História da Loucura

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História da Loucura
Autor(es) Michel Foucault
Idioma francês
País França
Assunto loucura e razão
Gênero ensaio
Editora Perspectiva (edição brasileira)
Lançamento 1961 (edição francesa)
ISBN 978-85-273-0109-1
Cronologia
Doença mental e psicologia
O Nascimento da Clínica

História da Loucura na Idade Clássica[1] é um livro de Michel Foucault, originalmente publicado como Folie et Déraison[2] pela editora Plon, em 1961, depois como Histoire de la folie à l'âge classique, em 1972, pela editora Gallimard. Foi traduzido para o português por José Teixieira Coelho Neto, em 1978. A editora Perspectiva detém os direiros autorais para a língua portuguesa. A obra apresenta um estudo, sob a perspectiva da arqueologia histórica; das ideias, práticas, instituições, arte e literatura concernentes ao tema da loucura na história ocidental. Esta foi a primeira grande obra de Foucault, escrita enquanto ele era diretor da Maison de France na Suécia. Ela resultou de sua tese de doutoramento na Sorbonne. Na primeira versão da editora Plon figurava o famoso prefácio que gerou uma longa discussão acalorada com o filósofo franco-magrebino, Jacques Derrida, a respeito da questão do cogitus de Descartes; em razão disso, o prefácio[3][4] foi reescrito e apresentado na versão atual que é de 1972.

Foucault começa sua narrativa na Idade Média, detectando a exclusão física-social dos leprosos. Ele argumenta que com a gradativa exclusão dos leprosos, a loucura ocupou essa posição excludente. A nau dos loucos no século XV é um exemplo claro dessa prática: a prática de expulsar os loucos dos navios. Entretanto, durante a Renascença, a loucura foi tratada como um fenômeno corriqueiro porque os homens não podiam entender por completo as Razões de Deus. Miguel de Cervantes em Dom Quixote, por exemplo, retrata os homens como fracos ante a seus desejos e dissimulações. Portanto, o louco, entendido como aquele que chegou próximo demais a Razão de Deus, era aceito no meio social. Somente depois do século XVII, num movimento que Foucault descreve como o Grande Confinamento, esses membros "irracionais" da população começaram a ser presos e institucionalizados. No século XVIII, a loucura passou a ser encarada como o oposto da Razão, pois muitos homens assumiam o comportamento de animais e, portanto, deveriam ser tratados como tais. A partir do século XIX, a loucura é vista como doença mental que deve ser tratada. Alguns historiadores argumentam que o grande confinamento dos loucos não ocorreu no século XVII, mas no século XIX.[5]

Entretanto, os estudiosos da obra de Foucault demonstram que ele não se referiu a instituições médicas dedicadas exclusivamente a tratar os insanos; e que o pensamento presente nessas casas de confinamento é o mesmo da sociedade ocidental. Mais adiante, Foucault demonstra que a "grande Internação" social foi um fenômeno europeu generalizado, o qual se desenvolveu de maneira singular na França e de modo comum nos outros países, como no caso da Alemanha e Inglaterra. Alguns críticos históricos, por exemplo Roy Poter, também começaram a refutar suas convicções céticas para "abraçar" o ensinamento revolucionário trazido à tona por Foucault neste livro.[6]

Foucault também argumenta que, durante a Renascença, a loucura tinha o poder de impor uma ordem social bem como a capacidade de apontar para um verdade mais esclarecedora e profunda. Isso foi silenciado pela Razão do Esclarecimento. Ele também examina o surgimento da sociedade moderna e os tratamentos "humanitários" para o louco, como por exemplo no caso de Philip Pinel e Samuel Tuke. Foucault afirma que tais tratamentos não mais controlavam os métodos aos quais se propunham. O tratamento de Tuke consistia em punir os loucos até que eles não mais desenvolvessem sua loucura. Similarmente, o tratamento de Pinel consistia numa extensa terapia de aversão, o que incluía métodos como banho de água fria e jaqueta de força. Na visão de Foucault, esse tratamento somado a repetida brutalidade traria ao paciente a internalização de julgamento e punição.

