Diocleciano

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Diocleciano
Imperador romano
Istanbul - Museo archeol. - Diocleziano (284-305 d.C.) - Foto G. Dall'Orto 28-5-2006.jpg
Diocleciano
Governo
Reinado 20 de novembro de 284 – 1 de abril de 286 (sozinho)
1 de abril de 286 – 1 de maio de 305 (como Augusto do Império do Oriente, com Maximiano como Augusto do Ocidente)[1]
Rainha Prisca
Antecessor Numeriano
Sucessor Constâncio Cloro e Galério
Vida
Nome completo Díocles (nome completo desconhecido, utilizado até à ascensão ao trono);
César Caio Aurélio Valério Diocleciano Augusto (Caesar Gaius Aurelius Valerius Diocletianus Augustus, já imperador)[2]
Nascimento ca. 22 de dezembro de 244[3]
Dóclea, próxima a Salona,[4] Dalmácia (na atual Croácia)
Morte 3 de dezembro de 311 (66 anos)[5]
Palácio de Diocleciano, em Espalato (atual Split)
Filhos Galéria Valéria

Caio Aurélio Valério Diocleciano (em latim: Gaius Aurelius Valerius Diocletianus[notas 1] (Diocleia, c. 22 de dezembro de 244[3]  – Espalato, 3 de dezembro de 311),[5] foi imperador romano de 284 a 305.

Nascido numa família ilíria de baixo status social, na província romana da Dalmácia, Diocleciano ascendeu socialmente pela via militar e se tornou comandante de cavalaria do imperador Caro. Após as mortes de Caro e de seu filho, Numeriano, durante uma campanha militar contra o Império Sassânida, Diocleciano foi aclamado imperador. O título também era disputado pelo outro filho de Caro, Carino, que foi derrotado por Diocleciano na Batalha do Margo. Com sua ascensão ao poder, Diocleciano pôs um fim à Crise do terceiro século. Indicou um oficial, seu colega militar, Maximiano, para o cargo de "augusto", na prática co-imperador, em 285, e em 1 de março de 293 indicou Galério e Constâncio como "césares", co-imperadores de menor estatura. Sob esta "Tetrarquia", ou "governo de quatro", cada imperador tinha autoridade sobre um quarto do império, embora fosse um governo conjunto. Durante campanhas contra os sármatas e tribos do Danúbio (285-290), os alamanos (288) e usurpadores na província do Egito (297-298), Diocleciano defendeu as fronteiras do império e expulsou delas quaisquer ameaças a seu poder. Em 299, conduziu negociações com os sassânidas, o tradicional inimigo do império no Oriente, obtendo uma paz duradoura e favorável aos romanos. Diocleciano separou e ampliou os serviços militar e civil do império e reorganizou as divisões provinciais, implementando o maior e mais burocrático governo na história do Império Romano. Fundou novos centros administrativos em Nicomédia (atual İzmit), Mediolano (atual Milão), Antioquia e Augusta Treveroro (atual Tréveris), mais próximos às fronteiras imperiais do que a tradicional capital, em Roma. A partir da tendência ao absolutismo comum aos governantes do século III, passou a se denominar um autocrata, elevando-se acima das massas do império com formas imponentes de cerimonial na sua corte e através da arquitetura. O crescimento burocrático e militar, suas constantes campanhas e projetos de construção aumentaram os gastos estatais, e levaram a uma necessária reforma tributária. A partir de 297, os impostos imperiais foram padronizados e tornados mais equitativos, e, de um modo geral, passaram a consistir de taxas mais altas.

