Febre reumática

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Febre reumática
Bactéria Streptococcus pyogenes (mancha de Pappenheim), a causa da febre reumática.
Classificação e recursos externos
CID-10 I00-I02
CID-9 390392
DiseasesDB 11487
MedlinePlus 003940
eMedicine med/3435 med/2922 emerg/509 ped/2006
MeSH D012213

Febre reumática (FR), também chamada de reumatismo infeccioso é uma doença autoimune inflamatória que causa danos permanentes às articulações, à pele, ao coração e ao cérebro.[1] A doença normalmente desenvolve-se entre duas a quatro semanas depois de uma faringite estreptocócica.[2]

Causas[editar | editar código-fonte]

A febre reumática aparece algumas semanas depois de uma infecção por estreptococos, por exemplo uma faringite estreptocócica(imagem).

A febre reumática é uma complicação da infecção da garganta, escarlatina ou infecção de pele[3] por bactéria Estreptococo Beta-hemolítico do Grupo A (EBGA).[4] Se a infecção não foi adequadamente tratada pode induzir febre reumática em até três por cento das pessoas.[5] Acredita-se que o mecanismo subjacente implique a produção de anticorpos contra os próprios tecidos da pessoa. Dependendo da constituição genética, algumas pessoas têm mais probabilidades de adquirir a doença quando expostos a bactérias do que outras. Outros factores de risco estão relacionados à subnutrição e à pobreza.[1] O diagnóstico da febre reumática é geralmente feito com base na presença de sinais e sintomas associados a indícios duma infecção estreptocócica recente.[6]

Fisiopatologia[editar | editar código-fonte]

A reação autoimune é causada por mimetismo molecular. Ambas respostas imunitárias do paciente (tanto linfócitos B e T mediadas por células) se tornam incapazes de distinguir entre as moléculas do streptococcus e do tecido saudável do hospedeiro. Linfócito T auxiliar 1 e citocinas Th17 parecem ser mediadores-chave dos danos ao tecido cardíaco na febre reumática.[7]

Sinais e sintomas[editar | editar código-fonte]

Coraçao aberto revelando válvula mitral e cordas tendinosas endurecidos e ventrículo hipertrofiado.

Os sinais e sintomas incluem febre, dores nas articulações, movimentos involuntários dos músculos e ocasionalmente erupção cutânea sem comichão conhecida como eritema marginatum. O coração é afectado em cerca de metade dos casos. Os danos às válvulas cardíacas, a conhecida doença reumática cardíaca, geralmente ocorrem depois de múltiplos ataques, mas por vezes um único ataque pode lesar essas estruturas. As válvulas cardíacas danificadas podem provocar insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e endocardite infecciosa.[1]

Diagnóstico[editar | editar código-fonte]

Pode ser estabelecido mediante a avaliação das manifestações clínicas associadas à comprovação da infecção estreptocócica anterior. Os critérios maiores são[8]:

  • Poliartrite migratória: Inflamação de articulações que variam com o tempo.
  • Cardite: Inflamação cardíaca, principalmente nas válvulas, produzindo sopros.
  • Coréia de Sydenham ou dança de São Vito: movimentos involuntários abruptos do tronco e membros.
  • Eritema marginatum: irritação cutânea transitório, esbranquiçado no centro e vermelho nas bordas em "S", encontrados no tronco e extremidades.
  • Nódulos subcutâneos: indolores, principalmente em pernas e braços.

Os critérios menores são: dor nas articulações, febre, marcadores de fase aguda elevadas (como Proteína c-reativa) e bloqueio cardíaco de primeiro grau. Doppler pode ser usado como suplementar, mas faltam evidências sobre sua sensibilidade e especificidade diagnóstica.[9]

Como exames acessórios pode-se fazer uma dosagem sérica de estreptolisina O, por ser um marcador fiável de infecção por Streptococcus pyogenes(exceto nas infecções cutâneas onde esta toxina não é produzida). Degeneração das válvulas podem ser verificadas com eletrocardiograma ou um ecocardiograma.[10]

Epidemiologia[editar | editar código-fonte]

Mortes por febre reumática com compromisso cardíaco por milhão de pessoas em 2012 (dados da OMS).
  0–7
  8–14
  15–20
  21–25
  26–32
  33–38
  39–45
  46–52
  53–63
  64–250

