Carlos Alberto Nunes

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Carlos Alberto Nunes
Nascimento 19 de janeiro de 1897
São Luís, MA
Morte 9 de outubro de 1990 (93 anos)
Sorocaba, SP
Alma mater Faculdade de Medicina da Bahia
Ocupação Médico, escritor, tradutor

Carlos Alberto da Costa Nunes (São Luís do Maranhão, 19 de janeiro de 1897Sorocaba, 9 de outubro de 1990)[1] foi um médico, literato, poeta e tradutor brasileiro. Traduziu o teatro completo de Shakespeare, a Eneida de Virgílio, a Ilíada e a Odisséia de Homero, e todos os diálogos de Platão.

Era tio do filósofo Benedito Nunes.

Vida[editar | editar código-fonte]

Filho de José Tito da Costa Nunes e Cândida Amélia da Costa Moura, fez os seus estudos primário e secundário em São Luís do Maranhão[1]. Em 1920, formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia[1]. Exerceu clinica no Acre, ainda em tempos da ferrovia Madeira-Mamoré.

Passou a residir no Estado de São Paulo, onde exerceu medicina no vilarejo de Bom Sucesso (hoje cidade de Paranapanema), em Angatuba, Tatuí, Santa Cruz do Rio Pardo, Fartura e Guaratinguetá, para, depois, definitivamente estabelecer-se na capital paulista, onde trabalhou até a aposentadoria no Instituto Médico Legal. Esse cargo de médico legista, obteve por concurso[1].

Quando de sua passagem por Angatuba, Carlos Alberto Nunes conheceu a jovem e viúva professora Filomena Turelli (1897-1983), filha de um paciente, o italiano Francesco Turelli. Como ele, o pai de sua futura esposa apreciava o estudo de história e literatura clássica. Após namoro, uniram-se Carlos e Filomena definitivamente em casamento realizado na cidade de Tatuí. Segundo depoimento de seu cunhado Ulisses: "Dr. Carlos era vindo de família de inteligentíssimos, porém todos padecentes de tuberculose. Naqueles tempos (início do século XX), quem morava em São Luís preferia ir fazer compras em Portugal do que vir até ao Rio de Janeiro, isso facilitado pela rota ser mais curta. Assim, numa dessas viagens feitas de navio ao velho continente, quando do percurso de retorno ao Brasil, seu pai já estava muito debilitado, veio falecer dessa doença. O funeral ocorreu em alto mar".

Filomena teria sido a maior incentivadora em suas primeiras tentativas como tradutor. O casal era bem considerado nos meios literários de São Paulo e, ao final de suas vidas, doaram uma rica obra homeriana à Academia Paulista de Letras. Ele também pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo[1].

Carlos Alberto Nunes veio a falecer em Sorocaba no dia 9 de outubro de 1990. Seus restos mortais foram levados ao local onde estão os de sua esposa, no cemitério municipal de Angatuba. No túmulo consta a frase: "UIXERUNTQUE MIRA CONCORDIA PERMUTUAM CARITATEM ET IN UIGEM SE ANTEPONENDO". Não deixou filhos.

Sobre sua Obra[editar | editar código-fonte]

Em 1938 publicou pela editora Elvino Pocai o poema épico nacional "Os Brasileidas". Graças ao poema foi convidado a preencher a vaga na cadeira número cinco da Academia Paulista de Letras e isso se concretizou no dia 8 de março de 1956[1]. Ali ele também viria trabalhar no quadro administrativo.

Júlio Dantas comentou certa vez: "O poeta é simplesmente extraordinário. Que dignidade de expressão, que nobreza de imagens, que alto sentido do estilo épico, que vigor e que movimento nas narrativas, que conhecimento substancial da língua, que domínio absoluto do verso branco, quase sempre escultural".

Um dos maiores legados deixados pelo escritor foi o trabalho como tradutor de idiomas. Traduziu do alemão Clavigo e Stella de Goethe (1949), Judith de Christian Friedrich Hebbel (1969), do inglês o teatro completo de Shakespeare (1955), do latim a Eneida de Virgílio (1975) e do grego antigo a Ilíada e a Odisseia (1962), bem como as obras de Platão[1]. Trata-se de enorme patrimônio deixado à cultura nacional brasileira.

Redigiu também os dramas Estácio (1971) e Moema (1950), além da obra Os Brasileidas.

Corpus Platonicum[editar | editar código-fonte]

A sua tradução do grego do Corpus Platonicum (1973-1980) para a língua portuguesa é obra de referência nas universidades brasileiras. Na edição utilizou os textos em grego de Burnett (Platonis Opera, Oxford, 1892-1906), Friderici Hermann (Opera, Firmin Didot, 1891), Hirschigii (Platonis Opera, Firmin Didot, 1891) e da Société de Belles Lettres (Paris, 1920). Ademais, empregou a paginação de Stephanus/Burnet ao texto, o que explicitou à época o maior rigor de sua tradução.

