Haçane ibne Ali

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Haçane ibne Ali ibne Abi Talibe (em árabe: الحسن بن علي بن أبي طالب, lit. 'Al-Hasan ibn ‘Alī ibn Abī Tālib')‎ ( 1 de março de 625 (Ramadã 15, 3 AH) – 669 (Safar 7[1] ou 28, 50 AH) com anos)[2] é uma figura importante no Islã, filho de Fátima, a filha do Profeta Maomé e do quarto califa ortodoxo, Ali.[3] Haçane é um membro do Ahl al-Bayt e do Ahl al-Kisa. Ele sucedeu por pouco o tempo o seu pai como o califa após a sua morte e antes de se retirar para Medina, quando entrou em acordo com o primeiro dos omíadas, Moáuia I, que assumiu o califado. Tanto os sunitas quanto os xiitas consideram Haçane como um mártir.

Nascimento e família[editar | editar código-fonte]

De acordo com as fontes xiitas[4] e sunitas[5], Maomé, quando do nascimento do seu neto em 3AH recebeu ordens do arcanjo Gabriel para chamá-lo de "Haçane" - um nome que não se encontrava no período pré-islâmico[6]. Maomé também honrou seu neto recitando a Adhān no seu ouvido direito[7], a Iqāmah no esquerdo[7], raspando o cabelo[8] e sacrificando um carneiro em honra ao seu nascimento[9].

Ele se casou com nove mulheres[10]:

  1. Um Kulthum bint Alfadhl bin Al-Abbas bin Abdulmuttalib bin Hashim
  2. Khawla bint Mandhoor bin Zaban bin Syar bin Amro
  3. Um Basheer bint Abi Mas'ud
  4. Ju'da bint Al-Ash'ath bin Qays Ma'di Karb Alkindi
  5. Um Ishaq bint Talha bin Ubaydillah bin Uthman Al-Taymi
  6. Zainab bint Sabee' bin Abdullah
  7. Baqliya
  8. Dhamya'
  9. Safia

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Em sua juventude, Haçane testemunhou seu pais lutando para defender o Islã nos campos de batalha e pregando para uma grande congregação de crentes por ocasião do haje e como um missionário do Islã no Iêmem antes de se retirar para um para um papel mais passivo nos assuntos de estado durante o governo dos três primeiros califas após a morte de seu avô, Maomé. Há diversos hádices que afirmam que Haçane e Huceine, seu irmão mais novo, são os "mestres da juventude no paraíso" e que ambos são imames "sentados ou de pé". Haçane é uma das cinco pessoas citadas no Hádice do Manto e acredita-se que ele tenha sido o primeiro dos familiares do profeta a entrar no Ahl al-Kisa depois de Maomé e que ele estava junto de Maomé quando criança, testemunhando a verdade do Islã em Mubahila.

Quando o terceiro califa foi assassinado por uma multidão em seu palácio em Mad'mah, Ali foi eleito para liderar os muçulmanos. Haçane ajudou seu pai: ele foi até Cufa e levantou um exército contra os revoltosos, participando ativamente nas batalhas de Baçorá, Sifim e Naravan junto com seu pai, mostrando habilidade como soldado e como líder. Ele viajou até Meca com Amar ibne Iasir para convocar mais soldados para lutar contra o exército de Aicha [6].

Califado[editar | editar código-fonte]

O ponto de vista defendido pelos xiitas é que o direito ao califado de Ali foi usurpado e que sua família teria sido abusada por Abu Baquir. Contudo, Ali, Haçane e seu irmão mais novo, Huceine, valorizavam a estabilidade da comunidade muçulmana acima de seus próprios direitos, chegando ao ponto de defender o terceiro califa, Otomão, antes que o próprio Ali recebesse o califado.

Com a morte de Ali em Cufa, um novo califa precisava ser eleito. Em acordo com desejo de Ali antes de sua morte, a escolha deveria se restringir entre Haçane e Huceine. Este, por sua vez, não reivindicou para si o califado, assim, os muçulmanos da cidade se colocaram do lado (bay'ah) de Haçane sem discussão[11].

A maior parte das cronologias não incluem Haçane ibne Ali entre os califas ortodoxos, porém muitos historiadores sunitas, como Suiuti, ibne al-Arabi e ibne Catir o aceitam como califa[12].

Moáuia ibne Abi Sufiane, que há muito mantinha uma disputa com Ali, convocou os comandantes de seus exércitos na Síria, Palestina e na Cisjordânia para que se preparassem para a luta. Ele primeiro tentou negociar com Haçane, pedindo-lhe que renunciasse ao califado na esperança de evitar a morte de muçulmanos e as questões que ficariam se ele simplesmente assassinasse Haçane. A maior parte dos historiadores afirma que grandes quantidades de dinheiro, promessas de grandes propriedades de terra e cargos de governador de províncias foram oferecidos aos comandantes de Haçane para que eles o abandonassem.

