Discurso sobre o Método

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Folha de Rosto da primeira edição do Discurso sobre o método, de 1637.
René Descartes, filósofo francês e autor do Discurso sobre o método.

O Discurso sobre o método, por vezes traduzido como Discurso do método, ou ainda Discurso sobre o método para bem conduzir a razão na busca da verdade dentro da ciência (em francês, Discours de la méthode pour bien conduire sa raison, et chercher la verité dans les sciences) é um tratado matemático e filosófico de René Descartes, publicado em Leiden, na Holanda, em 1637. Ele inicialmente apareceu junto a outros trabalhos de Descartes, Dioptrique, Météores e Géométrie. Uma tradução para o latim foi produzida em 1656, e publicada em Amsterdam.

Constitui, ao lado de Meditações sobre filosofia primeira (Meditationes de prima philosophia), Princípios de filosofia e Regras para a direção do espírito (Regulae ad directionem ingenii), a base da epistemologia do filósofo, sistema que passou a ser conhecido como cartesianismo. O Discurso propõe um modelo quase matemático para conduzir o pensamento humano, uma vez que a matemática tem por característica a certeza, a ausência de dúvidas.

Segundo o próprio Descartes, parte da inspiração de seu método (descrito nesse livro/tratado) deveu-se a três sonhos ocorridos na noite de 10 para 11 de novembro de 1619: nestes sonhos lhe havia ocorrido "a idéia de um método universal para encontrar a verdade".

Discurso sobre o método foi escrito em vernáculo (os textos filosóficos costumavam ser escritos em latim), de maneira não-doutrinária, pois Descartes tentou popularizar ao máximo os conceitos ali expressos e de maneira não impositiva, mas compartilhada. Em toda a obra permeia a autoridade da razão, conceito banal para o homem moderno, mas um tanto novo para o homem medieval (muito mais acostumado à autoridade eclesiástica). A autoridade dos sentidos (ou seja, as percepções do mundo) também é particularmente rejeitada; o conhecimento significativo, segundo o tratado, só pode ser atingido pela razão, abstraindo-se a distração dos sentidos. Uma das mais conhecidas frases do Discurso é Je pense, donc je suis (citada frequentemente em latim, cogito ergo sum; penso, logo sou): o ato de duvidar como indubitável, e as evidências de "pensar" e "ser" ligadas. (A forma "penso, logo existo", popularizada por algumas traduções da obra, não é a mais correcta, uma vez que identifica o ser com o existir, conceitos diferentes no cartesianismo).[carece de fontes?]

Além dessa conclusão, Descartes também apresenta argumentos em favor da existência de Deus, especifica critérios para a boa condução da razão e faz algumas demonstrações.

Divisão e conteúdo da obra[editar | editar código-fonte]

O Discurso está dividido em seis partes, e possui uma breve introdução. Nesta, Descartes já enfatiza a divisão do livro e explica o que o leitor encontrará em cada uma das seis partes:

  • na primeira, diversas considerações sobre a ciência
  • na segunda, as principais regras para a prática científica
  • na terceira, algumas das justificativas do método
  • na quarta, as provas da existência de Deus e da alma humana, fundamentos da metafísica
  • na quinta, Descartes faz algumas aplicações do método a questões físicas e relativas à medicina; também as particularidades da alma humana
  • na sexta, as razões que o levaram a escrever o tratado e aquilo que Descartes acredita ser essencial para o progresso do conhecimento

Os quatro preceitos[editar | editar código-fonte]

O método de raciocínio proposto por Descartes no Discurso compõe-se de quatro partes distintas, sintetizadas na passagem seguinte:

"Le premier étoit de ne recevoir jamais aucune chose pour vraie que je ne la connusse évidemment être telle; c'est-à-dire, d'éviter soigneusement la précipitation et la prévention, et de ne comprendre rien de plus en mes jugements que ce qui se présenteroit si clairement et si distinctement à mon esprit, que je n'eusse aucune occasion de le mettre en doute.
Le second, de diviser chacune des difficultés que j'examinerais, en autant de parcelles qu'il se pourroit, et qu'il seroit requis pour les mieux résoudre. Le troisième, de conduire par ordre mes pensées, en commençant par les objets les plus simples et les plus aisés à connoître, pour monter peu à peu comme par degrés jusques à la connoissance des plus composés, et supposant même de l'ordre entre ceux qui ne se précèdent point naturellement les uns les autres.
Et le dernier, de taire partout des dénombrements si entiers et des revues si générales, que je fusse assuré de ne rien omettre." (Discurso, parte 2)
O método cartesiano. No preceito ou passo 1, as coisas indubitáveis (círculos marcados com i) passam por um "funil", que impede a passagem de coisas que tragam dúvidas (d). No segundo, as coisas são analisadas, ou seja, divididas para melhor compreensão; no terceiro, procede-se a síntese, ou agrupamento em graus de complexidade crescente. No último passo, as conclusões são ordenadas e classificadas.

