José Blanc de Portugal

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José Blanc de Portugal
Nome completo José Bernardino Blanc de Portugal
Nascimento 8 de março de 1914
Lisboa
Morte 13 de maio de 2000 (86 anos)
Nacionalidade Português
Ocupação Poeta, professor, ensaista, crítico musical e meteorologista
Prémios Prémio Fernando Pessoa, Prémio Casa de Imprensa e Prémio do P.E.N. Club Português
Magnum opus Enéadas: 9 novenas (1989)
Religião Católica

José Bernardino Blanc de Portugal (Lisboa, 8 de março de 191413 de maio de 2000)[1][2] foi um poeta, professor, ensaísta, crítico musical e meteorologista português.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Licenciou-se em Ciências Geológicas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde viria a ser docente como assistente convidado. Frequentou também estudos em História da Música, Psicologia e Língua e Literatura Árabe.

Desde os quinze anos que lecionou particularmente todas as disciplinas do liceu e algumas universitárias. Foi professor de Integração Cultural e Sociologia da Informação nos cursos de Formação Artística da Sociedade Nacional de Belas Artes.

Foi meteorologista na Pan American Airways e posteriormente desempenhou a função de meteorologista do Serviço Meteorológico Nacional (1960-1973), cujos centros dirigiu em Lisboa, Ilha do Sal, Santa Maria dos Açores, Ponta Delgada, Luanda e Moçambique, publicando diversos trabalhos nesta área.

Representou o país em reuniões técnicas da Organização Mundial de Aviação Civil e da Organização Meteorológica Mundial na qual foi vice-presidente da Associação Regional I (África). Foi também nomeado adido cultural na Embaixada de Portugal em Brasília, pediu exoneração do cargo para assumir a vice-presidência do Instituto da Cultura Portuguesa.

Começa o ofício da escrita pela crítica musical, no Diário de Notícias, em particular sobre bailado.

Co-dirigiu, em 1940, com Tomás Kim e Ruy Cinatti, Cadernos de Poesia, aos quais, mais tarde, a partir da II série (Lisboa,  1951) se associaram Jorge de Sena e José-Augusto França. Cadernos foram uma publicação eclética que, subordinada ao lema "Poesia é só uma, porque afinal não há outra”, tinha em vista "arquivar a actividade da poesia actual sem dependência de escolas ou grupos literários, estéticas ou doutrinas, formulas ou programas".[3] Esta publicação intervém pois em nome da essência da poesia e propôs-se resgatá-la das opções exclusivas e antagónicas do momento.[4] Uma conceção de poesia que "com todos os seus ingredientes, recursos, apelos aos sentidos, resulta de um compromisso firmado entre um ser humano e o seu tempo, entre uma personalidade e uma sua consciência sensível do mundo, que mutuamente se definem" e de poeta como "homem destinado a nele se definir a humanidade. Um ser capaz de ter todo o passado íntegro no presente e capaz de transformar o presente integralmente em futuro", através de uma "atitude de lucidez, compreensão e independência." Como declarado nas notas de abertura das segunda e terceira séries, o objetivo dos Cadernos era o de "servir a poesia. Porque a poesia é servida, não serve." Os Cadernos inseriram colaborações das mais diversas tendências, tendo incluído inéditos de Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes, os primeiros poemas publicados por Sophia de Mello Breyner, bem como ensaios sobre temas literários e de artes-plásticas.

Colaborou ainda noutras publicações poéticas como Aventura (1942-1944), Serpente (1951), Graal (1956-1957), A Serpente, Atlântico [5], Litoral [6] (1944-1945) e Tempo Presente[7] .

A sua estreia em livro, no entanto, fez-se mais tarde com Parva Naturalia (1960), a que se segue, no mesmo ano, O Espaço prometido.

Além de obras sobre a sua profissão e de trabalhos de crítica musical foi ainda tradutor de inúmeros autores estrangeiros como Truman Capote, Gilbert Keith Chesterton, Carlo Coccioli, T. S. Eliot, Cristopher Fry, Carl Gustav Jung, Pitágoras, William Shakespeare, bem como de textos de Fernando Pessoa originalmente escritos em inglês.

Pertenceu ao Movimento 57 (ou Movimento da Cultura Portuguesa).

A 16 de novembro de 1983, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.[8]

Obra[editar | editar código-fonte]

Poesia[editar | editar código-fonte]

  • Parva naturalia: poemas. Lisboa: Edições Ática, 1960
  • O espaço prometido. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1960
  • Odes pedestres, precedidas de Auto-Poética e seguidas de Música Ficta e Outros Poemas. Lisboa: Editora Ulisseia, 1965
  • Descompasso. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1986
  • Enéadas: 9 novenas. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1989
  • Quaresma abreviada. Lisboa: Black Sun Editores, 1997
  • Estrofes. Lisboa: Black Sun Editores, 1999

Ensaio[editar | editar código-fonte]

  • Anticrítico: ensaios. Lisboa: Edições Ática, 1960
  • Quatro Novíssimos da Música Actual. Lisboa: Revista de artes e letras, 1962 [9]

Artigos[editar | editar código-fonte]

  • Espaço e unidade. Lisboa: Edições Brotéria, 1966

Tradução[editar | editar código-fonte]

  • William Shakespeare, A tragédia de Hamlet príncipe da Dinamarca, 1964
  • T. S. Eliot, Cocktail party
  • T. S. Eliot, Assassínio na catedral
  • Vasco Pratolini, Crónica dos pobres amantes.
  • Carl Gustav Jung, Um mito moderno
  • Pitágoras, Versos de ouro: que vulgarmente andam em nome de Pitágoras em vulgar
  • Carlo Coccioli, O Jogo
  • Carlo Coccioli, O ceú e a terra
  • Carlo Coccioli, O seixo branco
  • G. K. Chesterton, Disparates do mundo
  • Eugénio de Andrade, Femmes en noir
  • Fernando Pessoa, Poemas Ingleses
  • Fernando Pessoa, O louco rabequista

Caracterização da obra[editar | editar código-fonte]

"Ninguém lê nada em livros, mas dentro de si."[10]

"É religiosa, católica, a essência da angustia metafisica do poeta[11]" di-lo Jorge de Sena, na biografia que faz do autor. A sua poesia reflete a vastíssima cultura em todos os campos do conhecimento, "caracteriza-se por uma dignidade de tom, uma severidade austera da expressão, um fôlego contido, os quais, do fundo de uma humildade angustiada, através de um humor quase negro ou de uma ternura discretíssima, repercutem, como em raros outros poetas contemporâneos, uma áspera consciência trágica das contradições do mundo moderno. Poesia da mais alta categoria, sem quaisquer concessões de factura ao leitor ou a si própria, sempre ameaçada de efectiva destruição pelo poeta, é, na sua linguagem densa e rude, de uma originalidade muito peculiar, em que a inspiração desenfreada e a lucidez exigente lutam constantemente por um equilíbrio precário e irónico que constitui, para o poeta, a própria imagem da vida humana."

José Blanc de Portugal defendia que a poesia resulta de um compromisso firmado entre um ser humano e o seu tempo e via o poeta como um ser capaz de "todo o passado íntegro no presente, e de transformar o presente integralmente em futuro", com "lucidez, compreensão e independência". É simultaneamente uma poesia clássica e uma poesia barroca: tem do classicismo as exigências depuradoras e do barroquismo os requintes ornamentais. É uma poesia ao mesmo tempo seca em extremo e em extremo recheada.

A sua poesia tem ocasionalmente um caráter dramático, o qual pode estar ligado a certas experiências pessoais, a que não é alheia uma religiosidade de precedência católica.[12] Chamado por isso um Poeta do Divino.[13]

Por vezes tem também um caráter surrealista, sobretudo em Odes pedestres, obra da qual alguns poemas estão incluídos na antologia de poesia surrealista[14] de Natália Correia.

Em Auto-Poética exprime algumas das suas reflexões sobre a poesia: que esta é imanente aos próprios poemas, só através deles se pode explicar a si mesma "a poética está no poema" e que esta assenta na sua própria música "todo o poema é música ficta".

Nele se exalta uma liberdade total, utópica miragem em que desde sempre nos encontramos e nos perdemos, e que faz eco da sabedoria clássica:

"Parecem livres as nuvens / mas o sol e o vento as dirigem / livre é o homem que com / elas se parece / mas vagueia sem que / sinta precisar de saber / para onde vai, nem sequer / escravo da sua vontade"[15]

Faz parte não de uma "geração", mas de um pequeno grupo de poetas, que, de certo modo, pode ser apresentado como o oposto do grupo do Novo Cancioneiro.

A poesia de J. B. de Portugal, inteiramente despida de facilidades, leva Adolfo Casais Monteiro a afirmar "não me espantará que, mesmo agora, a [sua] poesia (...) continue, já não digo pouco popular, mas mesmo quase tão ignorada como antes, apesar do Prémio Fernando Pessoa". Presságio que se veio a confirmar.

