Manuel Valente Alves

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Manuel Valente Alves em 2017.

Manuel Valente Alves (n. Abrantes, 1953) é um médico, investigador na área das ciências humanas e artista plástico português.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em 1978. É especialista e exerce Medicina Geral e Familiar desde 1985. Em 2003, a convite da direcção da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, reorganizou o seu Núcleo Museológico. Em 2005 fundou o Museu de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, que dirigiu até 2014. A partir de 2005 tem colaborado regularmente, quer como investigador quer como consultor, com vários centros de investigação universitários na área das ciências humanas. Em 2007 foi convidado a reorganizar a disciplina de História da Medicina do curso de mestrado integrado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, tendo sido docente e regente da disciplina até 2014. É académico titular da Academia Nacional de Medicina de Portugal[1]. Na área das artes plásticas tem exposto regularmente desde o começo dos anos 1980, utilizando como suportes preferenciais, inicialmente a pintura e, posteriormente, a fotografia, o vídeo e o desenho.

Obra[editar | editar código-fonte]

No campo da investigação em ciências humanas é autor, editor e co-editor de uma vasta bibliografia em que cruza a História da Medicina e o pensamento médico com a Filosofia, a Arte, a Literatura, a Cultura visual e a Museologia. Entre mais de duas dezenas de livros publicados, destacam-se: O Impulso Alegórico - Retratos, Paisagens, Naturezas Mortas (Ordem dos Médicos, 1998), Imagens Médicas - Fragmentos de uma História (Porto 2001/Porto Editora, 2001), Passagens (Museu de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa/Museu Nacional de Arte Antiga, 2005), A Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - Um olhar sobre a sua História (Gradiva, 2011), Anatomia - Arte e Ciência (Museu de Medicina/Fundação Champalimaud/Althum, 2013), História da Medicina em Portugal - Origens, ligações e contextos (Porto Editora, 2014).

Concebeu e coordenou vários encontros transdisciplinares: Impulso Alegórico (Ordem dos Médicos, Lisboa e outros locais, 1997-1998), O Corpo na Era Digital (Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2000), Passagens (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 2005), Anatomias Cruzadas (Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa, 2011), O Mundo é Feito por Nós? (Casa Museu Abel Salazar, S. Mamede de Infesta, 2012). Ainda neste âmbito, proferiu numerosas conferências, dentro e fora de Portugal, sobre temas relacionados com a arte, a ciência, a historiografia e o pensamento médicos a convite de universidades, museus e outras instituições científicas e culturais.

Foi curador ou co-curador de várias exposições institucionais transdisciplinares: Sete artistas contemporâneos evocam a Geração Médica de 1911, Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 1999); Passagens – 100 Peças para o Museu de Medicina, Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa, 2005); Transparência – Abel Salazar e o seu tempo, um olhar, Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República/Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto, 2010); Gabinete de Anatomia - Arpad, Vieira e os desenhos anatómicos do Museu de Medicina, Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva (Lisboa, 2011); Gabinete de Anatomia - Arpad, Vieira e os desenhos anatómicos do Museu de Medicina, Casa-Museu Abel Salazar (S. Mamede de Infesta, 2012), Laboratório de Anatomia - Ver e Pensar o Corpo, Reitoria da Universidade de Lisboa (Lisboa, 2013), Autómato Vivo - A Vida, um Artefacto Natural?, Museu Nacional de História Natural e da Ciência (Lisboa, 2014), entre outras.

