenhum adorno pessoal. Estava tão longe de ser minucioso sobre o tratamento de seu cabelo, que teria vários barbeiros trabalhando às pressas ao mesmo tempo, e quanto a sua barba agora tivesse a cortado e raspado, enquanto ao mesmo tempo estaria lendo ou escrevendo alguma coisa [...] Ele tinha olhos claros e brilhantes [...] Seus dentes eram afastados, pequenos e mal conservados; seu cabelo era ligeiramente cacheado e inclinando para dourado; suas sobrancelhas juntas. Suas orelhas eram de tamanho moderado, e seu nariz projetado um pouco no topo e então inclinou-se ligeiramente para dentro. Sua pele era entre escura e clara. Ele foi pequeno de estatura (embora Júlio Marato diga que possuía 1,75 m de altura), mas isso era ocultado pela excelente proporção e simetria de sua figura, e era perceptível apenas por comparação com alguma pessoa mais alta de pé ao lado dele. [...][256]

Sua imagens oficiais eram muito firmemente controladas e idealizadas, extraídas de uma tradição do retrato real helenístico ao invés do tradicional realismo do retrato romano. Ele aparece pela primeira vez em moedas aos 19 anos, e de ca. 29 a.C., "a explosão em número de retratos augustanos atestam uma combinada campanha de propaganda destinada a dominar todos os aspectos da vida civil, religiosa, econômica e militar com a pessoa de Augusto".[257] As primeiras imagens de fato descreveram um homem jovem, mas embora houve mudanças graduais, suas imagens mantiveram-o juvenil até sua morte aos 70, altura em que tinha "um distanciado ar de majestade sempre jovem". Dentre os melhores dos muitos retratos conhecidos estão o Augusto da Prima Porta, a imagem sobre o Altar da Paz e o Augusto da Via Labicana, que mostra-o como um sacerdote. Vários camafeus retratísticos incluem o Camafeu Blacas e a Gema Augusta.

Ancestrais e descendência[editar | editar código-fonte]


Notas

  1. Em latim clássico:IMPERATOR CAESAR DIVI F AVGVSTVS
  2. As datas de seu reinado são datas contemporâneas. Viveu sob dois calendários, o republicano até 45 a.C., e o juliano após 45 a.C.. Devido aos desvios das intenções de Júlio César, Augusto restaurou o calendário juliano em 8 a.C., e a correspondência entre o calendário juliano proléptico e o calendário observado em Roma é incerta antes de 8 a.C..[1]
  3. Como parte do acordo do triunvirato, Otaviano governou as províncias ocidentais, Marco Antônio as províncias orientais e Lépido a África.
  4. O nome final de Augusto teve um sentido equivalente de "Comandante César, Filho do Divino, o Imperador".
  5. O "Marco Otávio" que vetou a reforma agrária sugerida por Tibério Graco em 133 a.C. pode ter sido seu ancestral.[12]
  6. Sua filha Júlia morreu em 54 a.C.; seu filho Cesarião com Cleópatra não foi reconhecido pela lei romana e não foi mencionado em seu testamento.[24]
  7. Seus filhos foram Alexandre Hélio, Cleópatra Selene II e Ptolemeu Filadelfo
  8. Se o testemunho de Marco Primo proferido durante seu julgamento em 22 a.C. por ilegalidade em sua guerra na Trácia pode ser acreditado, ele atuou sob ordens de Marcelo e Augusto.[126] [127]
  9. A data é fornecida por calendários inscritos; ver também Res Gestae 10.2. Dião Cássio 27.2 registra o evento em 13 a.C., provavelmente o ano em que Lépido morreu.[165]
  10. Em latim: tu regere imperio populos, Romane, memento.
  11. Em latim: Rome imperium sine fine

Referências

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Ver também[editar | editar código-fonte]

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