A febre reumática atinge cerca de 325 mil crianças todos os anos e actualmente cerca de 18 milhões de pessoas padecem da doença. A febre reumática afecta com maior frequência indivíduos entre os 5 e 14 anos de idade,[1] e cerca de 20% das pessoas que sofrem pela primeira vez os ataques são adultos.[11] A doença é mais comum no mundo em desenvolvimento e entre os povos indígenas no mundo desenvolvido.[1] Em 2013 provocou 275 mil mortes, abaixo das 374 mil em 1990.[12] A maioria das mortes ocorreram no mundo em desenvolvimento, em que a cada ano morreram tantos quanto 12,5% dos afectados.[1] Acredita-se que as primeiras descrições desta condição de saúde remontam ao século V a.C. nos escritos de Hipócrates.[13] A doença é assim denominada devido aos sintomas similares a algumas das doenças reumáticas.[14]

Com o avanço da terapia antibiótica no mundo o número de vítimas caiu de 463 mil em 1990 para 345 mil em 2010.[15]

Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil, estima-se 5000 novos casos por anos, afetando igualmente meninos e meninas, e sendo responsável por 40% das cirurgias cardíacas no país. [16] Metade sofrem sérios problemas cardíacos e a maioria sofre de sérios distúrbios articulares.

A taxa de mortalidade por doença cardíaca causada por febre reumática em pacientes internados pelo SUS foi de cerca de 7,5% e o gasto aproximado de 150 milhões de reais em 2007. O cálculo do índice de Anos Potenciais de Vida Perdidos ajustados por incapacidade (APVP) é de 26 anos por paciente, totalizando 65 mil anos de vida perdidos.[17] Felizmente, conforme o tratamento de faringites estreptocócicas com antibiótico se torna mais disseminado e eficiente, o número de casos tende a reduzir em todo o mundo.

Prevenção[editar | editar código-fonte]

O tratamento de pessoas que tenham faringite estreptocócica com antibióticos, como penicilina, diminui o risco de desenvolvimento da febre reumática.[18] Para evitar o mau uso de antibióticos, o tratamento normalmente implica um exame ao paciente com garganta inflamada devido à faringite, o que nem sempre é possível em países em desenvolvimento. Outros cuidados de saúde preventivos passam por criar melhores condições de saneamento básico. Para aqueles com febre reumática e cardiopatia reumática, recomenda-se um tratamento prolongado com antibióticos. O paciente poderá retornar gradualmente às actividades rotineiras após um ataque.

Doze modelos de vacinas, contra as 26 variedades de Streptococcus de grupo A estão sendo desenvolvidas. [19] Inclusive um modelo brasileiro que foi bem sucedido em camundongos.[20]

Tratamento[editar | editar código-fonte]

A erradicação das bactérias que persistiram após a infecção inicial é feita com penicilina, a dose varia com a idade e peso da pessoa. Pacientes alérgicos a penicilina têm como alternativa a eritromicina por 10 dias.

O repouso é recomendado por um período de 2 a 3 meses. O paciente com poliartrite sem cardite deve fazer uso de anti-inflamatório não esteroide, como ácido acetilsalicílico (AAS®, Aspirina®) por 2 semanas e reduzir a dose gradativamente até completar os meses de repouso recomendados.

A cardite exige o uso de anti-inflamatório mais poderoso. É recomendada terapia corticosteroide, bem como fármacos específicos, se houver insuficiência cardíaca. Os movimentos involuntários (coreia) são tratados com repouso e anticonvulsivantes como valproato e carbamazepina.[21]

Uma vez que a pessoa desenvolve um quadro de cardiopatia reumática, o tratamento torna-se mais difícil. Em caso de grave estenose ou insuficiência valvular pode ser necessária a valvuloplastia das válvulas afetadas, mas nem sempre é possível reverter os danos. Em casos menos graves, a inserção de um cateter com balao, inflado na válvula com estenose, pode reduzir a obstrução. Já em pacientes que desenvolvem cardite moderada ou severa que se manifesta como a insuficiência cardíaca congestiva é necessário fazer o uso prolongado de diuréticos, betabloqueadores e inibidores da ECA.