A tradução dos diálogos platônicos, editada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), tinha 14 volumes. O primeiro volume era introdutório, chamava-se Marginália Platônica. Entre 1986-1988 houve uma reedição de três desses volumes. Entre 2000 e 2007, houve uma reedição de outros sete volumes da Obra, coordenada pelo sobrinho do tradutor, o filósofo Benedito Nunes e pelo Prof. Dr. Victor Sales Pinheiro[2]. Atualmente, a editora da UFPA resolveu re-editar em 18 volumes, numa edição bilíngue (grego-português), os diálogos completos de Platão traduzidos por Carlos Alberto Nunes[3]. Os primeiros 3 volumes são: O Banquete, Fédon (ou "Fedão") e Fedro.

Ilíada e Odisseia[editar | editar código-fonte]

No caso da tradução da Ilíada e da Odisseia de Homero, Nunes conseguiu estabelecer uma rima inédita, feita diretamente a partir do grego antigo. Suas traduções de Homero são consideradas um paradigma tanto por filólogos quanto por helenistas no Brasil. No prefácio da edição da Ilíada, Nunes lembra da famosa questão homérica, comenta a posição de autores como Ulrich von Wilamowitz-Moellendorff, Christian Gottlob Heyne e Heinrich Pestalozzi (no livro: "Die Achilleis als Quelle der Ilias") e, por fim, rejeita a unidade "intransigente" dos poemas (Ilíada e Odisseia), defendendo a Escola Analítica e o seu método. Ali ele explica:

Teatro Completo de Shakespeare[editar | editar código-fonte]

Em 1954 Nunes termina a tradução da obra de Shakespeare, originalmente publicada pela editora "Melhoramentos". O tradutor certamente não é o primeiro a traduzir Shakespeare, mas é o primeiro a traduzir a obra completa em português. Para tanto, utilizou na tradução da prosa e de versos decassílabos heróicos. Em 2008, a editora Agir publica, agora em três volumes reunidos, o Teatro Completo de Shakespeare, totalizando 1.912 páginas[4].

Obras[editar | editar código-fonte]

  • Os Brasileidas (1938 - Editora Elvino Pokai e após, pela Melhoramentos)
  • Beckmann (edição particular)
  • Estácio (edição particular)
  • Adamastor ou O Naufrágio de Sepúlveda (edição particular)
  • Clávigo (traduzido de Goethe)
  • Ifigênia em Tauride (ano 1964 Goethe-Instituto Hans Staden)
  • Tragédias (traduzido de Friedrich Hebbel - Editora Melhoramentos)
  • Shakespeare (tradução da obra completa - Editora Melhoramentos)
  • Ilíada (traduzido do grego antigo - Editora Melhoramentos)
  • Odisseia (traduzido do grego antigo - Editora Melhoramentos)
  • Diálogos de Platão (tradução em 14 volumes, Editora da Universidade do Pará - Universidade Federal do Pará):
    • Marginália Platônica: volume introdutório à edição completa dos diálogos
    • Volume 1-2: Apologia de Sócrates - Critão - Menão - Hípias Maior
    • Volume 3-4: Protágoras - Górgias - O Banquete - Fedão (2a. edição, Belém: EDUFPA, 2002 - ISBN 85-247-0216-8)
    • Volume 5: Fedro - Cartas - o Primeiro Alcibíades
    • Volume 6-7: A República (3a. edição, Belém: EDUFPA, 2000 - ISBN 85-247-0195-1)
    • Volume 8: Parmênides - Filebo
    • Volume 9: Teeteto - Crátilo (3a. edição, Belém: EDUFPA, 2001 - ISBN 85-247-0205-2)
    • Volume 10: Sofista - Político - Apócrifos duvidosos
    • Volume 11: Timeu - Crítias - O segundo Alcibíades - Hípias Menor
    • Volume 12-13: Leis e Epínomis
  • Virgílio (tradução)
  • História da Academia Paulista de Letras.

Links Externos[editar | editar código-fonte]

Os Brasileidas

Referências

  1. a b c d e f g Contracapa da edição de PLATÃO. A República. In: Diálogos de Platão (Contracapa do livro). Tradução do grego por Carlos Alberto Nunes. 3a. ed., Belém: Universidade Federal do Pará, 2001.
  2. http://www.ufpa.br/editora/outros.php?id=11 Página Oficial da Universidade Federal do Pará.
  3. http://www.ufpa.br/editora/notadoeditor.pdf Página Oficial da Universidade Federal do Pará - Nota do Novo Editor do Corpus Platonicum.
  4. http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,shakespeare-total-e-em-traje-de-gala,293990,0.htm Resenha do Jornal "O Estado de S. Paulo".