Resumo do texto[editar | editar código-fonte]

PARTE I[editar | editar código-fonte]

CAPÍTULO 1: “Stultifera navis”: As estruturas de exclusão da lepra na Idade Média foram utilizadas para excluir a loucura na Idade Clássica. O louco do Renascimento era percebido segundo duas experiências: uma "experiência trágica/cósmica" da loucura, na qual o louco é representado como detentor da verdade no teatro, possuindo "um saber difícil, fechado, esotérico" que apresenta coisas terríveis, o fim do mundo, "a última felicidade e o castigo supremo" - mais presente na pintura e nos desenhos (Bosch, Brueghel, Dürer), mas também no teatro (Shakespeare); e uma "experiência crítica" da loucura, mais presente na filosofia e na literatura, onde o louco é um simples homem de ilusões, presunções, vícios e imprudência (Erasmo, Brant, Montaigne, Cervantes). Até o século XVI essas duas experiências chegavam a se justapor, mas no século XVII elas começam a se separar e a experiência crítica começa a predominar sobre a experiência trágica, esta última só sendo retomada levemente na segunda metade do século XVIII e mais fortemente no século XIX. Na Idade Clássica o louco é transferido do barco para o internamento.

CAPÍTULO 2: Le grand renfermement: Foucault inicia o capítulo mostrando como Descartes, na Meditação Primeira, afasta o louco da verdade subtraindo à loucura a possibilidade de ser um "objeto de pensamento" que poderia afastar o erro. A Idade Clássica criou diversos espaços de internamento (uma data de referência é a de 1656, com a fundação do Hospital geral), nos quais o louco era inserido com diversos outros tipos de indivíduo (criminosos, miseráveis, desempregados, etc.), sendo este internamento (no exemplo do Hospital geral) não uma instituição médica, mas antes "semi-jurídica". Esses espaços de internamento, sobretudo por razões econômicas, se espalharam por toda a Europa no século XVII, com suas particularidades (as casas de correção na Alemanha, as workhouses na Inglaterra, etc.). E se na Idade Média a pobreza tinha sua positividade, já no REN (sobretudo com o protestantismo) ela será negativizada, o que implicará numa subvalorização e dessacralização da própria loucura enquanto ligada à ociosidade e à pobreza. Mas o internamento não funcionava somente por motivações econômicas, pois havia também uma percepção moral que a sustentava e a animava.

CAPÍTULO 3: Le monde correctionnaire: A história da loucura na Idade Clássica feita por Foucault é "a arqueologia de uma alienação". O internamento teve uma função negativa de exclusão, mas também positiva de organização (espacial, moral, etc.), fazendo surgir um "mundo uniforme da Desrazão". Sua "terapêutica" vai mesclar o médico ao religioso e moral, a loucura se tornando próxima do pecado e da culpabilidade. A homossexualidade permitida no Renascimento se confundirá com a sodomia neste mundo da desrazão. A essa dualidade razão-desrazão vai logo se juntar aquela do normal-anormal. Já aqui Foucault enfatiza a importância da família de estrutura burguesa como "um dos critérios essenciais da razão" na Idade Clássica. Práticas até então condenadas com o fogo e a morte como a profanação e a bruxaria se juntarão à loucura, pouco a pouco, no mundo da desrazão, a bruxaria deixando de possuir - no final do século XVII - seus "poderes obscuros e transcendentes". Esta percepção da desrazão na Idade Clássica não foi produzida pelo internamento, mas sua condição, sendo diferente da percepção renascentista que associava a desrazão a poderes obscuros do mundo. A Idade Clássica amiúde percebia a loucura como um "retorno a" ou uma "memória de" épocas passadas, mas Foucault diz que "a continuidade é apenas o fenômeno da descontinuidade", ou seja, que esta percepção dependeu de modificações históricas. No começo do século XIX a loucura se desassocia da desrazão para se tornar doença mental.

