O Pasquim

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O Pasquim
Periodicidade semanal
Formato tabloide
Sede Rio de Janeiro
Fundação 1969
Fundador(es) Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Ziraldo
Término de publicação 1991

O Pasquim foi um semanário alternativo brasileiro, de característica paradoxal, editado entre 26 de junho de 1969 e 11 de novembro de 1991, reconhecido pelo diálogo entre o cenário da contracultura da década de 1960 e por seu papel de oposição ao regime militar.

De uma tiragem inicial de 20 mil exemplares, que a princípio parecia exagerada, o semanário (que sempre se definia como um hebdomadário) atingiu a marca de mais de 200 mil em seu auge, em meados dos anos 1970, se tornando um dos maiores fenômenos do mercado editorial brasileiro.

A princípio uma publicação comportamental (falava sobre sexo, drogas, feminismo e divórcio, entre outros) O Pasquim foi se tornando mais politizado à medida que aumentava a repressão da ditadura, principalmente após a promulgação do repressivo ato AI-5. O Pasquim passou então a ser porta-voz da indignação social brasileira.[1]

História[editar | editar código-fonte]

O projeto nasceu no fim de 1968, após uma reunião entre o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral; o trio buscava uma opção para substituir o tabloide humorístico A carapuça, editado pelo recém-falecido escritor Sérgio Porto.[2] O nome, que significa "jornal difamador, folheto injurioso", foi sugestão de Jaguar. "Terão de inventar outros nomes para nos xingar", disse ele, já prevendo as críticas de que seriam alvo.[3]

Com o tempo figuras de destaque na imprensa brasileira, como Ziraldo, Millôr, Manoel "Ciribelli" Braga, Miguel Paiva, Prósperi, Claudius e Fortuna, se juntaram ao time. A primeira edição finalmente saiu em 22 de junho de 1969, com uma tiragem de 28 mil exemplares, em seis meses chegou a 250 mil.[4]

Além de um grupo fixo de jornalistas, que incluía Luiz Carlos Maciel, a publicação contava com a colaboração de nomes como Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Carlos Leonam e Sérgio Augusto, e também dos colaboradores eventuais Ruy Castro e Fausto Wolff. Como símbolo do jornal foi criado o ratinho Sig (de Sigmund Freud), desenhado por Jaguar, baseado na anedota da época que dizia que "se Deus havia criado o sexo, Freud criou a sacanagem".

Em 1969, em função de uma entrevista[5] polêmica feita pelo cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral com a já notoriamente controversa atriz Leila Diniz, foi instaurada a censura prévia aos meios de comunicação no país, a Lei de Imprensa, que ficou popularmente conhecida pelo nome da atriz. Em novembro de 1970, a maior parte da redação de O Pasquim foi presa depois que o jornal publicou uma sátira do célebre quadro de Dom Pedro às margens do Ipiranga, (de autoria de Pedro Américo). Os militares esperavam que o semanário saísse de circulação e seus leitores perdessem o interesse, mas durante todo o período em que a equipe esteve encarcerada — até fevereiro de 1971 — O Pasquim foi mantido sob a editoria de Millôr Fernandes (que escapara à prisão), com colaborações de Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gláuber Rocha e diversos intelectuais cariocas.[6][7] Vendia cerca de 100 mil exemplares por semana, quase todos em bancas, mais do que as revistas Veja e Manchete somadas.[4]

As prisões continuariam nos anos seguintes, foi também alvo de dois atentados a bomba, uma em março de 1970, a outra em maio.[4] Na década de 1980 bancas que vendiam jornais alternativos como O Pasquim passaram a ser alvo de atentados a bomba. Aproximadamente metade dos pontos de venda decidiu não mais repassar a publicação, temendo ameaças. Era o início do fim para o Pasquim.

O jornal ainda sobreviveria à abertura política de 1985, mesmo com o surgimento de inúmeros jornais de oposição e de novos conceitos de humor (Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva, egressos de O Pasquim, fundaram O Planeta Diário[8]). Graças aos esforços de Jaguar, o único da equipe original a permanecer em O Pasquim, o semanário continuaria ativo até a década de 1990. No carnaval carioca de 1990 toda a equipe de O Pasquim foi homenageada pela escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz com o enredo "Os Heróis da Resistência".

A última edição, de número 1 072, foi publicada em 11 de novembro de 1991.

O Pasquim no século XXI[editar | editar código-fonte]

Revista Bundas[editar | editar código-fonte]

Um primeiro ensaio para a volta da publicação deu-se através de um periódico intitulado Bundas, lançado em 1999, que durou pouco tempo. O nome Bundas era uma paródia à revista Caras, e seu lema era "Quem mostra a bunda em Caras não mostra a cara em Bundas" e "Bundas, a revista que não tem vergonha de mostrar a cara".

