Segunda Guerra Civil da República de Roma

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Segunda Guerra Civil
da
República de Roma
Data 10 de janeiro de 49 a.C.
17 de março de 45 a.C.
Local República Romana: Europa, África e Ásia
Desfecho Vitória cesariana
Mudanças
territoriais
Anexação da Numídia e expansão da província romana da Ásia.
Intervenientes
Cesarianos Senado romano (Optimates)
Principais líderes
Júlio César,
Marco Antônio,
Caio Escribônio Cúrio†,
Aulo Gabínio†,
Caio Dídio
Pompeu Magno†,
Tito Labieno†,
Marco Bíbulo†,
Metelo Cipião†,
Catão o Jovem†,
Cneu Pompeu o Jovem†,
Sexto Pompeu

A Segunda Guerra Civil da República de Roma, também conhecida como Guerra Civil Cesariana, foi um conflito militar ocorrido entre 49 a.C. e 45 a.C.. Foi o confronto pessoal de Júlio César contra a facção tradicionalista e conservadora do senado, liderada militarmente por Pompeu Magno. A guerra terminou com a derrota da facção tradicionalista e a ascensão definitiva de César ao poder absoluto como ditador romano.

A crescente popularidade de César entre a plebe e o aumento do seu poder depois dos seus sucessos na Gália, fez com que os seus inimigos, influenciados por Catão o Jovem, tentaram destruí-lo politicamente. Assim, tentaram arrebatar-lhe o cargo de governador da Gália, para posteriormente julgá-lo, desencadeando uma grave crise política que inundaria de violência política as ruas de Roma.

Em 50 a.C., o senado aprovou uma moção para que César deixasse o seu cargo de governador. Marco Antônio, com o poder de tribuno da plebe, vetou a proposta. Após esta votação, teve início uma violenta perseguição a César e a seus partidários, patrocinada pela facção conservadora. Antônio havia deixado Roma diante do risco de ser assassinado. Sem a oposição do senado, Antônio declarou estado de emergência e concedeu poderes excepcionais a Pompeu. César respondeu com a famosa cruzada com suas tropas, atravessando o rio Rubicão, em direção à Itália, assim deu-se início a guerra civil.

César cruzou rapidamente a Itália e surpreendeu os constitucionalistas e pompeanos, que por falta de preparação de suas tropas, abandonaram Roma e foram para Brindisi, no sul da Itália, de onde embarcariam para a Grécia, a fim de aumentar suas forças militares. César perseguiu Pompeu mas não logrou alcançá-lo, conseguindo este último cruzar o Adriático com o seu exército e dezenas de senadores. Em menos de um mês, César chegou à Hispânia, onde derrotou as legiões fiéis à Pompeu na batalha de Ilerda. Após esta vitória, César voltou à Itália através do Adriático e para fazer frente a Pompeu na Grécia. Depois de ser derrotado na Batalha de Dyrrhachium, César enfrentou Pompeu na batalha de Farsália, conseguindo uma esmagadora vitória. Pompeu fugiu para o Egito, onde tentou encontrar aliados, porém foi assassinado. Mais tarde, César derrotou Marco Pórcio Catão Uticense, em Tapso e, finalmente, os filhos de Pompeu, na Hispânia, na Batalha de Munda.

Índice

Antecedentes [editar]

Evolução territorial do Império Romano.

Em meados do século I a.C. (século VIII ab urbe condita), após derrotar Cartago nas Guerras Púnicas e a destruir a cidade (146 a.C.), bem como da conquista da Macedônia e dos restos do Império Selêucida, e da submissão do Egito lágida à clientela romana, Roma era a maior potência da área mediterrânea. Contudo, a contínua expansão e conquista, o crescimento demográfico e econômico e a crise do modelo de Estado fragmentaram a sociedade romana, aumentando enormemente a polarização social.

O senado dividiu-se com a aparição de duas facções: os populares que representavam a facção reformista que apostava por expandir a cidadania aos novos súditos de Roma e dotar de uma maior democratização às instituições mediante o acréscimo do poder das assembleias; e os optimates, facção aristocrática conservadora que desejava limitar o poder das assembleias populares e aumentar o poder do senado. Em 91 a.C., estourou a Guerra Italiana ou Guerra Mársica entre os aliados de Roma e a própria república numa tentativa por conseguir mais direitos para os Itálicos não cidadãos romanos.

Durante a década de 80 a.C., a divisão chegou ao seu apogeu com as rivalidades, os desacordos e o confronto pessoal entre Caio Mário e Lúcio Cornélio Sula por comandar a guerra contra Mitrídates VI do Ponto. Quando Mário conseguiu através da assembleia da plebe despojar Sula de seu comando (que fora outorgado pelo senado), este deu um golpe de Estado, marchando com o seu exército para Roma.

Cicero ataca no senado o conspirador Catilina (fresco do século XIX de Cesare Maccari), no Palazzo Madama.

Foi a primeira vez na história que um cidadão romano marchava contra Roma no comando das suas legiões, quebrantando a legalidade republicana e criando um perigoso precedente para a posteridade. Sula deixou Roma por um cônsul popular e outro optimate, e marchou a livrar a Primeira Guerra Mitridática. Entretanto, Mário e os seus partidários populares retornaram e realizaram uma sangrenta repressão, instaurando um regime autocrático anticonstitucional que, após a morte de Mário, recaiu em Lúcio Cornélio Cinna.

Em 83 a.C., Sula retornou para Itália, derrotou os populares e fez-se nomear ditador, efetuando uma purga para acabar com os populares. César, sobrinho de Caio Mário e genro de Cinna, salvou-se de ser banido devido à sua condição de Flamen Dialis (alto sacerdote de Júpiter) e os laços familiares da sua mãe, pertencente à família Júlia. Sula quis em vão obrigá-la a se divorciar de Cornélia, a filha de Cinna. Revogada a sua condição sacerdotal, César partiu para Oriente, onde se iniciara uma nova guerra contra Mitrídates VI.

Após a morte de Sula, César regressou para Roma e ingressou no senado. Em 65 a.C. e em 63 a.C., tiveram lugar as duas conspirações de Catilina, descobertas e frustradas por Cícero, pelas quais Catilina supostamente visava a acabar com a legalidade constitucional e proclamar-se ditador.

Causas [editar]

O triunvirato [editar]

Durante os anos seguintes Júlio César foi progredindo na sua carreira política, sendo pontífice máximo, edil curul, e finalmente cônsul (59 a.C.). O consulado de César foi um autêntico terremoto político: criou as bases para as grandes reformas políticas, econômicas e sociais que Roma exigia, criando um corpo de leis que seria a base do direito romano e legislando uma reforma agrária para dar terras públicas às famílias mais pobres, coisa que lhe granjeou o ódio dos Optimates entre eles Catão o Jovemnota 1 e Marco Bíbulo, o seu colega consular.

