Lúcio Cornélio Cina

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Lúcio Cornélio Cina (em latim Lucius Cornelius Cinna;[1] Roma, c. 130 a.C. - Ancona, 84 a.C.) foi um destacado político romano do século I a.C. Embora de família patrícia, pertenceu a facção dos populares, sendo aliado de Caio Mário e inimigo de Lúcio Cornélio Sula. Pretor na Guerra Social, após a marcha de Sula sobre Roma, deu um cruento golpe de Estado com Mário, e após a morte deste tornou-se líder dos populares. Desempenhou o consulado quatro vezes consecutivas, de 87 a 84 a.C., no que as fontes clássicas consideraram uma tirania. Morreu como consequência de um motim militar quando preparava uma expedição combater Sula.

Vida[editar | editar código-fonte]

Populares e optimates[editar | editar código-fonte]

Filho de Lúcio Cornélio Cina, a sua carreira política é conhecida somente a partir do seu pretorado (em 90 a.C.). Durante a Guerra Social foi legado (em 89 a.C. e 88 a.C.), lutando junto a Quinto Cecílio Metelo Pio contra os Marsos. Cina distinguiu-se nas suas tentativas de despojar Sula do comando da expedição a Grécia contra Mitrídates VI do Ponto. Após marchar sobre Roma e acabar com a oposição popular, Sula abandonou a Urbe para lutar na Primeira Guerra Mitridática, não sem antes receber de Cina a promessa de manter as suas reformas. Assim, em 87 foi designado cônsul em companhia do seu inimigo o optimate Cneu Octávio, magistratura que exerceria sem interrupção até a sua morte em 84.

As fontes são unânimes considerando que Cina desencadeou a Primeira Guerra Civil ao ressuscitar em 87 a.C. a proposta de suffragium para os novos cidadãos itálicos resultantes da Guerra Social em todas as tribos, a restauração dos poderes da Assembleia da Plebe e a concessão da anistia aos seus amigos populares exilados, em especial a Caio Mário. Desencadeou-se um tumulto violento no Fórum, e o seu colega consular Octávio, com ajuda da maioria conservadora do Senado, expulsou Cina de Roma junto a seis tribunos da plebe, despossuindo-os da sua magistratura e privando-os dos seus direitos cidadãos.

Cina fugiu para Nola onde chamou Mário para que retornasse da África e recrutou com subornos soldados romanos e itálicos ao sul da Itália, a maioria dos quais pertenciam a Ápio Cláudio. Apoiados pelas cidades italianas, em 87 a.C. Mário de norte e o mesmo Cina de sul marcharam sobre Roma à frente de dois exércitos. A defesa de cidade, dirigida pelo cônsul Octávio e Pompeu Estrabo, viu-se obstaculizada pela ambígua atitude política de Estrabo e uma epidemia que açoitou a cidade durante um par de meses. Tudo isso facilitou a queda da cidade após que Mário interceptara o fornecimento de trigo e saqueara Ostia, o porto de Roma, matando grande parte dos seus habitantes, e cortando aos seus inimigos a possibilidade de se proverem por mar. Cina e Mário entraram em Roma com quatro exércitos, dois dos quais comandavam Quinto Sertório e Cneu Papírio Carbão e declararam-se cônsules a si mesmos.

Sua primeira ação foi a persecução e o assassinato sistemático dos seguidores de Sula, ensanhando-se com os seus familiares diretos e os seus amigos e roubando as suas propriedades, num verdadeiro banho de sangue. Octávio foi o primeiro de uma longa série de assassinados e massacrados, entre os que se destacaram Quinto Lutácio Catulo, Públio Licínio Crasso (pai de Marco Licínio) e um dos seus filhos; Marco Antônio o Orador, pai do Triúnviro, o Flâmine Dial (flamen dialis; principal sacerdote de Júpiter) Lúcio Cornélio Mérula, Lúcio Júlio César, o seu irmão César Estrabo, Públio Cornélio Léntulo, Caio Atílio Serrano, Marco Bébio, Caio Nemetório, Marco Cecílio Cornudo e Quinto Ancário. O jovem Crasso fugiu para a Hispânia, e Quinto Cecílio Metelo Pio, o fiel legado de Sula, para África. Itália ficou assim nas mãos de Cina e Mário. Sula foi declarado hostis rei publicai (inimigo do Estado), as suas pertenças confiscadas e a sua casa demolida. Cina nomeou o jovem Júlio César novo flâmine Dial por ordem de Mário, quem, saciada a sua sede de vingança, faleceu em poucos dias de iniciar o seu sétimo consulado (13 de janeiro de 86 a.C.), ficando Roma sob o domínio de Cina.

O governo de Cina[editar | editar código-fonte]

Iniciou-se assim o que as fontes denominaram Cinnae dominatio ou Cinnanum Tempus, um período de três anos (87-84) no qual Cina dirigiu o Estado na qualidade de cônsul, magistratura que não o abandonou até a sua morte na Primavera de 84 a.C. Compartilhou o consulado com Lúcio Valério Flaco, cônsul sufecto, assassinado posteriormente na Ásia, e em 85 e 84, com Cneu Papírio Carbão. Como Mário em finais do século II a.C., Cina ostentou o consulado consecutivamente com objeto de efetuar uma série de reformas que considerava indispensáveis para a sobrevivência do Estado. Neste senso, o seu governo foi uma autocracia revolucionária (Salústio chamou-o tirano), que segundo autores antigos, interrompeu a continuidade legítima no exercício do poder. Segundo o optimate Cícero, durante o período a República "careceu de leis e de dignidade".[2]

Contudo, o seu governo também teve traços positivos. Uma vez instalado à cabeça do Estado, fez tentativas de reconciliar as partes enfrentadas. Cina demonstrou uma política moderada tratando inclusive de se atrair o Senado ou ao menos de não se inimistar com ele. Não rompeu com o mos maiorum nem atuou como um popularis radical. Não promulgou leis agrárias, nem câmbios nos mecanismos das assembleias, nem novas leis frumentárias (leges frumentariae), nem praticamente nada do qual acostuma ser considerado popularis. Nem apenas concebeu devolver os tribunais aos equestres (equites), embora também não fosse preciso, dado o seu domínio dos mecanismos do Estado, e do próprio Senado, purgado de optimates.