OPasquim21[editar | editar código-fonte]

Em 2002 Ziraldo e seu irmão Zélio Alves Pinto lançaram uma nova edição de O Pasquim, renomeado OPasquim21.[9] Esta versão também teve vida curta, apesar de contar com alguns de seus antigos colaboradores, e deixou de ser publicada em meados de 2004. Passaram pela publicação nomes como Fausto Wolff, Miguel Arcanjo Prado, Emir Sader, Marcia Frazão.[10]

Resgate da memória[editar | editar código-fonte]

Livros[editar | editar código-fonte]

  • Millôr no Pasquim, 1977, Millôr Fernandes[11]
  • Nos bastidores d'O Pasquim, 1999, João Baptista de Medeiros Vargens[12]
  • O Pasquim: antologia, Vol. 1, 1969-1971 (números 1 ao 150); Vol. 2, 1972-1973 (números 150 ao 200)[13]; Vol. 3, 1973-1974[14]

Em abril de 2006 a editora Desiderata lançou O Pasquim - Antologia - 1969-1971, uma compilação feita por Jaguar e Sérgio Augusto de matérias e entrevistas das 150 primeiras edições do semanário.[15] O livro foi um sucesso, entrando para a lista de mais vendidos daquele ano[16] e motivando os lançamentos de segundo volume em 2007 e terceiro em 2009.

Documentários[editar | editar código-fonte]

  • Tá Rindo de quê?, 2019, direção: Cláudio Manoel, Alê Braga e Álvaro Campos[17]
  • O Pasquim: a subversão do humor, 2004, direção: Roberto Stefanelli[18][19]
  • O Pasquim, a revolução pelo cartum e Humor com Gosto de Pasquim, 1999, em duas partes, direção: Louis Chilson[20][21]
  • Henfil, 2018, direção: Angela Zoé[22]
  • A Vida Extraordinária de Tarso de Castro, 2018, direção: Leo Garcia e Zeca Brito[23][24]

Digitalização[editar | editar código-fonte]

Todas as 1 072 edições semanais foram digitalizadas pela Biblioteca Nacional (BN) e estarão disponíveis ao público em sua hemeroteca. A digitalização gerou 35 mil páginas. A BN tinha em seu acervo 602 edições, sendo o restante cedido por Ziraldo e pela Associação Brasileira de Imprensa. Será possível ler por edição e pesquisar por autor, acessando tudo o que ele publicou no jornal[25].

Referências

  1. Jornal "Esquinas de S.P.", edição número 19 (novembro de 1999)
  2. "O começo do Pasquim" - Caderno B, Jornal do Brasil, 26 de março de 2006[ligação inativa]
  3. O Pasquim Antologia Volume 1 - 1969-1971, pág. 7
  4. a b c Gaspari, Elio (2014). A Ditadura Escancarada 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca. p. 223. 526 páginas. ISBN 978-85-8057-408-1 
  5. reprodução da entrevista, O Martelo, arquivado em Wayback Machine, acessado em 30/8/2019
  6. Capa de O Pasquim após a prisão de quase toda a equipe do jornal[ligação inativa]
  7. Capa da primeira edição após a libertação da equipe[ligação inativa]
  8. "O humor seminal do Casseta e Planeta" - Jornal do Brasil, 15 de novembro de 2007[ligação inativa]
  9. ‘Pasquim’ volta sem Jaguar e sem o Sig - Observatório da Imprensa, arquivado em Wayback Machine
  10. O triste fim do Pasquim 21 Arquivado em 15 de setembro de 2007, no Wayback Machine. - Agência Carta Maior
  11. Millôr no Pasquim, WorldCat, acessado em 30/8/2019
  12. Nos bastidores d'O Pasquim, WorldCat, acessado em 30/8/2019
  13. O Pasquim : antologia, WorldCat, acessado em 30/8/2019
  14. ISBN 9788599070543 de O Pasquim: antologia, Vol. 3
  15. Livro reúne os melhores textos do Pasquim[ligação inativa] - Comunique-se
  16. "O Pasquim" entra no ranking dos livros mais vendidos, arquivado em Wayback Machine - Folha Online
  17. Tá Rindo de quê?- Humor e ditadura, Globo Filmes, acessado em 30/8/2019
  18. O Pasquim: a subversão do humor (Documentários), UNESP, acessado em 30/8/2019
  19. O Pasquim - A Subversão do Humor, UFSC, acessado em 30/8/2019
  20. O Pasquim, a revolução pelo cartum, Observatório da Imprensa, 17 de abril de 2012, acessado em 30/8/2019
  21. O Pasquim: a Revolução pelo Cartum, TV UOL, 28 de março de 2012, acessado em 30/8/2019
  22. 'Henfil', documentário sobre o cartunista e irmão de Betinho, ganha novo trailer; assista, G1, 23 de novembro de 2018, acessado em 30/8/2019
  23. Documentário ‘A Vida Extraordinária de Tarso de Castro’ é exibido no Cine Recreio em Rio Branco, G1, 24 de maio de 2018, acessado em 30/8/2019
  24. “A Vida Extraordinária de Tarso de Castro”, de Leo Garcia e Zeca Brito, É Tudo Verdade, 12 de julho de 2018, acessado em 30/8/2019
  25. 'Pasquim' poderá ser lido na internet a partir de agosto, O Globo, 26 de junho de 2019, acessado em 30/8/2019

Ligações externas[editar | editar código-fonte]