Simplificadamente, são os passos ou preceitos:

  1. Receber escrupulosamente as informações, examinando sua racionalidade e sua justificação. Verificar a verdade, a boa procedência daquilo que se investiga – aceitar o que seja indubitável, apenas. Esse passo relaciona-se muito ao cepticismo.
  2. Análise, ou divisão do assunto em tantas partes quanto possível e necessário.
  3. Síntese, ou elaboração progressiva de conclusões abrangentes e ordenadas a partir de objetos mais simples e fáceis até os mais complexos e difíceis.
  4. Enumerar e revisar minuciosamente as conclusões, garantindo que nada seja omitido e que a coerência geral exista.

Estas operações reconstituiriam as três operações elementares da mente humana, a indução (que consiste em captar realidades mínimas), a dedução (agrupar observações e inferir resultados) e a enumeração (acompanhada da revisão e reelaboração de conceitos).

Estes preceitos são colocados em alegoria com a demolição de uma casa (o antigo método de pensamento que Descartes empregava) e a construção de um edifício seguro (o novo Método). A metáfora da construção pode ser encontrada, por exemplo, na afirmação acerca da utilidade da dúvida hiperbólica (que não seria simplesmente o duvidar por duvidar):

"Non que j'imitasse pour cela les sceptiques, qui ne doutent que pour douter, et affectent d'être toujours irrésolus; car, au contraire, tout mon dessein ne tendoit qu'à m'assurer, et à rejeter la terre mouvante et le sable pour trouver le roc ou l'argile." (Discurso, parte 3)
("Não que eu imitasse os cépticos, que duvidam apenas por duvidar, e ostentam apenas manter-se em irresolução; pois, ao contrário, todo o meu projeto era simplesmente firmar-me na certeza, e rejeitar a terra e areia instável em prol de colocar-me em rocha ou argila.")

A inspiração, por sua vez, vinha da geometria, na qual partia-se de conceitos simples para descrever progressivamente entidades mais complexas:

"Ces longues chaînes de raisons, toutes simples et faciles, dont les géomètres ont coutume de se servir pour parvenir à leurs plus difficiles démonstrations, m'avoient donné occasion de m'imaginer que toutes les choses qui peuvent tomber sous la connoissance des hommes s'entresuivent en même façon[…]" (Discurso, parte 4)
("Estas longas cadeias de razão, todas simples e fáceis, sobre as quais os geômetras costumam se servir para chegar às mais difíceis demonstrações, me levaram a imaginar que todas as coisas que podem penetrar na consciência dos homens são ligadas da mesma maneira […]")

A prova ontológica (cogito ergo sum)[editar | editar código-fonte]

Na quarta parte do Discurso Descartes realiza a prova ontológica, ou seja, a prova da existência do ser e também a prova da existência de Deus.

Aplicando o método a si mesmo, Descartes confronta o próprio raciocínio. Ele argumenta que, embora a mente possa tanto raciocinar sobre coisas reais quanto sobre coisas de sonhos, enquanto acordado ou dormindo respectivamente, ele não pode, ao refletir sobre a veracidade desses pensamentos, negar que esteja pensando; e como sujeito pensante, conclui que é seguro supor a própria existência:

"Mais aussitôt après je pris garde que, pendant que je voulois ainsi penser que tout étoit faux, il falloit nécessairement que moi qui le pensois fusse quelque chose; et remarquant que cette vérité, je pense, donc je suit, étoit si ferme et si assurée, que (…) je jugeai que je pouvois la recevoir sans scrupule pour le premier principe de la philosophie que je cherchois." (Discurso, parte 4)
("Mas imediatamente que eu observava isso, que os pensamentos de sonho se confundem com a realidade, ainda assim eu desejava pensar que tudo era falso, era absolutamente necessário que eu, quem pensa, seja algo; e enquanto eu observava que isso é verdadeiro, eu penso, logo existo, era tão certo e tão evidente que (…) eu aceitei este como primeiro princípio de filosofia, que eu estava refletindo.")