Complicações[editar | editar código-fonte]

Quando não tratada nas primeiras semanas, a doença cardíaca reumática causa danos permanentes ao coração causando[22]:

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e f Marijon, E; Mirabel, M; Celermajer, DS; Jouven, X (10 March 2012). «Rheumatic heart disease.». Lancet [S.l.: s.n.] 379 (9819): 953–64. doi:10.1016/S0140-6736(11)61171-9. PMID 22405798. 
  2. Lee, KY; Rhim, JW; Kang, JH (March 2012). «Kawasaki disease: laboratory findings and an immunopathogenesis on the premise of a "protein homeostasis system".». Yonsei Medical Journal [S.l.: s.n.] 53 (2): 262–75. doi:10.3349/ymj.2012.53.2.262. PMID 22318812. 
  3. Carapetis JR, McDonald M, Wilson NJ. Acute rheumatic fever. Lancet. 2005. 366:155-68.
  4. http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/rheumatic-fever/basics/causes/con-20031399
  5. Ashby, Carol Turkington, Bonnie Lee (2007). The encyclopedia of infectious diseases 3rd ed. (New York: Facts On File). p. 292. ISBN 9780816075072. 
  6. «Rheumatic Fever 1997 Case Definition». cdc.gov. 3 February 2015. Consultado em 19 February 2015. 
  7. Guilherme L, Kalil J. Rheumatic Heart Disease: Molecules Involved in Valve Tissue Inflammation Leading to the Autoimmune Process and Anti-S. pyogenes Vaccine. Front Immunol. 2013. 4:352.
  8. Special Writing Group of the Committee on Rheumatic Fever, Endocarditis and Kawasaki Disease of the Council on Cardiovascular Disease in the Young of the American Heart Association Guidelines for the diagnosis of rheumatic fever. Jones Criteria, 1992 Update. JAMA. 1992;268:2069–2073. [1]
  9. Ferrieri P for the Jones Criteria Working Group Proceedings of the Jones Criteria Workshop. Circulation. 2002;106:2521–2523.
  10. http://www.healthline.com/health/rheumatic-fever#Diagnosis4
  11. Kumar, Vinay; Abbas, Abul K; Fausto, Nelson; Mitchell, Richard N (2007). Robbins Basic Pathology 8th ed. Saunders Elsevier [S.l.] pp. 403–6. ISBN 978-1-4160-2973-1. 
  12. GBD 2013 Mortality and Causes of Death, Collaborators (17 December 2014). «Global, regional, and national age-sex specific all-cause and cause-specific mortality for 240 causes of death, 1990–2013: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2013.». Lancet [S.l.: s.n.] 385 (9963): 117–171. doi:10.1016/S0140-6736(14)61682-2. PMC 4340604. PMID 25530442. 
  13. Quinn, RW (1991). «Did scarlet fever and rheumatic fever exist in Hippocrates' time?». Reviews of infectious diseases [S.l.: s.n.] 13 (6): 1243–4. doi:10.1093/clinids/13.6.1243. PMID 1775859. 
  14. rheumatic fever em Dicionário Médico de Dorland
  15. Lozano, R; Naghavi, M; Foreman, K; Lim, S; Shibuya, K; Aboyans, V; Abraham, J; Adair, T; Aggarwal, R (15 December 2012). "Global and regional mortality from 235 causes of death for 20 age groups in 1990 and 2010: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2010". Lancet. 380 (9859): 2095–128. doi:10.1016/S0140-6736(12)61728-0.
  16. COSTA, Luciana Parente; DOMICIANO, Diogo Souza and PEREIRA, Rosa Maria Rodrigues. Características demográficas, clínicas, laboratoriais e radiológicas da febre reumática no Brasil: revisão sistemática. Rev. Bras. Reumatol. [online]. 2009, vol.49, n.5 [cited 2016-09-02], pp.617-622. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0482-50042009000500010&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0482-5004. http://dx.doi.org/10.1590/S0482-50042009000500010.
  17. Muller RE. Estudo longitudinal de pacientes portadores de cardiopatia reumática no Rio de Janeiro [Dissertação de Mestrado]. Rio de Janeiro: Ministério da Saúde/FIOCRUZ; 2008.
  18. Spinks, A; Glasziou, PP; Del Mar, CB (5 November 2013). «Antibiotics for sore throat.». The Cochrane database of systematic reviews [S.l.: s.n.] 11: CD000023. doi:10.1002/14651858.CD000023.pub4. PMID 24190439. 
  19. 90. U.S. Department of Health and Human Services, National Institutes of Health, National Institute of Allergy and Infectious Diseases (USA) [Internet]. Jordan Reporter 2007: accelerated development of vaccines. Disponível em: http://www3.niaid.nih.gov/about/organization/dmid/PDF/Jordan2007.pdf.
  20. 96. Guilherme L, Fae KC, Higa F, Chaves L, Oshiro SE, Freschi de Barros S, et al. Towards a vaccine against rheumatic fever. Clin Dev Immunol. 2006 Jun-Dec; 13 (2-4): 125-32.
  21. http://www.healthline.com/health/rheumatic-fever#Treatments5
  22. http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/rheumatic-fever/basics/complications/con-20031399