História da medicina

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

A história da medicina atual ou cosmopolita é a história das grandes contribuições de todos os povos a esta arte e prática universal que constitui a medicina. Confunde-se portanto com a história da civilização ocidental. Nesta perspectiva pode ser dividida em: pré história; história antiga que praticamente corresponde à antiguidade oriental e distinguindo-se a medicina na Grécia antiga e Roma e os clássicos períodos de divisão da história ocidental: Idade Média, Moderna e Contemporânea.

Confunde-se, na cultura popular, o caduceu (duas serpentes) e o bastão de Esculápio (uma única).

Antiguidade oriental[editar | editar código-fonte]

Oriente é um modo de ver como oriental um conjunto de povos da Ásia e Norte da África. Os textos sobre esse tema incluem as civilizações Egípcia, Chinesa, Norte-Indiana(Indo-Européia), Persa(Indo-Européia)[1], Norte-Paquistanesa(Indo-Européia) e dos povos semitas (Árabes e Judeus). Naturalmente que estes povos poderiam ser subdivididos em centenas de etnias e sistemas etnomédicos, contudo a relativa uniformidade lingüística, presença escrita de textos especializados e acontecimentos históricos marcantes, com especial significado para desenvolvimento da medicina cosmopolita, permitem manter tal divisão.

Medicina Ayurveda[editar | editar código-fonte]

Ayurveda, o conhecimento Védico de medicina data de há cerca de 6000 anos. Neste conhecimento, a saúde é entendida como a harmonia entre o corpo, mente e espírito. Os seus dois textos mais famosos pertencem às escolas de Charaka e Sushruta. De acordo com Charaka, a saúde e a doença não são predeterminadas e a vida pode ser prolongada pelo esforço humano. Sushruta define como finalidade da medicina curar as doenças do doente, proteger o saudável e prolongar a vida.

Entre os Vedas, o Yajur Veda refere-se especialmente às questões médicas, daí decorrendo o nome até hoje utilizado de medicina Ayurvédica. O Ayurveda descreve oito ramos:(chikits) (medicina interna), shalyachikits (cirurgia incluindo anatomia), kyachikits (doenças do olho, ouvido, nariz, e garganta), kaum; rabhritya (pediatria), bhtavidy; (psiquiatria, ou demonologia), agada tantra (toxicologia); rasyana (ciência do rejuvenescimento), e karana (a ciência da fertilidade).

Esperava-se que um estudante do ayurveda viesse a saber as dez artes indispensáveis à aplicação de sua medicina: destilação, habilidades cirúrgicas, cozinha, horticultura, metalurgia, manufatura de açúcar, farmácia, análise e separação dos minerais, combinar metais, e preparação dos alcalóides. O ensino de vários assuntos era realizado durante a instrução de assuntos clínicos relevantes. Por exemplo, o ensino de anatomia era uma parte do ensino da cirurgia, embriologia era uma parte do ensino da pediatria e obstetrícia e o conhecimento de fisiologia e patologia estavam presentes no ensino de todas as disciplinas clínicas.

Na conclusão da iniciação, o guru dava um endereço solene aos estudantes onde o guru dirigia os estudantes a uma vida de castidade, honestidade, e vegetarianismo. O estudante devia esforçar-se com todo o seu ser para curar as doenças. Não devia enganar os pacientes para obter vantagens. Deveria vestir-se modestamente e evitar bebidas fortes. Deveria ser recatado e possuir auto-controle, medir sempre as suas palavras. Deveria aperfeiçoar constantemente os seus conhecimentos e habilidades técnicas. No repouso do paciente devia ser cortês e modesto, dirigindo toda a atenção ao bem-estar do mesmo. Não devia divulgar nenhum conhecimento sobre o paciente e sua família. Se o paciente fosse incurável, devia guardar isto consigo mesmo, caso pudesse prejudicar o paciente ou outros afins.