CAPÍTULO 4: Expériences de la folie: Foucault não faz aqui uma história dos "erros" da Idade Clássica sobre a loucura, mas das rupturas do nosso modo de julgar. A loucura não era totalmente indiferenciada na Idade Clássica, pois havia no espaço do internamento algumas divisões grosseiras derivadas dos hospitais medievais e renascentistas (sob provável influência oriental e árabe) em que se mantinham apenas os loucos. No Hospital geral só atuava um médico, servindo para evitar efeitos de contaminação e complicações maiores de doenças, evidenciando a despreocupação terapêutica do internamento, onde o "tempo moral" predominava sobre o "tempo terapêutico". Foucault aponta semelhanças entre o internamento e as prisões, os loucos sendo até distribuídos indiferentemente entre ambas as instituições. No direito canônico e romano a loucura era reconhecida pelo médico, mas na Idade Clássica, apesar de algumas instituições exigirem formalmente julgamento médico, quem decidia no final eram os juízes, principalmente por demanda do entorno social (e.g. pelas lettres-de-cachet). Havia na Idade Clássica uma divisão entre uma "teoria jurídica" e uma "prática social" em torno da loucura, a primeira liberando-a de suas responsabilidades por ser alienada e a segunda não isentando-a de culpabilização moral. É sobre essa experiência jurídica que se basearão a ciência médica das doenças mentais no século XIX.

CAPÍTULO 5: Les insensés: Na Idade Clássica a loucura não foi separada de uma certa liberdade e de uma "má vontade" ligada a essa liberdade. Se no âmbito jurídico havia separação entre loucura verdadeira e fingida, no internamento essa separação é irrelevante porque tanto a uma quanto a outra derivariam e de uma má vontade (ou de uma vontade perversa). Descartes conduzia sua dúvida por uma "vontade de acordar", uma "boa vontade". Um traço da loucura na Idade Clássica é o escândalo ao qual era submetida, à diferença dos outros tipos de desrazão, pois era mostrada aos outros em público. A situação dos loucos na Idade Clássica era muito precária, eram tratados frequentemente como animais selvagens e bestas ferozes, mostrando a proximidade entre o homem e sua animalidade. Ligada a uma experiência ética, a loucura na Idade Clássica é uma das formas da desvalorizada desrazão; ligada “ao mundo animal, e à sua desrazão maior, ela toca sua monstruosa inocência [enfatizada no âmbito jurídico]”. Ambiguidade da loucura na Idade Clássica, da qual o positivismo do século XIX vai se aproveitar para patologizar a loucura (pelo lado “animal-inocente”) e para mantê-la internada (pelo lado mais obscuro, não confessado, da coerção moral).

PARTE II[editar | editar código-fonte]

INTRODUCTION: A experiência da loucura na história do Ocidente nunca foi homogênea. Foucault identifica quatro tipos de experiência da loucura que podem ser aplicados aos diferentes momentos da história ocidental se justapondo, mas mantendo sua autonomia e tendo algum predomínio segundo o contexto histórico: (1) Uma experiência crítica/dialética da loucura, que se reconhece como racional e moral, mas se distancia da loucura sem defini-la precisamente. Consciência não muito elaborada que é certa de não ser louca, mas acaba confundindo a linguagem da loucura e da não-loucura. Assim, a razão se torna loucura e vice-versa; (2) Uma consciência prática da loucura. Consciência de um grupo fechado e homogêneo que se considera “como portador das normas da razão”. Realiza uma separação peremptória diante da loucura, afirmando que estar de um lado ou do outro é uma questão de escolha; (3) Uma consciência enunciativa da loucura, que é antes de tudo perceptiva e não se preocupa em qualificar ou desqualificar a loucura. Consciência simples de constatação (“Aquele lá é um louco”) sem inquietações epistemológicas maiores, mas uma consciência que, em todo caso, afirma/pressupõe sua diferença em relação à loucura; (4) Uma consciência analítica da loucura, que a apreende sem intenções [explicitamente] morais, mas simplesmente em seus fenômenos mais objetivos. Consciência que quer constituir um saber objetivo sobre a loucura, tomando-a como qualquer outro objeto do saber científico. A experiência clássica da loucura foi fundamentalmente a experiência da desrazão.

