Moxabustão

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A acupuntura e a moxabustão da medicina tradicional chinesa
Bansho-myohoshu-1853-Moxibustion.jpg
Aplicação de Moxa, ilustração de origem japonesa livro de Banshō myōhōshū (万象妙法集, 1853)
País(es)  China
Domínios Conhecimentos e usos relacionados com a natureza e o universo
Critérios R1, R2, R3, R4, R5
Referência 00425
Região Ásia e Pacífico
Inscrição 2010 (5.ª sessão)
Lista Representativa
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Moxabustão é uma espécie de acupuntura térmica, feita pela combustão da erva Artemisia sinensis e Artemisia vulgaris. O nome em chinês — 灸 - jiŭ (pinyin) significa, literalmente, longo tempo de aplicação do fogo. De história milenar, é originária do norte da China.[carece de fontes?]

É uma técnica terapêutica da Medicina Tradicional Chinesa. Baseia-se nos mesmos princípios e conhecimento dos meridianos de energia trabalhados na acupuntura, sendo amplamente utilizada nos sistemas de medicina tradicional da China, Japão, Coreia, Vietnã, Tibete, e Mongólia. Acredita-se que seja anterior à acupuntura.[carece de fontes?]

Pressupõe-se que moxabustão trata e previne doenças através da aplicação de calor em pontos e/ou em certas regiões do corpo humano.[1]

Desde 2010 que a acupuntura e a moxabustão estão classificadas pela UNESCO na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade[2]

Terminologia[editar | editar código-fonte]

As primeiras referências ocidentais à moxabustão podem ser encontradas em cartas e relatórios escritos por missionários portugueses no Japão do século XVI. Eles a chamavam de "botão de fogo", uma expressão originalmente usada para ferros de cauterização ocidentais de cabeça redonda. Hermann Buschoff, que publicou o primeiro livro ocidental sobre o assunto em 1674, usou o termo japonês mogusa. Como o "u" não é pronunciado com força, ele grafou o termo como "moxa". Posteriormente, autores juntaram o termo "moxa" com o termo latino combustio ("queima").[3][4]

O nome da erva artemísia usada na moxabustão é ài ou àicǎo (艾, 艾草) em chinês[5] e yomogi (蓬) em japonês. Os nomes chineses para moxabustão são jiǔ (灸) e jiǔshù (灸術); os japoneses usam os mesmos caracteres e pronunciam kyū e kyūjutsu. Em coreano, a leitura é tteum (뜸). O folclore coreano atribui o desenvolvimento da moxabustão ao lendário imperador Dangun.[6]

O ideograma chinês para moxabustão compõe metade da palavra chinesa zhēnjiǔ, ou japonesa "shinkyu" (針灸), que é geralmente traduzida como "acupuntura" no ocidente.[carece de fontes?]

Teoria e prática[editar | editar código-fonte]

A combustão da Artemísia tem a propriedade de aquecer profundamente. A aplicação do calor produzido pela moxa nos pontos ou meridianos de acupuntura remove bloqueios de energia que obstruem o seu fluxo pelos meridianos. Ela também estimula a circulação suave de sangue no organismo. Alguns acreditam que ela elimine a umidade e o frio que promovem disfunções no organismo.[7] Também se acredita que ela tenha o poder de virar bebês que estão com posição invertida no útero.

Os praticantes alegam que a moxabustão é especialmente efetiva no tratamento de problemas crônicos, "condições de deficiência" e gerontologia. Bian Que (fl. circa 500 a.C.), um semilendário médico chinês da antiguidade e primeiro especialista em moxabustão, discutiu as vantagens da moxabustão sobre a acupuntura na sua obra clássica Bian Que Neijing. Ele afirmou que a moxabustão podia adicionar nova energia ao corpo e podia tratar tanto condições de excesso quanto de deficiência.

Os praticantes podem usar agulhas de acupuntura de vários materiais em combinação com a moxabustão.

Existem vários métodos de moxabustão. Três deles são: direto com cicatrização, direto sem cicatrização e moxabustão indireta. O primeiro coloca um pequeno cone de moxa sobre a pele, no acuponto, e queima até que a pele forme uma bolha. Posteriormente, ocorre a cicatrização do local.[8] O segundo método remove a moxa ardente da pele antes que ocorra lesão.[9] A moxabustão indireta mantém um charuto de moxa aceso próximo à pele de modo a aquecer o acuponto, ou coloca o charuto sobre uma agulha de acupuntura inserida no acuponto de modo modo a aquecê-la.[10]

Chuanwu lingji lu (Registro dos Ensinamentos Soberanos), de Zhang Youheng, foi um tratado de acumoxa completado em 1869. Ele apresentava várias ilustrações coloridas que mostravam os pontos onde a moxa podia ser aplicada para tratar as doenças.

