Carlos Magno

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Carlos Magno
Grand Royal Coat of Arms of France.svg
Rei dos Francos
Rei dos lombardos
Imperador Romano-Germânico
Estátua de Carlos Magno em Frankfurt
Carlos Magno por Albrecht Dürer
Governo
Reinado 768 - 814
Coroação 25 de dezembro de 800 em Roma pelo papa Leão III
Consorte de Himiltrude
Desirata
Hildegarda
Fastrada
Luitegarda da Alemanha
Dinastia Carolíngia
Vida
Nascimento 2 de Abril de 742
Jupille-sur-Meuse, Herstal (Belgica)
Morte 28 de janeiro de 814
Aix-la-Chapelle (Alemanha)
Sepultamento Catedral de Aachen
Filhos Com Himiltrude :
Pepino (v.770-811)
Com Hildegarda: Carlos (v.772-811)
Adelaide (?-774)
Rotrude (v.775-810)
Pepino de Itália (777-810)
Luís I, o Piedoso (778-840)
Lotário (778-779)
Berta (v.779-823)
Gisela (781-ap.814)
Hildegarda (782-783)
Com Fastrada: Teodrada (v.785-v.853)
Hiltrude (ou Rotrude, Rothilde) (v. 787-?)
Filhos de concubinas:

Com Madelgarda : Rotilde (790-852)
Com Gervinda : Adeltruda
Com Regina : Drogo (801-855) Hugo (v.802-844)
Com Adelinda : Thierry (807-ap.818)

Pai Pepino, o Breve
Mãe Berta de Laon
Assinatura Assinatura de Carlos Magno
Dinastia carolíngia
Pipinida
Arnulfida
Carolíngia
Após o Tratado de Verdun (843)

Carlos Magno do latim Carolus Magnus, ou Carlos I, dito "O Grande" (em alemão Karl der Große, em francês Charlemagne) na numenclatura que se inicia com Clóvis I, nascido em 742 e falecido a 28 de janeiro de 814 em Aquisgrano[1] , foi o rei dos francos entre 768 e imperador do ocidente (Imperatur Romanorum) entre 800 até a sua morte em 814. Pertence à dinastia Carolíngia, à qual ele deu o seu nome. Por meio das suas conquistas no estrangeiro e de suas reformas internas, Carlos Magno ajudou a definir a Europa Ocidental e a Idade Média na Europa. Ele é chamado de Carlos I nas listas reais da Alemanha, do Sacro Império Romano-Germânico e na França.

Ele era filho do rei Pepino, o Breve e de Berta de Laon, uma rainha franca. Carlos reinou primeiro em conjunto com seu irmão Carlomano, sendo a relação entre os dois o tema de um caloroso debate entre os cronistas contemporâneos e os historiadores.[2] .

Foi rei dos Francos a partir de 768. Tornou-se, por conquista, rei dos lombardos em 774 e foi coroado Imperator Augustus em Roma pelo papa Leão III em 25 de dezembro de 800, revelando um dignidade que estava desaparecida desde a queda o Império romano do Ocidente em 476.

Monarca guerreiro, expandiu o Reino Franco através de uma serie de campanhas militares, em particular contra os saxões pagãos cuja submissão foi bastante difícil e muito violenta (772-804), mas também contra os lombardos em Itália e os Muçulmanos de Espanha, até que este se tornou o Império Carolíngio, que incorporou a maior parte da Europa Ocidental e Central. Durante o seu reinado, ele conquistou o Reino da Itália.

Posteriormente, o exército de Carlos, em retirada, sofreu a sua pior derrota nas mãos dos bascos na Batalha de Roncesvalles (778) (eternizada Canção de Rolando, de teor fortemente fictício). Ele também realizou campanhas contra os povos a leste, principalmente os saxões e, após uma longa guerra, subjugou-os ao seu comando. Ao cristianizar à força os saxões e banindo, sob pena de morte, o paganismo germânico, ele os integrou ao seu reino e pavimentou o caminho que levaria à futura dinastia Otoniana.

Soberano reformador, preocupado com a ortodoxia religiosa e cultura, ele protegeu as artes e as letras.O seu reinado também está associado com a chamada «Renascença carolíngia», um renascimento das artes, religião e cultura por meio da Igreja Católica.

O seu trabalho político imediato, o império, não lhe sobrevive, no entanto, por muito tempo. Em conformidade com o costume sucessório germânico, Carlos Magno promove a partir de 806 a partilha do império entre os seus três filhos.[3] Após numerosas peripécias, o império acabará finalmente partilhado em entre três dos seus netos (Tratado de Verdun).

A fragmentação feudal dos séculos seguintes, mais a formação na Europa de Estado-nações rivais condenaram à impotência aqueles que tentaram explicitamente restaurar o império universal de Carlos Magno, em particular os governantes do Santo Império Romano Germânico, de Otão I em 962 a no século XVI, e até mesmo Napoleão I, perseguido pelo exemplo dos mais eminentes dos Carolíngios[4] .

As monarquias francesa e alemã descendentes do império governado por Carlos Magno na forma do Sacro Império Romano-Germânico cobriam a maior parte da Europa. Em seu discurso de aceitação do Prêmio Carlos Magno, o papa João Paulo II se referiu a ele como Pater Europae ("Pai da Europa")[5] [6] [7] [8] : "...seu império uniu a maior parte da Europa Ocidental pela primeira vez desde os romanos e a Renascença carolíngia encorajou a formação de uma identidade europeia comum"[9] [10] .

A figura de Carlos Magno foi objeto de discórdia na Europa, incluindo a questão politica entre os séculos XII e XIX entre a nação germânica que considera o Santo Império Romano como o sucessor legitimo do imperador carolíngio e a nação francesa que é de facto um elemento central da continuidade dinástica dos Capetianos.

Os dois principais textos do século IX que retratam o Carlos Magno real, a Vita Caroli Magni de Éginhardo e a Gesta Karoli Magni atribuída a um monge de Saint-Gall Notker le Bègue, igualam as lendas e mitos enumerados nos séculos seguintes: «Há o Carlos Magno da sociedade vassálica e feudal, o Carlos Magno da Cruzada e da Reconquista, o Carlos Magno inventor da Coroa de França ou da Coroa Imperial, o Carlos Magno mal canonizado mas tido como verdadeiro santo da igreja, o Carlos Magno da boa escola».[11]

Contexto[editar | editar código-fonte]

Carlos Magno é o mais ilustre representante dos soberanos da dinastia carolíngia, à qual deu o seu nome. Neto de Carlos Martel, é filho de Pepino, o Breve e de Berta de Laon dita a "Grande Pia".