CAPÍTULO 1: Le fou au jardin des espèces: Sábios e filósofos costumavam considerar a loucura, na Idade Clássica, em termos de razoável e desrazoável, enquanto médicos e eruditos em termos de racional e irracional. Na Idade Clássica, o louco era o "outro" do homem de razão, havendo da loucura - por um lado - um "reconhecimento imediato" e não teórico, pela diferença entre o homem louco e não louco, mas também - por outro lado - uma percepção científica que visava descobrir todas as formas da loucura e os signos que manifestam sua verdade. Entre estes dois polos perceptivos, "nada, um vazio", ou sendo a própria desrazão esse vazio, com algumas características: (1) como cisão que aliena o louco de sua loucura; (2) como um paradoxo que vê a loucura pelas lentes da razão que na loucura o seu oposto, a loucura tendo algo da própria razão; e (3) como indicador de um índice negativo da razão, pois a loucura se define através desta. O século XVIII vai tentar transferir o mundo patológico ao mundo da vegetação, vai tentar classificar as doenças como em um "jardim das espécies" ordenado divinamente, a moral não sendo separada, portanto, deste trabalho de classificação. Foucault se propõe analisar a experiência histórica da loucura e deduzir dessa análise o que tornou possível o conhecimento da loucura. Conhecimento que fez surgir, na passagem da Idade Clássica para a MOD, a doença mental, com o desaparecimento da desrazão.

CAPÍTULO 2: La transcendence du délire: Voltaire sobrepôs na Idade Clássica um problema filosófico (sobre a materialidade ou não da alma, no tocante à loucura) a um problema médico da época (gênero da loucura a partir do distúrbio dos sentidos ou de um delírio do espírito). Essa questão só terá real importância no século XIX, quando surgirá uma psiquiatria materialista (reduzindo a loucura ao corpo) e uma psiquiatria espiritual (remetendo a loucura ao elemento imaterial da alma). No âmbito da medicina, porém, a Idade Clássica não vai separar alma e corpo, mas afirmará uma implicação entre ambos. Causas distantes e causas próximas. A paixão como movimento que expressa ambas as causas, situando-se ao mesmo tempo na região de unidade e de distinção entre alma e corpo, como "condição de possibilidade em geral" da loucura (esta sendo doença da alma e do corpo). O terceiro ciclo da experiência da loucura na Idade Clássica será o ciclo “das quimeras, dos fantasmas e do erro”, o ciclo “do não-ser”, do delírio; é o delírio que vai ordenar - na loucura - corpo e alma, linguagem e imagem, gramática e fisiologia; ele será a própria loucura e "a transcendência silenciosa que a constitui em sua verdade". Relações entre sonho, erro e loucura. A tragédia na Idade Clássica como espelhamento entre dia e noite, da qual a loucura será afastada e apenas aproximada com Nietzsche, Artaud, etc. O internamento clássico compreende a loucura como negação da razão e, por isso, como um "nada", esforçando-se para aniquilar esse nada.