Como artista plástico, realizou desde 1984 mais de duas dezenas de exposições individuais e participou em mais de quatro dezenas de colectivas, em Portugal e no estrangeiro, em prestigiados museus e outras instituições culturais: Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), Instituto Goethe (Lisboa), Fundação de Serralves (Porto), Culturgest (Lisboa), Museu do Chiado (Lisboa), Centro Português de Fotografia (Porto), Centro Cultural de Belém (Lisboa), Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa), CAV- Centro de Artes Visuais (Coimbra), Casa da Cerca (Almada), Palácio de Belas Artes (Bruxelas), Frankfurter Kunstverein (Frankfurt), Círculo de Bellas Artes (Madrid), Canal de Isabel II (Madrid), Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande (Campo Grande, Brasil), Galeria Diferença (Lisboa), Galeria Graça Fonseca (Lisboa), Galeria Luís Serpa (Lisboa), entre outros. Integrou diversas representações portuguesas no estrangeiro:A Imagem das Palavras, Europália 91, Palácio de Belas Artes (Bruxelas, 1991); Lusitania (Círculo de Bellas Artes, Madrid, 1992); Livro de Viagens – Portugiesische Photographie 1854-1997, Frankfurter Kunstverein (Frankfurt, 1997); Observatorio – Fotografia Portuguesa Contemporanea, Canal de Isabel II (Madrid, 1998); Portugal - Algunas Figuras, Laboratorio Arte Alameda (Cidade do México, 2005). Está representado entre outras, nas seguintes colecções institucionais: Caixa Geral de Depósitos (Lisboa), Câmara Municipal de Lisboa, Casa da Cerca (Almada), Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), Centro Português de Fotografia (Porto), Fundação PLMJ (Lisboa).

No começo dos anos 1980, a sua actividade artística, prática e conceptualmente, centrava-se na Pintura: "entre a linguagem pictórica estrita (duplamente estrita, poder-se-ia afirmar, na medida em que inclusivamente o próprio vocabulário, a gramática utilizada, era, neste campo, tendencialmente pretextual; isto é, Valente Alves, nos seus trabalhos produzidos entre 1985 e 1989, ia utilizando formas pictóricas elementares e/ou consideradas arquetípicas significacionalmente, as quais eram passíveis de redução à condição de edifícios compositivos estruturadores das tensões inerentes ao espaço pictórico, ao seu campo gestáltico)," e a experiência fotográfica. Nesses anos, começam já a definir-se alguns dos aspectos que, no futuro, irão determinar o desenvolvimento da sua obra: "entre essa contextualização no resíduo e na geometrização e a linguagem fotográfica remissiva –, encontramos a vocação de experimentar, revisitar ou prolongar (como a fotografia prolongou os ‘mitos’ da pintura) a própria história da arte como campo activo de emanações, significantes e significacionais, físicas; sem que tal carácter remissivo se constitua busca alguma de caução cultural".[2]

Nos anos 1990 recorre à Fotografia e ao Vídeo para criar instalações que questionam a imagem e os seus limites: "Anular margens entre pintura e fotografia, e entre as imagens apropriadas de uma e de outra, disseminar sentidos e poéticas, seleccionar e transpor meios plásticos, inscrever e transmutar sucessivas realidades num real outro que interroga as suas próprias transposições, ressituar a prática artística num espaço cultural amplo em que a palavra é um elo significante, e desse modo dotá-la de intencionalidade política, social e ecológica, tornam-no um encenador de uma dramaturgia celebrante e interventiva, onde o público pode encontrar sinais de reconhecimento de si mesmo e da sua situação".[3]

A partir dos anos 2000 junta a Fotografia e o Vídeo ao Desenho, que passa a integrar não apenas o processo criativo mas também a obra final, como se pode ver na instalação Cadmo e Harmonia (2007): "No princípio, era o desenho. Um vestígio, uma marca que cedo passou do acaso à intencionalidade. Logo o desenho se tornaria projecto e se confundiria com o desejo, o desígnio, a vontade. Como se apenas víssemos ou apenas reconhecêssemos o mundo porque já o tínhamos encontrado antes, pensado antes, organizado no habitáculo íntimo dos nossos pensamentos. [...] Ou seja: os primeiros desenhos funcionam como uma escrita prévia. Preparação para a viagem, eles prevêem o que o autor iria encontrar depois. / O registo fotográfico é o segundo momento. Nele encontramos as paisagens que o desenho havia preparado. Como se Manuel Valente Alves tivesse chegado ao lugar – no caso, Berlim, cidade simbólica da Europa, metáfora dos raptos e feridas primordiais, metáfora do reencontro e da reconstrução – e tivesse reconhecido no traçado dos seus edifícios, das suas estruturas, superfícies, texturas, o que tinha previamente organizado em Lisboa."[4]