A duração normal da formação do estudante aparenta rondar à volta de sete anos. Antes da graduação, o estudante devia obter aprovação num teste. Mas o médico (vaidya) devia continuar a aprender através dos textos, da observação direta (pratyaksha), e através da inferência (anum), além de participar de encontros de médicos (vaidyas) onde o conhecimento era trocado. Os doutores também deviam obter conhecimento de remédios incomuns dos habitantes das montanhas, florestas e pastores.

Em 2001, os arqueólogos que estudam os corpos mumificados de dois homens de Mergar, Paquistão, fizeram a surpreendente descoberta de que os povos civilização do vale Indo , originados do adiantado período da Civilização de Harapa (cerca 3 300 a.C.), tiveram o conhecimento de medicina ' ' e de odontologia. O antropólogo físico que realizou os exames, professor Andrea Cucina da universidade de Missouri-Colômbia, fez a descoberta quando limpava os dentes de um dos homens.

Ayurveda, visa a saúde no equilíbrio do corpo, mente e espírito até hoje sobrevive como prática distinta da Alopatia mesmo na própria Índia. Diferencia-se da Medicina tradicional chinesa e da Medicina tibetana embora apresentem elementos e conceitos comuns.

Medicina chinesa[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Medicina tradicional chinesa

A China também desenvolveu sólidos conhecimentos em sua medicina tradicional. Muito da filosofia Medicina tradicional chinesa derivado da filosofia do Taoísmo reflete a clássica crença chinesa que as experiências humanas individuais refletem os princípios da causalidade que regem o ambiente em todas as escalas. Estes princípios causais, seja essência material ou espiritual, correspondem à expressão dos destinos decretados pelo céu (Tao).

Durante a idade de ouro de seu reino entre 2696 a 2598 a.C, em forma de um diálogo com seu ministro Ch'i Pai, o Imperador Amarelo registrou seu conhecimento médico, segundo a tradição chinesa que o tem como autor Neijing(g.) Suwen(O) ou perguntas básicas da medicina interna. A opinião acadêmica moderna sustenta que o referido texto com esse título foi compilado por um erudito da época entre os dinastias Chou e Han da tradição de mais de dois mil anos antes, embora algumas partes do trabalho existentes possam ter originado por volta de 1000 A.C.

Durante a dinastia Han, Chang Chung-Ching, que era o prefeito de Chang-sha perto do fim do segundo século A.D., escreveu um tratado da febre tifóide, de que contém a mais antiga referência conhecida ao Neijing Suwen. Na dinastia Chin, o médico generalista e defensor da acupuntura e moxabustão, Huang-fu Mi (215-282 A.D), cita também Imperador Amarelo em seu Chia I Ching, em. 265 A.D. Durante a dinastia Tang, Wang Ping reivindicou ter encontrado uma cópia dos originais do Neijing Suwen, que editou e expandiu substancialmente. Este trabalho foi revisitado por uma comissão imperial durante o décimo primeiro século A.D., e o resultado é o nosso melhor exemplar existente das raízes fundamentais da medicina chinesa tradicional.

Medicina egípcia[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Medicina do Antigo Egito

O Papiro de Edwin Smith (1600 a.C.), um antigo livro-texto de cirurgia, descreve em extraordinários detalhes o ' ' exame, diagnóstico, tratamento, e ' 'o prognóstico' ' de numerosas doenças. (Encyclopædia Britannica ). Soma-se a esse o Papiro de Ebers (ca 10° século a.C.|1550 a.C.) , embora cheio dos encantamentos, rezas escatológicas de afastar e manter demônios causadores doença em seu lugar de origem e outras superstições, nele há também as evidências ' ' de uma longa tradição empírica da prática e da observação.

Além das diversas técnicas de embalsamamento, que até hoje assombram a humanidade e de possuírem, segundo Heródoto um medicina praticada por diversos especialistas os médicos egípcios dominavam uma vasta farmacopéia que incluía desde as esquisitas medicinas de bolores e excrementos (a farmácia da sujeira precursora das substancias antibióticas (?)) até as plantas medicinais até hoje utilizadas em todo o mundo como mirra, romã, linhaça, erva – doce, alho, sene, rícino, alface, heléboro, papoula entre outras.