CAPÍTULO 3: Figures de la folie: Na Idade Clássica podemos observar algumas "grandes figuras da loucura", apresentadas em três grupos por Foucault. (1) O grupo da demência, que está mais próxima da essência da loucura em sua negatividade, podendo surgir do puro acaso e do puro determinismo, de modo que qualquer coisa pode causá-la. A demência permaneceu, na Idade Clássica, "na superfície da experiência - muito próxima da ideia geral da desrazão, muito distante do centro real onde nascem as figuras concretas da loucura". (2) O grupo da mania e da melancolia, que a partir do século XVII serão percebidas mais pelas suas qualidades (calor, frio, umidade, aridez, etc.) do que substancialmente. No final do século XVIII, todas essas imagens serão transpostas de outros modos às novas noções psicológicas: “vivacidade exagerada das impressões internas, rapidez na associação das ideias, desatenção ao mundo exterior”, noções estruturadas segundo “um mundo qualitativo” desenvolvido ao longo da Idade Clássica e segundo uma experiência mais positiva e próxima da modernidade. (3) O grupo da histeria e da hipocondria, que não serão consideradas doenças mentais na maior parte da Idade Clássica, nem serão próximas nas classificações nosográficas, juntando-se ao campo das doenças mentais lentamente ao longo do século XVIII. No início deste século XVIII, ganhará importância o tema das "potências inferiores", que se espalhariam pelas diversas partes do corpo depois de estar por longo tempo congestionadas. Sendo o corpo facilmente penetrável por essas potências, também será a alma, havendo efeitos de doença em ambos; mas se ambos são resistentes (o corpo sadio e a alma virtuosa) não haverá doença corporal nem mental. Essa "percepção ética" ganhará grande importância no final da Idade Clássica junto ao tema da "sensibilidade nervosa". É com esse pano de fundo que surgirá a "psiquiatria científica" no começo do século XIX.

CAPÍTULO 4: Médecins et malades: Não havia na Idade Clássica reciprocidade entre terapêutica e prática médica. Havia, sim, a ideia de que para todo mal (e doença) haveria um bem (e cura) para contrabalancear – exceto no caso da loucura. Tinham eficácia terapêutica, entre outras coisas, elementos de valores simbólicos, muito usados com a própria loucura. É apenas no final do século XVIII que os médicos começam a criticar de modo veemente aqueles que praticavam a terapêutica sem se ocupar da medicina. A cura, a partir, não será apenas constatação de efeito, mas também produto de acúmulo de reflexão e da experiência. Na Idade Clássica houve "algumas ideias terapêuticas que organizaram as curas da loucura", entre as quais Foucault destaca (1) a consolidação, (2) a purificação, (3) a imersão em água, e (4) a regulação do movimento. No final da Idade Clássica vai desaparecendo a preocupação com a restituição da relação do ser com a verdade e vai surgindo a cura pela produção de um efeito mecânico, um efeito psicológico e/ou um castigo moral. A distinção cartesiana entre res cogita e res extensa não teve importância na terapêutica da Idade Clássica, não havendo nesta terapêutica separação entre alma e corpo, o que começará a existir a partir da modernidade. Foucault ainda menciona três grandes formas de desinvestimento da desrazão na Idade Clássica, diferentes dos métodos de supressão da doença: (1) o despertar, (2) a realização teatral, (3) o retorno ao imediato-natural. Esse "naturalismo", mediado pela moral, terá cada vez mais importância a partir da segunda metade do século XVIII, sendo então reduzida a experiência da loucura como desrazão. Caberia sermos justos com Freud, diz Foucault, pois a psicanálise freudiana “retomou a loucura no nível de sua linguagem.

PARTE III[editar | editar código-fonte]

INTRODUCTION: Foucault inicia comentando o livro de Diderot, escrito entre 1762 e 1773, intitulado Le Neveau de Rameau, no qual o personagem principal é um louco que reconhece a si mesmo como louco, personagem no qual a loucura e a desrazão se reúnem pela última vez na literatura da Idade Clássica. Além disso, esse personagem é apresentado como objeto da razão e percebe, ele mesmo, como "objeto de necessidade" da razão, como a “razão [de ser] da razão”, esta última se alienando de si mesma quando toma posse da desrazão. Nesse livro a loucura é percebida como "exaltação do acaso", podendo apresentar uma verdade, mas jamais abandonando o erro; é um livro que apresenta o que a modernidade possuirá de anticartesiano, antecipando no riso do sobrinho de Rameau o movimento da antropologia do século XIX. É a continuidade da experiência da desrazão na história da loucura e, em especial, na Idade Clássica, que Foucault visa apreender.