O efeito do calor ou radiação infravermelha se soma à energia yang do corpo, potencializando esse aspecto (yang) da energia (chi), podendo inclusive ser conduzido até o seu extremo, ou seja, a transformação no aspecto oposto da energia (yin). O calor de um dia quente pode ser amenizado com xícara de chá.[carece de fontes?]

Na patologia chinesa, as doenças reumáticas são classificadas como doenças do frio, da tristeza e da umidade. O frio patogênico tem características Yin e consome o Qi (Chi) Yang. Predomina no inverno, assim como as doenças do frio. Pode ser causado por contração e estagnação ou por exposição ao frio após transpirar, ou ser apanhado pelo vento e chuva.[carece de fontes?]

A depleção do Yang pode ser percebida por: membros frios; palidez, diarreia com fragmentos de alimentos não digeridos nas fezes; urina límpida e abundante.[carece de fontes?]

A umidade predomina no final do verão, época de chuvas, torna-se susceptível aos seus efeitos patogênicos com o uso de roupas molhadas e/ou residência em locais úmidos, ou mesmo contatos frequentes (ocupacionais) com a água. Se caracteriza por indolência e estagnação além de sintomas como tontura, cansaço, opressão no peito e epigástrio, náusea, vômitos, viscosidade e sabor adocicados na boca. Doenças de pele, alergias, abcessos, úlceras gotosas, leucorreia de fluxo abundante são manifestações de seu poder patogênico. Como foi dito, pode se combinar com o frio ou calor.[carece de fontes?]

No ocidente, os efeitos da temperatura no corpo humano foram bastante estudados durante o final do século XIX e início do século XX consolidando-se no que é conhecido como hidroterapia ou termalismo. Atualmente, o tratamento com aplicação de calor (termoterapia) é administrado (geralmente com lâmpadas infravermelhas) por fisioterapeutas, embora ainda se utilizem saunas de vapor e banhos quentes. O ofurô, apesar de amplamente utilizado no Japão, aparentemente não integra o elenco das práticas médicas tradicionais da Ásia.[carece de fontes?]

Apesar da concepção de saúde-doença e tratamento da moxabustuão e acupuntura serem essencialmente semelhantes, não se aplica a moxabustão em todos os pontos de acupuntura. Kikuchi, em sua prática e seu livro sobre o tema, selecionou 78 pontos (tsubo em japonês) com indicação clínica e resultados empíricos de eficácia.[carece de fontes?]

Do ponto de vista ocidental, os efeitos da aplicação de calor são as alterações no comportamento metabólico/celular (elevação), circulatório (vaso-dilatação), na função nervosa (relaxamento muscular e sedação) Observe-se que, do ponto de vista da fisiologia chinesa, a energia yang corresponde à tonificação (aumento da taxa metabólica), e a diminuição da rigidez e espasmo favorecem o movimento e atividade.[carece de fontes?]

Bastão e cones pré-fabricados de artemísia para moxa

Efetividade e segurança[editar | editar código-fonte]

A maior parte da pesquisa sobre moxabustão vem da China, e é geralmente de baixa qualidade.[11] Seus praticantes, no entanto, a veem como uma panaceia.[12]

Um artigo da Colaboração Cochrane encontrou evidências limitadas da efetividade da moxabustão no caso de bebês com posição invertida no útero, e pediu mais pesquisas sobre o tema.

A moxabustão também foi estudada no tratamento de dor,[13] câncer,[14] acidente vascular cerebral,[15] colite ulcerosa,[16] obstipação[17] e hipertensão.[18] Artigos concluíram que tais estudos foram, no entanto, de baixa qualidade, com possível viés de publicação.[19]

