Ispasalar

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Ispasalar (em persa: اسپهسالار; romaniz.: Ispahsālār) ou sipasalar (em persa: سپهسالار; romaniz.: sipahsālār , lit. "comandante do exército"), em árabe escrito como isfasalar (em árabe: إسفهسلار; romaniz.: isfahsalār) ou isbasalar (em árabe: إصبهسلار; romaniz.: iṣbahsalār), foi um título utilizado em boa parte do mundo islâmico durante os séculos X-XV, para denotar os comandantes militares mais seniores mas também uma posição genérica dum oficial general.

Mundo Islâmico Oriental e Pérsia[editar | editar código-fonte]

O título deriva do persa médio spāh-sālār (𐬯𐬞𐬁𐬵⸱𐬯𐬁𐬮𐬁𐬭),[1] já atestado nos textos Pazend do século IX. Foi o equivalente do antigo título sassânida de aspabedes (árabe ispabade), que durante o período islâmico deixou de ser utilizado no uso geral e tornou-se um título real entre certas dinastias locais no Tabaristão e Coração. Os títulos de ispasalar e sipasalar veio a proeminência no mundo islâmico no final do século X, com a ascensão do poder das dinastias islâmicas durante o chamado "Intermezzo Iraniano". No sentido de "comandante-em-chefe", o título foi utilizado em paralelo aos títulos árabes comuns Hájibe alhujabe (حاجب الحجاب), Hájibe Alquibir (حاجب الكبير) ou Saíbe Aljaixe (صاحب الجيش).[2]

Entre os buídas, foi dado como um sinal de conciliação bem como honra particular para dois generais turcos rebeldes, Sabuqueteguim Almuizi em 971, e, após sua morte, Alpetequim em 974/975. Com o crescimento da instabilidade dos Estados buídas pelo fim do século, o uso de ispasalar degradou-se, e veio a significar simplesmente "comandante" ou apenas "oficial". Entre o posterior Império Safárida sob Calafe ibne Amade (r. 963–1002), o título foi aplicado para o comandante-em-chefe do exército, enquanto o Hájibe Hujabe foi um ofício separado, possivelmente comandante as tropas escravas (mamelucos, gulans). Entre as dinastias turcas, os títulos árabes e persas foram suplementados pelo título turco subaxi (Sübashi).[2]

O Império Gasnévida empregaram sipasalar e seus equivalentes árabes no sentido original de "comandante-em-chefe", mas também para comandantes de contingentes específicos de seu exército, junto do uso de salar "simples" (e em árabe hájibe) para generais menos exaltados.[2] O Império Seljúcida e o Sultanato de Rum utilizaram algumas variações do título tais como ispasalar-i buzurgue (اسپهسالار بزرگ - Ispahsālār-i Buzurg) ou emir-i ispasalar (امیر اسپهسالار - Amīr-i Ispahsālār), bem como uma variedade de outros títulos árabes, persas e turcos no sentido técnico de comandante-em-chefe do exército e governadores e comandantes do exército de regiões importantes e, num sentido mais genérico, de "oficial general".[3] O título também foi utilizado pelo Império Corásmio, originalmente vassalo seljúcida, que empregou a variante única de Quir Isfasalar (قیر اسفهسالار), para comandantes das regiões fronteiriças.[4]

As conquistas mongóis diminuíram o uso do título, trazendo à tona os títulos turcos e mongóis, muito embora permaneceu em uso generalizado nas regiões isoladas e conservadoras de Dailão e Gilão na costa do mar Cáspio.[4] Na Pérsia propriamente, foi revivido pelo Império Safávida sob o Xá Abas I (r. 1587–1629), substituindo o título árabe de emir de emires utilizado até então. O ofício foi aparentemente geralmente mantido pelos beglerbeguis do Azerbaijão, que Rustã Cã sendo a pessoa mais proeminente a ocupá-la. O posto foi abolido novamente em 1664/77, depois do que o comandante-em-chefe (sardar) foi nomeado apenas em tempo de guerra. O título reapareceu na forma sipasalar-azã (سپهسالار اعظم) sob o posterior Império Cajar, sendo mantido como honorífico pelo ministro da guerra Mirza Maomé Cã Cajar em 1858, o reformismo ministro da guerra e logo depois ministro chefe) Mirza Huceine Cã Gasvini — que também construiu a homônima Mesquita de Sipasalar em Teerã — em 1871 e pelo ministro chefe Maomé Vali Cã Tonecaboni em 1910.[4][5]