CAPÍTULO 1: La grande peur: Na segunda metade do século XVIII surge um grande medo do internamento, medo dos contágios que dele poderia derivar, desse local onde se fermentavam conjunta e multiplamente o mal físico e o mal moral. É a partir desse medo que o médico foi entrando no internamento, sobre o qual foi permitida "uma prodigiosa reserva de fantasia" resgatada do Renascimento. Surge no século XIX o problema do "meio" no qual surge a loucura, segundo algumas relações: (1) entre loucura e liberdade, também aquela do liberalismo, que pode ser antinatural e prejudicial; (2) entre loucura, religião e tempo, as fantasias da religião sendo amiúde algo que provocaria a loucura; e (3) entre loucura, civilização e sensibilidade, pois que as atividades do homem na civilização, sendo demasiado artificiais/antinaturais, (e.g. vida de gabinete, leitura demasiada de romances, etc.), constitui esse meio no qual a loucura pode surgir. Se na Idade Clássica a loucura foi pensada como surgindo de uma falta moral ou de uma animalidade, a partir da segunda metade do século XVIII ela será pensada como surgindo de um meio “no qual se alteram as relações do homem com o sensível, com o tempo, com o outro”. No século XIX a "animalidade" (ou a proximidade dela) será pensada como algo mais natural e menos distante da loucura, razão pela qual os índios da América não seriam em parte alguma dispostos à loucura. Tema da degeneração e da degenerescência entre o século XVIII e século XIX. Tema hegeliano da alienação. O positivismo não foi, portanto, anti-histórico, pois inscrevia a loucura temporalmente. Mas logo, na metade do século XIX, essa percepção histórica será esquecida/abandonada e substituída por uma percepção moral e social, através da qual a loucura é vista como efeito ou da miséria do meio social, ou do abandono da ética burguesa, etc. Se durante a Idade Clássica o louco foi afastado da verdade em geral (sobre o mundo, etc.), no final do século XVIII ele será afastado da sua verdade, ou seja, da verdade sobre sua própria natureza, sua própria essência enquanto homem.

CAPÍTULO 2: Le nouveau partage: Ao longo do século XVIII, sobretudo a partir da metade do século, a loucura vai se especificando no espaço do internamento, se separando da desrazão. Vai surgindo uma percepção asilar da loucura e outra médica. A reforma do internamento no final do século XVIII e início do século XIX não dependeu de uma influência individual (humanitarismo ou filantropia de Pinel e outros), mas de uma "estrutura histórica - estrutura da experiência que a cultura pode fazer da loucura". Desde 1717, pelo menos, com a criação da “Companhia do Ocidente” ligada à exploração colonial da América, o internamento funcionou como uma espécie de depósito para emigrantes que povoariam as colônias. O desaparecimento das terras comunais (FRA e ING) também se ligou à existência do internamento, na medida em que criara um povo mais exposto à indigência. Houve, na França e na Inglaterra, três crises que incidiam sobre a existência do internamento no século XVIII: (1) c. 1748, (2) c. 1765, (3) c. 1770 - as duas primeiras vendo no internamento uma possível solução, a terceira realizando a crítica econômica do internamento. O pobre ganha aí um novo significado, mais positivo, que vai liberá-lo do internamento: o pobre (pelo menos o válido, não o doente) é alguém de quem a riqueza da nação depende, devendo ser deixado livre [dispositivo de segurança]. Se na Idade Média o rico “era santificado pelo pobre”, tendo este último um valor espiritual, no século XVIII o pobre tornar-se-á a própria condição material para o rico, porquanto é ele que produz toda a riqueza da sociedade. Houve, pois, dois movimentos no século XVIII sobre o internamento: (1) movimento interior ao internamento, pelo qual a loucura foi diferenciada entre os demais elementos daquele espaço, não mais dominado pela homogeneidade da “desrazão”; (2) movimento exterior ao internamento, ligado a fenômenos econômicos e sociais exemplificados nas questões da pobreza, da doença, da assistência, da emigração e das crises.