Medicina semítica[editar | editar código-fonte]

Ao se estudar a medicina dos povos de língua semítica, o maior dos grupos de línguas da família camito-semítica, presente do N./NE da África até o S.O. da Ásia e especialmente dos povos árabes (semitóides do Sul), nos deparamos com o desafio de identificar sua origem pré - islâmica ou anterior a sua unificação pelo profeta Maomé (570 – 632 d.C.) e revelações do Alcorão que ocorreram por volta do ano 600.

As contribuições mais evidentes são relativas aos Semitas: Assírios (Iraque); Fenícios (Líbano) e de alguns do demais povos da região da mesopotâmia associados aos "Persas" (povos indo-europeus e portanto não-semiticos), "Sumérios" (também não-semítico) e Acádios. É incontestável sua inter-relação com as crenças dos hebreus e práticas da medicina do Egito e Babilônia registradas em hieróglifos e signos da escrita cuneiforme (invenção suméria e portanto não-semítica).

Entre estas podemos citar a interferência do estado no código do imperador Semita, Hamurabi (1728-1686 a.C.), o grande legislador da Babilônia. Lê-se:

Parágrafo 215: Caso um médico (Asu) tenha curado alguém de uma ferida grave, por meio de um instrumento de bronze, ou tenha aberto, a mancha do olho (Na-gab-ti) de alguém também com instrumento de bronze, restabelecendo-lhe a saúde da vista, devem ser pagos a ele dez chequéis de prata como retribuição...

Parágrafo 216: Caso se trate de um nobre, o médico receberá cinco chequéis de prata. Parágrafo 217: Caso se trate de um escravo de um homem livre, então o senhor do escravo pagará ao médico dois chequéis de prata.

Parágrafo 218 Caso um médico tenha tratado o ferimento grave de um homem livre com instrumento de bronze e este venha a falecer, ou se tiver aberto, a mancha no olho de alguém também com instrumento de bronze, provocando-lhe a inutilização da vista, ser-lhe-ão cortadas ambas as mãos.

Parágrafo 221: Caso um médico tenha curado o membro quebrado de um homem livre, ou recuperado as entranhas afetadas, o doente deverá pagar ao médico cinco chequeis de prata. Parágrafo 224: se um veterinário tratar do ferimento grave de um boi ou de um jumento salvando-lhe a vida, o dono do boi ou do jumento deverá recompensar o médico com a sexta parte de um chequel de prata como honorário.

Entre os instrumentos cirúrgicos encontravam-se agulha de bronze para cirurgia (picada) da catarata (reclinação do cristalino); cateter curvo para tratamento da blenorragia (upu) e um bisturi de dois gumes. Há registros de sangrias, trepanação com serras, e ajuste de fraturas com recuperação. (Jürgen Thorwald)

Identificavam vários “demônios” causadores de doenças para exorcismos e registros escritos do tratamento específicos de doenças identificadas como: Gastrite; Oclusão intestinal; Distúrbios biliares, Apoplexia; Otite; Blenorragia; Afecções renais e da bexiga. Nergal o deus mesopotâmico das epidemias ou Baal-Seub o deus mosca filisteu/fenício eram representados por um inseto semelhante à mosca, já reconhecida como praga junto com os mosquitos. Há registro da associação entre epidemias de peste bubônica e a mortandade de ratos. (Thorwald)

Da farmacopéia, comum ao Egito cita-se mirra, papoula, mandrágora, meimendro, salgueiro, amoreira, louro, incenso, açafrão, cominho, zimbro, colcíntida, alho e cebola, além de substâncias de origem mineral (alume, enxofre, betume, argila) e animal (excrementos, órgãos). Entre as não registradas no Egito destacam-se os primeiros registros da beladona (Solanum), para controle da cãibra, secreção de líquidos, espasmos, cólicas, reconhecendo inclusive seu efeito em grandes doses de provocar delírios e perda de consciência, e o conhecido cânhamo indiano (quunabu). (Thorwald; Ronan)