Concedeu a plena cidadania aos itálicos emancipados, e as suas distribuição entre as 35 tribos. Dois censores foram nomeados, Lúcio Márcio Filipo (o mesmo que se havia oposto à proposta de Marco Lívio Druso, o Tribuno a conceder a cidadania aos itálicos) e Perpena, que se encarregaram de distribuir aos novos cidadãos no censo, que incluía 436.000 cidadãos romanos.

Também são conhecidas algumas das medidas econômicas de Cina, tendentes em geral a satisfazer as corruptelas de senadores e cavaleiros: em 86 a.C. Valério Flaco, o seu colega consular, conseguiu convencer Cina para aprovar uma lei que revitalizara o movimento de numerário e o tráfego comercial através do condoamento de 3/4 partes das dívidas. Por outro lado, para evitar a falsificação e assegurar a estabilidade da moeda estabeleceram-se medidas de controlo, ao tempo que se fixou a taxa de troco entre o asse e o denário.

Esta aparente tranquilidade do governo presidido por Cina ficou em perigo por dois fatos: no exterior, a falta de um acordo com Sula que obrigava a preparar a defesa da Itália frente do seu iminente retorno do Oriente; na ordem interna, a escolha (por volta de 85 e 84) de Cneu Papírio Carbão como cônsul, quem imprimiria um maior radicalismo ao governo. Cina enviou com um exército à Ásia Menor no comando de Lúcio Valério Flaco, ao tempo que despojava Sula do seu proconsulado. Contudo, Flaco foi assassinado pelo seu ambicioso legado Caio Flávio Fímbria, que assumiu o comando. Fímbria conseguiu alguns sucessos, mas atuou com grande crueldade e ganhou o ódio da população local. Quando Sula saiu ao seu encontro, os seus soldados o abandonaram e suicidou-se.

Cina e Carbão prepararam-se para atacar Sula na Grécia antes que este invadisse a Itália, realizando um recrutamento forçoso que precipitou a repartição igualitária dos cidadãos nas tribos; o exército, concentrado em Ancona, recebeu a ordem de se transladar para a costa liburnina, o que desencadeou um motim militar. Cina, que se encontrava em Brundísio (atual Brindisi) para embarcar as suas tropas rumo a Tessália e enfrentar Sula, transladou-se para tentar reprimi-lo, sendo morto pelos soldados.[3] De tal maneira, Papírio Carbão tornou-se no líder dos populares e o único cônsul. Com a morte de Cina começou o final do regime popular, e vieram à tona pública os erros, a corrupção e a incompetência dos Cinnani, que começaram a perder apoios em favor de Sula.

Família[editar | editar código-fonte]

A filha de Cina, Cornélia Cinila, foi a primeira esposa de Júlio César, com quem se casou em 84 a.C. O filho de Cina, também chamado Lúcio Cornélio Cina, falecido em 44 a.C., foi um pretor que se alineou com os assassinos de César e expressou publicamente a sua aprovação pelo assassinato.

Referências

  1. Epigraficamente, L·CORNELIVS·L·F·L·N·CINNA.
  2. De clar. orat., 62.
  3. Apiano, Bel. Civ., 1, 77-78.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes[editar | editar código-fonte]

Obras modernas[editar | editar código-fonte]

  • Arbizu Orcoyen, Jose María (2000): Res publica oppressa. Política popular en la crisis de la República (133-44 a.C.). Madrid, UCM. ISBN 84-7491-574-0
  • Grimal, Pierre (199'): El mundo mediterráneo en la edad antigua III. La formación del Imperio Romano. Madrid, Siglo XXI. ISBN 84-323-0168-X
  • Roldán Hervás, José Manuel (1987): Historia de Roma I: la República Romana. Madird, Cátedra. ISBN 84-376-0307-2
  • La crisis de la República : de los Gracos a Sila. Liceus, Servicios de Gestión y Comunicación, S.L. ISBN 84-96359-29-8
Precedido por
Lúcio Cornélio Sula e Quinto Pompeu Rufo
Cônsul da República Romana
junto com Cneu Octávio

87 a.C.
Sucedido por
Lúcio Cornélio Cinna e Caio Mário
(sufecto: Lúcio Valério Flaco)
Precedido por
Lúcio Cornélio Cinna e Cneu Octávio
Cônsul da República Romana
junto con Caio Mário
(sufecto : Lúcio Valério Flaco )

86 a.C.
Sucedido por
Lúcio Cornélio Cinna e Cneu Papírio Carbão
Precedido por
Lúcio Cornélio Cinna e Caio Mário
(sufecto: Lúcio Valério Flaco)
Cônsul da República Romana
junto com Cneu Papírio Carbão

85 a.C.
Sucedido por
Lúcio Cornélio Cinna e Cneu Papírio Carbão
Precedido por
Lúcio Cornélio Cinna e Cneu Papírio Carbão
Cônsul da República Romana
junto com Cneu Papírio Carbão

84 a.C.
Sucedido por
Lúcio Cornélio Cipião Asiático Asiageno e Caio Norbano