Cogito ergo sum
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O latim cogito, ergo sum, geralmente traduzido para o inglês como "penso, logo existo", é o "primeiro princípio" da filosofia de René Descartes. Ele o publicou originalmente em francês como je pense, donc je suis em seu Discurso sobre o Método de 1637, para alcançar um público mais amplo do que o latim permitiria.[1] Mais tarde, apareceu em latim em seus Princípios da Filosofia, e uma frase semelhante (em latim: Ego sum, ego existo; romaniz.: Sou, existo) também figurou de forma proeminente em suas Meditações sobre a Primeira Filosofia. O ditado também é às vezes referido como cogito.[2] Como Descartes explicou em uma nota de rodapé, "não podemos duvidar de nossa existência enquanto duvidamos". Em A Busca da Verdade pela Luz Natural, publicado postumamente, ele expressou essa percepção como dubito, ergo sum, vel, quod idem est, cogito, ergo sum ("duvido, logo existo — ou, o que é o mesmo — penso, logo existo.").[3][4] Antoine Léonard Thomas, em um ensaio de 1765 em homenagem a Descartes, apresentou-o como dubito, ergo cogito, ergo sum ("duvido, logo penso, logo existo.").[a]
A afirmação de Descartes tornou-se um elemento fundamental da filosofia ocidental, pois pretendia fornecer uma base sólida para o conhecimento diante da dúvida radical. Enquanto outros conhecimentos poderiam ser fruto da imaginação, engano ou erro, Descartes afirmava que o próprio ato de duvidar da própria existência servia — no mínimo — como prova da realidade da própria mente; para que haja um pensamento, deve haver uma entidade pensante — neste caso, o eu.
Uma crítica ao ditado, sugerida inicialmente por Pierre Gassendi, é que ele pressupõe a existência de um "eu" que deve estar pensando. De acordo com essa linha de crítica, o máximo que Descartes tinha o direito de dizer era que "o pensamento está ocorrendo", e não que "eu estou pensando".[5]
A Demonstração do Cogito
[editar | editar código]A demonstração do Cogito dá-se de maneira bastante breve no Discurso do Método, mas é muito mais extensa e detalhada nas Meditações Metafísicas. Para chegar ao “cogito, ergo sum”, Descartes estabelece dois movimentos: primeiro, demonstrar as razões que o levam à dúvida hiperbólica; e segundo, demonstrar como a dúvida hiperbólica leva à certeza indubitável de que ele mesmo existe enquanto coisa que pensa. Delineemos, a seguir, esses dois movimentos meditativos que o levam ao cogito.[6]
Meditação Primeira
[editar | editar código]Descartes deixa claro que o propósito de suas meditações é estabelecer o conhecimento sob bases sólidas e seguras.[7][8] Nesse sentido, ele rejeita – como se fosse totalmente falso – tudo aquilo que pudesse supor a menor dúvida.[8][9]
Em seguida, ele estabelece três pontos[10][11] para especificar como esse processo de rejeição ocorrerá, que são:
I. Negação daquilo que se baseia nos sentidos, já que é claro que os sentidos às vezes nos enganam e que não é prudente confiar naqueles que um dia nos enganaram.[8][12]
II. Negação das coisas que se apresenta em um sonho, já que não há indícios concludentes de que podemos distinguir a vigília do sono e, portanto, não podemos saber se estamos sonhando agora ou se estamos acordados.[8][13]
III. Negação dos paradigmas matemáticos. Esse é um ponto mais complicado, pois parece que, acordando ou dormindo, 2 + 3 = 5; que, mesmo em sonho, 2 + 3 nunca será igual a 7.[14] Para negar essa objeção, Descartes apontará para o fato de que raciocinamos errado em relação às demonstrações mais simples da matemática.[8] Entretanto, ele irá se concentrar principalmente no apontamento da possível existência de um “gênio maligno” que poderia fazê-lo crer que 1 + 1 = 2, mesmo que isso não fosse verdadeiro.[15] Nesse sentido, a suposição do gênio maligno parece promover a negação não só de suas crenças matemáticas, mas também de o restante de suas opiniões.[16]
Diante desses pontos, Descartes conclui que deve rejeitar tudo aquilo que recebera em sua crença como verdadeiro e considerar todas as suas antigas opiniões como falsas. Esse é momento em que ele assume a suspensão do juízo[17] e a dúvida hiperbólica.