Ligando e interligando múltiplos saberes e poéticas do real, provenientes de diferentes áreas do conhecimento, em torno de uma práxis, uma prática assente num projecto pessoal global, Manuel Valente Alves construiu uma obra singular que tanto reflecte criticamente sobre o mundo contemporâneo (com as suas aproximações, desvios, pontes e cruzamentos) como procura agir sobre ele, transformando-o quer no plano individual quer no plano social e político: "[A arte de] Manuel Valente Alves, médico, escritor, pintor e fotógrafo, porque vive o seu tempo e é tudo isso empenhadamente, apaixonadamente, percorre, entre fronteiras que se dizem indeterminadas, este nosso mundo de mudança, feito pura passagem para essa outra coisa que ainda desconhecemos".[5] O seu trabalho artístico, "por vezes militante, extremamente conceptualizado ou minimalista, obrigando a libertar o olhar da forma e procurando o sentido [...], recusou as gavetas do estilo e definiu os recursos das artes como um código de pesquisa e decifração".[6] Manuel Valente Alves, "fiel ao seu íntimo projecto experimentalista, desenvolveu desde o início uma matriz que imediatamente o singularizou e que poderíamos sintetizar como vectorizado por uma constante e sistemática problematização da imagem e do seu estatuto".[7], invertendo assim "a grelha do dispositivo benjaminiano de análise da imagem".[8] "A preocupação de reflectir sobre a natureza da imagem a partir de questões comuns às do debate sobre outros produtos civilizacionais conduziram Manuel Valente Alves a trabalhar, plástica e verbalmente, sobre o conhecimento, a memória individual e colectiva, o real e o virtual, as mudanças que os actuais regimes de imagens operam nas nossas estruturas de percepção e conceptualização, o esclarecimento da vontade e da verdade humanas e dos valores da aparência (com revisão de alguns neo-platonismos), a perspectiva e a representação, a história da filosofia e da arte".[9]

Na génese do seu trabalho artístico, destacam-se o gosto pela história da arte e da cultura e o saber fazer pictórico, aspectos estes que irão, mais tarde, ligar-se a outros, tornando o seu trabalho progressivamente mais complexo. Com efeito, a partir do momento em que começa a diversificar os suportes, materiais e linguagens, Manuel Valente Alves mostra "uma extraordinária capacidade para pensar o que se deixa pensar na subtil deslocação de referências e espelhos e permitir que o sentido se imobilize e espante no limiar das suas perplexidades fundamentais: que são inevitavelmente derivadas de um opressivo sentimento de que o tempo urge e de que nessa urgência o tempo (ou a praia imensa de um sentido terceiro pacificado e informulável) nos falta desde sempre, e para sempre, esquivo, enevoado, cantante, absorto e obstinado".[10] O trabalho plástico de Manuel Valente Alves funda-se "numa necessidade de alcançar um âmago – seja dos lugares, das geografias, das incertezas, da (in)coerência, da pertinência, do sujeito ou dos sujeitos, seja do que é, do que foi, do que poderia ter sido. E interroga-se. Sempre. E, ao interrogar-se, interpela-nos. Não é, porém, uma interrogação arbitrária. É um exercício que se vai sucessivamente redefinindo e reformulando, que suporta, que é como um fio condutor, um guia, que o coloca perante as coisas. A auscultação desse real transmuta-o em 'coisas outras' que, sendo outras, são as mesmas. A grande diferença reside exactamente na matriz desse olhar que, sem mais, nos retira o visto. É um olhar incisivo, perscrutador de pequenos planos ou de planos abertos, frontais ou perspécticos, mas que tende, quase sempre, a ordenar, a organizar a imagem, seja fotográfica, desenhada ou filmada, ou ainda a sobreposição de todas elas'".[11]