Esse mesmo ano Júlio César, Cneu Pompeu e Marco Licínio Crasso formaram o chamado Primeiro Triunvirato (60-53 a.C.), uma aliança informal de ajuda mútua para ocupar os mais altos postos do Estado. Assim, após o fim do seu consulado, César recebeu poderes proconsulares e o governo da Gália Cisalpina e da Ilíria, províncias pouco povoadas e pobres. No seu primeiro ano de mandato teve de fazer face a uma enorme invasão dos Helvécios e a várias invasões de Germanos que visavam a ocupar a Itália. Numa campanha derrotou os Helvécios e os Germanos.

César estimou que organizar a província e preparar-se para a defesa era insuficiente, e com a intenção ou desculpa de terminar com as invasões do norte, iniciou a conquista da Gália. César conseguiu muitas vitórias. Duas vezes cruzaram as legiões romanas o rio Reno para retaliar os germanos pelas suas incursões e outras duas vezes cruzaram o Canal da Mancha, fazendo incursões na Britânia. Estes sucessos maravilharam a plebe, e Roma viu-se inundada de tesouros e escravos capturados nos saques e nas guerras do norte. Como contribuição para a literatura universal, César redigiu um registro das suas campanhas na Gália, o célebre De Bello Gallico, instrumento também de propaganda política para fazer a conhecer ao povo as suas conquistas.

Alguns senadores observaram com temor como César ganhava popularidade entre a plebe, ao mesmo tempo em que amassava uma grande riqueza pessoal. Os optimates criticavam as suas leis para dotar certas cidades da Gália Cisalpina e os seus soldados com a cidadania romana. Críticos de sua atuação, liderados por Catão o Jovem, homem forte dos optimates e velho inimigo de César, menosprezavam os seus sucessos e acusaram-no de cometer crimes contra a república.

Com a ascensão do triunvirato para garantir os seus interesses e o seu poder, César manteve tranquilamente o seu comando sobre a Gália. Contudo, esta aliança política desintegrou-se após a morte de Crasso na batalha de Carras durante a guerra contra o Império Parta, e da mulher de Pompeu, pela sua vez filha de César, cujo matrimônio servira como aliança entre ambos os dois. Por outro lado, os sucessos de César na Gália a longo prazo punham em perigo a fama e a influência de Pompeu em Roma.

Crise política [editar]

A Via Apia a 15 quilômetros de Roma, o local onde Clódio e Milão se encontraram cara a cara, produzindo-se uma briga entre bandos, terminando com a morte de Clódio.

Durante o consulado de Domício e Ápio Cláudio em 53 a.C., ambos os cônsules foram acusados de corrupção, após tentarem fraudar as seguintes eleições consulares, e os quatro candidatos que se apresentaram foram processados. As eleições consulares foram postergadas seis meses. O escândalo político fomentou a agitação das ruas, chegando a extremos incomuns, criando-se um verdadeiro estado de anarquia. Os clientes de Pompeu começaram a pedir a sua escolha como ditador, com o pretexto de acabar com a anarquia reinante. Estas vozes foram duramente criticada pelos constitucionalistas e Catão à frente, que apoiou Milão como contrapeso de Pompeu como cônsul. Clódio, velho inimigo de Milão, opôs-se frontalmente a este e respondeu organizando bandos nas ruas para impedir a sua candidatura e dispor do poder em Roma. Milão contra-arrestou os bandos de Clódio comprando escolas inteiras de gladiadores, o que desencadeou um estado de caos e violência desmesurada, no que os bandos organizados eram os donos de Roma, e em que as eleições consulares se voltaram a pospor. A 18 de janeiro de 52 a.C., Clódio e Milão encontraram-se cara a cara na Via Apia e, após uma brutal luta, Clódio resultou morto. Os distúrbios e crimes apoderar-se-iam de Roma, até o ponto de os enfurecidos seguidores de Clódio estabelecerem a sua pira funerária no próprio edifício senatorial, que ficaria destruído pelo incêndio.

Ante esta perspectiva, os constitucionalistas-optimates e Catão apoiaram a nomeação de Pompeu como cônsul único por um ano. Pompeu, com a ajuda dos seus legionários, varreu os bandos organizados e restabeleceu a ordem em Roma, tornando-se o homem forte da política. Todas as facções competiram pelo seu favor, enquanto conspiravam para destruir as outras, forçando a Pompeu a identificar-se com a sua causa. Pompeu, durante o seu ano como cônsul único, recebeu a oferta de César de se casar com a sua sobrinha neta Octávia, mas Pompeu a recusou e casou-se com Cornélia, filha de Metelo Cipião.

Após a vitória de César em Alésia, Célio, como tribuno, lançou uma proposta de lei adicional: César receberia o privilégio único de ser isento de acudir a Roma para se apresentar ao consulado. Esta medida supunha que os opositores e inimigos de César, que visavam a processá-lo pelos supostos crimes do seu primeiro consulado, perderiam a possibilidade de julgá-lo, pois César em nenhum momento deixaria de ostentar uma magistratura. Enquanto fosse procônsul, César teria imunidade judiciária, mas caso ficasse obrigado a entrar em Roma para se apresentar ao consulado perderia o seu cargo e, durante um tempo, poderia ser atacado com toda uma bateria de demandas.

A Curia Iulia, lugar de reunião do senado romano, mandada edificar por César durante a sua ditadura, após a destruição da Curia Hostilia pelos seguidores de Clódio.

O poder de César foi visto por muitos senadores como uma ameaça. Se César regressava a Roma como cônsul, não teria problemas para fazer aprovar leis que concedessem terras aos seus veteranos, e a ele uma reserva de tropas que superasse ou rivalizasse com as de Pompeu. Catão e os inimigos de César opuseram-se frontalmente, e o senado viu-se envolvido em longas discussões em relação ao número de legiões que deveria ostentar e acerca de quem deveria ser o futuro governador da Gália Cisalpina e Ilíria.

Pompeu finalmente inclinou-se por favorecer os constitucionalistas e emitiu um veredito claro: César devia abandonar o seu cargo na Primavera seguinte, faltando ainda meses para as eleições ao consulado, tempo suficiente para o julgar. Contudo, nas seguintes eleições para tribuno da plebe foi eleito Cúrio, que se converteu num cesariano, vetando as tentativas de separar César do seu comando nas Gálias. Juridicamente, todas as tentativas consulares de afastar César das suas tropas viam-se anuladas pela tribunicia potestas.

Caio Marcelo, cônsul em 50 a.C., entregou uma espada a Pompeu diante de grande número de senadores, encarregando-lhe ilegalmente marchar contra César e resgatar a república. Pompeu pronunciou-se em favor desta medida se chegasse a ser necessária.

No fim do mesmo ano, César acampou ameaçadoramente em Ravena com a XIII legião. Pompeu tomou o comando de duas legiões em Cápua e começou a recrutar levas ilegalmente, um fato que aproveitaram os cesarianos no seu favor. César foi informado das ações de Pompeu pessoalmente por Cúrio, que nesses momentos já finalizara o seu mandato. Enquanto isso, o seu cargo de tribuno foi ocupado por Marco Antônio, que o ostentou até dezembro.

Início da Guerra Civil [editar]

Coluna de Júlio César, no local onde ele ordenou a seu exército a marcha sobre Roma e o início da guerra civil, Rimini, Itália.