Problemas relativos ao seu nascimento[editar | editar código-fonte]

A data e o local de nascimento são objeto de controvérsia, devido à ausência de registos concordantes nos documentos da época.

Data de nascimento[editar | editar código-fonte]

A data mais provável para o nascimento de Carlos Magno pode ser inferida a partir de uma série de fontes. A data de 742 pode ser calculada a partir da informação de Eginhardo sobre a morte de Carlos em janeiro de 814 aos 72 anos, mas ela tem a deficiência de localizar o nascimento antes do casamento de seus pais, que teria sido em 744. O ano que aparece nos Annales Petaviani como sendo 747 seria mais provável se não contradissesse Eginhardo e outras fontes ao alegar que Carlos seria menos do que septuagenário. Um calendário da Abadia de Lorsch afirmam que teria sido o dia 2 do mês de abril[12] .

Em 747, esta data caiu na Páscoa, uma coincidência que certamente seria lembrada, mas não foi. Se a Páscoa estivesse sendo usada como o início do ano-calendário, então 2 de abril de 747 pode ter sido, pelos padrões modernos, 2 de abril de 748 (que não caiu na Páscoa). A data que se suporta melhor pelas evidências é 2 de abril de 742, baseando-se principalmente pelo fato de Carlos ser um septuagenário quando morreu[13] . A conclusão de que Carlos seria um filho ilegítimo (pela data do casamento de seus pais) não é, contudo, sustentada por Eginhardo.

Local de nascimento[editar | editar código-fonte]

O lugar de nascimento de Carlos Magno não é mencionado em nenhuma fonte do seu tempo. O indicação mais antiga, relativa a Ingelheim am Rhein, vem de Godofredo de Viterbo (autor italiano do século XII) e é mantida por alguns autores.[quem?]

Outro lugar de nascimento considerado é Quierzy-sur-Oise, que é uma antiga casa de campo real merovíngia no Aisne, entre Noyon e Chauny. Os seus pais casaram-se lá. Esta pequena cidade foi entre 600 e 900, a capital do Reino Franco. Muitos eventos ocorreram lá, incluindo três conselhos.

De acordo com outros historiadores, Carlos Magno estabeleceu na Australásia, particularmente na atual região de Liège, em Herstal ou Jupille, residência mais frequente de Pepino, o Breve e alguns ancestrais dos carolíngios, incluindo Pepino de Herstal, o pai de Carlos Martel

Aquisgrano também foi considerada com possível local de nascimento.

Infância e juventude[editar | editar código-fonte]

Eginhardo nos conta sobre os primeiros anos da vida de Carlos Magno:[14] :

Seria tolo, eu acho, escrever uma palavra sobre o nascimento e infância de Carlos, ou mesmo sobre a sua meninice, pois ainda jamais se escreveu sobre o assunto e não há ninguém vivo agora que possa dar alguma informação sobre o assunto. Assim, eu afirmo que este período é desconhecido e que passo logo a descrever seu caráter, seus atos e outros fatos de sua vida que merecem ser contados, sendo que primeiro farei um relato sobre seus atos em casa e no estrangeiro, depois sobre seu caráter e objetivos, terminando com sua administração e sua morte, sem omitir nada que mereça ser contado ou que seja necessário saber.

Portanto, as informações sobre o seu nascimento são escassas. Carlos Magno é pela primeira vez mencionado num diploma de 760 sobre a abadia de Saint-Calais. No que concerne ao período de reinado de seu pai, sabe-se que Carlos Magno integrou uma série de acontecimentos. Ele encabeçou a delegação que acolheu o Papa Estevão III em Champanhe em 754, e foi consagrado pelo Papa juntamente com seu irmão Carlomano. Ele participou numa operação na Aquitânia em 767-768 e estava com a sua mãe na procissão que trazia Pepino, o Breve para St. Denis. No que concerne à sua educação, concorda que não aprendeu a escrever enquanto jovem. Mas talvez seja apenas a caligrafia, e não a escrita básica. Contudo, sabe ler e conhece o latim. A sua língua materna é a da Francónia.

Reinado precoce: com Carlomano (768-771)[editar | editar código-fonte]

Carlos Magno fica ocupado pelos assuntos da Aquitânia (veja abaixo), os quais ele consegue resolver sem a ajuda de seu irmão.

De seguida, vem a questão dos casamentos Lombardos, que ocupam os anos de 769-771.

Os mais poderosos cargos entre os francos, o prefeito do palácio (Maior Domus) e um ou mais reis (rex ou reges) eram apontados através de eleição popular, ou seja, sem uma regularidade, mas conforme a necessidade aparecia de eleger oficiais ad quos summa imperii pertinebat - "a quem os assuntos de estado eram pertinentes". Evidentemente, decisões durante este ínterim poderiam ser tomadas pelo papa, e seriam depois ratificadas pela assembleia do povo, que se reunia uma vez por ano[15] .

Antes que Pepino, o Breve, inicialmente um prefeito, fosse eleito rei em 750, ele manteve o cargo "como se fosse hereditário" (velut hereditario fungebatur). Eginhardo explica que "a honra" era geralmente "dada pelo povo" aos mais distintos, mas Pepino e seu irmão, Carlomano, a receberam por hereditariedade, assim como pai deles, Carlos Martel. Havia, porém, uma certa ambiguidade sobre esta "quase-herança". O cargo era tratado como uma propriedade conjunta: uma prefeitura mantida pelos dois irmãos em conjunto[16] . Cada um, porém, tinha sua própria jurisdição geográfica. Quando Carlomano decidiu renunciar para se tornar um monge beneditino em Monte Cassino[17] , a questão sobre o que fazer com a sua "quase herança" foi resolvida pelo papa. Ele converteu a prefeitura em um reinado e premiou Pepino com a posse conjunta das propriedades de Carlomano. Além disso, Pepino agora ganhara o direito de passar suas posses adiante por herança[18] .

Esta decisão não foi aceite por todos os membros da família real. Carlomano havia consentido na guarda temporária de sua parte, que ele pretendia passar para o seu próprio filho, Drogo. Pela decisão do papa, sobre a qual é possível enxergar a influência de Pepino, Drogo foi desqualificado como herdeiro em favor de seu primo Carlos. Ele foi às armas em oposição à decisão e foi acompanhado por Grifo, um meio-irmão de Pepino e Carlomano, a quem havia sido dada uma parte da herança de Carlos Martel (que lhe fora dele roubada) e era mantido quase aprisionado por seu meio-irmão após uma tentativa de tomar as suas heranças pela força. Por volta de 753, o assunto estava resolvido: Grifo perecera em combate na Batalha de Saint-Jean-de-Maurienne, enquanto que Drogo fora caçado e aprisionado[19] .