Nem todos os planos de Diocleciano tiveram sucesso. O Édito sobre os Preços Máximos, de 301, sua tentativa de controlar a inflação através do controle de preços, foi malsucedido, contraproducente e rapidamente ignorado. Embora tenha sido bem-sucedido enquanto esteve em vigor, o sistema tetrárquico de Diocleciano ruiu logo após sua abdicação, diante das disputas dinásticas rivais de Magêncio e Constantino, filhos de Maximiano e Constâncio, respectivamente. A Perseguição de Diocleciano (303-311), a última, maior e mais sangrenta perseguição oficial do cristianismo a ser implementada pelo império, não só não conseguiu destruir a comunidade cristã como ainda a deixou mais fortalecida. Após 324, a religião tornou-se a predileta do império, especialmente depois de seu primeiro imperador cristão, Constantino. Apesar de seus insucessos, as reformas de Diocleciano alteraram fundamentalmente a estrutura do governo imperial romano, e ajudaram a estabilizar o império econômica e militarmente, permitindo que ele continuasse essencialmente intacto pelos próximos cem anos, apesar de ter chegado muito perto do colapso total durante a juventude de Diocleciano. Em 1 de maio de 305, enfraquecido pela doença, Diocleciano abandonou o palácio imperial e se tornou o primeiro imperador romano a abdicar voluntariamente de seu cargo. Viveu os últimos anos de sua vida em seu palácio na costa da Dalmácia, cuidando de suas hortas e jardins. Seu palácio posteriormente se tornou o centro da cidade moderna croata de Split.

Nascimento e primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Diocleciano provavelmente nasceu nas proximidades de Salona, na Dalmácia (atual Solin, na Croácia), por volta de 244.[3] Seus pais o chamaram de Díocles ou, possivelmente, de Díocles Valério.[6] O historiador moderno britânico Timothy Barnes aceita seu aniversário oficial, 22 de dezembro, como seu aniversário real; outros autores, no entanto, não têm esta certeza.[7] Os pais de Díocles vinham de uma classe social baixa, e os autores que o criticaram alegavam que seu pai era um escriba ou um liberto que pertencera ao senador Anulino, ou até mesmo que o próprio Díocles seria um liberto. Os primeiros quarenta anos de sua vida são, em sua maior parte, obscuros.[8] O cronista bizantino João Zonaras afirmou que ele era duque da Mésia (Dux Moesiae),[9] um comandante das tropas estacionadas no baixo Danúbio.[10] A pouco confiável Historia Augusta afirma que ele serviu na Gália, porém este relato não é corroborado por qualquer outra fonte, e é ignorado pelos historiadores modernos.[11]

Sua mulher, Prisca, era cristã, assim como sua única filha, Valéria, que depois se casaria com o imperador Galério.

Durante os primeiros anos de vida de Diocleciano, o Império Romano encontrava-se em crise. Os imperadores eram instáveis e concediam altos aumentos aos soldados de cada exército para ganhar o seu apoio. Como consequência, a partir de 235, exércitos por todo o império aclamavam os seus generais como imperadores rivais. A guerra civil que daí adveio tornou permeáveis as fronteiras do império à invasão dos Godos, Francos e Alamanos a Norte e aos Persas a Leste.

Diocleciano procurou a fortuna no exército. Durante o seu período no exército provou ser astuto, hábil e ambicioso. Foi nomeado "Duque da Mésia" (uma província na margem do baixo Danúbio) tendo responsabilidades na defesa das fronteiras do império. Era um oficial prudente e metódico, preocupando-se mais com a vitória do que com a glória.

Em 282, as legiões do alto Danúbio proclamaram imperador o prefeito pretoriano Marco Aurélio Caro. Diocleciano foi bem sucedido sob o comando do novo imperador e foi promovido a comandante da cavalaria da guarda pessoal imperial - posto este que colocava quem o ocupava, desde Galiano, na condição de virtual candidato ao trono imperial. Em 283, foi-lhe concedida a honra de ascender à dignidade de cônsul. Em 284, durante uma campanha militar com os sassânidas, Caro foi morto. Este acontecimento colocou o império nas mãos dos seus dois jovens filhos: Numeriano no Leste e Carino no Ocidente. Num curto período de tempo Numeriano morreu sob circunstâncias misteriosas (seu corpo teria sido encontrado dentro de sua tenda) perto de Nicomédia e Diocleciano - após ter matado com suas próprias mãos e em público o prefeito pretoriano de Numeriano, Aper, a quem responsabilizou pelo assassinato do imperador - foi aclamado imperador, mudando seu nome de Diocles para Diocleciano. Em 285, Carino foi morto em combate perto de Belgrado e Diocleciano passou a controlar todo o império.