A 1 de janeiro de 49 a.C., Marco Antônio leu uma carta de César no senado, na qual o procônsul se declarava amigo da paz. Após uma longa lista das suas muitas ações, propôs que tanto ele como Pompeu renunciassem ao mesmo tempo aos seus cargos. O senado ocultou esta mensagem à opinião publica.1

Metelo Cipião ditou uma data para a qual César deveria abandonar o comando das suas legiões ou ser considerado inimigo da República Romana. A moção submeteu-se imediatamente a votação. Somente dois senadores opuseram-se, Cúrio e Célio. Marco Antônio, como tribuno, vetou a proposta para impedir que se tornasse em lei.

Rubicão [editar]

Após o veto de Marco Antônio à moção que obrigava a César abandonar o seu cargo de governador da Gália, Pompeu notificou não poder garantir a segurança dos tribunos. Antônio, Cúrio e Célio viram-se forçados a abandonar Roma disfarçados como escravos, acossados pelos bandos das ruas.

A primeira fase da guerra civil entre Júlio César e Pompeu, da passagem do Rubicão a Zela (49-47 a.C.).

A 7 de janeiro, o senado proclamou o estado de emergência e concedeu a Pompeu poderes excepcionais, transladando imediatamente as suas tropas para Roma. A 10 de janeiro de 49 a.C., César recebeu a notícia da concessão dos poderes excepcionais a Pompeu, e imediatamente ordenou que um pequeno contingente de tropas cruzasse a fronteira para sul e tomasse a cidade mais próxima. Ao anoitecer, com a Legio XIII Gemina, César avançou até o Rubicão, a fronteira natural entre a província da Gália Cisalpina e a província da Itália e, após um momento de dúvida, deu aos seus legionários a ordem de avançar e teria dito "Alea iacta est" ("A sorte está lançada").nota 2 A guerra começava. Quando soube que, recusada a intercessão dos tribunos, estes tiveram de sair de Roma, mandou avançar algumas coortes em segredo para não suscitar receios; dissimulando, presidiu um espetáculo público, ocupou-se num plano de construção para um circo de gladiadores, e entregou-se como de costume aos prazeres do festim. Mas, ao pôr-do-sol, com um pequeno acompanhamento, tomou ocultos caminhos. Ao amanhecer, encontrando um guia, prosseguiu a pé por estreitas veredas até o Rubicão, o limite da sua província, onde aguardavam as suas coortes. Deteve-se por breves momentos, e exclamou dirigindo-se aos mais próximos:

Cquote1.svg Ainda podemos retroceder, mas se cruzarmos esta ponte, tudo terá de ser decidido pelas armas. Cquote2.svg
Suetônio, "Vidas dos Doze Césares, César xxxi
Cquote1.svg Alea iacta est. Cquote2.svg
Caio Júlio César

A guerra na Itália [editar]

Perseguição de Pompeu [editar]

César começou a sua marcha para Roma sem encontrar resistência. Os seus agentes tinham amolecido Itália à base de subornos. No dia seguinte, após cruzar o rio Rubicão, apoderou-se por surpresa de Rimini, cidade em que se encontrava Marco Antônio. Sem perder tempo, ordenou a Antônio atravessar com cinco coortes os Apeninos e tomar a cidade de Arretium (atual Arezzo), enquanto ele com outras cinco coortes ocupou em forma sucessiva Pésaro, Fano e Ancona.

De 14 a 16 de janeiro, chegaram a Roma notícias das sucessivas ocupações das cidades da costa adriática e de Arretium, bem como ondas de refugiados que, pela sua vez, provocavam que outras ondas de refugiados abandonassem Roma. Um ambiente de terror apoderou-se de Roma.nota 3 A confiança que ostentava Pompeu derrubou-se em poucos dias, e os senadores que anteriormente confiaram na sua rápida vitória sobre César acusaram de levar a república para o desastre. Frente do rápido avanço de César, carente das suficientes forças e temendo pela sua popularidade, Pompeu deu Roma por perdida e ordenou evacuar o senado, declarando traidores à república todos os magistrados que ficassem em Roma.

O senado começou a considerar constituir-se fora de Roma pela primeira vez na sua história. Cicero posteriormente declararia que esta decisão foi um reflexo de debilidade, dando a César mais legitimidade e confiança. Ao abandonar Roma, o senado atraiçoou todos os que não podiam abandonar as suas casas, e o sentimento de pertença à República ficou danificado. As ancestrais e grandes mansões dos nobres, após serem abandonadas, foram presa da fúria dos bairros baixos. As províncias foram distribuídas legalmente entre os líderes da causa constitucional (pompeanos), e o seu poder ficaria sancionado única e exclusivamente pela força. A república tornou-se numa abstração, as eleições anuais, a vitalidade das ruas e espaços públicos de Roma, tudo aquilo com o que se nutria a república desaparecera.

César aguardou uns dias a chegada de outras quatro legiões da Gália, e iniciou a perseguição do senado. A 1 de fevereiro, marchou sobre Osimo onde derrotou Varo, que recrutava soldados para Pompeu, enquanto este concentrava as suas tropas em Brindisi onde fretava barcos, visando a cruzar o Adriático, da Itália para Grécia.

Em Corfinium (atual Corfinio), encontrava-se o novo governador da Gália Transalpina, Lúcio Domício Ahenobarbo, quem odiava por igual a Pompeu e a César. Foi-lhe ordenado marchar para sul com os seus homens, mas este desobedeceu as ordens de Pompeu. Levou a cabo a única tentativa de conter a César na Itália: decidiu encerrar-se na cidade de Corfinium (atual Corfinio), situada num estratégico cruzamento de caminhos. Era a mesma cidade que os rebeldes italianos tornaram sua capital quarenta anos antes.2

Para a maioria dos romanos a república significava pouco, e identificavam-se mais com as ideias populares, considerando a Caio Mário, tio de César, o seu patrão. A 13 de fevereiro de 49 a.C., César cruzou o rio Pescara e sitiou Corfinio que se rendeu o 19 do mesmo mês. As levas de novatos de Domício pregaram-se depressa ao sentir da cidade. Domício foi levado ante César pelos seus próprios oficiais, e suplicou que o matara, mas César recusou, deixando-o livre. Corfinio não sofreu nenhum dano e as levas de novatos passaram a ser parte do exército controlado por César. O que pode aparentar ser simplesmente um gesto de clemência, implicou uma grande humilhação, um gesto político e uma declaração dos seus propósitos. Não haveria listagens de banidos, nem matanças (como ocorrera na época de Sula), e os seus inimigos seriam perdoados apenas com render-se. Isto permitiu que a maioria dos neutrais se sentissem aliviados.

O sítio de Brindisi [editar]

A cidade de Brundisium (atual Brindisi) durante o assédio de César.

Pompeu, com o restante de senadores e o seu exército, após abandonar Roma dirigiram-se aBrundisium (atual Brindisi) com a intenção de cruzar o Adriático e adentrar-se em Grécia e oriente, onde Pompeu contava com recursos para enfrentar César.3 César marchou depressa para Brindisi. A 20 de fevereiro Pompeu transladou a metade do seu exército para o outro lado do Adriático sob o comando dos dois cônsules, a Dyrrhachium (atual Durrës), mas a outra metade seguiu sob o comando de Pompeu, na cidade aguardando o regresso da frota.