Com a morte de Pepino, em 24 de setembro de 768, o reinado passou conjuntamente para seus filhos, "com o apoio divino" (divino nutu)[18] . De acordo com sua a Vita, Pepino morreu em Paris. Os francos, "em assembleia geral" (generali conventu) deram a ambos o título de rei (reges), mas "dividiram o todo do reino igualmente" (totum regni corpus ex aequo partirentur). Os Annales[20] contam uma versão diferente: o rei morreu em St. Denis que é, porém, parte da França. Os dois "lordes" (domni) foram "elevados ao estatuto de rei" (elevati sunt in regnum), Carlos no dia 9 de outubro, em Noyon, e Carlomano numa data desconhecida em Soissons. Se Carlos de fato nasceu em 742, ele tinha 26 anos de idade, já tendo participado de diversas campanhas ao lado do seu pai - o que ajuda a entender o seu gênio militar. Carlomano teria somente 17 anos.

O linguajar utilizado em ambos os casos sugere que não houve "duas heranças", o que teria criado dois reinos distintos governados por dois reis, mas uma única herança e um reinado conjunto mantido por dois reis iguais entre si, Carlos e seu irmão Carlomano. Como antes, jurisdições separadas foram conferidas a cada um deles. Carlos recebeu a parte original de Pepino como prefeito: as bordas do reino, margeando o mar, nominalmente a Nêustria, a Aquitânia ocidental e a parte norte da Austrásia, enquanto Carlomano recebeu a parte originalmente pertencente ao seu tio, mais as internas: a parte sul da Austrásia, a Septimânia, a Aquitânia oriental, a Borgonha, a Provença e a Suábia, além das terras na fronteira com a Itália. A questão sobre se estas jurisdições eram heranças conjuntas que reverteriam para o outro se um deles viesse a morrer ou se seriam herdadas pelos descendentes do morto jamais foi satisfatoriamente resolvida pelos francos. Em 771, depois de pouco mais de três anos de governo e relativa paz entre os dois irmãos, Carlomano morreu de repente no palácio carolíngio de Samoussy[21] perto de Laon. Imediatamente após a sua morte, Carlos aproveita o seu reino, usurpando a herança de seus sobrinhos. A viúva de Carlomano, Gerberga, fugiu para a Itália com o rei dos lombardos, com seu filho e alguns apoiantes.

Carlos é agora governante de todo o reino franco.

As condições de expansão territorial[editar | editar código-fonte]

O reino franco em 768 e o seu ambiente[editar | editar código-fonte]

O reino incluía os territórios solidamente mantidos pelos Francos: Austrásia, Nêustria, Borgonha, Provença, Alemania, e os territórios semi-autónomos: a Aquitânia (com a Gasconha e a Septimania), a Baviera e a Frísia.

Fora do reino, encontravam-se:

  • do outro lado do Canal da Mancha, os reinos anglo-saxões;
  • na península bretã, as chefias bretãs;
  • do outro lado do Pirenéus, a Espanha muçulmana, ocupada desde 756 pelo Califado Omíada de Córdoba, e nas Astúrias, o reino cristão de Oviedo;
  • do lado de lá dos Alpes, o reino dos Lombardos, os Estados Pontíficies ( criados por Pepino, o Breve), o ducado lombardo de Benevento, as possessões bizantinas ( Nápoles, Púglia, calábria); mas Bizâncio teve de deixar o Exarcado de Ravena cair nas mãos dos Lombardos em 751;
  • do lado de lá do Reno, entre o mar do Norte, o Elba, e o Fulda, encontra-se Saxe, país «bárbaro» sem estrutura politica forte.

Os mais distantes: os Escandinavos da Dinamarca; os Eslavos (Veletos, Obotritas), do lado de lá do Elba; os Ávaros (semi-nómadas turcomanos) na Panónia.

O império bizantino na Ásia perdeu muito território devido à expansão árabo-muçulmana; em geral, as relações dos Bizantinos com os Francos seriam bastante tensas. O império muçulmano, na Ásia e em Africa, era dirigido pelo califado dos Abassídas, com o qual, pelo contrário, as relações eram muito boas, na ausência de hostilidade religiosa, enquanto havia uma disputa religiosa com Bizâncio.

O papado está sempre sob tutela do Império Bizantino. No entanto, encurralado pela sua luta contra o império muçulmano, o Basileu não tem mais meios de proteger Roma ameaçada pelos Lombardos. O papado vira-se cada vez mais para os Francos[22] , em particular para a família carolíngia que sustêm os papas desde a época de Carlos Martel.

A organização política do reino franco[editar | editar código-fonte]

No reino franco, os poderosos ( principalmente os duques, condes e marqueses) acolhiam homens livres que educavam, protegiam e alimentavam. A entrada nestes grupos fazia-se numa cerimónia de recomendação: estes homens tornavam-se guerreiros domésticos ligados à pessoa do senhor. O senhor devia entreter esta clientela através de doações para manter a sua fidelidade. [23]

A moeda de ouro tornou-se rara devido à distensão das ligações comerciais com Bizâncio (que perdeu o controlo do Mediterrâneo ocidental em favor dos muçulmanos). A riqueza dificilmente pode vir da guerra. O que leva a saque e permite eventualmente conquistar terras que podem ser redistribuídas. [24] Na ausência de expansão territorial, os laços vassálicos distendem-se. Para se sustentar, o poder deve entender-se. Desde gerações, os Pipinidios estenderam assim os seus domínios, e os seus condes, enriqueceram-se, cederam terras aos seus próprios vassalos. Carlos Martel e Pepino, o Breve mostram à Igreja uma grande parte de sus bens para os atribuir aos vassalos. Isto permite-lhes aos mesmo tempo estabilizar as suas conquistas, e ter os meios para estar à cabeça de um exército sem igual no Ocidente medieval[25]

Carlos Magno tem o mesmo problema: deve estender-se em permanência para entreter os seus vassalos e evitar a dissolução das suas possessões. Durante todo o seu reinado, ele tenta fidelizá-los por todos os meios: fazendo-os jurar por demarcação de terras (única riqueza na época) que elas devem ser-lhe restituídas pela sua morte, enviando missi dominici para os controlar e para fiscalizar o que acontece no seu império[26] .

O exército e a guerra na época de Carlos Magno[editar | editar código-fonte]

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O principio fundamental do exército de Carlos Magno que permanece o do exército franco: era composto por homens livres que tinham o direito e o dever de frequentar o exército ( incluindo os territórios recentemente conquistados). O exército podia ser convocado todos os anos durante a guerra (primavera-verão). De facto nos 46 anos de reinado de Carlos Magno, só dois anos é que ele não convocou o exército (790 e 807).