A moxabustão tem o risco de efeitos adversos, incluindo queimadura e infecção.[20] Efeitos colaterais da moxabustão incluem náusea, irritação da garganta e dor abdominal proveniente de contrações.[21]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Deng H, Shen X. The mechanism of moxibustion: ancient theory and modern research. Evid Based Complement Alternat Med. 2013;2013:379291. doi:10.1155/2013/379291
  2. UNESCO. «La acupuntura y la moxibustión de la medicina tradicional china». Consultado em 21 de janeiro de 2019 
  3. Wolfgang Michel (2005). "Far Eastern Medicine in Seventeenth and Early Eighteenth Century Germany". Gengo Bunka Ronkyū 言語文化論究. Kyushu University, Faculty of Languages and Cultures. 20. [S.l.: s.n.] pp. 67–82. hdl:2324/2878. ISSN 1341-0032 
  4. Li Zhaoguo (2013). English Translation of Traditional Chinese Medicine: Theory and Practice. 上海三联书店. [S.l.: s.n.] 11 páginas. ISBN 978-7-5426-4084-0 
  5. Existem vários outros nomes em chinês, como bingtai 冰台、ecao 遏草、xiang'ai 香艾、qiai 蕲艾、aihao 艾蒿、jiucao 灸草﹑yicao 医草﹑huangcao 黄草﹑airong 艾绒
  6. Needham, J; Lu GD (2002). Celestial lancets: a history and rationale of acupuncture and moxa. [S.l.]: Routledge. 262 páginas. ISBN 0-7007-1458-8 
  7. «Moxibustion». Consultado em 20 de outubro de 2021 
  8. «Moxibustion». Consultado em 20 de outubro de 2021 
  9. «Moxibustion». Consultado em 20 de outubro de 2021 
  10. «Moxibustion». Consultado em 20 de outubro de 2021 
  11. Ernst E (2019). Alternative Medicine – A Critical Assessment of 150 Modalities. [S.l.]: Springer. pp. 182–183. doi:10.1007/978-3-030-12601-8. ISBN 978-3-030-12600-1. 
  12. Ernst E (2019). Alternative Medicine – A Critical Assessment of 150 Modalities. [S.l.]: Springer. pp. 182–183. doi:10.1007/978-3-030-12601-8. ISBN 978-3-030-12600-1. 
  13. Lee, Myeong Soo; Choi, Tae-Young; Kang, Jung Won; Lee, Beom-Joon; Ernst, Edzard (2010). Moxibustion for treating pain: a systematic review.. The American Journal of Chinese Medicine. 38 (5). [S.l.: s.n.] pp. 829–38. 829–38  Ligação externa em |título= (ajuda)
  14. Lee, Myeong Soo; Choi, Tae-Young; Park, Ji-Eun; Lee, Song-Shil; Ernst, Edzard (2010). [S.l.: s.n.]  Em falta ou vazio |título= (ajuda)
  15. Lee, M. S.; Shin, B.-C.; Kim, J.-I.; Han, C.-h.; Ernst, E. (2010). "Moxibustion for Stroke Rehabilitation: Systematic Review". Stroke. 41 (4). [S.l.: s.n.] pp. 817–20. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20150551  Ligação externa em |título= (ajuda)
  16. Lee, Dong-Hyo; Kim, Jong-In; Lee, Myeong Soo; Choi, Tae-Young; Choi, Sun-Mi; Ernst, Edzard (2010). "Moxibustion for ulcerative colitis: A systematic review and meta-analysis". BMC Gastroenterology. 10: 36. [S.l.: s.n.] doi:10.1186/1471-230X-10-36. PMC 2864201. PMID 20374658.  Ligação externa em |título= (ajuda)
  17. Lee, Myeong Soo; Choi, Tae-Young; Park, Ji-Eun; Ernst, Edzard (2010). "Effects of moxibustion for constipation treatment: A systematic review of randomized controlled trials". Chinese Medicine. 5: 28. [S.l.: s.n.] doi:10.1186/1749-8546-5-28. PMC 2922210. PMID 20687948  Ligação externa em |título= (ajuda)
  18. Kim, Jong-In; Choi, Jun-Yong; Lee, Hyangsook; Lee, Myeong Soo; Ernst, Edzard (2010). "Moxibustion for hypertension: A systematic review". BMC Cardiovascular Disorders. 10: 33. [S.l.: s.n.] doi:10.1186/1471-2261-10-33. PMC 2912786. PMID 20602794  Ligação externa em |título= (ajuda)
  19. Lee, Myeong Soo; Kang, Jung Won; Ernst, Edzard (2010). "Does moxibustion work? An overview of systematic reviews". BMC Research Notes. 3: 284. [S.l.: s.n.] doi:10.1186/1756-0500-3-284. PMC 2987875. PMID 21054851  Ligação externa em |título= (ajuda)
  20. Ernst E (2019). Alternative Medicine – A Critical Assessment of 150 Modalities. [S.l.]: Springer. pp. 182–183. doi:10.1007/978-3-030-12601-8. ISBN 978-3-030-12600-1. 
  21. Coyle, M. E.; Smith, C. A.; Peat, B (2012). "Cephalic version by moxibustion for breech presentation". Cochrane Database of Systematic Reviews. 5 (5): CD003928. [S.l.: s.n.] doi:10.1002/14651858.CD003928.pub3. PMID 22592693