Após derrotar Lúcio Domício Enobarbo, César ordenou imediatamente aos seus homens bloquear a saída do porto a mar aberto com a construção de um quebra-mar. Pompeu respondeu construindo torres de três pisos sobre barcos mercantes desde onde arrojar projetis aos engenheiros que construíam o quebra-mar. Durante dias sucederam-se as escaramuças, a chuva de projetis, de madeiros e os incêndios entre os dois bandos.

Com o quebra-mar ainda sem terminar, a frota pompeiana regressou para o porto. Quando obscureceu iniciou-se a saída da frota do porto, começando a evacuação de Brindisi. César, alertado pelos seus partidários dentro da cidade, ordenou tomá-la ao assalto, mas foi tarde demais. Os barcos saíram um atrás outro pelo estreito local que deixaram aberto as obras de assédio. A nave de Pompeu foi a última a abandonar o porto.

Estadia em Roma [editar]

Os vestígios do Templo de Saturno no Fórum Romano, onde Júlio César apropriou-se do tesouro público

Após a fuga de Pompeu, a 29 de março César entrou em Roma, sendo friamente acolhido pela cidade. Designou Marco Antônio como chefe das suas forças na Itália e convocou os poucos senadores que ainda ficavam, exigindo o direito sobre os fundos de emergência da cidade, criados para sufragar os despesas ante uma possível invasão gaulesa.nota 4 Quando os senadores, atemorizados, aceitaram, o tribuno Cecílio Metelo vetou a proposta. Então César ocupou o fórum com os seus legionários, forçou as portas do templo de Saturno e apoderou-se do tesouro público, acumulado durante anos para previr uma invasão gaulesa, perante a impotência do tribuno Cecílio Metelo. César esteve durante duas semanas em Roma assegurando fornecimentos e a retaguarda. Deixou como pretor Marco Emílio Lépido, diminuindo autoridade do senado. Ainda sendo Lépido de sangue azul e magistrado eleito, continuava sendo uma nomeação inconstitucional.

Em abril, ordenou às antigas tropas de Domício invadir a provínica da Sicília e a província da Sardenha para proteger as rotas e fornecimentos de trigo. César, pela sua vez, iniciou a sua marcha para a Hispânia, onde havia legiões pompeianas ativas. A longa estadia de Pompeu na Hispânia enchera a província de clientes e oficiais fiéis à sua causa.

Operações menores [editar]

Caio Escribônio Cúrio desembarcou com sucesso em Útica no comando de duas legiões para tomar a província, que permanecia sob autoridade conservadora estabelecida por Públio Accio Varo. As tropas de Cúrio eram as levas recrutadas originalmente por Lúcio Domício Enobarbo para defender Corfinium. Após uma vitória inicial de Cúrio numa escaramuça perto de Útica, o seu exército foi aniquilado a 24 de agosto na Batalha do Rio Bagradas pelas forças combinadas de Juba I e Públio Varo. Cúrio resultou morto em combate.

Guerra na Hispânia [editar]

Rotas seguidas por Júlio César durante a guerra na Hispânia.

Os exércitos pompeanos eram controlados pelos legados Lúcio Afrânio, Marco Petreu — o vencedor sobre Catilina — e Marco Terêncio Varrão. César, pela sua vez, concentrou nove das suas legiões e de 6.000 ginetes nas cercanias de Massalia (atual Marselha).

A cidade de Marselha, na rota de passagem, era controlada por Lúcio Domício Ahenobarbo, procônsul da Gália, que após ter sido perdoado por César recrutou um novo exército e, por segunda vez, fechou as portas de uma cidade à chegada de César. César mandou sitiar a cidade aos seus legados Caio Trebônio e Décimo Júnio Bruto Albino. Imediatamente dirigiu-se com o restante das tropas para a Hispânia Citerior, com o fim de reforçar as três legiões que enviara ali antecipadamente.

Batalha de Ilerda [editar]

As três legiões enviadas por César à vanguarda contiveram as tropas pompeanas na Hispânia e mantiveram o controlo dos principais passos dos Pireneus. Com a chegada de César e dos reforços, o exército cesariano adentrou-se na Hispânia e, em meados de março, acampou perto de Ilerda (a atual Lérida), frente às forças pompeanas, para forçar a batalha.

O confronto ocorreu no Verão de 49 a.C.; primeiro em Lérida, e logo mais a sul. A 2 de agosto, as tropas cesarianas conseguiram a vitória total sobre os pompeanos. Marselha finalmente rendeu-se a 25 do mesmo mês.

Regresso a Roma [editar]

Em Marselha, César recebeu a notícia de que fora nomeado ditador, pelo que partiu para Roma. Ali ditou uma série de leis, chamou vários exilados e garantiu a plena cidadania romana a todos os habitantes nascidos livres na Gália Cisalpina. Desempenhou o seu cargo de ditador por somente 11 dias, renunciou a este, e dirigiu-se para Brindisi.

Guerra na Grécia [editar]

César concentrou o seu exército em Brindisi desejando zarpar para a Grécia à procura de Pompeu. Ao todo, o seu exército era formado por 12 legiões e 1.000 ginetes, segundo Apiano. Contudo, muitas das legiões não reuniam o número de efetivos práticos, minguadas nas suas recentes campanhas na Gália, a Hispânia e Marselha.

Antes, César ordenara a construção de numerosos navios. Apesar de não estar todos terminados e do mau tempo invernal, embarcou todos os homens possíveis, ao todo sete legiões e 500 ginetes, zarpando a 4 de janeiro de 48 a.C. Marco Antônio e Aulo Gabínio permaneceram em Brindisi junto com o restante de tropas e fornecimentos à espera do regresso da frota.

A armada de Pompeu, comandada por Marco Bíbulo, ostentava a superioridade naval, com cerca de 300 naves repartidas por sul do Adriático, vigiando os lugares de um possível desembarque inimigo. César, não obstante, fê-lo com sucesso um dia após zarpar, numa praia longe das grandes cidades da região, perto de Palase, a 150 quilômetros a sul de Dyrrhachium (atual Durrës), evitando assim ser descoberto e interceptado pois temia que os portos estivessem guarnecidos pelas frotas rivais.4 Marco Bilbulo ficou surpreendido pelo inesperado desembarque em pleno Inverno e a partir desse momento pôs todo o seu empenho em que nenhum navio cesariano cruzasse o Adriático.nota 5

César iniciou a tomada das praças costeiras próximas, assegurando portos navais em onde preparar a chegada das legiões da Itália. A esquadra pompeiana, advertida dos movimentos, zarpou, interceptando no seu regresso a frota cesariana e apresando 30 transportes. César, enquanto isso, dirigiu-se para norte, tomando Oricus e Apolônia e iniciando a marcha para Durrës. A notícia do desembarque de César surpreendeu Pompeu caminho da província da Macedônia, onde pensava recrutar tropas. Dirigiu-se a Dyrrhachium , entrando nela pouco antes de chegar César. Depois armou o seu acampamento na margem norte do rio Semani, na localidade de Kuci, frente ao de César, que estava na ribeira sul.