Os historiadores estimam os efectivos potencialmente mobilizados de 10 000 a 40 000 homens.

Concretamente, a cada ano uma assembleia de grandes do reino, deveria representar todos os povos livres, vulgarmente chamados senhores do campo de maio; esta assembleia tomava diversas decisões ( ou melhor: subscrevia as decisões do rei) e em particular a de lançar uma expedição contra um inimigo em particular. Esta decisão era difundida pelos interessados, fosse pelos vassalos diretos do rei com os seus dependentes, fosse pelos condes, bispos e abades com os moradores da sua jurisdição. Cada guerreiro mobilizado devia transportar o seu equipamento e os seus víveres para três meses[27] e apresentar-se no ponto de reunião do exército (ou dos diferentes corpos previstos).

As forças mobilizadas dividiam-se em cavalaria pesada, cavalaria ligeira e infantaria. O exército de Carlos Magno não parece utilizar muito material técnico, em particular nas poucas cidades em que existiam (Pavía, Saragoça, Barcelona...).

Além disso, Carlos Magno dispunha de um certo numero de guerreiros dependentes diretamente dele, que formavam a sua guarda, e que podiam ser utilizados para operações urgentes.

Durante as três primeiras décadas do reinado de Carlos Magno, o território do reino aumenta consideravelmente, embora de forma mais ou menos sólida: integração completa dos duques da Aquitânia e da Baviera; conquista do reino dos Lombardos (774), de Saxe, alguns territórios na Espanha, as possessões bizantinas e nos países eslavos; expedições contra os Ávaros e os Bretões.

A consolidação e o alargamento do território[editar | editar código-fonte]

Rebelião na Aquitânia[editar | editar código-fonte]

Uma herança nos países que estavam anteriormente sob o direito romano (ius) representava não apenas transmissão de propriedades e privilégios, mas também as obrigações e adversidades vinculadas a ela. Pepino, ao morrer, estava construindo um império, uma tarefa muito difícil[28]

Naquele tempo, construir um reino agregando pequenos territórios não era em si algo difícil... Mas mantê-lo intacto após ter se formado era uma tarefa colossal.... Cada um dos estados menores... tinha sua "pequena soberania"... que ... se dedicava principalmente a.... conspirar, pilhar e lutar.

Formação da Nova Aquitânia[editar | editar código-fonte]

Beato Carlos Magno
Relicário do Beato Carlos Magno
Nascimento 2 de abril de 742 (?) em Liège
Morte 28 de janeiro de 814 (71 anos) em Aachen
Veneração por Igreja Católica (Alemanha e França)
Beatificação 814, Aachen por um bispo da crote, posteriormente confirmado pelo papa Bento XIV[29]
Canonização 1166 por Antipapa Pascoal III[29]
Principal templo Catedral de Aachen
Festa litúrgica 28 de janeiro (Aachen e Osnabrück)
Atribuições Flor de lis; Águia Alemã
Padroeiro Amantes (lícitos e ilícitos), crianças na escola, Reis da França e da Alemanha, cavaleiros, pessoas no cadafalso, cruzados
Gloriole.svg Portal dos Santos

A Aquitânia, sob o jugo romano, compreendia o sul da Gália, que era romanizada e falava a língua românica. De forma similar, a Hispânia havia sido povoada por povos que falavam diversas línguas, incluindo o celta, mas que era agora povoado inteiramente por falantes do românico. Entre a Aquitânia e a Hispânia estavam os Euskaldunak, romanizados como vascões ou bascos[30] , vivendo no País Basco, a "Vascônia", que se estendia por um território que estava em acordo com a distribuição dos topônimos atribuíveis aos bascos, principalmente na parte oriental dos Pirenéus, mas também mais ao sul, chegando ao rio Ebro, na Espanha, e ao norte, até o Garone, na França[31] . O nome francês, Gasconha, é derivado de "Vascônia".

Após a queda dos romanos, os visigodos os substituíram na Espanha e pelos francos e visigodos ao norte. Embora eles tivessem a autoridade estatal, estas tribos germânicas se assentaram de forma tênue, para dizer o mínimo. Elas não mantiveram a sua linguagem por muito tempo e acabaram assimiladas pelas populações falantes do românico que ali existiam. O românico ainda era falado em Toulouse e nas redondezas para o oriente, até o Ebro. As autoridades da região mantinham relações com os bascos, que eram combativos como sempre, e mantinham a vantagem na região. Eles começaram a atacar e pilhar ao norte e leste de suas fronteiras num território que já era governado pelos merovíngios, tomando escravos ao norte para vender ao sul. Exército após exército foi enviado pelos francos e, quando os bascos não conseguiam derrotá-los, eles recuavam para as montanhas. Em 635 d.C., uma coluna franca sob Arneberto foi massacrada em Haute Sole, um vale alpino[32] .

Por volta de 660 d.C., o ducado da Vascônia, foi unido sob ordens do Duque de Aquitânia para formar um reino único sob Félix de Aquitânia a partir de Toulouse. Este seria um reinado conjunto com Lupus I, de apenas 28 anos, o rei basco[33] . O reino era independente e soberano. Por outro lado, a Vascônia desistiu de suas atitudes predatórias para passar a atuar na política europeia. Contudo, arranjos que Félix havia feito com os agora fracos merovíngios se mostraram inúteis e inválidos. Ao morrer, em 770, a propriedade conjunta reverteu inteiramente para Lupus. Como os bascos não tinham nenhuma lei sobre a herança conjunta, apesar de praticarem a primogenitura, Lupus foi, de fato, o fundador da dinastia hereditária dos reis bascos e de uma Aquitânia expandida[34] .

Aquisição da Aquitânia pelos carolíngios[editar | editar código-fonte]

As crônicas latinas sobre o final do Reino Visigótico deixam muito a desejar: a identificação de personagens, várias lacunas e numerosas contradições[35] . As fontes sarracenas, porém, apresentam uma visão mais coerente, como a Ta'rikh iftitah al-Andalus ("História da conquista de al-Andalus") por Ibn al-Qūṭiyya, "o filho de uma mulher goda", onde a citada Sarah seria a neta do último rei de toda a Hispânia visigoda, que se casou com um sarraceno. Ibn al-Qūṭiyya, que tinha outro nome muito muito mais longo, certamente confiava, em algum grau, na tradição oral desta família. Se todos os reinos foram destruídos pela invasão dos sarracenos, então Rodrigo parece ter reinado por uns poucos anos antes da maioridade de Áquila. O reinado deste último, por sua vez, pode ser localizado com alguma segurança no noroeste da península, enquanto que Rodrigo parece ter reinado no resto, notadamente em Portugal.

De acordo com ele[36] , o último rei visigodo de uma Hispânia unida morreu antes que seus três filhos, Almundo, Rômulo e Arbasto, chegassem à maioridade. A mãe deles era regente em Toledo, mas Rodrigo, o "ministro" do exército, deu um golpe militar e capturou Córdova. De todos os possíveis desfechos, ele escolheu impor um governo conjunto dos três herdeiros verdadeiros sobre diferentes jurisdições. A evidência de uma divisão de alguma forma pode ser encontrada na distribuição das moedas cunhadas com o nome de cada rei e também nas listas reais[37] . Vitiza foi sucedido por Rodrigo, reinando sete anos e meio, e um tal Áquila, que reinou por três anos e meio.

Áquila é indubitavelmente Áquila II das moedas e das crônicas, que as crônicas afirmam ser filho de Vitiza. Como ele entra na árvore genealógica da família da mulher goda é um problema. Um erro de cópia na transmissão do manuscrito de seu filho já foi proposto: "w.q.l.h" ("Waqla") se tornaria "r.m.l.h" ("Rumulu") - o árabe, assim como o hebraico, escreve apenas as consoantes. Ardabasto é geralmente identificado como sendo Ardo, o rei da Septimânia (713-720)[38] . A localização da parte de Almundo ("Olemundo"?) não foi preservada, mas que ele certamente tinha uma é um fato que se infere pelos eventos seguintes.

No relato, um mercador cristão, Juliano, deixou a sua filha sob a guarda de Rodrigo (a mãe havia morrido recentemente) enquanto ele viajava a negócios a pedido de Rodrigo no Norte da África. Quando ele retornou, ele descobriu que sua filha havia sido seduzida por Rodrigo. Fingindo não se importar e aceitar o evento, ele convenceu Rodrigo a enviá-lo em outra viagem. Chegando ao destino, porém, ele foi diretamente a Tárique e o convenceu a invadir al-Andalus. No caminho, o profeta Maomé teria aparecido para Tárique num sonho e estimulado-o a continuar. Quando os sarracenos desembarcaram no sul da Espanha, Rodrigo, que tinha se estabelecido em Córdova, procurou os três filhos de Vitiza pedindo por ajuda na defesa comum. Os três vieram, mas não chegaram sequer a entrar na cidade, enviando um emissário a Tárique ao invés disso para afirmar que Rodrigo não era melhor do que um cão e oferecendo sua submissão e ajuda em troca de manterem suas terras ancestrais e seus privilégios[39] . A oferta foi aceita e Rodrigo foi derrotado na Batalha de Guadalete. Não fica claro se os reis visigodos lutaram contra ele ou apenas evitaram ajudá-lo. "Pressionado pelas armas, ele se atirou na água e nunca mais foi encontrado".

Os três reis viajaram então até Damasco para confirmar a sua submissão[40] : "Áquila foi nomeado rei dos godos, mas em 714 ele viajou com os seus irmãos para Damasco e vendeu o reino para o califa Walid I (r. 705-715) por terras e dinheiro". Ardo continuou como um rei-cliente na Provença. Com a morte de Almundo, ele se apoderou da parte dele contra a vontade de seus herdeiros, que foram até a Síria para apelar ao califa. Os sarracenos rapidamente tomaram partido e atacaram Ardo, contudo os herdeiros também jamais recuperaram as suas terras. Um deles se tornou um bispo cristão e a menina, Sarah, aceitou se casar com um sarraceno, entrando para a história como "a mulher goda" da crônica de Ibn al-Qūṭiyya, com um papel importante na Espanha moura.

Os sarracenos atravessaram as montanhas dos Pirenéus para capturar a Septimânia de Ardo e lá encontraram a dinastia basca da Aquitânia, sempre aliada dos godos. Odo, o Grande da Aquitânia foi a princípio vitorioso na Batalha de Toulouse (ou de Bourdeaux) em 721[41] . As tropas sarracenas gradualmente se acumulavam na região e, em 732, avançaram sobre a Vascônia, derrotando Odo na Batalha do Rio Garonne. Eles tomaram Bordeaux e estavam avançando em direção a Tours quando Odo, incapaz de pará-los, apelou ao seu arqui-inimigo, Carlos Martel, o prefeito dos francos. Em uma das marchas-relâmpago que fariam a fama dos reis carolíngios, Carlos e seu inimigo cruzaram o caminho do inimigo entre Tours e Poitiers, resolvendo definitivamente a questão na famosa Batalha de Tours, parando ali o avanço sarraceno na Europa. Os mouros foram derrotados de forma tão conclusiva que eles recuaram para além das montanhas, jamais retornando, deixando a Septimânia como parte da Frância. Odo pagou o preço e terminou com suas posses incorporadas ao reino de Carlos, uma decisão que era repugnante para ele e para os seus herdeiros.

Perda e recuperação da Aquitânia[editar | editar código-fonte]

Após a morte de seu filho, Hunaldo se aliou com o Reino Lombardo, uma violação da soberania da Frância. Porém, Odo havia deixado o reino de forma ambígua para os seus dois filhos "conjuntamente", Hunaldo e Hatoo. Este último, leal à Frância, entrou em guerra com o irmão para se apoderar do reino todo. Vitorioso, Hunaldo cegou e aprisionou o irmão, mas se sentiu tão mal com o ato que renunciou e entrou para uma igreja como monge para se penitenciar[42] . Seu filho, Waifer recebeu a herança adiantada e se tornou duque da Aquitânia, herdando também a aliança com os lombardos. Waifer decidiu honrá-la, repetindo a traição do pai, o que ele justificou argumentando que quaisquer acordos com Carlos Martel teriam se invalidado com a sua morte. Como a Aquitânia agora era herança de Pepino, ele e seu filho, o jovem Carlos, caçaram Waifer, que só tinha condições de conduzir uma guerra de guerrilha, e o executaram[43] .

Entre os contingentes do exército franco estavam bávaros sob Tassilo III, duque da Bavária, um membro da família Agilofing, herdeiros da família real bávara. Grifo tinha se instalado como duque, mas Pepino o substituiu por um membro da família real, Tassilo, que ainda era um infante, e se tornou o protetor do garoto após a morte de seu pai. A lealdade dos Agilofings sempre foi uma dúvida, mas Pepino conseguiu extrair diversos juramentos de lealdade de Tassilo. Porém, ele se casou com Liutperga, uma filha de Desidério, rei dos lombardos. Num momento crítico da campanha, Tassilo, com todos os seus bávaros, abandonaram a batalha. Fora do alcance de Pepino, ele repudiou a lealdade à Frância[44] . Pepino não teve chance de responder, pois ficou doente e, depois de algumas semanas da execução de Waifer, faleceu.