Na Roma de então, o poder autocrático era incompetente para governar e defender o imenso império e várias províncias tentaram se libertar e viver sob o governo de imperadores próprios. Dada a complexidade dos problemas políticos e administrativos decorrentes da vastidão do Império Romano, bem como a necessidade de um sistema organizado para a sucessão dos imperadores, julgou Diocleciano que a forma de resolver essas questões seria dividir de facto (juridicamente ele continuava uno) o Império Romano em pars Orientis e pars Occidentis.

Partilhou o poder com Maximiano, general de sua confiança, que foi proclamado seu associado (césar) em 285. Em 286, no entanto, diante da revolta de Caráusio, que pretendia ver reconhecida sua autoridade sobre a Britânia e a costa do Canal da Mancha, Maximiano foi proclamado "augusto", ficando estabelecido que governaria o Ocidente (pars Occidentis) a partir de Milão, cabendo a Diocleciano o governo do Oriente (pars Orientis) a partir de Nicomédia (atual İzmit), no mar de Mármara. Diocleciano não dividiu propriamente o poder com seu companheiro de armas Maximiano (ou Maximiliano), pois, na realidade, Diocleciano estava colocado em posição superior à de Maximiano: na titulatura então desenvolvida, Diocleciano era Jovius, semelhante a Júpiter, o máximo deus romano, enquanto Maximiano era Herculius, semelhante a Hércules, o herói máximo da mitologia romana, que, no entanto, era filho e servidor de Júpiter.

A partir daí, o império passou a ter dois augustos, cada qual com exército, administração e capital próprios, embora Diocleciano continuasse a ser o chefe do Estado, representando a unidade do mundo romano. Esse sistema ficou conhecido como diarquia.

Governo civil e militar[editar | editar código-fonte]

Reformas[editar | editar código-fonte]

As reformas de Diocleciano foram um conjunto de modificações criadas no Império Romano sob Diocleciano e Maximiniano, como a divisão do Império em Oriental e Ocidental[12] de modo a facilitar sua administração. As reformas realizadas contribuíram para adiar a queda do império romano e criaram os fundamentos do Império Bizantino.[13]

Tetrarquia[editar | editar código-fonte]

As 12 dioceses na nova divisão tetrárquica do Império Romano implantada por Diocleciano por volta de 300 d.C.

Diocleciano realizou reformas profundas a fim de salvar o império da derrocada iminente. Ele tinha três objetivos: fortalecer seu poder, reformar os métodos de governo e regenerar o exército. Para isso promoveu reformas na administração e no recrutamento militar, aumentando o efetivo militar permanente de 350 mil para aproximadamente 400 a 500 mil homens.

Contrariamente ao que muitos estudiosos pensaram - a partir do historiador alemão Theodor Mommsen - parece não ter sido Diocleciano que introduziu a divisão entre o "exército móvel" de elite e as "tropas de fronteira" como exército estacionário de segunda classe: esta reforma parece ter sido realizada pelo seu sucessor Constantino I.

O que Diocleciano fez foi reformar o dispositivo militar, estabelecendo que cada província de fronteira tivesse, em condições normais, de "paz" duas legiões nela estacionadas, comandadas pelo governador. Estas "legiões", no entanto, não eram mais unidades militares ofensivas como na época do Principado, que operavam como uma unidade, mas corpos de tropas que encontravam-se espalhadas por diversas praças fortes nas fronteiras e em suas proximidades, exercendo uma função de vigilância e defesa passiva local. Em caso de conflito aberto, que exigisse a formação de um exército de campanha para uma defesa ativa, repelindo as forças invasoras, o comando das forças militares do teatro de operações era atribuído a um duque, que comandaria as legiões locais e os destacamentos (vexillationes) vindos de outras províncias - a ideia era a de separar a autoridade política do governador dos grandes comandos militares.

O império foi dividido em quatro regiões administrativas. Em 293, cada imperador escolheu um sucessor: Diocleciano indicou Galério enquanto Maximiano indicou Constâncio Cloro. A partir de então, passaram a existir quatro imperadores, dois deles com o título de augusto (augustus) e dois com o título de césar (caesar). Constâncio Cloro e Galério foram proclamados césares. Os césares eram chefes militares capazes de governar e proteger o império, adotados como filhos pelos augustos, a quem sucederiam em caso de morte, incapacidade provocada pela velhice ou decorridos vinte anos de seus governos. Os césares, lugar-tenente dos augustos, também possuíam capital, exército e administração próprios. A essa organização dá-se o nome de tetrarquia, pois há dois augustos e dois césares.