A frota pompeana dirigida por Bíbulo iniciou um férreo bloqueio sobre as posições cesarianas, apostando-se próximo da costa e impedindo a chegada de reforços. Enquanto, as esquadras pompeianas do Ilírico e Aqueia, lideradas por Marco Octávio e Escribônio Libão com ajuda dos dálmatas, sitiaram Salona (atual Solin), capital da província de Ilíria, governada por César. Os defensores recusaram o sítio num ataque surpresa, tendo os pompeanos que reembarcarem e fugir. Marco Octávio renunciou a tomar Salona e uniu-se junto às suas forças a Pompeu, acampado em Durrës.

Após a morte de Marco Bíbulo por causas naturais, Escribônio Libão ficou à frente da esquadra pompeana e começou o bloqueio do porto de Brindisi, apostando-se numa ilha próxima à entrada do porto, impossibilitando a Marco Antônio reunir-se com César. Marco Antônio, sabedor da necessidade de água das forças de Escribônio, mandou custodiar todas as fontes próximas de água, o que obrigou a Escribônio a levantar o bloqueio e retirar-se para Épiro.

Quando as condições do mar melhoraram, Marco Antônio dispôs-se a cruzar o Adriático e receber reforços, zarpando um dia favorável em finais de fevereiro. Ao dia seguinte da partida, a frota foi divisada por César e Pompeu, perto de Dyrrhachium (atual Durrës), separados pelo rio Apsus, se bem que um forte vento do sudoeste, empurrou inevitavelmente a frota a norte. Marco Antônio desembarcou finalmente com 4 legiões e 500 ginetes e tomou Lissus. Pompeu, pela sua vez, ficando a saber a situação dos reforços de César, começou a sua marcha para norte com a intenção de derrotar os seus inimigos separadamente, tomando vantagem sobre as forças de César. Alertado este das intenções de Pompeu, reagiu deslocando-se a nordeste, para Tirana, visando a reunir-se com os seus reforços. Marco Antônio, pelo contrário, marchou para sul com celeridade, sem se aperceber da situação. Contudo, César conseguiu fazer chegar a Marco Antônio uma mensagem advertindo das intenções de Pompeu, graças ao qual Marco Antônio decidiu acampar durante um dia, dando tempo a César para adiantar a sua posição. Pompeu, temendo ficar rodeado pelos dois exércitos cesarianos, que em conjunto o superavam em número, deu média volta e regressou para Dyrrhachium. As forças de César e Marco Antônio reuniram-se, finalmente, em Scampi.

Após o insucesso de impedir a união das forças inimigas, Pompeu entrincheirou-se iniciando uma guerra de desgaste. César decidiu ampliar a sua zona de operações para o qual enviou a Domício Calvino com 2 legiões e 500 ginetes a Macedônia para se enfrentar a Metelo Cipião, que avançava desde Salônica a reunir-se com Pompeu. Poucos dias depois da partida destes destacamentos, Cneu Pompeu, à frente de uma frota de naves egípcias desde sul, capturou a frota cesariana na base naval de Oricus e continuou até a base onde Marco Antônio deixara os transportes e incendiou-os. Desta maneira os cesarianos viram destruída toda a sua frota em Grécia, ficando sem nenhum navio para se comunicar com Itália.

Batalha de Dyrrachium [editar]

Júlio César, ante esta situação, decidiu dar a batalha. Foi até Asparagium e dispôs o seu exército em ordem de batalha frente ao acampamento de Pompeu, mas este recusou o combate. Então César dirigiu-se para Dyrrhachium (atual Durrës) para isolar Pompeu de sua base mediante a construção de um cerco ao acampamento. A 10 de julho de madrugada, Pompeu atacou as posições de César, conferindo-lhe uma derrota. No dia 11, César chegou ao seu antigo acampamento de Asparagium e a 14 de julho chegou a Apolônia.

Batalha de Farsalos [editar]

Após a derrota na Batalha de Dyrrhachium, Júlio César fugiu para o Sul, afastando-se de Pompeu após perder a iniciativa e ver-se obrigado a se movimentar seguindo uma senda que permitira fornecer-se, pois estava numa situação de total isolamento, sem frota e sem fornecimentos. Segundo Dião Cássio, Pompeu visava a evitar derramar sangue romano, pelo qual o seu plano era acossá-lo e obrigá-lo a render-se pela falta de víveres.

Pompeu decidiu marchar contra Domício na Macedônia, após considerar pouco provável dar alcance a César. Domício, pela sua vez, recebeu a notícia da retirada de Durrës e as intenções de Pompeu poucas horas antes, tempo suficiente para empreender a fuga direção a Tessália e unir-se ao exército de César. Pompeu, que viu frustradas as suas esperanças, decidiu marchar para Larissa onde acampava Cipião, para reunir um exército superior em número ao cesariano.

César deteve o seu exército em Farsalos de 4 a 5 de agosto de 48 a.C., ansiando apresentar batalha, com a única possibilidade de lutar ou marchar à procura de víveres para sul, pairado pela cavalaria pompeana, mais numerosa e que impedia o trabalho dos forrageadores.

Pela sua vez, o exército pompeano estava dividido em duas grandes facções constituídas pelos seguidores e clientes de Pompeu e os dos Optimates, os republicanos mais conservadores, que se apoiavam nas legiões conduzidas por Metelo Cipião e tinham por aliado Catão, quem fora postergado a Dyrrhachium (atual Durrës) com 15 coortes. É possível que Pompeu não desejasse livrar a batalha de Farsalos, confiando na dilatação e a precária situação de César. Contudo, as críticas dos seus aliados e dos seus generais, envolvidos em desavenças políticas, levaram-o a apresentar batalha. Segundo Lúcio Anneo Floro, os seus soldados censuravam a inatividade, e Plutarco assinala que até mesmo se conspirava diretamente contra ele.

Os dois exércitos enfrentaram-se a 9 de agosto de 48 a.C., iniciando o ataque os cesarianos, enquanto o exército pompeano manteve uma estratégia defensiva confiando na sua superioridade numérica. A cavalaria pompeiana carregou contra a cesariana perseguindo-a e caindo numa estratagema preparada, na que várias coortes de legionários apoiaram a cavalaria cesariana dispersando a pompeiana liderada por Labieno. Após observar a fuga, Pompeu abandoou o campo de batalha, o qual influiu na moral do seu exército, e após ser rodeado pelo flanco pela cavalaria cesariana espalhou-se o pânico, dispersando-se e fugindo para o acampamento pompeano. Após reagrupar as suas tropas, César liderou o assalto final ao acampamento pompeano defendido por Trácios e outros irregulares, e após superar a paliçada, o acampamento caiu depressa. Pelo menos quatro legiões pompeanas conseguiram fugir e tomar uma colina, mas renderam-se após serem rodeados pelos seus inimigos e cercados mediante uma paliçada.