Um detalhe interessante das composições farmacológicas e prescrições da Mesopotâmia, até hoje observada nos sistemas etnomédicos, é a preferência por números mágicos (o 3 e o 7 e seus múltiplos eram os favoritos), para prescrição ou adição de constituintes em suas formulações. (Ronan)

A medicina dos povos Árabes incorporou e manteve vivo para o ocidente o conhecimento greco–romano, havendo registros e traduções de Hipocrates, Aristóteles e Galeno.

Ainda na medicina pré islâmica, um exemplo intrigante são os médicos santos da Síria, Cosme e Damião (Século IV d.C.) contra a medicina privada (remunerada), responsáveis pela afirmação da igualdade dos homens, sendo inclusive lhes atribuído um transplante entre negros e brancos.

Antiguidade clássica e medicina medieval ocidental[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Medicina medieval

Medicina europeia[editar | editar código-fonte]

Assim como as sociedades que se desenvolveram na Europa e em Ásia, os sistemas de crença foram substituídos por um distinto sistema natural. A antiga Grécia, de Hipócrates desenvolveu um sistema médico humoral onde o tratamento deveria restaurar o equilíbrio entre os clássicos elementos e humores dentro do corpo. Similar visão foi adotada na China e Índia. Veja também medicina tradicional chinesa.

Das ideias desenvolvidas na Grécia, através de Galeno até o Renascimento o principal direcionador da medicina foi a manutenção da saúde pelo controle da dieta (nutrição) e higiene.

O conhecimento anatômico era limitado e havia poucas curas cirúrgicas ou outras, os doutores apostavam em manter uma boa relação com pacientes, tratar das doenças menores e amenizar a condição das crônicas, pouco podendo fazer quanto às doenças epidêmicas, crescentes com a urbanização e domesticação dos animais, se intensificando através do mundo.

Medicina medieval era uma evoluída mistura do científico com o espiritual. No início da Idade Média, após a queda do Império Romano, o conhecimento médico padrão concentrou-se principalmente em manter os textos gregos e romanos, preservados nos monastérios e em outros locais.

As ideias sobre a origem e a cura de doença não eram, entretanto, puramente tradicionais, mas foram baseadas também na visão de mundo do espiritual, onde fatores tais como o destino, o pecado, e as influências astrais eram tão considerados quanto as causas físicas.

Nesta era, não havia a tradição esclarecedora da medicina científica, e a acurácia das observações era equiparada a das crenças espirituais bem como à prática médica.

Muçulmanos[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Medicina islâmica

O mundo muçulmano ascendeu para a primazia da ciência médica com pensadores tais como Avicena, Ibn Nafis, e Rhazes. Ver também Islamismo.

A primeira geração de excelência médica do Islamismo foi formada na Academia de Gundexapur, onde, pela primeira vez o ensino em hospital foi realizado. Rasis, por exemplo, foi o primeiro médico que sistematicamente usou álcool em prática clínica. Consta que já no século XI o império árabe contava com 34 hospitais.

Medicina no Renascimento e do Iluminismo[editar | editar código-fonte]

Um barbeiro-cirurgião examinando um paciente.

A ideia da medicina personalizada foi desafiada na Europa pela ascensão da investigação experimental, principalmente pela dissecação, examinando corpos no estrangeiro da maneira de outras culturas. A circulação pulmonar de Ibn al-Nafis, foi redescoberto pelo Miguel Servet[2], e depois se espalhou pelos médicos como importante Andrea Cesalpino, Andreas Vesalius e Realdo Colombo. William Harvey, subsequentemente, pela primeira vez uma descrição completa de todo o sistema circulatório. Com relação à anatomia, o trabalho dos indivíduos como Andreas Vesalius e William Harvey desafiaram as tradições aceitas com a evidência científica. Aperfeiçoando a compreensão e diagnóstico mas com pouco benefícios diretos na saúde. Poucas drogas eficazes existiam, além ópio e quinino, curas espirituais ou os quase ou eficientes venenos, os compostos metal – baseados, eram populares,e ineficazes tratamentos.