CAPÍTULO 3: Du bon usage de la liberté: Geralmente se data a reforma “humanitária” do internamento entre os anos 1780 e 1793: período em que o internamento da “desrazão” desaparece deixando a loucura “sem ponto de inserção preciso no espaço social”. Nesse final de século, o pensamento médico e a prática de internamento se aproximam. Projetos de casas de correção ideais. Não será a divisão razão-desrazão que justificará o internamento do louco, mas o duplo assistência-segurança. Somente quando o internamento, por si próprio, adquirir "um poder autóctone" de terapia, a medicina poderá penetrar nele. O internamento será ao mesmo tempo "espaço de coerção", onde se reserva ao louco alguma liberdade, e "espaço de verdade". Mas o louco não será considerado totalmente livre, donde a justificativa das restrições sobre ele. Ainda não serão os médicos, na passagem do século XVIII ao século XIX, que dirão se alguém é louco ou não, mas os agentes do próprio internamento. No começo da Revolução: "polícia popular" e "tribunais familiares". O crime é privatizado (não mais cometido contra o "soberano") em função da universalidade da justiça burguesa. Em 1792, com o caso do advogado Bellart, uma razão psicológica pretende irresponsabilizar um ato criminoso, embora com uma moralidade de fundo ainda mantida. Divisão será feita entre causas psicológicas perversas (e.g. o roubo) e causas psicológicas compatíveis com os valores burgueses. Duas séries de processos [que poderíamos chamar dois movimentos: um de desterritorialização e outro de reterritorialização]: (1) formas de liberação e (2) estruturas de proteção.

CAPÍTULO 4: Naissance de l’asile: Neste capítulo, Foucault discorre sobre o internamento na Inglaterra com Tuke e na França com Pinel, em fins do século XVIII e início do século XIX. Samuel Tuke havia fundado o Retiro [Retraite] no qual, sob influência quaker, os internados eram conduzidos por uma rigorosa moral religiosa, a religião sendo um meio para restituir aquilo que no louco seria inalienável enquanto homem, além de possuir os "princípios da natureza" para realizar essa restituição "naturalista". Aliás, o Retiro foi construído no campo e falava amiúde na loucura como doença-consequência “não da natureza, nem do próprio homem, mas da sociedade” com suas fábricas e artificialidades. É importante destacar, ainda sobre Tuke e o Retiro, a importância que tinha o Trabalho e o Olhar: o primeiro não possuindo um valor (direto) de produção, mas sobretudo um valor moral (burguês); o segundo agindo nas "tea parties" e outras ocasiões onde o louco era colocado sob a visão dos homens de razão e de si mesmo. No caso de Pinel, na França, a religião poderá ser um instrumento em seus elementos morais (família e trabalho, especialmente), mas de modo geral será um empecilho, pois alimenta "crenças delirantes e alucinações". Uma importante função de Pinel era o do reconhecimento do louco enquanto médico, visto que não havia na Idade Clássica distinção entre loucura e simulação. Foucault sintetiza em três pontos estruturais o modo como o internamento funcionava com Pinel: (1) pelo "silêncio", que fazia o louco buscar reconhecimento abandonando seu delírio, instalando uma linguagem à qual o louco deveria se adequar; (2) pelo "reconhecimento em espelho", que fazia o louco reconhecer no outro certa loucura, depois em si mesmo a mesma loucura; (3) pelo "julgamento perpétuo", que punia o louco (e.g. com os banhos gelados) sem utilizar a violência da Idade Clássica e fazia o louco julgar as próprias ações. Em considerável parte deste capítulo, Foucault mostra como o médico emerge - e isso seria uma "quarta estrutura" que se juntaria às três mencionadas - como grande autoridade e, de certo modo, como uma figura paterna (dada a valorização da família nesse contexto asilar etc.), o que terá reverberações importantes até a psicanálise. O médico primeiro penetrou no internamento com uma autoridade mais moral do que médica, depois baseou sua autoridade científica sobre essa autoridade moral prévia (que era, como um todo, constituída pelos valores burgueses). Aos poucos a relação médico-paciente foi se estreitando, de modo que, no final do século XIX, as estruturas do internamento são (com o familialismo incluído) condensados na figura do médico-analista da psicanálise.

CAPÍTULO 5: Le cercle anthropologique: Na Idade Clássica o louco tinha alguma liberdade e alguma culpabilidade, reservando também algo de inacessível em sua interioridade, sendo tratado como um "insensato". Com o século XIX, sua loucura será completamente objetivada, tornando-se meio para se descobrir a própria verdade do homem que, no louco, teria sido alienada, donde o louco passa a ser reconhecido como "alienado" - não precisamente da verdade, mas da sua verdade enquanto homem. O "círculo antropológico" ao qual se refere Foucault é aquele entre homem, loucura e verdade, esses três elementos que atravessarão as reflexões médico-psiquiátricas sobre a loucura na Modernidade, na qual a loucura assume uma linguagem própria através da qual vai falar sobre "as verdades secretas do homem". Algo diferente vai se passar na experiência lírica e poética que surge no final do século XVIII, experiência esta que reconciliar as antinomias definidas pelo pensamento médico-psiquiátrico acerca da loucura. Foucault exemplifica essa estrutura antropológica do pensamento médico-psiquiátrico em três doenças: (1) a paralisia geral, mais controlável e analisável; (2) a "moral insanity", que ocorreria às vezes e com alguma frequência, deixando ainda uma abertura para a descoberta de verdades interiores do homem louco; e (3) a monomania, caracterizada por um único ato de insanidade na vida do sujeito, mais difícil de analisar e de determinar, ainda mais difícil - problema para a jurisprudência moderna - para criar uma culpabilização ou inculpabilização. A história da loucura feita aqui por Foucault não foi no sentido de realizar “uma crônica das descobertas ou uma história das ideias”, mas de mostrar como foi possível e o que tornou possível o aparecimento moderno da psicologia “seguindo o encadeamento das estruturas fundamentais da experiência”. Essa psicologia se apoiou sobre um postulado fundamental: “o ser humano não se caracteriza por uma certa relação com a verdade; mas ele detém, como lhe pertencendo propriamente, ao mesmo tempo oferecida e escondida, uma verdade” [o que aparecerá na própria psicanálise, como sabemos]. Foucault finaliza o livro falando de Nietzsche, Artaud e Van Gogh, comentando a descontinuidade entre a sua obra e a sua loucura (diferentemente do que ocorria na Idade Clássica). A loucura seria o instante último da obra, o seu limite, e a condição para o reconhecimento da sua verdade; "lá onde há obra não existe loucura; e, porém, a loucura é contemporânea da obra, visto que inaugura o tempo de sua verdade. [...] Ardil e novo triunfo da loucura [no mundo moderno]”[7].

Referências

  1. MICHEL FOUCAULT. (2020). HISTORIA DA LOUCURA;NA IDADE CLASSICA [NOVA EDICAO, REVISTA E AMPLIADA]. [S.l.]: EDITORA PERSPECTIVA S A. OCLC 1154328073 
  2. FOUCAULT, Michel (1999) [1994]. «Prefácio (Folie et Déraison)». Problematização do Sujeito: Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise. Col: Ditos e Escritos. I. Traduzido por Vera Lúcia Avelar Ribeiro. Coleção Ditos e Escritos - Volume IOrganizador: Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro: Forense Universitária. p. 152-161. ISBN 978-8521804659 
  3. «Préface 1961 Folie et Déraison. Histoire de la folie à l'âge classique». 1libertaire.free.fr. Consultado em 23 de novembro de 2015 
  4. FOUCAULT, Michel (1999) [1994]. «Prefácio (Folie et Déraison)». Problematização do Sujeito: Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise. I. [S.l.: s.n.] 
  5. Pierre Morel and Claude Quétel (1985). Les Médecines de la Folie. ISBN 2-01-011281-4.
  6. Colin Gordon "Extreme Prejudice: Notes on Andrew Scull's TLS Review of 'History of Madness'".
  7. FOUCAULT, Michel (1972). Histoire de la folie à l'âge classique. Paris: Gallimard 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • FOUCAULT, Michel.História da Loucura na Idade Clássica. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 1978.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


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