Cquote1.svg Isto é o que quiseram, e a este extremo me traíram, pois se eu, Caio César, após terminar gloriosamente as maiores guerras, licenciasse o exército, sem dúvida me teriam condenado. Cquote2.svg

Guerra no Oriente [editar]

Após a sua derrota em Farsalos, Pompeu fugiu para a costa do mar Egeu. Ali fretou um barco para navegar até Mitilene, onde estava a sua esposa Cornélia. Após reunir-se com ela, partiram rumo ao Egito com uma pequena frota, com a intenção de pedir ajuda a Ptolomeu XIII, o novo farão do Egito de apenas 12 anos.

Um mês depois de Farsala, Pompeu chegou às costas do Egito e enviou emissários ao rei e, após uns dias aguardando ancorada frente aos bancos de areia, a 28 de setembro de 48 a.C., uma pequena barca acercou-se até os navios romanos convidando Pompeu a subir a bordo. Na outra margem aguardava Ptolomeu XIII, pelo que, após despedir-se da sua esposa, Pompeu foi conduzido até a margem. Após tomar terra, um mercenário romano, o ex-centurião Aquila, desembainhou a sua espada e atravessou a Pompeu que ato seguido foi apunhalado repetidas vezes. Cornélia e o restante dos tripulantes da pequena frota observaram os acontecimentos impotentes. O cadáver de Pompeu foi decapitado, sendo o seu corpo resgatado e incinerado por um veterano de suas primeiras campanhas.

César no Egito [editar]

César horrorizado ao ver a cabeça de Pompeu, por Louis-François Lagrenee.

Em 47 a.C., Júlio César dirigiu-se ao Egito com apenas 4.000 soldados à procura de Pompeu. Ali foi surpreendido pela oferenda de boas-vindas que lhe apresentou o primeiro-ministro de Ptolomeu XIII, o eunuco Potino: a cabeça de Pompeu. Egito encontrava-se em guerra civil, e os conselheiros do rei creram que César ficaria agradecido e apoiaria Ptolomeu contra a sua irmã Cleópatra. Ao saber da sua sorte, César caiu em lágrimas.

Os romanos ficaram presos em Alexandria por ventos desfavoráveis, e César começou a intervir nos assuntos do Egito. Instalou-se com as suas tropas no palácio real, um complexo de edifícios fortificados que ocupava quase uma quarta parte da cidade de Alexandria. Desde este bastião, começou a exigir grandes quantidades de dinheiro, e anunciou que gentilmente dirimiria a guerra civil entre Ptolomeu e a sua irmã. Deu a ordem de licenciar os dois exércitos em guerra, e aos irmãos de se reunir com ele em Alexandria. Ptolomeu não licenciou nenhum soldado, mas foi convencido por Potino de acudir à reunião com César. Enquanto isso Cleópatra, que tinha bloqueadas as rotas à capital, ficou isolada atrás das linhas de Ptolomeu.

Cleópatra e César, por Jean-Léon Gérôme, 1866.

Uma tarde, à posta do Sol, um pequeno mercante atracou no amarradouro de palácio. Um mercador siciliano trouxe consigo um tapete que levou até a presença de César, e atrás desenvolvê-lo apareceu a própria Cleópatra, que seduziu a César.

Ptolomeu, após ficar a saber da nova conquista da sua irmã, marchou pelas ruas de Alexandria e pediu aos seus súditos que acudissem na sua defesa e na do Egito. As prepotentes exigências de dinheiro de César não o fizeram especialmente apreciado, pelo qual quando Ptolomeu pediu aos alexandrinos que atacassem os romanos, a massa lançou-se com entusiasmo. Os romanos viram-se assediados no complexo palaciano e César viu-se obrigado a reconhecer Ptolomeu como monarca conjunto com Cleópatra e a devolver a ilha de Chipre ao Egito. Contudo, a situação empiorou quando aos alvoroçadores se uniu o exército de Ptolomeu de 20.000 homens, começando uma verdadeira batalha pelo controlo do Egito. Durante os cinco seguintes meses, César conseguiu resistir em palácio, ficara com o controlo do porto, queimando a frota egípcia e, acidentalmente, uns armazéns de livros no porto, fracassando na tentativa de controlar o Grande Farol. Fez executar ao eunuco Potino e deixou grávida a Cleópatra.

Em março do 47 a.C., chegaram os reforços romanos a Alexandria, que fizeram que Ptolomeu XIII fugisse de Alexandria. Lastrado pela sua armadura de ouro, afogou-se no Nilo, deixando Cleópatra sem rival ao trono.

Uma vez restauradas as linhas de comunicação, os seus agentes informaram das novas ameaças surgidas durante a sua estadia em Alexandria. Farnaces, filho de Mitrídates VI invadira o Ponto enquanto na África Metelo Cipião e Catão estavam recrutando um poderoso novo exército e em Roma o governo de Marco Antônio estava criando receios.

Enquanto novos inimigos de César emergiam e cresciam, César permaneceu com a sua amante ainda dois meses mais no Egito. No fim da Primavera do 47 a.C. o casal embarcou-se num cruzeiro pelo Nilo.

Guerra contra Farnaces [editar]

Farnaces, rei do Bósforo e filho de Mitrídates VI, aproveitou os problemas internos de Roma para expandir os seus domínios: invadiu Colchis e parte de Arménia.

O rei armênio Deiotarus, reino vassalo de Roma, pediu ajuda ao tenente cesariano da província da Ásia, Domício Calvino. Farnaces enfrentou-se depressa com as forças romanas provinciais, obtendo a vitória. Confiado pela sua vitória, invadiu o antigo reino do seu pai, o Ponto e parte de Capadócia.

César teve notícias dos fatos no Egito e iniciou a marcha para o Reino do Ponto para se enfrentar Farnaces. A batalha entre as tropas romanas e as de Farnaces aconteceu ao norte de Capadócia, perto da cidade de Zela. O confronto derivou com celeridade numa vitória romana, aniquilando completamente as forças inimigas. Farnaces fugiu para o Bósforo com uma pequena seção das suas tropas de cavalaria. Sem poder algum, foi assassinado por um antigo rival ao trono do Bósforo.

César imortalizou esta batalha, utilizando-a coma arma propagandística contra os antigos méritos militares de Pompeu em Oriente, ainda presentes na mentalidade coletiva romana, e cunhou uma célebre frase:

Cquote1.svg Veni, vidi, vici. Cquote2.svg

África [editar]

A estadia de César no Egito e a sua posterior marcha para o Ponto deu tempo a Metelo Cipião e a Catão para poder formarem um novo exército na província da África. Lograram reunir um exército de 10 legiões, cerca de 40 000 homens. Contavam, além disso, com o apoio do exército do rei Juba I de Numídia, que incluía sessenta elefantes de guerra e inicialmente cerca de 30 000 homens.

Após uma visita curta a Roma, César desembarcou em Adrumeto a 28 de dezembro de 47 a.C. As duas facções envolveram-se em pequenas escaramuças, enquanto César pospunha o confronto direto porque aguardava reforços. A pedido de César, Boco II, rei de Mauritânia, atacou a Numídia por oeste, tomando a sua capital Cirta, e obrigando a Juba I a marchar a oeste com o seu exército.