Meditação Segunda
[editar | editar código]Descartes percebe que, ao duvidar de tudo, ele não poderia negar que há a própria dúvida. Então ele admite que “penso, logo sou” deve ser o seu primeiro princípio firme e indubitável que sustentará o fundamento do conhecimento.[18] Em outras palavras, tentando negar tudo como falso, acabava-se afirmando a existência do pensamento. Descartes duvidava e isso era indubitável, i. é, que Descartes duvidava era aquilo que conseguia resistir ao gênio maligno, pois o próprio Descartes precisaria, para ser enganado pelo gênio maligno, existir enquanto aquele que é enganado (ou aquele que pensa).[19]
Assim, “cogito ergo sum” se torna o primeiro princípio firme e indubitável de sua jornada meditativa.[18] Ele é o ponto arquimediano de sua filosofia.[20] De sua própria existência enquanto coisa que pensa, então, Descartes não pode duvidar, já que, enquanto pode pensar, ele próprio é uma coisa que pensa.[21] Essa “coisa que pensa” é aquilo “que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que imagina também e que sente”.[22] Em contrapartida, ele só pode afirmar que é uma coisa que pensa enquanto pensa. Se cessar o seu pensar, cessasse simultaneamente o seu existir.[21]
As Objeções ao Cogito
[editar | editar código]Ao longo da história do pensamento, diversos filósofos se enveredaram na tentativa de objetar o argumento cartesiano.
Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716)
[editar | editar código]A objeção de Leibniz consiste em apelar que haveria na demonstração do cogito uma circularidade. Isto é, o “eu” que existe já está pressuposto ao assumir “eu penso”.[23]
Friedrich Nietzsche (1844-1900)
[editar | editar código]Embora Nietzsche, em Além do bem e do mal, §16, não chegue a se referir diretamente a Descartes, fica claro que ele está se referindo ao pensamento cartesiano e estabelecendo uma crítica ao “cogito ergo sum”.[24]
Ele coloca que, ao decompor o processo lógico que leva Descartes ao “penso, logo sou”, é possível detectar algumas pressuposições por trás da frase, tais como:
- Eu sou aquilo que pensa;
- Deve existir algo que pensa;
- O pensamento não pode existir sem algo para efetivá-lo;
- “Pensar” é a atividade de um ente que é;
- “Pensar” é o efeito de um ente que é;[25]
- Um ente é a causa do pensar;[25]
- O “eu” sabe o que significa “pensar”;
- O “eu” difere o pensar de outros fenômenos que ocorrem nele;
- Existe um “eu”; etc.
A crítica de Nietzsche se norteia aqui no sentido de que haveria uma dificuldade – ou quem sabe impossibilidade – de fundamentar esses pressupostos sobre um suporte inabalável. Desse modo, por meio da demonstração do cogito, Descartes não construiria um conhecimento sem pressupostos e nem o firmaria em bases sólidas e seguras, como pretendia.[24]
Bertrand Russell (1872-1970)
[editar | editar código]Russell objetará que, no máximo, Descartes poderia inferir que há o pensamento, e não que “eu penso”.[23]
Ver também
[editar | editar código]Notas e referências
Notas
- ↑ Essa expressão é frequentemente atribuída erroneamente a Descartes. (Ver outras formas.)
Referências
- ↑ Burns, William E. (2001). The Scientific Revolution: An Encyclopedia. Santa Barbara, California: ABC-CLIO. ISBN 978-0-87436-875-8
- ↑ «COGITO | Meaning & Definition for UK English | Lexico.com». Lexico Dictionaries | English (em inglês). Consultado em 11 de julho de 2022. Arquivado do original em 8 de março de 2021
- ↑ Adam, Paul; Tannery, eds. (1901), «La Recherche de la Vérité par La Lumiere Naturale», Oeuvres de Descartes, X, p. 535.