Consoante, qualquer esforço para duvidar de sua própria existência era uma ocorrência de pensamento, e essa ocorrência exigia um sujeito pensante, ainda que mínimo. Eis portanto a prova da existência de mim mesmo.

É preciso notar ainda que não é qualquer ato do eu que determina a existência. Um andar não provaria essa existência, uma vez que andar pode trazer a dúvida da existência das próprias pernas; somente um pensamento (seja ela uma dúvida, um desejo, uma afirmação, uma sensação ou similares) é indubitável e portanto adequa-se ao Método. Somente o pensamento, quando percebido, garante a existência do eu.

Existência de Deus[editar | editar código-fonte]

A existência de Deus é "provada" porque, existindo a razão e o pensamento, é preciso haver um fiador dessa razão e desse pensamento, algo que lhe dê coerência. Pela razão, existe Deus - como se Deus não fosse precisar de um fiador para si próprio. Trata-se da retomada do pensamento de Aristóteles, do noesis noeseos (pensamento do pensamento), ou o "motor imóvel". Além disso, Descartes demonstra que as idéias de perfeito, infinito e similares, são tão transcendentes a ele, ser imperfeito e finito, que é preciso haver algo de onde essa idéia venha, que não o próprio ser pensante:

"Ensuite de quoi, faisant réflexion sur ce que je doutois, et que par conséquent mon être n'étoit pas tout parfait, car je voyois clairement que c'étoit une plus grande perfection de connoître, que de douter, je m'avisai de chercher d'où j'avois appris à penser à quelque chose de plus parfait que je n'étois; et je connus évidemment que ce devoit être de quelque nature qui fût en effet plus parfaite. (…) C'est à dire, pour m'expliquer en un mot, qui fût Dieu." (Discurso, parte 4)
("A seguir, fazendo a reflexão sobre o fato de que eu duvido, e que por conseguinte meu ser não era absolutamente perfeito, porque eu via claramente que era perfeição maior conhecer do que duvidar, eu percebi que dessa reflexão concluía a existência de algo mais perfeito que eu era; e eu claramente percebi que essa percepção vinha de uma natureza que era de fato mais perfeita [que a minha]. (…) Para ser dito em uma palavra, que era Deus.")

Alguns dizem que Descartes incluiu a prova da existência de Deus apenas para satisfazer os censores do período[carece de fontes?]. Os seguidores de Descartes logo perceberam que a dúvida metódica também poderia aplicar-se a Deus; de fato, a prova da existência de Deus é uma das partes mais fracas da argumentação de Descartes. Nas Meditações, Descartes também argumentará a existência de Deus através da suposição de que o pensamento de Deus contém também sua existência; o pensamento que contém o próprio pensado, mas todo esse argumento pode ser facilmente vencido pela causa/efeito, o que domina toda a razão.

Outros dizem não tão plausivelmente, que a relação causa e efeito só pode ser quebrada por um ser perfeito, sobrenatural, portanto Deus, tornando o argumento logicamente perfeito, e ainda, de forma atualmente aceita como incorreta, que sua existência seria fortalecida por evidências naturais apontadas pela ciência, Relatividade Geral, Termodinamica, Lei da Causalidade, Teoria do BigBang ou evidências metafisicas apontadas pela razão.

a questão à luz da ciência moderna[editar | editar código-fonte]

De fato tem-se em vista da compreensão moderna que evidências naturais não corroboram existências de entidades sobrenaturais. Encaremos a questão à luz da razão. Visto ser a causalidade uma lei do nosso universo, qual seria o sentido da pergunta “qual a causa do nosso universo”?, ou equivalente, “qual a causa do Big Bang?” ? É certo que o simples fato de colocar-se tal pergunta como aceitável logicamente implica a validade de se importar do nosso universo para o que chamar-se-á aqui de “pré-universo” - onde encontra-se-ia a causa do nosso universo, a causa da singularidade do Big Bang - a validade da causalidade, deixando-se bem claro que cientificamente, do último, não sabe-se absolutamente nada acerca das leis que lá vigorariam uma vez admitida sua existência, podendo em princípio serem essas completamente distintas das que vigoram no nosso universo. Pois eis que surge a resposta teológica lacunar: Deus. Pois eis que vem a pergunta iminente: no pré-universo onde Deus existe como causa do nosso universo, e pelo qual por premissa vale a causalidade, qual a causa de Deus? A resposta obviamente não pode ser a de que Deus não tem causa, pois em um pré-universo onde a lei da causalidade não se aplica, não haveria certamente a necessidade de causa para o nosso próprio universo, o que invalidaria a questão sobre a qual se desenrola o argumento. Em caso contrário, permanece a pergunta "qual a causa de Deus?", e esse não configura-se como a derradeira resposta à questão.