Batalha de Tapso [editar]

Rota de Júlio César, de Roma até Tapso

Em fevereiro de 46 a.C., após receber os reforços e a soma de duas legiões de desertores constitucionalistas, César cercou a cidade de Tapso. Os pompeanos batalharam perante as muralhas de Tapso, saindo derrotados num confronto que degenerou numa carnificina. Catão suicidou-se em Útica ao ter notícias da derrota ante César.

Após a vitória, César retomou o assédio de Tapso, prolongando-se a guerra na África até julho, com a tomada da cidade, a pacificação da província e da incorporação de Numídia como província romana. Por enquanto, Tito Labieno, Cneu Pompeu o Jovem e Sexto Pompeu escaparam a Hispânia.

Catão personificou o forte espírito da liberdade romana, sendo mecenas dos ideais que sustentaram a luta contra César. Frente da possibilidade de ser perdoado por César, eternizou a sua luta suicidando-se. O seu suicídio prolongou a sua grande influência na consciência coletiva romana.

Triunfos em Roma [editar]

Júlio César regressou a Roma em finais de julho de 46 a.C. A vitória total dotou César de um poder enorme e o senado, legitimou a sua vitória, nomeando-o ditador pela terceira vez na Primavera de 46 a.C., por um prazo sem precedentes de dez anos.

Cquote1.svg Somos os seus escravos, mas ele escravo da sua época. Cquote2.svg

Acunhou a sua legitimidade e o desprestígio dos seus inimigos num grande ato propagandístico. Em setembro, celebrou os seus triunfos, orquestrando quatro desfiles consecutivos. Os seus concidadãos observavam os desfiles de Gauleses, Egípcios, Asiáticos e Africanos acorrentados, bem como girafas e carros de guerra britanos. Assim a guerra entre romanos ficava mascarada pelas vitórias contra estrangeiros e as celebrações não tiveram precedentes nas suas dimensões e duração.

Durante as celebrações foi executado Vercingetórix. O desfile triunfal contra Farnaces II, contou com uma carroça que portava o eslogam "Vini, vidi, vinci", arrastando atrás de si o fantasma de Pompeu. Um dia depois, no desfile pela vitória da África, uma carroça representou o suicídio de Catão ridicularizando-o e César justificou-o alegando que Catão e os seus inimigos eram colaboracionistas dos bárbaros.

No Inverno de 46 a.C., estourou uma nova rebelião na Hispânia, liderada pelos filhos de Pompeu.

Rebelião na Hispânia [editar]

Depois das derrota de Tapso os conservadores republicanos Cneu Pompeu o Jovem, Sexto Pompeu e Tito Labieno, fugiram para a Hispânia com o restante do seu exército. Após a sua chegada à Hispânia, duas legiões situadas na Hispânia Ulterior formadas em grande parte por veteranos de Pompeu, derrotadas em Ilerda sublevaram-se e expulsaram os legados de César jurando fidelidade a Cneu Pompeu.

Usando a antiga influência do seu pai e os recursos da província, os irmãos Pompeu e Tito Labieno conseguiram reunir um novo exército de treze legiões compostas pelos restos do exército constituído na África, as duas legiões de veteranos, uma legião de cidadãos romanos da Hispânia, e o alistamento da população local. Em finais de 46 a.C. tomaram o controlo de quase toda Hispânia Ulterior, incluindo as colônias romanas de Itálica e de Corduba, a capital da província.

Os legados de César, Quinto Fábio Máximo e Quinto Pédio, recusaram o confronto direto com o exército conservador e acamparam a cinquenta quilômetros a leste de Córdova em Obulco, solicitando ajuda de César.

Este chegou a Hispânia em dezembro, e após a sua chegada levantou o sítio à praça-forte de Ulípia, cidade que lhe tinha sido leal e que estava sitiada sem sucesso por Cneu Pompeu. Os conservadores evitaram uma batalha aberta refugiando-se atrás das muralhas de Córdova, defendida por Sexto Pompeu, e obrigando com isso a César a passar o Inverno na Hispânia. Para fornecer as suas necessidades de avitualhamento e víveres, César tomou e saqueou a cidade de Atégua, o que incitou a muitos hispânicos a se unirem aos conservadores e abandonar a César.

A 7 de março de 45 a.C. aconteceu uma escaramuça perto de Soricária, saindo vencedores os cesarianos. Após esta derrota, frente do temor de deserções e o começo da Primavera, Cneu Pompeu mobilizou o seu exército e apresentou batalha a César.

Batalha de Munda [editar]

A terceira fase na Hispânia (45 a.C.).

Os dois exércitos reuniram-se em Munda, perto de Osuna, na Hispânia meridional. Os conservadores situaram-se numa colina facilmente defendível. Iniciada a batalha, transcorreu longo tempo sem se inclinar em favor de nenhum bando, mas finalmente as tropas conservadoras interpretaram erroneamente que Tito Labieno estava fugindo e romperam as linhas buscando refúgio na cidade de Munda. Tito Labieno faleceu no campo de batalha.

A armada cesariana mandada por Gaio Dídio afundou a maior parte dos navios pompeanos numa batalha naval próxima a Cartagena, comandados por Públio Accio Varo, abortando qualquer tentativa de fuga por mar, Cneu Pompeu o Jovem e o seu irmão Sexto procuraram asilo refugiando-se em Córdova. César deixou o seu legado Quinto Fábio Máximo no comando do sítio de Munda e iniciou a persecução dos filhos de Pompeu. César tomou Córdova onde se ocultava Cneu Pompeu, matando todos os defensores como corretivo por ocultar o seu inimigo. Seu irmão Sexto Pompeu conseguiu escapar.

A cidade do Munda suportou por algum tempo o assédio, mas após um frustrada tentativa de romper o sítio entregaram-se 14.000 homens a Caio Dídio. Foi o último ato de resistência a César.

Consequências [editar]

Vestígios do Fórum de César (Roma).

Após a sua vitória final na Hispânia, e antes de voltar para Roma, César percorreu as províncias ocidentais outorgando a cidadania romana a muitas cidades, entre elas mais de 20 cidades hispânicas; também outorgou a cidadania romana a toda a Gália Transalpina. Estes fatos não gostaram a aristocracia romana.

Ao seu regresso a Roma, aumentou o número de senadores de 300 a 900, numa clara intenção de restar poder à classe tradicional do senado, os optimates. Entre os novos senadores também havia cidadãos de províncias, entre eles os espanhóis Títio, Decídio Saxa ou Balbo o Jovem, e até mesmo libertos como Ventídio ou Baso. Reformou as magistraturas aumentando o número de magistrados, passando de quatro edis a seis, de oito pretores a dezesseis, e de vinte questores a quarenta.

Iniciou novos planos de assentamento de cidadãos e criação de colônias nas novas províncias, com novos assentamentos de veteranos e de mais de 100.000 famílias dependentes do subsídio de grão. Repartiu as terras públicas entre os mais pobres, deixando de ser uma carga para a República. A república sofreu uma liberalização econômica, ao reduzir os impostos, e anular as taxas tarifárias. Ditou novas leis, como a lex coloniae Ivliae Genetivae, que dotava todas as novas colônias de uma legislação similar à de Roma, com câmaras representativas, e a lex Iulia repentundis, que separava os poderes militares dos governadores de províncias.

César criou um ambicioso projeto de urbanismo público, iniciando rodovias, aquedutos, portos, e novas cidades, levantadas para acolher os novos colonos. Em Roma, mandou construir o Fórum de César e planejou construir uma biblioteca, um novo teatro esculpido na rocha do Capitólio, a ereção do templo maior do mundo no campo de Marte e até mesmo decidira desviar o curso do sinuoso rio Tibre, um obstáculo para os seus planos de urbanismo.

Assassinato de César [editar]

Depois da sua vitória, César iniciou uma série de gestos anti-republicanos. Acostumava caminhar com botas vermelhas, como os legendários reis de Roma; mandou construir um trono de ouro no senado, criticou que se retirasse uma coroa de uma das suas estátuas e, durante uma celebração no fórum, Marco Antônio ofereceu-lhe uma coroa que César recusou perante as vaias das pessoas.

Todos estes acontecimentos engrandeceram a desconfiança acerca das suas intenções. Finalmente, César foi assassinado numa reunião do senado, nos Idos de março (15 de março) de 44 a.C., por um grupo de senadores que acreditavam agir em defesa da república. Entre eles contavam-se os seus antigos protegidos Marco Júnio Bruto e Caio Longino Cássio. César caiu aos pés de uma estátua de Pompeu e disse:

Cquote1.svg Tu quoque, Brute, filii mei! Cquote2.svg

César deixou a sua herança política ao seu sobrinho neto Octaviano, que com Marco Antônio e Lépido lutou contra os assassinos de César na denominada Terceira Guerra Civil da República de Roma. Os três formariam posteriormente o segundo triunvirato, até a sua dissolução e o começo da Quarta Guerra Civil da República de Roma, e a ascensão de Octaviano, que por acumulação de cargos e magistraturas, tornar-se-ia no princeps, o primeiro imperador dos romanos.

Repercussão histórica [editar]

A vitória cesariana converteu a república numa abstração, iniciando a transição para o regime imperial que eliminaria o poder do senado e as votações para escolher os magistrados.

Roma sempre foi interpretada e reinterpretada desde as perspectivas das diversas convulsões que sofreu o mundo, mas a segunda guerra civil, e o cruzamento do rio Rubicão teve uma especial importância para a civilização ocidental. As constituições inglesa, francesa e norte-americana inspiraram-se conscientemente no exemplo da República Romana.

Cquote1.svg A respeito da rebelião contra a monarquia; Uma das causas mais comuns é o ter lido livros acerca da política e história dos antigos gregos e romanos. Cquote2.svg

Contudo, nem todos os exemplos seguidos e as lições aprendidas da república ocasionaram estados livres. Napoleão passou de ser cônsul a imperador e durante todo o século XIX os regimes bonapartistas foram chamados de "cesaristas". O fascismo também se inspirou na época da segunda guerra civil. Em 1922, Benito Mussolini propagou deliberadamente o mito da sua marcha heroica contra Roma, similar à de César. E não foi o único:

Cquote1.svg A marcha de César sobre Roma foi um dos pontos de inflexão da história. Cquote2.svg

Forças militares [editar]

A força principal dos dois exércitos enfrentados era a infantaria pesada; as legiões tardo-republicanas foram recrutadas em grande parte pelos dois bandos entre homens sem cidadania romana. Cada facção chegou a contar com mais de uma dúzia de legiões no transcurso da guerra, composta cada uma por cerca de 3.500 homens.

Os auxiliares utilizados foram mais numerosos e exóticos nos exércitos pompeanos, destacando-se em eles a utilização de elefantes de guerra, cavalaria romana pesada, capadócia e pôntica, cavalaria ligeira trácia, gaulesa, armênia e númida, com contingentes de auxiliares de infantaria leve, entre eles arqueiros, velites, atiradeiros, javalineiros, ou lanceiros procedentes da Macedônia, Beócia, África, Síria, Hispânia e Trácia.

Cronologia [editar]

  • 49 a.C.
    • Janeiro
    • Fevereiro
      • 13 Sítio de Confírnio.
      • 19 Rendicição de Confírnio.
      • 20 A metade do exército pompeano zarpou com destino a Épiro, César cerca o restante em Brindisi.
      • Pompeu logra zarpar.
    • Março
    • Junho
    • Julho
      • 30 César rodeou o exército de Afranius e de Petreius em Ilerda.
    • Agosto
    • Setembro
      • O cesariano Decimus Brutus, derrota as forças navais combinadas de pompeianas de Marselha naval, enquanto a forças navais cesarianas no Adriático foram derrotadas perto de Curita.
      • 6 Marselha rende-se ao regresso de César da Hispânia.
    • Outubro
      • César é designado como ditador, exerce o cargo durante 11 dias.

Notas

  1. Numa reunião no senado, durante o consulado de César, Catão entregava-se a uma das suas frequentes criticas a Júlio pelas suas reformas populares. Quando um servente entregou a César uma nota, Catão, ao ver que o seu rival se dedicava a ler a nota em lugar de atender o seu discurso, estourou, gritando a César e exigindo que lesse a nota em público, pela sua suposta relação numa conspiração. César deu ao servente a nota para que a lesse. A nota era de Servília, a média irmã de Catão: citava a César na sua casa ao anoitecer e descrevia com bastante pormenor o que lhe tinha pensado fazer aquela noite. As gargalhadas estiveram prestes a derrubar a Cúria.
  2. Acostuma-se acreditar que César pronunciou esta frase em latim. Originalmente é uma frase do dramaturgo ateniense Menandro, um dos autores preferidos de César e pronunciou-a em grego. Pompeu, 60 e César 32.
  3. Corriam rumores de que Caio Mário se levantara da sua tumba, enquanto no campo de Marte, onde foi incinerado Sula, fora visto ao seu espetro entonar profecias apocalípticas.
  4. Argumento utilizado por César ante os senadores: "E quem merecia mais esse tesouro que ele, o conquistador da Gália?".
  5. "Dormiu na coberta do seu barco, até mesmo os dias mais duros do Inverno; esforçou-se até a extenuação; recusou delegar as suas obrigações;mas, após o cruzamento do Adriático das tropas cesarianas faleceu de umas febres". (César, Comentários da guerra civil, 3.8).

Referências

Bibliografia [editar]

Fontes [editar]

  1. Volume I : Livros I–II. ISBN ISBN 978-84-249-3530-6
  2. Volume II : Livro III. ISBN ISBN 978-84-249-3531-3
  1. Vol. I : Livros I–III. ISBN ISBN 978-84-249-1492-9
  2. Vol. II : Livros IV–VIII. ISBN ISBN 978-84-249-1494-3

Obras modernas [editar]

  • FULLER, J. E. C. (1963), Batallas decisivas del mundo occidental y su influencia en la historia
  • GUGLIELMO, Ferrero (1952), Grandeza y decadencia de Roma
  • HOLLAND, Tom, Rubicón. Auge y caída de la República Romana
  • KINDER e HILGMAN (1972), Atlas histórico mundial
  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em espanhol, cujo título é «Segunda Guerra Civil de la República de Roma».

Ver também [editar]

Guerras
Facções
Personagens

Ligações externas [editar]