- ↑ Hintikka, Jaakko (1962). «Cogito, Ergo Sum: Inference or Performance?»
. The Philosophical Review. 71 (1): 3–32. ISSN 0031-8108. JSTOR 2183678. doi:10.2307/2183678
- ↑ Fisher, Saul (2005). «Pierre Gassendi». Consultado em 1 de dezembro de 2014 from Stanford Encyclopedia of Philosophy
- ↑ O primeiro movimento corresponde sua Meditação Primeira e o segundo, a sua Meditação Segunda. Ambos são etapas das Meditações Metafísicas, que são resumidas em seu Discurso sobre o Método.
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 29–29
- ↑ a b c d e DESCARTES, René (2013). Discurso do Método. Porto Alegre: L&PM. pp. 63–63
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 30–30
- ↑ Também pode-se considerar o argumento do gênio maligno como um quarto ponto, embora nas Meditações Metafísicas ele surja como um contraponto em relação a resistência dos paradigmas matemáticos ao argumento do sonho.
- ↑ No Discurso do Método, Descartes estabelece o ponto III antes do II, mas nas Meditações Metafísicas essa ordem é invertida, i. é, primeiro ele utiliza o argumento dos sonhos e, em seguida, nega os paradigmas matemáticos. Isso ocorre porque ele utiliza argumentos diferentes nas duas obras para chegar à suspensão do juízo. Na verdade, no Discurso do Método essa ordem não importa, mas nas Meditações Metafísicas, em que Descartes elabora mais amarradamente o argumento do cogito, a ordem dos argumentos passa a importar.
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 31–31
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 32–33
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 35–35
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 35–36
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 36–37
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 36–38
- ↑ a b DESCARTES, René (2013). Discurso do Método. Porto Alegre: L&PM. pp. 64–64
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 42–43
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 41–42.
Arquimedes, para tirar o globo terrestre de sua posição e transportá-lo para outro lugar, nada pedia senão um ponto que fosse fixo e assegurado. Assim, terei direito de conceber altas esperanças, se for feliz o bastante para encontrar uma coisa que seja certa e indubitável.
- ↑ a b DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 46–46
- ↑ DESCARTES, René (2005). Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes. pp. 47–48
- ↑ a b MARCONDES, Danilo (2015). Iniciação à História da Filosofia: Dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar. pp. 173–173
- ↑ a b NIETZSCHE, Friedrich (2013). Além do bem e do mal. São Paulo: Escala. pp. 34–36
- ↑ a b É interessante notar que, na interpretação nietzschiana, o “ergo” (“logo”) é um conectivo que sugere relação de causa e consequência. Assim, “penso” seria uma premissa e “sou” seria a conclusão que se segue dessa premissa. Nesse sentido, Nietzsche questiona por quais razões deve aceitar essa premissa e acreditar nessa relação de causa-e-consequência. Essa interpretação, entretanto, será questionada posteriormente.
Bibliografia
[editar | editar código]- DESCARTES, René. Discurso do Método. Porto Alegre: L&PM, 2013.
- DESCARTES, René. Discours de La Méthode. Consultado em 15. Jun. 2017.
- DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
- DESCARTES, René. Méditations Métaphysiques. Arquivado em 12 de julho de 2017, no Wayback Machine. Consultado em 15. Jun. 2017.
- MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.
- MARINHO, Elan. O que significa "penso, logo sou"?. Universo Racionalista, 2017.
- NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: Escala, 2013.
- Abraham, W. E. 1974. "Desvendando o Cogito." Mind 83:329.
- Baird, Forrest E., e Walter Kaufmann . 2008. De Platão a Derrida . Upper Saddle River, NJ: Pearson Prentice Hall. ISBN 978-0-13-158591-1 .
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- Kierkegaard, Soren . [1844] 1985. Fragmentos Filosóficos . Princeton. ISBN 978-0-691-02036-5.
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