O Dominato[editar | editar código-fonte]

Diocleciano instaurou o Dominato, ou seja, uma monarquia despótica e militar, de tipo helenístico. Sob a influência de idéias orientais, o Princeps converteu-se em Dominus, isto é, em amo ou governante absoluto à frente de uma grande burocracia. O imperador tornava-se "senhor e deus" e todos que eram admitidos em sua presença eram obrigados a ajoelhar-se e beijar a ponta do manto real. Extinguiu-se, com isso, o principado romano: os civis haviam sido suplantados pelos militares, e o senado foi eclipsado por uma nobreza burocrática.

Sintomaticamente, Diocleciano foi o primeiro imperador romano a abandonar Roma como capital, exercendo o governo a partir da cidade grega de Nicomédia na Ásia Menor (atual İzmit, na Turquia), onde havia sido aclamado imperador. Seu colega ocidental, Maximiano, mantinha residência em Mediolano (atual Milão), mais próxima da fronteira do Danúbio. Quanto aos césares, Constâncio Cloro mantinha sua residência imperial em Augusta Treveroro (atual Tréveris, na fronteira do rio Reno), e Galério, na Dácia, na cidade de Sirmio (atual Sremska Mitrovica, na província sérvia da Voivodina). As capitais imperiais passaram a ser "funcionais", no sentido de que eram escolhidas em função das necessidades militares de defesa das fronteiras.

Diocleciano, no decorrer de seu reinado, deve ter visitado Roma uma ou duas vezes - a visita mais conhecida sendo quando da comemoração de sua vicennalia, o jubileu de vinte anos do seu reinado, quando deixou a cidade precipitadamente após dois meses de estadia, irritado com o familiaridade indevida da plebe romana. Mas, ainda assim, não negligenciou a velha cidade, que - agora como mero símbolo do poder romano - recebeu a doação das gigantescas Termas de Diocleciano, construídas como parte das comemorações dos mesmos vinte anos da ascensão de Diocleciano ao poder. Como parte deste programa de construções, a Cúria Júlia e o Fórum de César foram remodelados, com a construção, ou reconstrução, de um arco do triunfo fazendo a ligação entre a Cúria e o Fórum, arco este decorado com partes de monumentos a Trajano e Marco Aurélio reutilizados (spolia) - uma prática que se tornaria comum durante na Roma da Antiguidade tardia, com velhos monumentos (e imagens de velhos imperadores) sendo canibalizados para a construção de novos - como no Arco de Constantino, em que os rostos dos antigos imperadores seriam substituídos pelo de Constantino. O senado, nesta estrutura, apesar das homenagens recebidas, passou a ser um simples conselho municipal da cidade de Roma.

Paradoxalmente, a reforma de Diocleciano, continuada por seus sucessores, ao mesmo tempo que garantiu a estabilidade do império por mais dois séculos, acentuou ainda mais a crise estrutural do Império Romano. No campo militar, desenvolveu campanhas contra os sassânidas, assegurando uma paz de quase quarenta anos e estabilizando o domínio romano na Mesopotâmia e zona do Cáucaso, pela criação de uma zona-tampão em torno do curso norte do rio Tigre, a partir do qual os romanos podiam controlar a Armênia e flanquearem o Império Sassânida pelo Norte.

A fronteira sassânida foi, no entanto, o único setor em que houve recuperação de territórios antes ocupados por Roma: em outras regiões, a fronteira foi invariavelmente estabilizada pelo abandono de territórios considerados de difícil defesa: na Mauretânia Tingitana, a extensão da cabeça de ponte em torno de Tânger, o limes de Volubilis, foi abandonada após operações de limpeza dirigidas por Maximiano, que atravessou combatendo a região de Tânger até Cartago. Na província romana do Egito, foi abandonado o território em torno da ilha Elefantina, entregue a nativos que nele organizaram um estado tampão.