Religando a arte e a ciência, a medicina e as humanidades, Manuel Valente Alves "tem vindo a por todo o seu entusiasmo, criatividade, persistência e capacidade de sonhar ao serviço de projectos inovadores que permitem descobrir e demonstrar novas inter-relações entre a arte e a medicina, e entre estas e as pessoas; tudo isto no entendimento de que a arte e toda a arte é promotora do desenvolvimento da pessoa, considerado este como abertura a novas formas de ver, novas formas de entender, novas formas de enquadrar para encontrar novas formas de ser e estar".[12]

Em 2010, numa cerimónia oficial, o reitor da Universidade de Lisboa faz uma referência às suas iniciativas quando apresenta a estrutura programática das Comemorações do Centenário da Universidade de Lisboa: "Fá-lo-emos em torno de quatro eixos: 100 Pessoas (história); 100 Lugares (património); 100 Lições (ensino e cultura); 100 Ideias para o futuro (ciência e inovação). Em torno de quatro eixos e de muitas iniciativas – como aquelas que, por exemplo, Manuel Valente Alves tem vindo a desenvolver na área da Medicina – sempre com a certeza de que viver a História é projectarmo-nos no que há-de vir, como dizia António Sérgio, no que há-de ser a história que iremos continuar". [13]

Movendo-se entre a medicina e a arte, o pensamento e a acção, a descoberta e a imaginação, Manuel Valente Alves é autor de uma obra aberta, sem fronteiras, de grande sensibilidade e rigor, que reflecte sobre o corpo do homem e o corpo do mundo, sobre a natureza a cultura e as suas íntimas e complexas ligações. A qualidade e originalidade da sua obra são reconhecidas nos meios académico e cultural, como o demonstram as múltiplas referências ao autor feitas por conceituados críticos, historiadores e personalidades provenientes de áreas muito diversas. Uma obra vasta e multifacetada que se inscreve na longa tradição, milenar, do humanismo médico.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Notas e Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Academia Nacional de Medicina de Portugal http://www.academianacionalmedicina.pt/
  2. VIDAL, Carlos – 'Democracia e Livre Iniciativa – Política, Arte e Estética". Lisboa: Fenda Edições, 1996, p. 269.
  3. SILVA, Raquel Henriques da – Prefácio. In: Manuel Valente Alves – Donde vimos? O que somos? Para onde vamos?. Catálogo de exposição. Lisboa: Museu do Chiado, 1996, p. 3.
  4. FERREIRA, Emília – No princípio era o desenho. In: Manuel Valente Alves - Cadmo e Harmonia. Catálogo de exposição. Almada: Casa da Cerca, 2007.
  5. SERÉN, Maria do Carmo – Manuel Valente Alves – Reframing. Porto: Mimesis, 2002, p. 15.
  6. SERÉN, Maria do Carmo http://artephotographica.blogspot.pt/2008/11/uma-fotografia-um-nome.html
  7. ALMEIDA, Bernardo Pinto de – Transição – Ciclopes, Mutantes e Apocalípticos. Lisboa: Assírio e Alvim., 2002, p. 212.
  8. ALMEIDA, Bernardo Pinto de – Transição – Ciclopes, Mutantes e Apocalípticos. Lisboa: Assírio e Alvim., 2002, p. 216.
  9. NAZARÉ, Leonor – Manuel Valente Alves. In: A.A.V.V - Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da Coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 220.
  10. COELHO, Eduardo Prado – Alegorias do Medo. In: AA.VV – Manuel Valente Alves – Donde vimos? O que somos? Para onde vamos?. Catálogo de exposição. Almada: Casa da Cerca, 1999, p. 27.
  11. RIBEIRO, Ana Isabel. Lugares de construção. In: AA.VV – Manuel Valente Alves – Cadmo e Harmonia. Catálogo de exposição. Almada: Casa da Cerca, 2007.
  12. ROSEIRA, Maria de Belém – Eugenismo e Direitos Humanos. In: ALVES, Manuel Valente (ed.) – Passagens. Lisboa: Museu de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa/Museu Nacional de Arte Antiga, 2005, p. 230.
  13. NÓVOA, António Sampaio da http://www.hsm.min-saude.pt/contents/pdfs/destaques/100_Anos%20FMUL.pdf