Confronta os Antigos com o moderno, revisitando os seus conceitos e fórmulas, reactualiza filosofias, "não é alheia a propostas ou sonhos da matemática e da física, numa perspectiva simultâneamente desenganada e lúdica".[4] Toda a Arte é didática; só a arte é didática - crença que o autor comunga com Sophia de Mello Breyner:

"Ignoramos toda a simplicidade e, paradoxalmente, com ela se perde toda a possibilidade de profundidade real"[16]

João Gaspar Simões diz-nos sobre o autor que J.B.P. "não era propriamente um talento nem propriamente um génio, mas sim um engenho. E a verdade é esta: que as raízes das duas palavras se confundem. Engenho tanto pode, significativamente, habilidade, destreza, como faculdade inventiva, génio, mesmo. No caso do autor (...) são tangentes esses significados. Na sua poesia há ao mesmo tempo tanto de inventiva como de habilidade, tanto de destreza como de génio. E é isso que constitui, aliás, o carácter por assim dizer único da sua obra no limiar dessa segunda metade do século XX em que principia a manifestar-se o engenho do poeta."[7]

Prémios[editar | editar código-fonte]

Prémio Fernando Pessoa em 1959, com Parva Naturalia[17]

Prémio Casa de Imprensa em 1960, com Odes Pedestres

Prémio do P.E.N. Club Português, com Enéadas e pelo conjunto da obra

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Sousa, Rui Ferreira e. «O surrealista de Benfica». PÚBLICO 
  2. Lusa, RTP, Rádio e Televisão de Portugal -. «Sala de Referência da Biblioteca Nacional para o centenário de Blanc de Portugal» 
  3. Carlos, Luís Adriano; Frias, Joana Matos (2004). Cadernos de poesia. Porto: Campo das letras. ISBN 9726108381. OCLC 492281845 
  4. a b Borges, Maria João (2004). Fluir perene: a cultura clássica em escritores portugueses comtemporâneos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. ISBN 9728704208. OCLC 237890650 
  5. Helena Roldão (12 de Outubro de 2012). «Ficha histórica:Atlântico: revista luso-brasileira (1942-1950)» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 25 de Novembro de 2019 
  6. Helena Roldão (19 de Junho de 2018). «Ficha histórica:Litoral : revista mensal de cultura (1944-1945)» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 25 de Janeiro de 2019 
  7. a b Simões, João Gaspar (1999). Critica II, Poetas contemporâneos, 1938-1980. Lisboa: Impresa Nacional-Casa da Moeda. ISBN 9722709801. OCLC 492781752 
  8. «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "José Blanc de Portugal". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 12 de julho de 2019 
  9. Santos, Reinaldo dos (1963). «Quatro Novíssimos da Música Actual». Colóquio. Revista de Artes e Letras: 40 
  10. Portugal, José Blanc de (1989). Enéades. 9 novenas. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda. 57 páginas 
  11. Sena, Jorge (1984). Líricas Portuguêsas. Lisboa: Edições 70 
  12. Machado, Álvaro Manuel (1996). Dicionário de Literatura Portuguesa. Lisboa: Presença 
  13. Coelho, Jacinto do Prado (1997). Dicionário de Literatura. Lisboa: Mário Figueirinhas 
  14. Correia, Natália (2002). O surrealismo na poesia portuguesa. [S.l.]: Lisboa: Frenesi 
  15. Portugal, José Blanc de (1997). Quaresma Abreviada. Lisboa: Black Sun. pp. 8, 9 
  16. Portugal, José Blanc de (1988). Versos de ouro que vulgarmente andam em nome de Pitágoras em vulgar traduzidos por J.B.P. Lisboa: Assírio & Alvim. p. 50 
  17. Sousa, Rui Ferreira e (22 Agosto 1999). «José Blanc de Portugal, 85 anos, meteorologista e anarquista». PÚBLICO 
  18. «José Blanc de Portugal / Escuta o Vento da Poesia e o Sopro da Música | Museu Berardo». en.museuberardo.pt. Consultado em 30 de novembro de 2017 

Bibliografia passiva[editar | editar código-fonte]

  • Sena, Jorge de org. (1984). Líricas portuguesas - I volume. Lisboa: Edições 70, pp. LXI, 171-189
  • AA. VV. (1997). Dicionário cronológico de autores portugueses - IV volume. Mem Martins: Publicações Europa-América, pp.555-557
  • Coelho, Jacinto do Prado dir. (1997). Dicionário de literatura - I volume. Porto: Mário Figueirinhas, pp. 133, 257
  • Machado, Álvaro Manuel org. (1996). Dicionário de literatura portuguesa. Lisboa: Editorial Presença, p. 390
  • Simões, João Gaspar (1999). Crítica II: poetas contemporâneos - I volume. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, pp. 320-323, 353-356
  • AA. VV. (1997). Memorabilia José Blanc de Portugal, Onze obras Vespeira. Lisboa: Casa Fernando Pessoa
  • Borges, Vera (2001). "José Blanc de Portugal" in Biblos: enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa - IV volume. Lisboa: Verbo, pp 362, 363
  • Monteiro, Adolfo Casais (1977). A poesia portuguesa contemporânea. Lisboa: Sá da Costa Editora, pp. 293-296

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