Maxerreque[editar | editar código-fonte]

A influência buída, e especialmente seljúcida, levou ao espalhar do título de ispasalar, junto de outros títulos persas, para oeste em direção e Maxerreque e mesmo para os países cristãos do Cáucaso: em armênio tornou-se [a]spasalar e em georgiano amirspasalari, um dos quatro grandes ministros de estado do Reino da Geórgia.[5] O título também esteve em uso comum entre as dinastias atabegues turcas da Síria e Iraque e mais tarde no [[Império Aiúbida], tanto para os comandantes militares regionais mas também, unicamente, como um dos títulos pessoais dos atabegues.[6]

No Califado Fatímida do Egito, o isfasalar foi o comandante-em-chefe do exército e juntamente responsável com o camareiro chefe (uazir alçaguir (Wazīr al-Ṣaghīr) ou saíbe albabe (Sāhib al-Bāb)) pela organização militar.[4] O título sobreviveu entre os mamelucos do Egito, onde isfasalar e o nisba "alisfasalari" (الإسفهسلاري) foram comumente utilizado na titularia dos comandantes seniores do século XIII, mas parece ter sido aviltado e caiu em desuso depois disso. É ainda atestado tão tarde quanto 1475 para o comandante-em-chefe mameluco, mas por esta época o termo isbasalar foi também aplicado geralmente para os guardas do sultão mameluco. Entre os otomanos, sipasalar (سپاهسالار - sipāhsālār) continuou a ser utilizado mas num sentido genérico, com os termos usuais para comandante-em-chefe sendo serdar (سردار) e serasquer (سرعسكر).[7]

Índia muçulmana[editar | editar código-fonte]

Dos gasnévidas, o título também passou para o Império Gúrida, governante do Afeganistão e norte da Índia. Sob os gúridas, isfasalar significou o comandante-em-chefe, mas no século XIII denotou um oficial em comando de 100 cavaleiros, e sob a dinastia Tuguelaque declinou para o comandante de 10 homens. Além deste significado técnico, o termo continuou a ser utilizado nos Estados muçulmanos da Índia nos séculos XIV-XV como um termo genérico para "oficial general", ou seja, sob a dinastia Lodi do Sultanato de Déli, ou como "comandante-em-chefe", ou seja, no Sultanato de Bengala ou nos Sultanatos do Decão. Sob o Império Mogol, foi um título às vezes dado ao cã de cãs (Khankhanan), o comandante-em-chefe mongol, especialmente quando liderou o exército no lugar do imperador mogol.[7]

Referências

  1. «Nirangs ('Formulas')» 
  2. a b c Bosworth 1997, p. 208.
  3. Bosworth 1997, p. 208–209.
  4. a b c d Bosworth 1997, p. 209.
  5. a b Katouzian 2006, p. 26–27, 35, 203.
  6. Bosworth 1997, p. 209–210.
  7. a b Bosworth 1997, p. 210.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bosworth, C. E.; Digby, S. (1997). «Ispahsālār, Sipahsālār». The Encyclopedia of Islam, New Edition, Volume IV: Iran–Kha. Leida e Nova Iorque: Brill. pp. 208–210. ISBN 90-04-05745-5 
  • Katouzian, Homa (2006). State and Society in Iran: The Eclipse of the Qajars and the Emergence of the Pahlavis. Nova Iorque: I.B.Tauris. ISBN 1845112725