As negociações fracassaram e Moáuia decidiu marchar contra o exército de Haçane, que tinha quarenta mil homens[13], com seus próprios, supostamente com sessenta mil[14]. Os dois exércitos se encontraram perto da cidade de Sabat. Diz-se que Haçane então deu um sermão no qual ele proclamou sua ojeriza ao cisma e apelou para que seus homens seguissem suas ordens mesmo que não concordassem com elas. Uma parte das tropas, acreditando que isso era um sinal de que ele iria entregar a batalha, se rebelaram e o atacaram. Haçane foi ferido, mas os soldados fiéis a ele conseguiram cercá-lo e mataram os amotinados. Um comandante, Ubayd-Allah ibn Abbas, desertou e se juntou às forças de Moáuia.

As duas forças então se enfrentaram em algumas rusgas pouco efetivas. Haçane estava muito perturbado, pois entendia que a luta entre muçulmanos numa batalha significaria perda de muitos. Moáuia, que tinha as mesmas preocupações, enviou dois homens da tribo dos Coraixitas para tentar fechar um acordo[15]. Os acadêmicos xiitas citam um hádice de imames xiitas posteriores que afirmariam que Haçane carecia do apoio necessário para lutar e, por isso, cedeu o poder a Moáuia, assinando um acordo de que ele seria novamente califa após a sua morte. Ainda de acordo com eles, Haçane estipulou que se ele não estivesse vivo quando Moáuia morresse, o califado deveria ir para o seu irmão[16]. Os acadêmicos sunitas afirmam que Haçane estipulou que Moáuia deveria seguir o Corão e a Suna, permitindo que um "parlamento" (chura) deliberasse sobre o califado após a sua morte e que ele não cometesse atos de vingança contra seus antigos adversários. Moáuia concordou com as condições e um tratado de paz se firmou[17].

Moáuia seguiu para Cufa e exigiu que os muçulmanos da cidade confirmassem a sua lealdade para com ele como califa. Ele também pediu a Haçane que se juntasse a ele e o apoiasse contra os carijitas, então em revolta. Acredita-se que Haçane escreveu uma resposta para ele: "Eu abandonei a luta contra você, mesmo sendo direito legítimo, para manter a paz e a reconciliação da congregação dos muçulmanos [ ummah ]. Você acredita que eu devo, então, lutar ao seu lado?"[18].

O novo califa não manteve as promessas do acordo de paz, dizendo ao povo de Cufa "Vocês acreditam que eu tomei o poder para ensiná-los? Não, eu o tomei e se qualquer um de vocês discordar de mim, pagará o alto preço da perda de sua cabeça". Ele realizou a sua ambição de manter o poder em sua família nomeando o seu filho, Iázide, como califa para sucedê-lo. Esta decisão provocou ampla agitação, particularmente entre as lideranças muçulmanas, como Huceine, Abdulá ibne Omar, Abdulá ibne al-Zubair e outros.

Retirada para Medina[editar | editar código-fonte]

Haçane retornou para Medina. De acordo com historiadores persas xiitas, Maruane ibne al-Hakam, o secretário pessoal do terceiro califa, Otomão, que tinha lutado contra Ali durante a Batalha de Baçorá, era agora o governador da cidade. Haçane perdera o apoio e passou por maus bocados durante a sua estadia ali após o tratado de paz, sofrendo com provocações a abusos por parte dos seguidores de Moáuia e frustração de seus antigos aliados, ressentidos por ele ter desistido do califado.

Por outro lado, os historiadores sunitas[19] enxergam o tratado como trazendo grandes benefícios para o Império Muçulmano nos anos seguintes. O próprio Haçane é citado dizendo:

Se Moáuia era o sucessor legítimo ao califado, ele o recebeu. Se eu é que tinha esse direito, eu, da mesma forma, o passei para ele. Assim, o assunto termina aí[20]

Ele doou todos os seus pertences duas vezes durante a vida. Ele também dividiu suas terras igualmente entre ele e os pobres por três vezes[21].

Morte[editar | editar código-fonte]

Haçane ibne Ali morreu em Medina, no mês de Safar, no dia 7 ou 28 de 50 AH. Ele está sepultado no famoso cemitério de Jannatul Baqee‘, em frente à Masjid al-Nabawi ("Mesquita do Profeta"). De acordo com os historiadores, Moáuia desejava passar o califado para seu próprio filho Iázide e enxergava em Haçane um obstáculo. Ele secretamente contatou uma das esposas dele, Jada binte al-Axate ibne Cais, e a convenceu a envenená-lo. Jada o fez, servindo mel com veneno ao marido[22][23][24][25][26][27][28][29]. Madelung[30] cita outras tradições, sugerindo que Haçane possa ter sido envenenado por outro esposa, a filha de Suail ibne Amir, ou, talvez, por um de seus servos, e também cita os historiadores mais antigos (Baladuri, Waqidi etc.). Ele acreditava que Haçane fora mesmo envenenado e que o famoso historiador do início do período islâmico, al-Tabari, suprimiu a história preocupado com a fé da população em geral[31].

Os xiitas acreditam que a Jada foram prometidos ouro e um casamento com Iázide. Seduzida pelo poder e pela riqueza, ela envenenou o marido e correu para a corte de Moáuia, em Damasco, para receber sua recompensa. Moáuia então renegou as promessas e a obrigou a se casar com outro homem[32].