A eternidade de Deus ou atemporalidade do "pré-universo" poderia e já foi cogitada diversas vezes como resposta, contudo também não constitui uma resposta válida, visto que não se conhece em verdade o destino derradeiro do universo. Soluções completamente naturalistas são nesse contexto, embora certamente ainda não científicas, tão plausíveis quanto à associada à transcendentalidade, onipotência e eternidade de Deus: uma possibilidade é a de que o universo oscile entre Big Bangs e Big Crunchs, expandindo-se de um ponto singular a um volume máximo e posteriormente contraindo-se, sob a ação da gravidade, até atingir-se novamente a singularidade, que, por ser singular, isolaria da causalidade os diversos períodos do ciclo eterno, sem contudo hora alguma violá-la. Nesse cenário é óbvia a não necessidade de entes sobrenaturais à explicação, e a causa da existência do universo seria o próprio universo. A afirmação de que o universo provém do “nada” mostrar-se assim naturalmente descabida, ao menos frente a tal contexto, portanto.

De certo é pois que a existência do Universo não corrobora a existência de um projetista onipotente para o mesmo, sendo essa a falha central da proposta moderna conhecida por “desenho inteligente” e de sua “complexidade irredutível”. Da mesma forma que não é viável via lógica demonstrar-se a inexistência dos deuses ou entes transcendentais valendo-se para tal de fatos naturais atrelados ao nosso universo, qualquer tentativa de se usar os mesmos fatos para corroborar a existência de quaisquer entidades transcendentais onipotentes não passa de mero imbróglio tautológico. A definição de Deus conforme proferida pelos teístas faz-se por declaração não testável frente aos fatos naturais presentes em nosso universo, e é por tal que Deus não pertence ao escopo da ciência.

Se outrora a contradiziam, os teólogos de hoje alegam que a ordem e a inexorabilidade das leis naturais do universo são evidências para a existência de Deus. Contudo não percebem que justamente a existência de tais leis universais inexoráveis são a mais pura evidências que implicam a não necessidade da existência de Deus ou deuses como causa primordial. É certo que essas contudo também não negam a existência desse(s).

Aplicação do método nas ciências[editar | editar código-fonte]

Descartes mostra, no penúltimo capítulo do Discurso, a aplicação prática do método a algumas questões científicas. Entre elas, destaca-se a descrição dos animais não-humanos como máquinas orgânicas complexas, marca do mecanicismo atribuído a Descartes.

De fato, Descartes afirma que vários dos comportamentos do próprio ser humano são passíveis de explicações mecânicas. O que diferenciaria o ser humano dos demais animais seria a capacidade de responder criativamente ao meio, em especial através da linguagem. Trata-se de uma antecipação do famoso teste de Turing, usado para determinar a existência de inteligência com base na capacidade criativa de algo ou alguém.

O Método, em seu aspecto de dividir, ordenar e classificar, é a base de muitos conceitos científicos que vieram a ser desenvolvidos nos anos subseqüentes, de grande importância para a humanidade: o sistema de coordenadas cartesiano, o cálculo, a geometria analítica e a disposição estatística em histogramas.

A grande contribuição (para alguns, desastrosa) de Descartes para a ciência moderna está, efetivamente, na descaracterização de um mundo enquanto qualitativo e sua redução a um mundo puramente quantitativo. No Discurso, concluiu-se que Deus existe, assim como o eu pensante ou alma (res cogitans) e a matéria ou extensão (res extensa, isto é, o corpo - esta concessão ao realismo trouxe muitos problemas ao idealismo); tudo mais deve ser expresso em termos destas existências. O avanço da ciência em bases quantitativas levou ao abandono do mundo do "mais ou menos", e se não trouxe a derradeira resposta a tais questões, ao menos descartou-as como implicações científicas válidas perante o método científico, contudo.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Filósofos de inspiração cartesiana[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • MORENTE, Manuel García. Curso de Filosofia: lições preeliminares. São Paulo : Mestre Jou, 1967

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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