Figuras importantes:

  • Miguel Servet Polimata. Primeiro europeu que redescobre a circulação pulmonar de três séculos depois de Ibn al-Nafis[3]
  • Realdo Colombo, anatomista e cirurgião que contribuiu para compreensão de insuficiência da circulação
  • Andrea Cesalpino
  • Andreas Vesalius Anatomist com muitas descrições importantes
  • William Harvey descreve completamente a circulação do sangue
  • John Hunter, cirurgião
  • Percivall Pott, cirurgião
  • Sir Thomas Browne médico e patologista. Os exemplos incluem o médico-pathology-hallucination -pubescent-medical e pathology- hallucination-pubescent-urology.

Distinção entre doenças naturais e venefícios na medicina portuguesa dos séc. XVII e XVIII[editar | editar código-fonte]

Neste sentido, houve inúmeros físicos e médicos portugueses, que discorreram sobre as diferenças entre as doenças reais (então os chamados achaques naturais) e as doenças mágicas (os então chamados venefícios), notando-se desde cedo uma pretensão da classe médica em Portugal de afastar a matéria dos venefícios da esfera de influência da Inquisição e de charlatães e mezinheiros ambulantes, a fim de a arrastar para o seu âmbito de competência.[4]

Por exemplo, Bernardo Pereira, médico do século XVII, na sua obra «Anacephaleosis medico-theologica magica, juridica, moral, e politica», dedica uma dissertação só para os venefícios, que é descrita no Indice da seguinte forma :[5]

«Referemse às espécies de veneficios, ou feitiços: que os hà imaginários, e fingidos: que se equivocão com muitos achaques hystericos, gallicos, escorbuticos, e mezentéticos, e por ísso não devem os Médicos ser fáceis em julgallos por maléficos: fallase da qualidade gallica, escorbutica; Quais sejão os signais dos feitiços, e se ha razaõ de differença entre os achaques naturais, e os maléficos.»

Outro exemplo digno de menção, foi o caso de Francisco da Fonseca Henriques, físico e médico português, do século final do XVII e início do XVIII, que terá sido o médico da câmara-real de D. João V, autor de inúmeras obras como o «arquilégio medicinal»[6], «Âncora Medicinal para Conservar a Vida com Saúde» e, mais relevante para o assunto em questão, o compêndio médico português «Medicina Lusitana: Socorro Délfico, aos Clamores da Natureza, Humana para Total Profligação de seus Males», expendeu a respeito das maleitas produzidas por sortilégio.[7][8][9]

Nesta última obra, que dedicou ao então Inquisidor-Mor do Reino, o médico da câmara-real discorreu a respeito do mau-olhado e do quebranto, supostas maleitas de origem mágica, servindo-se da expressão «oculta qualidade venéfica», para qualificar o olhar mal-querente de certas pessoas ( presumivelmente bruxas e feiticeiros) capazes de, à distância e pelo olhar, transfundir influências negativas aos outros, especialmente nas pessoas mais vulneráveis, como as crianças, causando-lhes doenças, sem outra aparente causa.[10]

Determinados estudiosos modernos, como Bruno Fernandes Barreiros, sustentam que Francisco da Fonseca Henriques terá expendido a respeito do mau-olhado na sua obra, não necessariamente, por mercê de uma crendice pessoal na superstições do mau-olhado, do tranglomanglo e de outros venefícios (embora não exclua essa possibilidade), mas que antes o seu objectivo principal seria uma tentativa de arrastar para o âmbito da competência médica, estas questões que antes pertenciam mais estritamente ao foro religioso da Inquisição, tanto mais que prelecionou sobre este assunto numa obra dedicada ao Inquisidor-mor. [11][12]