Haçane havia pedido que seu corpo fosse levado até o túmulo do profeta para que ele pudesse honrá-lo uma última vez e que, então, ele fosse enterrado próximo a sua avó, Fátima. Este pedido provocou uma reação armada, pois conforme o funeral prosseguiu em direção ao túmulo do Profeta, alguns omíadas a cavalo bloquearam o caminho. Aixa apareceu montada numa mula e gritando que o túmulo de Maomé estava em sua casa e que ela não permitiria que o neto de Cadija fosse enterrado ao lado dele. Uma chuva de flechas então caiu sobre o caixão. Huceine, cumprindo então o desejo final de seu irmão, liderou a procissão funerária até Jannat al-Baqi, o cemitério de Medina, onde ele foi enterrado.

Após a morte de Haçane, seus seguidores escreveram para Huceine declarando seu apoio e propuseram a derrubada de Moáuia. Ele recusou, escolhendo se manter fiel ao tratado entre Haçane e Moáuia.

O templo do túmulo de Haçane foi destruído no século XX pelos sauditas salafi[7]. Diz-se que Abu’l-Hayaaj al-Asadi teria dito:

Não devo enviá-lo para a mesma missão que o mensageiro de Alá (que a paz e a benção de Alá estejam com ele) me enviou? Não deixe estátua sem apagá-la e não deixe túmulo erigido sem arrasá-lo[33]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Shaykh Radi Al-Yasin. Sulh al-Hasan.
  2. http://www.al-shia.com/html/eng/books/masoom_hasan/2ndimam.html
  3. http://www.msawest.net/islam/politics/firstfourcaliphs.html
  4. Muhsin al-Amin al-‘Amili. A‘yan al-Shi‘a. vol. 4. Baqir Shareef al-Qurashi. The Life of Imam al-Hasan al-Mujtaba. p.57.
  5. Husayn Diyar Bakari. Tarikh al-Khamees. vol.1, p. 470.
  6. Husayn Diyar Bakari. Tarikh al-Khamees. vol.1, p. 470. Ibn al-Athir. Usd al-Ghaba.
  7. a b Ahmed, Musnad, vol. 6, p. 391. Al-Turmidhi, Saheeh, vol. 1, p. 286. Abu Dawud, Saheeh, vol. 33, p. 214.
  8. Husayn Diyar Bakari. Tarikh al-Khamees. vol.1, p. 470. Noor al-Absar, p. 107. Al-Turmidhi, Saheeh, vol. 1, p. 286.
  9. Husayn Diyar Bakari. Tarikh al-Khamees. vol.1, p. 470. Mushkil al-Aathaar, vol. 1, p. 456. Al-Hulya, vol. 1, p. 116. Al-Turmidhi, Saheeh, vol. 1, p. 286. Muhsin al-Amin al-‘Amili. A‘yan al-Shi‘a. vol. 4, p. 108.
  10. Naqoosh-e-Ismat by Allama Zeeshan Haider Jawadi p. 217-218
  11. Madlong, (1997) p. 313 - 314
  12. Suyuti em The Khalifas who took the right way página 9 e History of the Caliphs volume 12; Ibn al-Arabi em Sharh Sunan al-Tirmidhi 9:68-69 ref; Ibn Kathir in The Beginning and the End volume 6, página 249-250
  13. Dr. Israr Ahmad, The Tragedy of Karbala, Society of the Servants of Al-Quran, Lahore
  14. Ibn A'zham IV, p. 153. Other numbers: [1]
  15. Sahih Bukhari 3:49:867
  16. Imam Hasan bin 'Ali
  17. Kitab Al-Irshad, Shaykh al-Mufid, Ansariyan Publications
  18. Madelung, 1997 pp. 324-325
  19. Dr. Israr Ahmad, The Tragedy of Karbala, Society of the Servants of Al-Quran, Lahore, Pp.14 & 15,
  20. Dr. Israr Ahmad, The Tragedy of Karbala, Society of the Servants of Al-Quran, Lahore, Pp.15
  21. Yaghoubi History, Vol. 2 p. 215
  22. Mas'oodi, Vol 2: Page 47
  23. Tāreekh - Abul Fidā Vol 1 : Page 182
  24. Iqdul Fareed - Ibn Abd Rabbāh Vol 2, Page 11
  25. Rawzatul Manazir - Ibne Shahnah Vol 2, Page 133
  26. Tāreekhul Khamees, Husayn Dayarbakri Vol2, Page 238
  27. Akbarut Tiwal - Dinawari Pg 400
  28. Mawātilat Talibeyeen - Abul Faraj Isfahāni
  29. Isti'ab - Ibne Abdul Birr
  30. Madelung, pp. 331–333
  31. Madelung pp. 331–332
  32. [2], [3], [4], [5]
  33. Narrated by Muslim, 969

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Madelung, Wilferd (1997). The Succession to Muhammad: A Study of the Early Caliphate Cambridge University Press [S.l.] ISBN 0-521-64696-0. 

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