O primeiro evento do reinado dos irmãos foi a rebelião da Aquitânia e da Gasconha, em 769, no território agora divido entre os dois reis. Anos antes, Pepino já havia suprimido a revolta de Waifer e agora um outro Hunaldo, diferente do anterior, liderou os exércitos da Aquitânia até chegar em Angoulême. Carlos se encontrou com Carlomano, mas ele se recusou a participar, retornando para a Borgonha. Carlos foi à guerra liderando um exército até Bourdeaux, onde ele montou uma fortaleza em Fronsac. Hunaldo foi forçado a fugir para a corte do duque Lop II da Gasconha (ou Lupus). Este, temendo Carlos, entregou Hunaldo em troca da paz. O rebelde foi colocado num mosteiro e a Aquitânia finalmente se submeteu completamente à Frância.

Em 781, Luís é coroado em Roma rei da Aquitânia. Este reino da Aquitânia permanece na mesma até à chegada do império de Luís em 814, com duas dependências: o ducado da Gasconha, no sul da Garona, onde Sancho Lopo sucedeu a Lupo II; o condado da Septimania (Narbona, Carcassona), dirigido pelo conde Milo, um visigodo e depois por Guilherme de Tolosa, conde de Toulouse e marquês da Septimania a partir de 790 em diante.

A Itália[editar | editar código-fonte]

De todas as guerras de Carlos Magno aquelas em que ele se envolveu contra os Lombardos são as mais importantes pelas consequências politicas e são também aquelas onde se demonstra mais claramente a ligação intimamente ligada à conduta de Carlos, ao seu pai. A aliança com a cúria romana exigida, não só no interesse do país, mas mesmo do rei dos Francos. Pepino, o Breve esperava, no fim do seu reinado, um acordo pacifico com os Lombardos. Em 770, Carlos assinou um tratado com o duque Tassilo III da Bavária e se casou com uma princesa lombarda (geralmente conhecida como Desiderata), filha do rei Desidério, para cercar Carlomano com seus aliados. Embora o papa Estêvão III a princípio tenha sido contrário ao casamento com a princesa lombarda, ele logo perceberia que nada tinha a temer de uma aliança franco-lombarda. Os Lombardos continuaram a atacar Roma e o seu rei conjecturou intrigas perigosas com o duque da Baviera e a propria irmã de Carlos.

Em 773, Carlos Magno interveio na demanda do papa contra Desisério. O exército franco atravessou os Alpes durante o verão de 773, cercou Pavía (setembro) e ocupa assim facilmente o resto do reino lombardo. Pavia esfomeada e vitima de epidemias cai em 774. Carlos Magno adquire ele próprio o titulo de rei dos Lombardos Gratia Dei Rex Francorum et Langobardorum (« rei dos Francos e dos Lombardos pela graça de Deus») a 10 de julho de 774 enquanto que certos historiadores afirmam que ele foi proclamado rei pelo arcebispo de Milão que lhe colocou a coroa de ferro lombarda na cabeça. Desidério é enviado como monge na abadia de Corbie, o resto da sua familia é também neutralisada, à excepção de Adalgis que se refugiou em Constantinopla. O ducado de Espoleto subemete-se à dominação franca e aceita como duque um protegido do papa, Hildebrando. O ducado de Benevento permanece nas mãos de Arigis, genro de Desidério, mas deve fornecer reféns, em particular o seu filho Grimoaldo que será elevado na corte. Em 776, os Francos conquistam o ducado do Friul.

Menos de um ano após seu casamento, Carlos Magno repudiou Desiderata e rapidamente se casou novamente com uma garota suábia de 13 anos chamada Hildegarda. A esposa repudiada voltou para a corte de seu pai em Pávia. Os lombardos, furiosos, teriam se aliado com Carlomano, agora rebaptizado Pepino, que é coroado em Roma rei de Itália, titulo que não corresponde a um Estado formal; por seguinte, Pepino assume sob o controlo de Carlos Magno a função de rei dos Lombardos. A principal personalidade do reino é Adalardo, primo de Carlos Magno. Os problemas são assim numerosos: as relações com Arigis e com os bizantinos.

Assim, o Estado lombardo, desde o nascimento tinha posto um fim à unidade politica de Itália, atraindo sobre ela, moribunda, a conquista estrangeira. Ela não era mais doravante que um apêndice da monarquia franca da qual não se devia separar, no fim do século IX, para cair rapidamente sob domínio alemão. Devido a um reverso completo do sentido da história, ela que tinha anexado o norte da Europa era mentida anexada por ele; e este destino não está num sentido que uma consequência das mudanças politicas que a tinham transportado do Mediterrâneo para o norte da Gália, o centro da gravidade do mundo ocidental.

E portanto, é Roma, mas a Roma dos Papas, que decide a sua sorte. Não vemos o interesse que teria empurrada os Carolíngios a atacar e conquistar o reino lombardo se a sua aliança com o papado não os obrigasse. A influência da igreja, libertada da tutela de Bizâncio, vai doravante exercer sobre a politica da Europa, aparece aqui pela primeira ás claras. O Estado não pode doravante separar-se da Igreja. Entre ela e ele forma-se uma associação de serviços mútuos que, misturando-os sem deixar um ou outro, misturando assim as questões espirituais com questões temporais e fazia da religião o factor essencial na ordem politica. A reconstituição do Império Romano, em 800, é a manifestação definitiva de esta citação nova e a garantia da sua duração futura[45]

A Saxónia[editar | editar código-fonte]

Do lado de lá do Reno, um poderoso povo conservava agora, com a sua independência, a fidelidade ao velho culto nacional: os Saxões, repartidos entre quatro grupos (Westphales, Ostphales, Agrivarii, Nordalbingiens) e estabelecidos entre o Ems e o Elba, desde as costas do Mar do Norte até ás montanhas do Harz.

Ascendência[editar | editar código-fonte]

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16. Ansegisel
 
 
 
 
 
 
 
8. Pepino de Herstal
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
17. Begga de Landen
 
 
 
 
 
 
 
4. Carlos Martel
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
18. Childebrando da Saxônia
 
 
 
 
 
 
 
9. Alpaida
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
19.
 
 
 
 
 
 
 
2. Pepino, o Breve
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
20. Guerin, conde de Paris
 
 
 
 
 
 
 
10. Santo Lievin, Conde de Trier
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
21. Gunza de Trêves
 
 
 
 
 
 
 
5. Rotrude de Trier
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
22.
 
 
 
 
 
 
 
11. Guilgarda de Worms
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
23.
 
 
 
 
 
 
 
1. Carlos Magno
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
24.
 
 
 
 
 
 
 
12.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
25.
 
 
 
 
 
 
 
6. Cariberto de Laon
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
26. Teodorico III da Nêustria
 
 
 
 
 
 
 
13. Berta de Prum
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
27. Santa Clotilde de Herstal
 
 
 
 
 
 
 
3. Berta de Laon
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
28. Teodo V da Baviera
 
 
 
 
 
 
 
14. Grimualdo da Baviera
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
29. Regintrude da Baviera
 
 
 
 
 
 
 
7. Berta da Beviera
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
30. Dagoberto I da Austrásia
 
 
 
 
 
 
 
15. Biltrude da Baviera
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
31. Nanthilde da Austrásia
 
 
 
 
 
 

Vida[editar | editar código-fonte]

Carlos Magno e o Papa Adriano I.

Carlos Magno foi o filho mais velho de Pepino, o Breve[46] , que foi o primeiro rei carolíngio, e de Berta de Laon. Foi irmão de Lady Berta, mãe de Rolando, marquês da Bretanha. Sua ascendência paterna chega até Arnulfo de Metz, um bispo cuja filiação é incerta.

Pepino, o Breve empossou o monopólio da cunhagem da moeda, decidindo sobre a atividade das casas de cunhagem, o peso das moedas, o seu valor e os caracteres representados.

A cunhagem de moeda na Europa foi, pois, reiniciada com Pepino, o Breve, que recuperou o sistema utilizado pelos antigos gregos e romanos e mantido no Império Romano do Ocidente (1 libra = 20 solidi = 240 denarii).

Com a morte de Pepino, o reino foi dividido entre Carlos Magno e o seu irmão Carlomano (que governou a Austrásia). Carlomano morreu em 5 de Dezembro de 771, deixando Carlos Magno como líder de um reino Franco reunificado. Carlos Magno esteve envolvido constantemente em batalhas durante o seu reinado. Conquistou a Saxónia no século VIII, um objetivo que foi o sonho inalcançável de Augusto. Foram necessários mais de dezoito batalhas para que Carlos Magno conseguisse esta vitória definitiva. Procedeu à conversão forçada ao cristianismo dos povos conquistados, massacrando os que se recusavam a converter-se. Um dos seus objetivos era, também conquistar a Península Ibérica, mas nunca o alcançou.

Em 25 de dezembro de 800, durante a missa de Natal em Roma, o Papa Leão III coroou Carlos Magno como imperador[46] , título em desuso no ocidente desde a abdicação de Rómulo Augusto em 476 (aproveitando o facto de então reinar no Oriente uma mulher, a imperatriz Irene de Atenas, o que era considerado um vazio de poder significativo). Ainda que o título o ajudasse a afirmar a sua independência em relação a Constantinopla, Carlos Magno apenas o usou bastante mais tarde, já que receava ficar dependente, por outro lado, do poder papal.

Continuando as reformas iniciadas pelo seu pai, Carlos Magno avançou com um sistema monetário baseado no soldo de ouro - procedimento seguido também pelo rei Offa de Mércia. Instituiu um novo padrão monetário a partir de unidades de medida como a libra e o próprio soldo que eram, até à data, apenas unidades de medida (apenas o denier se manteve como uma das moedas do seu domínio). Note-se que o sistema monetário inglês antes da decimalização tem semelhanças com este: efetivamente, a libra inglesa (pound) valia 20 xelins (analogamente aos sólidos de Carlos Magno) ou 240 pence (de forma semelhante aos deniers instituídos por este imperador).

Carlos Magno aplicou este sistema a uma grande parte do continente europeu, enquanto que o padrão de Offa foi voluntariamente adaptado pela maior parte do território inglês.

Reforma na educação[editar | editar código-fonte]

Autógrafo de Carlos Magno.
Ver também: Ciência medieval, Renascença carolíngia

Para unificar e fortalecer o seu império, Carlos Magno decidiu executar uma reforma na educação. O monge inglês Alcuíno elaborou um projeto de desenvolvimento escolar que buscou reviver o saber clássico estabelecendo os programas de estudo a partir das sete artes liberais: o trivium, ou ensino literário (gramática, retórica e dialética) e o quadrivium, ou ensino científico (aritmética, geometria, astronomia e música). A partir do ano 787, foram emanados decretos que recomendavam, em todo o império, a restauração de antigas escolas e a fundação de novas. Institucionalmente, essas novas escolas podiam ser monacais, sob a responsabilidade dos mosteiros; catedrais, junto à sede dos bispados; e palatinas, junto às cortes.

Essa reforma ajudou a preparar o caminho para o Renascimento do Século XII. O ensino da dialética (ou lógica) foi fazendo renascer o interesse pela indagação especulativa, dessa semente surgiria mais tarde a filosofia cristã da escolástica; e nos séculos XII e XIII, muitas das escolas que haviam sido fundadas nesse período, especialmente as escolas catedrais, ganharam a forma de universidades medievais.

Cronologia[editar | editar código-fonte]

Evolução do território franco. As conquistas de Carlos Magno estão em verde claro. Os territórios além-fronteira representados em verde são os vassalos do Império Carolíngio.

Descendência[editar | editar código-fonte]

Carlos Magno, retratado por Albrecht Dürer (c. 1512).
  • De sua primeira esposa, Himiltrude, com quem casou em 766 e cujo casamento nunca foi oficialmente anulado, teve:
  1. Amaudru, uma menina [47]
  2. Pepino o Corcunda (767-813)
  1. Carlos, o Jovem (c. 772Baviera, 4 de Dezembro de 811), foi designado rei dos Francos, casou com Juliana,
  2. Adelaide (773 ou 774-774)
  3. Pepino de Itália (773 ou 777-810), rei de Itália desde 781, teve varias amantes, cujos nomes não são totalmente conhecidos, e cuja ascendência não é igualmente totalmente conhecida. Entre as suas relações é tido como tendo casado com Berta de Toulouse, filha de Guilherme I de Toulouse[49] [50] , conde de Toulouse e de uma das suas esposas, possivelmente de Guiburga de Hornbach,
  4. Rotrude (ou Hruodrud) (777- 6 de junho de 810), manteve relações com Roricon I do Maine e dele teve dois filhos e uma filha. Rotrude terá sido monja no fim da sua vida.
  5. Luís I o Piedoso (778-840), gémeo de Lotário, rei da Aquitânia desde 781 e imperador e rei dos Francos desde 814,
  6. Lotário (778-779 ou 780), morreu jovem, foi irmão gémeo de Luís I o Piedoso,
  7. Berta de França (779-823), foi casada com Angilbert de Ponthieu,
  8. Gisela (781-808)
  9. Hildegarda (782-783)
  1. Teodrada (n.784), abadessa de Argenteuil,
  2. Hiltrude (n.787)
  • Da sua última esposa,Luitgard, com que casou em 794, e que viria a falecer em 800, não houve descendência.