Dirigismo econômico[editar | editar código-fonte]

Ao aumentar a máquina administrativa e militar do Estado, que consumia recursos imensos, aumentava, consequentemente, a espoliação dos súditos através da cobrança de altos impostos. Uma das formas encontradas pelas massas populares para fugir dos pagamentos dos tributos era a mudança de domicílio e ocupação. A generalização desse processo levou ao autocrata Diocleciano a procurar "fixar" os agricultores, colonos ou arrendatários sobre as terras que cultivavam, proibindo-os de abandoná-las. Com essa violenta supressão da liberdade individual, o homem livre da época se transformou em uma espécie de servo do Estado. Era o início de um processo que culminaria na servidão medieval. Os ideais greco-romanos de uma comunidade de cidadãos livres tendiam a desaparecer.

Os conselhos municipais de notáveis (os "curiais", membros da Cúria, i.e., o "senado" local), de órgãos de auto-governo local, passaram a ser meros instrumentos de coleta de impostos, cuja recepção era assegurada pelo fato de que o patrimônio dos curiais (registrado junto a cada conselho) respondia pelos impostos não recolhidos no território de cada cidade. O sistema de impostos foi racionalizado, através de um processo complicado (e até hoje não bem entendido) que parece haver estabelecido uma avaliação da base tributária global em termos de duas unidades de medida: a capitatio, isto é, o número de "cabeças", isto é, unidades de taxação pessoal (e não de pessoas físicas, que podiam ser agrupadas numa "cabeça" única; as mulheres eram geralmente contadas cada uma como metade de uma "cabeça") e a jugatio, uma unidade ideal de valor da terra. O potencial taxável resultante da agregação destas duas bases supunha-se ser periodicamente reavaliado através das chamadas indicções. Na prática, tal significava que, em caso de diminuição de população ou abandono de terras, a mesma quantidade de tributos teria de ser redistribuída entre os agentes econômicos remanescentes, tornando a tributação mais pesada até uma reavaliação.

Determinou Diocleciano, ainda, que os trabalhadores ocupados na produção de bens necessários ao Estado deveriam permanecer em suas profissões, sem o direito de abandoná-las, devendo transmiti-las aos descendentes, em caráter obrigatório. Instituía-se, desse modo, um sistema de castas até então desconhecido em Roma, com o nítido objetivo de manter à disposição do Estado parte da estrutura econômica do império. Os cidadãos transformaram-se em súditos de um déspota, servindo aos interesses do Estado. Diocleciano criou também, empresas estatais monopolistas, objetivando a compra de matérias-primas para garantir o aprovisionamento das forças-armadas (que passaram a ser pagas em gêneros, com eventuais pagamentos monetários nos aniversários de cada quinquênio da ascensão do imperador ao trono). Uma taxa militar específica (o aurum tironicum, ou "ouro dos recrutas") foi introduzida, de modo a permitir que cada contribuinte individual fosse cotizado para pagar o recrutamento de soldados.

Com Diocleciano, o dirigismo estatal alcançou seu ponto mais elevado. Fica como referência dos seus princípios de governo o esforço que realizou (como já visto no caso de suas reformas militares) para separar os cargos públicos civis - monopolizados pela aristocracia senatorial - dos militares, atribuídos apenas a militares de carreira, e a tentativa de minimizar as diferenças entre a província da Itália - que, com a exceção da cidade de Roma, deixou de ser governada pelo senado e foi dividida em províncias, passando o solo italiano a pagar impostos pela primeira vez desde a República - e as províncias.