Em última análise, ter-se-á tratado de uma manigância para nobilitar ainda mais a classe médica, na sociedade portuguesa, atribuindo-lhe ainda mais competências do que aquelas que tinha antes, retirando-as, lentamente e por conseguinte, à Inquisição.[12]

Da parte de Francisco da Fonseca Henriques, haveria, portanto[11]:

  • interesses de ordem económica - com vista a alargar o leque de clientela para a classe médica, porque o povo, refém das crendices populares que se desenvolveram ao longo dos séculos detorno destas matérias ainda era muito supersticioso, preferindo muitas vezes os serviços de mezinheiros, curandeiros e mesmo de charlatães, ao de médicos;
  • interesses de ordem prestigiante - para nobilitar mais a profissão, por molde a infundir na concepção da época a ideia de que os médicos também seriam capazes de combater forças obscuras, afastando, portanto, o crédito dado a todo um ror de charlatões, curandeiros e mezinheiros que pululavam pelas zonas rurais, que ministravam curas e sentenciavam diagnósticos, ditados puramente por superstições e crendices populares;
  • interesses de ordem científica - na medida em que, ao retirar o tratamento dos venefícios da esfera da inquisição e da espiritualidade, dava-se maior ansa a poder estudar e tratar estas matérias, assente em metodologias mais científicas e rigorosas, do que aquelas que imperaram durante os séculos anteriores (e que, para todos os efeitos, em certa medida continuaram a persistir na ruralidade recôndita, ainda no século XIX).

Em rigor, será importante assinalar que Francisco da Fonseca Henriques nem sequer foi o primeiro médico português a tentar envidar esforços neste sentido, já antes, frei Manoel Teixeira de Azevedo[13] laureado doutor de medicina e protomédico[14] da marinha de mar, na sua obra de 1668 «Correcção de Abusos Introduzidos Contra o Verdadeiro Método da Medicina», prescrevera métodos de diagnóstico de venefícios e quebrantos, por meio de análise do corpo do "embruxado", que foram, por sinal, readoptados por Francisco da Fonseca Henriques, nas décadas seguintes.[15][16]

A metodologia sugerida, embora ainda muito longe de ser um método de diagnóstico rigoroso e eficaz, sempre primava mais pelo rigor científico e por ser muito mais salubre, do que os métodos que eram perfilhados pela crendice popular, até então, que envolvidam demolhar um pano em urina e pousá-lo sobre a cabeça de um doente, que se suspeitasse estar "quebrantado", e esperar para que o pano secasse. Se o pano, uma vez seco estivesse, manchado, tal constituiria um «sinal certo de estar o doente fascinado». [17][18]

História dos campos médicos[editar | editar código-fonte]

Caduceu

Museus e colecções de saúde e medicina[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Alves, Manuel Valente. História da Medicina em Portugal - Origens, ligações e contextos. Porto, Porto Editora, 2014

Alves, Manuel Valente. A Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - Um olhar sobre a sua história. Lisboa, Gradiva, 2011

Beau, George. A medicina chinesa. RJ, Interciência, 1982

Chopra, Deepak. O retorno do Rishi. SP, Best Seller, 1989

Foucault, Michael. O Nascimento da clínica. RJ, Forense-Universitária, 1980

Gordon, Richard. A assustadora história da medicina. RJ, Ediouro, 1997

Haywaard, John A. Historia de la medicina, México, Fundo de Cultura Econômica, 1988

Nan – Ching, O clássico das dificuldades. Tradução do chinês e notas de Paul U. Unschuld. SP, Roca, 2003

Ronan, Colin A. História ilustrada da ciência da Universidade de Cambridge (4 V) vol I: Das origens à Grécia; vol II: Oriente, Roma e Idade Média. RJ, Zahar, 1987

Thorwald, Jürgen. O segredo dos médicos antigos. SP, Melhoramentos, 1990

Wang, Bing (Dinastia Tang). Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo. SP, Ícone, 2001