Concubinas e filhos varões[editar | editar código-fonte]

  • A sua primeira concubina conhecida foi Gersuinda. Dela, teve uma filha:
  1. Adaltrude (n.774)
  • Da sua segunda conhecida concubina, Madelgarda:
  1. Ruodhaid (775-810), abadessa de Faremoutiers
  • Da sua terceira concubina, Amaltrud de Viena:
  1. Alpaida (n.794)
  • Da sua quarta conhecida concubina, Regina:
  1. Drogo (801-855), bispo de Metz desde 823
  2. Hugo (802-844), grão-chanceler do Império
  • Da sua quinta conhecida concubina, Ethelind:
  1. Teodorico (n.807)

Ver também[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui imagens e outros ficheiros sobre Carlos Magno

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Jean Subrenat, « Sur la mort de l'empereur Charlemagne » dansCharlemagne et l'épopee romane, Librairie Droz, 1978, [lire en ligne [archive]], 205
  2. McKitterick 2008, pp. 80–81.
  3. Capitulaire Karoli Divisio Regnorum, MGH, Capitularia Regum Francorum I], [lire en ligne [archive]],  126-130, et plus particulièrement col. 1 et 2,  126.
  4. Bernardine Melchior-Bonnet, Dictionnaire de la Révolution et de l'Empire, 1965, [lire en ligne [archive]],  279
  5. Papst Johannes Paul II (2004). Ansprache von seiner Heiligkeit Papst Johannes Paul II (em german). Internationaler Karlspreis zu Aachen.
  6. Robert John Morrissey, L'empereur à la barbe fleurie - Charlemagne dans la mythologie et l'histoire de France, 1997,  24
  7. Thomas Ferenczi, Pourquoi l'Europe ?, 2008,  101
  8. Élisabeth Guigou, Je vous parle d'Europe, 2004,  26
  9. Riché 1993, Preface xviii. "Personally, he enjoyed an exceptional destiny, and by the length of his reign, by his conquests, legislation and legendary stature, he also profoundly marked the history of Western Europe."
  10. Philippe Depreux, Charlemagne et la dynastie carolingienne], 2007, [lire en ligne [archive]]
  11. Jean Favier, , Librairie Arthème Fayard,‎ 1999,  11
  12. Baldwin, Stewart (2007-2009). Charlemagne. The Henry Project.
  13. Baldwin, Stewart (2007-2009). Charlemagne. The Henry Project.
  14. Einhard 1999, 4. Plan of This Work
  15. Einhard 1999, 1. The Merovingian Family
  16. Os Annales se utilizam do termo maiores domus, um plural seguido por um singular: uma casa, dois oficiais. Einhard, putative 741-829, Year 742
  17. Einhard, putative 741-829, Years 745, 746
  18. a b Einhard 1999, 3. Charlemagne's Accession
  19. Collins 1998, pp. 32–33.
  20. Einhard, putative 741-829, Year 768
  21. Michel Rouche, Clovis - Histoire et mémoire, vol. 1, Presses Paris Sorbonne, 1997,[lire en ligne [archive]],  777.
  22. Jean-Claude CheynetL'exarchat de Ravenne et l'Italie byzantine:Clio.fr [archive]
  23. Michel Balard, Jean-Philippe Genet et Michel Rouche, Le Moyen Âge en Occident, Hachette 2003, 42
  24. Philippe Norel, L'invention du marché, Seuil, 2004,  139 et Georges Duby,Guerriers et paysans, Gallimard, 1973,  69
  25. Michel Balard, Jean-Philippe Genet et Michel Rouche, Le Moyen Âge en Occident, Hachette, 2003, 45
  26. Michel Balard, Jean-Philippe Genet et Michel Rouche, Le Moyen Âge en Occident, Hachette 2003, 65-66
  27. Minois 2010
  28. Russell 1930.
  29. a b Butler, Alban. Butler’s Lives of the Saints. Allen, Texas: Thomas Moore Publishers, 1995. 188–189 p. vol. Vol. 1. ISBN 0-87061-045-7
  30. Collins 1987, p. 32.
  31. Collins 1987, p. 105.
  32. Collins 1987, p. 95.
  33. Douglas & Bilbao 2005, pp. 36–37. Lupus is the Latin translation of Basque Otsoa, "wolf."
  34. Collins 1987, p. 100.
  35. Collins 2004, pp. 130–131, "The sequence of events ... has not been assisted by the tendency of the historians to take all the information ... from all the available sources and combine it to produce a single synthetic account.... As a rule of thumb, reliability, and also brevity of narrative, are usually in direct proportion to chronological proximity."
  36. James 2009, p. 49.
  37. Collins 2004, pp. 131–132.
  38. James 2009, p. 54
  39. James & 2009 pp-51-52.
  40. Douglass & Bilbao 2005, pp. 38–39.
  41. Douglass & Bilbao 2005, p. 40.
  42. A história, contada originalmente no Annales Mettenses priores, é recontada em Freeman, Edward Augustus; Holmes, T Scott. Western Europe in the eighth century & onward. London, New York: Macmillan and Co., 1904. p. 74.
  43. Russell 1930, p. 88.
  44. McKitterick 2008, pp. 118–125.
  45. Pirenne, H. Histoire de l'Europe. Des Invasions au XVI siècle. Paris-Bruxelles: [s.n.], 1939. p. 49.
  46. a b Biografias, UOL Educação, Enciclopédia Mirador Internacional.
  47. Gerd Treffer, Die französischen Königinnen. Von Bertrada bis Marie Antoinette (8.-18. Jahrhundert) pág. 30
  48. Genealogie-mittelalter
  49. Lewis, Archibald R. University of Texas Press: Austin, 1965.
  50. Luiz de Mello Vaz de São Payo, A Herança Genética de D. Afonso Henriques, Universidade Moderna, 1ª Edição, Porto, 2002, pág. 287.


Precedido por:
ninguém
Imperador do Sacro Império
800814
Seguido por:
Luís I, o Piedoso
Precedido por:
Vago
última posse:
Chilperico
Rei da Aquitânia
768771
Precedido por:
Vago
última posse:
Pepino, o Breve
Rei dos Francos
771814
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