Diocleciano procurou conter a alta dos preços e salários - impulsionada pela perda de valor intrínseco da moeda de cobre utilizada para pequenas transações. Primeiramente, buscou recuperar o poder aquisitivo da moeda, de acordo com os princípios estabelecidos pelo seu predecessor Aureliano: emitiu uma nova moeda de prata de boa qualidade em teor de metal precioso (92%), o argenteus, e fez cunhar grande quantidade de peças de moeda de cobre (nummo e neoantoniniano). Estas duas últimas, no entanto, eram peças de baixo teor de metal precioso, cuja aceitação pelo valor de face dependia da confiança do público. Como tal acabou por não ocorrer, Diocleciano apelou para uma regulação estatal direta - com o Édito Máximo (301). Esta tentativa de "congelamento" (a qual foi talvez desde o princípio entendida como simples propaganda) da economia acabou sendo abandonada sem maior alarde. O problema da desvalorização da moeda romana acabaria sendo resolvido definitivamente por Constantino I, que centraria o sistema monetário romano na moeda de ouro - favorecendo os praticantes de grandes transações monetárias - e abandonaria qualquer tentativa séria de preservar o poder aquisitivo da moeda fracionária utilizada pelos mais pobres - uma solução análoga à encontrada para o exército, que passaria a compor-se de um reduzido núcleo de elite, cercado por tropas numerosas mas de baixo valor militar.

Em função dos princípios aparentemente igualitários perseguidos por Diocleciano, muitos são os autores modernos que o vêem como proponente de uma economia planificada. Mas, como coloca Moses Finley, Diocleciano não era um ideólogo: era simplesmente um pragmático, que procurava reduzir os problemas a enfrentar aos termos mais simples e buscar soluções as mais simples. Basicamente, a "equação" que ele buscou resolver tinha, para ele, duas variáveis: o poder autocrático do imperador e o exército. Diocleciano buscou reforçar a ambos, legitimando ideologicamente a autoridade imperial e buscando todos os meios possíveis para manter o dispositivo militar de defesa do Império. Diocleciano não tinha qualquer interesse ideológico no dirigismo estatal em si: apenas buscou legitimar o que havia sido uma monarquia absoluta desde a sua fundação, de maneira a, nas condições conturbadas da época, permitir que a autoridade imperial se exercesse da maneira mais desimpedida e rápida possível.

Perseguição ao cristianismo[editar | editar código-fonte]

Diocleciano reabilitou as velhas tradições, incentivando o culto dos deuses antigos. Perseguiu os maniqueus, que praticavam uma religião de origem persa. Empreendeu aquela que é conhecida por alguns historiadores eclesiásticos como a penúltima grande perseguição empreendida pelo Império Romano contra o cristianismo: foi a era dos mártires.

Para uma personalidade tão tradicionalista quanto a Diocleciano, o abandono dos rituais do paganismo antigo em favor de uma religião de origem estrangeira só podia ser tido como algo inquietante, e o augusto parece ter cedido às insistentes propostas de seu césar, Galério, homem de origens humildes e também, como soldado, adepto do paganismo, que considerava que a presença de funcionários cristãos na corte retirava aos sacrifícios e outras práticas rituais sua eficácia. Exatamente por isso, o pretexto que desencadeou a perseguição teria sido um sacrifício no palácio imperial de Nicomédia, oficiado por Diocleciano, em que os cristãos presentes haviam acintosamente feito gestos para desviar a presença do que, para eles, eram demônios idólatras. Em fevereiro de 303, um primeiro édito imperial ordenava a destruição geral de igrejas, objetos de culto cristãos, e a destituição de funcionários que fossem adeptos da "nova" religião; um segundo édito ordenou a prisão geral do clero. Um terceiro previa a libertação dos cristãos em caso de apostasia, e o quarto e último, de 304, ordenava toda a população do império a sacrificar aos deuses sob pena de morte ou trabalhos forçados em minas.

As perseguições de Diocleciano, esbarraram, no entanto, na falta de entusiasmo de uma população já bastante cristianizada - especialmente no Oriente, onde Diocleciano e Galério governavam diretamente. Na parte do Ocidente, sob sua administração, o césar Constâncio Cloro limitou-se a aplicar o primeiro édito, também sem muito entusiasmo. O zelo administrativo dos funcionários, no entanto, foi suficiente para garantir perseguições violentas tanto no Oriente como na parte do Ocidente governada por Maximiano (Itália e África), que só arrefeceriam em 311, quando Galério, moribundo, emitiu um édito de descriminalização do cristianismo junto com seu césar Licínio e pediu orações aos cristãos pelo seu restabelecimento. O édito de tolerância de Galério abriria caminho ao Édito de Milão de 313 - editado por Licínio e Constantino I - que não apenas toleraria o cristianismo mas o reconheceria como uma das religiões oficiais - e finalmente a única - do império.