Referências

  1. C. Elgood, A medical history of Persia, Cambridge Univ. Press. p.173
  2. 2012 González Echeverría, Francisco Javier “The discovery of Lesser Circulation and Michael Servetus's Galenism” & "Medicine, Philosophy, Repression and Present" in: 43th Congress of the International Society for the History of Medicine, Programme Book, Padua-Albano Terme (Italy) 12-16 September 2012, p.35 & 66. pdf
  3. Miguel Servet Pesquisa Estudo sobre a vida e todas as novas obras de Miguel Servet, com o manuscrito de Paris com a primeira descrição europeia da circulação pulmonar em 1546. Esta descoberta não foi reconhecido porque foi publicado em Christianismi Restutio, ea Inquisição queimou todos os livros, exceto três cópias
  4. «Anacephaleosis medico-theologica magica, juridica, moral, e politica na qual em recopiladas dissertações: divizões se mostra a infalivel certeza de haver qualidades maleficas, se apontão os sinais por onde possão conhecerse, Coimbra, 1734 - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  5. Pereira, Bernardo (1734). Anacephaleosis medico-theologica magica, juridica, moral, e politica na qual em recopiladas dissertações : divizões se mostra a infalivel certeza de haver qualidades maleficas. Coimbra: Officina de Francisco de Oliveyra Impressor da Universidade de Coimbra. p. 35. 496 páginas 
  6. «Aquilegio medicinal, em que se dá noticia das agoas de Caldàs, de fontes, rios, poços, lagoas e cisternas do Reyno de Portugal e dos Algarves que, ou pelas virtudes medicinaes que tem, ou por outra alguma singularidade, são dignas de particular memoria, L - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  7. «BNP - Sinopse da vida e obra de Francisco da Fonseca Henriques, o "Dr. Mirandela" (1665-1731)». bibliografia.bnportugal.gov.pt. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  8. Pinho da Cruz, Maria da Graça (2015). Sinopse da vida e obra de Francisco da Fonseca Henriques, o "Dr. Mirandela" (1665-1731) . Lisboa: Academia Portuguesa da Água. 146 páginas 
  9. «Francisco da Fonseca Henriques Mirandela». Brasil Escola. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  10. Henriques, Francisco da Fonseca (1731). , Medicina Lusitana: Socorro Délfico, aos Clamores da Natureza Humana para Total Profligação de seus Males. Amesterdão: Casa Miguel Dias. p. 157 
  11. a b Fernandes Barreiros, Bruno (2014). Concepções do Corpo no Portugal do Século XVIII: Sensibilidade, Higiene e Saúde Pública. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. p. 64. 320 páginas 
  12. a b «Concepções do Corpo no Portugal do Século XVIII: Sensibilidade, Higiene e Saúde Pública» (PDF). https://run.unl.pt. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  13. «Frei Manuel de Azevedo | Escritores Lusófonos». Consultado em 22 de novembro de 2020 
  14. S.A, Priberam Informática. «Consulte o significado / definição de Protomédico no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o dicionário online de português contemporâneo.». dicionario.priberam.org. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  15. Fernandes Barreiros, Bruno (2014). Concepções do Corpo no Portugal do Século XVIII: Sensibilidade, Higiene e Saúde Pública. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. p. 63. 320 páginas 
  16. «Livros digitalizados de Azevedo, Manuel de - PURL.PT - Biblioteca Nacional Digital». bndigital.bnportugal.gov.pt. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  17. Henriques, Francisco da Fonseca (1731). , Medicina Lusitana: Socorro Délfico, aos Clamores da Natureza Humana para Total Profligação de seus Males. Amesterdão: Casa Miguel Dias. p. 159 
  18. Fernandes Barreiros, Bruno (2014). Concepções do Corpo no Portugal do Século XVIII: Sensibilidade, Higiene e Saúde Pública. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. p. 66. 320 páginas 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Em inglês: