Melhoral

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Propaganda em O Cruzeiro, 1943.

Melhoral é o nome fantasia de um remédio popular no Brasil. Tendo por princípio ativo o ácido acetilsalicílico (AAS), com efeitos propagados como analgésicos e antipiréticos, é uma droga inibidora da ciclo-oxigenase, uma enzima. No país, é considerado um medicamento de venda isenta de receituário.[1]

Presente no mercado desde meados do século XX no Brasil, a marca foi introduzida pela multinacional Sidney Ross Co., que também fabricava produtos de gosto popular como Leite de Magnésia Phillips, Talco de Ross e Glostora e investia em outros países da América Latina.[2] É atualmente produzido pela Cosmed Indústria de Cosméticos e Medicamentos S.A..[3]

Análises e composição[editar | editar código-fonte]

É uma marca que também possui a variação "infantil". Em um teste realizado em 2013, foi verificada o teor da substância ativa em comprimidos desta versão de 85 mg, sendo encontrada concentração de 81,04 mg (uma diferença de 4,96 mg que, segundo os analistas, estava dentro da margem de tolerância legalmente aceita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (entre 76,5 a 93,3 mg).[4]

A versão "Melhoral C" é considerada uma droga de uso permitido no esporte, ao contrário da maioria dos antigripais que usam em sua composição cafeína e/ou efedrina, que são proibidas.[5] Já a versão de uso adulto é composta de AAS e cafeína, sendo esta considerada um acelerador dos efeitos do ácido acetilsalicílico.[3]

Propaganda e marketing[editar | editar código-fonte]

Em 1943, os executivos da empresa Sidney Ross assinaram um contrato com a Rádio Tupi paulista. O produto dava nome a dois programas de sucesso da emissora: o Espetáculo Melhoral, um programa de auditório com prêmios e em que a grande "aquisição" era de Otávio Gabus Mendes, e o show dominical Dupla Melhoral, com os artistas caipiras Brinquinho e Brioso.[2]

Foi memorável o jingle da marca que cantava "Melhoral, Melhoral, é o melhor e não faz mal".[6] Hoje o "reclame" é considerado um clássico da história da propaganda brasileira.[7] Numa paródia feita por Alvarenga & Ranchinho a favor do político paulista Ademar de Barros, fizeram o seguinte verso: "Adhemar, Adhemar, é melhor não faz 'mar'"; o jingle original era de autoria de Waldemar Galvão, que foi locutor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.[8]

No ano de 1948, o laboratório que o produzia patrocinava a gravação de radionovelas e, numa tentativa de fazer com que este gênero tivesse público no estado de Minas Gerais, chegara a levar algumas delas para as emissoras locais, sem sucesso.[9]

Crítica moderna[editar | editar código-fonte]

Em análise realizada no ano 2000, dos medicamentos que anunciavam numa emissora televisiva brasileira, pesquisadores constataram que as propagandas desaconselhavam a procura de um médico diante dos sinais e sintomas manifestados pelos telespectadores, e aconselhavam o uso automedicativo de Melhoral C, versão efervescente do remédio, sem impor (na época) restrições ao mesmo. Tendo em sua composição o AAS e vitamina C, a propaganda mostrava algumas cenas cotidianas em que pessoas apresentavam sintomas da gripe — mas que poderiam ser de outro mal, induzindo a pessoa mesmo leiga a realizar o próprio diagnóstico — e alguém lhes indicava: "Taca Melhoral nela!".[10]

Impacto cultural[editar | editar código-fonte]

Propaganda com caricatura de teor sexista do remédio. Revista Careta, 1943.

O nome popular da planta medicinal da família Convolvulaceae, Evolvulus glomeratus, dentre outros, é o mesmo do remédio. O vegetal tem propriedades antitérmicas e contra dores no corpo.[11]

O músico e memorialista Sérgio Cabral, preso no final de 1970 junto a outros artistas que faziam parte de O Pasquim, como Ziraldo, registrou um episódio ocorrido três dias após sua libertação, já em 1971, em que estava bebendo num night club carioca junto ao escritor Carlinhos de Oliveira quando, já pela madrugada, o general Siseno Sarmento, que criara o organismo de repressão chamado DOI-CODI e responsável pelas prisões, entrara no bar. Reconhecendo-o como o seu "carcereiro", Cabral narra que o general sentou-se com eles: "Ele entrou. Foi até o fundo do bar. Voltou e sentou na nossa mesa sem saber quem nós éramos. Já tínhamos bebido razoavelmente e ele estava de pilequinho. Em dez minutos estávamos íntimos do general. E mais, sacaneando o general cantando: 'General, general, é melhor e não faz mal' " (parodiando assim o jingle de Melhoral).[12]

Referências

  1. Lígia Maria Abraão; José Martim Marques Simas; Tatiana Longo Borges Miguel (2009). «Incidência da automedicação e uso indiscriminado de medicamentos entre jovens universitários» (PDF). Unisalesiano. Consultado em 6 de junho de 2018. Cópia arquivada em 7 de junho de 2018 
  2. a b Jean Manzon (30 de outubro de 1943). «Programas da Tupí Paulista». O Cruzeiro (ano XV, nº 1): 14-15. Disponível no acervo digital da Biblioteca Nacional. 
  3. a b Cosmed Indústria de Cosméticos e Medicamentos S.A. «Melhoral Adulto (bula)». Anvisa. Consultado em 7 de junho de 2018. Cópia arquivada em 7 de junho de 2018 
  4. Antonio Jacy Barreto da Silva; Juliano Gomes Barreto (1 de julho de 2013). «Determinação de teor de princípio ativo em comprimidos de ácido acetilsalicílico». Unirio (Acta Biomedica Brasiliensia / Volume 4/ nº 1). Consultado em 6 de junho de 2018. Cópia arquivada em 6 de junho de 2018 
  5. Marta Goldman Feder; Jari Nóbrega Cardoso; Marlice A. Sípoli Marques; Eduardo Henrique De Rose (2000). «Informações sobre o uso de medicamentos no esporte» (PDF). Revista Brasileira de Medicina do Esporte, Vol. 6, Nº 4 – Jul/Ago. Consultado em 6 de junho de 2018. Cópia arquivada em 7 de junho de 2018 
  6. Braz Melo. «Jingles que fizeram história». Dourados Agora. Consultado em 6 de junho de 2018. Cópia arquivada em 6 de junho de 2018 
  7. Paula Renata Camargo de Jesus. «Cem Anos de Propaganda de Medicamentos no Brasil: Uma história de frases e efeitos!» (PDF). Intercom. Consultado em 7 de junho de 2018. Cópia arquivada em 7 de junho de 2018 
  8. Fabio Barbosa Dias (2017). Jingle é a alma do negócio: A história e as histórias das músicas de propaganda e de seus criadores. [S.l.]: Panda Books. 372 páginas. ISBN 9788578886103. Consultado em 7 de junho de 2018 
  9. «Panelinha». A Cena Muda (34 (1948)): 27. 24 de agosto de 1948. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (Brasil). 
  10. Bruno Cestari Neto, Caio César Ferreira Fernandes, Daniel Bicudo Veras, Edgar Santiago Valesin Filho, Flavio Geraldes Alves, Gislayne Darly Trevisan (2002). «Análise crítica de comerciais de medicamentos na televisão brasileira». Arquivos Médicos do ABC. vol. 26 (nº 3): 18-25. Consultado em 7 de junho de 2018. Cópia arquivada em 8 de junho de 2018 
  11. Rafael Marlon Alves de Assis; Osmar Alves Lameira; Keila Jamille Alves Costa; Raíssa Couteiro Moura; Vanessa dos Santos Fernandes; Heliana Ferreira Alves (23 de novembro de 2016). «Avaliação fenológica da espécie Evolvulus gromeratus NEES & C. MART (Convolvulaceae)». Embrapa. Consultado em 6 de junho de 2018. Cópia arquivada em 6 de junho de 2018 
  12. Luiz Antônio Ryff (16 de janeiro de 1997). «Antonio's encerra ciclo de 30 anos». Ilustrada (revista do jornal Folha de S.Paulo). Consultado em 5 de junho de 2018. Cópia arquivada em 5 de junho de 2018 
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