Outras reformas[editar | editar código-fonte]

Diocleciano impôs o uso do latim como língua administrativa nas províncias de língua grega do Oriente. Prestigiou as leis romanas. Dividiu o império em 101 províncias, agrupadas em doze dioceses reunidas em quatro prefeituras.

Moedas com a efígie de Diocleciano[editar | editar código-fonte]

Abdicação e fim do reinado[editar | editar código-fonte]

Diocleciano "aposentado".

Satisfeito por ver o sistema tetrárquico assegurado com a proclamação de Constâncio Cloro e Galério como imperadores, abdicou, juntamente com Maximiano, em 305, conforme havia estabelecido, e retirou-se para um palácio que mandou construir na costa da Dalmácia, precisamente o Palácio de Diocleciano, que mais tarde daria origem à actual cidade croata de Split, próximo a Salona (atual Solin), capital da província romana.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui imagens e outras mídias sobre Diocleciano
Precedido por
Carino
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Imperador romano
284 — 305
Sucedido por
Constâncio Cloro


Notas

  1. Nascido Díocles (latim: Diocles; grego: Διοκλῆς), seu nome foi latinizado, com sua ascensão ao trono, para Diocleciano.

Referências

  1. Barnes, New Empire, 4.
  2. Barnes, New Empire, 4. e 17–29.
  3. a b c Barnes, New Empire, 30, 46; Bowman, "Diocletian and the First Tetrarchy" (CAH), 68.
  4. Barnes, New Empire, 31; Bowman, "Diocletian and the First Tetrarchy" (CAH), 68; Williams, 237–38.
  5. a b Barnes, "Lactantius and Constantine", 32–35; Barnes, New Empire, 31–32.
  6. Aurélio Vítor, 39.1; Potter, 648.
  7. Barnes, New Empire, 30; Williams, 237–38; cf. Rees, Diocletian and the Tetrarchy, 86: "Nem mesmo sabemos quando ele nasceu..."
  8. Barnes, Constantine and Eusebius, 4; Bowman, "Diocletian and the First Tetrarchy" (CAH), 68; Potter, 280; Williams, 22–23.
  9. Zonaras, 12.31; Southern, 331; Williams, 26.
  10. Mathisen, "Diocletian"; Williams, 26.
  11. SHA, Vita Carini 14–15; Williams, 26.
  12. Zeno Hastenteufel. Infância e adolescência da igreja. EDIPUCRS; GGKEY:WZLBZNDBNK4. p. 31.
  13. ANTONIO ALLEONI CORR A DE GODOY. Visões de redenção. biblioteca24horas; ISBN 978-85-7893-737-9. p. 6.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CARRIÉ, Jean-Michel & ROUSSELE, Aline - L'Empire Romain en Mutation, des Sévères à Constantin, 192-337, Paris, Seuil, 1999.
  • CHRISTOL, M. & NONY, D. - Rome et son Empire, Paris, Hachette, 2003 (Há tradução em português).
  • FERRIL, Arther - A Queda do Império Romano, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1989.
  • FINLEY, Moses I. - "O Imperador Diocleciano", IN Aspectos da Antiguidade, Lisboa, Edições 70, 1989
  • GIBBON, Edward - Decline and Fall of the Roman Empire, Chicago, Encyclopaedia Britannica, 1952, 2 volumes (trad. parcial em português).
  • LUTTWAK, Edward - The Grand Strategy of the Roman Empire, Filadélfia, The Johns Hopkins University Press, 1979.
  • SAINTE-CROIX, G.E.M. de - The Class Struggle in the Ancient Greek World, Londres, Duckworth, 1983.
  • VALENZANI, Riccardo Santangelo - "The Seat and Memory of Power: Caesar's Curia and Forum", IN Maria Wyke, ed., Julius Caesar in Western Culture, Malden, MA, Blackwell, 2006.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • Sob o Sol já Deitado (em português) Romance histórico, de Odir Fontoura, 2011, que trata da transição paganismo-cristianismo no declínio do Império Romano.